Translate (tradução)
terça-feira, dezembro 29, 2015
REVISITANDO A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO ORAL
quinta-feira, dezembro 24, 2015
UMA INCURSÃO À MUXIMA DA KISAMA
terça-feira, dezembro 22, 2015
ELA SENGOU
Às vezes nem chegam a cruzar. A filha de TwENDE prefere deixar o homem e todos os electrodomésticos aos cuidados da amante, a que tem como profissão amar e nunca abandona a casa, a menos que seja para se dirigir ao médico.
Desta feita, é a amante que goza e que geme de prazer ou de dor toda a noite, enquanto a Gia que sengou de livre e espontânea vontade saltita de bairro em bairro, mais chateando do que agradando os visitados.
Assim estou eu e os meus pertences. Quando nos habituamos com a fiel amante, ela vem reclamar o seu antigo papel de manDONA e senhora, encostando a amante geradora de prazer e lazer ao seu papel subalterno, embora, em abono da verdade, se diga que a amante já vai, mais vezes do que nunca, passando ao papel principal.
É sobre a enerGIA, filha de twENDE, que me reporto. Ela sengou!
quarta-feira, dezembro 16, 2015
GERINDO HOMENS E RECICLANDO VASSOURAS
sábado, dezembro 12, 2015
AS COMADRES DA IGREJA E A MANUTENÇÃO
(In: O gajo do pastor)
Entre os metodistas da velha Classe Kwanza‑Sul, sempre se disse que a palavra viaja mais depressa que o vento. E as mulheres — sobretudo as veteranas — carregavam consigo uma ancestralidade de histórias que pareciam vir dos mahezo da avó, das fogueiras da Munenga ou do banco corrido da Kalemba. A oralidade, antes de ser literatura, já era alma.
Nesses dias, quem mais preservava esse património eram Ngaxi, Nga Madya, Manda, Isabele Gaspara, Aida e Henriqueta — todas fiéis de longa data, umas da Kalemba, outras da Classe Kwanza‑Sul, todas agora agregadas à Igreja Moisés. Iam juntas ao culto, ao mercado, ao velório, ao batizado e até ao estendal alheio, sempre trocando histórias de fazer corar até o pastor Milocas.
Numa manhã de domingo, depois do culto das nove, apanharam o autocarro no Nzamba‑1 rumo à Praça do Kinaxixe, ao lado da Central. Entre sacos de jinguba, tabuleiros de peixe seco e galinhas vivas, acomodaram-se como puderam. Foi aí que Isabele, a mais ligeira de língua, anunciou:
— Xê, Nga Madya, sabes duma?!
— Conta, comadre! — respondeu Nga Madya, ajeitando o xaile.
— No Panguila, Sector Quarenta e Sete, vive uma velhota da nossa idade, viúva aí há uns vinte e tal anos. Mas olha… meteu conversa com um dikwenze daqueles trungungueiros e começaram já conversas de noite!
Henriqueta, que nunca perdia um bom enredo, aproximou o rosto:
— Avança, mana. Estamos aqui todas… até a Tt ficou quieta!
Tt sorriu, tímida. Era a mais nova das comadres da Kwanza‑Sul, soprano da Moisés, e sempre corava quando as veteranas puxavam temas de fricção.
Isabele continuou:
— Pois bem… quando o negócio aqueceu, a velha começou a gritar: “Me larga, vai me furar! Me larga, vai me furar!”
Até os jovens no fundo do autocarro arregalaram os olhos.
Ngaxi, com sua voz arrastada de 1935, perguntou:
— E depois, mana? Mais o quê?
Isabele tomou ar:
— O vizinho da frente, pensando que era bandido, chamou logo a polícia. Rua tal, casa tal. Quando chegaram… pum, pum, pum na porta — nada! Mas os gemidos continuavam. Lá dentro, a conversa ia no ritmo de carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé e encontraram os dois em flagrante delícia!
Henriqueta bateu palmas:
— Sukwama! Kima kyabambuka!
O autocarro já dobrava a Cónego das Neves quando Isabele concluiu:
— Os polícias amarraram o atrevido e levaram a mamã na Toyota para a esquadra.
Aida, esposa de Kapitia e dona de um humor fino, perguntou:
— Mana Isabele… é tua verdade ou tua invenção?
— Verdade pura, comadres! — garantiu Isabele. — Na esquadra, em vez de o muzangala explicar, foi ela mesma a dizer: “Filho, o jovem não me fez nada. Vizinho é que é fofoqueiro. Não viu nada, nem ouviu sequer gemido!”
As comadres riram-se como meninas da EBF.
Aida imitou o espanto dos polícias:
— Haka! Boca quase a tocar a nuca…
— E o que eles tinham ouvido então? — perguntou Manda.
Isabele levantou o queixo:
— Foi só manutenção!
O autocarro explodiu em gargalhadas. Um jovem que fingia dormir abanou os ombros de tanto rir.
Foi então que Ngaxi, que nunca deixava história sem réplica, pigarreou:
— No Kifica também aconteceu isso. A mulher é minha amiga. Ficou anos sem manutenção desde que o Gasparito apanhou kikonha. Mas certa noite a comichão bateu forte…
Henriqueta aproximou-se, curiosa:
— Mana Ngaxi, não nos mates de curiosidade!
Ngaxi prosseguiu:
— Bebeu água fresca… nada. Tomou banho natural… nada. Morno… nada. Gelado… também nada! A comichão era daquela que sobe até à raiz do cabelo!
As comadres dobraram-se de riso.
— Chamou um rapaz que carrega água por birra, — disse Ngaxi. — “Ó muzangala, não queres birra?” — falou ela toda sacudida, parecia Tt quando canta “Hosana!”
Tt cobriu o rosto de vergonha, mas ria-se.
— O moço trouxe três bidões. A velha perguntou: “Só beber? Não quer te lavar?” Ele aceitou. Depois bebeu uma, duas… e ela: “Queres mais duas? Vai tomar banho e a avó paga.” Enquanto ele se lavava, ela preparou comida e uma ngala de vinho. Quando voltou… zás! Ele atacou tudo. Barriga começou logo a crescer!
— E depois?! — perguntaram todas num coro afinado.
Ngaxi concluiu:
— Quando ele quis fugir, ela perguntou: “Não quer enxaguar a boca com uma birra?” Ele aceitou. Mas a vizinha Inês disse: “Agora bebes a avó… e depois a birra da porta!”
— E bebeu?! — ecoou pelo autocarro.
— Bebeu, sim! — respondeu Ngaxi. — Mas antes ouviu a sentença final: “Acaba de me matar!”
E, como sempre acontecia quando as comadres começavam a alinhavar histórias, o autocarro inteiro ficou rendido — gargalhadas longas, redondas, libertas.
Enquanto desciam no Kinaxixe, Henriqueta, abanando o corpo, comentou:
— A Classe Kwanza‑Sul devia fazer culto só para histórias dessas!
E Tt, tímida, mas espirituosa, murmurou:
— Se o pastor Domingos João ouve isso… mete todas na disciplina!
As comadres riram-se outra vez.
Porque, na Classe Kwanza‑Sul, como no resto da Moisés, a palavra sempre encontrou um colo… e uma gargalhada.
terça-feira, dezembro 08, 2015
ENTREVISTA À REVISTA ÁFRICA TODAY
1. Jornalista há vinte anos, costuma dizer que não é escritor, apenas um contador e descritor da sociedade. Como observa a sociedade angolana contemporânea e as suas transformações nestes 40 anos de independência?
Nota: entrevista realizada em Novembro de 2015.
terça-feira, dezembro 01, 2015
O ABRIDOR SE SALÃO
Costa, sua graça de baptismo, soa em muitos lugares e países da região austral de África.
- Papá Costa, azali bien? - Questionam os franco-lingaleses procurando por conversa.
- How are you, mister Costa? - Saúdam outros, os vizinhos do leste, sudeste e sul que herdaram a língua de Shakespear.
Em tempos, surgiu alegre como sempre, a informar aos irmãos e cunhadas com quem convivia que durante uma viagem de 24 horas a uma província do litoral angolano aproveitara fazer um mestrado de três horas.
- Três horas? Qual mestrado, mano Costa?! - Questionou a assistência expectante.
- Sim, começou ele a explanação a que o mais atrevido da audiência apelidou de “aula magna”, fiz um rápido Mestrado em abertura de festas de salão. - Explicou recebendo uma forte gargalhada, seguida de assobios festivos.
- Abertura de festas de salão? Kota Costa é bué, yá?! - Enfeitou um dos assistentes e admiradores.
- As inscrições a decorrer. Faço abertura de festas de aniversário, de casamento, de baptizado e até de amistosos. Não tardem em fazer as vossas reservas nem se esqueçam do pagamento. Uma garrafa de boa pomada é o valor mínimo para familiares e amigos chegados da família!
Obs: texto publicado no Jornal Cultura (Angola) de 7-20 de Dez. 2015, pág. 13.


