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sábado, fevereiro 08, 2020

UM XIXI QUE ME ATRASOU 6 ANOS

Corria o ano de 1978, "Ano da Agricultura" nas denominações daquela época. Todos os anos, a minha mãe visitava os seus irmãos em Luanda: Ferreira Ganga que cuidava de Alberto Canhanga, levando, sempre, um galo grande para presentear o irmão kasule que "passou de ano"(acadêmico).
A viagem daquele ano, iniciada no Lussusso, tinha já perto de 30 quilómetros feitos, a caminho de Luanda. Estávamos já na pousada do alemão Walter Kruk, também conhecido por Ngana Mbundu. Nunca tinha visto, de uma só vez, tantos carros, autocarros, pessoas com ares de importantes, camaradas chefes e brancos que não tinham sido colonos.
De repente, aquele ambiente, primeiríssimo na minha vida, encheu-me a bexiga, ao ponto de me aliviar nos calções,  ante a incontinência momentânea e, eventualmente, algum mutismo.
  • Falo Kimbundu num ambiente em que todos falavam português e outras línguas estranhas (eventualmente alemão)?
E, como "é o dedo que contém ferida que mais tropeça nas pedras", para o meu azar (desconheço as razões até hoje), a minha mãe abortou a viagem, regressando à Fazenda Israel (próximo da actual aldeia de Pedra Escrita, Libolo) onde vivíamos há poucos meses, saídos do Kitumbulu.
Passaram mais seis anos, até que, forçados pela Unita, em 1984, fui "contemplado" com a viagem que me fez conhecer Luanda, sendo as minhas irmãs mais novas quem sempre acompanhavam a mãe à capital, gozando comigo, em cada regresso, entoando a célebre expressão: ewô, mu Lwanda úwabe!
  • (Quão linda é Luanda!)
Passados 41 anos, posto em Cape Town, ponho-me a ver os encantos dessa urbe e a imaginar o que se pensava de Luanda por aqueles que não a conheciam.
Se seis anos depois do "fatídico" mijo cheguei à capital, ainda creio que com empenho e boa governação, em menos de sessenta anos poderemos aproximar Luanda à sua congênere sul-africana,  em termos de benfeitorias sociais e serviços turísticos, fazendo com que quando os nossos responsáveis provinciais forem questionados por seus superiores, os governantes, sobre os serviços e produtos turísticos em cada região, deixem  de confundir o turismo "indústria da paz" com os carros para turismo, como respondeu um certo responsável provincial ao seu ministro.
- Então,  senhor delegado provincial, como está o turismo?
- Chefe, ainda estou mesmo a andar com aquele camião que está  a ver aí à frente. O turismo avariou!


Texto publicado pelo Jornal de Angola. 18.09.2022

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