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terça-feira, janeiro 01, 2013

O KILIMBO (CARIMBO) QUE CARREGO NO ROSTO

Rainha Antonica ao centro
- A mon´u! mbezo okesula? Wango akuno in wango a ngongo oyo? (oh menino! Afinal tens faquinhas na cara? És daqui ou da outra margem (Malanje?)
Assim me interrogou a ancião Antonica Gregório, rainha de Banza Tamba (Mussende, K-Sul), depois do meu sorriso denunciante, quando abordou um grupo de “não locais” (Kwanza-Sul) que a seguiam a um ritual tradicional localidade de Kepala (município da Kibala).
- Ngoya ngondola, mu hane uvita! (vou pronunciar-me em ngoya e não me vão perceber). A isso respondi apenas com um leve sorriso que a levou a inspeccionar-me com maior profundidade e tendo reconhecido no meu rosto os sinais (kilimbo) que identificam o originário do reino de Ngola.
E não foram precisas mais palavras. Tinha sido reconhecido como “filho da casa”. Os traços no rosto, comummente conhecidos como “faquinhas”, frequentes entre povos de Malanje e Kwanza-Sul, em Angola, têm uma explicação histórica.
Eles foram sendo usados pelos povos Ngola, ao longo da história, por motivos diversos e até de forma profusa. Dados obtidos da oralidade destes povos (pesquisa no Libolo, Kibala e Kangandala) e registos escritos apontam que a aplicação de “faquinhas na cara” (tracejados horizontais e ou verticais no rosto) tinha uma dupla função nos tempos dos reis Ngola:
- Uma era mitológica, ligada à questões de saúde: pensava-se que o sangue mau (de baixa qualidade) era a causa de muitas doenças e devia ser extraído. Essa evocação se prolongou até há bem poucos anos, sendo ainda visíveis adolescentes e nalguns casos até crianças oriundas das regiões supra com estes sinais nos rostos. Porém, a extensão dos serviços de saúde às áreas mais recônditas diminuiu grandemente este tipo de pensamento mitológico que, mais do que curar, levou à morte muitas crianças que se viram anémicas devido à extracção sanguínea.
- A outra razão da aplicação das faquinhas no rosto de Malanjinhos e Kwanza-Sulinos de locução ambundu tem a ver com o “kirimbu” marca/sinal com que o soberano identificava os seus emissários: não havendo no passado comunicações escritas e nem telefónicas, era preciso autenticar os emissários para que fossem reconhecidos e valorizada a mensagem de que eram portadores. Assim, o rei Ngola começa por colocar o “kirimbu” no rosto dos emissários enviados a outros Estados/potentados. Sendo sinal único do rei Ngola apenas estes embaixadores/emissários assim sinalizados/identificados podiam ser credenciados.
 O procedimento dos reis Ngola foi anterior ao tráfico negreiro, iniciado no Sec. XV, e que o adoptou para estampar as "peças africanas" (escravos) que estavam realmente pagas antes de embarcarem para a América.
 
A palavra portuguesa carimbo, adoptada pelos portugueses, que muito se relacionaram com os reis Ngola, provêm do kimbundu “Kirimbu” ou "kilimbu" que equivale a “stamp” (selo) em inglês.

Fontes escritas:
1- http://pt.wikipedia.org/wiki/Carimbo#Hist.C3.B3rico (24.11.2012)
2- Revista Austral: TAAG, 2011,

1 comentário:

Teresa Varela disse...

Vim visitá-lo porque deixou um comentário no Blog.
Ainda só espreitei este seu Blog que achei muito interessante...
Estive em Angola, por 15 dias, em 72/73, tinha eu então 12 anos. Passei aí o Natal e o Ano Novo...Bem diferentes para mim, com calor e chuvadas repentinas...
Esse seu país maravilhoso e tantas vezes maltratado ficou colado no meu coração. O verde da vegetação, o avermelhado da terra, os cheiros, o calor e a chuva-a, sinto-os ainda como se 40 anos tivessem sido só um momento.
Voltarei ao seu blog e vou espreitar os outros.
Um 2013 cheio de sucessos e inspiração
Teresa