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segunda-feira, junho 29, 2026

O TEMPO E OS AUTOCARROS

Há dias, li que o Governo Provincial de Luanda está a devolver ao povo as praças, os largos, os espaços públicos que há muito haviam perdido a sua alma, sequestrados por interesses de alguns "chico-espertos". Transformam-nos, de novo, em lugares de convívio, de memória, de cidadania. É de aplaudir, sim. Porque a cidade não é feita só de prédios e de asfalto. É feita de encontros, de bancos onde se sentam velhos, de crianças que correm à volta de um chafariz, de jovens que se paqueram para dar em namoro e constituição de famílias e memória. Recuperar o património público é recuperar um pouco do que nos tiraram sem pedir e sem anuirmos.

E foi a pensar nisso que me lembrei do Cine Ngola e suas cercanias. Era um lugar movimentado. De manhã as partidas das carreiras que rasgavam o país levando e deixando pessoas, cartas, jornais, revistas e saudades. O Mercado dos Congolenses era limpo, organizado e "obrigava-nos a tomar banho e vestir roupa da escola ou de domingo para lá ir comprar algo que não se vendesse na Praça das Corridas que ficava perto do Supermercado Nzala Ikola de António Silvestre (próximo da Escola 5). À tarde, matiné e à noite soiré no cine com filmes que se mantêm intactos na memória: Trinitá, Minha última sétima bala, El bambino, Trapalhões na Serra Pelada, Meu nome é ninguém, etc.
Lembro-me de como ali, outrora, se juntava tanta gente para sonhar com outras vidas dentro do escuro de uma sala. Hoje, está ali um espectro de cimento ressequido e estropiado, sem cinema e sem serventia. Alguém vendeu o Cine Ngola para o transformar em nada.
Outro exemplo, mais fundo ainda: o espaço onde apanhávamos os autocarros da ETIM. A ETIM era uma coisa de outro tempo. Ligava quase todos os municípios de Angola, num tempo em que viajar era aventura, mas aventura possível. Lembro-me de mim, garoto, madrugada ainda cerrada, a acompanhar a minha mãe até aos "congolenses". As imbamba já equilibradas nas cabeças dela e na minha, um lenço atado, o olhar sério de quem vai para o Lubolu num autocarro da ETIM. E as máquinas eram as KEVE, rectangulares, montadas cá, montadas em Angola. Feias, dir-se-ia hoje, mas eram muito nossas.
A fábrica já era. A frota também desapareceu. As instalações da ETIM, em Luanda, foram vendidas ou cedidas à TURA. E da TURA, que foi dos autocarros? Há anos que não se vê um nas ruas de Luanda.
Uns dizem: "O Estado não é dos melhores gestores de empresas". E é verdade, muitas vezes. Mas privatizar um bem público para que ele deixe de ter serventia, isso, creio, é pior do que a mais desastrada das gestões estatais. Porque, ao menos, na gestão pública ainda há quem grite, quem reclame, quem se lembre de que aquele autocarro levava mães ao Lubolu, ao Wizi, a Ngulungu Artu, a Kamabatela, ao Mbalundu e Luvangu... Privatizado e abandonado, o bem vira coisa de "lobos". E ninguém pergunta: o que ganhámos com esta operação?
O tempo levou os KEVE, as rotas, as mães de imbamba à cabeça. De quando em vez, cruzo com um desses autocarros, sobrevivente periclitante, sôfrego, o ferro a cair, o tecto abatido. Parece um fantasma de si mesmo, mas lá vai deixando na descarga do escape o rasto da história, contando um passado áureo. Dá pena o autocarro e dá raiva o muito que devíamos ter e desandou.
Aplaudo, pois, o esforço de devolver praças e largos à cidade. Que se lembre também o Cine Ngola. Que se olhe para o que restou das instalações da ETIM passadas à falecida TURA, e se pergunte: que serviço público queremos, afinal?
Porque recuperar o espaço público é bonito, sim. Mas recuperar o serviço público, o autocarro que passa, a mãe que chega ao Lubolu, é mais urgente. É a memória a pedir passagem.

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