Publicado no caderno fim-de-semana, do Jornal de Angola, 03/06/18, pag. q0
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quinta-feira, dezembro 29, 2016
MANGODINHO NO ISTMO
Publicado no caderno fim-de-semana, do Jornal de Angola, 03/06/18, pag. q0
quinta-feira, dezembro 22, 2016
NA HORA DA JANTA
quinta-feira, dezembro 15, 2016
MANGODINHO COM NOVAS IDEIAS
- É verdade, Mangodinho, até branco você lhe bate nas costas?
- Não fica mais burro. Prepara macroeira e, mês que vem, me acompanha. Vais ver o meu pai a lhes bater no ombro e lhes dar ordens. Diferença está só mesmo no estudo. Se a pessoas estudou mais e é chefe, branco contigo não torra farinha. Eu mesmo estou a pensar me meter na alfabetização. Pelo menos, assim, esses kafussas que andam a vir trabalhar na obra da estrada já não me vandalizam. Temos que crescer. Por hoje chega. Vou planificar algumas coisas que vi lá em Luanda e que podemos também fazer aqui. Vamos descansar e pensar.
Nota: texto inserto no jornal Nova Gazeta de 12.01.2017
quinta-feira, dezembro 08, 2016
SOZINHO EM CASA
quinta-feira, dezembro 01, 2016
MANGODINHO NA NGWIMBI
segunda-feira, novembro 28, 2016
ACHADOS E FUTADOS
Texto publicado no Nova Gazeta de 10.11.2016
segunda-feira, novembro 21, 2016
KYAMAFULU
Uns ainda tentaram fingir não ter ouvido, mas não tardou o soar da bala ao ar. O homem parecia disposto a alimentar os crocodilos de carne quente.
Todos: jovens, idosos, crianças e até mulheres de calças fizeram-se carga abaixo.
Era a vida do viajante homem, quando chegasse ao controlo militar na ponte sobre o Kwanza, em Kambambe. Kyamafulu (bicho mau) era assim.
- Kyamafulu, senhor polícia? Não pode ser. Aqui não há história que se conte nem estórias de roer as unhas. - Repliquei.
Kyamafulu só há um!
Obs: texto publicado na coluna "(Re)flexões leigas" do jornal Nova Gazeta, a 13.10.16
segunda-feira, novembro 14, 2016
"ORDENS SUPERIORES" LEVADAS A TEATRO DOMICILIAR
segunda-feira, novembro 07, 2016
INSULTOS CONSTRUTIVOS
Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 20.10.2016
terça-feira, novembro 01, 2016
TCHUNA BABY
segunda-feira, outubro 24, 2016
O ESTADO DA MINHA "NAÇÃO"
- Papá dormiu onde?
- Dormi aqui mesmo.
- Mas, quando fomos dormir, depois da última novela, não vimos o carro do papá!
Puxei o vinco na testa para ver se se apartassem de mim. Debalde! Os mais novos pareciam dispostos a obter a resposta que pretendiam, ou no mínimo amealharem a sua boa disposição para as aulas à custa da minha. Foi, na verdade, uma noite de insónia.
- Está bem, papá. - Fez-se pronta e diligente.
- Aponta a ideia e faz cartazes para afixar na parte traseira do quintal.
- Os vizinhos cagões e gozões, que dejectam ao ar livre, nas traseiras do meu quintal, e deixam seus sacos de lixo junto à minha porta, minando minhas árvores que plantei com esforço e suor, poluindo o ambiente à volta, fiquem avisados: Vou colar avisos para deixarem de abusar da minha paciência e bom-senso, sob pena de o corredor que serve de passagem aos que não têm outro caminho ser fechado com arame farpado e "feijão-maluco".
- Mas, ó papá! Se o papá fechar o corredor e algum vizinho quiser reclamar? - Atirou o mais novo.
- Ele que vá reclamar com os vizinhos cagões e deitadores de lixo.
- Não incomodem o vosso pai. Ele está cansado, sonolento e aborrecido. Ele limpa sempre, mas, dessa vez, passou-se? - Acudiu a mulher.
- Mamã, ele passou? Foi aonde? O papá não está aqui mesmo?!
O estado da minha "nação", minha casa, é, às vezes, complicado. Vezes há que se falam coisas de baixar os ouvidos. Outras, raras, é assim. Falamos por falar. E, para preencher o rol, ainda recebi a SMS da sobrinha:
- Tio, preciso que me faças uma redacção sobre direito. É urgente. Se for ainda hoje melhor.
- Fogo! No meu tempo, sobrinha, iria, caso tivesse, ao tio para pedir-lhe livros ou indicação de bibliografia relacionada ao tema. Queres que eu faça por ti?
- Sim. Você é meu tio prá quê?- Respondeu ela também ousada e pensando que estava coberta de razão.
- Aí é, sobrinha?
Quase falei mas ficou só já no coração.
- ..!
NOTA: Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 26.10.16
segunda-feira, outubro 17, 2016
A PRÓSTATA E A PROSTITUIÇÃO
Eram todos idosos, ou quase isso, e muitas das conversas já giravam em torno da prostatite — a que alguns tinham, outros temiam vir a ter, e outros só conheciam de ouvir falar nas visitas à “oficina dos homens”, como chamavam aos hospitais. E foi no meio dessa sabedoria de bengala e experiência que Kaxikana, bem calibrado pela cevada, largou a teoria que incendiaria o velório:
— A próstata vem da prostituição! — garantiu, firme, enquanto os amigos arregalavam os olhos, pedindo mais explicações.
— É verdade! Vocês não vêem que as duas palavras têm a mesma base? Eu explico… — insistia ele, orgulhoso da descoberta etimológica parida no fundo da caneca.
O velório decorria na rua da Ambaca, junto à pracinha do Kalisange (calissangue). Lá estavam todos os conhecidos da Igreja Moisés: Kitembu, Kanhanga, Kilole, Kapitia, Tina da Saia Longa, Aida, Laurinda, os anciães Pequenino e Domingos João… e, claro, Kaxikana, sempre ele, estrela maior do desatino.
No quintal pequeno e apinhado, os mais velhos discutiam a razão da vida com a Bíblia aberta no colo e cânticos para elevar a alma do falecido.
Lá fora, encostados à parede de uma casa de madeira, estava a turma de Kaxikana: uns defendiam o desfrute da vida, outros atiravam os Dez Mandamentos como travões aos exageros.
— Não adulterarás, diz a Bíblia — lançou Kanhanga.
— Tens razão, Kanhanga — respondeu Kaxikana, conhecido por amigo da espuma. — Eu cá acho que mulher é o pior dos males. Por isso é que me casei com a minha curtinha e espumosa!
— Vocês sabem que relação existe entre certa doença dos homens e certa prática de mulheres sem norte?
Aida, esposa de Kapitia, tentou puxar luz:
— Não, mano Kaxikana. Explica lá isso enquanto passo o café.
Café baptizado, claro — carregado de aguardente.
Kaxikana limpou a boca, empurrou o frango com um gole de cevada e retomou:
— Essa falta de géneros nas Lojas do Povo está a levar nossas irmãs à prostituição. Basta parar no Nzamba‑1, à noite, e ver quem apanha o autocarro 33 para a Baixa, atrás dos cooperantes. O resultado para esses estranjas vocês nem imaginam…
— Termina isso, homem! Conta lá essa cena das cooperantes!
Kaxikana inclinou a caneca, agora mais torpe do que lúcido:
— Yáh! Todos os cooperas que conheço têm problema na próstata. Tenho certeza de que isso vem da prostituição!
Entre gargalhadas, “tsês”, palmas e apupos, Kaxikana concluiu a sua tese “científica”.
Chegou ao grupo, pousou os olhos em Kaxikana, e sentenciou, com ironia paternal:
— Ó Kaxikana… vai, meu filho. Empurra. Bebe tua cerveja. Ninguém está a te ver!
No domingo seguinte, todos foram chamados ao gabinete do pastor Domingos João para a inevitável reprimenda.
segunda-feira, outubro 10, 2016
O ÚLTIMO CACHORRO DE TURBINA
Os pais, católicos devotos, sonhavam vê‑la de véu e grinalda a subir a calçada da missão. Mas Turbina, apóstata confessa, não lhes concretizou o sonho — nem enquanto vivos, nem depois de terem regressado ao pó. Durante anos foi mulher da vida; e, na vida, ganhou quase tudo: casa, carro, filhos e fama de mulher‑produto.
Com a idade a avançar e os filhos já a perguntar pelos muitos rostos que entravam e saíam da casa, Turbina abandonou a casa‑loja e ensaiou outros modelos de negócio. Mas os revezes económicos do país foram minguando as oportunidades. Vieram os dias de fome; os “arranjos” que lhe conferiam beleza foram rareando; e as picanhas, antes recauchutadas e bem apertadas nos vestidos, entregaram-se baloiçantes ao léu, como cão sem dono. A carroçaria, embora ainda avantajada, já mostrava sinais visíveis de desmazelo.
— Esse mercado está agressivo… — lamentava Turbina. — Umas coladas aos maridos que nem nesga deixam, outras largadas, outras em vida de pedra… Como vou conseguir meu homem? Como manter cama quente?
Foi assim, aflita, que se dirigiu à reza — dessas igrejas que prometem o mundo e mais algum recheio.
Ao voltar, reparou num ajuntamento estranho no segundo quarteirão. Ligou as antenas, e logo veio a informação: na aldeia, as notícias correm ao vento.
— A fila andou na rua de baixo — disse uma vizinha, ela própria coleccionadora de tesouros alheios.
— Aquela mana de cabelo longo morreu? Ai meu Senhor! — reagiu Turbina, com um grito capaz de molhar o bairro inteiro. — E o mano Jordão? Quem vai cuidar dos filhos pequenos? Ai sofrimento!
Turbina e Jordão — ou melhor, Turbina e Kimbundaria — já tinham trocado olhares… e algum calor. Ele, em tempos, fora cliente assíduo; e, no auge do descompasso do êxtase, chegara a propor-lhe casa e lar. Agora, com dona Eunice doente de morte, Turbina passou a espiar a casa do viúvo, visitando a vizinha com desculpas ensaiadas, enquanto engolia hectolitros de cuspo à espera do milagre: migração do homem alheio.
Chegada a noite do velório, Kimbundaria balançava a sua “turbina” como quem afia as armas. Parecia mais preocupada com a hora do funeral — ainda incógnita — do que com a dor de Jordão, que fingia, com a mesma destreza de sempre, os seus apetites kimbundásticos.
Entre suspiros teatrais e mão no peito, perguntava, volta e meia:
O funeral deu-se na tarde do terceiro dia. No sétimo, Jordão já caminhava mais solto, e Kimbundaria, vendo a porteira da “migação” entreaberta, apertou o cerco. Armou-se com um decote ousado, o arsenal turbinado de que era detentora desde miúda.
Ela conhecia os gostos do homem: funji de bombó, verduras, pevide e boa pomada. Sem delegação, assumiu o comando da cozinha, enquanto os parentes iaos chegando. Parecia chefe de logística: levava e trazia tachos, organizava as visitas, conduzia familiares ao quarto onde Jordão recebia condolências.
Mais tarde, quando os parentes mais distantes começaram a dispersar, e antes mesmo da missa do sétimo dia — marcada para aquela noite — Kimbundaria, vendo a migração quase confirmada, preparou o ataque final.
Enfrascou-se até tropeçar na sombra mais próxima. Depois, fingindo ser protocolo, anunciava entradas e saídas, enxugando lágrimas imaginárias. Aproximou-se do viúvo, encostou‑se a ele e soltou o último cachorro:
— Ó mano Jordão… as visitas para a missa de logo já estão a chegar. Não acha que já é tempo de me amigares? Me faz só esse favor, hoko?!
sábado, outubro 01, 2016
O GAJO DO PASTOR
(No Prelo)
O ano de 1984 corria apressado, como quem foge de dívidas antigas. Na Kalemba, a classe do Kwanza‑Sul acabava de se emancipar, erguendo-se em novo templo. Para os metodistas unidos — essa igreja protestante de raiz americana — cargo equivalia à paróquia, e classe, à pequena capela onde os fiéis mais próximos se ajuntavam durante a semana. O cargo era o espaço maior, o que acolhia os cultos dominicais, baptismos, casamentos e outras aglomerações necessárias ao espírito.
Domingos João António, depois de frequentar um curso teológico no Instituto Emanuel Unido, no Ndondi, fizera a travessia de mestre do coro da Kalemba a pastor do novo cargo, baptizado com o nome do profeta que guiou os israelitas das masmorras faraónicas até à Terra Prometida: Igreja Moisés.
O núcleo juvenil — Kitembu, o irmão mais novo; o sobrinho Kandungu; os amigos Kanhanga, Kapitia e Kilole; as meninas Celeste, ST, Tt; as irmãs Domingas e Henriqueta — enchia de canto a vizinhança do Nzamba‑1. Era comum ouvir dizer no quintal alheio: “Esses meninos de Moisés cantam como se tivessem anjos de reforço.”
O país, contudo, fervia: conflito armado, rusgas para o serviço militar obrigatório, filas nas Lojas do Povo, pedras e latas à espera dos “pioneiros” nas escolas… Mas tudo isso diminuía diante dos sermões do pastor Milocas, o Domingos João. Humor, realismo e uma esperança teimosa no futuro faziam da sua pregação um bálsamo raro. Muitas vezes a rua servia de nave auxiliar, porque a igreja, mês após mês, parecia encolher perante a multidão.
No meio da juventude, havia o Kandungu: meio‑mundano, meio‑mondano, mas fiel aos domingos — talvez porque o bairro, nesses dias, se tornava um poço vazio de conversa. Integrava o coro com um tenor afinado e um “Ámen” tão singular que até o pastor brincava: “Se o céu tiver porteiro, há-de abrir a porta quando ouvir esse teu Ámen.”
Ora, pelos becos do Cazenga ao Prenda, passando pelo Sambizanga, já corriam rumores de que o rapaz abusava, aqui e ali, de uvas fermentadas e cevadas baptizadas com lúpulo.
Naquela manhã, eram sete e meia no Sete‑e-meio, quando a porta tremeu de uns pum, pum, pum. Tt, apressada, amarrou o pano acima do busto e foi abrir.
Entrar ou não entrar? Tt, indecisa, preferiu ficar à porta. Lá dentro, o estado etílico do marido era um escândalo à espera de testemunha.
— Não, tio Domingos João. Dormiu de serviço. Este mês todo está a fazer fim-de-semana. O colega do turno está com problemas…
O pastor assentiu, mas os olhos não acreditaram.
— Muito bem, irmã Tt. Quando ele chegar, diz que o tio — e pastor dele — está preocupado. Que me procure em casa ou que compareça à igreja no domingo que vem.
Virou-lhe as costas e marcou passos de retirada, mas parou mais adiante, revezando mentalmente a agenda. Ainda era cedo para o culto das nove; havia outras ovelhas a visitar, outras almas a puxar para dentro do aprisco.
Tt aproveitou o silêncio para acender o ferro a carvão e preparar a beca que usaria no culto.
Foi então que, do quarto, talvez por pressentimento, talvez por faro, Kandungu perguntou:
— Tetéêê! O gajo do pastor já foi?
E quem respondeu não foi a mulher. A voz veio do lado de fora, serena, mas firme:
— Não, irmão Kandungu. O gajo do pastor ainda está aqui.
O pastor estava ainda a centímetros da janela do quarto, prestes a dobrar o beco. Ficou a frase no ar, pesada, e só então seguiu caminho.
segunda-feira, setembro 26, 2016
A ORAÇÃO QUE CUROU O MORIBUNDO
A amizade que carregavam há mais de meio século dava-lhes ousadia para falarem de tudo e sobre tudo. Entre eles, nada era segredo — apenas existiam segredos que se revelavam quando “a fila andasse”. Aí sim: abria-se espaço nos epitáfios e deixavam os parentes a saber das extravagâncias inauditas do de cujus.
Chegados da Kibala, Kitembu, Kanhanga, Kilole e Kapitia estranharam a ausência de Kandungu. O homem tinha o telefone desligado, não enviava os recados habituais aos manos da mesma geração e igualhagem, nem pedia dinheiro para as supostas curas de reumatismo — fundos que, ardilosamente, desviava para as suas “baixinhas espumosas”, como gostava de chamar às cervejas de garrafa curta.
— Compadres, o gajo deve ter ido para a pior… ou está a caminho disso. Depois do culto, é melhor irmos espreitar, ver se ainda encontramos o corpo quente — disse Kanhanga, prontamente apoiado pelos outros.
Juntaram moedas — as que sobraram de um domingo de muitos balaios: fundo de construção, acção de graças, dízimo do Senhor (“roubará o homem a seu Deus?”, perguntara o pastor, espetando a dúvida no cérebro e no bolso deles), oferta dominical, e por aí fora. Foi uma peneira fina, mas mais‑velho é já mais‑velho e tem sempre reserva estratégica. Com o sacudir dos kafokolos, onde geralmente se guarda essa reserva, fizeram a vaquinha para a viagem ao encontro do ausente.
Encontraram-no vivo — mas degradado. Sim, degradado e num estado lastimável. Os solavancos dos buracos na estrada entre Luanda e a sede da Kibala tinham-lhe abalado a coluna. Os antibióticos e analgésicos para as artrites tinham sido substituídos pelas “pequenas espumantes”. O amigo estava vivo, mas transfigurado. Mais morto do que vivo.
Entrou primeiro Kitembu — amigo e tio, embora dois anos mais novo que Kandungu. Depois, Kanhanga e Kilole. Kapitia chegou por último, vindo da casa da filha.
— Boa tarde, sô Kandungu. A esta hora já estás calibrado? — saudou Kitembu, gozador.
— Não brinques assim. Se me encontraram com vida é já sorte. Quanto à bebida de que sempre implicas, hoje só bebi mesmo uma. Estou a morrer… e nem sei por que razão Deus não me leva já — respondeu Kandungu, resmungão, com a voz trémula como se tivesse apenas instantes antes de “transitar” para outra dimensão.
— Mas ó Kandungu, morrer é mesmo o que queres? Quando há gente com noventa a fugir da morte como satanás foge da cruz? — perguntou Kilole.
— Sim, mano Kilo. Aqui já não está a dar certo. Sofrimento é muito. Morrer é descansar.
Os amigos, meio condoídos, meio irritados com aquele corpo gasto por vontade própria, decidiram retirar‑se e voltar no dia seguinte. Todos eram reformados, e Kitembu tinha um bom jipe para carregá‑los, quando não fosse na carrinha de dupla cabina que Kanhanga acabara de receber de oferta do filho.
— Vamos. Quando voltarmos, trazemos outras ideias. E esperamos não te encontrar mais nesse leito e nessa desgraça — disse Kitembu, puxando os outros para fora.
Kapitia, que chegara por último, ainda tentou convencê-lo a desistir da ideia de se eutanasiar:
— Mas ó mano Kandungu, ainda a semana passada enterrámos o irmão Domingos João. As lágrimas nos olhos ainda nem secaram… e você quer já nos deixar?
— Sim, Kapitia. É melhor eu partir. Se acham que estou a brincar, amanhã não me encontram mais — disse ele, com as últimas forças.
Kapitia, a meio caminho entre sarcasmo e compaixão, propôs uma oração. Mesmo Kandungu, que já não era da igreja, concordou — até o corpo, que parecia o próprio inferno sem forças para se pôr em pé, consentiu.
Kapitia ergueu a voz:
— Oremos: “Pai nosso, nosso Senhor, Deus que dá a vida e a retira quando quer, estamos aqui perante o nosso irmão que jaz nesse leito, mais pra lá do que pra cá. A vida que o irmão Kandungu leva é de muito sofrimento e miséria, Pai. Já que ele mesmo está a pedir… porquê que o Pai não manda esta noite o Seu anjo buscá-lo? Ao menos ele descansa — perto ou longe do Senhor — conforme as suas obras no mundo. Que assim seja. Ámen!”
— Ámen! — confirmaram os amigos.
Kapitia ainda não tinha terminado de pronunciar o último “ámen” e já Kandungu estava de pé, sacudido pelo instinto de sobrevivência.
segunda-feira, setembro 19, 2016
O MUNDANO E O "MONDANO"
Cinco idosos da Kibala — todos já na casa dos setenta — conversavam à sombra de uma mulemba antiga. Kitembu e Kanhanga carregavam uma amizade tão antiga quanto a fé que professavam. Desde pequenos frequentavam a igreja: um levado pelo irmão, o pastor Domingos João; o outro, conduzido por Beto Pequenino. Os tutores, eles próprios, eram amigos desde garotos.
Quanto à assiduidade na velha Missão Evangélica Americana — hoje Igreja Metodista Unida — havia diferenças. Kitembu “nasceu” na igreja; quando veio ao mundo, o pai já servia a denominação metodista. Kanhanga chegou mais tarde, aos sete anos, iniciado na “Cheia”, onde fora introduzido por um primo no Kwanza-Sul. Só depois, em Luanda, o tio protestante — adepto da igreja trazida pelo americano Willian Taylor — o encaminhou para a congregação que frequentaria por toda a vida.
Kapitia e Kilole, os outros dois do quinteto, converteram-se já jovens, puxados pelos dois primeiros, de quem eram amigos desde tenra idade.
O quinto, Kaxikana, era o caso especial: o único que trocava a Bíblia e o hinário pela caneca de cerveja aos domingos. Os outros explicavam: “Ele é meio do mundo…”, mas havia ali matéria para análise mais profunda.
O reencontro dos cinco aconteceu num óbito na Kibala, a terra que lhes era comum. Uns tinham nascido em Luanda, porém herdeiros do sangue kwanza-sulino; outros chegaram à capital para estudar e trabalhar, ficando por lá até verem o cabelo embranquecer.
Kitembu acabara de perder o irmão mais velho. Os amigos foram confortá-lo. Depois do funeral, para enfrentar o frio que começava a cair, sentaram-se juntos a remexer na vida: as coisas boas do mundo — aquelas que Kaxikana ainda perseguia com fervor — e as coisas excelentes do Céu, que Kitembu, Kanhanga, Kilole e Kapitia buscavam com entrega piedosa à causa de Cristo.
— Ó Kaxikana, você sabe qual é a duração da vida do homem na terra? — perguntou Kitembu.
Apanhado de surpresa, Kaxikana tentou ajustar a resposta à idade e experiência. Coçou a barba algodoada e soltou uns sons hesitantes, como um carro a pedir arranque.
Kilole atalhou:
— Já viu o que os copos fazem no homem? O ngajo parece que já esqueceu tudo! Setenta anos, como vem na Bíblia… já não sabes?
Kanhanga reforçou:
— São setenta anos para o homem sentir-se com força e saúde. Depois disso, a pessoa volta a ser como criança. Uma vala de metro e meio que antes se saltava sem balanço… agora já não saltas nem meio palmo, Kaxikana!
Kitembu pegou o fio:
— E parece que o mano Kaxikana — que, apesar de ser meu sobrinho, nasceu antes de mim — já não consegue pular nem meio metro. No sangue dele só corre espuma de cerveja!
— Ei, ó Kitembu, atenção ao respeito! — reclamou Kaxikana, em tom de brincadeira. — Tio é tio, mas quem nasceu primeiro também merece consideração!
O grupo caiu na galhofa.
Kapitia, que até então apenas acompanhava com a cabeça, entrou na conversa, abrindo um novo tema:
— Vocês sabem qual é a diferença entre o Kaxikana e nós?
Kitembu, Kanhanga e Kilole responderam quase em coro:
— Ele bebe, nós não. No domingo ele abraça a caneca; nós, a Bíblia e o Hinário.
Mas Kapitia abanou o dedo:
— Vocês não disseram tudo. Nós que vai na ingreja é mundano. Mas ele não. Ele é mondano.
Os quatro olharam-no boquiabertos. Até Kaxikana endireitou a coluna, curioso. O termo, desconhecido e intrigante, merecia explicação.
Kitembu pediu:
— Ó mano Kapitia, pode explicar ao Kaxikana o significado de mundano e mondano? Eu só sei que ele é mundano porque deixou de ir à igreja. Dou-lhe conselhos, mas ele não me escuta.
Kapitia pigarreou e abriu o sermão:
— Então oiçam bem. Todo aquele que vive no mundo, vá ou não vá na ingreja, é mundano. Agora… pessoa como o irmão Kaxikana, que não vai à igreja, que pecado dele se amontoa, é mondano. O termo vem de mondanha — montanha. Pecado dele é como uma mondanha, porque ele não vai à igreja diminuir.
O sermão terminou com assobios e palmas estridentes, dadas pelos amigos entre risos e lágrimas de alegria.
Assim seguiram noite dentro, fazendo o seu segundo serrão em homenagem a Domingos João António — até que o último galo se cansou de cantar.
segunda-feira, setembro 05, 2016
O RECÚO DA MONOCULTURA NO AMBOIM
Nota: Texto publicado pelo semanário Nova Gazeta de 08.09.2016.
domingo, agosto 28, 2016
NA FRONTEIRA ENTRE KAMBAMBI E LUBOLU
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