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segunda-feira, setembro 19, 2016

O MUNDANO E O "MONDANO"

(In: O gajo do pastor)

Cinco idosos da Kibala — todos já na casa dos setenta — conversavam à sombra de uma mulemba antiga. Kitembu e Kanhanga carregavam uma amizade tão antiga quanto a fé que professavam. Desde pequenos frequentavam a igreja: um levado pelo irmão, o pastor Domingos João; o outro, conduzido por Beto Pequenino. Os tutores, eles próprios, eram amigos desde garotos.

Quanto à assiduidade na velha Missão Evangélica Americana — hoje Igreja Metodista Unida — havia diferenças. Kitembu “nasceu” na igreja; quando veio ao mundo, o pai já servia a denominação metodista. Kanhanga chegou mais tarde, aos sete anos, iniciado na “Cheia”, onde fora introduzido por um primo no Kwanza-Sul. Só depois, em Luanda, o tio protestante — adepto da igreja trazida pelo americano Willian Taylor — o encaminhou para a congregação que frequentaria por toda a vida.

Kapitia e Kilole, os outros dois do quinteto, converteram-se já jovens, puxados pelos dois primeiros, de quem eram amigos desde tenra idade.

O quinto, Kaxikana, era o caso especial: o único que trocava a Bíblia e o hinário pela caneca de cerveja aos domingos. Os outros explicavam: “Ele é meio do mundo…”, mas havia ali matéria para análise mais profunda.

O reencontro dos cinco aconteceu num óbito na Kibala, a terra que lhes era comum. Uns tinham nascido em Luanda, porém herdeiros do sangue kwanza-sulino; outros chegaram à capital para estudar e trabalhar, ficando por lá até verem o cabelo embranquecer.

Kitembu acabara de perder o irmão mais velho. Os amigos foram confortá-lo. Depois do funeral, para enfrentar o frio que começava a cair, sentaram-se juntos a remexer na vida: as coisas boas do mundo — aquelas que Kaxikana ainda perseguia com fervor — e as coisas excelentes do Céu, que Kitembu, Kanhanga, Kilole e Kapitia buscavam com entrega piedosa à causa de Cristo.

— Ó Kaxikana, você sabe qual é a duração da vida do homem na terra? — perguntou Kitembu.

Apanhado de surpresa, Kaxikana tentou ajustar a resposta à idade e experiência. Coçou a barba algodoada e soltou uns sons hesitantes, como um carro a pedir arranque.

Kilole atalhou:

— Já viu o que os copos fazem no homem? O ngajo parece que já esqueceu tudo! Setenta anos, como vem na Bíblia… já não sabes?

Kanhanga reforçou:

— São setenta anos para o homem sentir-se com força e saúde. Depois disso, a pessoa volta a ser como criança. Uma vala de metro e meio que antes se saltava sem balanço… agora já não saltas nem meio palmo, Kaxikana!

Kitembu pegou o fio:

— E parece que o mano Kaxikana — que, apesar de ser meu sobrinho, nasceu antes de mim — já não consegue pular nem meio metro. No sangue dele só corre espuma de cerveja!

— Ei, ó Kitembu, atenção ao respeito! — reclamou Kaxikana, em tom de brincadeira. — Tio é tio, mas quem nasceu primeiro também merece consideração!

O grupo caiu na galhofa.

Kapitia, que até então apenas acompanhava com a cabeça, entrou na conversa, abrindo um novo tema:

— Vocês sabem qual é a diferença entre o Kaxikana e nós?

Kitembu, Kanhanga e Kilole responderam quase em coro:

— Ele bebe, nós não. No domingo ele abraça a caneca; nós, a Bíblia e o Hinário.

Mas Kapitia abanou o dedo:

— Vocês não disseram tudo. Nós que vai na ingreja é mundano. Mas ele não. Ele é mondano.

Os quatro olharam-no boquiabertos. Até Kaxikana endireitou a coluna, curioso. O termo, desconhecido e intrigante, merecia explicação.

Kitembu pediu:

— Ó mano Kapitia, pode explicar ao Kaxikana o significado de mundano e mondano? Eu só sei que ele é mundano porque deixou de ir à igreja. Dou-lhe conselhos, mas ele não me escuta.

Kapitia pigarreou e abriu o sermão:

— Então oiçam bem. Todo aquele que vive no mundo, vá ou não vá na ingreja, é mundano. Agora… pessoa como o irmão Kaxikana, que não vai à igreja, que pecado dele se amontoa, é mondano. O termo vem de mondanha — montanha. Pecado dele é como uma mondanha, porque ele não vai à igreja diminuir.

O sermão terminou com assobios e palmas estridentes, dadas pelos amigos entre risos e lágrimas de alegria.

Assim seguiram noite dentro, fazendo o seu segundo serrão em homenagem a Domingos João António — até que o último galo se cansou de cantar.

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