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sábado, agosto 15, 2015

O ESCURINHO DE BOTOMONA

O homem vinha cansado e saudoso dos seus. Marcava o tripper da sua viatura 948 quilómetros percorridos. Havia feito mais de catorze horas ao volante e perto de dez paragens, entre aquelas orientadas para a fiscalização preventiva do veículo e do seu condutor, ele no caso, e outras em que simplesmente abrandou para saudar as autoridades rodoviárias, falar sobre o percurso e reportar o que de importante encontrara ao longo do trajecto.

Botomona, ficava a menos de 70 quilómetros do destino e já sentia o cheiro do peixe banana que a mulher preparara para o seu jantar.

O Escurinho (nome de ocasião), dois riscos no ombro, altura de basquetebolista e negrura de mostrar apenas os olhos e os dentes quando falasse à noite, estava dum lado e do outro o interpelado Mona a Chico, o viajante.

- Boa noite, senhor automobilista. – Saudou Escurinho, depois da devida sinalização para abrandamento e acostamento da Maria (viatura).

- Boa noite chefe. - Respondeu Mona a Chico, esperando pelas perguntas da praxe cujas respostas tinha já decorado.

Do nordesta a Botomona, não se tinha deparado com acidente ou incidente digno de realce. Apenas ferro retorcido já com curva de idade que as queimadas do capim iam destapando à beira da rodovia.

- De onde vem e como está a ser a viagem? – Voltou a questionar o sargento da polícia rodoviária.

- Venho do nordeste e não me deparei, ao longo dos quase mil quilómetros com incidente ou acidente grave. Apenas a estrada é que vai cedendo aos buracos. Os vossos colegas, em todas as províncias por onde passei, também estão com uma atitude preventiva irrepreensivel. - Elogiou o condutor, enquanto juntava a papelada.

- Sim. Por cá, é por causa da peregrinação à Muxima.- Justificou Escurinho.


O interpelado exibiu os documentos da viatura e os dele e ligou-se à rádio desportiva para acompanhar os resultados da ronda do Girabola. Havia já hora e meia que apenas se ouvia música e vinheta sem locutor para anunciar os resultados da ronda ou a hora que corria ao desgosto dos expectantes amantes da bola na relva.
- Alguém vai "mamar pastilha" na rádio Meia Dúzia! - Disse para si mesmo. Se calhar o locutor substituto da tarde desportiva se tinha ausentado sem que o substituto chegasse, acrescentou em suerdina.

Mona a Chico era conhecedor das andanças da Rádio e estava familiarizado com aquilo. Pena foi não ter ninguém no carro para ouvir o seu esperiente desabafo, para além da própria "Maria" (viatura) com quem conversara durante todo o trajecto. E não tardou para que o interlocutor fardado que fiscalizava os documentos aparecesse com outra questão.
- O seu seguro está caducado e isso dá multa. – Disse ele, com o bloco de notificações e esferográfica à mostra, em sinal de força persuasiva.

- Repare bem, senhor sargento. Renovei o seguro contra terceiros em Maio deste ano e vai até 2016. – Disse-lhe Mona a Chico, exibindo o certificado.

O homem da estrada acendeu a lanterna, confirmou e desculpou-se. Mas sacou da cartola outro gato.

- Onde está a taxa de circulação, senhor automobilista?

Já a desconfiar que havia gato escondido com rabo de fora, o interpelado ganhou coragem e decidiu explicar’-se tim-tim por tim-tim.

 - Senhor Sargento, comprei o carro em Fevereiro deste ano e, tanto quanto sei, o seguro obrigatório tem a ver com o ano derradeiro.

- Mas o livrete tem a data de Novembro de 2014. - Voltou a colocar o homem, aparentemente sedento de alguma inconfissão.

Com a paciência já em falta o "amigo da estrada" sacou da factura e da guia de entrega da viatura pela concessionária e juntou aos documentos em posse do fiscalizador.

- Chefe, eis os documentos de compra. Aqui tem a data em que o carro saiu do parque para a estrada...

O homem, farda azul escuro e colecte reflector verde com barras alface, marcou dois passos atrás, acendeu novamente a lanterna, rodopiou sobre si mesmo e voltou a tirar a sua última cartada.

- Tem mala no banco traseiro que em termos do novo código é bagagem. Está em conflito com o artigo 56 e vou ter de multá-lo.
Habituado a tratar a estrada por tu, quer na sua viatura quer em boleias, aquela colocação do fiscalizador, parecia ter caído dum planeta ainda em estudo. Mona-a-Chico teve de sorver ar fresco, daquela brisa que se forma entre o Atlantico e o Kwanza, para ganhar força e continuar o debate que quase lhe ia algibeira adentro.
- Posso ver a letra do artigo? – Solicitou Mona a Chico, já aborrecido mas sem o demonstrar no discurso.  

O polícia titubeou por algum tempo, procurando por uma resposta que soltou segundos depois. Quase um minuto de gagueira.

- Não tenho aqui o codigo, mas o senhor devia saber. – Atirou com alguma rudeza discursiva Escurinho que se mantinha focado no seu "pente". Afinal tinha chegado o "sábado da boda" e todo o grão que se podesse angariar faria bom serviço ao "papo".
 

- Senhor polícia, confesso-lhe que não conheço a letra do artigo que citou pois não trabalho com essa matéria e nunca mo disseram, pois conduzo há já muitos anos e mesmo hoje parei diante de seus colegas mais de dez vezes, sem que me tivessem falado no tal artigo 56. Por ventura, o senhor pode exibi-lo para convencer o cidadão?
O  Senhor deve ter de cor ou exibi-lo em texto documental. Nao é o que diz a constituição? Quando se tiver de multar ou prender o cidadão tem de ser convenientemente esclarecido sobre as razões da sanção. Ou deixou de ser assim?! – Jogou Mona-a-Chico o que lhe parecia ser o último argumento para se livrar daquela isca.

O  Senhor é que deve ter de cor ou exibir em texto documental para convencer o cidadão. Nao é o que diz a constituição? Quando se tiver de multar ou prender o cidadão tem de ser convenientemente esclarecido sobre as razões da sanção. Ou deixou de ser assim?! – Tentou convencê-lo Mona a Chico.
Encostado à estrada (noutras circunstâncias seria à parede daquela antiga igreja em reuínas em Botomona), o homem saltou a linha da força dos argumentos racionais e passou para o lado da razão da força.

- Ou o Senhor assinas a notificação (que ainda não tinha passado) ou vou te prender por desacato à ordem. – Ameaçou Escurinho autoritário.

 
-
- Deste jeito, não assinarei a notificação que ameaça preencher e se me prender saiba já que quando o carcereiro abrir a porta para me soltar da cela, você estará entrando nela. - Disse o condutor, já com paciência aos retalhos, o que fez abrandar a postura ameaçadora do fiscal de trânsito.
- O Senhor é polícia ou militar? - Recuou o fiscalizador que aproveitou chamar um colega, um risco em cada ombro, para ir "explicar no senhor" o artigo 56 do codigo de estrada de Angola.

Quando o segundo homem de farda azul, mais polido, se apresentou, o automobilista tinha ao telefone um oficial general da corporação a quem estava a reportar a interpelaçao, a ameaça de multa e a ausência do citado artigo 56 que "proibe o transporte de sequer uma mala de roupa no banco traseiro de uma pick up de cabine dupla".
- Chefe, tenho mala no banco da trás da pick up e o sargento regulador diz-me que me vai multar por transgressão ao artigo 56 do código, chefe, já que ele não tem, pode dizer-me se tal colocação é verdadeira?

O telefone estava em viva voz. Ali mesmo, os homens que cuidam da segurança das pessoas e dos bens trocaram, trocaram cortesias e senhas parta que pudessem certificar-se de que não era um impostor na linha.

Sem mais palavras, o automobilista viu os seus documentos devolvidos pelo sargento de uma risca, o mais polido.
- Será mesmo que não se tem transportado nem um saquinho de compras no banco de trás? - Questionou o automobilista, em jeito de retirada, ao segundo homem, recebendo desse apenas um cordial aperto de mão e um "boa viagem, amigo automobilista".

Nota> Texto publicado no Semanário Angolense, edição de 26.09.2015

  

 

2 comentários:

Armando Graça disse...

Ai, ai!

Melhor que essa, só mesmo aquela anedota do agente que pediu todos os documentos e, como o cidadão até tinha tudo em ordem, exigiu:
- Mostre a identificação da sua mulher, dos seus filhos e dos seus pais!
O homem foi ao porta-luvas, sacou de tudo e exibiu.
- Vou multá-lo, cidadão!
- Ué! Então e porquê, Sr. Agente?
- Excesso de documentação também dá multa! E é pesada!!!

"Soberano" Canhanga disse...

E aconteceu mesmo...