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segunda-feira, maio 29, 2017

ALFARRABISMO E KISALU DAS LETRAS: UM RESGATE NECESSÁRIO

Por: Soberano Canhanga, 2012
 
Ela é paciente. Está todas as noites, das 18 às 22horas, no pátio da escola do II nível de Saurimo onde a Escola Superior Politécnica da Lunda Sul (unidade orgânica da Universidade Lweji A Nkonde) tem salas emprestadas para estudantes nocturnos. Paciência Sanâmbua sabe que os estudantes universitários têm uma carga de conhecimentos muito diminuta devido à falta de bibliografia, aliada à inexistência de hábitos de leitura. Ela não só vende livros, como também aproveita retirar deles o conhecimento que têm.
Na sua bancada, Paciência expõe livros de escritores e autores angolanos editados pela Mayamba. É única em Saurimo a fazer este negócio. A cidade dispõe apenas de uma livraria situada em local de difícil reconhecimento. Não há divulgação/publicitação da mesma e acções tendentes a elevar os níveis de literacia são desconhecidas. Os alfarrabistas inexistem. Feiras de livros e outras artes também são inexistentes na cidade. Os leitores são poucos. Pouquíssimos. “vendo por dia (noite) entre 3 a 5 livros ou menos do que isso”, diz ela rasgando um sorriso característico de quem gosta do que faz. É como quem corre por gosto (não se cansa) e por isso Paciência não desiste da venda de livros.
Alguns professores, preocupados com as causas do tão fraco nível de conhecimentos dos estudantes, vão apelando à leitura e recomendando livros (gramáticas, dicionários, romances, contos, livros técnicos em função da especialidade, etc.). Uns, que já deram conta do quão atrasados estão e vão aplaudindo aos conselhos e adquirindo livros para a elevação do seu nível intelectual. Outros fazem “ouvidos de mercador”, mas é assim a vida. “Nem todos estão atrás do conhecimento”, como desabafou um dos meus estudantes preocupado com os colegas que, mesmo estando na universidade, desconhecem a definição do que é o sujeito de uma oração. “Uns querem apenas obter os certificados para serem chamados de doutores ou para terem os salários elevados”, rematou o insigne estudante.
"É o conhecimento que difere o doutor de fato e o Dr. de facto", tenho dito aos meus amigos, em todas as salas por onde ministro.
 
E, aqueles que pretendem ter um “canundo” cheio de conhecimentos têm de ir à barraca da Paciência e outras barracas/livrarias (quitandas das letras) para enriquecerem as luzes/pistas que os professores dão sobre o conhecimento científico.
* Kisalo: o mesmo que kitanda em kimbundu (mercado em português)


Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 01.06.2017

quinta-feira, maio 25, 2017

PESQUIZANDO MINHAS ORIGENS


Muitas vezes fui abordado, por cibernautas e amigos reais, por que adoptei o pseudónimo literário de Soberano Canhanga?

Quanto à minha origem materna já escrevi e expliquei. Faltava o lado paterno, pouco divulgada nos meus escritos.

A minha mãe (Maria Canhanga) conta que o meu avó Ñana Muryangu (Fernando Ndambi como ficou registado no civil) era procedente de Karyangu, aglomerado populacional que conheci aos 39 anos.  

- Kukwi mungwa mbonge Yaryangu!- Diz sempre que questionada sobre o assunto (vosso avô era procedente da sede de Kariangu).

Lendo http://francismundo.comunidades.net/origem-dos-kibala-1sintese (01.02.2017), sobre a origem e alguns ritos dos povos Kibala, cheguei a algumas conclusões, não pouco importantes, sobre aquele que terá sido Fernando Ndambi, bem como algumas práticas por ele evidenciadas.

Vejamos:

“Sempre que um homem tomava uma mulher, era aconselhado ir viver num outro ponto do território para terem filhos e formar uma família lá, criando tribos e clãs com o prepósito de expandir o reinado de kipala o “Ñana Inene” e o seu povo. Não há evidência de que este povo era tributário há um determinado reino”...

Meu avô, já em terceiras núpcias, abandonou o seu homeland e migrou para a região de Kuteka, onde já tinha alguns parentes também eles migrados. Mas não se juntou na comunidade parental. Procurou um sitio com mata serrada e água abundante, atraindo caça, local propenso ao desenvolvimento de uma agricultura que propiciasse boas colheitas. Ao rio Kitumbulu, que encontro sem peixe, fez questão de povoar, pescando no Sangana e descarregando os peixes à montante do Kitumbulu.

“... Kipala Kia Samba teve 15 filhos, dos quais seis (06) eram com sua primeira mulher “Nzumba Muriango, muñambo-a-Čipalá”. Cada filho ia tomando a sua mulher conforme os rituais e a levava já concebida a uma outra terra para formar a sua família... Depois da morte de seu marido passou a ser chamada de Nzumba Čipalá, fazendo papel de rainha”...

O sobrenome Muriangu que configurava o título nobilístico de meu  avô, indicia ter descendido directamente da linhagem de Nzumba Muryangu ou Nzumba-Epala (Nzunba-esposa de Cipala). Pois o título nobilístico de Ñana Muryangu, nunca viria do nada e jamais lhe seria atribuído e reconhecido, se não fosse do grupo dos herdeiros de Cipala kya Samba saídos do ventre de Zumba Muryangu.

Portanto, sou um libolense, de Kuteka, onde meu avô materno, Ñana Ngunji,(Canhanga) era o regedor (soba grande) do Kuteka (margens do Longa), e sou igualmente descendente da nobreza de Cipala kya Samba (Kibala).

 

segunda-feira, maio 22, 2017

MALAVU OU LUNGILA?

Essa é uma pergunta comum quem visita as aldeias interiores do Uige. O café também conhecido como bago vermelho é, sem dúvida, o ex-libris do Songo e outros municípios do Uije. Mas, não é tudo. No Songo, por exemplo, também se vêem montanhas que desafiam os céus como na aldeia de Zulumongu (o céu é a montanha) e se bebe malavu (designação do vinho de palma em Kikongu)ou lungila (aturem-me em Kikongu) que é um fermentado a base de sumo de cana de açúcar.
- Então, vai uma bebida?
- Sim. Sirva Lungila!
Nesta viagem turística e exploratória sobre os usos e costumes dos nossos povos, também pude constatar que os topónimos, no Uige, regra geral emergem de hidropónimos, de antropónimos de fundadores das comunidades ou de eventos sociais, culturais ou naturais relevantes, uma característica que se pode dizer: geral em Angola, sem muita margem de erro.
 
Exemplos:
Zulumongu (o céu é montanha), Uije.
Kipala kya Samba (rosto de Samba), Kwanza-Sul.
Kambambi (friozinho), Kwanza-Norte
Baixo Longa (rio Longa) no Kwandu nyi Kuvangu
Ngonguembo (Ngonga yo wembu) Kwanza-Norte
babaera/Ovav'ayela (água límpida/cascata) Ganda/Benguela
Pedra Escrita (anúncio publicitário feito em pedra deu nome à aldeia) no Libolo), etc.

Outra constatação, cuja reflexão se espera melhor desenvolvida e fundamentada, tem a ver com as línguas faladas na extensão do Uije e as zonas de "penumbra linguística". Busco aqui uma analogia com a física, uma ciência da natureza para procurar explicar o que se passa com as imagináveis fronteiras linguísticas cujos marcos (inexistentes) nada têm a ver com as fronteiras político-administrativas. Se para separar os territórios das aldeias, comunas, distritos urbanos (têm estatuto semelhante às comunas rurais), município e províncias servem como separadores as ruas, avenidas, elevações, rios, cadeias montanhosas, etc., com as línguas, seja no Uije ou outro território, acontece de forma diferente. Não há fronteiras tangíveis. no Negaje, por exemplo fala-se Kimbundu! No Noroeste do Uije locuciona-se em Ucokwe ou língua aparentada. Na zona de fronteira imaginária entre dois grupos etnolinguísticos há sempre uma zona de transição que é, nada mais do que, a fusão de elementos lexicais dos dois grupos predominantes, sendo que essa "penumbra" se vai dissipando enquanto mais nos aproximarmos do núcleo de uma determinada língua.

Por isso, política é política. Entre os do Uije nem todos são bakongu!


Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, 11.05.2017

segunda-feira, maio 15, 2017

UMA “CARTA” AO FUNCIONÁRIO PÚBLICO


Desde Frederick Taylor, considerado "o pai" da Administração Científica, que a ciência da administração e da gestão de pessoas no trabalho vem sofrendo uma evolução sem precedentes.

Para Taylor, a primazia recaía na tarefa. Homem-tarefa-ferramenta. Cada um procurava executar, com o máximo de destreza, a tarefa única que lhe era incumbida, chegando a executá-la de olhos fechados; a produção industrial ganhava corpo. Charles Chaplin satirizou essa época.
Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, e o primeiro empresário a aplicar a montagem em série de forma a produzir em massa automóveis em menos tempo e a um menor custo, encarou o homem como ser pensante, social, com desejos e anseios. Teorizou que o homem devia ser o centro da atenção e não apenas a tarefa e a ferramenta de trabalho.

Já Max Webber,
considerado um dos fundadores do estudo sociológico moderno, foi mais além, afirmando: “O homem formado, capacitado, motivado e remunerado à medida do seu desempenho é factor de produção e criação de lucro que proporciona o crescimento das organizações e das sociedades”. Porém, que tal se os procedimentos para a execução da tarefa fossem descritos em uma pauta, de tal sorte que qualquer que venha contratado possa executar a mesma tarefa sem desperdício de tempo para a aprendizagem e sem margem para grandes erros na execução da actividade que estava acometida a uma outra pessoa? A pauta ou a sistematização de Webber constitui-se num avanço à ciência da administração.

Olhando para esse percurso histórico de mais de três séculos, notamos, entretanto, que todas as teorias não se anulam entre si. Antes, se complementam.

O pensamento moderno leva-nos a valorizar a equipa ou o grupo. Tanto mais que em muitas organizações fazem-se contratos de trabalho em grupo, criam-se organizações que velam pelo grupo, e mesmo na realização de tarefas a primazia vai para o trabalho colectivo, cujo resultado deve ser mais do que a soma de todas as partes (cada uma tem tarefas específicas, interage com outros integrantes da equipa, comparticipa noutras tarefas, sugere, etc.).

Mesmo assim, o foco na tarefa, de Taylor, não ficou ultrapassado, pois, nos dias que correm, escasseiam pessoas que executem tarefas no tempo certo, com o resultado ansiado e sem inundar o líder de exigências e questionamentos prévios.

Essa reflexão induz-nos a revisitar o livro de Elbert Hubbard “Uma carta para Garcia”, que é somente um dos cinco livros mais vendidos em todo o mundo:

“Estava-se em finais do século XIX, e desenvolvia-se a luta pela emancipação de Cuba. Os Estados Unidos estavam em guerra com a Espanha (potência colonizadora de Cuba). Garcia era o general cubano revoltoso contra Espanha, suposto aliado dos EUA que também guerreavam Espanha por uma outra causa. Com a Espanha sufocada, os EUA pretendiam encontrar Garcia que se encontrava incerto nas montanhas interiores da ilha. Que fazer? O Presidente dos EUA precisava de um emissário que levasse a carta a Garcia que se achava em sítio incógnito. O homem que lhe foi apresentado, simplesmente pegou a carta, a impermeou, pegou numa canoa e, onde não pôde navegar, meteu-se no sertão até encontrar Garcia”.
Quantos de nós ainda cumprem tarefas sem questionamentos e exigências prévias?
Homens assim, que “levam a carta ao Garcia”, são ou não imprescindíveis à organização?
“Uma carta para Garcia” é também a nossa sugestão complementar de leitura.
Escrito para e publicado pelo InfoGeoMinas, enquanto Dir do GRH
 
 

domingo, maio 07, 2017

O PRATO DO VELHO LUMINGU

(In: O gajo do pastor)

Naquela manhã abafada, no Bairro Kaputu, quando os galos ainda discutiam com o sol o direito de nascer, o pregador Kapitia bateu com a palma no púlpito e anunciou:

— Minhas irmãs, meus irmãos… hoje vou-vos contar a história de Wazedywa e do velho Lumingu. Isto não é invenção. Isto é vida a falar. É Cristo que manda informar!

O povo aproximou-se.
Kimone cruzou os braços como quem prepara tempestade.
O velho Kafejá e a velha Nvundi trocaram olhares cúmplices de riso escondido.
E no canto, abanando a Bíblia como se espantasse mosquitos espirituais, estava o Irmão Pirigo — pronto para meter opinião onde Deus não tinha pedido.

Kapitia levantou o dedo:

— O velho Lumingu já não tinha mão firme. Por força da idade, tremia como folha de mulemba ao vento. À mesa, caía prato, caía copo, caía talher… só não caía ele porque o Altíssimo o sustentava!

— Aleluia! — disparou o Irmão Pirigo, mais rápido que o pensamento.

Kapitia prosseguiu:

— Mas quem não sustentava era a nora dele, Kimone. Bastava o velho deixar cair uma colher, e ela já começava: “O meu enxoval está a desaparecer mais rápido que salário em casa de endividado!”

Aida soltou um “Amém!” mais alto que a própria convicção.
Kaxinda, recém evangelizada e dona do pão mais falado do bairro, comentou baixo:

— Essa mulher precisa de jejum de três dias…

Wazedywa, o filho, tentava equilibrar tudo. Ora comprava louça nova, ora respirava fundo pedindo paciência divina. Mas, levado pela pressão da esposa, começou a comprar pratos e copos de plástico. Até aceitou fazer pratos de madeira para o pai. Consentiu, e esse consentimento doeu mais que loiça partida.

O irmão Pirigo, sentindo oportunidade de parecer sábio, exclamou:

— Cada um come conforme o destino que plantou!

Kapitia olhou para ele com firmeza:

— Irmão Pirigo, deixa Cristo falar primeiro.

E continuou:

— O velho Lumingu nada dizia. Nem força tinha para reclamar. Comia devagar, bebia resignado… e só olhava para quem o entendia: o neto Mesu‑a‑Yadi.

Mesu‑a‑Yadi percebia tudo. A dureza de sua mãe Kimone, a hesitação do pai, a tristeza do avô.
Foi assim que encontrou consolo na madeira: primeiro fez brinquedos, depois colheres, depois pratos tão perfeitos que até o Kaxikana, bêbado de kaporroto, diria: “Isto é dom celestial!”

Um dia, o rapaz levantou-se resoluto.
Não tomou o pequeno-almoço.
Não respondeu ao chamado da mãe.
Nem parou na banca da Kaxinda.
Foi direto ao quintal. E martelou, talhou, lixou… como quem cumpre missão recebida em sonho.

Quando Wazedywa e Kimone foram ver o que ele tramava, encontraram-no cercado de talheres, pratos e copos de madeira, tudo tão bem trabalhado que parecia obra de artesão.

— Filho… para quê isso tudo? — perguntou Wazedywa, a voz trémula.

E Mesu‑a‑Yadi respondeu, sério como profeta:

— É para vocês. Para quando tiverem a idade do vovô. Quero adiantar, não vá eu já não ter mãos firmes nessa altura.

Kimone ficou sem voz.
Wazedywa sentiu o coração tremer.
E o irmão Pirigo abriu os braços:

— Estão a ver, meus irmãos? A colheita já começou!

A congregação murmurou um “amém” desconfiado, porque conselho vindo do irmão Pirigo sempre precisava de sal e discernimento.

O pregador continuou: queridos irmãos, naquela mesma tarde, Wazedywa e Kimone desfizeram-se da loiça de plástico e dos copos de bambu. Pediram perdão ao velho Lumingu. Devolveram-lhe o respeito, a dignidade e o lugar dele na mesa.
E o sorriso do velho, naquela noite, iluminou a casa como candeia nova.

Kapitia fechou a história, mas abriu o coração:

— Meus filhos na fé, aprendam o que a vida está a gritar aqui! Hoje é o velho Lumingu… amanhã seremos nós. Hoje é ele que treme… amanhã serão as vossas mãos a falhar. Não desprezem quem vos deu mundo, porque o mundo devolve tudo o que recebe.

Levantou a Bíblia:

— Está escrito, em Gálatas 6:7:
“Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo o que o homem semear, isso mesmo colherá.”

E acrescentou, com voz firme:

— Jovens, escutem: quem planta desprezo pelos seus pais, aos olhos dos seus filhos, colherá o mesmo desprezo na sua velhice.
Quem trata o seu velho com desonra, está a ensinar o futuro a desonrá-lo também.
Mas quem cuida… quem ama… quem respeita… esse semeia descanso para a própria velhice.

Olhou para o rebanho e concluiu:

— Lembrem-se: acolher os nossos velhos é acolher Cristo.
Que cada um aqui plante honra, para colher misericórdia.
Plante cuidado, para colher companhia.
Plante amor, para colher paz na última estação da vida.

Ergueu a mão e finalizou:

— Que Deus abençoe a Sua Palavra!

segunda-feira, maio 01, 2017

MEMÓRIAS DE REPÓRTER

1998
A transportadora aérea nacional reiniciou os seus voos civis para a cidade do Kuito, capital do Bié, depois de um longo cerco e combates rua a rua, homem-a-homem, cidade dividida. Foi depois das eleições de 1992.
 
Do aeroporto à cidade, que eu visitava pela primeira vez, tudo parecia fantasmagórico. Casas todas estropiadas, tropas em todo o lado. Civis também andando e vivendo como militares. Crianças rotas, quase nuas... O PAM (Programa Alimentar Mundial, Órgãos da ONU) parecia ser uma planta divina, comparada ao maná dos tempos de Moisés, no Ermo. Dele "brotavam" o milho, o feijão, a soja e demais mantimentos. Os voos do PAM eram regulares, mas tinham de fazer-se aos céus do Kuito em sistema espiral (várias voltas num raio apertado até atingir a altitude necessária), a aterragem era feita no mesmo sistema. Os ares estavam, até aí vetados aos voos comerciais.
 
- Ó puto, donde provêm o milho? - Questionei, esperando ouvir "do milheiro". Ledo engano. A resposta do garoto, oito anos, mais ou menos, saiu "é no PAME, mano", guardei o sorriso.
 
"Aqui, as forças armadas defendem o povo e o povo se autodefende", fomos informados à chegada no aeroporto por um chefe militar, seguido da questão "quem sabe disparar?", ao que alguns dos jornalistas que foram "cobrir" aquele reinício responderam afirmativo. Eu estava entre os que sabiam premir o gatilho e desmontar a culatra de uma kalashenikov.
 
Postos na cidade, alojados nos anexos da casa do Governador, de onde também era emitida a famigerada "Rádio Kambulukutu" (assim designada porque se diz que o sinal chegava apenas ao bairro Kambulukutu), diviso um clima horrível: canteiros separadores das vias transformados em campas e ao mesmo tempo lavras. Cacimbas que davam água serviam de túmulos. Faltava quase tudo. E o pior, o avião não pôde voltar à procedência, pois tinha registado uma avaria. Como a guerrilha estava a pouca distância, não se podia informar na comunicação social que o aparelho estava na pista, sob risco de bombardearem o aeroporto. E ficamos três dias no Kuito.
 
No dia de regresso, foi quase festa. Sobretudo, quando a cidade já se via "bonequinhos lá em baixo". Só alegria. Quando voltei ao Kuito, em 2004, já decorria o PERMK (Programa Especial de Reabilitação Mínima do Kuito) dando outra alegria às edificações ao longo das ruas principais. O cemitério monumento já era realidade.
Nota: texto publicado pelo semanário Nova Gazeta a 09.03.2017