Entre os metodistas da velha Classe Kwanza‑Sul, sempre se disse que a palavra viaja mais depressa que o vento. E as mulheres — sobretudo as veteranas — carregavam consigo uma ancestralidade de histórias que pareciam vir dos mahezo da avó, das fogueiras da Munenga ou do banco corrido da Kalemba. A oralidade, antes de ser literatura, já era alma.
Nesses dias, quem mais preservava esse património eram Ngaxi, Nga Madya, Manda, Isabele Gaspara, Aida e Henriqueta — todas fiéis de longa data, umas da Kalemba, outras da Classe Kwanza‑Sul, todas agora agregadas à Igreja Moisés. Iam juntas ao culto, ao mercado, ao velório, ao batizado e até ao estendal alheio, sempre trocando histórias de fazer corar até o pastor Milocas.
Numa manhã de domingo, depois do culto das nove, apanharam o autocarro no Nzamba‑1 rumo à Praça do Kinaxixe, ao lado da Central. Entre sacos de jinguba, tabuleiros de peixe seco e galinhas vivas, acomodaram-se como puderam. Foi aí que Isabele, a mais ligeira de língua, anunciou:
— Xê, Nga Madya, sabes duma?!
— Conta, comadre! — respondeu Nga Madya, ajeitando o xaile.
— No Panguila, Sector Quarenta e Sete, vive uma velhota da nossa idade, viúva aí há uns vinte e tal anos. Mas olha… meteu conversa com um dikwenze daqueles trungungueiros e começaram já conversas de noite!
Henriqueta, que nunca perdia um bom enredo, aproximou o rosto:
— Avança, mana. Estamos aqui todas… até a Tt ficou quieta!
Tt sorriu, tímida. Era a mais nova das comadres da Kwanza‑Sul, soprano da Moisés, e sempre corava quando as veteranas puxavam temas de fricção.
Isabele continuou:
— Pois bem… quando o negócio aqueceu, a velha começou a gritar: “Me larga, vai me furar! Me larga, vai me furar!”
Até os jovens no fundo do autocarro arregalaram os olhos.
Ngaxi, com sua voz arrastada de 1935, perguntou:
— E depois, mana? Mais o quê?
Isabele tomou ar:
— O vizinho da frente, pensando que era bandido, chamou logo a polícia. Rua tal, casa tal. Quando chegaram… pum, pum, pum na porta — nada! Mas os gemidos continuavam. Lá dentro, a conversa ia no ritmo de carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé e encontraram os dois em flagrante delícia!
Henriqueta bateu palmas:
— Sukwama! Kima kyabambuka!
O autocarro já dobrava a Cónego das Neves quando Isabele concluiu:
— Os polícias amarraram o atrevido e levaram a mamã na Toyota para a esquadra.
Aida, esposa de Kapitia e dona de um humor fino, perguntou:
— Mana Isabele… é tua verdade ou tua invenção?
— Verdade pura, comadres! — garantiu Isabele. — Na esquadra, em vez de o muzangala explicar, foi ela mesma a dizer: “Filho, o jovem não me fez nada. Vizinho é que é fofoqueiro. Não viu nada, nem ouviu sequer gemido!”
As comadres riram-se como meninas da EBF.
Aida imitou o espanto dos polícias:
— Haka! Boca quase a tocar a nuca…
— E o que eles tinham ouvido então? — perguntou Manda.
Isabele levantou o queixo:
— Foi só manutenção!
O autocarro explodiu em gargalhadas. Um jovem que fingia dormir abanou os ombros de tanto rir.
Foi então que Ngaxi, que nunca deixava história sem réplica, pigarreou:
— No Kifica também aconteceu isso. A mulher é minha amiga. Ficou anos sem manutenção desde que o Gasparito apanhou kikonha. Mas certa noite a comichão bateu forte…
Henriqueta aproximou-se, curiosa:
— Mana Ngaxi, não nos mates de curiosidade!
Ngaxi prosseguiu:
— Bebeu água fresca… nada. Tomou banho natural… nada. Morno… nada. Gelado… também nada! A comichão era daquela que sobe até à raiz do cabelo!
As comadres dobraram-se de riso.
— Chamou um rapaz que carrega água por birra, — disse Ngaxi. — “Ó muzangala, não queres birra?” — falou ela toda sacudida, parecia Tt quando canta “Hosana!”
Tt cobriu o rosto de vergonha, mas ria-se.
— O moço trouxe três bidões. A velha perguntou: “Só beber? Não quer te lavar?” Ele aceitou. Depois bebeu uma, duas… e ela: “Queres mais duas? Vai tomar banho e a avó paga.” Enquanto ele se lavava, ela preparou comida e uma ngala de vinho. Quando voltou… zás! Ele atacou tudo. Barriga começou logo a crescer!
— E depois?! — perguntaram todas num coro afinado.
Ngaxi concluiu:
— Quando ele quis fugir, ela perguntou: “Não quer enxaguar a boca com uma birra?” Ele aceitou. Mas a vizinha Inês disse: “Agora bebes a avó… e depois a birra da porta!”
— E bebeu?! — ecoou pelo autocarro.
— Bebeu, sim! — respondeu Ngaxi. — Mas antes ouviu a sentença final: “Acaba de me matar!”
E, como sempre acontecia quando as comadres começavam a alinhavar histórias, o autocarro inteiro ficou rendido — gargalhadas longas, redondas, libertas.
Enquanto desciam no Kinaxixe, Henriqueta, abanando o corpo, comentou:
— A Classe Kwanza‑Sul devia fazer culto só para histórias dessas!
E Tt, tímida, mas espirituosa, murmurou:
— Se o pastor Domingos João ouve isso… mete todas na disciplina!
As comadres riram-se outra vez.
Porque, na Classe Kwanza‑Sul, como no resto da Moisés, a palavra sempre encontrou um colo… e uma gargalhada.

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