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terça-feira, agosto 29, 2023

QUE TURISMU'ÉSSE?

 Além da Fmca2023

Nascido entre cafezais, no Lubolu interior, com ratos que demandam gatos, interiorizei a máxima "olho no peixe sobre a grelha e olho no gato" que, quando vê peixe, se esquece do rato.


Assim, em actividade profissional intensa, no Luvangu, tomei a liberdade de conceder duas horas de turismo à equipa que comigo trabalhou "full time", das 8 da manhã às 8 da noite e de terça a domingo.

- É último dia da Fmca2023 e partiremos de volta hoje. Não fica bem estarmos uma semana no Luvangu sem alimentar os olhos e descontrair (por alguns instantes) a mente. _ Ofereci, ao que vivas soaram.

Antes, criei dois grupos, para que a exposição não ficasse desguarnecida, e fomos pelo asfalto, passando o riacho Mukufi, subindo a zona escarpada, até que a negrura do asfalto cedeu lugar à larga calçada que nos eleva ao miradouro do abismo de 1200 metros (profundidade), tendo como fundo a zona desértica da Bibala, no Namibe.

A Fenda da Tundavala, local turístico de elevado regalo e com uma "estrada de pedra" digna de gabo, vive sozinha, entre seixos. Sem rede telefónica; sem toilette; sem quiosques para venda de água, café e souvenirs; sem cobrança de portagem (que podia serra estratificada entre nativos locais, turistas nacionais e estrangeiros; sem definição de andarilhos (impedindo que os vários trilhos prejudiquem a rara vargem entre penhascos); sem recolha de dinheiro (marginalizando uma grande oportunidade de arrecadação se receitas para a edilidade); sem ideias conhecidas... Enfim, é só rebo que regala, mas, o homem é biológico e tem as necessidades sempre a persegui-lo.

É nos penhascos da Tundavala que termina o Planalto Central de Angola. Daqui se desfruta uma paisagem magnífica que se estende por dezenas de quilómetros.

Antes, outras quatro notas, já repousavam no meu bloco de notas.

1- Num aldeamento turístico que atende pelo pomposo nome Kimbu do soberano, levou-se hora e meia a receber comida "prato do dia" que demandava somente aquecimento. Toda a jornada de espera, foi sem água, sem serviço e só desconsideração. Estava cheio? Estava, mas nós também éramos clientes e precisávamos de alguma atenção, por mais ínfima que fosse. Tomada a refeição, já a contragosto, foram mais exactos 34 minutos de espera pela água e factura, levando-me a reclamar do "gerente" que se não me fosse apresentada a conta e o terminal de pagamento automático, ausentar-nos-íamos, pagando onde eles nos alcançassem.

2- À noite (quinta-feira), numa esplanada, no bairro Palanca, Humpata, voltei a pedir comida que já houvesse feita. 

- Sim, mano. Tem. É só uns minutos.

Veio o chá de limão para enfrentar a gripe e o frio desses dias. Até aqui, parecia que as coisas correriam à feição. Transcorridas duas horas, não veio a comida que "era só aquecer".

_ Desculpa, senhor. Houve um pequeno erro técnico. A comida não chegou. Vai ter de esperar mais trinta minutos. 

A esperar, seria entregue à meia-noite e meia. 

3- Dia seguinte, seis e meia da manhã à procura de chá quente num Posto de Abastecimento da Puma.

_ Bom dia, minha senhora! Quase desfaleço de fome. Tem algo quente que se coma?

_ Bom dia, senhores! Lamento não termos, de momento. Os produtos chegam as sete horas, mas posso fazer-vos um chá e sugerir biscoitos.

Essa diligente senhora devia gerir o Kimbu e a esplanada.

4- Noite, outra vez, em Nossa Senhora do Monte, decido, em companhia da minha "tropa", procurar algo para enganar as lombrigas na feira alimentícia. Uma hora, de baixo de ventos friorentos, para ter o pirão e a carne assada. Ninguém se dignou em perguntar ou sugerir, como normalmente acontece em instituições hoteleiras dignas "se enquanto esperam ouvem poemas", petiscam algo assado ou bebem kanyome ...

Apesar de a cidade ter recebido milhares de visitantes e estes exercerem alguma pressão (anormal) sobre os serviços, há uma pergunta que não se quer calar: que turismo é esse (que não valoriza o cliente)?!


Publicado no Jornal de Angola de 20.08.23

segunda-feira, agosto 21, 2023

ESTÓRIAS LUBOLENSES (I)

1- Causou-me um susto ao ouvi-lo pronunciar alegremente o seu nome: "Sou o jovem Kinema (deficiente) que lhe está a pedir, há três dias, o livro sobre as Kitotas no Lubolu. O kota prometeu que veria no seu carro". Fiquei embasbacado e não resisti. Na ausência de outro, dei-lhe o meu exemplar de anotações para melhorias na próxima edição.

O Kinema é um jovem empenhado e que busca o conhecimento histórico-científico.
2- Nos anos 80, século XX, até que os autocarros da ETIM e ETP deixaram de ir a Kalulu, era aqui, bifurcação entre a rua principal e a Deolinda Rodrigues, que se esperavam e apanhavam os autocarros públicos. Atrás do edifício ficava o mercado onde comprávamos a comida e o fardo que os camaradas da "Swapo" vendiam e ou permutavam.
3- Aldeia de Pedra Escrita (comuna da Munenga). A construção da Biblioteca está momentaneamente parada, mas já avançou o suficiente que já pode ser equipada. Tem chão bruto e tecto. Falta reboque das paredes interiores e exteriores e pintura.
Alguém ajuda?
4- Um alemão participante das Jornadas Internacionais Técnico-Cientificas, em Kalulu. Ele diz ter gostado da "nossa Eka" que deixou de ser "do Dondo".

Confira fotos em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid02vmanaPUm16gg2ve4zQzwqJzTfKy93xqgCfEoK28VHE6MmieFbR1RHkA2X4daokv7l&id=100001342406431&mibextid=Nif5oz

terça-feira, agosto 15, 2023

NOVA MODA NORUEGUESA

Ponto prévio: 

Por esses dias e, eventualmente, vindouros, não condenem a criança ou o adulto que vá parar, em visita, ao Reino da Noruega e errar se for chamado a apontar a bandeira do Reino. A nova moda (deles) faz flutuar por quase todos os edifícios principais, em todas as cidades uma bandeira multicolor que não é a daquele reino (rei). 

Iam a passos lentos e a conversa girava em torno dos jifunji. Isso mesmo, no meu kimbundu lubolense, a palavra funji é singular, fazendo plural com a anteposição do prefixo "ji". Assim, jifunji é plural. 

A saudade da pasta feita com fuba (farinha no dizer deles) de bombó ou de milho, que no centro e sul ganha o pomposo substativo de pirão, fazia dos angolanos descobridores de semelhanças antre a oferta e o desejado. Ficava-se pelo pink fish (o salmão), caro noutras paragens e baratucho no norte gélido. E a conversa sobre funji e jifunji ganhou vários conceitos e interpretações. _ Já viste? Aqui se um gajo tiver dois jifunji é pecado, mas se em vez de casares mulher para te fazer funji te juntares a homem igual dar-te-ão é homem elevado e moderno. Isso é caminho? _ Interrogou Xavitu, algo irritado.

O sol vergonhoso procurava abrir-se ao deleite de homens e mulheres de todas as idades que dele procuravam como os angolanos ao funji. É, afinal verão, embora os visitantes africanos andassem agasalhados como se estivessem a viver o cacimbo da zona tropical.

_ Como esse andar, que despreza a maternidade, qualquer dia a humanidade deixa de crescer e os lobos tomam conta das cidades, levando-nos ã extinção. _ Atirou Lumingu, ganhando a aprovação silenciosa dos demais. Pelo menos ninguém o contrariou até que Phande emendou.

_ Não, mano Lumingu. Antes de os lobos virem substituí-los, vão reclamar subpovoamento e abrirão as fronteiras aos africanos que ainda não desistiram da procriação. Significa que o país, com suas instituições e normas, será passado a gente que o vai tomar durante décadas e séculos silenciosos, o que será bom para a criolização da raça humana.

terça-feira, agosto 08, 2023

KALULU-01:01


E, estando eu no posto de abastecimento de combustíveis da Rua da Missão, em Kalulu, eis que apareceram diante de mim dois petizes. Depois de aturada observação e busca de arrojo, o menino que se achava mais expansivo ganhou coragem e abordou-me: 

_ Boa tarde, tio! Não quer ser meu padrinho? 

Vendo o bando de rapazes andrajosos e pedintes, alguns sem necessidade para o efeito, respondi à medida de correcção. 

 _ Boa tarde, sobrinho! Já tenho muitos afilhados. Mas, que idade tens e por que estás aqui? 
O petiz, tentando esquivar as perguntas, pôs-se ao mato, surgindo, depois, o seu irmão José Domingos que se ofereceu para trabalhar, como se de adulto se tratasse. 
_ Tio, posso ser teu cobrador. Já tenho 12 anos e faço 13. 
_ Tu não tens idade para trabalhar, nem eu vivo aqui. Por que não estudas em vez de pedinchar e procurar trabalho? _ Contrariei-o, ao que respondeu "estudo a sexta classe". 
_ Está bem. Vou oferecer-te um livro. _Disse-lhe. 
Após isso, o Paulo Domingos, que se escondera, reapareceu e explicou que tinha onze anos e estudava a quinta classe. 
_ Vocês são irmãos?
_ Sim, somos.
_ Um disse ter doze e tu dizes ter onze anos. São mesmo irmãos ou primos? _ Insisti.
_ Somos irmãos de pai. Ele tem duas mães. Eu moro ali (apontava para o bairro Kapopa) e vim aqui (Musafu) passar as férias com eles. _ Explicou o José.
Autografei dois "Kitotas: recuos e avanços". O José sabia ler, mas o Paulo ainda juntava letras e sílabas, o que me levou a concluir que os tempos mudaram para baixo.
Eu, na Escola Kwame Nkrumah, na quinta classe, em Kalulu, já escrevia poesia!

Kalulu, 24.07.2023

terça-feira, agosto 01, 2023

KALULU AOS MEUS HODIERNOS OLHOS

Apesar de os olhos infantis atribuírem grandeza distinta da visão adulta, o Kambuku, rio da minha e meninice de muitos kalulenses, encolheu. 
Mostra-se, nesse Julho minguante, quase um fiozito, rasgando o vale que, nos anos oitenta do séc finado, enfeitava-se de hortas feitas por todos nós, empobrecidos ou endinheirados pelo dinheiro negado aos primeiros. 
Fazer/ter horta, era sinal de pertença e honra à nossa matriz cultural (nossos hábitos campestres). Aí sim, alguns desviavam ligeiramente o curso da água para regar, repondo-a, depois, no leito habitual e natural.
O aumento da população em Kalulu (da Mbanze, Kasekel, Bairro Wambu ao Musafu), uns reproduzindo-se mais do que a produção alimentar e outros trazidos pela fúria das guerras e descontinuidade das roças e fazendas, colocou o Kambuku entre casas e casebres, trazendo a pertinência do debate sobre a necessidade da construção de um novo leito rochoso (feito de  cimento e pedras que por cá abundam) para evitar o assoreamento e a desaparição do rio (a exemplo do Mwangeji, em Saurimo).
Num contexto de edificações padronizadas, sucedâneas a um plano de evolução  urbanística, Kalulu seria hoje uma cidade digna dessa designação. Tamanha foi a sua elasticidade, chegando, na rota que nos leva à Munenga, até às proximidades do açude, construído sobre o Rio Tamba (que se junta ao Kambuku junto ao Bairro Musafu). 
Nos anos oitenta e início da década de noventa, contavam-se as famílias, com líderes já idosos, que viviam na margem sul do Kambuku, (Estrada da Munenga): o mais velho José Branco e sua prole, a família Kandumba (sapateiro), o velho Tandela e sua família, o mais velho Kalungane (dono do palmar que se vé na baixa) e que tinha 4 esposas e vários filhos, a família Galanga, a tia Gina (mãe do Digão) e seus filhos, o mais velho kiteke (que depois se tornou padrasto do Digão) e sua família. O fundador do bairro foi o senhor Buto, detontor de  uma família composta por 3 esposas e vários filhos. Vivia ainda, antes na ponte sobre o Kambuku (sentido Munenga-Kalulu), a velha Helena, mãe do senhor Francisco Geraldo.
Depois da casa do idoso sapateiro, ficava o Posto de Controlo e, mais além, a Estação de Tratamento de Água. Não era dada permissão para construir atrás do controlo.
Pela via da Kabuta, Kalulu esticou-se até às proximidades da Fazenda Barata, onde se ergueu o novo aeródromo que nas nossas vozes é "aroporto".
A zona conhecida como Mangueirinhas, ontem Quartel das tropas LCB, que se achava escondido atrás de rochedos, é hoje um novo conglomerado habitacional que alberga o Posto de Correspondência da RNA. Já apelei "ene" vezes que com um pouco mais de esforço se pode fazer daquelas instalações a Rádio Comunitária de Kalulu, ao que mantenho a minha doação como formador de sementes locais que se acham em boas doses no ISPTLO. Todos os bons kalulenses unidos podem sustentar a Rádio.
A propósito, Kenhê que montou uma sobre outra a composição de penedos que servem de enlevo encantador aos visitantes de Kalulu? Kenhê que duvida que a reposição da estrada que liga a Ponte Filomeno-Kabuta-Kalulu dará vigor à vila e ao município, dando-lhe a áurea do tempo em que Kyamafulu e EN120 inexistiam?
Apesar de conhecer todas as comunas do Lubolu (e as rodovias e picadas que partem da vila à Munenga, ao Kisongo e à Kabuta), de Kalulu e suas gentes conheço apenas um caminho: o que me leva a pensar insistentemente nas próximas gerações!

Texto publicado no Jornal de Angola de 06.08.2023

domingo, julho 30, 2023

KINSHASA YA MOKE

Não difere, se de manhã, à tarde ou de noite. Quem se azare em circular pela Rua Luther Rescova (Luanda Sul-Kamama), arrisca-se a perder mais de uma hora para transpor perto de cento e cinquenta metros da zona adjacente à Rotunda do Kalemba II.

"Aquilo está a ser kinshasizado", dizem as "vítimas" e conhecedoras da realidade vivida na capital do país vizinho, a norte. 

Os vendedoiros ocupam o asfalto, reservado a viaturas; os veículos (táxis e moto-táxis) param em paralelo, impedindo a progressão dos que lhes seguem à recta-guarda; as manobras de inversão de marcha, proibidas pelo código de estrada, são feitas à frente de polícias reguladores de trânsito. 

Estive em Kinshasa e pude constatar que o terrível "engarrafamento" automóvel, do aeroporto de N'jili à cidade, deve-se a essa desordem que foi trazida, infelizmente, à Rotunda do Kalemba II.

Alguém do GPL (ou outras instituições vocacionadas) pode prestar alguma atenção àquele lugar?

É um veemente apelo, antes que o "cancro Kalemba II" nos engula.

terça-feira, julho 25, 2023

DE N'DJILI A KEMESHA E A KINSHASIZAÇÃO DO KALEMBA II

Em Junho de 2023 conheci, finalmente, Dakar, a capital do Senegal, cidade que se renova, do aeroporto Blaise Diagne à marginal que oferece ventos e tranquilidade à principal universidade Cheikh Anta Diop. Depois de aplaudir os encantos como a limpeza e higiene, o baixo número de gatunos e bandidos que, em Luanda deviam fazer companhia a Judas, e outros avanços civilizacionais que, em alguns casos, põe Luanda debaixo do chinelo, um dos piores retratos são os congestionamentos que levam a fazer os perto de 50 quilómetros que separam a cidade ao aeroporto Blaise Diagne em não menos de hora e meia, quando se tem sorte (dias nefastos têm outras estórias contadas por pessoas que perderam o voo por se terem atrasado 30 segundos).

 Chegado a Luanda, fiz o trajecto  Kinaxixe-Ponte do Quilómetro 25 (Avenida Deolinda Rodrigues) -Zango IV-Kalemba II-Vila de Viana. Uff!

Notei que a "síndrome" do congestionamento dakarense, no trajecto cidade-aeroporto, pode "contaminar" o nosso novel Aeroporto Agostinho Neto, cuja abertura ao público diz-se que "está mais para acontecer do que prometer". 

O tráfego automóvel de Dakar é afectado pelas paragens desordenadas de taxistas em alguns pontos, estreitando a via, e pelos pontos de pagamento/aferição de portagens que obrigam os condutores a abrandarem ou mesmo imobilizarem as viaturas. Também notei que a via-expressa tem, para além dos pontos de aferição de portagens, muros nos dois lados que impedem as entradas e saídas, antes dos pontos definidos. Por outro lado, a inexistência de transportes públicos, em quantidade e qualidade, na capital senegalesa é motivadora do aumento de táxis colectivos (amarelinhos) que, aliada à deficiente autoridade para os fazer parar em locais que não afectem o normal escoamento das demais viaturas, faz das vias de Dakar autênticos "provadores de paciência".

Quanto à nossa Luanda, a insuficiência de transportes públicos (catamarãs, autocarros e derivações de linhas férreas) aliada à falta de autoridade dos órgãos fiscalizadores e de punição aos taxistas desordeiros, vendedeiras que ocupam faixas de rodagem para expor isso e aquilo, fará, caso não se olhe para estes preocupantes detalhes, do nosso novo aeroporto, um dos menos desejados. 

A adicionar à experiência de Dakar e a sua possível analogia ao que se pode alastrar a Luanda, visitei Kinhasa. Em poucas horas de estada, pude apreciar com enlevo a beleza dos campos adjacentes ao aeroporto de N'djili, assim como o elevado número de universidades e o apego dos congoleses ao conhecimento. Porém, a pobreza estampada nos rostos de gente que se vê sacrificada, a corrupção descarada e o trânsito caótico de N'djili à cidade, pior do que o tráfego rodoviário de Dakar, foi, para mim, uma das nódoas que se aduzirá às minhas   perpétuas más recordações. Só para se ter uma ideia, de N'djili à Kemesha (cidade) demora-se, quando acompanhados por uma patrulha militarizada, uma hora. O engarrafamento é tão apertado que os taxistas andam aos empurrões, uns colados aos outros. Do que pude observar, a falta de paragens, a inexistência de fiscalização e punição dos prevaricadores (taxistas e vendedeiras) assomam-se como causas imediatas. Tal como em Dakar, também se pode concluir que é a falta de transportes públicos (em quantidade e qualidade) que faz proliferar os amarelinhos, e toda a sua subsequente desordem e congestionamento do trânsito.

Regressado de Kinshasa, onde: a corrida de táxi custa 1000 Francos, equivalentes a 1 dólar americano; os motoqueiros cobram em função da distância e levam, normalmente, 3 passageiros; 

o Marché Mariano é o bairro que mais alberga angolanos considerados aqui como "riches"; o bairro N'djili (subúrbios de Kinshasa) é o que mais "exporta" congoleses para Angola;

os chouffers e outros intermediários dizem apreciar acolher delegações "angolaises", porque sabem "gorjetar"; os "sapeurs" se fazem às ruas à quinta-feira, exibindo vidas largas, mesmo com finanças ordinárias parcas; meti-me a reflectir e à busca de eventuais analogias desorganizacionais e comportamentais com a nossa Luanda ou partes dela. Veio-me à memória a Rotunda do Kalemba II. Daquele ponto, quer queira trafegar para Viana, Estádio 11 de Novembro ou Kamama, o automobilista arrisca-se a perder perto de uma hora para desfazer-se de uma tremenda confusão de vendedeiras que ocupam o espaço de viaturas, kandongueiros que param em paralelo, impedindo a passagem para os que lhes seguem atrás e, como se não bastasse, centenas de kaleluyas que desobedecem às mais primárias regras de condução em vias públicas.

Olhando para a composição e origem de grande parte dos moradores de Kalemba II, visto e anotado tudo o que se assiste na Rotunda supra descrita, uma pergunta me persegue: não será Kelemba II o início da kinhasização de Luanda?

Publicado no Jornal de Angola de 13.08.2023

terça-feira, julho 18, 2023

PERDIDOS & PROCURADOS

Oslo, Noruega, 23 de Junho - Sobre o reino escandinavo do Norte, mantinha guardadas parcas ideias sobre os prémios Nobel; sobre Alfred, o mentor das distinções; a exploração contínua e desenvolvida de óleo e gás e sobre a transparência que os noruegueses muito prezam e pregam ao mundo. Ao contrário de Agnalam que já lá esteve por uma vez, Rats vivenciava a sua primeira experiência e, por isso, tudo era novo: os mergulhos alegres num mar com a temperatura a rondar os 9 graus centígrados, as noites sem escuridão, as reentrâncias alternadas entre a água abundante e a terra, etecetera, ponto continuação.
Era já tarde avançada, os serviços públicos tinham encerrado as portas e os privados, sobretudo as superfícies comerciais, preparavam-se para fazê-lo também, quando dois cavalheiros decidiram partir para "um novo normal".
_ Epá, sabes que aqui não usam dinheiro europeu, nê? _ Atirou Agnalam ao amigo que levava os olhos à procurava de um primo de katula mbinza.
_ Ai é?! E se quisermos molhar a garganta, como faremos?
_ Pois é. Acho que temos de caminhar um pouco, até à "Sentralstation". Já estive lá uma vez e sei que tem casas de câmbio. É a única maneira para termos Nok.
Entre comentários sobre isso e aquilo e conversa de entreter e desafiar a distância, lá se meterem a passos, procurando registar na memória as curvas, as cores e as inscrições dos e nos edifícios, contornando, quando possível, a garoa preguiçosa que apontava à protecção encefálica.
Quase teriam logrado, se não se atrasassem os cinco minutos que o relógio marcava acima da hora sete.
- Please! We need change some money. _ Ainda insistiram, quase a suplicar, mas o rigor daquela gente, deixa estar...
Sem Koroas e, por isso, também sem chapéus-de chuva, os dois coroas puseram-se de novo à rua.
- Mano, é em direcção ao mar. Não nos pudemos distanciar da orla. _ Aconselhou Agnalam.
Caminharam. Quadruplicaram os três mil passos da ida e não viam o ponto de chegada. As curvas, os letreiros e até os edifícios que enxergavam eram distintos. Entreolharam-se. _ Agnalam, parece que tomámos a rota incerta. Não vejo o ponto de referência, a sede do Comité Nobel, e já andámos bastante. _ Constatou Rats, consultando a hora e os passos registados pelo relógio.
_ É verdade. Voltemos ao "Sentralstation" para nos reorientarmos. Sugeriu Agnalam.
_ Não. Se o fizermos, vamos andar muito. Precisamos de saber primeiro onde estamos e a que distância fica o nosso destino. É melhor procurarmos por quem nos indique o caminho.
Rats lembrou-se das fotos que fizera ao passar pelo largo Alfred Nobel e dirigiu-se a um agente de segurança e mostrou-lhas.
_ Please, Sir! Can you show me the way to this place?
Diligente, homem alheio, não perguntou quem eram, nem de onde vinham. Escreveu o nome do local no seu celular e falou num inglês de pôr inveja.
_ You are here (mostou o pontinho azul no telefone). You must go straigth agead until the fish market. Then, go right and straigth again.
Agnalam e Rats, puseram mudança de velocidade e força nos pés e, olhos no fish market, marcharam sobre a marginal serpenteante até ao largo Alfred.
Ofegante e quase sem forças, Agnalam, mãos na Ilharga, pediu ao companheiro que actualizasse os passos marcados.
_ Uff! Vinte e dois mil passos. O mano já imaginou se alguém da equipa deu conta da nossa ausência prolongada? É que aqui não se bate lata!
Publicado no JA de 23.07.23

terça-feira, julho 11, 2023

O COMENTÁRIO DELE E O MEU

Viajávamos de camioneta, como chamam, aqui, os machimbombos.

Aliás, nisso de machimbombos já tive uma experiência aziada no Porto, quando me dirigi à vendedora de passagens, perguntando-a "a que hora partiria o machimbombo para Lisboa".
_ Machimbombo? O que é isso?! _Questionou-me a senhora, altura média, magrela, pele acinzentada e cara de poucas amigas.
Fui ao dicionário consultar sinónimos e mostrei-lhe:
_Olhe aqui, minha senhora. Eu sou africano e a língua é vossa.
Mas, voltemos ao comentário dele, um idoso que parecia levar a vida na brincadeira ou deixar que "a vida o leve", e depois será a vez do meu comentário.
O sistema áudio e automatizado do autocarro anunciava a paragem em que o automóvel se encontrava, assim como a próxima. É nisso que surge o idoso, que se sentava atrás de mim e com um sentido de humor assinalável.
"Próxima paragem, Bairro Novo", fez-se ouvir.
- Bairro Novo? Já é velho. _ Divertiu-se o idoso, levando-me a olhar atrás para verificar se ele comentava com alguém de sua laia. Ia apenas ele e a sua vida recheada de alegria.
Não tardou, o equipamento voltou a anunciar: "Próxima paragem, Sete Rios".
- Pois, é. Sete rios que são secos! _ O ancião continuava como que a corrigir o equipamento áudio ou a traduzir para os que se achavam neófitos na urbe lisboeta, levando-me a beliscar-me.
E quando se anunciou a próxima, que era "Bairro Azul/Gulbenkian", o octogenário voltou a emendar:
_ Bairro azul-esverdeado pelas árvores e relva.
Já não vi em que paragem desceu, pois, duas ou três paragens antes do meu destino, deixei de ouvir os seus doces comentários.
Ao descer da camioneta, deparei-me com quatro senhoras, sentadas sobre banquinhos, à entrada da estação de comboios. Eram negras e falavam uma língua que me é estranha. Não é bantu, nem europeia. Mas, isso de línguas há "mil".
Se elas são africanas, também não sei. Não me esforcei, sequer, em buscar esse entendimento, embora tivesse gastado algum tempo a apreciar como elas se vestiam e interagiam. Sei apenas que nem todos os brancos são europeus, de mesma sorte que nem todas as negras são africanas. Chamaram-me, entretanto, à atenção os factos adiante:
1- Não se comunicando coloquialmente em português, significa serem estrangeiras.
2- Saírem de suas terras longínquas para ir fazer "praça de rua" numa estação de comboios em Damaia, Portugal, e vender quiabos, água fresca e outras "miniaturas" que abundam nas lojas, pareceu-me desajustado.
É isso que faz os anfitriões a colocarem "todos os gatos no mesmo saco".
A imigração (entrada) deve ser de qualidade, onde quer que seja!

sexta-feira, junho 30, 2023

DAKAR AOS MEUS OLHOS


À minha saída de Luanda, os jornais faziam ler algo sobre a «instabilidade social» em Dakar, com manifestantes que tentavam impedir um terceiro mandato de Macky Sall, o presidente do Senegal desde 2012.
Como tudo, enquanto uns protestam, outros aplaudem a cavalgada, exibindo-se resultados como a construção de vias e outras obras que o governo de Macky vai fazendo e também mostrando. Observei que, nas vésperas e durante a Conferência Global da EITI, as ruas de Dakar conheciam um policiamento reforçado, ante a presença de figuras políticas, académicas e representantes da sociedade civil a nível mundial (quase que seria tentado a escrever dos "4 cantos do mundo”).
Os diplomatas residentes em Dakar, apesar de pregarem que "havia segurança", também alertavam os seus compatriotas a não se exporem. Alguns visitantes como eu também restringiram os seus movimentos ao trajecto Hotel-Centro de Conferências-Hotel. Mas, ao terceiro dia ganhei um novo parente, Khalifa Mbengue, que o meu padrinho Tazuary Nkeita me apresentou a uma distância reduzida pelo Whatsapp, desde Luanda.
- Recebe-o. É um irmão, como me tens a mim. - Recomendou ele em francês.
E o mwadyakime Khalifa lá me levou no seu velhinho Prado, (Luanda da Sorte) numa viagem pela orla marítima de Dakar que durou por hora e meia, até chegarmos aos seus aposentos num bairro com pouco menos de cinco anos.
Ao longo do percurso, esses olhos que vêm, ouvidos que ouvem e cérebro que traduz foram mimoseados com informações como a geração de energia eléctrica que é, “maioritariamente, por fontes térmicas, havendo pelo país pequenas centrais fotovoltaicas, uma a carbono e uma pequena hidro-eléctrica, no Norte”. Soube que, ao contrário de Luanda, onde se reclama o último ajuste para metade do dólar americano, no Senegal, “um litro de gasolina custa €1.5”. Isso mesmo, o equivalente a um euro e meio, ou seja, FCFA 990. O leitor pode fazer as suas contas, seja ao câmbio formal ou informal.
Pela orla de Dakar e em outras vias que nos conduzem ao Centro Internacional de Conferências de Dakar e ao Aeroporto Internacional Blaise Diagne vêem-se novas e limpas estradas com muitos nós rodoviários. O trânsito, porém, é muito congestionado ao longo de quase o dia todo, independentemente das horas de ponta.
Em Dakar, empresas públicas de transporte rodoviário são inexistentes, contrariamente ao que se vê em Luanda. «Quem tem dinheiro compra carro. Quem não pode, anda de taxis-colectivos que circulam apinhados, decorados e envelhecidos», pontualizou o meu cicerone.
A via expressa, da cidade ao aeroporto, apresenta-se jovial, com nós que lhe conferem afluentes e egressos. Está murada pelos dois lados, impedindo intrusões de pedestres, automóveis e veículos de tracção animal que, por esta cidade, é normal ver circularem (ainda) até na cidade.
Das ruas que percorri, poucas cheiram a mijo, mas há umas porcas (poucas) que reclamam por melhor conservação. As praias são limpas e registam intensa afluência de jovens que praticam desportos, sonhando com a fama de um nome célebre na Europa. Exibem equipamentos para jogos e actividades físico-recreativas. Pelo menos, os jovens sem trabalho não se doam ao ócio ou à gatunice de Luanda que, por cá (Dakar) a lei islâmica (religião muito praticada) manda retribuir com a amputação da mão que xaxata mulher alheia ou rouba.
Falando dos jovens, o meu amigo Khalifa perdeu-se na enorme lista de universidades e escolas técnicas superiores. “There are lots of them”, disse-me ele no nosso diálogo em inglês (Há bastantes). Porém, muitos jovens com formação universitária e técnica sólida não têm trabalho. Muitos glosam línguas estrangeiras. Uma das suas filhas é, inclusive, professora de Inglês. "É isso, a falta de trabalho, que faz do senegalês um povo emigrante", confessou desgostoso.
Posto em casa de Khalifa Mbengue, um duplex ou triplex, construído com suas poupanças e habitado por ele, pela filha professora, a filha que trabalha no aeroporto e o filho versado em contabilidade (em cada piso uma família), confesso, fiquei um pouco acanhado para não quebrar nenhuma norma protocolar.  
Quando chegámos, encontramos a mulher a rezar. Depois da reza, ela serviu gelo e água. Parece que os homens têm de ser servidos. Foram aparecendo o filho, as filhas, a nora e netos. Um deles é também Khalifa, 4 anos e muito falador, mas glosa mais Holof do que Francês.
Depois, fui convidado à mesa de jantar. Colocaram-me no assento que, em Angola seria o do chefe de família: o topo da mesa. Novamente, foi a esposa do Khalifa a servir, para mim e para o esposo, uma saborosíssima "galinha fyote" e arroz.  
Buscando que eu comesse à vontade, a esposa de Khalifa colocou ao meu dispor uma bacia com água e sabão, para lavar as mãos. Usei, todavia, talheres para o arroz e as mãos para deliciar a galinha. No fim, já repleto e com ossadas por toda a berma do prato, a simpática esposa do meu anfitrião pegou no grosso da galinha, a caixa toda (apenas tínhamos comido asas e chochinhas), e meteu-a no meu prato.
- Eat. We made it for you (coma, à vontade. Preparamos mesmo para si)!
Aquela voz melodiosa foi ordem aos meus ouvidos e preceitos. Caí com ela (a galinha).
Mas, enquanto eu procurava ser elegante para com a simpática senhora, eis que o Khalifa pede licença:
- Sorry, I'm going to pray (vou rezar).
Fez uns minutos. Eu naquela enorme mesa e sala, tendo à frente, de forma obliqua, a senhora de poucas palavras e falando mais Francês e Holof do que Inglês. Eu arrojo-me melhor no Inglês. Estava sempre a ser o segundo nas acções. Respondia e depois perguntava. Passado pouco tempo, o Khalifa voltou a juntar-se à mesa e partimos para os chás. Primeiro um especial.  
- It tastes good (tem bom sabor)! - Admirei.
Acto contínuo, o Khalifa pediu à esposa que me oferecesse uma caixinha de 200 gramas. Agradeci, desta vez em francês.
- Merci beaucoup, ma soeur (obrigado, minha irmã)! - Aliás, sempre que me apresentasse alguém eu dizia sempre, misturando Inglês e Francês, procurando que me entendessem:
- My name is Luciano, from Angola. My usual language is Portuguese. I'm trying to improve English and French. Je ne parle pas français mais je comprendre un peu (meu nome é Luciano, sou de Angola. A minha língua de trabalho é o português. Estou a tentar melhorar o inglês e o francês. Não falo, mas compreendo um pouco de Francês).
- Tu parles bien (tu falas bem). -  Diziam, para me encorajar a falar mais.
Voltando aos chás, recebi a oferta e foi servido outro chá, desta vez inglês, que também caiu bem.
Servi, como sempre pouco açúcar, mas a anfitriã estava atenta e pediu que colocasse mais. Não tive muitos argumentos para dizer que "muito açúcar faz mal à saúde" e fiquei-me pelo "That's enough, thanks!" (Já chega, obrigado).
A estada naquela casa familiar corria-me à feição. Porém, o tempo correia igualmente apressado. Atrevi-me a olhar para o relógio que marcava 21h30. Pensei que ele devia levar-me no hotel ou, no mínimo, chamar um táxi, pois teria de ir trabalhar no dia seguinte. Hesitei. Conversámos um pouco mais. Contei-lhe que em 1998, em Bamako, capital do Mali, fiquei uma semana a comer «poulet grillé avec pomme frillé» (churrasco), por não conhecer o nome dos pratos locais. O acolhedor Khalifa trocou algumas palavras em Holof com a esposa que lhe deu um caderno e uma esferográfica. Fez uma lista de pratos senegaleses e deu-ma.
- Ma sœur, je suis très heureux. Merci beaucoup pour tout l´accueil et la gentillesse dans votre maison. Thank you very much! (minha irmã, estou muito satisfeito. Muito obrigado por toda a recepção e amabilidade em vossa casa. Muito obrigado)!  
Com essas palavras, repetidas à saída de casa e do carro (já no hotel), despedi-me daquele maravilhoso casal e dois netos que não largavam o «grandfather» e a «grandmother».
Se alguém me perguntar, aqui em Dakar, a que família pertenço, não titubearei e dir-lhe-ei com firmeza: I belong to Khalifa's family (pertenço à família Khalifa), a bela e acolhedora que o meu padrinho Tazuary Nkeita, (angolano de gema) "me deu". É pena que não tenhamos feito fotos.
Escrito a 15 de Junho de 2023. Publicado pelo Jornal de Angola, edição de 18.06.2023

segunda-feira, junho 26, 2023

MAÏTRE BEYE & EU

Maïtre Beye foi o enviado do SG da ONU em Angola, para buscar a paz que Savimbi tinha renunciado ao retomar a guerra, depois das eleições de 1992.

Alioune Blondin Beye morreu a 26 de Junho de 1998, quando o avião em que seguia caiu, depois de levantar voo em Abidjan.

O dia 26.06.98 foi, porém, de sorte para mim.

Desde Dezembro de 1996, quando iniciámos o Programa "Dikas da Cidade", a que se seguiu o estágio na redacção da LAC, que eu fora "liminarmente" proibido de falar ao microfone.

_ Tens dotes em contar, por via da escrita, o que vês e ouves, mas não tens voz para rádio. _ Dissera o Director de Produção.

À data, 26.06.1998, eu era já editor de sábado. Nesse dia, apercebendo-se que o avião de Maïtre Beye estaria, eventualmente, desaparecido do radar, o editor-chefe da LAC, Rodrigues J. Filipe Filipe, foi à residência do negociador da paz em busca de informações. Tínhamos assunto cacha para abrir o noticiário das 12h30, entretanto, o locutor escalado, Horácio Pedro, estava atrasado e o Chefe-Zé insistiu comigo para abrir o noticiário, mesmo dizendo-lhe que eu estava proibido de falar.

_ Canhanga, és mudo?

- Não, chefe! Mas sabe que fui proibindo...

- Abre o noticiário e eu assumo. _Ordenou.

Abri o noticiário, passando-o, a meio, ao mestre Horácio que o fechou.

Chegou a segunda-feira. Eu temeroso que seria dispensado por "desonrar a regra imposta" fui chamado pela DG Maria Luísa Fançony que, olhando para meu par de rios lacrimais, perguntou séria:

- Luciano, tu tens treinado?

- Sim, DG.

- Com quem treinas?

- Com meus primos que trabalham na RNA.

- Continua a treinar. Até que não estiveste mal. A partir da próxima semana vais treinar comigo...

Depois do "intensivo", fui aproximado com mais frequência ao microfone, ganhando incentivos do Horacio Cambole e sendo, posteriormente, bem aproveitado pelo Ismael Mateus e Paula Simons, depois de terem regressado de Portugal. Em Agosto do mesmo ano fui frequentar um curso de Jornalismo Investigativo em Bamako, capital do Mali, terra de Alioune Blondin Beye, país que ainda o chorava.

Maïtre Beye, não sei se te choro ou agradeço.

quinta-feira, junho 22, 2023

KENHÊ QUEM NO HOSPITAL?

Lembro-me de ter lido um texto pedagógico de Judith Luacute, enumerando e elucidando sobre as classes de enfermeiros, e anotado que existe o enfermeiro graduado (licenciado e ou pós-graduado), o técnico de enfermagem (médio) e o auxiliar de enfermeiro (básico). Para além destes, ainda devem existir nos hospitais (deduzo) os estagiários de cada uma dessas classes de enfermeiros, assim como os catalogadores, maqueiros e outros auxilires que desempenham funções distintas e vitais ao bom funcionamento de um Hospital.

Numa instituição hospitalar pública de Windhoek notei que as enfermeiras e as catalogadoras usam distintivos por cima dos unifomes (diferenciados) que chamo aqui de "patentes", indicando a função e a categoria. 

Calculo que, dominando o significado de cada uma destas "patentes", quer internamente,  quer externamente (pacientes e familiares), fica-se a saber quem é quem e o que faz. 

Nós, em Luanda, na aflição, chamamos a todas que usam batas brancas nos hospitais por enfermeira ou mesmo Doutora, entrando no rol igualmente as "mal-amadas" catalogadoras e as maqueiras que também se fazem passar por médicas. 

Que tal "importar" essa experiência que não deve ser única pelo mundo?

quinta-feira, junho 15, 2023

"MIL CURVAS"

- A quem pertencem?

Habitualmente oiço que "a estrada do Wiji", referindo-se à rodovia que nos leva de Kaxitu à Ponte sobre o Dande, "é estreita em demasia, tem muitas curvas e ribanceiras", recomendando evitá-la. 

Analisando com os pés no chão, verificamos que as temidas curvas e contra-curvas não se encontram em terras wijenses. É mesmo no Mbengu.

O alívio do automobilista é ao chegar à fronteira entre o Mbengu e Wiji, na ponte. Daí em frente, "é outra categoria", apressando a marcha até à Aldeia Viçosa onde o PA da TEMA, as cantinas geridas por "mamadus" e a carne de caça dão as boas-vindas a quem vai à antiga cidade que ganhara o nome do general Carmona.

_ Temos carne de burro-do-mato, de pacaça, de veado e de seixa. _ Assim fui recebido, levando para casa, a tarefa de descodificar que animal é o tal burro-da-mata ou como o burro/cimbulu (para os ovimbundu que abundam o Wiji) foi parar à mata, deixando de ser o dócil doméstico de carga?

Outra constatação é sobre o que o buta muntu Alcides Gomes chama de "nossa preguiça congénita". Deixamos de ir às fazendas de café, desde que enxotamos os donos portugas. Não ficámos com elas, o que devia ser normal. As casas deixadas nas vilas e nas fazendas também não ficámos a viver nelas e preferimos desmontar as portas, janelas e telhas para encobrir nossas palhotas. Noutros casos, até desmontámos tijolos para fazer campas de nossos ancestrais, quando devíamos experimentar o conforto de uma casa erguida com o nosso suor a favor do forasteiro explorador. Que gente somos nós, afinal de contas? Será que casa deixado pelo portuga colono, explorador de homem negro, é imprópria à habitação? Como se não bastasse, até as cantinas demos aos expatriados oeste-africanos que as exploram com prazer e se desgrudam lazerentos. Porquê que os mwangolês não tiram proveito? Por que não reconstroem as casas sem tectos e portas deixadas pelos colonos, porém mais seguras do que as palhotas de "manteiga"?

Numa "digressão mineira" que me levou até Kibokolu, Makela do Zombo e que, mais uma vez, foi regalo aos olhos, o regresso à capitalíssima fez-se pela estrada Negaje-Lukala, onde a geologia foi menos impiedosa aos automobilistas ou os construtores encontraram os melhores traçados.

terça-feira, junho 06, 2023

ONDE ELES NÃO QUERIAM MORAR

 KATUTURA!

"Não queremos ficar aqui!"

Ao tempo da segregação racial, "o pecado do governo de Peter Bota e antecessores", cometido na África do Sul e na sua antiga "colónia" Namíbia, até Março de 1990, conta-se que em Windhoek foi feito um desalojamento forçado de uma comunidade negra que se achava no casco urbano e levado aonde só espinheiras e lagartos reinavam, portanto, distante da cidade.

Em resposta ao ignóbil acto, os negros reclamaram em uma língua local: Katutura!

Assim ficou conhecido o maior bairro negro de Windhoek e praça-forte da SWAPO, o MPLA da Namíbia.

Para mim, ir a Katutura é mergulhar na história da resistência e luta pela emancipação dos africanos contra todas as formas de dominação (externas e internas). É também um reencontro com as minhas origens culturais afro-rurais.

No mercado de Katutura, a língua mais falada é Oshiwambo (o que os angolanos decidiram chamar de Kwanyama). No Lubolu, sempre ouvi os camaradas da SWAPO a falarem essa língua, sendo que alguns étimos ficaram gravados no meu ouvido.

A carne bovina fresca e assada "na brasa", a salada e o pirão de masango ou masambala são a principal iguaria servida no mercado alimentar de Katutura e que leva, até o mais refinado pula da metroia, a aderir a deliciar-se com os dedos. ⁹Há, quanto a mim, uma maior interação entre o homem e o alimento. Vi jovens angolanas, com unhas de papagaio, a se desfazerem da finura fingida e atacarem o pirão com os dedos. 

E como os namibianos são zelosos em relação à paz social, decidiram, e muito bem, proibir o uso de bebidas alcoólicas no mercado de carne assada de Katutura. Assim, ou você compra a carne assada e apetitosa para comê-la fria em casa, regando-a com pomada sul-africana que abunda ou fica-se pela água farta (no deserto) e refrigerantes.

Mas sobre Katutura, que fica depois de Khomasdal (bairro dos colored ou mestiços), não é tudo e nem pode caber em uma crónica de vivência efémera de meia hora.

A SWAPO PARTY NATIONAL HEADQUARTERS, ou seja, a Sede Nacional do Partido Organização dos Povos do Sudoeste Africano fica "just" à entrada da urbanização que é uma espécie de Zango ou Comissão do Rangel (Luanda). Ao que me pude aperceber, a decisão da SWAPO em erguer em Katutura o seu "Quartel-General" homenageia o povo que mais sofreu e o apoiou, estando o povo e o partido "so closed" como se diz por lá e umbilicados na nossa língua de construção da nação angolana. Equivale ao "twapandula nawa" e ao jargão "descer às bases e permanecer nelas".

Entre Katutura e a cidade está Khomasdal (como acima anotado), um bairro que servia de tampão entre os negros e os brancos exploradores ao tempo do apartheid. Aos meus pobres olhos, as edificações de Khomasdal se assemelham às vivendas do Kilamba ou ao nosso Zango 5 (ex 8000). A maioria é construção horizontal, sendo pouquíssimos os edifícios verticais de dois pisos. A excepção vai para uma escola que me foi mostrada à distância.

Há outros "bantustões" ou bairros de negros (maioritariamente bantu) em Windhoek, porém, ir à capital da Namíbia e não chegar a Katutura sabe a ir a Lwanda e não chegar à Mutamba (do antigamente) com o seu imponente edifício da Fazenda (MINFIN).

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Punlicado no Jornal de Angola de 18.06.23

quinta-feira, junho 01, 2023

ECA DE MAQUELA


Repare bem a inscrição: ECA.

Cuidado!

Não é cervejeira. A que mata sede em dia solarento é a do Dondo e leva K.

O cobre pode reentrar no nosso léxico económico. Até 1974, ao que reza a história, portugueses e parceiros de outros países extrairam milhares de toneladas de cobre nas minas de Tetelo e Mavoyo, no Wiji. Tetelo fica na comuna de Kibokolo, terra de muitos intelectuais da velha guarda, município de Makela do Zombo. É perto do antigo Kongo Belga.

Aqui podem nascer novas estórias e fazer-se História. A nova fase do cobre está a caminho, numa empreitada em que o meu amigo Rui Lopes tem estado à frente.

segunda-feira, maio 29, 2023

ÂNGULOS DE WINDHOEK


- Aqui, sem chegar a água e energia, não há venda de terreno. - Contou Paulo Dupuleni, angolano com mais de 25 anos de residência permanente.
2- Dr. Pohamba Building: é edifício público, a caminho do Hospital Central, em fase de acabamentos e que homenageia o segundo Presidente da Namíbia.
- Olha, senhor cronista, já se está a construir o Gabinete do Dr. Heige, actual presidente que vai terminar mandato. Aqui é assim. Antes de o presidente terminar o segundo mandato, preparam o seu futuro Gabinete. Aconteceu com o presidente Nujoma e com o presidente Pohamba. _ Explicou Marcelino, nosso compatriota a trabalhar na Angola's House.
3- House of Angola: é a nossa embaixada. Gostei de ver o Largo Agostinho Neto (frontal) e a cor do edifício que desperta e liga o angolano transeunte aos nossos edifícios públicos. Adentrando o consulado, mesmo sem necessidade administrativa, fui bem tratado por uma compatriota. Apenas os mapas da RPA devem ser actualizados.
4- SWAPO PARTY NATIONAL HEADQUARTERS: é em Katutura, bairro dos negros que mais sofreram e apoiaram o maior partido namibiano. Instalar a sede nacional no bairro Katutura é o mesmo que criar laço de contacto permanente. É como dizemos por cá: "descer às bases e permanecer nelas".
5- Khomasdal, bairros entre Katutura e cidade: era o bairro dos mulatos ou colored, no tempo da senhora África do Sul Racista colonizadora. Agora, os negros podem viver onde quizerem.
- Em tempos, os brancos ricos decidiram construir nova cidade, a caminho do aeroporto, alegando que "os cães estavam a fazer muito barulho na cidade", conta o angolano Marcelino, um Oshiwambo. Porém, o Presidente Pohamba que era rígido disse-lhes "vocês podem construir, mas os negros com dinheiro também vão lá". E disse-lhes mais, continua o narrador: Quem não quiser coabitar com os negros, dono da terra, leve suas paredes e vá reerguê-las em terra de seus avôs. O que se passa, é que os brancos, para se distanciarem dos negros, aumentam as propinas em suas escolas e tudo mais, só que cada vez mais, os negros também vão tendo riqueza e a frequentar os mesmos lugares.
Eles são importantes, porque têm riqueza necessária para fazer avançar a economia. O que o governo está a fazer é pôr todos na linha. - Concluiu.

domingo, maio 28, 2023

EM BUSCA DE ARTESANATO EM MONA QUIMBUNDO

Ela tem 35 anos e foi sempre seu sonho constatar in loco algumas das coisas que tinha aprendido nos livros do ensino primário do seu tempo.

Apesar de ter nascido depois de Agostinho Neto, Senje ainda estudou nos livros daquele tempo que se seguiu a revolução, onde os manuais escolares levavam o aluno ao país inteiro.
Estudou a floresta de Maiombe e "o tronco da árvore", Cacuaco e "a vida na comuna", Lunda e "Cazaji e Mona Quimbundo", Quibala e "as sepulturas em pedras" como monumentos históricos, bem como Mandume ya Ndemufayo e o seu túmulo em Oyole. "Ekuikui II, escola número 80 do Huambo", entre outras histórias e estórias do planalto eram já "pão de cada dia" por ter nascido no planalto do Vye.
Convidada pelo marido e acompanhada pelos filhos, Senje foi surpreendida com uma pequena urbe do Leste de Angola que lhe tinha colado ao ouvido. Fora obrigada a decorar o texto do livro de leitura da terceira classe. Era obrigação, naquele tempo, quer soubesse ou não ler, recitar nas aulas os textos de leitura.
Nessa sua aventura de conhecer as emblemáticas localidades descritas nos livros de leitura escolar já tinha estado em Cacuaco, onde não mais encontrou as salinas e as fábricas, nem os peixes que "brilhavam como prata na areia". Os pescadores que encontrou eram uns biscateiros sem história nem paixão pelo mar. Acto contínuo, seguiu no seu jeep à ainda comuna do Úkwa, descrita como "a mais pequena, onde vivia a Ana, prima do Dudu, Beto e Tito que eram de Cacuaco". No Úkwa, nem os personagens nem as vivências pôde reconhecer. Apenas animais quase vivos, a sagrar, pendurados em espetos e a aguardar por compradores. Desiludida, partiu para Quikulungu onde a "fazenda que o livro apresentava em fogo" era desconhecida de todos.
- Por que nos mentiram tanto? - Perguntara aos jovens que encontrara sem que deles obtivesse resposta. Mas não desistiu e Senje continuou a marcha, procurando dar sentido aos conceitos.
Chegou ao Leste e alimentou o sonho de conhecer "Cazaji e Mona Quimbundo" que ficavam a mais de meia centena de quilómetros de Saurimo. Seria o cumprimento dum velho desejo. Tudo o que aprender, através dos livros eram relatos sobre "um povo bravo na luta e que se dedicava ardentemente à agricultura do arroz, mandioca e outras culturas, à pesca, à caça e ao artesanato" que muita água lhe enche a boca, agora que vai conseguindo alguns kwanzas fruto do seu novo emprego.  
- Aonde vamos, marido?
- À fronteira.
- Com a Zâmbia ou Congo? - Insistiu Senje ao marido que se mostrava pouco dado a conversa. Na verdade, queria manter o segredo quanto ao destino.
- Fronteira com o Congo Democrático que é o vizinho com quem mais terreno partilhamos. Vamos comprar "bubús". - Ironizou o marido, sempre atento à condução e pouco dado a falas.
Senje e os dois filhos, rapaz kasula e menina, se deleitavam com as paisagens naturais abundantes naquelas paragens.
- Papá, olha praia. - Atirou o kasula, ao que a irmã corrigiu:
- Não é praia. É rio.
- Também tem árvore, papá. - Voltou a alertar o rapaz encantado.
Senje ainda aproveitou apelar aos filhos para que não distraíssem o papá que estava atento à estrada e aos carros com que cruzavam.
Era tarde chuvosa e com visibilidade reduzida, para além de trafegarem na rodovia uns "kazukuteiros" em velocidade acima do convencional.
- Mas é mesmo para a fronteira que vamos? Quanto tempo levaremos? - Insistiu Senje.
- É sim e estamos quase a chegar. - Garantiu o marido depois de confirmar o contador de distâncias do veículo que registava já 51 dos 52 quilómetros que separam Saurimo do antigo posto militar colonial, também tida em alguma literatura histórica como "a primeira capital da Lunda", antes de Henriques de Carvalho fundar a cidade associada hoje ao brilho dos diamantes.
Não tardou o grito de alegria.
- Eh, eh! Mona Quimbundo do livro da terceira! Obrigado pela surpresa. Era mesmo meu sonho conhecer essa localidade que já tirou muitas lágrimas a meus colegas da terceira.
Percorreram a comuna, um antigo posto militar na expansão militar que se seguiu à Conferencia de Berlim, quando os portuguese precisavam de mostrar aos parceiros europeus que detinham o domínio sobre as terras de Mwatisenge, a leste da colónia de Ngola, e definirem com os belgas, e ingleses as fronteiras das possessões saídas do encontro realizado na Alemanha entre 1884 e 1885.
Adentraram a comuna do "artesanato, pesca e agricultura" que não viram. Da agricultura ressaltavam apenas algumas estacas de mandioqueira que se perfilavam paralelas à estrada, uma produção que indiciava ser mais para auto-suficiência do uma produção direccionada ao mercado. As poucas cantinas estavam repletas de produtos importados e peça artesanal nem mesmo o largo da escola ou o da administração colonial tinha. Nas cantinas ninguém tinha visto ao longo do ano defunto.
- Artesanato, aqui? - Era só mesmo no tempo de Agostinho Neto. - Atirou um idoso interpelado, acrescentando que "o único ganho que tivemos foi de sermos mais conhecidos do que a própria província e a sua capital. Todos os pioneiros da escola do país inteiro sabiam que existe uma circunscrição em Angola com o nome de "Mwa Cimbundu" e cujo povo pratica a agricultura, a pesca e o artesanato" - Explicou o septuagenário, sorridente.
Passaram pelo hospital comunal que possuíam uma ambulância. A escola tinha uma placa a indicar "inaugurada por S.Exa. Primeiro-Ministro Nandó". Visitaram o Centro de Acolhimento de Menores e foram ver as antigas instalações da administração colonial: umas em ruínas que reclamam reconstrução ou substituição, para acabar com as "casas de kazumbis", e outras já refeitas do ostracismo a que haviam sido votadas durante os anos de "trungunguismo".
- Papá, quem vive nessa casa dos "cazumbis"? - Perguntou o kasula, atento a cada pormenor da viagem.
Sem comprar artesanato, sem enxergar campos verdes de arrozais, mas com a satisfação de ter conhecido mais uma icónica aldeia do nosso país, regressaram à cidade com o strees aliviado.
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Publicado no Jornal de Angola de 9 de Julho de 2023