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segunda-feira, março 05, 2012

A LITERATURA, A POLÍTICA E AS LIBERDADES (ENTREVISTA)

Blog: litsubversiva.blogspot.com
Temática: Jornalismo, literatura, afro-descendência, cinema, etc.
Local de alojamento: Salvador da Baia (Brasil)
Autora: Ana Paula Fanon (jornalista e escritora afro-descendente).
Sábado,03 de março de 2012
Literatura Angolana em cena:os escritos de Luciano Canhanga

A internet é um meio de comunicação que possibilita a aproximação de pessoas de diferentes lugares e culturas,embora o sociólogo Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento e no livro Amor liquido convide -nos a fazer reflexões sobre as relações virtuais.Foi neste contexto que conheci o escritor Luciano Canhanga ,visitei o seu blog, depois adicionei-lhe ao meu perfil no facebook e conversamos sobre experiências literárias em países marcados pela colonização a exemplo de Brasil e Angola.
Angola é um país situado geograficamente na costa ocidental de África, cujo território principal é limitado a norte e a nordeste pela República Democrática do Congo, a leste pela Zâmbia, a sul pela Namíbia e a oeste pelo Oceano Atlântico que, apesar do fim da guerra civil em 2002 ainda sofre com os resquícios históricos.
Embora a língua portuguesa seja o idioma oficial deste país, existem outras línguas que compõem a cultura angolana como :umbundu, kimbundu, ambundu e a literatura é um meio de manter contato com as manifestações culturais e as reflexões políticas de quem se utiliza da palavra para registar a memória do seu povo.
Relendo a entrevista concedida por Homi Bhabha (Prosa & Verso) O Globo sobre valor das diferenças publicada em janeiro do ano corrente; em que Bhabha responde ao jornalista porque ele coloca a literatura como a forma mais sensível e de enorme significado entre os atos de sobrevivência cultural,cheguei a conclusão de que o meu oficio político na diáspora é dar visibilidade as produções literárias que estão a margem das chamadas alta cultura.
O entrevistado do blog Literatura Subversiva é Luciano António Canhanga jornalista e escritor do Libolo ,município da província do Cuanza-Sul, em Angola, autor do romance "O Sonho de Kaúia", Mayamba, (2010).
Quando começou a sua carreira literária ?
A minha paixão pelas letras teve inicio em 1983 quando um primo, Arnaldo Carlos, me emprestou o primeiro livro que li, gostei e retive. Foi "Vozes na sanzala" de Uanhenga Xitu. A escrita começa na década de noventa do séc. XX, quando de forma ainda muito incipiente comecei a escrever os primeiros poemas e a inventar algumas histórias, cujos personagens eram as pessoas que me eram próximas. Com a criação do meu primeiro blog em 2005 comecei a publicar algumas crônicas e artigos que evoluíram para o texto do meu primeiro livro publicado em 2010.
Quem são os seus escritores(as) prediletos (as) ?
Tenho uma admiração muito grande por Uanhenga Xitu e Jofre Rocha que são narradores de situações. Escritores preocupados mais com o conteúdo do que a forma. É óbvio que procuro encontrar o meu próprio caminho, mas inspirei-me muito neles. Também admiro Saramago e Mia Couto. Em Angola cito ainda Roderick Nehone e Jacinto de Lemos que são exímios cultores da palavra.
O senhor considera o livro O Sonho de Kaúia autobiográfico ?
Não! Talvez me perguntasse se vivi parte do que escrevo? A resposta seria sim, mas o que escrevo não é a minha história pessoal. Descrevo apenas situações políticas, sociais e históricas vividas pelos angolanos. O fato do personagem principal Kaúia tornar-se jornalista, profissão que exerço, faz com que alguns leitores busquem uma relação de familiaridade entre o personagem principal e o autor.
Que avaliação o senhor faz da literatura Angolana no Cenário internacional e nacional?
A internet popularizou a literatura e permite que os pensadores/criadores intercambiem conhecimentos e experiências. Hoje as formas e os conteúdos não são estanques. A nossa literatura já é marcadamente diferente daquela do século passado, devido a universalidade da criação e intercâmbio entre os criadores. Falando de Angola, depois de um período em que haviam poucos escritores e com temáticas pouco distintas, estamos hoje a viver um boom em termos de criadores. Óbvio que "nem tudo é literatura", porém estou a crer que depois da quantidade venha a qualidade. Já li bons textos de principiantes, mas também já comprei livros que desaconselho a meus filhos, devido a forma como a língua portuguesa é maltratada.
Angola é um país africano colonizado e marcado por um período de guerra civil. A situação hitórica, política e social do seu país refletem na sua produção literária ?
Quem lê “O Sonho de Kauia” encontra um pouco de tudo isso. A luta pela independência (homens que foram à guerra e encontraram as mulheres com os filhos nas mãos), os resquícios da “política assimilacionista do Estado Novo” que proibia o uso das línguas de origem bantu entre os nativos, a guerra civil que se seguiu a independência e o consequente êxodo de pessoas do campo para as cidades, as adaptações, etc. etc. E encontra ainda as desordens sociais nas grandes cidades como as construções anárquicas, o caótico tráfego automóvel, as novas manias de grandeza, etc. É sobre tudo isso, a que acresço pitadas de humor, que continuo a escrever. Quando sair a público o livro "Os desaquartelados", os leitores voltarão a encontrar um retrato do que foi e é Angola no tempo em que sou parte do seu agregado populacional (1976-2012).
O que mudou no seu país após o período de guerra civil ?
Depois de termos todas as atenções viradas para a guerra, estamos agora a pensar na reconstrução do que foi destruído: o tecido social, as boas práticas que foram ignoradas, o resgate do papel da família, etc. Estamos a reconstruir Angola, mas o caminho ainda é longo, pois há coisas que ficam reservadas a próxima geração, aquela que nada teve a ver com a guerra.
Quais são as suas principais preocupações políticas, uma vez que o senhor além de escritor é jornalista ?
A liberdade é a minha principal preocupação. Não há sociedade que se tenha desenvolvido num clima de ausência de liberdade e temos ainda uma grande marcha por efetuar neste domínio. Os escritores tem liberdade de escrever, mas há dificuldade em publicar. Sabe que Angola tem apenas 16 milhões de habitantes, sendo grande parte iletrada, e, pior ainda, porque dos que foram alfabetizados poucos têm cultura de leitura e há ainda os que não têm nada para ler. Logo, Angola não é um bom mercado para a literatura, sendo que apostar neste género artístico não anima os editores. Só para lhe dar um exemplo: Eu compro na editora os meus próprios livros para oferecer a amigos.
Noto que os jornalistas têm mais dificuldades em relatar os fatos, sobretudo, quando envolvem a governação. Muitas vezes, porque ninguém quer estar mal com os detentores do poder e dos medias, os jornalistas enveredam pela auto-censura que chega a ser mais perniciosa do que a censura explícita. Hoje, os grandes jornalistas do país ou são free lancers ou estão na assessoria porque a media privada começa também a ser submetida a operações de compra hostis. Sendo os novos titulares dos jornais, pessoas ligadas ao poder e com forte controle sobre as matérias publicadas.
Como funciona a política editorial para publicação de livros em seu país ?
A política editorial no pais é ainda bastante fraca. No passado era apenas a União dos Escritores Angolanos que editava. Ser-se membro da União era o grande bico d´obra. Agora há novas editoras, só que, na maioria das vezes, o autor precisa de ter um patrocínio para publicar. Essa dificuldade é mais acrescida quando se trate de um neófito que procura por um lugar ao sol. Os já consagrados têm alguma facilidade em ver o seu projecto aceito pelas poucas editoras existentes e ou pelos patrocinadores, mas os livros vendem pouco em Angola, devido a falta de cultura de leitura. Há uns que preferem editar fora do país, mas lá se coloca outra questão: para vender fora você tem de ser conhecido antes.
O senhor pretende lançar algum livro este ano ?
Tenho dois livros a espera de quem os aceite editar. Um infanto-juvenil "Manongo-Nongo", que até foi escrito com a pretensão de oferecer às crianças do Leste de Angola, desde que alguém se encarregasse dos custos de edição, e um romance "Os desaquartelados" que também já pode sair ao público. Aprendi ao longo do processo de aprendizagem que “a literatura adiada não apodrece. Ela antes amadurece”. É por isso que tenho paciência em esperar por melhores dias, pois enquanto aguardo pela chegada do sol, vou aperfeiçoando os textos.

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