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sábado, dezembro 12, 2015

AS COMADRES DA IGREJA E A MANUTENÇÃO


Entre os metodistas da velha
Classe Kwanza‑Sul, sempre se disse que a palavra viaja mais depressa que o vento. E as mulheres — sobretudo as veteranas — carregavam consigo uma ancestralidade de histórias que pareciam vir dos mahezo da avó, das fogueiras da Munenga ou do banco corrido da Kalemba. A oralidade, antes de ser literatura, já era alma.

Nesses dias, quem mais preservava esse património eram Ngaxi, Nga Madya, Manda, Isabele Gaspara, Aida e Henriqueta — todas fiéis de longa data, umas da Kalemba, outras da Classe Kwanza‑Sul, todas agora agregadas à Igreja Moisés. Iam juntas ao culto, ao mercado, ao velório, ao batizado e até ao estendal alheio, sempre trocando histórias de fazer corar até o pastor Milocas.

Numa manhã de domingo, depois do culto das nove, apanharam o autocarro no Nzamba‑1 rumo à Praça do Kinaxixe, ao lado da Central. Entre sacos de jinguba, tabuleiros de peixe seco e galinhas vivas, acomodaram-se como puderam. Foi aí que Isabele, a mais ligeira de língua, anunciou:

Xê, Nga Madya, sabes duma?!

Conta, comadre! — respondeu Nga Madya, ajeitando o xaile.

No Panguila, Sector Quarenta e Sete, vive uma velhota da nossa idade, viúva aí há uns vinte e tal anos. Mas olha… meteu conversa com um dikwenze daqueles trungungueiros e começaram já conversas de noite!

Henriqueta, que nunca perdia um bom enredo, aproximou o rosto:

Avança, mana. Estamos aqui todas… até a Tt ficou quieta!

Tt sorriu, tímida. Era a mais nova das comadres da Kwanza‑Sul, soprano da Moisés, e sempre corava quando as veteranas puxavam temas de fricção.

Isabele continuou:

Pois bem… quando o negócio aqueceu, a velha começou a gritar: “Me larga, vai me furar! Me larga, vai me furar!”

Até os jovens no fundo do autocarro arregalaram os olhos.

Ngaxi, com sua voz arrastada de 1935, perguntou:

E depois, mana? Mais o quê?

Isabele tomou ar:

O vizinho da frente, pensando que era bandido, chamou logo a polícia. Rua tal, casa tal. Quando chegaram… pum, pum, pum na porta — nada! Mas os gemidos continuavam. Lá dentro, a conversa ia no ritmo de carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé e encontraram os dois em flagrante delícia!

Henriqueta bateu palmas:

Sukwama! Kima kyabambuka!

O autocarro já dobrava a Cónego das Neves quando Isabele concluiu:

Os polícias amarraram o atrevido e levaram a mamã na Toyota para a esquadra.

Aida, esposa de Kapitia e dona de um humor fino, perguntou:

Mana Isabele… é tua verdade ou tua invenção?

Verdade pura, comadres! — garantiu Isabele. — Na esquadra, em vez de o muzangala explicar, foi ela mesma a dizer: “Filho, o jovem não me fez nada. Vizinho é que é fofoqueiro. Não viu nada, nem ouviu sequer gemido!”

As comadres riram-se como meninas da EBF.

Aida imitou o espanto dos polícias:

Haka! Boca quase a tocar a nuca…

E o que eles tinham ouvido então? — perguntou Manda.

Isabele levantou o queixo:

Foi só manutenção!

O autocarro explodiu em gargalhadas. Um jovem que fingia dormir abanou os ombros de tanto rir.

Foi então que Ngaxi, que nunca deixava história sem réplica, pigarreou:

No Kifica também aconteceu isso. A mulher é minha amiga. Ficou anos sem manutenção desde que o Gasparito apanhou kikonha. Mas certa noite a comichão bateu forte…

Henriqueta aproximou-se, curiosa:

Mana Ngaxi, não nos mates de curiosidade!

Ngaxi prosseguiu:

Bebeu água fresca… nada. Tomou banho natural… nada. Morno… nada. Gelado… também nada! A comichão era daquela que sobe até à raiz do cabelo!

As comadres dobraram-se de riso.

Chamou um rapaz que carrega água por birra, — disse Ngaxi. — “Ó muzangala, não queres birra?” — falou ela toda sacudida, parecia Tt quando canta “Hosana!”

Tt cobriu o rosto de vergonha, mas ria-se.

O moço trouxe três bidões. A velha perguntou: “Só beber? Não quer te lavar?” Ele aceitou. Depois bebeu uma, duas… e ela: “Queres mais duas? Vai tomar banho e a avó paga.” Enquanto ele se lavava, ela preparou comida e uma ngala de vinho. Quando voltou… zás! Ele atacou tudo. Barriga começou logo a crescer!

E depois?! — perguntaram todas num coro afinado.

Ngaxi concluiu:

Quando ele quis fugir, ela perguntou: “Não quer enxaguar a boca com uma birra?” Ele aceitou. Mas a vizinha Inês disse: “Agora bebes a avó… e depois a birra da porta!”

E bebeu?! — ecoou pelo autocarro.

Bebeu, sim! — respondeu Ngaxi. — Mas antes ouviu a sentença final: “Acaba de me matar!”

E, como sempre acontecia quando as comadres começavam a alinhavar histórias, o autocarro inteiro ficou rendido — gargalhadas longas, redondas, libertas.

Enquanto desciam no Kinaxixe, Henriqueta, abanando o corpo, comentou:

A Classe Kwanza‑Sul devia fazer culto só para histórias dessas!

E Tt, tímida, mas espirituosa, murmurou:

Se o pastor Domingos João ouve isso… mete todas na disciplina!

As comadres riram-se outra vez.

Porque, na Classe Kwanza‑Sul, como no resto da Moisés, a palavra sempre encontrou um colo… e uma gargalhada.


In: O gajo do pastor

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