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sábado, fevereiro 21, 2009

"MARIA CORAGEM"


"Mamãs ou Manas Coragem" houve e há muitas. Cada uma no seu meio, seu tempo e no seu jeito. Anália V.P. foi corajosa ao ser a primeira dama a desejar governar todos os angolanos (depois das coligações de Njinga Mbandi). Mas será que terão faltado "atrevimentos" semelhantes?
-Sempre houve. Faltaram os holofotes ou não precisaram de se manifestar, pois vejamos:

Uma senhora tem o marido doente. A guerra movida pela UNITA atinge a aldeia de Rimbe, no Libolo (comuna da Munenga). O filho mais velho está na casa-de-água(1) e não pode manter contacto com o mundo exterior (a comunidade).

Maria, a senhora, leva o marido ao hospital da Vila de Calulo e lá é transferido para o Sumbe. Na Justificar completamentecapital kuanza-sulina não tem familiares e ela nem tem dinheiro.

A saúde do marido degrada a cada hora que passa, receia o pior e decide levá-lo a Luanda onde tem um irmão e uma sobrinha que trabalha no hospital sanatório.

Para viajar era necessário destilar makiakia(2) cujo dinheiro, resultante da venda, serviria para pagar a passagem no autocarro da ETIM. Porém, um primo do marido, depois de embriagado, entorna o tambor da makiakia em destilação, mas a Senhora não desiste. Faz empréstimo e leva o marido a Luanda onde morre uma semana depois de baixa hospitalar.

Feito o funeral, volta viúva, desamparada, sem dinheiro, com dívidas por saldar e quatro filhos menores por cuidar. 0 mais velho, ainda na casa-de-água, tem oito anos e a menina mais nova tem dois. A tradição exige um novo funeral (fictício) e depois de um ano o sacrifício de um bode para tirar o luto.

Estávamos já no ano de 1984. A guerra aperta. Mais noites são passadas na mata, de baixo de chuva, mosquitos e outras feras, do que no casebre de pau-a-pique. Mãe e filhos refugiam-se na sede comunal da Munenga e no mesmo dia, 15 de Fevereiro, a UNITA ataca. Todos os haveres são levados pelos guerrilheiros e a família refugia-se na aldeia de Samba Caringe, onde por um mês vive a custa de trabalhos prestados em lavras de aldeões locais.

Com tudo perdido, Maria regressa, com as mãos à cabeça(3) à aldeia de origem (mais de 60Km). Junta forças, as últimas forças, junta trapos e arrisca a viagem para Luanda, com os filhos, onde o irmão os receberia.

Posta na capital angolana é-lhe dado um casebre de pau-a-pique, mas tem de se adaptar aos negócios madrugadores da capital angolana e sustentar os quatro menores. Abdica de amores e sustenta os filhos, ajuda o irmão mais novo desertado das FAPLA e sobrinhos abrangidos para a "vida militar".
Esmera-se nos negócios da fuba de milho, peixe frito e outros bens de primeira necessidade, comprados e revendidos na candonga(4).

Com a poupança melhorar as condições do casebre e junta dinheiro para recomeçar a vida destruída no campo.

Amenizada a guerra, em 1987, regressa à terra natal e recomeça a vida campestre, dividindo-se entre o campo e a cidade capital onde residem os filhos.

Esta Senhora anónima que responde pelo nome de Maria Canhanga é ou não uma heroína? É ou não uma "mamã coragem"?

Por isso digo: Cada uma no seu tempo, no seu meio e com as suas armas.

Na foto: Maria Canhanga à esquerda
1- iniciação masculina ou circuncisão
2- Também conhecido como Kaporroto. Bebida alcoólica destilada
3- mão vazias; sem nada
4- Venda ilegal ou informal (normalmente eram produtos desviados de lojas estatais no tempo da economia planificada)
Luciano Canhanga

3 comentários:

Anónimo disse...

Parabens minha Senhora.
Obrigado luciano por nos trazeres tão linda história de Amor, dedicação e Luta. MUITA LUTA!
A D. Maria Canhanga é Uma MÃE CORAGEM, sem dúvida!
UM BEIJO MUITO GRANDE para ela.
Para Ti Luciano
Obrigado,
Muito Obrigado!
São Sabugueiro

MESU MA JIKUKA disse...

São,
Uma menina/moça (jovem) que forçosamente abandona a sua terra natal e que ama... Vai para a terra dos pais na condição de "retornada"(?...) deixa tudo, perde inclusive a bagagem pelos tortuosos caminhos... chega com um bilhete de identidade salazarista que a "acusa" de ser branca de segunda, mesmo sendo nascida de pai e mãe brancos... chegando à nova casa apenas com as mãos cheias de nada e uma boneca, é ou não uma (agora) mãe coragem?
Você merece uma homenagem, pela perspicácia, e amor... Você é São Coragem

KimdaMagna disse...

MÃE CANHANGA!!

REPRESENTA E DEVERIA HAVER UMA OBRIGATORIEDADE DE FALARMOS, ESCREVERMOS SOBRE O KOTIDIANO DESTAS HEROÍNAS QUE TÊM UM VALOR INCOMENSURAVEL, MAIS QUE TODOS OS "ISMOS" E "DADES" REUNIDOS QUE NÃO NOS ELUCIDAM VERDADEIRAMENTE DA CONDIÇÃO HUMANA POIS DISFARÇAMOS A NOSSA FRIEZA HUMANA NOS DISCURSOS E RETÓRICAS ELABORADAS.
EM TODO O MUNDO TEM ESTA PARANOIA: SÓ QUEREM FALAR DAS HIPOTÉTICAS "ESTRELAS", DO CHEFE DO ESTADO QUE FEZ ISTO FEZ AQUILO,
DOS RICOS E "FAMOSOS", RESUMINDO.

LAMENTO QUE ESTAS HEROÍNAS SEJAM APANHADAS NO MEIO DOS EXTREMISMOS IDEALISTICOS/ MILITARIZADOS E QUE ACABEM POR SOFRER NO CORPO E NA ALMA OS DEVANEIOS GLACIÁTICOS DA MAIORIA DOS "ANIMAIS POLÍTICOS".
A HISTÓRIA ( ciência descritiva dos comportamentos humanos) PARA ESTAR O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DA VERDADE GLOBAL, TEM QUE OBSERVAR E REGISTAR A VIDA DOS NÃO FAMOSOS.

PARABENS PELO REALISMO LITERÁRIO AQUI EXPOASTO.


XAXUAXO