Translate (tradução)

quarta-feira, julho 22, 2026

DIZIMUNIVERSALISTA: ENTRE FÉ E RUÍNA

Era fim de tarde no bairro Kaputu. O sol, cansado, tingia de vermelho as paredes descascadas das casas. O cheiro de peixe seco misturava‑se ao pó levantado pelas crianças que corriam atrás de uma bola improvisada.
Num banco de madeira, sob a sombra de uma mangueira envelhecida, Phande e Kitembo conversavam. O ambiente era simples, mas carregado de reflexão.
De não muito distante, chegava-lhes o murmúrio das vizinhas lavando roupa no tanque, o som distante de um rádio a tocar semba e o vento leve que trazia consigo o cheiro do mar.
Kitembo, com o olhar curioso, abriu a conversa:
— Phande, sempre me pergunto sobre o dízimo que as igrejas insistem em pedir nas pregações. Até parece exigência, quando devia ser voluntário. Os cristãos falam em dar dez por cento dos rendimentos, como está escrito em Levítico e Malaquias. No Islão, há o zakat, que é 2,5% da riqueza líquida, destinado aos pobres e endividados. Mas afinal, qual é a finalidade verdadeira destas práticas que vemos hoje em dia?
Phande ajeitou o chapéu de palha e respondeu com calma:
— No princípio, meu irmão, tanto o dízimo como o zakat nasceram como gestos de solidariedade. Eram formas de manter a comunidade viva, de partilhar o pouco que se tinha. Mas hoje, muitas igrejas da prosperidade transformaram o dízimo em contrato financeiro. A fé virou percentagem e o crente pobre é explorado em nome da esperança.
Kitembo franziu o cenho, pensativo:
— Então já não é só espiritualidade. É negócio...
Phande suspirou e contou a história de João Kambundu, trabalhador do Porto Pesqueiro:
— João recebe Kz 750.000. Logo entrega Kz 75.000 à igreja. Fica com Kz 625.000, dos quais dá Kz 400.000 à esposa e distribui mesadas de Kz 15.000 a cada um dos três filhos. Mas a roda do dízimo não pára: a esposa retira Kz 40.000 e os filhos, obedientes, entregam Kz 1.500 cada. No fim, a família inteira descontou Kz 119.500 do salário. O que poderia servir para comida, escola ou remédio vai parar nos cofres da igreja e no bolso do pastor.
Kitembo abanou a cabeça, indignado:
— E o pastor, o que faz com tanto dinheiro?
Phande olhou para o horizonte e disse com ironia:
— O gajo do pastor Kabwiza está a engordar com o dinheiro dos dízimos dos pobres que apresentam esqueleto sem carne. Enquanto as famílias se tornam frágeis, ele e o templo se fortalecem.
O silêncio tomou conta por alguns instantes. O vento balançava as folhas da mangueira, como se também refletisse sobre a conversa. Kitembo murmurou:
— A fé não deveria ser confundida com contabilidade.
Phande completou:
— Exacto. O dízimo, quando praticado com consciência, pode ser gesto de partilha. Mas, quando se torna obrigação cega e exploratória, arruína lares e fortalece apenas os pastores das promessas terrenas. João e sua família são apenas um retrato de milhares de lares angolanos. O que se entrega às igrejas não volta em prosperidade, mas em discursos repetidos e promessas adiadas.

O sol desaparecia atrás das casas e a noite começava a cobrir o bairro. Phande e Kitembo levantaram‑se do banco, caminhando devagar pela rua poeirenta. A conversa ficava no ar, como aviso: o dízimo encapuzado pela ganância é caminho de empobrecimento e só a consciência crítica pode salvar a fé da ruína.

domingo, julho 19, 2026

A ESTRADA E OS BURACOS ÓRFÃOS

(Crónica de viagem)


Viajar pela EN322, entre Kakuzu e Alto Dondo (Malanji e Kwanza-Norte), é experimentar um contraste permanente entre o conforto e a apreensão. O asfalto, em largos troços, apresenta-se em bom estado e convida o condutor a manter uma velocidade compatível com a qualidade da via. É precisamente aí que reside o perigo: quando a confiança se instala, surgem, quase do nada, buracos dispersos, sem qualquer sinalização prévia e sem vestígios de reparação.
São verdadeiras armadilhas. Não aparecem porque o motorista conduza mal. Aparecem porque alguém deixou de cumprir o dever de os eliminar ou, pelo menos, de os assinalar.
Num pequeno aglomerado populacional, reduzi a velocidade para deixar passar alguns peões que saiam das lavras. Um idoso, sentado à sombra de uma mangueira, abanou a cabeça e comentou:
— Tenha cuidado, meu filho. Esses buracos aparecem quando a pessoa já pensa que a estrada está boa. Já vimos pneus a rebentar, viaturas danificadas e acidentes por causa deles.
A frase ficou a ecoar nos meus ouvidos ao longo da viagem. De facto, os buracos parecem surgir de surpresa, como se estivessem à espera do momento em que o condutor relaxa. E basta uma fracção de segundo para um desvio brusco provocar uma colisão ou um despiste.
Ao mesmo tempo, a paisagem oferece um sinal encorajador. A electricidade chegou a muitas aldeias que ladeiam a chamada "Estrada de Kapanda". À medida que a noite se aproximava, pequenas luzes começavam a desenhar o contorno das povoações, revelando casas iluminadas, pequenos estabelecimentos comerciais em funcionamento e crianças a brincar junto às residências.
Junto a uma cantina, um jovem sorria enquanto observava as lâmpadas acesas.
— Antes, quando escurecia, a aldeia morria. Agora há vida até mais tarde. Os miúdos revisam, as pessoas trabalham e já não temos medo da escuridão.
É impossível não reconhecer o alcance dessa transformação. A energia eléctrica leva desenvolvimento, cria oportunidades e devolve dignidade às comunidades. No entanto, esse mesmo progresso perde parte do seu brilho quando a estrada que o acompanha continua a esconder perigos evitáveis.
As perguntas, então, sucedem-se naturalmente:
Quem identifica aqueles buracos?
Quem decide quando devem ser reparados? Quem responde pela ausência de sinalização? E quando ocorre um acidente, será suficiente atribuir toda a responsabilidade ao automobilista, invocando excesso de velocidade, sonolência ou embriaguez, sem considerar que a própria via pode ter contribuído decisivamente para o desfecho?
Mais adiante, noite feita, já na EN120, entre Alto Dondo e Munenga, outra imagem reforçou essas inquietações. O parapeito de uma ponte estava destruído, aparentemente arrancado pelo impacto de uma viatura. Restavam apenas as marcas da violência da colisão e uma sensação de abandono.
Um camionista, que também havia parado para observar o local, comentou:
— Quem bate devia pagar. Hoje falta um pedaço da ponte; amanhã pode faltar uma vida. O acidente passa, mas o prejuízo fica para todos.
A observação era tão simples quanto certeira. Afinal, quem repara os danos causados ao património público? Existe um mecanismo eficaz para responsabilizar quem destrói equipamentos do Estado? Ou os estragos permanecem anos à espera de uma reparação que nunca chega, enquanto o risco aumenta para os utilizadores da via?
Infelizmente, esta cultura de abandono não se limita às estradas nacionais. Nas cidades multiplicam-se postes de iluminação tombados, bancos de jardins arrancados, passeios degradados, fontanários secos ou partidos e inúmeros outros equipamentos públicos que parecem condenados ao esquecimento. O dano torna-se paisagem; a ausência de reparação transforma-se em rotina; e a falta de responsabilização alimenta novos actos de vandalismo e de negligência.
Uma estrada não é apenas uma faixa de asfalto. É um património colectivo que exige manutenção permanente, fiscalização rigorosa e responsabilização efectiva. Cada buraco ignorado representa um risco. Cada grade de ponte destruída e não substituída é um convite ao próximo acidente. Cada equipamento público abandonado transmite a perigosa mensagem de que aquilo que pertence a todos acaba por não pertencer a ninguém.
No fim da viagem ficou-me uma convicção incômoda: as estradas não podem continuar sem dono. Porque, enquanto os buracos permanecerem órfãos e os prejuízos ao bem público ficarem sem responsáveis, serão os condutores, os passageiros e o próprio Estado a pagar, todos os dias, uma factura que poderia ser evitada.

quarta-feira, julho 15, 2026

QUEM É O MALUCO?

Quinze de Junho de 2026_ Circulava na Rua Ngola Kilwanji, próximo da Mabor. Um passageiro de um SUV baixou o vidro e lançou pela rua um saco com restos de comida. Parei, liguei o intermitente, apanhei o lixo e fui devolver ao condutor do veículo:

— Leve o vosso lixo a um sítio adequado para descarte, disse-lhe com firmeza.

O homem ficou petrificado e repassou o lixo ao "suíno" que se encontrava no banco de trás.

Pedi desculpas aos condutores que vinham atrás de mim e segui viagem. Uns aplaudiram, outros acharam-me “maluco”. Mas quando os valores estão invertidos, ser chamado de maluco é, na verdade, sinal de consciência.

Mais tarde, ao recordar no Facebook o meu pequeno canteiro em Kalulu, lavra anexa à da cunhada Angelina, os sobrinhos informaram-me:

— Tio, a mamã está em Luanda.

Ela tinha viajado do Dondo, onde mora, para visitar os filhos. Aproveitei a ocasião para ir vê-la.

— Cunhada Angelina, precisava de reconhecer presencialmente o quanto foste mãe na minha vida.

Ela sorriu, com a serenidade dos seus 64 anos:

— Meu cunhado, nunca foste chato. Foste apenas alguém que precisava de cuidado, e eu dei o que pude.

Angelina Bernardo Canoa, ex-esposa do meu primo “mano Gonçalves”, cuidou de mim entre 1987 e 1989 com amor e paciência, mesmo em tempos de carência. Hoje, continua a mesma mãe de sempre. 

Foi um dia em que fiz duas devoluções: o lixo na estrada e a manifestação de gratidão à família que me sustentou com amor e carinho.

quinta-feira, julho 09, 2026

UTILIDADE COLATERAL DE UM BUSINESS CARD

O business card, tradicionalmente designado cartão de visita, é um pequeno cartão que reúne os principais elementos de identificação profissional de uma pessoa. Inclui, entre outros:

Nome completo;
Função ou cargo;
Instituição de exercício;
Contactos telefónicos e electrónicos;
Elementos distintivos, como o logótipo institucional.

É, por natureza, um instrumento de identificação, representação e comunicação profissional.

Embora o uso mais comum seja o estabelecimento de contactos profissionais (networking), o cartão de visita cumpre outras funções importantes:
Permite que o titular seja imediatamente reconhecido, reforçando a credibilidade e a representação da instituição.
Serve como referência de contacto rápida, simples e acessível para parceiros, instituições, imprensa e demais interlocutores.
Funciona como um registo físico que permanece com quem o recebe e pode ser consultado posteriormente, facilitando futuras aproximações.
De forma inesperada, mas recorrente, cartões de visita guardados em carteiras ou pastas perdidas tornam‑se pistas essenciais para identificar ou contactar o proprietário.

Casos Reais do Business Card como ponte de recuperação
O amigo Malelo perdeu a carteira num táxi. Entre os documentos encontrava‑se um cartão de visita de Luciano Canhanga. Esse pequeno cartão tornou‑se a única referência de contacto para a pessoa que encontrou a carteira, permitindo‑lhe estabelecer ligação e, a partir daí, devolver os documentos ao verdadeiro dono.

No mercado do Km 30, em Icolo e Bengo, Anselmo perdeu uma carteira contendo o Bilhete de Identidade, a carta de condução e vários outros documentos pessoais. Dentro dela havia um cartão de visita de Luciano Canhanga que, novamente, serviu como elo indirecto, permitindo que o achador estabelecesse contacto e viabilizasse a devolução.

Uma jornalista da ANGOP, residente e trabalhadora no Namibe, esqueceu, em um restaurante de Luanda, a sua carteira contendo documentos pessoais, cartões de serviço e o Bilhete de Identidade. No seu interior estava um cartão de visita de Luciano Canhanga, que serviu de ponte imediata:
A pessoa que encontrou a carteira ligou para o contacto constante no cartão. Informado, Luciano Canhanga activou a rede de jornalistas da ANGOP em Luanda. Através dessa articulação, identificou‑se que a proprietária era profissional da Agência no Namibe. As duas mulheres foram colocadas em contacto, permitindo a devolução e restituindo tranquilidade e dignidade à proprietária.

Reflexão final
O cartão de visita é, antes de tudo, um instrumento profissional destinado a facilitar contactos e representar o seu titular. Contudo, os três casos relatados demonstram que ele pode assumir um papel socialmente relevante, funcionando como um elo humano em momentos de perda, ansiedade e vulnerabilidade.

Num tempo em que a comunicação se digitaliza rapidamente, o business card preserva um valor singular: é um objecto físico que viaja, permanece e fala por nós, mesmo na nossa ausência. Pode criar pontes inesperadas, recuperar documentos, restituir identidades e reforçar a confiança entre cidadãos.
Um cartão de visita não serve apenas para abrir portas profissionais. Pode, em circunstâncias específicas, repor ordem, devolver pertenças e restaurar o sorriso de alguém.

sexta-feira, julho 03, 2026

MAN-PÁSCOA: O KOTA QUE TROUXE RESPETO À RUA DA AMBACA

Nos anos 80, na Rua da Ambaca, Kaputu (Rangel), os bilos eram mais do que simples brigas de miúdos: eram rituais de afirmação, de hegemonia entre grupos e quarteirões. Os líderes não pelejavam todos os dias; bastava medir forças uma vez. O perdedor reconhecia o vencedor e reverenciava-o. Em caso de empate, surgia o kisoko — meio termo que selava a paz entre iguais.

Naquele tempo, figuras como Raimundo (o kota Ténis), Tomás e Paulito eram respeitados, mas não se envolviam tanto nas pelejas quanto o recém-chegado Man-Páscoa.
— “Olha, o Man-Páscoa chegou!” — murmuravam os rapazes na fila do pão do depósito do Kilwanje.
— “Esse é tejo, não faz nada” — provocava um zombador do grupo do Kilwanje.
Man-Páscoa, inicialmente catalogado como “fakiri”, suportou provocações até ao limite. Um dia, cansado das zombarias, respondeu com firmeza:
— “Respeito não se pede, conquista-se!” — e desferiu uma bofetada forte e certeira. O adversário, humilhado, no dia seguinte ainda sofria as consequências.
A notícia correu rápido. O temido Man-Domingo, líder do grupo rival, apareceu para defender o seu pupilo. O bilo, junto ao depósito de pão do Kilwanje, foi intenso:
— “Aqui mando eu!” — gritou Man-Domingo.
— “Hoje não. Hoje somos taco-a-taco!” — respondeu Man-Páscoa, firme.
A luta entre Man-Páscoa e Man-Domingo só não terminou em humilhação ao homem do Kilwanje porque os homens da ODP presentes intervieram rápido, quando o viram numa apertada kapanga. Mas o recado estava dado: Man-Páscoa não era qualquer um. Daquele dia em diante, ele e os seus pupilos passaram a ser respeitados na fila do pão.
Quando os “maiorais” não entravam em cena, a defesa do grupo da Rua da Ambaca ficava a cargo de Raimundo (Ténis), Malick (Ngonçalo) e de mim que tinha testado vitoriosamente em Zé Kandungu, do grupo do Kilwanje. Os demais estavam sob nossa jurisdição.
— “Se mexerem com vocês, chamem-nos. Nós seguramos a barra.” — dizia Raimundo, reforçando a coesão do grupo.
— “Aqui ninguém fica sem pão, nem sem respeito.” — completava Malick.
A chegada de Man-Páscoa foi um marco. Ele trouxe segurança, respeito e equilíbrio às disputas entre os grupos da Rua da Ambaca e do Kilwanje. Mais do que um líder de pelejas, tornou-se símbolo de coragem e de justiça entre as crianças e adolescentes do bairro.
O seu legado mostra que, mesmo nos bilos da infância, havia códigos de honra, diálogos de rixa e de paz e, sobretudo, a busca por reconhecimento. Man-Páscoa personificou essa busca, transformando-se em referência para todos nós. Retornou ao seu Kalulu, dedicando-se humildemente à agricultura.

=
Imagem gerada por IA

quinta-feira, julho 02, 2026

A CASA QUE DESABA

Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.

Do campo da Angola profunda, guardo vivas as lembranças das casas de pau‑a‑pique ou de adobes, erguidas com um espeto vertical que sustentava o colmo feito de capim. Com o passar do tempo, e quando a manutenção falhava, o espeto cedia, o tecto ruía e, assim, a pobre casa perdia a sua “vida”.
Mais tarde, já adolescente e jovem, ao percorrer os longos caminhos de Angola, deparei‑me com outro cenário semelhante: as infra-estruturas habitacionais deixadas pela presença colonial. Com o abandono e ou ausência de manutenção, começava o processo de desventramento: primeiro desaparecia a janela, depois a porta; mais tarde, o barrote que segurava as telhas. A cobertura caía, e as intempéries encarregavam‑se de acelerar a degradação, fazendo crescer vegetação no interior e levando ao desmoronar das paredes.
É o mesmo que acontece num lar quando parte o marido. A casa sofre um abalo. Ficam a viúva e os filhos, tentando remendar ou manter o que é possível, mas a harmonia funcional já não é a mesma. A peça fundamental, o espeto da casa, deixou de existir. E quando a viúva o acompanha, é como se a casa desabasse por completo.
Nesta quarta‑feira, 1 de Julho, perdemos Carla Toala João, viúva do meu finado tio Augusto João “Gasolina”. Era uma tia‑amiga. A nossa relação manteve‑se forte e inquebrantável, mesmo depois de o espeto se ter partido. Hoje, sinto como se a casa tivesse finalmente desabado. Transita em paz, tia Caita!

quarta-feira, julho 01, 2026

DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS

Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.  

O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.  

Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.  

A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.  

— We want eat, disse-lhe impaciente.  

O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.  

— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.  

Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!  

Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.  

O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”.  Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.  

Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.


Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026