Por Soberano Kanyanga*
A essência do assessor de comunicação e imprensa reside na sua missão de guardião da imagem e tradutor estratégico da mensagem institucional, um papel que exige muito mais do que a redação de comunicados ou o agendamento de entrevistas, pois ele é, fundamentalmente, o elo que articula a visão do líder com a percepção pública num exercício constante de equilíbrio. Para que essa articulação seja eficaz, o ideal preconizado pelos manuais de comunicação organizacional é que a sua sala esteja fisicamente o mais próxima possível do líder máximo, pois essa proximidade geográfica é, na verdade, uma metáfora poderosa da proximidade informacional que lhe permite estar a par, em tempo real, das decisões, tensões e oportunidades que moldam a instituição. Contudo, ao transpormos esse modelo para a realidade angolana, deparamo-nos com um cenário profundamente distinto, onde o assessor se vê, muitas vezes, confinado a um espaço periférico, longe do centro nervoso da organização, mas o problema não se resume à localização física, agravando-se com a sonegação deliberada de informações por parte do staff mais restrito do líder.
Este fenómeno, longe de ser um mero descuido, revela uma dinâmica de poder bem identificada por Max Weber, já no início do século XX, quando alertou para o poder dos aparatos burocráticos que, ao controlarem o fluxo de informação, moldam as decisões dos líderes sem que estes muitas vezes se apercebam, pois quem retém a informação detém, de facto, o poder.
Nesse cenário, o staff restrito, ao privar o assessor de documentos, convocatórias e informações cruciais, não apenas o enfraquece, mas cria um poder paralelo que distorce a própria capacidade de governação do líder, que, por seu turno, muitas vezes desconhece este cerco informacional tecido à sua volta. O mais grave é que, numa altura de aflição, quando uma crise eclode ou uma declaração infeliz ganha protagonismo, o líder recorre instintivamente ao assessor, julgando-o possuidor de todas as respostas e solicitando-lhe uma "solução urgente", mas é precisamente neste instante que a casa cai, pois o assessor, que nunca viu o documento em questão e não participou nas reuniões preparatórias, vê-se confrontado com perguntas para as quais não tem resposta.
Como adivinhar o conteúdo concreto de um documento que não passou pelas suas mãos? Como ser assertivo em respostas que lhe são exigidas em segundos, num ambiente de pressão onde o líder, desprovido de paciência, nem sequer dá tempo para que o profissional se explique?
As consequências para o assessor são devastadoras e quase sempre injustas, pois ele passa a ser catalogado como desorganizado, por supostamente não saber conservar informações, ou como lento na decisão, enquanto corre atrás do prejuízo tentando obter dados junto dos "poderosos paralelos", ou, pior ainda, como incompetente, uma pecha pesada e difícil de remover que não reflete a verdadeira origem do problema. É precisamente neste ponto que a realidade angolana revela a sua armadilha mais perversa: se o assessor ousa queixar-se permanentemente da ocultação de documentos, o preço a pagar é ainda mais alto, pois a denúncia, em vez de corrigir o problema, agrava a sua situação, fazendo com que os seus documentos nunca cheguem a despacho, as convocatórias para reuniões desapareçam e ele seja sistematicamente excluído, chegando tarde ou perdendo encontros cruciais, num ciclo vicioso onde o silêncio se torna a única estratégia de sobrevivência, mas o silêncio perpetua a exclusão, e a exclusão garante o fracasso que confirma a sua (injusta) reputação.
Chegamos, assim, ao paradoxo final: o líder, ao permitir, ainda que por omissão, este cerco informacional ao seu assessor, acaba por prejudicar-se a si próprio, pois nos momentos de maior necessidade confronta-se com um profissional desarmado, desinformado e desautorizado, precisamente quando mais precisaria de um conselheiro de confiança, munido de todos os dados e preparado para defender a "sua dama", como bem sublinha Osvaldo Manuel ao descrever a importância de divulgar factos benéficos para manter uma imagem positiva.
Tal desiderato é inviável sem acesso fluido à informação gerencial, tanto a boa como a má, e, como observa Olívio dos Santos, consultor de comunicação integrada, o assessor necessita de planeamento estratégico e gestão de reputação que dependem intrinsicamente de um fluxo contínuo de dados que lhe são sonegados. Embora a Lei n.º 5/17, de 23 de Janeiro, estabeleça as incompatibilidades entre o jornalismo e a assessoria, ela não regula a relação de confiança e o fluxo de informação entre o líder e o seu assessor, uma lacuna que, no contexto angolano, se revela particularmente custosa e que exige, para além da profissionalização técnica defendida pelo Ministério que tutela a Comunicação Social, uma urgente profissionalização das relações internas, que coloque a informação ao serviço da instituição e não dos interesses paralelos de quem a retém, pois enquanto o líder não compreender que o seu assessor é um prolongamento estratégico da sua própria capacidade de governação, o ciclo de incompreensão, frustração e fracasso continuará a minar a eficácia da comunicação e a credibilidade de quem, por vocação e ofício, deveria ser o seu mais valioso aliado na construção da confiança pública.
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*A propósito do dia internacional dos profissionais de Relações Públicas, Comunicação Corporativa, Assessoria de Imprensa e Comunicação Institucional, 16 de Julho.

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