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quarta-feira, novembro 29, 2023

LÁ & CÁ: PARQUES E TURISMO

Notas turísticas 

Escalar montanhas é um tipo de desporto de lazer que se encaixa perfeitamente no turismo. Quando se vai a Cape Town, uma das maiores atrações turísticas é a Table Moutain, cuja altitude é de mil e oitenta e seis metros. Um dos desafios dos turistas tem sido chegar aos 950 metros de altura, em atalho íngreme do Kloof Corner (a caminho da Table Mountain). Na minha aventura, os 950 metros pareciam insuperáveis, dado o facto de ser quase cinquentão e único entre uma vintena de jovens de vinte a trinta anos. Olhando para o desafio, escalar a montanha por um andarilho, o lado preguiçoso que, infelizmente, todos temos apelava à desistência.  

Sons estranhos vozeiravam em mim. "Kota, não vale apenas só. Vai p'ra casa, prepara tua prova e aprecia uma kisângwa. 

Procurei não ceder e o lado corajoso se sobrepôs, apelando-me ao foco no resultado e não no desafio.  


Quando, ofegante, a meio do percurso, sem saber se continuava ou desistia, com os vasos nasais a se mostrarem demasiadamente estreitos para levar aos pulmões a quantidade de ar que estes demandavam, abri a boca e levei-a mais próxima dos pulmões. Foi como se um veículo 4×4 tivesse ligado o turbo. 

Não tardou. Os jovens que me achavam de velho passaram a perguntar-me um a um: "Kota, de onde provêm toda essa tua energia"? 

A minha resposta foi curta e incisiva. Perante uma prova aparentemente difícil, foque-se no resultado e não no desafio! 

Mais uma vez, cansado, mas realizado, já no sopé e enquanto esperava pela chegada do Uber, encostei-me a um rochedo, tal qual George Washington, após a travessia do rio Mississipi, mas, não fazendo aquela memorável declaração "I'm tired" embora também estivesse, fiquei a pensar na (im)possibilidade de termos também andarilhos nas nossas serras e montanhas para "entreter" turistas e amealhar alguma pecúnia que muita falta nos faz. Vieram-me à cabeça todas as montanhas da minha infância e puberdade como o Morro do Moco, o Luvili, o Manyangwa (entre Muxixi e Lususu, cuja cordilheira se estende ao Kitumbulu), a Serra da Leba, a encosta do Cristo Rei (Lubango) a Tundavala, a Serra das Neves, o morro do Tongo, as montanhas do Kabutu (Kuteka ao Kikole), a Phaka (Kisongo), o Kalyematuji (Kalulu), o Lupange, o Morro do Xingo, as Serras da Kanda e Kusu e tantas outras elevações escaláveis. 

 

A 16 de Setembro de 2023 fui, pela terceira vez, ao cume da "Table Mountain", tida como uma das "sete melhores maravilhas turísticas do mundo", levado pelo teleférico ou "cable" na língua deles.  

Ao contrário das duas primeiras visitas, em que foram dias ensolarados e abertos, portanto, sem nuvens, desta vez a nuvens densas confundiam-se com chuva preguiçosa e a sensação térmica andava à volta dos 3° célsius, imprópria para um cidadão que vive regularmente próximo da Linha do Equador.  

Mesmo com essa adversidade (frio intenso), e depois de um café e um chocolate quentes, deu para me atrever a uma caminhada pelos andarilhos e pontos de observação cuidadosamente construídos no também Parque Nacional. Chamou-me à atenção a presença do damão-de-Cabo ou hyrox, um animal roedor que vive entre pedras, caminhando sobre elas como se tivesse cola entre as patinhas com três dedos apenas. É o kezu, no nosso Kimbundu, ou canta-pedra, como aprendi no Português Libolense da minha infância. 

Confesso. Já andei à caça destes mamíferos placentários e experimentei a missão árdua de os capturar e deliciar-me com o sabor de sua carne, num período de escassez de conduto. Lamento. Foi em uma época de total ignorância e carências, para além do facto de que o animal ainda se apresentava a cantarolar por todos os lados onde houvesse grutas e rochedos. 

No Libolo, por exemplo, a deslocação forçada pela guerra civil de muitas pessoas de suas aldeias, deixando para trás os seus meios de subsistência, empurrou-os à caça desenfreada, não só para se alimentarem, mas também para trocarem a carne por outros alimentos e bens. Como consequência, criou-se o vício da caça pelo dinheiro e ficou gravemente acometida a fauna, algo que tende a persistir, demandando mão firme e pesada. 

É triste que homens de hoje, alguns mais abastados, do ponto de vista de informação científica e materialmente, continuem a dizimar animais, legando a seus filhos e netos apenas estórias sobre animais (que estejam eventualmente) extintos da nossa fauna que já foi muito rica. 

Cada um, na sua aldeia, no seu bairro, na sua comunidade pode ser influenciador positivo sobre a necessidade de criarmos animais domésticos e pouparmos os selvagens.  

Já nos idos de 1980, o meu pai (de feliz memória) recomendava: 

- Só se mata uma fêmea se não puder ser identificada previamente. 

E justificava que "as fêmeas eram a continuidade da fauna". No dizer dele, embora com pouca instrução académica, "se as fêmeas acabassem já não teríamos animal nenhum e deixaríamos de caçar". 

É que se não tomarmos consciência agora, pode ser que os nossos netos tenham de ir, daqui a cinquenta anos, pedir à África do Sul um casal de canta-pedras para repovoar os nossos parques, devendo, entre tantos outros, ser incluída a instância turística de Tundavala, (já) declarada "Património Natural", depois de ter sido "classificada" como uma das 7 maravilhas turísticas de Angola. 

Pense nisso! 

 

Publicado pelo Jor. Angola de 24.09.23

domingo, novembro 26, 2023

REENCONTREI O HOMEM QUE ME SALVOU

Nascia o mês de Junho de 2005. O espaco "Terraço" em Viana, tinha sido o destino, depois de uma semana repleta de trabalho. Éramos três colegas de serviço, dois senhores e uma senhora, fazendo-nos-nos companhia a irmã da colega.  Divertímo-nos ao som de música juvenil até ao nascer do dia 1° de Junho.
De regresso a Luanda, íamos cansados e as senhoras sonolentas. O Vemba, que ia a conduzir, tinha aproveitado fazer as suas sempre oportunas reportagens que alimentavam a sua rubrica cultural nos noticiários nocturnos da LAC. 

_ Sigam com calma e não ultrapassem os cem quilómetros horários. _ Disse aos dois condutores, Adilson Santos e Vemba Menzes, com a voz meio turva, dada a madrugada, à saída da discoteca. 

O corpo reclamava caldo regadio para, às seis da manhã, abrir a emissão da estação Azul, também conhecida pela sua frequência 95.5 FM.

Até proximidades da antiga FTU, as duas viaturas seguiam uma atrás da outra, estando o Adilson à frente. A cidade sonhava ainda, antes de acordar. Mal se fizeram anunciar as luzes da Avenida Deolinda Rodrigues, o Kia Avla, em que seguíamos, decidiu ziguezaguear, levando-nos à mortífera árvore que de sangue engordava nas barbas do que é hoje o Comando Provincial da Polícia de Luanda. 

Era ainda no tempo das vias estreitas entremeadas por um largo e longo "chourição" arborizado que separava os veículos a caminho de Catete e aqueles que visitavam a capital. Do outro lado da via, qual Lucifer vestido de branco, com os braços abertos, aguardava-nos a Snt'Ana sepulcral com seus lúgubres lençóis.

_ Sono? Embriaguez? Imperícia? Outra coisa não verbalizada? _ As perguntas gritantes e mudas permanecem. 

Quem as podia responder já cá não está. Descarto, porém, a embriaguez e outras coisas insinuadas em surdina.

De repente, tão rápido quanto o acidente, curiosos, polícias, bombeiros e jornalistas fizeram-se ao local, qual maratona sabática em dias de campanha eleitoral. Choveram apelos na rádio Kyanda para que se mobilizassem meios e homens "para salvar os infelizes".

_ São jornalistas. Salvem os nossos colegas. _ Verberou-se suplicante nos 99.9 de frequência e nas bocas atónitas dos presentes e ausentes preocupados.

Juntaram-se sinergias para o desencarceramento dos ocupantes do veículo encolhido abraçado à árvore máscula. Três dos quatro corpos ensardinhados suplicavam socorro às vidas que rapidamente eram sugadas pelo abismo faminto.

Machados, serras eléctricas, tudo que os bombeiros usam e o povo guarda, pouco servia para cortar o volante, o tejadilho e desfazer as portas. O motor recuado, no embate contra a árvore, arrastou tudo para trás.

_ Por favor, estiquem o carro porque temos os pés longe dos corpos. _ Era a minha voz suplicante, ainda desconhecedor do meu estado físico real. Fui ouvido.

O Hyundai Avla foi esticado. Amarrado de frente à mesma árvore que também sangrava e puxado pelo camião dos bombeiros.

Antes de terminar o desencarceramento, já um dos sinistrados, o Vemba, desfalecia no terreno. Não se ouvira dele sequer um ai.

Chegados ao Maria Pia, levados em duas viagens pela carrinha da patrulha policial, primeiro os ocupantes do lado esquerdo (as jovens irmãs) e depois os do lado direito, encontraríamos  Leonardo Inocêncio, jovem médico chegado das terras de Fidel, com as mãos afinadas no bisturi, sem ordenado ainda, mas com a mente casada com Hipócrates, mostrava aí a sua proeza altruística. 

_ Doutor será que ainda viverei? _ Perguntei-lhe entre lucidez e falta dela, depois de confirmar o finamento do colega e amigo Vemba.

_ Vives, meu amigo. Vives, podes crer. _ Respondeu convicto no que seria o resultado do seu trabalho.

Dez anos depois (em 2017), sem que as imagens faciais pudessem ser revisitadas, eis-nos, 23 dias, a frequentar um mesmo curso destinado a administradores da Função Pública. 

Em "conversa-puxa-conversa", médico e paciente, revivemos o dia do acidente e de imediato nos identificamos.

_ És tu que estavas naquele acidente de jornalistas?

_ Sim. Sou eu, Doutor. Éramos quatro. Morreram duas pessoas e sobrevivêramos duas. _ Expliquei.

_ Por favor, vamos sair e mostra a cicatriz. _ Orientou o cirurgião com a mesma autoridade e carinho que usa no Hospital perante os pacientes.

Mostrada a cicatriz abdominal, o "kimbanda kya Putu" voltou a questionar: 

_ E qual dos pés sofreu cirurgia?

_ O esquerdo, Dr. Inocêncio. _ Confirmei, mostrando também a cicatriz na perna que tinha o tornozelo quebrado e que conserva até hoje um parafuso.

_ Pois é. És tu mesmo. É meu paciente. É verdade. _ Disse Leonardo à vintena de colegas de formação (ENAD) que aguardavam pela perícia.  

_ A ferida é minha. Conheço as minhas impressões. _Ironizou.

Abraçáramo-nos perante o olhar pasmado da turma. Choveram agradecimentos e recomendações ao médico anestesista que com o Dr. Leonardo trabalhou na madrugada daquele primeiro de Junho de 2005.

_ Obrigado, Dr. Leonardo Europeu Inocêncio, por ter, com sua perícia, impedido que o abismo me sugasse ao seu leito negro.

Obs: voltamos a nos reencontrar e confabulámos durante o almoço, hoje, 27.11.2023, em trabalho em Saurimo.

quarta-feira, novembro 22, 2023

PUSA NKUTWALA

No interior, seja qual for a província, dado que os "engarrafamentos" e descasos com o trabalho ainda não se tornaram cancros, as jornadas são quase sempre madrugadoras. O caçador, o camponês/agricultor, o apicultor, o extractor de malavu/maluvu, o mecânico, o motoqueiro, o pescador, o regedor e o administrador civil todos se levantam cedo para ganhar o dia e o pão. Assim fizemos de Kabinda ao Miconje, quase que a percorrer a província mais setentrional de Angola, do Sul ao ponto Nordeste, até beijar o país vizinho.

Levados por um "pusa nkutwala" que no meu Kimbundu equivale a xinjika (empurra), o carro alugado a uma rent-a-car local começou a "tossir" logo antes de atingir a planície de Malembu, fazendo da viagem, de mais ou menos duzentos quilómetros, uma autêntica odisseia. 

Iam comigo apenas o motorista de ocasião da rent-a-car e o Pioneiro Rodrigues, aquele rapaz guerrilheiro que a 11 de Novembro do ano da independência, saído de uma base militar da Munenga, seguiu a Kalulu para baixar a bandeira Tuga, colocá-la em caixão para enterro e fazer subir, pausadamente como fora ensinado, a inaudita bandeira da Nova e República Popular de Angola.

Bem, ida e volta, o somatório se aproximava a 400 quilómetros que exigiam velocidade acima da média em terreno plano e sarado de estropios, mas o "pusa" só tossia quando mais se precisava da sua agilidade e potência, sobretudo nas elevações e desfiladeiros entre montanhas pontiagudas e ensombradas por a altas copas que, dizem, "no tempo da guerrilha do Movimento, paravam as bombas portugas lançadas contra os camaradas revolucionários.

E o Pioneiro Rodrigues, no auge da sua profissão de colector de estórias e fazendo-se também ele um "griot", ia contando factos e anedotas da sua sexagenária "bioteca", encorajando quanto o cronista, quanto ao Zé, o motorista do Porto de Kabinda, que fazia perna na rent-a-car.

_ Importante é chegar. Essas vivências fazem bem ao coração de jornalista. _ Largou o Pioneiro Rodrigues, quando provocado a pedir socorro a outras viaturas ou a chamar, preventivamente, outra viatura da companhia para o socorro e resgate, em caso de necessidade.

_ Mandem outro carro atrás de nós e tragam gasolina complementar para esse xinjika. _ Ordenei irónico, mas determinado. 

Espaço para dúvidas não havia. Era mesmo ordem que foi acatada com a remessa de outra viatura que chegaria até proximidades de Belize.


De regresso de Ntandu Nzize, cruzaríamos com a carrinha de "socorro", ela também a carecer se socorrista, no troço entre as sedes municipais de Belize e Buku Zaw.

_ Chefe, é o meu colega que nos veio prestar auxílio. _ Atirou o Zé, visivelmente satisfeito. "Vou livrar-me dos bafos e falatórios menos apreciativos (contra a rent-a-car) deste chefe". Terá pensado o "chauffeur".

E não é que, orientado a manobrar em sentido oposto, trocámos mesmo de carro, pensando que a Hilux nos levaria de forma mais lesta e a poupar-nos os lombos?

Mal nos aproximámos, o cenário já era repressivo: balde com a gasolina entornado na carroça, senhoras com diversas imbambas na cabine, um jovem motorista franzino e olhos medrosos, para além dos assentos com ferros que nos comiam o que restava da cobertura óssea. 

Logo ao primeiro solavanco da estrutura que parecia desfazer-se por completo a cada buraco, o Pioneiro Rodrigues soltou um grito murmurado.

_ O meu coração já não aguenta.

Pensei na condição de saúde do mais velho que tudo faz para se manter pipi, embora portador de um coração que não pode mais ser martelado e comecei as indagações.

_ Quanto tempo tem esse carro?

_ É capaz de alcançar a caravana que já leva uns dez quilómetros de avanço?

Nisso, o Pioneiro Rodrigues preocupado com a forma como o Beto jogava as sobras desparafusadas do veículo aos buracos, acrescentou:

_ Jovem, diz uma coisa. Há quanto tempo conduzes?

_ Desde Março deste ano. _ Respondeu o Beto, despreocupado e demonstrando uma inocência infantil.

_ Trabalhas na empresa desde Março ou conduzes desde Março? _ Retorquiu o Pioneiro Rodrigues.

_ Tenho a carta desde Março, chefe!

Olhando para a velocidade de "cágado" e o despreparo do Beto, não fizemos mais do que mandá-lo estacionar e elogiar o quão hábil e veloz era o Zé e sua velha Fortuner sem a cinza de fábrica.

Partimos, mais alegres, menos resmungões, contando estórias sobre vidas passadas e o provir. 

É estória por contar aos poucos.

Publicado no Jor. Angola, 05.11.2023

quarta-feira, novembro 15, 2023

O OCTAGENÁRIO QUE TRABALHA POR PRAZER

Desde 2022 que a fome humana me levou à “Fome de Leão”, uma churrasqueira que fica próximo do Largo Sá Carneiro, na zona de Areeiro, Lisboa. Inventivos, patrão e colaboradores, inovam e se esmeram em ter consigo os fregueses de sempre e acolher outros. Mas, entre todos eles, o sô Raimundo é quem mais desperta a atenção do cliente. 

Alto, esguio e parecendo enfrentar uma luta contra a coluna vertebral que o quer empurrar para frente e ele a oferecer uma tenaz resistência jovial, como que dizendo, “por cá a velhice não passará”, Sô Raimundo é um idoso alegre e mexido.

A partir do pequeno “restaurante”, sempre, como quem nada quer, contemplei as suas rotinas: senta-se, quando os empregados estão com as demandas controladas; levanta-se, para fiscalizar as mesas na parte interna e a cozinha; conversa com quem lhe é familiar e ou procura fazer novas aproximações. E foi numa combinação recíproca de interesses que nos descobrimos.

Eu acabara de fazer uma descrição dele que remeti à esposa, escrevendo que, “caso chegue à idade de reforma, gostaria de viver como um velho que estava à frente de mim. É um octogenário que acompanha a sua pequena churrascaria e que, quando pode, tanto recolhe as moedas, como põe ordem em uma mesa para receber novos clientes. Outros idosos com a coma idade dele estarão, eventualmente, a gozar da reforma, viajando em cruzeiros, e outros ainda a jogar às cartas num jardim qualquer. Mas ele, está sempre activo e a mostrar que quem aprendeu nunca esquece, apesar de me parecer ser o dono, a contar com a forma mui atenciosa e carinhosa como todos os de casa o tratam”.

Coincidentemente, ele encostou-se a mim para perguntar se “estava tudo bem”, ao que lhe respondi que ele tinha um bom comedouro.

Disso nasceu uma pequena conversa. Perguntou onde eu morava, tendo lhe respondido que era angolano com curta estada naquela zona.

_Mas, então, o seu rosto já me é familiar. Diga lá, de onde você é. _ Insistiu.

_ Sou angolano e sempre que venho a Lisboa, procuro instalar-me aqui próximo (Areeiro). A primeira vez que entrei no seu estabelecimento fui cordialmente atendido e faço questão de tomar todas as minhas refeições neste espaço. _Respondi-lhe, criando nele outras curiosidades e, quiçá, saudades.

O idoso parou por alguns instante. Via-se que estava a viajar no tempo, pelos lugares conhecidos, pelas lembranças e, quando se recompôs, voltou a questionar.

_ Você conhece o LubangoAntes era Sá da Bandeira. E Nova Lisboa também conhece?

Para mostrar-lhe que era mesmo angolano, peguei o telefone e mostrei-lhe uma crónica que tinha como ilustração a Fenda da Tundavala.

_ Olha, eu nasci e cresci no Lubango. Esse era o local em que íamos para observar o profundo abismo e mandar os olhos à Vila Arriaga (Bibala) que fica do outro lado, lá abaixo.

Provavelmente, poucos lubanguenses (re)conheçam Raimundo Almeida, a contar pela idade que carrega, pois muitos de seus coetâneos terão ido descansar, mas, ele, ainda forte e lúcido, contou um pouco de sua vida (a parte menos amarga) e adiantou que já “fez parte da Direcção do Mambroa do Huambo”, tendo contribuído na colocação da relva e da bancada que “custou muito dinheiro”, numa altura em que era empreendedor na venda e restauração de pneus.

_ Até do meu dinheiro usei para que tivéssemos um campo como queríamos que fosse. _ Disse nostálgico Raimundo Almeida, um confesso adepto do Benfica.

Dentre os seus lamentos, poucos exteriorizados, está o facto de "ter de pedir visto" para ir ao seu país de nascença (felizmente desnecessário por força do DP 189/23 de 29 de Setembro).

_ Não faz sentido. _Atira.

Raimundo deixou o Angola em 1975, antes da independência, num momento de incertezas, rumando para o Brasil, mas por pouco tempo. Muitos angolanos (filhos de portugueses) que não foram à então metrópole tinham encontrado refúgio na África do Sul e ele trocou, tempos depois, o Brasil pelo Cabo onde ficou trinta anos, tendo “criado” a marca Hungry Lion. Posto em Lisboa, conta que procurou “dar continuidade ao negócio de carnes grelhadas” e traduziu a marca do Inglês  para Português, resultando em Fome de Leão, que disse existir há dez anos. Contou que “o negócio vai de bom a melhor”.

_ Com a pandemia da covid-19, abrimos a área de take away e, hoje, as nossas vendas variam entre 200 a 300 frangos diários, sem contar com as carnes de porco e peixe.

Quando indagado sobre o porquê da sua presença diária na churrasqueira, Raimundo Almeida ironiza: “não gosto de trabalhar. Gosto é de ganhar dinheiro. Tudo o que se pareça a trabalho faço-o por prazer”.

É verdade. Quando o trabalho é feito com prazer, deixa de ser trabalho e passa a lazer, como é o caso do mwadyakime Raimundo.


Publicado pelo Jor. Angola 22.10.23

terça-feira, novembro 07, 2023

O ESTADO DAS "NOSSAS MARAVILHAS"

Entre Novembro de 2013 a Setembro de 2014 assistimos a um concurso nacional de promoção de "acidentes geográficos" passíveis de se tornarem locais de interesse turístico e dignos de memória colectiva, passando à designação de "sete maravilhas" de Angola.

Grutas do Zenzo, Lagoa de Karumbu, Quedas de Kalandula, Morro do Moku, Quedas do Cihúmbwe, Fenda da Tundavala e Floresta de Cabinda sagraram-se vencedores, entre vinte e sete finalistas.

Durante a campanha, com ampla divulgação mediática e dinheiro fresco que a sustentou, jornalistas retomados, políticos e figuras proeminentes da sociedade emprestaram seus rostos e vozes para atrair os votos, numa espécie de "gosto do Kanyanga, ele promove Kalulu, voto em Kalulu!"

Racionais ou eufóricos, votamos e foi bom. 

Mesmo não tendo sido finalista, a minha mulher pediu-me para conhecer as Cachoeiras da Binga e, acto contínuo, fomos conhecer as Quedas de Kalandula, em Malanji.

Passados 9 anos, quatro perguntas me ocorrem:

1- Que incrementos infraestruturais tiveram as sete "maravilhas" de Angola?

3- Que quantidade de turistas recebe anualmente cada uma destas "maravilhas"?

3- A par da contemplação visual, há preservação da fauna e flora, podendo ser outros atractivos?

4- A Table Mountain (Cape Town), por exemplo, é um parque nacional. Como vamos nós (Angola) em relação a esta matéria nas nossas "sete maravilhas"?

quarta-feira, novembro 01, 2023

DE VOLTA À MONTANHA

A 16 de Setembro de 2023 fui, pela terceira vez, ao cume da "Table Mountain", tida como uma das "sete melhores maravilhas turísticas do mundo", levado pelo telesférico ou "cable" na língua deles. 

Ao contrário das duas primeiras visitas, em que foram dias ensolarados e abertos, portanto, sem nuvens, desta vez a nuvens densas confundiam-se com chuva preguiçosa e a sensação térmica andava à volta dos 3° celcius, imprópria para um cidadão que vive regularmente próximo da Linha do Equador. 

Mesmo com essa adversidade (frio intenso), e depois de um café e um chocolate quentes, deu para me atrever a uma caminhada pelos andarilhos e pontos de observação cuidadosamente construídos no também Parque Nacional. Chamou-me à atenção a presença do Damão-de-Cabo ou Hyrox, um animal roedor que vive entre pedras, caminhando sobre elas como se tivesse araldite entre as patinhas com três dedos apenas. É o kezu, no nosso Kimbundu, ou canta-pedra, como aprendi no Português Libolense da minha infância.

Confesso. Já andei à caça destes mamíferos placentários e experimentei a missão árdua de os capturar e deliciar-me com o sabor de sua carne, num período de escassez de conduto. Lamento. Foi em uma época de total ignorância e carências, para além do facto de que o animal ainda se apresentava a cantarolar por todos os lados onde houvesse grutas e rochedos.

No Libolo, por exemplo, a deslocação forçada pela guerra civil de muitas pessoas de suas aldeias, deixando para trás os seus meios de subsistência, empurrou-os à caça desenfreada, não só para se alimentarem, mas também para trocarem a carne por outros alimentos e bens. Como consequência, criou-se o vício da caça pelo dinheiro e ficou gravemente acometida a fauna, algo que tende a persistir, demandando mão firme e pesada.

É triste que homens de hoje, alguns mais abastados, do ponto de vista de informação científica e materialmente, continuem a dizimar animais, legando a seus filhos e netos apenas estórias sobre animais (que estejam eventualmente) extintos da nossa fauna que já foi muito rica.

Cada um, na sua aldeia, no seu bairro, na sua comunidade pode ser influenciador positivo sobre a necessidade de criarmos animais domésticos e pouparmos os selvagens. 

Já nos idos de 1980, o meu pai (de feliz memória) recomendava:

- Só se mata uma fêmea se não puder ser identificada previamente.

E jutificava que "as fêmeas eram a continuidade da fauna". No dizer dele, embora com pouca instrução académica, "se as fémeas acabassem já não teríamos animal nenhum e deixaríamos de caçar".

É que se não tomarmos consciência agora, pode ser que os nossos netos tenham de ir, daqui a cinquenta anos, pedir à África do Sul um casal de canta-pedras para repovoar os nossos parques como o da Tundavala que, ao que se diz, foi declarado "Local de Interesse" depois de ter sido classificado como uma das 7 maravilhas turísticas de Angola.

Pense nisso!

sábado, outubro 28, 2023

A ÁGUA QUE (NÃO) TEMOS LÁ & CÁ

Lisboa, a segunda capital de um bom número de angolanos, alguns fingidos em bons patriotas, registou uma temperatura máxima de 27° na terça 26.10. Nesse período, Luanda e Lisboa são cidades quentes que impõe algumas necessidades comuns aos cidadãos residentes e visitantes, sobretudo os amantes da caminhada. Porém, uma das coisas que faz diferença entre as duas capitais é o facto de o caminhante lisboeta puder encontrar um bebedouro numa paragem de autocarro, numa estação de comboios ou num jardim. 

Em Luanda, apesar de muitos não conferirem qualidade à água da rede pública, sabemos que a maioria da população a leva ao estômago sem outros tratamentos prévios como a decantação, fervura, desinfecção com iodo ou pastilhas, filtração ou adição. Essas pessoas, por serem as que menos dinheiro possuem, eventualmente, não se inibiriam em beber água da bica instalada no largo da Independência, da Mutamba ou na Marginal do Bispo. 

O que vemos é que, enquanto avançamos em uma direcção com a reposição da água encanada (o que é a todos os níveis louvável) a extensão destas serventias ao espaço público vai demorando. 

Em Lisboa, onde as pessoas preferem a água da torneira à engarrafada, é comum encontrar bebedouros públicos nas ruas e largos da cidade. Embora nãomais precisem de chafarizes, num largo da cidade do Porto encontrei um esguicho que tanto atende os que passam sedentos, como serve de memória colectiva, lembrando como a água chegava à comunidade antes de ser encanada para as residências.

Será que, por extensão, os angolanos negariam bicas nas ruas e largos das cidades e vilas?

Eventualmente alguém diga que a construção desses equipamentos enfrentaria o desafio da segurança, visto que cresce o vandalismo contra a coisa pública. Aqui, a solução é mesmo o uso de "mão de plumas e barrete de ferro" por parte da nossa polícia e dos órgãos de justiça. Automobilista que parta assentos públicos ou poste de iluminação deve repô-los, acrescido de multa exemplar, para além da responsabilização pelo acidente. Bandido que danifique ou roube bem público deve ser condenado à pena correcional e serviços comunitários. Quando isso acontecer, os bens e equipamentos públicos permanecerão perenemente e o seu usufruto alegrará gerações.
Já agora, que tal dos urinóis públicos que, sob gestão de jovens actualmente desempregados (através de parcerias-publico-privadas), podem conferir valor social, económico e ambiental às nossas vilas e cidades?
Penso que é chegado o tempo para voltarmos ao normal!
Publicado pelo Jor. Angola a 12.11.2023

domingo, outubro 22, 2023

HIKING A MOUNTAIN

Os 950 m de altura, em atalho íngreme do Kloof Corner (a caminho da Table Mountain), pareciam insuperáveis para um quase cinquentão, único entre uma vintena de jovens de vinte a trinta anos. Olhando para o desafio, escalar a montanha por um andarilho, o lado preguiçoso que, infelizmente, todos temos apelava à desistência. 

Sons estranhos vozeiravam em mim. "Kota, não vale apenas só. Vai p'ra casa, prepara tua prova e aprecia uma "kisângwa".

Procurei não ceder e o lado corajoso se sobrepôs, apelando-me ao foco no resultado e não no desafio. 

Quando, ofegante, a meio do percurso, sem saber se continuava ou desistia, com os vasos nasais a se mostrarem demasiadamente estreitos para levar aos pulmões a quantidade de ar que estes demandavam, abri a boca e levei-a mais próxima dos pulmões. Foi como se um veículo 4×4 tivesse ligado o turbo.

Não tardou. Os jovens que me achavam de velho passaram a perguntar-me um a um: "Kota, de onde provêm toda essa tua energia"?

A minha resposta foi curta e incisiva: Perante uma prova aparentemente difícil, foque-se no resultado e não no desafio!

Mais um vez, cansado, mas realizado, já no sopé e enquanto esperava pela chegada do Uber, encostei-me a um rochedo, tal qual George Washington, após a travessia do rio Mississipi, mas, não fazendo perguntas como ele, fiquei a pensar na (im)possibilidade de termos também andarilhos nas nossas serras e montanhas para "entreter" turistas e amealhar alguma pecúnia que muita falta nos faz. Vieram-me à cabeça todas as montanhas da minha infância e puberdade como o Morro do Moco, o Luvili, o Manyangwa (entre Muxixi e Lususu, cuja cordilheira se estende ao Kitumbulu), a Serra da Leba, a encosta do Cristo Rei (Lubango) a Tundavala, a Serra das Neves, o morro do Tongo, as montanhas do Kabutu (Kuteka ao Kikole), a Phaka (Kisongo), o Kalyematuji (Kalulu), o Lupange, o Morro do Xingo, as Serras da Kanda e Kusu e tantas outras elevações escaláveis.


domingo, outubro 15, 2023

NOTAS (AVULSAS) DE UM TURISTA-ESTUDANTE

Em formação em Sea Point, que quer dizer "em frente ao mar", o autor destas linhas foi percorrendo as ruas e os edifícios, contemplando-os e comparando o que tinha analogia com coisas conhecidas ou imaginadas. Sea Point é uma cidade (anexa a Cape Town) animada e próspera. Ao longo da costa, o Sea Point Promenade é um passeio popular para caminhadas. Existem vários bares de sushi, restaurantes de fast food e pizarias. Artesanato africano, café artesanal e música ao vivo são algumas das atrações do colorido Mojo Market, mas a curiosidade estendeu-se à Central City, como é também designada Cape Town, a pontos como:

Kirstenboch: é um jardim botânico, no centro de Cape Town. Aqui começou a colónia e a cidade. Depois de os holandeses terem aportado, começaram a fazer pequena agricultura e, depois, uma mais desenvolvida para se alimentarem, enquanto descansavam, e para abastecer outros navios que velejavam para as Índias Orientais e ou rumando de regresso à Europa.

Da alta e lisa montanha corria, mar abaixo, um rio de água doce e fresca que facilitava a horticultura e a criação de animais. Com certeza que já leu ou ouvir falar sobre os boers (fazendeiros holandeses que se instalaram no Cabo).

"Era preciso também curar os doentes que não continuavam as viagens por fadiga e outras comorbidades”.

No sopé do espilhaço, as videiras e o vinho juntaram-se às ervas alimentares, medicinais e especiarias.

Para além da água, na encosta da Table Moutain, os lenhadores aproveitaram a densidade da floresta para produzirem lenha e carvão que atendiam a "estação em terra" e os navios transoceânicos.

A cordilheira circundante está, porém, hoje, bastante arborizada com pinheiros e outras espécies, numa combinação entre árvores nativas e decorativas. Até animais selvagens (não violentos) voltaram e convivem com os humanos, numa impressionante harmonia.

Mas não são apenas rosas neste vergel. Há também loisas. Uma delas é a quantidade de mendigos e sem-abrigos que inundam o relvado, chegando a ser um "incómodo" aos turistas desacostumados com aquelas molduras de lazarones espalhados pelo Kirstenboch.

Até o pequeno esquilo apoquenta-se do massivo exército de homeless men, pois, se pensasse, optaria sempre pela melhor escolha entre a panela ou a grelha e as animadas brincadeiras num horto sem gatos e cães famintos.

Cansado, mas reconfortado, miro para a Geologia de Cape Town e a do Lubango que me parecem gêmeas, apesar de uma situar-se a um palmo do Atlântico e outra olhar distante o largo mar. Viro-me para as obras também e vejo um caminho longo pela frente que temos todos, corajosamente, de fazer.

Bo Kaap: bairro "nobre" de Cape Town que foi, no século XVIII, acampamento de escravos saídos da Ásia e alguns da África Oriental para a Colónia do Cabo. Embora não sejam todos ou maioritariamente malaios, o bairro é referenciado em algumas passagens literárias também como "Bairro dos malaios".

Dada a história que encerra, é hoje emblemático e digno de várias visitas de turistas, sendo um dos cartazes postais da Cidade de Cabo.

As casas, segundo o que vimos e a narração do guia turístico, são multicolores e pintadas duas a três vezes ao ano para manter o aspecto cromático exterior atraente.

"Passou de um acampamento de escravos para uma zona nobre", não sendo "qualquer um que consiga comprar casa em Bo Caap", explicou o guia.

A policromia, dizem os dados históricos recolhidos, surgiu com a libertação dos escravos que pintaram suas casas, mostrando sua nova condição de homens livres.

Dado que a religião maioritária era e é ainda a muçulmana, o bairro recebeu, no período do apartheid, vários muçulmanos não brancos de outros bairros. Foi excepção de não brancos mantidos na cidade.

Ainda no tempo da escravatura, conta-se, os escravagistas concediam o 1° de Janeiro de todos os anos como "free day" ou dia de festa para os moradores de Bo Kaap.

"O 1° de Janeiro era um dia em que os escravos e outros trabalhadores semi-livres festejavam, dançavam ao batuque, cantavam e comiam do que podiam. Até hoje, passadas varias gerações e l mais de um século desde a abolição da escravatura, o primeiro dia do ano, continua a ser festa em Bo Kaap", conta Jawaiya Cassiem, professora de inglês para estrangeiros em uma das bem cotadas escolas de Sea Point e declarada descendente de escravos "malaios".

Numa dada altura, o crescimento da população de Bo Kaap levou a expansão para outra localidade que se passou a chamar District Six. Este foi, infelizmente, demolido (com os haveres das populações dentro das habitações) pelo regime do apartheid, empurrando os mais de 90% de seus moradores negros para bairros longínquos de Cape Tow.

Há, porém, entre os homens que a história regista, alguns que o tempo reabilita. É o caso de Cecil Rhodes.

Quarenta e nove anos foi quanto viveu o explorador britânico, fundador da Rodésia do Sul (Zimbabué) e Rodésia do Norte (Zâmbia).

O homem foi ainda o mentor da ideia para construção de uma ferrovia que ligasse as cidades de Cabo e Cairo, sendo o carrasco do "Mapa Cor-de-Rosa" elaborado pelos "tugas" que pretendiam ligar as então colónias de Angola e Moçambique.

O guia turístico, que conduziu Mangodinho e colegas da "kabunga anglófona" a alguns pontos de referência histórica de Cape Town, explicou que “Cecil, é recordado como um visionário que fez de Cape Town o que é hoje".

Neto de emigrantes de Java e Reino Unido (avós maternos e paternos, respectivamente), o guia turístico foi mais profundo em dizer que "a colonização é, a todos os níveis, condenável, mas há obras, como a de Cecil, que se constituem em boas memórias".

Rhodes fundou também a diamantífera De Beers e foi Primeiro-ministro da Colónia do Cabo, de 1890 a 1896. Foi a seguir as suas peugadas que cheguei a Boschendal, num tour que nos levou à prova de vinhos sul-africanos. Foi-nos apresentada como "Cecil John Rodhes's Farm" ou seja, a fazenda da família do fundador da De Beers.

À exuberância verdejante e plana dos campos, no sopé, foi agregado o turismo agrovinícola. As "farm" também acolhem casamentos e outros eventos sumptuosos. Outra pequena nota é que, aqui, o negócio agrícola tem um percurso familiar.

Muitas propriedades passaram de mãos. Umas se juntaram a outras, alargando os hectares, e algumas foram vendidas a novos donos, mas os adquirentes são pessoas e organizações com tacto, conhecimento e tradição nesse segmento de negócio.

A propósito, ao longo do tour, vimos uma fazenda que apresentava terrenos vastos em repouso ou sem nunca receberem alguma semente e uma velha casa sem tecto e portas. Irónico, o jovem que ia comigo disse para mim:

_ Tio, essa fazenda deve ser de um político negro sul-africano.

Quando o questionei sobre a razão daquele pressentimento e observação, o jovem foi peremptório:

_ Faz-me lembrar as fazendas coloniais que foram estatizadas, entrando em desuso até se tornarem propriedade de ninguém. Quando veio a nova vaga dos políticos-fazendeiros, tomaram-nas como suas, sem nunca plantar sequer uma nova árvore. Simplesmente pintaram ou repararam algumas casas, as dos antigos donos fazendeiros, colocaram alguns cavalos e construíram piscinas para o deleite dos seus filhos e de suas concubinas.

Saídas de um jovem, menor de trinta anos, aquelas palavras secas e realísticas levaram-me a pensar no quanto devemos reflectir sobre a agricultura que (ainda não) temos, como fazer para que o nosso prato seja cada vez mais nacional e se agregue ao cultivo da terra, enquanto paixão e profissão, a componente turística.

_ Kenhê o mwangolé que tem a sua fazenda (herança familiar) bem arrumadinha e aberta a visitantes que debitam algumas moedas à entrada e/ou à saída?

Quanto à prova de vinhos, relatarei um dia.

Durante o dia, de vinícola em vinícola, mostrámos a nossa angolanidade e convicção ideológica, respeitando, obvio, a alheia e fazendo pontes. Afinal, somos poucos e cabemos todos no país que muito precisa de nossas ideias e labor.


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Texto publicado pelo Jor. Angola de 15.10.2023

segunda-feira, outubro 09, 2023

OS ÓCULOS DE MANDELA E OS MEUS

Embora sejam úteis ao meu trabalho, os meus óculos não têm história. Ganham, agora, a sorte de ter uma estória (escrita e publicada).

Usei uns sem graduação, quando era teeneger, abandonando-os na primeira esquina da juventude, quando o culturismo ocupava parte do pouco tempo livre. 

Depois, surgiu a necessidade ingente de renda e, de desempregado, passei a ter (quase) invariavelmente dois ou mais patrões.

A entrar para a fase adulta ou juventude plena (ainda), a exposição prolongada ao écrã do computador (deduzo) ter-me-á levado à primeira consulta de optometria e oftalmologia. Houve ainda um interregno, depois de quatro a cinco anos de uso de lentes correctivas. Porém, hoje, depois do telefone celular, os óculos são o meu segundo objecto de preocupação imediata e permanente.

Passemos a Madiba. 

Quem caminha à beira-mar, em Sea Point, Cape Town, verá, inocultável, um monumento réplica dos óculos do primeiro presidente negro da África do Sul. A caminhar pela baia, "Mandela's Glasses" é um ponto em que os turistas de várias origens (e até nacionais) procuram parar e fazer uma foto ímpar que serve de lembrança aos amigos (daqueles que fazem publicações nas redes sociais) e para marcar durante a vida toda a estadia em Sea Point e a passagem pelo local.

Cada detalhe, cada objecto da vida de um líder com a grandeza de Nelson Mandela ou Agostinho Neto pode ser transformado em motivo de atracção turística.

É sabido que os angolanos, representados pela Direcção do MPLA, negaram-se em receber os restos mortais do "guia imortal" sem os seus óculos, tendo, ao que se diz, a urna funerária voltada à União Soviética (Setembro de 1979) para a colocação dos óculos e permitir que o cadáver embalsamado fosse facilmente reconhecido como o de Agostinho Neto que sempre se apresentou em público com os seus pesados óculos.

Vejamos, por exemplo, como a China, noutra latitude, faz para fomentar o turismo interno, fazendo réplicas de monumentos de outros países.

Uma réplica da Torre Eiffel pode ser vista em Tianducheng, ao passo que Xangai tem cópias da Torre (inclinada) de Pisa e Thames Town. A Florentia Village pode ser visitada em Wuqing e Hallstatt, em Huizhou.

_ Podemos copiar o monumento com a réplica dos óculos de Mandela e termos também na nossa Marginal de Luanda um local com os "Óculos de Neto"?

Acredito piamente que é possível!

quarta-feira, outubro 04, 2023

CÁ&LÁ: ESTÁ DIFÍCIL

Os dados da edilidade de Lisboa apontam uma estimativa de 2 mil e trezentos homeless e ou acampados (em jardins).

Muitas entradas e saídas de comboio estão impedidas pelos "sem casa" que nelas se instalaram. 

Garagens, armazéns, varandas, esquinas, tudo serve para estender papelão ou colchão.

Pior: quem vive debaixo de ponte ou coisa parecida enfrenta enormes dificuldades para manter a higiene. Entre fazer-se lazarone ou procurar emprego, a primeira opção parece mais à mão. Porém, não colhe, como também já não há tantos dadores perante a quantidade infinita de mãos estendidas à caridade.

Entre os homeless constam imigrantes (legais e ilegais), refugiados (ucranianos, sírios e africanos) e tantos outros nacionais (perdidos na kangonya e kapuka) que se fazem passar por refugiados.

Se você quer emigrar, a decisão é sua. Saiba, porém, que: está mesmo duro!

Tal como cantou Dog Murras, "uns não voRtam é só vRegonha. Não têm nada fora!"

domingo, outubro 01, 2023

NÓS E AS PISCINAS


Nos anos 10 deste século XXI, conheci a Piscina de Saurimo, descrita em muitas crónicas do meu finado amigo Delfim Corral, um saurimuense que abandonou a terra por força das refregas pós-independência, mas que nunca alheou o seu inigualável amor à terra que o fez ser vivente, enquanto connosco respirou ar, nessa curta passagem à terra superficial. Os relatos de Delfim Corral foram tão nostálgicos e encantadores que me pus à "descoberta" da "bendita" piscina, antes mesmo do início da sua reparação, assumida financeiramente, ao que soube, por Catoca, no quadro da sua responsabilidade social. Chegou-me ao ouvido que, durante a elaboração do projecto ou sua execução, "terá havido um erro" na reabilitação e aquilo que se esperava ser "Piscina Olímpica de Saurimo" ficou (mais uma vez) pelo papel", dada a inadequação ao que os órgãos reitores da modalidade de natação exigem para a prática desportiva. 
A segunda visita que fiz às instalações, acompanhando uma equipa da Federação Angolana de Natação, que recomendou correcções sobre a profundidade e outros aspectos técnicos, encontrei um tanque (novamente) habitado por batráquios. Constou-me que ela chegou a ser (re)inaugurada, ainda ao tempo da governadora Cândida Narciso, mas nunca reaberta ao público. 
Há pessoas com muita sensibilidade, a quem doi ver piscinas 
abandonadas, sobretudo em zonas interiores sem mar e sem adequadas e confiáveis praias fluviais. 
O meu amigo Delfim deixou-nos sem receber notícias sobre a volta à serventia da piscina de sua infância. Os miúdos a quem esperávamos ensinar a nadar tornaram-se adultos e outra geração vai passar, desta vez, sem as praias fluviais do Rio Mwangeji e sem a esperada piscina.
Em Agosto2023, tive a sorte de adentrar o espaço que acolhe a antiga Piscina do Lubango (Nossa Senhora do Monte). Escrevo "antiga piscina", com todo o desdouro que isso me causa, dado o facto de "tanque sem água ser apenas uma construção e não, exactamente, uma piscina", como disse um septuagenário lubanguense, no auge da sua folga.
Calculo que, para além de a natação ser dos exercícios físicos mais completos e de lazer, os "mentecaptos" de então terão pensado na sua serventia, numa cidade interior, cujo clima e geologia se aproximam aos da Cidade do Cabo, mas com a desfeita divina de não ter mar à vista.
Sem o Atlântico por perto, sem rios com margens largas e enseadas, sem uma piscina que rivalize com as praias de água salgada, a vida do lubanguese de então teria, com certeza, tido menos qualidade e graça do que teve. 
Moçâmedes, no Atlântico, seria o destino sabatino e dominical de muitas famílias locais e turistas, em busca de água, sol e sal, enfrentando, semanas sim e semanas também, os perigos e agruras da serpenteante rodovia que separa as duas cidades do Sul de Angola.
Em assomo à minha vergonha, a piscina erguida em Nossa Senhora do Monte continuava mero tanque que se estende seco, roto e cabisbaixo aos sóis vezeiros, contrariando os desejos e carências de gente bastante. 
Enquanto ia pensando neste apontamento e a ver se encontro resposta à pergunta "que problemas temos contra a manutenção e construção de novas piscinas", eis que "caio" em  Sea Point, África do Sul, onde, por possuírem uma costa escarpada e pedregosa, os munícipes e turistas são bafejados com largas e limpas piscinas à beira-mar, logrando dois momentos, duas serventias, em um mesmo lazer: ficam os olhos satisfeitos, a mente oxigenada e sadia e o corpo são (mente sã corpo são).
Aqui chegado, e com o respeito devido aos que pensam nessas questões, tidas por alguns como "periféricas", sem que lhes cheguem as cabimentações, volto à indagação primária: que problemas, afinal, temos com a água e as piscinas que tanto precisamos e não as construímos ou reparamos?


Sea Point, 27.08.2023. 
Publicado pelo Jor. Angola a 10.09.23

sexta-feira, setembro 29, 2023

QUEM DISSE QUE HOMEM NÃO CHORA?

A fila não era longa. A manhã é que já  levava quilómetros de tempo perdido de forma inglória.  Esperar, em uma fila, sem saber, de certo, se o atendente vem ou não e se a que hora chega, é, deveras, uma seca. 
Chamados a provar o que os próprios  cientistas reconhecem "haver erros recorrentes em resultados apresentados", lá estavam líderes e liderados para o teste de despistagem ou confirmação do corona vírus. 
Uma dúzia e meia, entre falsos sorrisos e receio aparente. Todos apreensivos quanto ao método de exame a que seriam submetidos e  resultado que podia ser inesperado.
- Será?
- E se for?!
- Bem. Sandinga. Se for, que seja. Se não, for melhor! - Atirou Dois Tempos, um dos melhor graduados daquela esquadra.
Não demorou a chamada. Primeiro para o alistamento e, depois, para o tira teimas.
O exame consistia em fazer "endoscopia", sem gritar, nem lacrimejar.
- Está tudo bem, senhor? - Indagou a médica. 
- Está bem. Mas se lhe disser que está tudo bem estaria a mentir. É um desconforto esse tubo dentro de mim.
- Realmente. Mas isso passa. O mais importante é o resultado. Pode sair, sô tor 2 Tempos.
- Obrigado pelas palavras. Estou apenas a endireitar o rosto para não aparecer à frente da tropa com lagrimas visíveis.
- Ah! Um homem chefe tambem chora?!
- Deixa, Cda médica. Para mim, o choro são as palavras exteriorizadas. Sei guardar a angústia para o momento privado. 
E foi saindo e se endireitando ao encontro da "tropa" que aguardava por notícias, preferencialmente boas. O teste era inédito.
- Chefe, doeu?
- Não. Até dá prazer em bisar. É como amêndoa.

Lembram-se das vacinas em que davam amêndoas? Nada de medo. Está e vai estar tudo bem! - Concluiu 2 Tempos, fazendo a curva para apanhar a viatura que deixara desguarnecida na rua do Giraflor.

domingo, setembro 24, 2023

EXPERIÊNCIA DE SEA POINT NA FISCALIZAÇÃO DO ESTACIONAMENTO URBANO

Essas senhoras (na foto ) é que fiscalizam o "street parking" de Sea Point e Cape Town.

Munidas de equipamentos de facturação, chamada de polícias e outros, gerem os espaços demarcados para o estacionamento temporário, colectando para a edilidade e agindo contra os incumpridores (resulta em outras colectas).

Aqui, os espaços para o estacionamento nas ruas da cidade não são dos jovens preguiçosos e viciados como em Luanda. São da edilidade que buscou uma parceria público-privada (ppp) para a sua gestão.

Ao fim do dia, os gestores dos espaços para estacionamento urbano dirigem-se, como a imagem mostra, ao "post-office" onde fazem as contas. 

Dá prazer vê-las a entrarem, depois de contas feitas, em lojas ou "street market" para pegarem o jantar e suprir outras necessidades caseiras.

Em 2020, eu havia feito uma reportagem ao meu Cda. de feliz memória Sérgio Rescova, enquanto governador de Luanda. Pareceu ter acolhido os dados que lhe passei, mas não demorou e foi enviado ao Uige, perecendo tempo depois.

Num curso sobre Economia Moderna, ENNAP 2020-2021, apresentei o assunto como meu "paper" reflexivo (espécie de monografia), tendo merecido um efusivo acolhimento do professor que recomendou "elevá-lo a artigo científico e ou materializar a experiência em Luanda".

Espero que o meu Cda Manuel Homem leia e mande uns olheiros aqui. Estamos prontos para contribuir.

terça-feira, setembro 19, 2023

NEM TUDO O MAR ACEITA

Apesar de largo, profundo e acolhedor, todo o mar também sabe defender-se e rejeitar as imposições. 

Os sul-africanos de Cape Town não depositam descartados na praia (escarpada e pedregosa) de Sea Point. É o próprio mar que devolve à terra as algas e raízes que suas ondas arrancam das encostas. 

Quanto a nós, Angola, que fazemos do mar "depósito" de lixo variado, a nossa paga pode estar por vir!


Por outro lado, há, aqui, um vento forte que encurva as árvores na marginal.

Sem detritos jogados pelo bicho-homem, as praias são pedregosas e impróprias ao mergulho, adicionando-se-lhe algas e raízes arrancadas de mangais de ilhas próximas.

_ Deus é bom em dar, quando quer, figos a quem não tem dentes ou impedir que dentes cariados enfrentem ossos duros de roer.

sexta-feira, setembro 15, 2023

ODJOVE vs MULONDOLO

A ilustração à volta do produto "licoroso", feito à base da fruta de (a)marula, a tal que "embebeda" elefantes, tem a ver com uma embala que, não é mais do que uma aldeola familiar. 


Na Fmca2023, à garrafa contendo odjove foi apensado um mapa contendo diversas construções como: a casa particular do patriarca, a zona de recepções, as inúmeras casas de esposas (com e sem filhos) as casas dos filhos e filhas (ainda solteiros) etc.

E dizia o marketeiro:

_ O sekulu, depois de beber odjove, percorre (em acto fecundativo) todas as casas das esposas, voltando leve e cansado em sua casa particular no dia seguinte.

Mais disse ainda que "no período da colheita da fruta,  tendo em conta as suas propriedades afrodisíacas, os régulos atenuam as sentenças de casos de adultérios que acontecem com frequência,  devido ao consumo do odjove".

Enquanto o odjove é kunenense, no kwanza-sul as raízes que dizem "dar sucesso" e "criar amizade entre genros e sogras" são as de mulondolo. Também já vi e provei o dito liquor de mulondolo.

Contam os nativos do Lubolu e Kibala que "quem usa mulondolo (as folhas são refogáveis e as raízes 'tira-teima') tem a mulher a falar constantemente bem dele junto da mãe".

Não é descrito, do ponto de vista de marketing, como o odjove dos kunenenses, mas dizem "dar uma resistência inimaginável que deixa abaixo do chinelo o famigerado pau-de-kabinda ou o longeso do Wambu".

Em quem acreditar e em que confiar?

sexta-feira, setembro 08, 2023

ENTRE PORT'AMBOIM E LONGA

 

Depois do Porto Amboim, a caminho do Rio Longa (EN100), há uma aldeia em que vendem mudas de plantas frutícolas e peixe seco do mar.

Parei para atender ao pedido da mulher que encomendara peixe. Durante a barganha mantida entre o cliente e a vendedora ficou uma promessa não vinculativa, mas que era preciso procurar honrar de alguma forma. Ela pedira saldo de Kz 500 para compensar o desconto feito de Kz 27 mil para os Kz 20 mil que eu tinha disponíveis.
Vasculhados os bolsos e a viatura, inexistindo mais dinheiro, procurei por algo de valor simbólico para oferecer à senhora, mas também não encontrava.
É que me deparo, depois, com uma t-shirt nova do MPLA na minha mochila de campo que fica permanentemente na viatura.
Para confirmar se podia oferecê-la sem ferir susceptibilidades, indaguei:
_ Aqui nessa aldeia de que partido são?
_ A maioria como eu somos do MPLA. O bocado que resta são daquele partido aí.
A senhora não pronunciou o nome. Apenas apontou para uma bandeira que esvoaçava rota como cuecas de uma dilaji.
Compreendi e dei-lhe a t-shirt com muito gosto.
_ Muito obrigado, camarada cliente! _ Agradeceu a senhora a quem respondi com um leve sorriso.
_ Fi-lo com prazer, minha camarada!

sexta-feira, setembro 01, 2023

ESTÓRIAS LUBOLENSES (II)

1-Estrada Munenga-Kalulu: concebida como rodovia de terceira classe (intermunicipal) viu-se forçada a receber todo o tráfego rodoviário da EN120, quando se reparou o troço Desvio da Munenga-Lususu. Como consequência, ficou "gravemente maltratada" e demanda profunda reparação.

2- Rodovia Kalulu-Lwati-Kibala: Ainda em terra batida, recebeu o tráfego da EN120 (Lwanda-Wambu), desviado da Munenga. Como era de esperar, o solo ficou moído e a poeira impera. Quando a ela se junta o nevoeiro kasimbático, todo o cuidado é pouco. Ao tempo em que HC era Ministro das obras públicas estava no plano das que deviam deixar de ser estradas de terra batida. Porém, iniciada a asfaltagem da Kibala à Ponte (Leste) sobre o Longa, nunca o asfalto chegou a Kalulu, aguardando nova oportunidade que pode ser realidade, visto que a empreitada foi já adjudicada.
3- Troço asfaltado, entre o Rio Longa e Lwati, em território Lubolense. Nesse período seco, quando não é a poeira que incomoda, são as queimadas desordenadas que ameaçam a integridade do automobilista.
4- Uma Classe ou Centro de Pregação Metodista numa aldeia entre o Longa e Lwati. A chama do metodismo mantém-se acesa no Lubolu, contrariando os homens do "roteiro metodista que omite as estações da Margem Sul do Kwanza". A Missão de Mbang'wanga foi fulcral na expansão do metodismo para Kyenya, Kisongo, Kalulu e Munenga.
5- Kabuta, comuna do Lubolu que se liga a São Pedro da Kilemba reclama pela reposição da "Estrada Nacional" que corta Kalulu, passando pela Ponte Filomeno da Câmara. Sem a reposição dessa importante rodovia, Kalulu será sempre um "matuku" (esconderijo/enclave) aonde só vai quem tiver de visitar parentes, negócios ou em missão de serviço. Repondo a Estrada Nacional Kilemba-Kabuta-Kalulu-Kibala, encurtar-se-á a distância entre o Leste e Norte em relação ao Centro e Sul do país, conferindo maior movimento e vida a Kalulu.

Confira fotos em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid0NfmcZJ1ykXfq2QAxsRuCdUd6CnYZF1vPsxWeGGL7PTDRLo6b7xHSZYsgcZdHBSkal&id=100001342406431&mibextid=Nif5oz