Translate (tradução)

sexta-feira, julho 22, 2022

CÃO COM DIREITOS HUMANOS vs CÃO SEM DONO

Dias sim, semanas sempre, Dona Maria, amável mulher do sô António, vinha pôr conversa, durante toda a vida do Atenção, tentando estorvar que o canídeo tivesse vida humana. 

- Mas ó minino, num faz isso. Comer com o cão ou lhe dar cuspo para te gostar não é coisa de gente, não. É coisa de bicho que se iguala ao cão. - Atirava ao ver-nos amistosamente envolvidos com o Atenção ou mais tarde com o Tigre, cão que o nosso pai dizia "é cão saído da Baia com o mesmo nome que fica no deserto do Namibe". 

- Pode me chamar "sô meu cão-de-merda", mamã. O Atenção é nosso amigo. Coelho que caça, põe saliva dele na ferida e a mamã come também. Então, mamã, já viu nê? – Respondeu Phande-a- Umba argucioso. 

- Já viu o quê? 

- Cuspo de cão Atenção não é veneno. Veneno é só daqueles cães-vadios que não tomam banho, nem comem no prato como o Atenção que é nosso amigo. - Retorquiu resmungão Phande a Umba, redobrando as carícias ao canídeo. 

- Ai ê? continua mesmo respondão, sô mô bicho. Ó Sô António, estás a ouvir o teu filho, nê? Depois não me venham cá com kikonya[2] ou outras complicações. Cão que põe boca na porcaria é que você lhe lambe os beiços, assim mesmo está bom? Fala ainda pra tô pai ouvir. Assim está bom, sô mo cão. - Dona Maria levantava o tom de voz para despertar a atenção do marido que concertava as alparcatas para meter-se no mato para mais uma visita às suas armadilhas.  

 

A conversa com pícaros desafiadores e argumentos contraditórios levava tempo. Aliás, era conversa de todos os dias da vida daquele cão. Sô António atento ao que se discutia e sendo ele também bastante afetuoso para com o Atenção, preferiu pôr fim à contenda, chamando pelo filho. 

 

- Phande! 

-Papá. 

- Vem cá. Aprende a ser homem e deixa de discuti com a tua mãe. - Ordenou Sô António ao filho. 

- Papá não fiz nada de mau. É mesmo a mamã que stá a se metê comigo e com o Atenção. – Phande procurou defender-se antevendo uma reprimenda.  

- Põe corrente no Atenção. Procura salamba[3], calça quedes e vamos. Larga-lhe apenas quando transpusermos a aldeia para não se entreter com as cadelas vadias do sô Jacinto - Recomendou em voz firme. 

- Está bem papá. 

Foi momento de júbilo para Phande que rápido se equipou, metendo-se a cantarolar. Cesto às costas, catana na mão direita e Atenção puxado pela esquerda, seguiu atento ao que o pai foi explicando, enquanto Atenção começava a farejar os odores deixados, madrugada recente, pelas pacas, coelhos e ngulu ya muxitu[4]. 

O dia era ainda criança. Sol não havia. Apenas uma bola que podia ser amarela e quente ou ofuscada pelas nuvens que viajavam na boleia do vento. Dona Maria estava dividida também. Metade de atenção à panela que cozia a batata do mata-bicho e outra metade na Júlia que chorava.  

- Ainda bem que o Sô António chamou o chato do Phande e o seu Atenção. Ao menos, com o pai, aprende a ser pessoa. – Disse para si mesma.  

O ano dessas conversas perdeu-se na memória. Sei que nem eu, nem o Phande andávamos ainda na escola. A contagem das coisas que sabíamos era só mesmo moxi, yadi, tatu, wana[5]. Estávamos ainda em Kitumbulu, fazenda do Sô Fernando, pai do nosso pai. 

Atenção era um pastor alemão, exímio caçador. Um alemão agropecuário na região, entre os potentados de Kuteka e Thumba, ofertara o canídeo ao meu progenitor. 


Atenção ia sozinho à caça e arrastava o animal até à casa. Quando não pudesse fazê-lo, parava e ladrava até que Sô António fosse ajudá-lo.

 

Certo dia, Atenção foi à caça e cruzou com uma onça. Atenção lutou valentemente. Voltou muito maltratado e dos ferimentos não resistiu. Fizemos-lhe um thambi[6] "de pessoa". Foi a minha primeira experiência.
Depois o Sô António, comprou o Tigre. Era preto, pelos lisos. Chamávamos-lhe "cão mulato". O Tigre também caçava quando integrando caravana humana. Não era caçador independente como o Atenção, mas era melhor do que outros cães vadios da aldeia que só sabiam comer.  

 

Quando o Tigre morreu, de velhice ou doença já não me lembro, eu contava uns seis anos e participei mais activamente no seu enterro. Não teve urna como o Atenção, mas foi envolto em cobertor e lançado em uma cova com um metro de profundidade. Phande e eu ficamos em grande comoção e nesse dia ninguém comeu.

 

Essas estórias repudiam o tratamento indigno que se vem assistindo aos que ainda são conhecidos como "melhores amigos do homem", lugar que vão, nas cidades, perdendo para o telemóvel.

 

Cães abandonados, aparentemente sem dono, alimentando-se no lixo, sofrendo pedradas de "meninos também sem família". Quando enfermos ou mortos por doença ou atropelamento, apodrecem nas estradas até à decomposição total. 

 

Certa vez, uma avó, já tão farta de ver tanto cão morto nas estradas, gritou com toda a força que lhe restava no corpo.

 

- Quem não consegue cuidar cão que não compre/receba, mesmo que seja de oferta!  

Acho que a vovó tinha razão. Quem decidir ter cão que faça como Sô António e seus dois filhos. Eles não deixavam o Atenção e o Tigre comer alimento cru e quase se faziam à mesa com os donos.  

Dona Maria, hoje já velha, ainda se recorda e conta para os netinhos que “o Tigre e o Atenção foram cães com direitos humanos” porque, não podendo sentar-se à mesa com os donos, comia à mesma hora que eles! 

 Há cães e cães. Há também imbwa yakambe ngana![1] 

 

Texto publicado pelo Jornal de Angola de 12.06.2022

[1] Cão sem dono 

[2] Doença respiratório (do Kimbundu) 

[3] Cesto feito de junco ou fibra de palmeira para transporte de animais de pequeno porte ou carne limpa, depois de uma actividade de caça (do Kimbundu). 

[4] Porco do mato, javali (do Kimbundu) 

[5] Um, dois, três, quatro (do Kimbundu) 

[6] Óbito (do Kimbundu) 

 

sexta-feira, julho 15, 2022

MAHINI E MILHEIRAIS À BEIRA DA EN 100

A confiar no que meus olhos enxergaram e levaram à tradução e compreensão cerebral, durante o trajecto Longa-Kanjala, não haverá este ano njala (fome) no Litoral kwanza-sulino (desde que a preguiça deixe de existir) e, havendo água celestial, tudo indica que assim será nos próximos tempos.

Prestei atento ao que ladeia a estrada, do Longa (entrada do Kwanza-Sul) ao Evale Guerra, divisão com Benguela (próximo de Kanjala).
Imensos campos de milheirais plantados em muitos (para não dizer quase todos) corredouros de águas pluviais, vales dos rios que se dirigem ao Atlântico, depressões (onde é mais a enxada e a catana que desbravam) e zonas planas onde foi chamada a força e elasticidade do tractor agrícola. É sinal de que, aos poucos, vamos despertando para aproveitar o solo, atender o estômago e, com o que resta, saciar as demais necessidades descritas por Maslow na sua conhecida pirâmide.
Vi milheiros todos "embandeirados", com espigas quase maduras e à espera apenas da colheita. Devem ter sido lançado à terra entre Fevereiro e Março, sendo da segunda sementeira da época de sequeiro. Mas, outros milheirais eram pequenos ainda, aparentando ter um ou dois meses. Infelizmente,   correm o risco de secar pelo facto de a chuva ter cedido lugar à época de estiagem. Tal fez-me parar e trocar um dedo de conversa com o mais velho Kikundu.
- Papá, bom dia. Estou de passagem. Vou a Benguela. Parei para aprender consigo. Estou a ver milho grande e milho ainda pequeno, numa altura em que a chuva já terminou. Não vai secar sem dar massarocas? - Indaguei.
- É verdade, meu filho. Ainda você mesmo é daondiê? - Questionou-me, eventualmente, para ganhar fôlego e arrumar a resposta.
- Sou do Libolo, pai, e vou trabalhar em Benguela.
- Pois é, filho. Quando nós falámos, os vossos iguais não nos ouvem. O milho, se você quer semear duas vezes, tens que controlar a primeira chuva e ter dois kibembe (terrenos em pousio e prontos a receber gramíneas). Põe o primeiro em Setembro ou o mais tardar em Outubro. Como o milho de boa semente faz 4 meses, quando estiver a amadurecer, semeia o outro no kibembe de reserva. Assim, a pessoa colhe duas vezes por ano no terreno alto. Se é na horta e com rega é só a tua força que manda.
Abanei a cabeça em gesto de agradecimento e tomei as imperdíveis notas mentais.
O mais velho Kikundu não sabe escrever, nunca esteve em escola de agronomia, mas tem conhecimentos sólidos. Disse ter trabalhado com vários "extensionistas" e regentes agrários. 
- Uns eram da Cadá, outros do Chianga e ainda os que se formaram no Chivinguiro. Hoje em dia, não é só pôr adubo e amónio. É também controlar a chuva e rodar as sementes. - Continuou explicando.
Já me ia a despedir, quando me pediu água e eventuais garrafas vazias (pet) para pôr mahini que, por essas bandas, chamam de "massana" ou "mele a ngombe".
A pecuária de bovinos, caprinos e ovinos é antiga entre os kwanza-sulinos. As estiagens cíclicas e prolongadas mais a sul do nosso país estão a provocar a migração de bovinos e pastores, aumentando as manadas, os rebanhos e a quantidade e qualidade dos zeladores. Mesmo nos meus tempos de garoto, os bois que eu via na Fazenda Costa Campos eram cuidados por tios ngangela ou nyaneka que andavam com porrinho e catana muito afiada, dizendo que o porrinho era para "enducar" o boi maluco ou matar a onça gatuna.
O aumento significativo do efectivo bovino nas margens da EN n° 100 leva à exposição, em venda, do leite natural de vaca, o mahini para os povos do sul.
Por outro lado, a existência de mahini, de tarimba em tarimba, é indicativo de vacas que se reproduzem, cujo leite é repartido entre o vitelo e o homem ordenhador que o coloca à venda. Havendo vitelos, facilmente se adivinha carne nos dias que vêm. É este o ciclo: vacas gordas, mahini, vitelos robustos e saudáveis, bife no prato, cidade saciada... Luanda é o grande mercado de quase tudo e onde se diz que "algumas geladarias que produziam sorvetes com lei em pó passaram agora a comprar leite natural que "está a levar os clientes a lamber os dedos", de tão gostosos que são os gelados confeccionados com leite natural de vaca.
Mas os pastores saídos do Sul não introduzem apenas o mahini na ementa dos Kwanza-sulinos e luandenses. Ao lado do milho, vi também massango. O cereal tem um ciclo maior e é mais resistente à falta de chuva, como me confirmou o mais velho Kikundu:
- Se com a chegada do cacimbo em Maio o milheiro seca em finais de Junho ou Julho, o massango pode esperar pela chegada da outra estação chuvosa. É mais resistente.
Os mais atentos vão tendo já o massango como cultura alternativa, sobretudo para acompanhar "uns nacos de carne fresca, agora que o período de caça se aproxima".
- Ó filho, numa província que tem rios, tem mar, tem terras e tem animais (bois cabritos, carneiros, porcos e galinhas), morrer de fome, no tempo de paz, só pode ser burrice ou preguiça! - São palavras do velho Kikundu.
Soberano Kanyanga, 30.05.22 

Texto publicado pelo JE&F, Junho 2022

sexta-feira, julho 08, 2022

O SALÁRIO DO ARLINDO E O CÁGADO DO METRO

Manhã de domingo, seis horas. O meu sono ia ainda à quinta velocidade, mas, sendo tropa antigo (que não dorme) fui a tempo de ouvir o Arlindo (13 anos por completar) a despedir-se:

- Mamã, bom dia!
- Bom dia, filho! Aonde vais tão cedo?
- Eu vou trabalhar. - Respondeu altivo e cheio de humor.
Dentro de mim, as palavras que não saíram começaram a tilintar.
- Que bom! Um filho, menor, que tem (quase) tudo e ganha gosto pelo trabalho é orgulho. Uns cultivam-se em gastar e sonhar com o que o papá vai deixar como herança. - Pensei.
No diálogo conciso que mãe e filho fizeram ainda retive outras passagens.
- Tens dinheiro para táxi?
- Sim. Ainda tenho do meu primeiro salário.
Passavam exactamente sete dias que o Arlindo havia recebido o primeiríssimo salário de sua vida. Foram Kz 15 mil que fez questão de distribuir (voluntariamente) da seguinte forma: 2 mil para a mãe (também dona da empresa), 2 mil para o papá (que acabou recebendo mil ao ver o dinheiro a acabar), e 4 mil que distribuiu para as três irmãs e ao sobrinho Joshua. É aqui que entra o cágado do Metro, um jovem da aldeia de Panga-Panga, antes do Kulangu, para quem trafega de Kanjala ao Lobito.
Em viagem para Benguela, fiquei a pensar no que compraria com a minha porção do primeiro salário do Arlindo. Devia ser algo utilitário e duradouro que levasse, quando atingir a fase adulta, o Arlindo orgulhar-se de ter começado a trabalhar voluntariamente aos 12 anos e ter distribuído o seu primeiro ordenado. Mas mil Kwanzas era coisa pouca aos preços dos "utilitários e duradouros".
Pensei depois em algo que vivesse o tempo de muitas vidas. Algo que tenho com bicho-de-estimação e que contasse muitas estórias, eventualmente até a meus netos vindouros.
Quando ia a passar a aldeia de Panga-Panga, vi sacos de carvão vegetal à venda. No local eu havia comprado, há um ano, três jabutis (semelhantes ao cágado,  mas sendo eles totalmente terrestres ao contrário do cágado que divide a terra com a água doce). Parei e gritei (disfónico) com a força que me restava:
- Aqui já não vendem mbew?¹
- Ó mano, esse tempo já não costuma aparecer. - Apressaram-se em responder as mamãs do carvão.
Porém,  da pequena kamunda² vi um rapazola correndo em minha direção e trazendo na mão algo que se parecia a um minúsculo objecto, uma pedra, vista de longe, e gritando:
- Ó tio, está aqui!
Olhei para ele. Era um jabutizinho com uns dez centímetros de envergadura.
- Quanto é?
- É dois mil. - Respondeu a olhar para o carro.
- É a mim que deves olhar nos olhos e estipular preço. O carro é do patrão. Baixa mais o preço.
- Leva por mil e quinhentos. - Respondeu o Metro.
- Só tenho mil. - Regateei.
- Está bem pai.
Paguei e pedi que guardasse o animal até sábado, quando estivesse de volta a Luanda.
- Se durante a semana você encontrar outros,  guarde-os para mim e pagarei todos. Trocamos nomes e fui à "cidade mãe das cidades" angolanas.
Sábado, 04 de Junho. De regresso a capitalíssima, passei pela aldeia do Metro que me entregue o "cágado", era único.
- Ó tio, não encontrei mais. Nem os meus amigos. Agora está difícil. - Explicou-se.
Recebi feliz, pela sua seriedade. Não se escapuliu. Com os mil Kwanzas do 1° salário do Arlindo, que trabalha como voluntário na empresa da própria mãe, comprei o jabuti que vai crescer, ter vida longa e ouvir contadas muitas estórias à volta dele.
=
¹- cágado/jabuti (Umbundu)
²- pequena elevação/monte.
Obs: texto publicado pelo Jornal de Angola a 02.10.2022

sexta-feira, julho 01, 2022

PROVANDO MAKENENE

Numa aldeola familiar com reminiscências de características medievais, como era Kitumbulu nos anos setenta do século XX, a caça grossa e a pesca em rios caudalosos eram confiadas a homens. A recolecção, que incluía ratos, salalé, pesca com cestos, grilos, cigarras gafanhotos e recolha de frutos e sementes silvestres estava confiada a mulheres e crianças. A agricultura de subsistência era igualmente tarefa feminina, ao passo que os homens adultos praticavam a agricultura virada para o comércio. Nesse quesito, imperava a monocultura do café robusta vendido aos cantineiros ou intermediários agrícolas.

Em Kitumbulu, fazenda do meu avô paterno, onde "escapei ser dado à luz", lembro-me de ter acompanhado a minha mãe e outras parentes à "caça" de salalé. As térmitas constroem um monte de barro com vários canais "tubulares" internos que desembocam num hall a que chamávamos de ninho. É onde ficava a "rainha" que tem à volta várias obreiras. Do "ninho" a baixo, seguem outros canais (inexplorados).

Viajo ao que o meu subconsciente conserva e olho para aquele monte de salalé que nos meses de início de chuva "liberta" a jinguna (o insecto gorduroso e voador) que apanhávamos para conduto¹ e ou usado como isca na pesca fluvial com anzóis ou muzwa².

No monte vivem quatro tipos distintos de formigas: o salalé voador (jinguna), as obreiras que barreiam/constroem e reparam o monte (pareciam-me comer e defecar o barro), a rainha (única) e os soldados que guarnecem a fortaleza, apresentando uma cabeça agigantada e terminais em forma de tesoura. Esses últimos são chamados "makenene" entre os baluba e tucokwe, no nordeste de Angola.

Até à minha primeira ida à Lunda Sul, em 2005, ignorava que a "formiga soldado" do monte de salalé fosse comestível. Em Kitumbulu capturávamos e comíamos apenas os "adolescentes" cheios de vida e banga, que voavam alto, caindo depois, sem asas, na boca faminta do sapo ou do bagre quieto nos matuku³ do rio calmo e preguiçoso. Nos dez anos de permanência em Saurimo, vi a formiga-soldado (makenene) como iguaria, mas resisti em levá-la à boca e com ela forrar o estômago.

Dizem os nordestinos que "o bicho é só vitamina!". Porém,  aquelas tesouras, que já me rasgaram os dedos ao procurar capturar jinguna para a pesca, inibiam-me.
- E se, mesmo morto e temperado, me rasgar a língua? - Dizia para mim mesmo.

Na verdade, recomendam os grandes apreciadores de makenene, que "é preciso mastigá-los bem". Uma vez no prato, os insectos devem ser levados aos dentes molares e "manterem pouco contacto com a língua, antes e durante a mastigação".

Provei, finalmente, o "benquisto" makenene em 2021, na Lunda Norte, e repeti a dose, com maior à vontade, em 2022, também no Dundo. Não têm aquela gordura do salalé voador ou ainda jovem, sem asas, surpreendido com jarros de água e apanhado no ninho, como fazíamos em Kitumbulu. Mas persistem que "o makekene é só vitamina!".

Nessa de procurar a palavra com o sentido etimológico e semântico ideal, fiquei momentaneamente na dúvida entre vitamina e proteína. Chamei o duvidário mental que me ficou às voltas, enquanto os que comigo partilhavam a mesa de dez lugares, habituados à iguaria, foram se "vitaminando", levando-me a colocar o dicionário de lado.
- Vou consultar depois. - Avancei, levando os insectos à boca e mastigando-os com vagar e delicadeza, até os tornar em bolo alimentar que a língua cuidou de mandar goela abaixo, sem provocar-lhe danos.
Num estudo do FAO, Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, intitulado "a contribuição dos insectos para a segurança alimentar, subsistência e meio ambiente" (FAO, 2015), lê-se que "mais de 1.900 espécies de insetos são consumidas no mundo todo. Contudo, esse número continua a crescer à medida que aparecem novos resultados de pesquisas sobre o assunto. A maioria das espécies conhecidas é coletada na natureza; no entanto, poucos dados estão disponíveis sobre a quantidade de insetos consumidos no mundo. A partir de dados publicados, os grupos de insetos mais consumidos são os besouros (coleópteros) (31%), as lagartas de mariposas ou borboletas (lepidópteros) (18%) e abelhas, vespas e formigas (himenópteros) (14%). Estes, seguidos de gafanhotos, esperanças e grilos (ortóptera) (13%), cigarras, cigarrinhas, cochonilhas e percevejos (hemípteros) (10%), cupins (isópteras) (3%), libélulas (odonatas) (3%), moscas (díptera) (2 %) e outras ordens (5%)".

A jinguna é, para mim, um grande conduto e está na linha do majuku⁴ (jinsombe para os bakongo, masololo para os tucokwe), gafanhoto, grilo, cigarra e katatu (makoso ou kimpyatu para os bakongo). Todos eles são proteicos!

==
¹- acompanhante, geralmente,  de funji ou pirão.
²- nassa. Instrumento rudimentar de pesca.
³- esconderijos, tocas, ninhos de peixes.
⁴-lagarta que se desenvolve de forma metamórfica em palmeiras em putrefacção.

Publicado pelo Jornal de Angola de 15.05.2022


quinta-feira, junho 30, 2022

VULAMA LEVA MANGODINHO A TEIXEIRA DE SOUSA

Quando lhe disseram "se prepara, dia 42 vais a Teixeira de Sousa", Mangodinho rir era só rir que deixava à mostra o último dente de siso. Preparou as imbambas, beijou os filhos, um a um. À mulher, deu um selinho só. Antes de meter o pé fora de casa, revisitou as palavras que guardara no ouvido e no caderno de notas.
Começou a ensaiar, a treinar treinamento de criança da kabunga.
- Nguneza, ngunaye, ngunasakwila, nakuzanga cinji, kizundamo, mafo, walwa, ixi, xima, mujimba, mulelenu, muxahenu, mulambenu ... enu!.. - Sabulou para ele próprio e para o surdo vento, num misto de saudade e vulama¹ que Lamba lhe deu, já voam oito anos, e que o faz dormir no Leste e acordar na capitalíssima.
Nas missivas que recebe, até nos áudios e vídeos, Lamba, a sua inspiradora, diz-lhe "estar saudosa e desacompanhada", contando luares e estrelas infinitas.
- Nguneza. Prepara kalembula, matamba, kingombwa, xima nyi ifo e tudo mais. Quero comer até me arrebentar. Aliás, esqueci uma coisa. Kandonda num esquece. - Recomendou Mangodinho ao entrar no avião.
O grande kalunga lwiji² já tinha ficado para trás. Por cima das nuvens brancas que pareciam ter invertido o seu sentido de orientação, o filósofo das embalas foi meditando:
- Quando estamos em baixo, as nuvens estão por cima de nós. No avião elas estão de baixo de nós, abrindo-se um outro céu azul infinito. Ou tem mais coisas cá em cima?
Às nuvens, entre a terra firme e o infinito azulado, cor de mar, aditou o espanto sobre o andar curvilíneo dos rios que pareciam preguiçosos e relutantes em dirigir-se ao mar.
- Eh! Issêasssim? Mam! - Ora se levantava, ora monologava sentado, inquietando o passageiro vizinho.
A viagem demorou hora e tal. Quase duas. Esperava encontrar alguém para o receber e gritar-lhe tambwokenu! Não aconteceu, não fez reclamação. Apenas pensou:
- Lamba deve andar às compras ou já a preparar a forragem para o estômago.
Faminto de iguarias que apenas o leste e nordeste e deram a provar, Mangodinho fez de propósito. Não jantou no dia anterior à viagem e também não matabichou.
Conhecedor da vila Teixeira de Sousa e dos caminhos de corta-mato, Mangodinho não demorou fazer-se à casa de Lamba, sua musa.
- Lamba, cheguei! - Gritou dez metros, antes da casa que conservava a mesma tinta sobre os adobes salpicados de cimento escasso e areia farta.
- Kenhê? - Gritou um homem lá dentro com autoridade de quem andou aos copos.
Mangodinho diminuiu o passo. Fingiu tropeçar para reforçar o caminho, os contornos da casa, as lembranças e as ideias também. Das ideias, sobretudo as mais audazes, viria a precisar.
- Mas... - Tentou gritar e mandar a todos os ventos velozes um porra que lhe é característico.
No descampado em que se acha plantada a casa de Lamba, os adolescentes que jogavam à bola, crianças há sete anos, ainda o reconheceram e começaram a cochichar.
- Ewe, mana Lamba! Kota Porra então chegou. Agora vai ser como com o ti Cizenge?
Alimentado pelo que lhe chegou aos ouvidos, Mangodinho puxou coragem. Pôs força nas pernas que teketavam nervosas. O cérebro dizia avança. As pernas e pés queriam desistir. Avançou até à porta e pôs um berro de homem corajoso.
- Lamba, estás aí?
- Kenhê? - Voltou a responder Cizenge.
- Porra! Issêabuzu! Ainda não morri e já estão a me lundular? Fiadacaxa, sacana de merda. Põe-te a andar! - Falou Mangodinho com toda a ira que lhe estava na garganta.
Mangodinho e Cizenge trocavam ainda mimos, procurando ocupar espaço no terreno e na audição da multidão que se fazia à volta. Mangodinho com um pé já dentro da salinha parecia que ia desalojar o consorte.
Cizengue estava ainda com roupas interiores e mal conseguia ver onde estava sua farda e botas. Tinha disbundado metade do ordenado policial, mas tentou mostrar autoridade de quem fez instrução para-militar, embora denotasse gagueira, dadas as elevadas doses etílicas de véspera.
- Kenhê você, mukwakwiza de merda?! Achas que me amedrontas? Tua sorte é que vim sem a minha kalashe. - Desafiou Cizenge.
Não demorou, chegou Lamba, carregada de coisas e ávida de mandar Cizenge embora.
- Mana Lamba, estão então a ser dar mulambenu na tua casa. Kota Porra voltou e o ti Cizenge num foi embora. - Contaram os jovens da bola.
- Mama yami! Vou fazê cumu então?! - Interjeitou.
Atrás, olhos nela, um coro ululante fez-se sala adentro, expectante no desfecho.
- Lamba lyeza!
=
¹- Mixórdia que faz o cidadão emigrante esquecer a sua origem. Os do centro de Angola usam o termo "migosta".
²- Mar, imensidão.

Crónica publicada no Jornal de Angola de 01.05.2022

sábado, junho 25, 2022

ANGOLA, A FRELIMO E AS COINCIDÊNCIAS

A história da colonização portuguesa, com apetites ingleses pelo meio, o mapa cor-de-rosa, as rebeliões nativas, a tomada de consciência nacional, a frequência de mesmas escolas metropolitanas, a passagem pela CEI¹ e a mobilização para a luta armada que levou às independências são comuns. Tirando pequenos laivos de "excessivo apego à estrutura sintática", para os luso-índico-africanos, e refinada dicção, a roçar ao tuga alfacinha, para os luso-afro-tropicais-atlânticos, é tudo, como se diz em Umbundu, walisetahãla²!

Há angolanos, mais pelo interior, sobretudo os que frequentaram missões católicas que reverenciam a sintaxe, mas descuidam a prosódia. Assim como os há, sazonalmente, em Moçambique. É por isso que sem alistar os santomenses, netos de nossos antepassados aí levados para povoar as duas ilhas perdidas no kalunga lwiji³, os kanimambu⁴ são os nossos irmãos siameses no comportamento social, nas cleptomanias, e no que só Mia sabe descrever.
Falando em Mia Couto, biólogo que, para mim, é nobável⁵ sempre que o leio nas suas caracterizações de Mussa Al-Bike, penso que ele é meu vizinho, colega de trabalho e confessionário de mesmas crenças e dogmas. É tanta coincidência entre os dois países banhados por oceanos distintos!
Conta-se que estando em Moçambique dois angolanos, idos do Ndongo, decidiram procurar por um restaurante à beira-mar, em Beira, onde encontrariam apetecíveis garoupas grelhadas, regáveis com as mais suculentas produções vinícolas lus-e-tanas.
- Bem-vindos queridos fregueses. Aqui tem de tudo: peixe, mariscos, frutos do mar, petiscos e bons vinhos portugueses e mandelenses. - Convidou Hibrahima, mulher de pele achocolatada aparentando ascendência etíopes.
- Boa tarde e muito obrigado pelo convite. - Respondeu António Tandela, meio reclinado, veniando a donzela, enquanto o companheiro retirava o boné da cabeça.
- Em que vos pode valer a minha serventia, cavalheiros? - Perguntou Hibrahima, ao mesmo tempo que minuciava os gestos, sotaques, o brilho e o aroma que os recém-entrados expeliam.
- Há bons dias que não passamos de carnes e aves. Hoje é peixe que queremos: calafate, garoupa, pungo, o que houver de bom. - Respondeu Dias, até então calado.
- Traga-nos também a carta das pomadas⁶. Este sol pede um bom litro⁷. Para mim, água de côco. - Emendou Tandela.
Hibrahima tomou nota do pedido no bloco de apontamentos que levou à cozinha e ao bar, deixando lacrados no cérebro as informações descritivas sobre os dois cavalheiros.
Feitas as diligência, e quando as garoupas mostravam já as espinhas dorsais e a garrafa de Don Juan e verter por baixo, Hibrahima, no papel de boa anfitriã, voltou a questionar.
- Desculpe, senhor Dias. Vocês me parecem de Nhambate, pois não?
- Nhambane? Nem conhecemos ainda. Nós somos angolanos. - Retorquiu Dias procurando saber o porquê da colação a Nhambane.
- É que, pelo vosso sotaque, só podem ser de Nhambane. Tenho certeza porque já lá vivi e convivo com muitos nhambanenses. - Explicou arguciosa.
Nisso, Tandela que inclinara as últimas gotas do envelhecido Don Juan entrou em cena procurando por um documento que levasse Hibrahima a dirimir as dúvidas.
- Só um momento minha senhora e já lhe mostro que somos mesmo angolanos. - Apelou, tentando encontrar, entre os papéis no bolso interior do casaco, um documento que indicasse a sua proveniência. Não foi, porém, a tempo, pois Joia, uma garçonete que se achava a poucos metros, atirou em seco.
- Porquê que vocês da Frelimo gostam tanto de mentir? Depois da refeição, se quiserem conhecer Beira, podem ligar para mim que já estou no fim do meu turno. Aceito jornada after work.
Trocaram nomes e telefones para o intercâmbio de culturas, odores e suores nos dias que faltavam à missão. Quanto à língua herdada da colonização e aos sotaques, ficou provado. Angola tem tudo de Moçambique e vice-versa!
==
¹ Casa de Estudantes do Império.
² Parecidos.
³ Mar, aceno, imensidão.
⁴ Alusão a moçambicanos. Saudação.
⁵ Merecedor de prémio Nobel.
⁶ Alusão ao vinho tinto.
⁷ Garrafa.
==
Obs: Publicado pelo Jornal de Angola de 04.07.2021

quarta-feira, junho 15, 2022

VISITA AO KISONGO DAQUELE TEMPO

O Kisongo daquele tempo era um conglomerado de aldeias e aldeolas familiares que, juntas, chegavam a 50 mil pessoas.

No dizer dos mais velhos de hoje, que viveram com o colono, ainda anandenge ou já mizangala, nunca, jamais nesse século XXI o Kisongo de hoje, com mais ou menos 5 mil indivíduos que se remedeiam na agricultura e nas poucas fazendas que chegam tímidas, chega à áurea dos anos sessenta (sec. XX).
No vilarejo perdido na selva libolense, a caminho do Kwanza distante, a que chamavam Posto Administrativo, Mulalo, metro e noventa e cinco de altura, corpo de três homens médios, mão grossa e força de ngufu, era cipaio ao serviço da administração. Kambambi, amigo do pai, dos cipaios do acampamento e dos tios que choravam lágrimas e suor sugados pelo sol e palmatória, era o filho derradeiro de Mulalo.
O Phalanga e o Lumbu, irmão dele que lhe puxa, já tinham força para trabalhar, na lavra ou no kalyenge, e frequentavam também o "mbe e â? - Mba!" Por tudo isso, sendo os ajudantes permanentes da mamã, estavam isentados de levar comida ao papá que punha ordem no Posto e nas aldeias aos devassos e fugitivos ao imposto indígena.
Certo dia, tarde de futebol para os adolescentes, sol ardente lá fora e chuva a prometer açoitar os telhados de colmo. Phalanga e Lumbu estavam na bola. Em casa, Nzumba olha para os céus a profecia: Vai cair nvula de encher rios e marido vai dormir no trabalho.
- Kambambi!
- Mamã!
- Vem. Prepara os quedes. Num demora. Vai levar comida no papá. Vi, chegaram do Mbang'wanga pessoas na carrinha do sô 'diministrador. Deve ter trabalho grande. Chuva vai chegar sem escurecer.
Previsão de quem vive o comportamento do tempo é palmatória na mão de Mulalu ou tiro de caçador temperado. Não falha.
Nzumba arrumou a comida para o marido. numa marmita o funji e noutra o conduto: carne de paca apanhada da armadilha do Lumbu. O Phalanga era mais dado à pesca e tinha conseguido uns peixinhos que Nzumba preparou também para o marido. Estavam, com a Kizaka noutra marmita, a terceira e mais pequena de todas.
Era já hábito. Mulher e os filhos sabiam e disso não reclamavam. Quando o trabalho apertasse ou fosse noite de chuva, Mulalu não voltava à casa, preferindo dormitar no acampamento que distava cinco quilómetros da aldeia.
Kambambi meteu-se a caminho, cantarolando como rola ao nascer do sol. Transpôs um riacho e mais dois quando começou a gotejar. Chuva ainda miúda, criança como ele, caindo sobre as folhas das grandes árvores que se faziam paralelas à picada. Acelerou o passo para evitar chegar ensopado. A comida não. Estava segura, com as marmitas embrulhada em um saco de plástico.

Chegou molhado, numa mistura de gotejos pluviais e suor, mas alegre. Entregue a encomenda, passeou os olhos pela sala que se achava enorme, com uma mesa grande e duas cadeiras lado a lado. Era nela que o pai recebia os interrogados, antes de os sovar com a Maria da dores. No canto esquerdo estava um armário adornado com diversas palmatórias, todas elas nomeadas.
- É isso que faz os tios chorar como crianças?! - Interrogou-se sem o verbalizar, ante a presença de um "urso polar", cujo corpaço a todos intimidava e fazia descobrir o que houvesse de mais oculto.

Irrequieto, como são os kasule, Kambambi, num salto de corsa, desfez-se da sala e foi instalar-se à copa de um cafeeiro que exalava um cheiro ímpar, saído de flores virgens cor de neve. Trabalhavam nele alguns presos, sob o olhar de Xiku Adá, que empunhava uma caçadeira "22 longos". Uns faziam a poda atrasada e outros a adubagem, esperando incrementar a colheita do ano.
- Boa tarde, ti Manel, boa tarde tio Ngana Zando!- Cumprimentou, um a um aqueles que conhecia. Alguns eram de bairros próximos. Outros foi conhecendo à medida que ia levando comida e buscando os pratos vazios, mas eram todos do Kisongu.

Chegou a noite com todo o seu silêncio, interrompido, às vezes, pelo rosnar de um cão medrica ou de uma raposa no cio. O sol cedeu lugar às estrelas ofuscadas pela nuvens cinzentas, que viajam e se revezam sem parar, deixando tudo que é luz à mercê dos pirilampos e dos candeeiros do Posto administrativo.
- Kambambi!
- Papá!
- Vem dormir. - Chamou Mulalu ao filho.
- Papá, já tenho lugar no ti Januário!
- Qual Januário? Aquele terrorista?
- Não papá. Ele não é tractorista. Trabalha mesmo com catana na poda do café!
- Vem cá, pá e não te metas com esses trafulheiros que só sabem transgredir. - Voltou a chamar com uma voz mais enérgica.

Kambambi num canto. Um olho mirado para dentro, a contar as palmatórias e outro olho a contar as estrelas que se afundavam nas nuvens passageiras. Vieram-lhe à mente as lágrimas de mais velhos acossados pelas pancadas dos cipaios. Surgiram-lhe também memórias sobre a ternura daqueles tios e a doçura de suas estórias, contadas enquanto trabalham e ele brincando, ao pôr do sol, com os bagos do café que se desprendem das árvores.
- Papá, deixa-me só hoje dormir com eles. O meu papá é tão forte e invencível que eles nunca me fariam mal para não serem palmatoados.
Na cela e num lwandu, com os detidos, Kambambi passou uma noite inapagável. Soube que aqueles tios eram boas pessoas que não mereciam apanhar palmatórias que tiravam lágrimas, ranho e suor. No seu caderninho de memória rígida registou: tio Januário destilou kapuka que todos gostam de beber. Tio Kabari não pagou imposto porque a lavra dele pegou fogo. Tio Jwá Kindundango discutiu com o branco que lhe aumentou dias na renda. Tio Kindala deu cabeçada no mulato que dormiu com a mulher dele. Tio Nguxi lhe apanharam a ouvir rádio proibida. Tio Wayxi lhe apanharam com arma de matar branco. Tio Kambwiji meteu kalembe no rio para apanhar peixe. Tio Nyanga mulher bebeu kandingolo e lhe deu bofa. Ele lhe meteu dente na testa da tia Hebo. Tio Mbumba-a-Lunga não aceitou vender milho dele no sô Kahungu. Tio Kituji lhe apanharam com carta que disseram é panfleto. Tio Phande-a-Umba e Ngana Zando falaram no sô 'diministrador Kisongu é nosso ...
(estória base: infância de Eduardo Cussendala)

Publicado no Jornal Cultura de 07.07.22

quarta-feira, junho 08, 2022

O BÊBADO QUE NÃO BEBEU

(In: O gajo do pastor)

O sábado, na casa de Kajila, nunca foi dia de descanso. Chamavam-lhe o dia das infras. Era quando se examinavam paredes com fissuras, árvores a pedir poda, torneiras que choravam em vez de pingar, tomadas tombadas, lâmpadas fundidas e chapas furadas que cantavam ao passar do vento.

Feita a vistoria doméstica, seguia-se o périplo obrigatório pelas casas da mãe e da sogra — obras eternamente inacabadas — e, no fim, a infalível passagem pela Kam&mesa, que até o pastor Kapitia frequentava à surdina em dias de folga religiosa.

Como se não bastasse, no domingo ainda teria de trabalhar para o patrão: jornada marcada para as oito e trinta, mas sem hora para terminar.
A vida era dura para Kajila, que só descansava quando o cansaço, ele próprio, desistia dele.


Quando finalmente foi dispensado do serviço, já passava das duas da tarde. O corpo doía-lhe por inteiro e, no estômago, martelos batiam num carnaval de fome. Apanhou a estrada, passando pela baixa de Lwanda rumo ao bairro, cerca de hora e meia de distância. Pelo caminho ainda deu boleia a um convidado que ficara sem carro e precisava de ir ver um dikota que lhe prometera katula mbinza, pinga de primeira gota, daquelas que acordam até quem já desistiu de viver.

O trânsito até fluía. Era tempo de reabertura das praias, depois da pausa da covid‑19, e meio mundo fugira para o mar numa semana de sol ardente e água rara. A chuva ameaçava, mas cair mesmo, hum! nada.

Guiado pelo Google Maps, Kjila encontrou a casa indicada. Recebeu cumprimentos, reencontrou Kaxikana, um amigo comum, e ganhou mais outro — porque kapuka das ponteiras, quando se destila bem, arrasta sempre novas amizades, mesmo na capital.

Entre um dedo de conversa, uma pinga e um pedaço de qualquer coisa que combinasse com o álcool, Kajila acalmou a revolta do estômago e entrou no clima. Alguém contou a história do bêbado que não estava bêbado e os seis convivas desataram a rir como nos velhos tempos da Escola Bíblica de Férias do Ti Cinyama.

— Epá, sabem de uma coisa? — disse o mais velho entre os convivas e o mais viajado. — Foi em Londres. O homem era magnata, coleccionava Scotch de primeira linha, envelhecido mais do que muito kota da Kibala. Um dia, com um frasco desses no carro, bateu forte contra um tractor que lhe apareceu repentinamente pela frente. Sabem qual foi o dano?

A audiência manteve-se em suspense.

— Não. Conta.

— A garrafa partiu-se. Mas o pior de tudo é que havia polícia por perto.

Os outros acompanharam:

— E os socorristas?

— Também apareceram. Quando abriram o carro, o cheiro do Scotch inundou tudo. Deram-no por bêbado, mesmo sem ele ter tomado nada. A polícia fez‑lhe soprar o bafômetro e tudo! Ficou conhecido como o bêbado que não bebeu.

A mesa era uma mistura harmoniosa de kwanza-sulinos e um kalwanda, todos reunidos entre vinho da estranja e kapuka canelada da banda. O campo, as amizades antigas, as manias dos ricos e as carências dos pobres, tudo se misturava como no coro da Igreja Moisés, onde até o Kota Kumbu falava sobre lyamba e todos os percebiam que não era por malícia.

Quando o sol começou a curvar-se em vénia ao Atlântico, Kajila despediu-se e arrancou. A mulher e os filhos já o ligavam como namorado esquecido à porta da sogra.

Finda a visita, Kajila ganhara dois troféus. No banco traseiro, as duas garrafas de katula mbinza tilintavam, anunciando desastre iminente. A estrada, cheia de xingilamento e buracos, fazia o carro saltitar. Kajila encostou diante de uma propriedade bem tratada para reorganizar as garrafas antes que se matassem uma à outra.

Assim que abriu a porta traseira… lá foi ela:

— Buááá!

Caiu ao chão, rolou, espatifou-se sem piedade.

A garrafa de um litro de primeira gota, destilada em Kambaw e envelhecida no Nova Vida, desapareceu diante dos seus olhos.

Kajila ficou estático, com a alma a sair‑lhe pelo umbigo.

E, como num flash, lembrou-se da história do magnata inglês que acabara de ouvir.
Sim — também ele era agora vítima de um acidente alcoólico sem ter bebido uma gota.
O cheiro da primeira gota espalhou‑se pelo ar como incenso proibido.

Naquele instante, se surgisse ali um polícia ou um ancião como João Kambundu, Kajila já sabia qual seria a saudação:

— Como xtá, sô ’tor, bêbado que não bebe?!

E assim entrou, sem querer, para o anedotário dos kotas da Moisés, um lugar onde ninguém precisa beber… para ser bebido pela vida perene.

Obs: publicado pelo Jornal Cultura de 13.04.2022 

quarta-feira, junho 01, 2022

EVENTUAIS RAZÕES DO BILINGUISMO ENTRE OS AMBUNDU DO KWANZA-SUL

(Constructo) 
Nota prévia: a expressão bilinguismo, aqui utilizada, exclui da abordagem a Língua Portuguesa que é hoje falada e compreendida por mais de 71% dos angolanos¹. A análise cinge-se a línguas locais de origem bantu.

Um inquérito feito por Tomé Grosso entre os povos do norte e centro do Kwanza-Sul, para aferir que língua falam, indica a existência de bilinguismo, havendo habitantes de zonas predominantemente ambundu que também falam Umbundu e, eventualmente, pequenas bolsas ovimbundu, em território de maioria ambundu, que também se comuniquem alternativamente em Kimbundu. 

Do latim bilinguis, bilíngue é um adjectivo que se utiliza em referência a quem fala duas línguas. O termo bilinguismo, aplicado ao indivíduo, significa a capacidade de expressar-se em duas línguas. Numa comunidade, é a situação em que os falantes usam duas ou mais línguas alternadamente (WEINREICH, 1953). 

Espreitando o censo de 2014, verificamos que a Língua Portuguesa é falada por mais de 71% (média), sendo que nas áreas rurais a percentagem média de falantes baixa para 49% (Censo 2014). Por outro lado, o Censo 2014 aponta as províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-Sul, Kwanza-Norte e Malanje como a região de predominância ambundu, constituindo-se em 7,82% do total da população angolana (pg. 51), não afastando a existência, nesse espaço geográfico de Angola, de falantes de outros idiomas de origem bantu, com predominância aos ovimbundu. 

No seu conjunto, os ovimbundu constituem 22,96% da população angolana, sendo o Umbundu o idioma mais falado e dos povos que, pelas razões que elencaremos abaixo, mais emigraram para outras regiões, mantendo, entretanto, quase imaculada a sua cultura. 

- Por que haverá bilinguismo entre as populações do Kwanza-Sul? 
No inquérito efectuado para a sua monografia (licenciatura) que visou esclarecer a designação do idioma dos povos do norte e centro do Kwanza-Sul, Tomé Grosso identificou respostas duplas quando questionava "eye hoji lyahi wondola?" (que língua você fala), num quarteto de escolha entre ngoya, Kimbundu do KS, Kibala e Mbalundu (Grosso 2019, pg. 69). 

Seis respostas, dos 50 inquiridos, apontavam duplamente Kimbundu e Umbundu ou Kibala (variante de Kimbundu) e Umbundu, correspondendo a 12% dos respondentes, o que desperta a nossa atenção. No auge das monoculturas, início do sec. XX, os fazendeiros instalados no Kwanza-Sul, quer fossem portugueses ou alemães de origem judia, procuraram intensamente por mão-de-obra ovimbundu por, alegadamente, se mostrar mais apta ao trabalho manual e a viver acampada, o que não acontecia com os nativos locais, propensos à rebeldia e fuga, visto que, "na visão de Heimer (1980), o período colonial conjugou lógicas capitalistas e não capitalistas, conjugação através da qual se gerava o excedente da produção agrícola e se reproduzia uma mão-de-obra barata" (Quitari, 2010). 

José Capela (1978), citado por Quitari, descreve a forma «compulsória» como os povos do sul de Angola foram introduzidos na economia monetária para o pagamentos de impostos, recorrendo à venda da força de trabalho e/ou da produção agrícola aos colonos. Quer nos acampamentos, quer nas aldeias a que se juntaram ou constituíram, depois da desintegração das fazendas, esses antigos trabalhadores braçais ovimbundu conservaram sua língua, seus ritos de iniciação e festas e demais marcas de sua cultura, transmitindo-as a seus filhos e netos. 

As necessidades fisiológicas e de integração levaram-nos, por outro lado, a encetar processos integrativos, o que os levou a aprenderem o Kimbundu local. Tal processo levou a que, embora cada unidade linguística conservasse intacta a sua língua (Kimbundu para a maioria autóctone e Umbundu para as minorias emigrantes), se desenvolvesse um bilinguismo, na medida em que procuravam comunicar e compreender-se simultânea e indistintamente em cada uma das línguas. Outros processos integrativos e de fusão como os casamentos entre ambundu e ovimbundu, a frequência de catequeses, igrejas, escolas e instrução militar são também apontados como elementos que propiciaram o bilinguismo entre os ambundu e ovimbundu do Kwanza-Sul. 

S.K., 48 anos, natural de Mbangu de Kuteka, Libolo, entrevistado a proposito do bilinguismo entre os ambundu do Kwanza-Sul, afirma que aprendeu Umbundu nos momentos de recreio escolar, numa altura em que, enquanto neto de um antigo detentor da categoria de assimilado² era impedido de falar Kimbundu, ao passo que os seus coetâneos e colegas ovimbundu glosavam Umbundu nos intervalos entre aulas e durante toda a vida quotidiana longe da escola único recinto em que o professor os obrigava a falar a Língua Veicular. 

Katumbu K'Etinu, 75 anos, natural da margem libolense do rio Longa, afirma que sempre falou Kimbundu, porém, "por causa dos mbalundu da fazenda" e por, numa fase de sua vida, se ter juntado a um ngangela que falava Umbundu aprendeu a perceber e falar umbundu, tendo um filho que é meio ambundu e meio ngangela/ovimbundu. A anciã acrescenta que na última aldeia em que viveu (Pedra Escrita), que é um "ajuntamento de povos de varias origens", com destaque para os ambundu e ouvimbundu que trabalhavam nas fazendas coloniais, "todos falam Kimbundu, Umbundu e Português", sendo a última a "língua da escola, do contacto com a administração e visitantes". 

Semelhantes estórias foram ouvidas no Hebo (Ebo) e no Kisongo (Quissongo), contadas respectivamente por Sabalu Lumbu, 60 anos, e Kambambi Mulalu, 55 anos, que vivenciaram a passagem ao Estado, por força da Lei nº 37/6 de 3 de Março (nacionalizações e confiscos) de fazendas antes detidas por colonos, a desintegração dos acampamentos de trabalhadores de origem ovimbundu, recrutados no centro de Angola, e sua integração nas aldeias locais, próximas das antigas fazendas. Tal contexto político, histórico e sociológico, narraram, fez com que a necessidade de comunicação permanente, interação e integração das minorias propiciasse, quando possível, o surgimento do bilinguismo entre os ambundu do Kwanza-Sul (regiões em que existiram acampamentos de trabalhadores ovimbundu em fazendas agrícolas). 
... 
¹- Censo 2014 
²- Os assimilados eram os indivíduos que conseguiram demonstrar à administração colonial portuguesa que tinham alcançado um nível de evolução social que lhes permitia transitar de indígena para a categoria superior dos que tinham interiorizado e viviam segundo os preceitos da civilização europeia (adaptado de Nuno Domingos, 2020)