Translate (tradução)

terça-feira, setembro 08, 2026

PONTE SOBRE O ZAMBEZE: MEMÓRIA DE ÁGUAS

Atravessei o Zambeze nos dias 29 de Junho e 1 de Julho, quando o sol se inclinava sobre as margens de Kazombo e o vento trazia o cheiro das flores de buganvilhas melentas. A ponte nova, de ferro e betão, ergue‑se como um gesto de permanência sobre águas que não se detêm. Dizem que o Zambeze “entrou, não gostou e saiu” de Angola, mas quem o observa percebe que ele deixou raízes invisíveis, como quem planta lembranças antes de partir.

A velha ponte, de pedra e alma centenária, guarda apenas retalhos da sua serventia. Foi construída num tempo em que o rio era caminho de gente andrajosa, pescadores de misoji e de sonhos coloniais, tendo resistido até que a guerra lhe roubasse o corpo. Hoje, jaz como um verso esquecido, mas ainda murmura histórias nas margens. A nova, mais larga e firme, é símbolo de reconstrução, como escreveu Luandino Vieira, “há caminhos que se refazem quando o homem decide voltar a ser rio”.

O Zambeze, com sua correnteza paciente, parece carregar a memória de todos os que o cruzaram. António Jacinto diria que “há rios que não se cansam de correr, mesmo quando o homem lhes corta o caminho”, e é isso que se sente ao olhar suas águas: uma persistência que desafia fronteiras. O Kasay, seu vizinho inquieto, corre paralelo, precipitando‑se no Zaire, que desagua junto ao Soyo, dois rios que se despedem de Angola por rumos diferentes, mas com o mesmo destino de eternidade líquida.

A ponte de Cazombo, para além de uma obra de engenharia, é sinónimo de resistência. O gesto de atravessar é também o de recordar. Cada passo sobre o cimento é um reencontro com o passado, uma conversa silenciosa entre o viajante e o rio. O Zambeze, que toca Angola apenas de passagem, deixa no coração de quem o vê a certeza de que há águas que não se vão. Apenas mudam de nome.

Assim, entre Lwaw e Makondo, entre o rumor das águas e o pó da estrada, compreende‑se que o rio é também memória. A ponte nova é o testemunho de que o tempo pode reconstruir o que a guerra desfez e que o homem, ao cruzar o Zambeze, não atravessa apenas um curso de água. Atravessa a própria história.
=
In: Viagem ao Muxiko Leste

Sem comentários: