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sábado, julho 29, 2017

KITOTA NA MUNENGA


Naquele dia do ataque à Munenga, em Fevereiro de, parecia que até os cães se tinham aposentado de ladrar. Ou estava tudo muito calmo ou eu não tinha reconhecido o suficiente aquele vilarejo.

À madrugada, os kwaca (cuacha) que gostavam da alvorada, atacaram.

- Avança, kovaso (covasso), agarra, kwata... Verberavam em meio a cânticos e batucadas do pessoal de rapina.

Balas perfurantes sobre a pobre cozinha em que Sabalu-a-Soba e eu dormitávamos. Ele, meu primo mais velho, apertou-me junto do seu colo.

- Não grita. Não chora. Ordem de mano. - Cumpri.

Um Kwaca entrou armado. Roubou o cobertor que usávamos. Levou o recipiente que continha óleo de palma. Levou, acto contínuo o veado que defumava. Vasculhou outras coisas. Parecia não nos ver. Confesso que não viu. Ainda bem que só tinha olho para comida e vestuário.

Depois vieram outros. Um deles, chefe com duas estrelas ao ombro, botas lusidias e acastanhadas. Falava bom Português ao meu ouvido de então. Depois, quando toda a nossa família alargada já se achava encostada à parede frontal da casa que nos acolhia (Manuel Albano), sem sabermos qual nosso destino (uns já carregavam imbambas e cerveja roubada do bar do Sangue Frio em direcção ao Ngana Mbundu), eis que o kwaca-chefe sacou de sua “kilera” uns papéis e mandou meu mano Sabalu lê-los. Ele que já frequentava o III nível na Kwame Nkrumah, em Kalulu, leu como esperado ou terá ultrapassado a expectativa. Era em Francês. Espantado, o Kwaca-chefe teve de simpatizar-se com ele.

- Já não vais connosco. Ficas aqui a responder pela jura (algo que não sabíamos o que era).

E para mim, virou-se em tom ameaçador: e tú, ó menino, sabes ler?

- Sim mano. Estudo a terceira classe.

- Pois é. Então ficas aqui com o teu mano. A partir de hoje és da alvorada. - Ordenou o Kwaca-chefe.

Assim, ficámos sãos e salvos, enquanto outros jovens, adolescentes e crianças que foram surpreendidos nas suas casas tiveram de "acompanha-los", carregando fardos. Uns seriam soltos. Outros seguiram para nunca mais voltarem. Ngana Mbundu e sua tia (madame Lina, também conhecida por Senhora Kasenda) foram raptados. Os alemães eram já idosos. Consta que as filhas, Érika e Mónica, tudo fizeram junto do governo racista da África do Sul que mandava na Njamba, mas debalde. Nem ossadas foram devolvidas.

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