— Mamá, atuzemba… Atuzemba, atuzembel’anyi?!
A voz do miúdo corta a manhã quente, misturada ao cheiro de poeira molhada e fritura de rua.
— Calma, meu filho, responde a mãe, sem parar de varrer. Eles gostam, só não sabem dizer…
No Rangel, o carnaval nunca foi só desfile. Era vida. Era rua. Era gente.
— Quando vai lá, dizem que Atuzemba é do povo… quando vem aqui, já é de todos, resmunga o mais velho, encostado à parede descascada da casa.
— Eh pá, isso é política de batuque, ri outro, batendo numa lata vazia.
O refrão ecoa como sempre ecoou. Décadas depois, ainda pulsa. O grupo Atuzemba não precisa de palco — precisa de chão. E chão é coisa que o Rangel sempre deu.
— Mas ouviste? Dizem que agora o carnaval é lá na Marginal…
— Naquela nova?
— Sim, com luz, tribuna e gente engravatada e polícia para parar ngadyama.
— Então não é o nosso carnaval, responde seco o homem da camisa aberta. O nosso é aqui, com poeira e suor.
E de repente, como se o tempo abrisse passagem, alguém puxa pela memória:
— Lembras do Man-Brás?
Silêncio. Depois, risos soltos.
— Man-Bragéé-é! Man-Bragéé-é! — entoam dois miúdos, sem nunca o terem visto.
Man-Brás não desfilava. Ele acontecia.
Surgia do nada, vindo da Rua Pernambuco, junto à Praça Nova, tambor debaixo do braço, olhar perdido e corpo entregue ao ritmo. Batia na ngoma como quem conversava com os espíritos da cidade.
— Eh, Man-Brás, toca aí! — gritava uma quitandeira na Praça das Corridas.
Ele não respondia. Tocava.
A Praça das Corridas fervilhava. Peixeiras, zungueiras, crianças descalças — tudo parava para ver.
— Há uma gordurinha? — perguntava no fim, com um sorriso torto.
E havia sempre. Um pedaço aqui, outro ali. O suficiente.
— Mamã, vou só ver o Man-Brás!
— Não vais nada! Ficas aqui!
Tarde demais. O miúdo já corria atrás do batuque.
— Nanyi wa ngi bongela kamona ka dyal’ê?! — gritava depois uma mãe aflita pela rua.
Man-Brás levava crianças como o rio leva folhas: sem pedir licença.
— Esse homem é doido…
— Doido nada, corrige o outro. Ele é carnaval puro.
No Rangel, ninguém lhe faltava ao respeito. Podia não ter casa certa na cabeça, mas tinha lugar garantido no coração do bairro.
— Hoje o carnaval tem patrocínio, comenta alguém.
— Tem dinheiro, mas não tem alma, responde outro.
Em 2014, o União Sagrada Esperança do Rangel levou a coroa. E bem. Trouxe o orgulho de volta ao bairro.
Mas ali, na sombra de uma mangueira antiga, alguém insiste:
— E o Man-Brás? Já fizeram homenagem?
— Homenagem? — ri-se um jovem. Hoje só homenageiam quem aparece na televisão.
O velho abana a cabeça.
— Errado. O carnaval começou com gente como ele. Sem palco, sem dinheiro, sem convite.
O batuque parece voltar, imaginário, mas vivo.
Tum… tum… tum…
— Man-Bragéé-é… — murmura alguém, quase em reza.
Na Luanda moderna, de avenidas largas e desfiles coreografados, há nomes que ficaram para trás. Mas não deviam.
Man-Brás não pediu estátua. Nem desfile. Nem medalha.
Só pediu uma “gordurinha”.
E, ainda assim, deu tudo.
— Sabes o que falta? — pergunta o mais novo.
— O quê?
— Memória.
O outro sorri, devagar:
— Então escreve isso… antes que o batuque se cale de vez.
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