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domingo, fevereiro 28, 2016

MATEUS 5:25


(In: O gajo do pastor)

Era domingo. Segundo domingo do mês terceiro. O templo — edifício de cultos da Igreja Pastor Murras (IPM) — estava em plena reabilitação. Eram tempos de carências sociais: faltava dinheiro para consultas, para remédios, para erguer casas, para pagar casas, até para manter a panela acesa.

Na IPM, onde as pessoas se entregavam a granel e depositavam os seus poucos proventos na esperança da repetição do milagre dos “peixitos e pãezitos”, vivia‑se a melhor época de colheitas. A alta hierarquia, à semelhança dos agentes comerciais mais ousados, publicitava a fé nas rádios, nos jornais, nos outdoors e inundava as artérias das cidades com panfletos em busca de fiéis.

Os aflitos ocupavam as primeiras fileiras; os mais ou menos iam hesitantes; e os ricaços só apareciam para lav(r)ar o dinheiro.

Naquele domingo de chuva e sol, era do alto do púlpito que o eloquente pregador Kabwiza soltava a voz, como nunca antes, fazendo lembrar os anjos celestes com as suas arpas melodiosas.

Kabwiza puxava por todos:
Coro central! Máquina melódica da igreja!
Coro das mulheres!
Máquina reformada dos homens!

E todos entoavam, radiantes:

“Tempos de colheitas…”

O piano soluçava as pausas e empurrava os tons altos. Até os mudos pareciam cantar no íntimo; os surdos balançavam na mesma cadência, jurando ouvir “messes abundantes havemos de trazer”.

Os balaios passavam sem descanso. Era o espremer das carteiras e o sacudir das algibeiras até ao último centil. Cantou‑se para a acção de graças. Depois para o fundo de construção. Depois para a oferta dominical. Depois para o dízimo.

Kabwiza ergueu a voz:

Roubará o homem ao seu Senhor a décima parte que lhe é devida?

O NÃO massivo veio como trovão:

NÃÃÃOOO!

Cantemos então o “Madibesa kala nvula”.

O cântico — roubado do hinário da velha congregação Centenária — era a versão em kimbundu do primeiro hino que haviam entoado em português. Para os membros da Centenária, a IPM era “roubadora de hinos alheios”, e quase sempre mal cantados: serviam apenas para encaminhar o povo ao balaio.

Mas Madibesa kala nvula era um trunfo. Cantavam-no todos, até os que não entendiam a letra, ou não sabiam que era o mesmo “Tempos de colheita” ali gatunado da Centenária, de maioria ambundu.

Cantou‑se “Twabingi nvula kokwê”, e tombaram dízimos, vinténs e outras partes emotivas.

No fim da cerimónia, pastor e tesoureiro seguiram pesados numa viatura que os rapazes do bairro chamavam de “agarra esse bebé”: um Suzuki Alto já roçado nos quatro cantos, graças à inexperiência de quem ganhara o primeiro carro sem ter estrada nos olhos.

Iam cinco no minúsculo “bebé”, apertados, suados e sedentos.

Na curva derradeira antes de casa, lembraram‑se de parar para comprar água. Os homens da farda — encarregados de garantir a segurança e regularidade do tráfego — também banzelavam nos feriados que se aproximavam. Mas foram as mazelas do carrinho, já a perder a brancura original, que lhes chamaram a atenção.

Quem vai à loja tem dinheiro, murmurou um deles.

Posicionaram‑se estrategicamente num largo de pouco movimento, onde quem transitasse teria de abrandar. E, quando o Suzuki se aproximou, mandaram encostar.

— Bom dia, senhores! — saudou o agente, pedindo de imediato os documentos da viatura e os do condutor, que guardou no bolso sem sequer olhar.

— Cinco pessoas nesse carro é muita gente. De onde vêm e para onde vão, mais‑velhos? — perguntou.

— Vimos da igreja e vamos para casa, chefe — respondeu o pastor Kabwiza.

O agente secundário, mais afastado, quis saber:

— Alguém aqui é pastor?

— Sim, chefe. Eu mesmo. Por isso peço que veja os documentos e nos deixe seguir. O céu está a escurecer, e com este carro não dá jeito andar no bairro — disse Kabwiza, quase suplicante.

O terceiro agente apontou para o saco no banco traseiro:

— E esse embrulho? O que tem aí?

— É oferta, irmão. Dinheiro sagrado de Deus — apressou-se a explicar o tesoureiro.

O chefe dos fardados avançou:

— Então, irmãos… vocês são cinco, e nós também somos cinco. Tenho uma dúvida que vem na Bíblia. O pastor pode ajudar-me? Depois disso devolvo os documentos.

— Está bem, filho. Qual é o capítulo? — perguntou Kabwiza, já percebendo o enredo.

— Mateus 5:25 — recitou o agente, firme.

Kabwiza abriu o sacro-livro e leu:

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele;
para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda,
e sejas lançado na prisão.
Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali
enquanto não pagares o último ceitil.”

Não foi preciso explicar nada. Os fardados tinham feito o trabalho de casa. O pastor compreendeu a mensagem, fechou o livro, saiu do carro e, num gesto sereno, transferiu discretamente os seus últimos centis da algibeira para a mão vazia do agente de caqui — a mesma que ocultava os seus documentos.

E, com isso, reconciliou‑se depressa… para não ser igualmente “lançado na prisão”.


Publicado pelo Jornal de Angola, ed.8 de Julho de 2018

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