Rangel, 02 de Junho de 2026, semana da criança angolana. Ao passar pela antiga Escola Grande da Terra Nova, em Luanda, senti como se o tempo tivesse parado e me devolvesse às primeiras imagens da infância. Recordo o ano de 1979, chamado de Ano da Formação de Quadros, quando ingressei no ensino primário numa escola improvisada de adobe e coberta de capim, na aldeia de Kalombo, actual município da Munenga. As carteiras eram barracas de paus fincados no solo e o professor chamava-se José Boracha.
No ano seguinte, a sala de aulas foi transferida para a zona de pecuária da Fazenda Hoji ya Henda, onde frequentei a primeira classe. Era num sobrado das instalações da fazenda.
A segunda classe, em 1982, decorreu no antigo acampamento dos "trabalhadores mbalundu", junto ao campo de aviação, sob orientação do professor Jorge Manuel Carlos. Um cómodo que ainda conservava a cobertura foi aproveitado.
Em 1983, a escola foi deslocada para o intervalo entre as aldeolas de João Salomão e Kambundu Azevedo, perto da atual aldeia de Pedra Escrita. Construída pelos encarregados de educação, novamente em adobes e coberta de capim, tinha apenas uma sala com dois quadros improvisados, onde se intercalavam turmas de manhã e à tarde. A pré era conduzida por um monitor da quarta classe, sempre sob a supervisão do professor. Fazíamos mais de 8 quilómetros (ida e volta) em cada um desses lugares aonde íamos em busca do saber científico.
No ano seguinte, 1984, refugiado em Luanda e sem documentos, ingressei numa turma da segunda classe na sala 18 da Escola Grande da Terra Nova, tendo como mestre o professor Arnaldo Manuel Carlos. Já a terceira e a quarta que não terminei foi na sala 3 com a professora "Bebé", Luzia de nome próprio.
De volta ao Libolo, desta na sede municipal Kalulu, concluí a quarta classe (ensino de adultos) numa sala anexa da Escola nº 1 de Kalulu, Dr. António Agostinho Neto, instalada no Hospital Municipal do Libolo, com o professor Afonso Benedito. O segundo nível, quinta e sexta classes, foi feito entre 1988 e 1990 na escola Kwame Nkrumah. Depois do ataque da Unita a Kalulu, em Dezembro de 1989, regressei a Luanda em 1990 para frequentar o terceiro nível na escola Ngola Mbandi, antigo Liceu Emídio Navarro.
O ensino médio, no curso de Jornalismo, decorreu no IMEL, entre 1994 e 1996. Seguiram-se os estudos superiores em instituições de Angola, Brasil e Portugal: ISCED, ISPRA, FAAG e UFP, onde concluí o mestrado.
Cada escola, cada sala improvisada ou edifício mais estruturado, foi mais do que um espaço físico. Foram lugares de resistência, esperança e sonho. Hoje, ao olhar para a Escola Grande da Terra Nova, vejo não apenas paredes e janelas, mas ecos de vozes infantis, o cheiro do giz, o esforço dos professores e a persistência dos alunos. São memórias que se transformaram em raízes, sustentando o caminho que percorri e que ainda percorro.

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