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segunda-feira, outubro 24, 2016

O ESTADO DA MINHA "NAÇÃO"

Nesse 17 de Outubro/16, trabalhei até às 18h00, tendo, depois,  ido levar conforto a amigos distintos visitados pelo infortúnio. Por tal razão, ponderável(?),  cheguei tarde à casa. Habituados a ver-me chegar, meus filhos perguntaram-me:
- Papá dormiu onde?
- Dormi aqui mesmo.
- Mas, quando fomos dormir, depois da última novela, não vimos o carro do papá!
Puxei o vinco na testa para ver se se apartassem de mim. Debalde! Os mais novos pareciam dispostos a obter a resposta que pretendiam, ou no mínimo amealharem a sua boa disposição para as aulas à custa da minha. Foi, na verdade, uma noite de insónia.
- Vem com computador ou papel e lapiseira. - Chamei pela filha mais velha.
- Está bem, papá. - Fez-se pronta e diligente.
- Aponta a ideia e faz cartazes para afixar na parte traseira do quintal.
- Os vizinhos cagões e gozões, que dejectam ao ar livre, nas traseiras do meu quintal, e deixam seus sacos de lixo junto à minha porta, minando minhas árvores que plantei com esforço e suor, poluindo o ambiente à volta, fiquem avisados: Vou colar avisos para deixarem de abusar da minha paciência e bom-senso, sob pena de o corredor que serve de passagem aos que não têm outro caminho ser fechado com arame farpado e "feijão-maluco".
- Tudo isso, papá?- Interrogou ela promovida a escrivã.
- Mas, ó papá! Se o papá fechar o corredor e algum vizinho quiser reclamar? - Atirou o mais novo.
- Ele que vá reclamar com os vizinhos cagões e deitadores de lixo.
- Não incomodem o vosso pai. Ele está cansado, sonolento e aborrecido. Ele limpa sempre, mas, dessa vez, passou-se? - Acudiu a mulher.
- Mamã, ele passou? Foi aonde? O papá não está aqui mesmo?!

O estado da minha "nação", minha casa, é, às vezes, complicado. Vezes há que se falam coisas de baixar os ouvidos. Outras, raras, é assim. Falamos por falar. E, para preencher o rol, ainda recebi  a SMS da sobrinha:
- Tio, preciso que me faças uma redacção sobre direito. É urgente. Se for ainda hoje melhor.
- Fogo! No meu tempo, sobrinha,  iria, caso tivesse, ao tio para pedir-lhe livros ou indicação de bibliografia relacionada ao tema. Queres que eu faça por ti?
- Sim. Você é meu tio prá quê?- Respondeu ela também ousada e pensando que estava coberta de razão.
- Aí é, sobrinha?
Quase falei mas ficou só já no coração.
 - ..!

NOTA: Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 26.10.16 

segunda-feira, outubro 17, 2016

A PRÓSTATA E A PROSTITUIÇÃO

(In: O gajo do pastor)

Eram todos idosos, ou quase isso, e muitas das conversas já giravam em torno da prostatite — a que alguns tinham, outros temiam vir a ter, e outros só conheciam de ouvir falar nas visitas à “oficina dos homens”, como chamavam aos hospitais. E foi no meio dessa sabedoria de bengala e experiência que Kaxikana, bem calibrado pela cevada, largou a teoria que incendiaria o velório:

— A próstata vem da prostituição! — garantiu, firme, enquanto os amigos arregalavam os olhos, pedindo mais explicações.

— É verdade! Vocês não vêem que as duas palavras têm a mesma base? Eu explico… — insistia ele, orgulhoso da descoberta etimológica parida no fundo da caneca.

O Rangel estava enlutado. As conversas espalhavam-se por afinidades: uns discutiam a Bíblia; outros falavam das alegrias terrenas; outros ainda tentavam enganar o vento frio que cortava o quintal. Já nem me lembro quem tinha perecido, mas era alguém de peso na Classe Jeremias — veterano da Kalemba, da Classe Kwanza-Sul, da Moisés e do próprio Rangel.

O velório decorria na rua da Ambaca, junto à pracinha do Kalisange (calissangue). Lá estavam todos os conhecidos da Igreja Moisés: Kitembu, Kanhanga, Kilole, Kapitia, Tina da Saia Longa, Aida, Laurinda, os anciães Pequenino e Domingos João… e, claro, Kaxikana, sempre ele, estrela maior do desatino.

No quintal pequeno e apinhado, os mais velhos discutiam a razão da vida com a Bíblia aberta no colo e cânticos para elevar a alma do falecido.

Lá fora, encostados à parede de uma casa de madeira, estava a turma de Kaxikana: uns defendiam o desfrute da vida, outros atiravam os Dez Mandamentos como travões aos exageros.

Não adulterarás, diz a Bíblia — lançou Kanhanga.

— Tens razão, Kanhanga — respondeu Kaxikana, conhecido por amigo da espuma. — Eu cá acho que mulher é o pior dos males. Por isso é que me casei com a minha curtinha e espumosa!

A gargalhada abanou costelas.
E ele continuou, embalado:

— Vocês sabem que relação existe entre certa doença dos homens e certa prática de mulheres sem norte?

O silêncio caiu como tampa de caixão.
Até o frango grelhado hesitou a meio do dente.

Aida, esposa de Kapitia, tentou puxar luz:

— Não, mano Kaxikana. Explica lá isso enquanto passo o café.

Café baptizado, claro — carregado de aguardente.

Kaxikana limpou a boca, empurrou o frango com um gole de cevada e retomou:

— Essa falta de géneros nas Lojas do Povo está a levar nossas irmãs à prostituição. Basta parar no Nzamba‑1, à noite, e ver quem apanha o autocarro 33 para a Baixa, atrás dos cooperantes. O resultado para esses estranjas vocês nem imaginam…

Pausa dramática.
Kanhanga suspirou:

Termina isso, homem! Conta lá essa cena das cooperantes!

Kaxikana inclinou a caneca, agora mais torpe do que lúcido:

Yáh! Todos os cooperas que conheço têm problema na próstata. Tenho certeza de que isso vem da prostituição!

Entre gargalhadas, “tsês”, palmas e apupos, Kaxikana concluiu a sua tese “científica”.

Era a vez de Kanhanga contar a história sobre o Evangelho e o “pente policial”, baseada em Mateus 5:25–26.
Mas não chegou a abrir o “órgão falador”.

O ancião Kambundu aproximava-se devagarinho — tão devagar como rapidamente a juventude escondia latas e copos.
Ele vira tudo: goles longos, cochichos, a engenharia do reabastecimento das latas disfarçadas atrás do muro.

Chegou ao grupo, pousou os olhos em Kaxikana, e sentenciou, com ironia paternal:

— Ó Kaxikana… vai, meu filho. Empurra. Bebe tua cerveja. Ninguém está a te ver!

A turma gelou.
Ninguém sabia se sorria, fugia ou rezava. As mulheres tentaram meter conversa para desviar a atenção, mas o mais velho não caiu na cantiga.

No domingo seguinte, todos foram chamados ao gabinete do pastor Domingos João para a inevitável reprimenda.

Todos, excepto Kaxikana.
Pisca‑pisca que era — piscou… e não apareceu.

segunda-feira, outubro 10, 2016

O ÚLTIMO CACHORRO DE TURBINA



(In: O gajo do pastor)

É de Kalulu. Nasceu Luzia, nas imediações da Pedra Santa, no Musafu. Desde cedo mostrou ao mundo que vinha bem prendada, atributos que lhe valeram o epíteto de Kimbundaria ainda em fase de lactente. Com o tempo, o nome de baptismo caiu no esquecimento; em Kalulu e em Luanda era Turbina… ou simplesmente Kimbundaria — alcunhas que lhe assentavam tanto quanto as roupas justas que costumava usar.

Os pais, católicos devotos, sonhavam vê‑la de véu e grinalda a subir a calçada da missão. Mas Turbina, apóstata confessa, não lhes concretizou o sonho — nem enquanto vivos, nem depois de terem regressado ao pó. Durante anos foi mulher da vida; e, na vida, ganhou quase tudo: casa, carro, filhos e fama de mulher‑produto.

Com a idade a avançar e os filhos já a perguntar pelos muitos rostos que entravam e saíam da casa, Turbina abandonou a casa‑loja e ensaiou outros modelos de negócio. Mas os revezes económicos do país foram minguando as oportunidades. Vieram os dias de fome; os “arranjos” que lhe conferiam beleza foram rareando; e as picanhas, antes recauchutadas e bem apertadas nos vestidos, entregaram-se baloiçantes ao léu, como cão sem dono. A carroçaria, embora ainda avantajada, já mostrava sinais visíveis de desmazelo.

No seu imaginário, a solução era simples: arranjar marido.
Mas o mercado marital estava feroz. Àquelas que já sobravam no tempo das vacas gordas juntavam‑se as empurradas pela crise — desmobilizadas do concubinato ou simplesmente das funções de kapurenquanto.

Esse mercado está agressivo… — lamentava Turbina. — Umas coladas aos maridos que nem nesga deixam, outras largadas, outras em vida de pedra… Como vou conseguir meu homem? Como manter cama quente?

Foi assim, aflita, que se dirigiu à reza — dessas igrejas que prometem o mundo e mais algum recheio.

Ao voltar, reparou num ajuntamento estranho no segundo quarteirão. Ligou as antenas, e logo veio a informação: na aldeia, as notícias correm ao vento.

A fila andou na rua de baixo — disse uma vizinha, ela própria coleccionadora de tesouros alheios.

Aquela mana de cabelo longo morreu? Ai meu Senhor! — reagiu Turbina, com um grito capaz de molhar o bairro inteiro. — E o mano Jordão? Quem vai cuidar dos filhos pequenos? Ai sofrimento!

Turbina e Jordão — ou melhor, Turbina e Kimbundaria — já tinham trocado olhares… e algum calor. Ele, em tempos, fora cliente assíduo; e, no auge do descompasso do êxtase, chegara a propor-lhe casa e lar. Agora, com dona Eunice doente de morte, Turbina passou a espiar a casa do viúvo, visitando a vizinha com desculpas ensaiadas, enquanto engolia hectolitros de cuspo à espera do milagre: migração do homem alheio.

Chegada a noite do velório, Kimbundaria balançava a sua “turbina” como quem afia as armas. Parecia mais preocupada com a hora do funeral — ainda incógnita — do que com a dor de Jordão, que fingia, com a mesma destreza de sempre, os seus apetites kimbundásticos.

Entre suspiros teatrais e mão no peito, perguntava, volta e meia:

Quanto tempo falta para levarmos dona Eunice à última morada?
Até quando dura essa passagem sagrada de “até que a morte os separe”?

O funeral deu-se na tarde do terceiro dia. No sétimo, Jordão já caminhava mais solto, e Kimbundaria, vendo a porteira da “migação” entreaberta, apertou o cerco. Armou-se com um decote ousado, o arsenal turbinado de que era detentora desde miúda.

Ela conhecia os gostos do homem: funji de bombó, verduras, pevide e boa pomada. Sem delegação, assumiu o comando da cozinha, enquanto os parentes iaos chegando. Parecia chefe de logística: levava e trazia tachos, organizava as visitas, conduzia familiares ao quarto onde Jordão recebia condolências.

Mais tarde, quando os parentes mais distantes começaram a dispersar, e antes mesmo da missa do sétimo dia — marcada para aquela noite — Kimbundaria, vendo a migração quase confirmada, preparou o ataque final.

Enfrascou-se até tropeçar na sombra mais próxima. Depois, fingindo ser protocolo, anunciava entradas e saídas, enxugando lágrimas imaginárias. Aproximou-se do viúvo, encostou‑se a ele e soltou o último cachorro:

— Ó mano Jordão… as visitas para a missa de logo já estão a chegar. Não acha que já é tempo de me amigares? Me faz só esse favor, hoko?!

E assim se cumpria o velho ditado da aldeia: onde há funeral, há sempre quem cuide da alma… e quem trate da herança viva.


sábado, outubro 01, 2016

O GAJO DO PASTOR

(No Prelo)

O ano de 1984 corria apressado, como quem foge de dívidas antigas. Na Kalemba, a classe do Kwanza‑Sul acabava de se emancipar, erguendo-se em novo templo. Para os metodistas unidos — essa igreja protestante de raiz americana — cargo equivalia à paróquia, e classe, à pequena capela onde os fiéis mais próximos se ajuntavam durante a semana. O cargo era o espaço maior, o que acolhia os cultos dominicais, baptismos, casamentos e outras aglomerações necessárias ao espírito.

Domingos João António, depois de frequentar um curso teológico no Instituto Emanuel Unido, no Ndondi, fizera a travessia de mestre do coro da Kalemba a pastor do novo cargo, baptizado com o nome do profeta que guiou os israelitas das masmorras faraónicas até à Terra Prometida: Igreja Moisés.

O núcleo juvenil — Kitembu, o irmão mais novo; o sobrinho Kandungu; os amigos Kanhanga, Kapitia e Kilole; as meninas Celeste, ST, Tt; as irmãs Domingas e Henriqueta — enchia de canto a vizinhança do Nzamba‑1. Era comum ouvir dizer no quintal alheio: “Esses meninos de Moisés cantam como se tivessem anjos de reforço.”

O país, contudo, fervia: conflito armado, rusgas para o serviço militar obrigatório, filas nas Lojas do Povo, pedras e latas à espera dos “pioneiros” nas escolas… Mas tudo isso diminuía diante dos sermões do pastor Milocas, o Domingos João. Humor, realismo e uma esperança teimosa no futuro faziam da sua pregação um bálsamo raro. Muitas vezes a rua servia de nave auxiliar, porque a igreja, mês após mês, parecia encolher perante a multidão.

No meio da juventude, havia o Kandungu: meio‑mundano, meio‑mondano, mas fiel aos domingos — talvez porque o bairro, nesses dias, se tornava um poço vazio de conversa. Integrava o coro com um tenor afinado e um “Ámen” tão singular que até o pastor brincava: “Se o céu tiver porteiro, há-de abrir a porta quando ouvir esse teu Ámen.”

Mas foi num Setembro esquecido pela memória que o pastor percebeu a ausência prolongada do sobrinho/nora. Há mês e meio que Kandungu não punha os pés na igreja. E sempre que perguntava à Tt — soprano principal e esposa do faltoso — recebia a mesma resposta ensaiada:
“Dormiu de serviço, tio.”

Ora, pelos becos do Cazenga ao Prenda, passando pelo Sambizanga, já corriam rumores de que o rapaz abusava, aqui e ali, de uvas fermentadas e cevadas baptizadas com lúpulo.

Naquela manhã, eram sete e meia no Sete‑e-meio, quando a porta tremeu de uns pum, pum, pum. Tt, apressada, amarrou o pano acima do busto e foi abrir.

— Bom dia, sobrinha Tt.
— Bom dia, sô pastor.
— Aqui em casa podes chamar-me tio. Não fui eu que fui te fazer pedido? Na igreja é que pastor não tem primos nem sobrinhos… Aqui somos família.

Entrar ou não entrar? Tt, indecisa, preferiu ficar à porta. Lá dentro, o estado etílico do marido era um escândalo à espera de testemunha.

O pastor insistiu:
— A propósito, não vejo o Kandungu há dois meses. Na igreja, quando pergunto, você foge da resposta. Ele está aí?

— Não, tio Domingos João. Dormiu de serviço. Este mês todo está a fazer fim-de-semana. O colega do turno está com problemas…

O pastor assentiu, mas os olhos não acreditaram.

— Muito bem, irmã Tt. Quando ele chegar, diz que o tio — e pastor dele — está preocupado. Que me procure em casa ou que compareça à igreja no domingo que vem.

Virou-lhe as costas e marcou passos de retirada, mas parou mais adiante, revezando mentalmente a agenda. Ainda era cedo para o culto das nove; havia outras ovelhas a visitar, outras almas a puxar para dentro do aprisco.

Tt aproveitou o silêncio para acender o ferro a carvão e preparar a beca que usaria no culto.

Foi então que, do quarto, talvez por pressentimento, talvez por faro, Kandungu perguntou:

— Tetéêê! O gajo do pastor já foi?

E quem respondeu não foi a mulher. A voz veio do lado de fora, serena, mas firme:

— Não, irmão Kandungu. O gajo do pastor ainda está aqui.

O pastor estava ainda a centímetros da janela do quarto, prestes a dobrar o beco. Ficou a frase no ar, pesada, e só então seguiu caminho.

Para Kandungu regressar à igreja não bastou um domingo. Foram precisos três meses, uma visita completa da família do pastor, jantar comunitário e muita paciência metodista. Mas regressou — porque, afinal, ninguém foge para sempre do rebanho quando o pastor conhece bem o caminho da nossa porta.