Mas talvez o verdadeiro motivo da minha indignação não tenha sido a aparência daquele homem. Foi o seu comportamento.
No início da "Grande Avenida dos Combatentes", em Luanda, há um contentor onde os moradores depositam diariamente aquilo de que já não precisam. É um recipiente destinado a concentrar o lixo, facilitar a sua recolha e, sobretudo, evitar que a cidade se transforme num imenso depósito a céu aberto.
Aquele homem, porém, parecia ter tomado o contentor como propriedade privada. Sendo meu caminho de todas as manhãs, tenho observado que o vigia como quem guarda um cofre. Não permite que outros se aproximem para procurar entre os descartados qualquer objecto que ainda possa ter alguma utilidade. É uma realidade que se tornou familiar nas nossas cidades: pessoas que sobrevivem do que os outros deitam fora e que, na sua luta diária pela sobrevivência, acabam por disputar o próprio lixo.
Até aqui, há uma questão social que merece reflexão e respeito. Quem procura comida, roupa ou objectos aproveitáveis no lixo está, muitas vezes, a revelar mais sobre a pobreza da sociedade do que sobre a sua própria condição.
O que me revoltou foi outra coisa. O contentor estava ali, ao alcance da mão. Mesmo assim, o homem pegou num saco de lixo e outras coisas fora dele e os atirou para o chão, ao lado do recipiente que ele próprio parecia considerar seu território. Foi então que abrandei a marcha da viatura e o chamei à razão — caso ainda a tivesse.
Há uma contradição difícil de aceitar: alguém pode disputar um contentor para retirar dele aquilo que considera aproveitável e, simultaneamente, contribuir para que a área à sua volta fique mais suja. E mais paradoxal ainda é ver o contentor vazio e a rua apinhada de lixo.
Talvez a pergunta mais importante seja outra: que cidade estamos a construir quando até quem vive do lixo deixa de respeitar o lugar onde o lixo deve ser colocado?
Não se trata apenas daquele homem. Trata-se de nós. Tripulantes de grandes cilindradas, passageiros em autocarros e táxis colectivos ou privativos, pais e encarregados que mandam os filhos descartar o lixo...
Uma cidade limpa não depende exclusivamente dos serviços de recolha. Depende também do comportamento dos cidadãos. O Estado pode instalar contentores, organizar a recolha e limpar as ruas. Mas, se continuarmos a atirar resíduos para o chão, a retirar as tampas dos contentores e das sarjetas, a espalhar o lixo ou a considerar o espaço público como coisa de ninguém, estaremos sempre a limpar hoje aquilo que sujámos ontem, sofrendo as consequências: moscas, mosquitos, ratos, malária e outras doenças devidas à pobre higiene.
Saí daquele episódio com duas conclusões: deitar o lixo no chão, estando o contentor ao lado, é um acto de incivilidade, seja cometido por um cidadão bem vestido ou por alguém que vive na rua; a dignidade humana não se mede pela roupa que vestimos, mas também não pode servir de desculpa para a destruição da dignidade colectiva.O contentor não é propriedade de ninguém. A rua também não. Ambos pertencem à cidade. E a cidade, no fundo, pertence a todos nós e deve ser cuidada por todos.
Por isso, urge maior sensibilização e também punição com coimas aos munícipes que insistem em lançar o lixo na rua, mesmo havendo contentores e horários estipulados para a deposição. Só assim poderemos inverter este ciclo de incivilidade e construir uma cidade verdadeiramente limpa.
* 27.08.26

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