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sábado, dezembro 12, 2015

ENTRE (IN)VERDADES INCÓGNITAS E FICÇÃO ORAL

Antes da invenção da escrita, as artes já existiam, pois elas evoluíram com o homem enquanto ser pensante, livre e transcendental. O que é hoje literatura já teve outras formas de expressão, nomeadamente, a oralidade que conservava e ainda conserva a História e as estórias dos povos e das civilizações.
Entre nós, angolanos, a oralidade vai coexistindo com a literatura e vezes há em que se confundem. Abundam entre nós relatos da Oralidade levada aos livros e livros grafados como se fossem relatos orais sobre estórias e lendas milenares dos povos bantu e pre-bantu do nosso espaço geográfico.
Não poucas vezes, esses contos viajam nos autocarros públicos, comboios e candongueiros e, tantas outras vezes, os contos ficcionados ou verdades incógnitas almoçam nas barracas de kakusu (tilápia) e carne de caça ou mesmo nos quintais de adyakime já de cabelo algodoado e dentes cariados.
Ngaxi, Nga Madya, Manda e Isabele Gaspara são comadres desde os tempos da Kitanda do Xamavu e partilham hoje o sombreiro no mercado municipal de São Paulo. Numa de suas saídas em busca de negócios, as idosas, caprichosamente vestidas a bêssangana, pões conversa em dia, não se coibindo ante a presença de jovens com idades de filhos e netos.
- Xê, Nga Madya, sabes duma! - Atirou Isabele, meio escondida na cadeira do motorista do autocarro que geme na subida da Mutamba.
- Nada, comadre, conta. ; Respondeu Nga Madya, buscando conversa.
- Estás e ver, no Panguila, Sector quarenta e sete! Uma velhota, assim na nossa idade, mais ou menos, vivia já viúva cerca de vinte ou trinta anos. Não é que um dia desses se combina com um dikwenze daqueles trungungeros e começa já as conversa à noite?!
- Sim, mana, avança. Estamos atentas. – Intrometeu-se Manda, também ela expectante.
- Pois é comadre. - Continuou Isabele. As coisas quando aqueceram, a velhota começou a gritar “me larga vai me furar, me larga vai me furar”.
- E depois, mana, aconteceu mais o quê! - Interpôs Ngaxi que se manteve calada até aí, ante a expectativa da juventude que se continha para não rir e despertar as idosas que ficcionavam descontraidamente.
- Pois, então, prestem atenção. - Apelou a narradora. O vizinho da porta frontal, sabendo que a vizinha era viúva e vivia sozinha, julgou ser bandido que se introduziu em casa da vizinha e chamou a polícia, dando o nome da rua e número da casa. Nao é que posta a polícia no local, a velha não abria a porta?! – Isabela fez pausa para inspirar a brisa que espalhava ar fresco para dentro do automóvel.
- E ficou tudo por aí ou houve mais cena com a polícia, o intruso e a mutudi? – Indagou  Ngaxi.
_ Ouve então comadre. – Prosseguiu a narradora. A polícia, pum, pum, pum, na porta e a velhota nada! Não abria a porta, nem sequer atendia. Mas os gemidos continuavam. Afinal a conversa lá dentro entre a viúva e o muzangala já ia no ritmo do carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé na porta e foram ter com os dois em flagrante delícia.
- Sukwama, Kima kyabambuka! Pegou fogo! – Atirou Ngaxi no outro canto do pesado que deslizava já em direcçao ao Zé Pirão, procurando fazer o contorno para dobrar a Cónego das Neves, em direcção ao antigo Xamavo.
- Os polícias, cordas no atrevido e mamã na cabine da Toyota para ir apresentar queixa na esquadra. - Acrescentou Isabele Gaspara.
- Mas é mesmo tua verdade, mana Isabele, ou é tua invenção! – Procurou confirmar Ngaxi que se preparava para abrir também o seu livro oral acabado de produzir.
- É verdade comadres. - Confirmou Isabele que prosseguiu a narrativa. Postos na esquadra, em vez de o muzangala explicar o que sucedeu, a própria mutudi é que foi pedir ao chefe da esquadra: filho, o jovem não me fez nada. O vizinho é que é invejoso e fofoqueiro. Ele queixou à toa, não viu nada nem ouviu sequer um gemido! Os polícias: Haka! Boca a tocar na nuca de tanta estupefação.
- E o que nós vimos então foi o quê, ó mãezinha?! - Procurou ainda saber um dos agentes policiais que foi prestar o socorro requerido pela vizinhança.
- Foi só mesmo o que viram. Não me fez violação. Foi só manutenção!
Mamãs e a juventude toda no autocarro entraram em transe. Gargalhadas de mostrar o último molar ou apenas os terreiros vazios. Ngaxi, Engrácia de registo, nascida no distante ano de trinta e cinco do século vinte, como fez vénia de se apresentar, entrou também no círculo e sacou da sua prosa.
- No meu bairro, no Kifica, a cena, que não é de mentira como essa da mana Isabele, é mesmo de verdade verdadeira. A Senhora até é minha amiga e está também já assim, sem manutenção desde que o vizinho Gasparito apanhou kikonha. Com os negócios dela de Kisângwa, banana pão, jinguma e bombó assados, arranjou dinheiro e inventou uma fórmula.
- Fórmula de quê, mana Ngaxi? Pessoa que começa cena de arranhar cabelo tem de terminar. – Apelou novamente Manda, procurando pôr mais lenha na fervura.
- Pois é, manas. Estava só a limpar o suor. – Prosseguiu dona Engrácia ou simplesmente Ngaxi. – A vizinha, certo dia, a doença de comichão lhe tocou. Bebeu água fresca e nada. Tomou banho de água natural, de água morna e de água gelada e também nada! Fazer o quê? Chamou um daqueles meninos que transportam água em troco de bebida. Xê muzangala, não queres birra? Perguntou a “kaveia” toda sacudida. Até o Português dela parecia duma mocita do colégio.
- E o moço, mana Ngaxi? - Perguntaram expectantes as amigas.
- Esperem que já lá chego. – Acalmou Ngaxi. O moço trouxe um, dois, três bidons de água. Na hora já de cobrar o que era seu, portanto as cervejas, a velhota lhe diz: só queres mesmo beber, não queres te lavar? O moço fez sinal de mais ou menos. Na verdade ele queria mesmo é só beber cerveja dele e ir fazer mais outros kadyenges mas aceitou já tomar banho por causa do respeito e dos sabonetes caros que a velha lhe mostrou com ele.
- É verdade mesmo, dia de sol negócio de água é que bate. - Interrompeu  Isabele Gaspara. Mas foi Ngaxi quem prosseguiu, depois de mais uma pequena pausa na narrativa.
- O  moço bebeu a primeira e a segunda. A tia fez pausa e sugeriu: queres mais duas? Vai tomar banho e depois a avô acaba de te pagar. Não é que o moço aceitou a proposta?!
- E depois? - Interrogaram, quase em coro, todas as senhoras vendedeiras do mercado de São Paulo que se faziam transportar naquele pesado.
- Enquanto o dikwenze se lavava, usando os sabonetes e cremes da anfitriã, a minha amiga, que não vos digo o nome dela, fez-lhe uma comida leve e meteu na mesa, ao lado de uma ngala de vinho. O rapaz também parece já estava a sentir o cheiro a sair da cozinha e, vendo que não estava aí mais ninguém, atacou e quase mordia a língua. Zás. Piteu foi-se todo na barriga que começava a ganhar volume.
- E se foi embora, mana Ngaxi, ou houve mais? – As comadres pareciam adivinhar o fim da odisseia mas preferiram devolver a palavra à narradora que contava com mais retoques e acepipes.
- Não é que o moço depois de comer queria já sair voado? A velhota lhe perguntou: não queres enxaguar a boca com uma birra?
- E ele? - Atirou  Nga Madya procurando precipitar o final.
- Ele aceitou, mas a vizinha Inês, já com a birra na mão, fez a última proposta: Agora bebe a avô e depois bebe a birra da porta!
- E bebeu ou saiu voado? – A pergunta, meio descontrolada fez-se ouvir por todo o autocarro.
- O jovem ainda a gaguejar, pois procurava digerir aquelas palavras e tomar uma decisão, rcebeu da idosa a sentença final: acaba de me matar!..
Não houve tempo para mais perguntas. Só gargalhadas.
Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 27.11.2016 

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