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domingo, maio 07, 2017

O PRATO DO VELHO LUMINGU

(In: O gajo do pastor)

Naquela manhã abafada, no Bairro Kaputu, quando os galos ainda discutiam com o sol o direito de nascer, o pregador Kapitia bateu com a palma no púlpito e anunciou:

— Minhas irmãs, meus irmãos… hoje vou-vos contar a história de Wazedywa e do velho Lumingu. Isto não é invenção. Isto é vida a falar. É Cristo que manda informar!

O povo aproximou-se.
Kimone cruzou os braços como quem prepara tempestade.
O velho Kafejá e a velha Nvundi trocaram olhares cúmplices de riso escondido.
E no canto, abanando a Bíblia como se espantasse mosquitos espirituais, estava o Irmão Pirigo — pronto para meter opinião onde Deus não tinha pedido.

Kapitia levantou o dedo:

— O velho Lumingu já não tinha mão firme. Por força da idade, tremia como folha de mulemba ao vento. À mesa, caía prato, caía copo, caía talher… só não caía ele porque o Altíssimo o sustentava!

— Aleluia! — disparou o Irmão Pirigo, mais rápido que o pensamento.

Kapitia prosseguiu:

— Mas quem não sustentava era a nora dele, Kimone. Bastava o velho deixar cair uma colher, e ela já começava: “O meu enxoval está a desaparecer mais rápido que salário em casa de endividado!”

Aida soltou um “Amém!” mais alto que a própria convicção.
Kaxinda, recém evangelizada e dona do pão mais falado do bairro, comentou baixo:

— Essa mulher precisa de jejum de três dias…

Wazedywa, o filho, tentava equilibrar tudo. Ora comprava louça nova, ora respirava fundo pedindo paciência divina. Mas, levado pela pressão da esposa, começou a comprar pratos e copos de plástico. Até aceitou fazer pratos de madeira para o pai. Consentiu, e esse consentimento doeu mais que loiça partida.

O irmão Pirigo, sentindo oportunidade de parecer sábio, exclamou:

— Cada um come conforme o destino que plantou!

Kapitia olhou para ele com firmeza:

— Irmão Pirigo, deixa Cristo falar primeiro.

E continuou:

— O velho Lumingu nada dizia. Nem força tinha para reclamar. Comia devagar, bebia resignado… e só olhava para quem o entendia: o neto Mesu‑a‑Yadi.

Mesu‑a‑Yadi percebia tudo. A dureza de sua mãe Kimone, a hesitação do pai, a tristeza do avô.
Foi assim que encontrou consolo na madeira: primeiro fez brinquedos, depois colheres, depois pratos tão perfeitos que até o Kaxikana, bêbado de kaporroto, diria: “Isto é dom celestial!”

Um dia, o rapaz levantou-se resoluto.
Não tomou o pequeno-almoço.
Não respondeu ao chamado da mãe.
Nem parou na banca da Kaxinda.
Foi direto ao quintal. E martelou, talhou, lixou… como quem cumpre missão recebida em sonho.

Quando Wazedywa e Kimone foram ver o que ele tramava, encontraram-no cercado de talheres, pratos e copos de madeira, tudo tão bem trabalhado que parecia obra de artesão.

— Filho… para quê isso tudo? — perguntou Wazedywa, a voz trémula.

E Mesu‑a‑Yadi respondeu, sério como profeta:

— É para vocês. Para quando tiverem a idade do vovô. Quero adiantar, não vá eu já não ter mãos firmes nessa altura.

Kimone ficou sem voz.
Wazedywa sentiu o coração tremer.
E o irmão Pirigo abriu os braços:

— Estão a ver, meus irmãos? A colheita já começou!

A congregação murmurou um “amém” desconfiado, porque conselho vindo do irmão Pirigo sempre precisava de sal e discernimento.

O pregador continuou: queridos irmãos, naquela mesma tarde, Wazedywa e Kimone desfizeram-se da loiça de plástico e dos copos de bambu. Pediram perdão ao velho Lumingu. Devolveram-lhe o respeito, a dignidade e o lugar dele na mesa.
E o sorriso do velho, naquela noite, iluminou a casa como candeia nova.

Kapitia fechou a história, mas abriu o coração:

— Meus filhos na fé, aprendam o que a vida está a gritar aqui! Hoje é o velho Lumingu… amanhã seremos nós. Hoje é ele que treme… amanhã serão as vossas mãos a falhar. Não desprezem quem vos deu mundo, porque o mundo devolve tudo o que recebe.

Levantou a Bíblia:

— Está escrito, em Gálatas 6:7:
“Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo o que o homem semear, isso mesmo colherá.”

E acrescentou, com voz firme:

— Jovens, escutem: quem planta desprezo pelos seus pais, aos olhos dos seus filhos, colherá o mesmo desprezo na sua velhice.
Quem trata o seu velho com desonra, está a ensinar o futuro a desonrá-lo também.
Mas quem cuida… quem ama… quem respeita… esse semeia descanso para a própria velhice.

Olhou para o rebanho e concluiu:

— Lembrem-se: acolher os nossos velhos é acolher Cristo.
Que cada um aqui plante honra, para colher misericórdia.
Plante cuidado, para colher companhia.
Plante amor, para colher paz na última estação da vida.

Ergueu a mão e finalizou:

— Que Deus abençoe a Sua Palavra!

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