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quinta-feira, janeiro 29, 2026

LINHA DE SINTRA: ENTRE CARRIS E DESENCONTROS

Desde 2002 que me sento, quando calha, nos "bancos enegrecidos" dos comboios que ligam Lisboa-Oriente a Sintra. A viagem é sempre mais do que deslocação, configurando-se num retrato vivo da cidade em mutação.

Nas carruagens, pulsa África, ecoam línguas do Leste europeu, surgem rostos asiáticos. É um mosaico humano que se repete, discreto, mas constante.
Todavia, há sinais que destoam. Na estação de Rio de Mouro, uma mulher africana vende milho fervido — ou “milho cozido”, como insiste em chamar. É uma cena que poderia ser banal em Luanda, Praia ou Dakar, mas aqui, na Europa, choca pela informalidade. A venda ambulante, tão comum em mercados africanos, não se encaixa na cultura europeia, onde alimentos se compram em mercearias, supermercados ou médias superfícies, sujeitos a regras de higiene e fiscalização. E não é caso único. Cenas semelhantes repetem-se em outras estações, da Damaia em diante, até Sintra, como se o hábito tivesse encontrado terreno fértil ao longo da linha.
Migrar é mais do que atravessar fronteiras. Impõe aceitar o pacto implícito de respeitar a legislação e a cultura do país de acolhimento. Quem chega deve adaptar-se, não transplantar práticas que colidem com normas estabelecidas. E é precisamente aí que reside a fricção. Muitos oeste-africanos, lusófonos ou francófonos, parecem resistir a essa adaptação, mantendo hábitos que, aqui, se tornam "ilegais" ou pelo menos socialmente desajustados.
Hoje mesmo, contaram-me duas histórias que ilustram bem essa tensão. Uma cabo-verdiana, residente em Lisboa, aos 40 anos já soma seis filhos, número elevado para a média europeia e difícil de sustentar face à carestia de vida. Outra, africana de religião muçulmana, conta dez filhos, estando sob o olhar atento das autoridades locais, pois não dispõe de meios suficientes para sustentar tamanha prole. São exemplos que revelam como práticas comuns noutras geografias entram em choque com a realidade europeia, onde a natalidade é baixa e a exigência de sustento é rigorosa.
E há ainda um dado que salta aos olhos de quem viaja: a presença numerosa de africanos nas carruagens da Linha de Sintra. São maioria esmagadora em muitas paragens e apeadeiros, entrando e descendo em Benfica, Amadora, Cacém, Massamá, Monte Abraão, Damaia, Rinchoa, Sintra e cercanias. A pergunta impõe-se: terão os aglomerados em volta desta linha sido construídos para eles ou será antes a “solidariedade involuntária”, de que falava Durkheim, que os atrai, criando redes invisíveis de proximidade e pertença?
Além de transporte, o comboio é também espaço social, onde se revelam dinâmicas de integração e de desencontro.
O comboio da Linha de Sintra transporta histórias de mobilidade e esperança, mas também expõe tensões culturais. Entre carris e estações, Lisboa revela-se como cidade aberta, mas exige reciprocidade. Acolhe, sim, mas espera que quem chega cumpra as regras que sustentam a vida colectiva.
Vender milho fervido na estação, multiplicar filhos sem meios de sustento, transportar hábitos deploráveis de África — como o falar alto e o descuido com os descartáveis — pode parecer gestos inocentes ou escolhas pessoais, mas são também símbolos de desencontro entre culturas e de uma integração que ainda não se cumpre plenamente.
E se em Lisboa se assiste a este cenário, em Luanda não é diferente. O número crescente de senhoras, nacionais e estrangeiras, que fazem uso da burca — vestimenta feminina muçulmana que cobre todo o corpo e o rosto — levanta preocupações legítimas. Numa cidade e país onde o crime cresce diariamente, com relatos frequentes de raptos e abusos de menores, não seria razoável permitir que pessoas totalmente encapuzadas circulem livremente em espaços públicos, sem que se possa aferir quem são, o que fazem ou onde vivem. Pior ainda é que o número de encapuzadas cresce aos olhos de quem deveria vê-las e pôr um fim à permissividade. Seria anormal exigir que mulheres dessa religião, sem interferência na sua confissão, andassem com o rosto visível? É o mínimo que se pede, pela segurança, pela transparência e pelo respeito à convivência urbana!

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Nota de Autor


Soberano Kanyanga
é o nome literário de Luciano Canhanga, escritor, cronista e investigador das tradições culturais angolanas. A adopção do pseudónimo corresponde ao compromisso estético e intelectual que o autor assume com a palavra escrita, com a memória colectiva e com o imaginário das comunidades que o formaram.

Natural do Libolo, Cuanza‑Sul, e radicado em Luanda, Luciano Canhanga construiu um percurso marcado pela observação fina do quotidiano, pela recuperação das narrativas locais e pelo diálogo contínuo entre a infância, a oralidade e a modernidade angolana. A sua escrita combina ternura e rigor, humor e crítica social, numa constante afirmação da identidade cultural.

Contos para Lúcia, obra dedicada à sua filha, inscreve‑se na continuidade desse projecto literário: resgatar valores, afectos e memórias que atravessam gerações, valorizando o espaço familiar como território de aprendizagem sensível e criativa. Cada história é um gesto de carinho, um fragmento de vivência e um convite à imaginação.

Qualquer referência que atribua o pseudónimo Soberano Kanyanga a outro autor constitui erro de identificação.
O nome literário Soberano Kanyanga pertence exclusivamente a Luciano Canhanga.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

AMÉLIA SUTILA, MULHER LOTADORA DE VIANA

Em Angola, os táxis colectivos — popularmente chamados de candongueiros ou “azuis e brancos” — são parte essencial da mobilidade urbana. Cada viatura tem dois protagonistas: o condutor, que dirige, e o cobrador, que recolhe o pagamento e organiza os passageiros dentro do carro.

Mas há uma terceira figura, menos conhecida e igualmente indispensável: os lotadores. Estes profissionais são os organizadores das “praças” (locais de embarque, também chamados de “placas”). São eles que anunciam os destinos, chamam os passageiros, orientam-nos para o primeiro carro da fila e mantêm a ordem. Quando surgem conflitos entre condutores ou cobradores, são os lotadores que intervêm para resolver as querelas. Em tempos passados, chamavam-se simplesmente “chamadores”. Hoje, continuam a ser a ponte entre passageiros e veículos, garantindo disciplina e fluidez no embarque.

Entre esses organizadores, destaca-se Amélia Sutila, uma mulher que desafia padrões num espaço dominado por homens. Com perto de quarenta anos e quatro filhos, vive no Bairro Kapalanga, antigo município de Viana, hoje Mulenvos.
“É casa própria”, diz orgulhosa.

Sempre que passo, a caminhar, pela rotunda junto à Igreja Católica de Viana, chama-me a atenção a voz feminina que convoca passageiros para os táxis coletivos. É única naquele espaço, rivalizando com jovens do sexo masculino que a respeitam e a tratam como “nossa mamoite”.

Durante algum tempo hesitei em abordá-la, receoso de receber uma “tampa”. Desta vez, porém, a coragem venceu a timidez e encontrei um ser alegre e simpático.
— Boa tarde, minha mana! Gostaria que me desses uma entrevista, mas sem interromper o teu negócio — provoquei, com humor.
Amélia sorriu, segura do que faz.
— Para publicar aonde? — perguntou, com semblante de quem aceitava o desafio.

Enquanto organizava dois taxistas em desentendimento sobre quem chegara primeiro, mostrei-lhe provas no telefone:
— Sou cronista. Escrevo e publico no Jornal de Angola — disse, exibindo recortes de crónicas já publicadas.
— Eu aceito, mas depois de sair no jornal vem mostrar também — concluiu, entre firmeza e simpatia.

A conversa foi breve. A paragem em que actua é organizada e movimentada. Faz questão de ter as viaturas alinhadas por ordem de chegada e lota uma a uma.
— Aqui há ordem. Os desordeiros não conversam comigo. A esquadra 46 está próxima — afirmou, com determinação e sorriso quase maternal.

Quando perguntei sobre o rendimento, respondeu sem rodeios:
— Diariamente, ganho entre quinze e vinte mil. É dinheiro que dá para comer, pagar propinas e me arrumar.
Brinquei:
— Falou em arrumar-se...
— Sim. Perfume, roupa em condições, cabelo, etc. Eu me aprumo como se estivesse a ir às instalações do patrão.
Amélia Sutila é exemplo de mulheres que olham para as oportunidades e empreendem o seu capital. Não é por ser mulher que comanda e organiza, há mais de um ano, uma paragem de táxis coletivos. É por ser inteligente e resiliente. Mais “Amélias” são necessárias para fazer Viana — e Angola — melhor.

Publicado no Jornal de Angola de 11 Jan. 2026


quinta-feira, janeiro 15, 2026

PEDRA, BRONZE E IDEOLOGIA

Em 1963, durante a visita oficial à então província ultramarina de Angola, o Presidente da República Portuguesa, Américo Tomás, chegou à cidade de Carmona, hoje Uíge, onde foi erigido um busto em sua homenagem, repousando sobre uma estrutura de mármore no principal largo da cidade. A escultura, símbolo da autoridade colonial, permaneceu no local até à independência de Angola em 1975.

Com a ascensão do modelo socialista e a redefinição dos símbolos públicos, o busto de Américo Tomás foi removido do pedestal, sendo substituído por uma figura emblemática do marxismo internacional: Vladimir Lénin, descrito na época como o “guia mundial dos trabalhadores”. A nova escultura representava o alinhamento ideológico do novo Estado angolano com os países do bloco socialista, num contexto de luta anti-imperialista e afirmação revolucionária.

O busto de Lénin permaneceu no largo até perto de 1990, ano da queda do Muro de Berlim, que marcou o declínio das referências soviéticas em várias partes do mundo. Com o fim da Guerra Fria e a abertura política em Angola, o monumento foi desmontado e separado: o pedestal de mármore encontra-se hoje no Hall do Governo Provincial do Uíge, enquanto o paradeiro do busto permanece desconhecido.

Mais do que simples estruturas de pedra e bronze, os monumentos são marcos da memória colectiva, que espelham os ciclos de poder, os ventos da transformação e os pactos simbólicos entre o Estado e o povo. A sua trajectória convida à reflexão sobre o papel da escultura pública na construção da identidade nacional, na pedagogia da história e na reconciliação com o passado.

domingo, janeiro 11, 2026

ANGOLA VS PORTUGAL: DESCOBERTAS & RECIPROCIDADE


Vendo bem, a tão propalada emigração ilegal de África para a Europa não passa de uma questão de reciprocidade histórica. Em 1482, Diogo Cão, navegador ao serviço de D. João II, aportou à foz do rio Congo, erguendo padrões de pedra como símbolos de soberania. Não trazia passaporte, nem foi recebido por autoridades fronteiriças. A missão era clara: abrir caminho para a exploração e domínio.

Seguiram-se degredados, condenados, pobres sem terra, artesãos sem mercado, analfabetos e soldados. Paulo Dias de Novais, em 1575, fundou a colónia de Luanda com quatrocentos homens, muitos deles aventureiros e militares sem fortuna. Vieram em nome da “civilização”, mas logo se dedicaram ao comércio de escravos e à apropriação de terras e recursos naturais. Ficaram quinhentos anos, sem que ninguém lhes cobrasse renovação de estadia ou exigisse documentos. Tornaram-se donos de tudo quanto era nosso, por "dádiva" que diziam divina.

Hoje, cumprida a “missão civilizadora”, não será lídino que nós também descubramos o outro lado? Vamos com passaportes, levamos algum dinheiro e ficamos para conhecer como são por lá as coisas. Não nos apossamos de terras, de minas de ouro ou poços de petróleo, nem de mulheres alheias. Apenas buscamos oportunidades. Quem é, afinal, o maior pecador nesta equação de aproveitadores?

Os números falam por si. Em Angola, embora o fluxo de novos emigrantes portugueses tenha diminuído [menos de mil chegaram em 2024] a comunidade instalada continua numerosa, mantendo presença visível nas cidades e nos negócios. Ilegais, com sobreestadia, também os há e nem temos fechado supermercados para os rusgar.

Até 1975 viviam "ilegalmente" no território angolano perto de meio milhão de portugueses. Em 2014 a estatística apontava 120 mil e actualmente são cerca de 30 mil.

Em Portugal, por sua vez, a comunidade angolana cresceu 66% em 2025, chegando aos 92 mil residentes legais, tornando-se a segunda maior entre os estrangeiros.  

Reciprocidade, pois. Ontem vieram sem passaporte, hoje nós vamos com documentos. Ontem instalaram-se sem pedir licença, hoje buscamos apenas oportunidades legítimas. Ontem apropriaram-se de terras e de vidas, hoje procuramos trabalho e dignidade. A história, vista de frente, devolve-nos o espelho: quem descobriu quem, e quem aproveitou mais?

Por: Soberano Kanyanga

quarta-feira, janeiro 07, 2026

UMA HISTÓRIA POR CONTAR EM MAKELA MA NZOMBO

Na rua principal de Makela ma Nzombo [Maquela do Zombo], onde o trânsito flui em dois sentidos separados por um longo "chouriço" e a vida administrativa pulsa entre edifícios públicos, emerge uma estrutura silenciosa e enigmática. Entre a Direcção Municipal da Saúde e a Administração local, no lado direito de quem sobe, encontra-se um edifício de alvenaria cuja laje superior está desabada — como se tivesse sido interrompido por uma força súbita.

A origem do dano permanece envolta em especulação. Terá sido resultado de bombardeamento aéreo? Terá sido atingido por dinamite?

O edifício, hoje com a parte superior decepada e sem função aparente, levanta perguntas que ecoam entre os visitantes e os moradores mais novos: 

Que serventia teve antes de ser danificado? 

Quem o construiu? 

Quem o destruiu, quando e porquê? 

Nenhuma placa, nenhum registo visível, nenhuma memória oficial parece responder com clareza ao visitante de Makela ma Nzombo.

Mais do que ruína, a estrutura representa uma história por contar — um capítulo suspenso da memória urbana, que desafia o esquecimento e convida à investigação. A sua presença física, entre instituições que simbolizam cuidado e governação, reforça o contraste entre o que foi e o que poderia ter sido.

Recuperar a história deste edifício é mais do que um exercício de curiosidade: é um gesto de respeito pela verdade, pela arquitectura interrompida e pela memória dos que ali viveram, trabalharam ou resistiram.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

ESCOLAS, IGREJAS E O PARADOXO DA SOLIDARIEDADE

Nas comunidades rurais de Angola, o cenário habitacional é frequentemente marcado por construções precárias: casas maioritariamente de adobe, pau-a-pique e coberturas improvisadas com chapas de zinco envelhecidas ou capim. A paisagem revela não apenas carência material, mas também um desafio profundo de mobilização comunitária para o bem comum.

Quando se propõe a edificação de uma escola comunitária — mesmo que provisória — para elevar o nível de conhecimento das crianças e da própria aldeia, a resposta é quase sempre categórica: “É obrigação do governo.” E de facto, é. Todavia, quando o Estado ainda não chegou, seria nocivo à comunidade “quebrar esse galho”, se quem mais ganharia seria ela própria?

O paradoxo torna-se mais evidente ao observarmos as igrejas locais. Com recursos escassos, os aldeões conseguem erguer templos imponentes para os seus padrões, sustentando-os com ofertas semanais — pecuniárias e alimentares. A fé mobiliza, une e constrói. Mas por que não se aplica essa mesma força à educação, à saúde, à dignidade dos que servem?

Em tempos, sugeri a construção comunitária de casas para professores e enfermeiros que percorrem até 200 km para prestar serviços à aldeia. Argumentei que isso atrairia suas famílias, reduziria faltas e garantiria melhor atendimento. A resposta foi dura: “É obrigação do governo. Eles são pagos e não dividem seus ordenados connosco.”

E os pastores? Que mais-valia trazem? São pagos com as ofertas domingueiras e outras dos mesmos crentes que negam colaborar com a educação e a saúde. Os pastores dividem os seus rendimentos? Ou será que oferecem algo mais intangível — fé, esperança, pertença — que os torna dignos do esforço colectivo?

Esta reflexão não pretende desmerecer a fé, mas sim convocar a consciência comunitária para o valor da educação e da saúde como pilares de emancipação. Se a fé constrói templos, que a razão construa escolas. Se o espírito acolhe pastores, que o corpo acolha professores e enfermeiros. A solidariedade não deve ser selectiva. Ela é o cimento da cidadania.

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Publicado no Jornal de Angola a 09 de Novembro de 2025