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segunda-feira, dezembro 29, 2025

CAÇA, MEMÓRIA E EQUILÍBRIO NA ROTA DO WIZI

De três proposições haverá pelo menos uma válida. Era comum, nas minhas andanças pela rota entre Kaxitu [carne pequena] e o Wizi, encontrar "carne pequena" exposta à beira da estrada: símios, seixas, veados, pacas e outros bichos do mato, caçados com armadilhas ou caçadeiras, pendurados em varas ou estendidos sobre folhas de bananeira. A paisagem era quase sempre a mesma — aldeões atentos ao movimento, compradores de passagem, e o cheiro da caça fresca a anunciar o sustento do dia.

Recentemente, fiz uma viagem de ida e volta a Maquela do Zombo, passando por Mpangi a Lukeni [Pango a Luquém], e algo me surpreendeu: não vimos animais expostos, nem carne já tratada. O silêncio da estrada parecia dizer mais do que mil cartazes. Terão desaparecido os animais nas redondezas, vítimas da caça desenfreada? Terão os aldeões despertado para o risco da extinção? Ou será que a fiscalização apertou o cerco aos caçadores furtivos?

Seja qual for a resposta — ou se forem todas juntas —, o certo é que, enquanto as papilas gustativas reclamavam a ausência de carne de caça, a consciência ambiental regressava tranquila. Porque, se a caça para fins alimentares é compreensível e até legítima em muitos contextos rurais, a caça mercantilista, feita sem critério nem medida, é eticamente reprovável e ecologicamente perigosa.

Em Angola, a caça de subsistência está profundamente enraizada nas práticas ancestrais dos povos do mato. É fonte de proteína, rito de passagem, saber transmitido entre gerações. Eu próprio iniciei-me na arte da caça com tenra idade, no actual município da Munenga: primeiro como acompanhante dos mais velhos, depois como carregador de presas abatidas, e mais tarde como caçador singular, com armadilhas feitas à mão e olhos treinados para ler pegadas.

Mas os tempos mudam. Segundo o Decreto Presidencial n.º 222/24, que regula a caça e a gestão sustentável da fauna selvagem em Angola, é imperativo garantir o equilíbrio ecológico, a justiça social e a preservação das espécies. A Estratégia Nacional da Biodiversidade (2019–2025) reforça que a exploração dos recursos biológicos deve atender às necessidades actuais sem comprometer as gerações futuras.

O ponto de equilíbrio talvez esteja aí: entre o respeito pela tradição e a responsabilidade com o futuro. Caçar para comer, sim. Caçar para enriquecer, não. Preservar o que resta, regenerar o que se perdeu, e educar para que a caça continue a ser um saber — e não uma sentença de morte para a biodiversidade.

Porque, no fim, a estrada do Wizi não é apenas um caminho asfaltado ao qual confluem outros caminhos nascidos no denso sertão. É também um espelho do que somos e do que escolhemos deixar para os que vêm depois.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

IA: DADOS PESSOAIS E O PONTO DE EQUILÍBRIO

A Inteligência Artificial tornou‑se inevitável na produção e gestão de conteúdos informativos. A sua capacidade de processar grandes volumes de dados, gerar textos em segundos e apoiar a tomada de decisão coloca‑a como ferramenta estratégica em qualquer instituição. Ignorar o seu uso seria abdicar de competitividade e eficiência.  

Todavia, o uso reiterado da IA expõe riscos: a dependência excessiva pode levar à divulgação inadvertida de informação sensível, sobretudo quando prompts ou outputs não são devidamente filtrados.  

A protecção de dados na legislação angolana

Angola dispõe da Lei n.º 22/11, de 17 de Junho, sobre a Protecção de Dados Pessoais, que estabelece princípios fundamentais:  

- Transparência: o titular deve ser informado sobre o tratamento dos seus dados.  

- Licitude e proporcionalidade: os dados só podem ser recolhidos e tratados de forma legal e na medida necessária.  

- Finalidade: os dados devem ser usados apenas para o propósito declarado.  

- Veracidade e conservação limitada: garantir exactidão e evitar retenção indefinida.  

A lei criou ainda a Agência de Protecção de Dados (APD), responsável por fiscalizar e regular o cumprimento das normas.  

O que NÃO deve ser inserido num prompt

Ao elaborar prompts para Inteligência Artificial (IA) é essencial evitar inserir dados sensíveis ou não confirmados publicamente, sob pena de expor informação estratégica ou comprometer a credibilidade institucional. Exemplos:  

- Dados pessoais: nomes completos, números de telefone, moradas, documentos de identificação.  

- Informação financeira confidencial: salários, contratos, valores de transações não divulgados.  

- Agenda de altas entidades: datas e locais de deslocações oficiais não anunciadas publicamente.  

- Decisões internas em curso: projetos ainda em análise, deliberações não aprovadas, negociações em andamento.  

- Conteúdos estratégicos: planos de segurança, relatórios reservados, informações militares ou empresariais sigilosas.  

Reflexão sobre o exemplo da agenda presidencial

Se o comunicador sabe que o Presidente da República vai proceder a uma inauguração dentro de duas semanas, mas a assessoria de imprensa ainda não informou publicamente, esse dado não deve ser inserido no prompt.  

- Razão: a agenda presidencial é dinâmica e pode ser alterada; antecipar informação não oficial pode gerar desinformação ou quebra de protocolo.  

- Boa prática: só utilizar dados já confirmados e divulgados oficialmente. Caso contrário, o prompt deve ser construído em termos genéricos, sem comprometer a confidencialidade.  

 Exemplo seguro: “Elabore um texto sobre a importância das inaugurações presidenciais para o desenvolvimento nacional” (sem mencionar data ou local não divulgados).  

O ponto de equilíbrio

O equilíbrio entre a incontornabilidade da IA e a protecção de dados reside em três pilares:  

- Uso consciente: prompts devem ser redigidos com rigor, evitando inserir dados sensíveis ou não confirmados.  

- Curadoria humana: cabe ao comunicador institucional filtrar, adaptar e validar os conteúdos produzidos pela IA.  

- Conformidade legal: qualquer utilização de dados deve respeitar os princípios da Lei 22/11, garantindo que a inovação não compromete direitos fundamentais.  

Conclusão

A Inteligência Artificial é incontornável e continuará a moldar a comunicação institucional. Porém, o seu uso deve ser acompanhado de prudência e respeito pela Lei de Protecção de Dados Pessoais, sob pena de transformar eficiência em vulnerabilidade.  

O ponto de equilíbrio reside na integração harmoniosa entre máquina e humano: a IA fornece velocidade e escala, enquanto o comunicador garante legitimidade, ética e segurança. Assim, a mensagem institucional não apenas informa, mas preserva a confiança pública e protege os direitos individuais.  


Bibliografia

Adriano Charles Silva Cruz, Inteligência Artificial e a Comunicação nas Organizações, Revista Temática – UFPB, 2023.

Agência de Protecção de Dados (APD), Lei n.º 22/11 – Protecção de Dados Pessoais, Diário da República, APD Angola, 2011.

Glaucia Ellen de Sousa França & Maria Lívia Pachêco de Oliveira, O Impacto da Inteligência Artificial na Comunicação Organizacional, Intercom – Congresso NE, 2024.

Rafael Cardoso Sampaio, Marcelo Sabbatini & Ricardo Limongi, Diretrizes para o Uso Ético e Responsável da Inteligência Artificial Generativa, Cadernos Gestão Pública e Cidadania – FGV, 2025.

Wallace Santos, Segurança de Dados e Ética em Engenharia de Prompt: O Elo Frágil entre Humano e IA, DIO, 2025.

Universidade de Évora, Estratégia Institucional para o Uso da Inteligência Artificial, Rádio Campanário 2025.

Por: Soberano Kanyanga (Luciano Canhanga)

segunda-feira, dezembro 15, 2025

MINI‑MANUAL PARA CONSTRUÇÃO DE PROMPTS

Principios fundamentais

- Clareza: o prompt deve ser directo, sem ambiguidades.  

- Objectivo: indicar sempre a finalidade (nota oficial, notícia, resumo, dramatização).  

- Contexto: incluir público‑alvo, tom desejado e enquadramento institucional.  

- Estrutura: organizar em tópicos ou instruções sequenciais.  

- Exemplificação: fornecer modelos ou exemplos ajuda a Inteligência Artificial a alinhar‑se ao estilo pretendido.

  

Elementos a incluir

- Tema central: assunto ou evento a tratar.  

- Formato: nota oficial, notícia, carta, discurso, etc.  

- Tom: formal, jornalístico, educativo, dramatizado.  

- Dados confirmados: datas, locais, nomes e factos já divulgados publicamente.  

- Estilo: adjectivação moderada, linguagem clara e objectiva.  


Elementos a evitar 

- Dados pessoais: números de telefone, moradas, documentos de identificação.  

- Informação financeira confidencial: salários, contratos, valores não divulgados.  

- Agenda de altas entidades não publicada: datas e locais de deslocações oficiais ainda não confirmadas pela assessoria.  

- Decisões internas em curso: projectos em análise, negociações reservadas.  

- Planos estratégicos sensíveis: segurança, relatórios militares ou empresariaes sigilosos.  


Exemplo prático:  

Se o comunicador sabe que o Presidente da República vai inaugurar uma obra dentro de duas semanas, mas a assessoria ainda não divulgou oficialmente, esse dado não deve ser inserido no prompt.  

- Risco: a agenda pode ser alterada e a divulgação antecipada compromete protocolo e credibilidade.  

- Alternativa segura: “Elabore um texto sobre a importância das inaugurações presidenciais para o desenvolvimento nacional” (sem mencionar data ou local não confirmados).  


Boas práticas

- Usar linguagem neutra: evitar juízos de valor ou adjectivos excessivos.  

- Ser específico: quanto mais detalhado o pedido, mais preciso o resultado.  

- Revisar outputs: nunca publicar sem revisão/organização humana.  

- Adaptar ao público: ajustar o tom e o ritmo narrativo conforme o destinatário.  

- Garantir conformidade legal: respeitar a Lei n.º 22/11 sobre Protecção de Dados Pessoais (Angola). 


Conclusão

A construção de prompts é arte e técnica. A Inteligência Artificial é incontornável, mas só produz resultados legítimos e aceitáveis quando guiada por instruções claras, seguras e conformes à lei e ao conhecimento. O comunicador institucional deve assumir o papel de curador/sistematizador, traduzindo a linguagem máquina em mensagem humanizada, protegendo dados e preservando a confiança pública.  

Aqui está uma bibliografia ajustada ao conteúdo do seu mini-manual, organizada por ordem alfabética de autor. Ela cobre temas como engenharia de prompts, comunicação institucional, proteção de dados e boas práticas com IA.


Bibliografia

* Ana Nobre, Guia Completa de Como Criar Prompts Perfeitos Para Modelos de IA: IA & A Educação, 2025;

* Damares Lourenço, Engenharia de Prompt: O Coração da Revolução da Inteligência Artificial, DIO, 2025;

* David Gabriel, Como Escrever Prompts Eficazes Para IA: O Guia Completo Para Obter Resultados Incríveis, Inteligência Futura, 2025;

* Luciano Canhanga (Soberano Kanyanga) | Mini-Manual para Construção de Prompts, Edição própria, www.mesumajikuka.blogspot.com, 2025;

* Pachi Parra, A Comunicação com LLMs: O Poder da Engenharia de Prompts, iMasters, 2025; 

* Portal IA Hoje, Prompt Engineering – Como Comunicar com a Inteligência Artificial,  Inteligência Artificial Hoje,  2025;

* República de Angola, Lei n.º 22/11 – Lei da Protecção de Dados Pessoais, Diário da República / Assembleia Nacional, 201;

* Redação PUCPR, Engenharia de Prompt: Como Maximizar o Potencial da IA, Pós Digital PUCPR, 2025.

terça-feira, dezembro 09, 2025

A INCONTORNABILIDADE DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PRODUÇÃO DE TEXTOS INSTITUCIONAIS

Conceitos

A Inteligência Artificial tornou‑se inevitável na comunicação institucional. Permite rapidez, escala e eficiência na produção de textos, sendo hoje instrumento estratégico para qualquer organização que pretenda manter relevância e competitividade.

Texto‑máquina vs. texto humanizado:
- Texto‑máquina: estruturado, lógico, previsível, com gramática impecável, mas impessoal e genérico.
- Texto humanizado: incorpora emoção, oralidade, ritmo narrativo e contexto cultural. Cria proximidade com o público e transmite legitimidade.
- Função do comunicador: O gestor de comunicação não é substituído pela IA, mas torna‑se curador e tradutor da linguagem máquina, garantindo que o conteúdo seja adaptado ao público e reflita identidade institucional.
- Prompt robusto: O prompt é o “briefing” da máquina. Quanto mais claro e estruturado, mais preciso será o resultado. É nele que se define objectivo, público‑alvo, formato e estilo.

Exemplos de Prompts

a) Nota Oficial

Escreva uma nota oficial sobre o lançamento do livro "Amores de Mel’aço", realizado no dia 25 de Maio de 2026, pelo autor Soberano Kanyanga na sede do MIREMPET.
Formato: Nota oficial institucional, tom formal e solene.
Elementos obrigatórios: data e local, presença de representantes das empresas patrocinadoras (Catoca e Sodiam), da editora NHConteúdos e do público (familiares, amigos, colegas, amantes da literatura).
Estilo: Redacção clara, objectiva, sem adjectivação excessiva.

b) Notícia Jornalística

Redija uma notícia jornalística sobre o lançamento do livro "Amores de Mel’aço", ocorrido em 25 de Maio de 2026, pelo autor Soberano Kanyanga, na sede do MIREMPET.
Formato: Notícia jornalística, linguagem informativa e acessível.
Elementos obrigatórios: contexto literário, patrocinadores presentes (Catoca e Sodiam), editora NHConteúdos, público diverso (familiares, amigos, colegas, amantes da literatura).
Estilo: Estrutura jornalística clássica (lead, corpo, citações).

c) Pedido de Cobertura de Evento

Elabore um pedido formal de cobertura jornalística para o lançamento do livro "Amores de Mel’aço", marcado para o dia 25 de Maio de 2026, na sede do MIREMPET.
Formato: Ofício institucional dirigido a órgãos de comunicação social.
Elementos obrigatórios: identificação do evento, patrocinadores (Catoca e Sodiam), editora NHConteúdos, público presente (familiares, amigos, colegas, amantes da literatura), relevância cultural, solicitação explícita de cobertura.
Estilo: Linguagem formal, respeitosa e protocolar.


Exemplos de outputs

a) Nota Oficial
Nota Oficial
O autor Soberano Kanyanga informa que procedeu ao lançamento do seu mais recente livro "Amores de Mel’aço", no dia 25 de Maio de 2026, em Luanda.
O acto contou com a presença de representantes das empresas patrocinadoras Catoca e Sodiam, da editora NHConteúdos, bem como de familiares, amigos, colegas e amantes da literatura.
O lançamento marcou um momento de celebração cultural e literária, reforçando o compromisso do autor e dos parceiros em promover a literatura angolana.

b) Notícia Jornalística
Lançamento do livro "Amores de Mel’aço" celebra literatura angolana
O autor Soberano Kanyanga apresentou ao público, no dia 25 de Maio de 2026, a sua mais recente obra literária com o título "Amores de Mel’aço".
O evento reuniu, na sede do MIREMPET, representantes das empresas patrocinadoras Catoca e Sodiam, a editora NHConteúdos, além de familiares, amigos, colegas e amantes da literatura.
A obra foi recebida como um contributo significativo para a valorização da cultura nacional, destacando‑se pela sua abordagem sensível e pelo impacto esperado junto da comunidade literária.

c) Pedido de Cobertura de Evento
Ofício n.º 02/SK/2026
Exmos. Senhores,
O escritor Soberano Kanyanga, pseudónimo literário do jornalista Luciano Canhanga, tem a elevada honra de solicitar a vossa cobertura jornalística da cerimónia de lançamento do seu mais recente livro "Amores de Mel’aço", a realizar‑se no dia 25 de Maio de 2026, em Luanda, sede do MIREMPET.
O evento contará com a presença de representantes das empresas patrocinadoras Catoca e Sodiam, da editora NHConteúdos, bem como de familiares, amigos, colegas e amantes da literatura.

Trata‑se de um acontecimento de elevada relevância cultural e que reforça o papel da literatura angolana na preservação da memória e na promoção da identidade nacional.

Com os melhores cumprimentos,
Soberano Kanyanga

Conclusão
Este exercício demonstra que:
- A Inteligência Artificial (IA) é incontornável na produção de conteúdos, mas não substitui a curadoria humana.
- O prompt robusto é a chave para orientar a máquina e obter resultados consistentes.
- O texto‑máquina fornece estrutura e dados, mas precisa de ser humanizado para ganhar legitimidade, emoção e proximidade com o público.
- O comunicador institucional assume o papel de tradutor da linguagem máquina, garantindo que a mensagem seja culturalmente situada e socialmente relevante.
_ A Inteligência Artificial deve ser vista como ferramenta de apoio, nunca como substituto da sensibilidade humana. O futuro da comunicação institucional será híbrido: máquina para a eficiência, humano para a alma da mensagem.

Bibliografia

Avila, Geocinara de Faria, Comunicação na Era da Inteligência Artificial e Automação, Universo da Linguagem, 2025.
Carraro, Fabrício, O que é Engenharia de Prompt e quais as suas principais técnicas?, Alura, 2024.
Duarte, Roberto Dias, Prompt Mastery: Guia Completo para Escrita com IA, robertodiasduarte.com.br, 2025.
Flores, Diego, Engenharia de Prompts: o guia definitivo para dominar a interação com IA, Quiker, 2025.
França, Glaucia Ellen & Oliveira, Maria Lívia Pachêco, O impacto da inteligência artificial na comunicação organizacional, Intercom – UFPB, 2024.
Rufino, Fernanda, Inteligência Artificial na comunicação institucional: uma aliada estratégica no dia a dia, Observatório da Comunicação Institucional, 2025.

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Por: Luciano Canhanga (Soberano Kanyanga)

sexta-feira, dezembro 05, 2025

AUTOCLISMO ATRASA VIAGEM EXECUTIVA DA MACON POR 3 HORAS

Luanda, Bairro Gamek/Av.21 Janeiro, Novembro, 30, ano corrente. O autocarro executivo da Macon, agendado para as 7h30, não se fez à placa de carregamento até às 10h20. Durante esse período, não houve explicações claras, embora por duas vezes tenha sido anunciado nos altifalantes que a partida estava iminente.

Os passageiros, já com malas e carga depositadas nos porões, ao apresentarem as passagens ao motorista, ouviram, por duas vezes, a resposta que lhes causou desalento:

"O vosso autocarro é das 7h30 e não este".

Furiosos, cerca de uma dezena de passageiros dirigiu‑se à sala do chefe de plantão, enquanto outros pressionavam as vendedoras de bilhetes e anunciantes das partidas.

Segundo o chefe de plantão, «houve falta de coordenação entre a sala e a comunicação áudio». Explicou ainda que, embora o autocarro estivesse pronto, «verificou‑se avaria no autoclismo».

Assim, uma falha técnica aparentemente menor acabou por impor aos passageiros da rota Luanda ao Sumbe, Benguela e Lubango [autocarro executivo com partida agendada para as 7h30] uma espera de três horas, com prejuízos nas ligações e compromissos marcados, para além de danos morais.

Solicitado o livro de reclamações, não estava no seu posto o zelador deste.

segunda-feira, dezembro 01, 2025

A FOTOGRAFIA "PAGA-JÁ" DO TIO ALBINO NGANGA

O bairro do Kaputu indígena, construído de casotas de pau-a-pique e algumas de madeira, era cortado pela Rua da Ambaca e suas parcas travessas. Fazia fronteira entre este mundo e outro arquitectonicamente mais bem elaborado uma extensa beco aduela (beco) que saía do Centro de Saúde do Rangel e seguia até ao Bar que se colocava em paralelo com a casa do Senhor Pacheco. Para lá dessa linha, começava a geometria imposta do Reordenamento do Rangel, abrindo-se um rossio que se estendia ao depósito do Kilwanje, ao Restaurante Kilwanje, à Marcenaria Kilwanje, à "Escola do MPLA", à repartição da OMA e ainda ao Supermercado Kilwanje. A Escola Ekwikwi II, construída entre 1986 ou 87 pela empresa Ecocampo e que abocanhou o descampado das nossas manhãs e tardes de futebol, não era sequer projecto.

Ali, na fronteira entre esses dois universos, encostados a um antigo Berliet Tramagal militar e a um Peugeot branco - ambos abandonados e fazendo companhia ao lixo ainda escasso - erguia-se a casa de Albino Nganga, cuja moradia de pau-a-pique possuía um quintal de chapas de zinco acastanhadas pelo tempo e retorcidas pelo vento.

Amigo dilecto do meu tio, Ferreira Nganga, o velho Albino possuía uma máquina para fotografia momentânea que a criatividade luandense de então baptizara de "paga-já". Aos nossos olhos de crianças, a máquina era uma caixa pesada, suportada por um tripé - uma câmara escura e mágica cujos segredos só ele conhecia. Tanto mais que nunca fora visto a ceder a caixa fotográfica a outra pessoa.

A minha primeira foto foi uma "paga-já", quando frequentei a "Escola Grande" da Terra Nova e contava dez anos. Antes disso, nunca fora fotografado para tratar documento nenhum. As minhas fotos mais recuadas, ainda disponíveis, são do tempo em que estudei no Ngola Mbandi (sétima e oitava classes), sendo já no início da década de 90. Conservo o cartão da AAEM - Associação dos Alunos do Ensino Médio, mesmo sendo, à data, pré-aluno do ensino médio.

Em 1984 ou 85, o tio Ferreira Nganga levou-me a casa do seu parente e amigo Abino Nganga para tirar um retrato. O velho Albino começava sempre com uma advertência solene: "atenção, não se mexe!"

De tanto fitar a câmara enquanto o fotógrafo mexia demoradamente nos instrumentos, o petiz acabava por fechar os olhos. E era exactamente nesse instante de fadiga visual que ele executava o mágico flash. A regra era clara: caso precisasse de repetir o flash, pagar-se-ia a dobrar. Era, de facto, um sacrilégio consumar a fotografia paga-já do tio Albino.

Naquele tempo, os velhos eram profundamente unidos, fazendo-se sempre acompanhar de filhos e sobrinhos para que fossem conhecidos pelos parentes. Todos os amigos e coetâneos do tio eram tratados por "tio", tecendo uma vasta rede de cumplicidades que fortalecia os laços entre todos.