Numa busca básica ao "mundo cibernético" informei-me que "as catedrais e sedes paroquiais da Igreja Católica em Angola (ICA), entre o século XIX e século XX, foram construídas com uma combinação de materiais locais e importados. A arquitectura religiosa refletia tanto influências europeias quanto adaptações às condições locais, sendo os principais recursos utilizados: (i) Pedra e tijolo: nas cidades, utilizava-se pedra esculpida e tijolos cozidos, muitas vezes importados de Portugal ou produzidos localmente; (ii) Madeira: era um material essencial, especialmente para estruturas internas, telhados e portas. Muitas igrejas utilizavam madeira de árvores nativas, como o pau-ferro e o mogno; (iii) Argamassa e cal: cal era um elemento fundamental na construção, usada para unir tijolos e pedras. Muitas vezes, era produzida a partir de calcário local; (iv) Telhas cerâmicas: algumas igrejas tinham telhados cobertos com telhas de barro cozido, que eram importadas ou fabricadas em Angola; (v) Materiais decorativos: vitrais, altares esculpidos e imagens sacras eram frequentemente importados da Europa, especialmente de Portugal e Itália.
"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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sexta-feira, novembro 28, 2025
DE QUEM E PARA QUE SERVE O DINHEIRO DA IGREJA?
sábado, novembro 22, 2025
INOVAÇÃO POPULAR NO COMÉRCIO AMBULANTE
Por: Luciano Canhanga*
segunda-feira, novembro 17, 2025
NASCER É BÊNÇÃO, TER FILHOS É FESTA
_ Ukita kwawaba, yoso iza ngo!
(É bom nascer, tudo vem de oferta!)
Tenho procurado fazer a minha parte, esperando que os meus descendentes — que têm acompanhado o meu esforço — façam, quando a vez chegar, a sua parte.
_Ukita kwawaba. Yoso iza ngo!
terça-feira, novembro 11, 2025
VIVENDO OS 50º DA INDEPENDENCIA
Há meio século, sob o troar de canhões a norte e sul de Luanda, o saudoso Dr. Agostinho Neto proclamava a Independência de Angola. Eu, então com apenas um ano de idade, começava a viver, em paralelo com a pátria, os primeiros passos de uma história comum, marcada por lutas, esperança e (re)construção.
sábado, novembro 08, 2025
THUNDA E WOMBE NA COSMOGONIA LUBOLENSE
Segundo Carlos Figueiredo, o termo Wombe remonta ao período da ocupação do território do actual Libolo pelos Kisamas, uma linhagem dos Mbundu que expulsou os povos San (Bosquímanos) e estabeleceu domínio sobre a região. Com o tempo, os próprios Quissamas foram desalojados por novos migrantes vindos de várias partes de Angola — Luanda, Malange, Kibala, Zâmbia, entre outras. Apesar das mudanças, o nome Wombe permaneceu como referência à terra ancestral, símbolo da fundação e da identidade cultural do povo libolense.
Na obra "Retratos do
Libolo", Figueiredo descreve-o como um território marcado por forte
resistência à colonização desde o século XVI, e por uma preservação notável de
traços linguístico-culturais nativos, mesmo após a pacificação no século XX.
Essa resistência prolongada permitiu que o território mantivesse uma estrutura
social e simbólica própria, onde zonas como Wombe assumem papel central na
memória e identidade local.
Embora o termo Thunda não apareça
explicitamente na obra, a lógica histórica e cultural permite inferir a sua
existência como zona complementar ou paralela a Wombe. Se Wombe representa o
núcleo original, Thunda pode ser entendida como uma zona de expansão, uma
linhagem paralela ou uma sub-região com identidade própria. Em narrativas orais
e etnográficas, é comum que os territórios sejam divididos em zonas simbólicas
— como “terra dos fundadores” versus “terra dos aliados ou descendentes” — e
essa dualidade pode também estar associada a funções sociais distintas, como
zonas de chefia, culto ou refúgio.
Para além da interpretação
histórico-cultural que associa Wombe à terra ancestral e Thunda à zona de
expansão, propõe-se aqui uma hipótese primária de natureza
cosmogeográfica, baseada na orientação secular pelo sol — elemento
fundamental na organização do tempo e do espaço pelas sociedades tradicionais.
Nesta leitura, Thunda
corresponderia ao nascente (leste), ponto onde o sol emerge e inicia o
ciclo diário da vida. É o lado da aurora, da origem, da fertilidade e da
fundação. O termo Thunda, neste contexto, simboliza o princípio, o começo, o
lugar onde tudo nasce — tanto no sentido físico quanto espiritual. É o lado da
memória, da ancestralidade e da luz que revela.
Por oposição complementar, Wombe
corresponderia ao poente (oeste), o lado onde o sol se recolhe e a sombra
se alonga. Wombe seria o espaço da maturidade, da recolha, da sabedoria e do
encerramento do ciclo. É o lado da introspecção, da chefia e da transcendência.
Se Thunda é o ventre que gera, Wombe é o horizonte que acolhe e transforma.
Esta hipótese solar encontra
respaldo nas práticas tradicionais de orientação, onde o nascer e o pôr do sol
servem como referências primordiais para a localização, a marcação do tempo e a
organização dos espaços rituais e sociais. A pergunta ritual “Kuthunda kubê,
kuwombe kubê?” — feita diante dos bichinhos da terra — pode então ser vista
como uma forma lúdica de introdução à cosmologia solar, ensinando às crianças a
distinguir os polos do mundo e a situar-se nele.
Ademais, a Kisama, terra próxima
e aparentada do Lubolu, tem o seu limite extremo o Oceano Atlântico que, no
caso, é aonde o sol se põe. Os Kisamistas, assumindo-se como kamwombe,
identificam-se com o polo do poente, o lado onde o dia se encerra e a luz se
recolhe, reforçando a sua posição simbólica como guardiães da sabedoria, da
chefia e da memória ancestral.
Assim, Thunda e Wombe não são
apenas zonas geográficas ou linhagens históricas, mas também arquétipos
solares, que estruturam a visão lubolense do mundo: o este como origem e o
Oeste como destino, o claro e o escuro, o começo e o fim — numa dança eterna entre
luz e sombra.
Carlos Figueiredo também destaca
que o Libolo, por ter sido um dos principais pontos de resgate de escravos,
contribuiu para a formação cultural e linguística do Brasil e da América
Caraíba. Os traços do quimbundo falado como L1 em várias comunas do Libolo, e a
forma como o português foi adquirido como L2, revelam uma cadeia de preservação
cultural que atravessa o Atlântico.
A realização de estudos
etnográficos locais e entrevistas com pessoas de terceira idade e autoridades
tradicionais pode aprofundar esta relação simbólica e histórica, sendo que a
memória oral, preservada nas brincadeiras, cantigas e provérbios, continua a
ser uma fonte viva e legítima para compreender a cosmogonia Kisamense e
Lubolense.
quarta-feira, novembro 05, 2025
MEMÓRIAS DE KUTEKA E PEDRA ESCRITA
A 25.01.25, cruzei, próximo da aldeia de Pedra Escrita, com uma parente que não conhecia. É neta ou bisneta do "Velo Xingwenda" [Velho Cinquenta], parente da minha mãe.
mu kyaña ndolo, mu kyaña ndolo we sosó lyamutema bwengi" [a moça, de tanto colher e usar lenha de ndolo, a fagulha atingiu-lhe a zona nevrálgica"].
sábado, novembro 01, 2025
"PIÔ-PIÔ” DE BONGA: ENTRELAÇAMENTO LINGUÍSTICO, NEOLOGISMOS E MEMÓRIA INFANTIL NA RNA
Para quem viveu a infância nos anos 1980, “Piô-Piô” não é apenas uma canção — é um documento sonoro da memória colectiva. A música, ao ser usada como indicativo pela RNA, tornou-se parte da rotina emocional de milhares de crianças, que se reconheciam na linguagem, no ritmo e na melodia.
terça-feira, outubro 28, 2025
PINTURAS RUPESTRES DE NDALAMIRI: ACESSO E FUTURO
quarta-feira, outubro 22, 2025
AMEKO
- Do Umbundu não fui eu!
- Mocitas
- Fiquem bem!
- Façam boa viagem!
sexta-feira, outubro 17, 2025
OS NOVOS MUNICIPIOS E O CAMINHO QUE AINDA NÃO CHEGOU
Ngungu [Gungo para os "angotugas" e outros apressadamente aculturados] é um dos novos municípios da província do Cuanza-Sul. Por sinal, é o que se encontra mais ao Sul/Sudoeste da província, fazendo fronteira com o também recém-criado município de Egipto Praia, desanexado do Lopito (Lobito).
Partindo da aldeia de Evale Guerra, a sede municipal de Ngungu — outrora comuna homónima — está situada no interior, a cerca de 35 quilómetros da EN100, a principal estrada que liga Sumbe a Benguela. Uma conhecida missão religiosa, chamada Missão do Gungo, estende-se ainda mais para o interior, a aproximadamente 18 quilómetros da sede. Ali, entre colinas e trilhos de terra batida, missionários e comunidades locais mantêm viva uma rede de fé, educação e solidariedade, mesmo diante da ausência de infraestrutura básica.
A Missão do Gungo, pertencente à Igreja Católica, é gerida pela Diocese do Sumbe em parceria com a Diocese de Leiria-Fátima (Portugal), através do grupo missionário Ondjoyetu (a nossa casa, em Umbundu). A missão tornou-se um verdadeiro centro de desenvolvimento comunitário, oferecendo serviços essenciais como moagem comunitária, posto de saúde, capela, cantina solidária, sistema de abastecimento de água por gravidade, produção de blocos de terra comprimida (BTC) e kits solares para geração de energia. A sua sede, Ndonga, foi escolhida por ser um ponto estratégico para alcançar as aldeias mais isoladas do município.
Durante o conflito armado em Angola, o Gungo permaneceu isolado e vulnerável à guerrilha da Unita. A missão só pôde ser estabelecida de forma permanente após o fim da guerra civil, quando as condições de segurança permitiram a presença contínua de religiosos e voluntários. Hoje, atende uma população estimada em 34 mil pessoas, distribuídas por dezenas de aldeias sem rede de telemóvel, sem electricidade pública e sem abastecimento de água canalizada.Ngungu é mais do que um ponto no mapa. É um símbolo de resistência e esperança. E não está sozinho. Assim como Ngungu, estão muitos outros novos municípios de Angola, a exemplo de Munenga, Kisongo, Keña, Loñe, Pambangala, Kabiri, Lôvwa do Zambeze, Nehone, Xasenge e tantos outros da "Categoria E" que compartilham o mesmo dilema:
_ Como é que o desenvolvimento chegará lá sem asfalto, sem telecomunicações, sem energia (para todas as aldeias), sem água canalizada, sem saneamento básico e acções preventivas de saúde, sem planos directores para orientar o nascimento e crescimento urbano, sem “n” equipamentos sociais indispensáveis?
A pergunta parece simples, mas carrega o peso de décadas de centralização, promessas por cumprir e políticas públicas que ainda não alcançaram o país profundo. O asfalto, nesse contexto, é mais do que uma camada de betume. É via que facilitadora do acesso, de dignidade, de conexão com o resto da nação e aproximação de pessoas, bens e serviços.
Sem estradas, não há ambulâncias que cheguem a tempo, não há professores e enfermeiros que queiram ficar, não há comércio que floresça. O isolamento físico transforma-se em isolamento social, económico e político. E os municípios recém-criados, embora celebrados com júbilo, continuam à espera do básico: água potável, energia eléctrica, escolas funcionais, centros de saúde equipados e telecomunicações.
Mas há também uma força silenciosa nesses lugares. Uma força que brota da terra vermelha, dos batuques nas noites sem luz, das crianças que caminham horas para estudar, dos líderes comunitários que não desistem. Ngungu e seus irmãos municipais são territórios de luta e de futuro — se houver vontade política, investimento sério e respeito pelas populações que ali vivem.
A crónica termina com a mesma pergunta que a iniciou, agora mais urgente e mais colectiva:
_ Como é que o desenvolvimento chegará lá sem asfalto?
E, talvez, com outra:
_ Será que o país está pronto para ouvir a resposta?
segunda-feira, outubro 13, 2025
AS VOZES DO KWANZA-SUL NO MOSAICO LINGUÍSTICO DE ANGOLA
Por: Soberano Kanyanga*
I. Introdução
A província do Kwanza-Sul ocupa uma posição estratégica no mapa etnolinguístico de Angola, situando-se entre dois grandes polos culturais e linguísticos:- Polo Ambundu: Luanda, Bengo, Malanje e Kwanza-Norte, onde predomina o Kimbundu.
- Polo Ovimbundu: Huambo, Bié e Benguela, com predominância do Umbundu.
Esta localização faz do Kwanza-Sul uma zona de transição etnolinguística, onde coexistem variantes do Kimbundu e do Umbundu, além de falares locais que expressam a complexidade histórica, social e identitária dos seus povos.
II. Zonas de transição etnolinguística: Definição e relevância
As zonas de transição etnolinguística são espaços de contacto entre línguas e culturas, caracterizados por:
- Multilinguismo funcional
- Interferência linguística (lexical, fonética, sintática)
- Identidade linguística fluida
- Variação dialectal e inovação linguística
Distribuição dos falares por influência dominante:
Grupo de maior influência Ambundu (Kimbundu):
- Kibala
- Mussende
- Kilenda
- Hebo
- Lubolu
- Mbwim (Amboim)
- Waku
Grupo de maior influência Ovimbundu (Umbundu):
- Seles
- Cassongue
- Sumbe
III. O “Falar” da Kibala: Identidade, resistência e reivindicação
A variante do Kimbundu falada na Kibala e arredores é reconhecida pelos próprios falantes como:
- Kimbundu
- Kimbundu ky’Epala
- Kimbundu kyetu
O termo “ngoya”, usado de forma pejorativa por povos vizinhos, foi indevidamente promovido como designação linguística por meios da comunicação social, sem base científica ou consulta aos verdadeiros detentores do conhecimento ancestral e zeladores da história oral.
Importa sublinhar que a designação de uma língua deve estar em harmonia com o nome do povo que a fala. Assim como se fala da língua portuguesa para o povo português, da língua francesa para os franceses, ou da língua ucokwe para os tucokwe, também se deve respeitar essa lógica no caso da Kibala, onde o povo se identifica como Ambundu e a sua língua como Kimbundu da Kibala.
“Não basta ser soba para confirmar dados históricos. É preciso ter idade e discernimento necessário.”
IV. Quadro comparativo: Povo e Língua
Este quadro serve para ilustrar a coerência entre identidade étnica e designação linguística, desmontando a falácia da chamada “língua ngoya” atribuída ao povo da Kibala:
Povo / Comunidade | Gentílico / Identidade | Designação da Língua |
Portugueses | Português | Língua portuguesa |
Franceses | Francês | Língua francesa |
Tucokwe | Tucokwe | Língua Ucokwe |
Bakongo | Bakongo | Língua Kikongo |
Ambundu | Ambundu | Língua Kimbundu |
Ovimbundu | Ovimbundu | Língua Umbundu |
V. A Herança colonial e a imposição terminológica
Durante o período colonial, foi imposta uma hierarquia linguística que marginalizou os falares africanos, rotulando-os como “dialectos” ou “línguas menores”. A introdução do termo “ngoya” pela Rádio VORGAN nos anos 80 e pela RNA/Ngola Yetu em 1992 e 2007 não foi precedida por estudos científicos nem por validação de “Agentes Autorizados das Comunidades”.
Em 9 de Junho de 2012, o então governador Serafim do Prado solicitou à Ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, a substituição oficial da designação “ngoya” por “Kimbundu Kyetu”, alinhando-se com a resposta popular à pergunta:
_ Eye oji lyahi wondola (Que língua você fala)?
VI. Estudos, testemunhos e evidência de campo
- Tomé Grosso: Na sua monografia "O Dialecto Kibala (Kimbundu) e a Problemática do Termo Ngoya como Dialecto", revela bilinguismo funcional e confusão terminológica entre os jovens, influenciados por meios de comunicação.
- Soberano Kanyanga: Inquérito com 60 participantes mostra rejeição ao termo
“ngoya”e afirmação do Kimbundu da Kibala como língua de identidade. - Gabriel Vinte e Cinco, Moisés Malumbu, José Redinha: Confirmam a origem Ambundu dos Kibala e não identificam qualquer referência histórica ou etnográfica à existência de um povo ou língua
“ngoya”. - Em "AS CLASSES NOMINAIS DO KIBALA-NGOYA, UM FALAR BANTU DE ANGOLA NÃO DOCUMENTADO,NA INTERSECÇÃO DOS GRUPOS KIMBUNDU [H20]E UMBUNDU [R10]!", JEAN-PIERRE ANGENOT / NDONGA MFUWA / MICHELA ARAUJO RIBEIRO, pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia, Universidade Agostinho Neto, Universidade, consideram “O kibala - ou kibala-ngoya – um falar bantu de Angola não-docu-mentado em uso no centro da província de Kwanza Sul, numa área relativa-mente extensa cujas principais localidades são Kibala, Ebo, Wako Kungo, Assango, Cabela, Condé, Quilenda e Mussende.
VII. Propostas para a valorização dos falares locais
- Educação: Inclusão dos falares locais nos currículos escolares.
- Cultura: Estímulo à produção artística e literária nas línguas locais.
- Investigação: Criação de centros provinciais de estudo linguístico.
- Media: Uso responsável das designações linguísticas, com base em investigação científica e memória histórica comunitária.
A valorização dos falares locais é essencial para a preservação da identidade cultural do Kwanza-Sul. Os “falares do Norte e Centro do Kwanza-Sul” são variantes legítimas do Kimbundu e devem ser reconhecidos como tal, com base em evidência histórica, linguística e comunitária.
“Toda a ciência que envolva a antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.” — Soberano Kanyanga
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*Formado em Didáctica de História e investigador social.













