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quinta-feira, julho 20, 2017

VIAGEM AO QUISSONGO

"Se for contra LCB num aguenta. A unita só tem boca no Quissongo!" . Já são poucos os que ainda recitam essa canção do meu tempo de meninice, em Kalulu (Calulo), nas décadas de 80 e 90 do séc. XX.

O Quissongo, zona recôndita do município do Libolo, era intransponível, dada a sua localização geográfica e ocupação pela rebelião armada, na altura, fazendo daquela sede comunal o seu bastião no tempo da guerra fria e conflito pós-eleitoral.
Conheci a sede comunal do Kissongo a 15 de Julho/2017. O Quissongo é o reflexo do Libolo mais profundo e (ainda) "original" com a sua cultura, ritos e actos de passagem em estado puro. A sede comunal é uma (antiga) vila no meio da vegetação encontrando-se, aos pedaços, devido à acção humana e desgaste do tempo... vai havendo remendos ao que sobra e tímida inovação, mas faltam dois catalisadores fundamentais: estrada e telecomunicações.


São perto de trinta e cinco quilômetros que gastaram não menos de duas horas ao volante de um 4X4 em excelente estado técnico. A picada que separa Kalulu do Quissongo é sofrida, estreita com declive acentuado, curvas apertadas, buracos, crateras e pedras no traçado (para piorar)...
À entrada da circunscrição, um túnel natural. Árvores que ladeiam a picada fazem arco, procurando abraçar-se, o que representa um regalo a quem vai ao Quissongo. O chafariz "dia-e-noite", cuja captação vem da montanha, resiste às intempéries e aos desmandos dos homens. A água só falta se alguém sabotar o tubo. Porém, a bela tem senão:
Mal o sol se esconde atrás da cordilheira montanhosa e paleolítica, a escuridão canta alto. O gerador de electricidade, pertença da administração comunal, há muito que não é ligado por falta de dinheiro para a compra do gasóleo. Como consequência, a televisão inexiste, assim como a comunicação telefónica. O sistema comunitário "liga-liga" (funciona por meio de antena receptora de sinal por via satélite) também engorda de poeira. O Quissongo, apesar da vontade de seus aldeões em ser cidadãos do mundo, continua" distante". Pior ainda porque, conforme se conta, "o empresário que estava a financiar a montagem da antena de uma operadora de telefonia móvel também desistiu devido à crise financeira.
A antiga vila tinha mais infraestruturas e serviços concentrados do que a sede da comuna da Munenga, também no Libolo. A Direcção dos Serviços de Agricultura e Florestas (DSAF) estava representada no Quissongo. As casas eram bem concebidas, feitas de tijolos e cobertas de telhas, possuindo no passado água canalizada.
No Quissongo ainda falta o comércio que pode ser despertado pelo asfalto. "Temos de pensar no país que é eterno, assim como os colonos vindos de longe construiram no meio do mato aquelas estruturas que olham silenciosas para nós com pena".
Estamos convictos de que "a estrada aproxima e as telecomunicações integram aos localidades e os povos ao mundo".
- Camarada chefe, aqui não há luz. Dinheiro também não há. O divertimento dos miúdos e dos jovens é só mesmo jogar a bola e beber makyakya. Manuel Sende, o meu interlocutor, é um jovem ainda cheio de esperanças.
- Estamos a esperar que reparem a picada e a energia chegue também aqui. Os mais velhos dizem que no tempo colonial nem Kalulu torrava farinha com o Quissongo! Terminou com um sorriso ténue.
Do ponto de vista político-partidário, vi mais propaganda do MPLA e do seu candidato. Dos antigos ocupantes, apenas uma solitária bandeira na sede comunal. Outra trémuma e quase já sem cor respondia pela coligação casa-ce. Dos demais concorrentes às eleições de Agosto, nem ouvir falar.
- Agora, os garimpeiros estão também a apanhar tareia no seu antigo "acampamento". Confidenciou um aldeão, com ar sisudo quando perguntado sobre a oposição política.
- Eles atrasaram o Kissongo. A nossa vila está em pedaços. Prosseguiu o mais velho para rematar: - Sabemos que vamos ganhar as eleições, até aqui no Quissongo, mas temos de ter coragem e pensar no país que nunca acaba. Temos de fazer como os colonos que, mesmo saídos de longe, construíram no meio da mata coisas que duram até hoje. Essas casas, se fossem pessoas, estariam a nos olhar com pena de não termos acrescentado nada ao que recebemos na independência.


 

 


 
 


 


 


 


 
 
 
 




 





 

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