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quinta-feira, dezembro 01, 2005

CÂNTICOS ANÓNIMOS II


Tenho andado agora nos candongueiros (táxi), nos autocarros públicos e a pé. Não porque me apraza, mas porque fiquei sem o meu “rolante”, cansado de tantos remendos. Andar a pé e de candongueiro até dá gozo. Vive-se a vida verdadeira do povo.

Cruzo todos os dias com zungueiros, gatunos de telefones, estivadores em mercados paralelos, biscateiros de toda a sorte, Doutores de todas as áreas, caídos na desgraça, militares, polícias, enfim, todos os que não andam em carros luxuosos e com vidros fumados.

Oiço todos os dias músicas, ou melhor cânticos, alguns alegres, bafejados pelo vinho entorpecente. Outros de angústia causada pela vida que não anda.

Hoje, do aeroporto para o meu local de serviço, meti-me num azul e branco (táxi) onde o cântico era sobre as estradas que dão acesso à baixa.
"Muitas obras, estradas sempre estreitas, muito “engarrafamento” e notícias que só falam sobre milhões na comunicação social, quando o povo definha".

Vi também um coronel na conversa e conclui que os generais só não falam porque ainda não os ouvi. MAS QUEM SABE…

Do Hospital militar ao mercado dos “congolenses” (assim se diz ao contrário de congoleses que seria ideal) andei num autocarro da TCUL. O cântico foi sobre a vida difícil que “o povo leva”. Ouvi homens e mulheres a reclamarem a destruição pelo governo (?) do mercado do ASA Branca*, no Cazenga.

Ouvi dizeres como:
-" O povo vai morrer de fome".
- " A vadiagem e a droga vão aumentar".
-" Os assaltos vão piorar ".
-" Esse governo vai nos matar", etc.

Ouvi também argumentos como:
-“se eles passavam a vida a biscatear, vender qualquer coisa ou mesmo indicando o caminho para a compra disto ou daquilo em troca de um cem ou cinquenta, agora que acabaram com o mercado, a coisa vai ficar complicada”.

Ouvi ainda interrogações várias no mesmo cântico tais como:
- Como é que vamos fazé?
-Onde é que vamos cume?
-etc.

Ouvi outros cânticos anónimos na viagem, também de táxi, dos congolenses ao mercado da Estalagem e deste à Boa fé, ida e volta.

Ouvi apelos a “quem de direito” em expressões como:
-Mas quê que anda então fazé o quem de direito?
-Mas o presidente tá então a fazé só o quê, que não toma ja medida?

Ouvi depois argumentos como:
“o próprio presidente sabe”, e insinuações como:
“Deixa-lá, no Zaire também foi assim, mas chegou o dia”.

Um jovem demonstrando atrevimento ainda rematou:
-“ Isso só muda mesmo quando o kota bazar. De velhice ou de eleição”

*O mercado do ASA branca chamava-se "Ajuda o Marido" e foi assim rebaptizado em 1987 quando a TPA passava a novela brasileira Roque Santeiro. Na sua missão de ajudar o marido naquele tempo da ração planificada, ombreava com o também extinto " Tira biquini" ou "Cala a boca" e a praça das Corridas, actual "Tunga-ngo" (em kimbundu = constrói só). A extinção do Cala a boca deu lugar ao surgimentos dos mercados dos Kuanzas e do Roque santeiro.

Luciano Canhanga

1 comentário:

MN disse...

Tá demais! Brilhante ideia e feliz execução (tal como o cânticos anonimos de I).
Peço permissão para poder publicar no blog "Desabafos Angolanos" visto que este o amigo não enviou para o mesmo ser publicado.
A ausência de resposta será considerado pedido deferido.
Um abraço