O ano de oitenta e nove "me acabou" como "recua". Estava em Kalulu, alojado no Lar de Estudantes da Missão Católica e estudando a sexta classe. A escola Kwame Nkrumah tinha dado férias de Natal. Na noite de 24 para 25 de Dezembro, os homens da Unita atacaram a Vila.
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segunda-feira, janeiro 25, 2021
O SECRETISMO DE BICESSE E A FUNGUTA A TODO-TERRENO
segunda-feira, janeiro 18, 2021
IRMÃO PIRIGO
(in: o Gajo do pastor)
— O meu nome já encosta na lista dos 144 mil que vão no céu! — repetia ele com ar de iluminado.
Na igreja, por isso mesmo, não tardaram a chamá‑lo de irmão Catorze‑Quatro, alusão directa aos três primeiros algarismos que, na numeração árabe, recebem três zeros à direita para completar o número dos “escolhidos”. Segundo a leitura literal que fazia de Apocalipse 14:1, seriam eles a governar a terra com Cristo, num executivo cuja sede ficaria… no alto dos céus.
Na terra, porém, dizia o irmão Catorze‑Quatro com empáfia evangélica, ficariam “os bons, mas de obra fraca”. Falava como quem desce a régua sobre a mediocridade espiritual alheia. Citava Salmos 115:16 como quem saca cartão de visita. Os versículos estavam tão sublinhados que até pareciam tatuados.
Era por isso figura incontornável nas discussões com os jovens reformistas, inconformados com a maneira como os kotas da velha guarda governavam o templo.
Catorze‑Quatro nascera numa missão evangélica e fizera ali toda a instrução preparatória até que a idade militar lhe barrou o caminho para o pastorado. Frequentava o Seminário Emmanuel Unido, no Ndondi, quando a tropa o veio buscar e lhe arrancou o sonho pela raiz. Mesmo assim, manteve a vocação sacerdotal — e, verdade seja dita, manteve também a mania de se gabar disso.
— Sou um dos poucos escolhidos que vão conhecer e trabalhar caralmente com o Messias no governo dele, dizia, atropelando a palavra carnalmente num vício fonético que fazia corar os mais sensíveis.
Já a fazer a curva dos cinquenta, Pinto Kwononoka — o nome verdadeiro que poucos usavam — empenhava-se agora em ser elevado à categoria de diácono. Em simultâneo, tentava manter uma aparência de velho‑jovem: roupas coladas ao corpo, telefones do último grito, plano infinito de internet e dedos viciados em deslizar a tela, mesmo durante o culto.
Na igreja, sentava-se sempre junto a um pilar com uma saliência que formava ângulo recto: perfeito para esconder o telefone onde palavreava com meio mundo enquanto fingia comunhão espiritual.
E assim ia levando a sua santidade de mentira, com a cipala semi‑lavada, até ao dia em que foi chamado a abençoar o ofertório.
— Irmão Catorze‑Quatro, leva-nos a Cristo em oração! — pediu o reverendo Kabwiza.
Sem tempo de desligar o telefone, levantou as mãos, deu os dois passos habituais e começou:
— Meu Deus, mô papá, abre teus olhos e estende a tua mão aos nossos jovens… Cada dia há mais desvios… O pirigo está em cada esquina, em cada beco, em cada telefone, meu Jesus…
Enquanto suplicava protecção divina, a loira do outro lado da conversa ia enchendo a tela do aparelho com selfies sensuais, mensagens ardentes e imagens em poses tão kamasutrais que os jovens, num sopro silencioso, deslizaram para perto. Em quinze minutos de “oração de perdão e abertura dos bolsos”, a congregação juvenil assistiu a um cinema sem bilhete.
Quando o irmão Catorze‑Quatro regressou ao assento, ainda a apagar as imagens e o peito alto da kindoza que parecia uma barata kuribeka, foi recebido com ironia:
— Irmão Catorze, temos de redobrar a vigilância… Os telefones estão cheios de perigos!
Ele baixou o rosto, murcho:
— Sim, irmãos. O mundo é um pirigo permanente…
Desde então, já ninguém o chama pelo antigo título espiritual. A juventude da igreja e do bairro, dentro e fora dos muros, baptizou-o com gosto:
A fama espalhou-se mais depressa que o próprio evangelho. Hoje, onde quer que Pinto Kwononoka ponha a cara, há sempre alguém a apontar, rir e anunciar:
— Por aqui também passou o Irmão Pirigo!
terça-feira, janeiro 12, 2021
TESTE À INTELIGÊNCIA E ÀS NORMAS ANTI COVID-19
A viagem, num carro "saltitante", já levava largas horas e tinha "comido centenas de quilômetros. Benguela estava já quase à vista. As paragens obrigatórias e voluntárias tinham passado meia dúzia e tudo valia para "enfeitar a boca" e entreter o condutor que não podia adormecer. Dizem os profissionais da estrada que o sono é pior do que o walende. E uma das conversas, não com os companheiros de viagem, mas ao telefone, foi assim.
- Alô!
segunda-feira, janeiro 04, 2021
EU E A OLIVETTI
Conseguido o Manual, que me foi ofertado por Ilda Branda que frequentara o curso, consegui uma Olivetti nova. Foi só prática e mais prática, sendo o requerimentista e redactor das mikanda oficiais de familiares, amigos e vizinhos.

