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terça-feira, janeiro 24, 2006

10ENCANTO



1984, Luanda, bairro Rangel. Oiço todos os dias no rádio a canção que fala “sul’africano um dia pagará...” e aguardo que nos venham saldar a dívida e que me atribuam a minha parte. Já desde 1980, ano em que entrei na pré que me ensinam a seguir o exemplo de Ngangula e transformar-me num homem novo. Já conseguiram Incutiram em mim a amizade pelos internacionalistas cubanos e SWAPOS e a odiar os kuachas, o imperialismo e os sul-africanos que têm de nos pagar.
Estou agora na capital, a tão bem falada lá no mato, a menos de um ano. Todos querem vir, pelo menos uma vez, mas nem todos podem, até porque é preciso ter família que te receba e dinheiro para pagar no carro ou nos autocarros da ETIM e ETP.Antes só conhecia a vida na comuna de Cacuaco através do livro de leitura da 2ª classe que fala do Dudú, o Beto, o Tito e a prima deles Ana que é do Úcua. Por isso dizem que sou mbalo, mas é pura mentira, porque no mato já nasci a ver lâmpadas acesas, água na torneira, carros grandes e pequeninos, muitos tractores, asfalto e até mesmo bomba de gasóleo e bares. No Lussussu há o bar do Olímpio, do Miguel Neto e do Falcão, aquele mulato da Vila que nunca mais deu comida no bar dele.
A diferença é que aqui há estradas grandes com luz nos dois lados e filas de carros que não acabam e prédios compridos que quase falam com Deus. Parece que mesmo juntando a Munenga, a vila de Calulo e o Dondo Luanda é maior. Vamos ainda ver.
Cheguei num Oral das Fapla. Um motorista cacimbado trouxe-nos do Dondo, minha mãe, minhas duas irmãs e eu sem parar para descansar. A outra mana que puxa a caçula já está cá há muito tempo com o tio que quis aliviar a mãe do foge- e-regressa de todos os dias.No caminho quando encontrasse-mos macacos ou outro bicho qualquer o motorista das fapla parava um bocadinho para fazer o gosto ao dedo.
-Ra-tá-tá-tá-trá-trá-tá-ta... e pronto.
Ou matava ou não, ficando rodeado pelo fumo da pólvora, enquanto que as balas vomitadas pala kalache procuravam alojamento num corpo qualquer. Uma árvore, um animal distante, um camponês, ou mesmo um kuacha disperso, daqueles que gostam de ir à estrada para queimar os carros e aproveitar a comida do povo.Bala na câmara, mudança no carro, sai a vuzar. Pior ainda quando não conseguisse matar nada de perto. Vontade dele parecia que era atropelar tudo o que lhe atravessasse à frente, só que eram mais o vento e as árvores que se espreguiçavam na estrada que quase nos matavam a visão.
Já aqui em Luanda desde 1 de Maio, dia de feriado dos trabalhadores, não oiço mais os recuas nem avanças das fapla e dos inimigos. Vejo apenas os migs da fapa que passam mais baixos do que no mato e a arder em voo sem cair. Para além dos autocarros tipo jibóia que andam sem descansar do Baleizão ao Nzamba 1 e Condel, passando pela Cáritas e Mutamba, também conheci novos amigos. Todos eles cacimbados. O Mingo tem oito anos e já fuma kangonha. O Nando aleijado, filho do Madureira bebe kapuca. O Raimundo parece que é bandido do México. Gosta muito de andar com uma faca no bolso e de receber dinheiro aos miúdos que vão à praça. Ontem mesmo lhe bateram porque espetou uma kibiona numa mana que estava a vender sabão cocó no kalissange. Aos sábados quando o comboio de Malanje chega, os miúdos todos da rua e do beco 1, gostam de levar-me à estação dos musseques para me ensinarem a magoelar e a destacar do comboio ou ainda roubar kissungo de cana às tias que estão ‘mbora atrapalhadas.
Estamos agora em Dezembro. Todo o mundo daqui está de férias. Nas lojas do povo há muita comida e também muita luta para ter géneros. Dizem que é o mês da guerra. Fazem muitos tiros contra ninguém e toda a gente se esconde debaixo das camas para não apanhar um tiro disperso.
Hoje, dia 24, todas as casas viraram padarias. Micates, bolos, broas e outros mambos que ainda não lhes conheço os nomes é só comer. Em cada casa, é só passar em frente para ouvir a chamada.-Pioneiro, filho da mana fulana, toma! É bom. Estou a passar assim o meu primeiro dia de fartura. Filhos de caluandas e de recuas, em Dezembro, na hora do natal, parecem todos iguais. Festa como essa, tive apenas quando passei da pré-kabunga para a primeira classe com o pai ainda em vida. Só que não vi quase nada porque me deram maluvu e dormi cedo. Quem se fartou foi a minha família que festejou noite fora. Só que aqui na capital é diferente. A festa é colectiva. Todos têm géneros e fazem as mesmas comidas. Até as donas de Catete ficam com favor e já não mandam mais tomar banho e pôr roupa da escola na hora de assistir ao Robim dos bosques ou D. Quixote na TPA. Se assim continuar, vou mesmo dizer que Luanda é cuiosa.

***
Agora que está a ficar escuro, vou já dormir. Não tarda, a mãe já me disse que é hoje o dia do kibulo....
-Rá-tá-tá-tá-tá-trá...trá..trá. crá-crá. Bum! Bum-bum! Cá-cá-cá. Crácrá-cá.
Céus! O espaço está todo avermelhado de balas incendiárias. Acordo medroso e banhado de mijo. A mãe puxou-me para debaixo da cama. As baratas agitam-se e fazem-me companhia ao lado do bacio enquanto a mãe e as minhas duas irmãs mais novas procuram refúgio debaixo duma velha mesa, já sem cadeiras.
Apesar do susto, puxo na memória a veterania que conservo de me esconder das balas perdidas. De repente, vieram recordações frescas do ataque a Munenga, em Fevereiro, quando o falar umbundu e o francês do meu mano Arnaldo nos salvaram do rapto. Os atacantes indicaram-me para a alvorada porque era o único que já estudava a terceira e sabia ler e escrever uma carta. O Mano que falou francês com o chefe dos inimigos, que tinha botas castanhas e patente de primeiro-tenente, foi indicado para a jura onde também nunca ficou. Lembrei-me então que estávamos num kibidi em plena Luanda. E como se estivesse na viagem dos meus pensamentos a mãe fez-me o sinal de aprovação e enfiei mais ainda a cabeça ao fundo da cama para evitar que uma perdida qualquer me atingisse dos céus.
A minha coragem só foi cortada pela rajada curta largada atrás da casa.
-Rá-tá-tá-tá-tá.
Alguém debaixo da mesa pôs um peido. Era para mim o último suspiro de quem tinha perdido uma batalha, mas não chorei ainda. Preferi esperar que terminasse a guerra. Felizmente ninguém se magoou era apenas o medo.
De repente, a rua antes deserta encheu-se de gente, como no assalto às casas do povo depois da vitória do inimigo e recuo das fapla. Camaradas e vizinhos de todos os becos e ruas trocavam beijos e abraços.
-Epá, chegamos lá. É natal, boas festas pá!
Muitos saíam de casa com as canecas repletas de vinho ou Cuca e Nocal e serviam partilhando com os outros, que diziam apenas igualmente obrigado. A Eka estava difícil devido aos ataques na estrada de Maria Teresa.A emoção vivida na rua, sem igual ao longo da minha capitalização, puxou-me da toca e perguntei bem alto se a guerra tinha acabado, ao que a mãe respondeu:
_Não é guerra. É festa de natal, meu filho.
-Afinal aqui é assim?
_Sim Felito, dorme já.
Tentei o sono, mas foi novamente difícil, pois vieram recordações do enfermeiro Mateteu que vendia kapuka misturada com álcool etílico roubado do hospital e combustível paraaviões que meteu muitos kotas cegos até hoje. Dizem que é por causa da bebida que era pouca na quadra festiva.

Por: Soberano Canhanga

1 comentário:

MN disse...

Admiro muito a sua escrita, consegue sempre misturar os sentimentos, humor, drama e acção sem nunca perder o fio a meada.

Por motivos de logística e de critérios ainda não publiquei o último post que me enviou “Cantos anónimos IV”. Não sei porque parou de enviar, mas de certo que não se vai incomodar que eu lhe surripie este que acabo de ler.
Abraço