Translate (tradução)

domingo, novembro 01, 2026

VUNONGE: RIOS, PONTES, MEMÓRIA E RESISTÊNCIAS


Dois cursos de água marcam a paisagem de Vunonge: o Kwebe e o Lwawka, que serpenteiam e se cruzam antes da ponte-sul. O Kwebe, grafado por vezes como "Cuebe", traz a marca da colonização, quando os portugueses representaram graficamente sons da língua Ngangela com letras como “C”, que no idioma local tem um fonema diferente (tch/tx/tsh). Antes da chegada de Serpa Pinto já lá estava o rio e seu hidropónimo, assim como o soberano local, mwene Vunonge.

No seu trajecto urbano e periurbano, o Kwebe (que nasce em Boas Águas/Cikala co Lohanga) apresenta duas pontes que vamos aqui designar de Ponte-Norte, junto ao à sede do Governo e Palácio do governador, e Ponte-Sul que se acha paralela à travessia do caminho de ferro para a sua estação derradeira.

Abaixo da Ponte-Sul, paralela à ferroviária, estendem-se prados planos e húmidos. “Por milênios nunca conheceram o impacto de uma enxada ou arado”, relatam os mais velhos. Apesar da abundância de água, a agricultura é escassa. Um morador resume:

— “Aqui não somos muito dados à lavoura. Mas quando chega a safra, há quem colha nas lavras alheias.”


Um canal desviado do Kwebe irriga sobretudo os campos dos serviços prisionais, junto à antiga Colónia Prisional do Mis(s)ombo, e algumas lavras privadas. Conta-se que o empresário agrícola Alfeu Vinevala tentou investir, mas desistiu após sucessivos roubos:

— “Não vale a pena plantar onde não respeitam o esforço alheio”, desabafou um aldeão.

Junto à Ponte-Sul, mulheres lavam roupa e corpos desnudos na água corrente, ao lado de um carro de assalto tombado e que conta histórias de refregas para a tomada e ou controle da cidade de Vunonge. Ali se ergue outro campo conhecido como "a lavra dos presos". A Direcção dos Serviços Prisionais do Kuvangu ampliou o cultivo junto ao edifício administrativo, onde crescem batata-doce, couves, repolho, mandioca, cebola, maracujá, milho, morangos e árvores frutícolas como mangueiras, pereiras, abacateiros, romanzeiras e nespreiras. Há na estufa, entre outras, arvores decorativas que, infelizmente, a cidade não compra.


Da periferia à cidade, a Ponte-Norte, com as inscrições “CC”, é considerada “a menina dos olhos” de quem se dirige à sede do governo ou atravessa para a Estação final do Caminho de Ferro do Namibe. É também o acesso ao Aeroporto Comandante Kwenya, homenagem a um combatente da luta de libertação que participou activamente nas batalhas qur conduziram Angola à independência nacional. 

A cidade de Vunonge é marcada por paradoxos: rios abundantes e prados férteis convivem com campos virgens, enquanto a agricultura floresce apenas em espaços controlados como Mis(s)ombo. As pontes — sul e norte — simbolizam tanto a memória de resistência como a modernidade que liga a cidade ao futuro.

Sem comentários: