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domingo, dezembro 05, 2010

VENDO BEM AS RAZÕES DO GUIA IMORTAL

O jargão "um só povo e uma só nação" encerra em si alguma utopia quando analizados os níveis de coesão implantados pelos movimentos de libertação nacional e os níveis de distensão há muito semeados pela colonização.

Embora se esforçasse em manter um amplo território sob seu domínio a que acabou por designar por Angola, a colonização lusa sempre tratou os autóctones que habitam o que é hoje a República de Angola segundo a sua origem e tribo. Assim é que encontramos na literatura daquele tempo expressões discriminadoras como bailundus, kiocos, kimbundus, kuanyamas, bakongos, etc. para se referir a grupos etnolinguísticos e culturais, dos muitos que há no país.

Neste mar de desprezo apenas as organizações cívicas e os religiosos protestantes se oposeram ao  tratamento xenófobo. Os protestantes e outros iluminados pelos ventos libertadores procuravam tratar os povos angolanos como pertencentes a uma única unidade que é Angola, incutindo neles também o sentido de Nação.

Os movimentos de libertação, cuja emergência data das décadas de cinquenta e sessenta do século vinte, embora tivessem como horizonte um Estado Unitário, debateram-se com sérios problemas relativos às suas bases de apoio, origem dos líderes e zonas de implantação.

A UPA- FNLA surgida no Norte dificilmente atingiu o Centro do território. A UNITA criada no Leste/Centro teve dificuldades em atingir o Norte. O MPLA foi o que mais esteve próximo de aglutinar  simpatias por todos os quadrantes do território, por ser o que mais intelectuais congregava, sobretudo no exterior, conseguindo implantar-se no Litoral, Norte e Leste e com importantes bolsas no Centro (Huambo, Huila, Bié etc).

Conseguida a independência em Novembro de 1975, com o país (República Popular de Angola) mergulhado em guerra civil que opunha os três movimentos de libertação (apoiados por forças externas),  que em teoria representavam em larga escala os ambundu (MPLA), bakongo (FNLA) e ovimbundu (UNITA), uma das soluçções ensaiadas pelo Guia Imortal e comandante das FAPLA foi a de procurar a coabitação entre povos de diferntes procedências, o que criou uma espécie de crioulismo tribal e efectivo sentimento de angolanidade.

Jovens procedentes do Sul foram levados a cumprir o serviço militar obrigatório no Norte, junto de outros idos do Leste e Centro, e vice-versa. Esses cruzamentos criaram amizades e famílias com um sentimento cada vez mais nacional (já que delas brotaram filhos de país com origens diferentes) do que nos dias que antecederam a independência.

Hoje, apesar da tendência para a (re)valorização das origens e culturas locais, o angolano sente-se mais nacional e menos tribal, fruto da materialização do slogam lançado pelo Guia Imortal.
Cumprido este desiderato, já nos sentimos em condições de realizar o outro sonho de Neto manifestado no seu poema "Havemos de Voltar".

2 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Embora eu seja português, não passa sequer pela minha cabeça defender o colonialismo, cuja malvadez eu próprio testemunhei. Há, no entanto, alguns aspectos que eu gostaria de discutir.

Não considero discriminadoras as designações bailundus, kiocos, kimbundus, kuanyamas, bakongos, etc. Discriminador é o facto de se lhes chamar, depreciativamente, tribos, enquanto que na Europa fenómenos que em tudo são idênticos são chamados nações. Em Espanha, por exemplo, há várias "nações": castelhanos, galegos, catalães, bascos, etc. Porque é que não lhes chamam tribos? Na Bélgica existe uma grande animosidade entre flamengos e valões, a ponto de a integridade do país estar em risco. Porque é que ninguém chama a esta rivalidade tribalismo, que é o que ela é?

É indiscutível que existem diferenças linguísticas e culturais no seio do povo angolano, embora a sua esmagadora maioria tenha uma matriz comum, que é bantu. Não se pode negar este facto. Do que se pode acusar os colonialistas é terem tentado cristalizar estas diferenças, torná-las estanques e criar toda uma multiplicidade de "tribos" onde elas nunca existiram. Lembro-me de ter visto uma vez um mapa mostrando as "tribos" de Angola, feito por um conceituadíssimo antropólogo português. No mapa, estavam identificadas "tribos" às dezenas e dezenas. Eu encontrava-me então no norte da província do Uíge, perto de Maquela do Zombo. Perguntei a algumas pessoas da região se se identificavam com algumas daquelas "tribos" que vinham no mapa. Ninguém se identificou com elas. Ninguém. A resposta que as pessoas me deram foi: «Só sei que sou angolano e que falo kikongo».

Outro assunto: não foi só depois da independência que jovens procedentes do sul foram levados a cumprir o serviço militar obrigatório no norte, junto de outros idos do leste e centro, e vice-versa. No tempo do colono, o Exército Português também promoveu a convivência entre militares angolanos oriundos das mais diversas regiões. Pode custar-lhe a acreditar, mas é verdade. Durante o cumprimento do meu próprio serviço militar obrigatório, tive (inesquecíveis!) camaradas de armas angolanos que eram do Huambo, do Bié, de Malange, de Luanda, do Bengo (que dependia então de Luanda), da Huíla, do Zaire, etc. Todos eles tinham sido incorporados no serviço militar obrigatório no Lubango, no então chamado Regimento de Infantaria 22, onde fizeram a recruta. Posso garantir-lhe -- porque é a mais pura verdade -- que a amizade entre todos eles era total, fossem do norte ou do sul, do campo ou da cidade. Todos se sentiam angolanos acima de tudo, embora de uma forma encapotada para que a PIDE não soubesse.

Soberano Canhanga disse...

Prezado Ribero,
ESpero que venha aler este comentário/resposta aos seus mui sábios escritos.
Estou de acordo com o que escreve e é objectivo desta página provocar debate e colher o máximo de ideias e testemunhos. Estou agradecido e volte sempre.