Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.
Do campo da Angola profunda, guardo vivas as lembranças das casas de pau‑a‑pique ou de adobes, erguidas com um espeto vertical que sustentava o colmo feito de capim. Com o passar do tempo, e quando a manutenção falhava, o espeto cedia, o tecto ruía e, assim, a pobre casa perdia a sua “vida”.
Mais tarde, já adolescente e jovem, ao percorrer os longos caminhos de Angola, deparei‑me com outro cenário semelhante: as infra-estruturas habitacionais deixadas pela presença colonial. Com o abandono e ou ausência de manutenção, começava o processo de desventramento: primeiro desaparecia a janela, depois a porta; mais tarde, o barrote que segurava as telhas. A cobertura caía, e as intempéries encarregavam‑se de acelerar a degradação, fazendo crescer vegetação no interior e levando ao desmoronar das paredes.
É o mesmo que acontece num lar quando parte o marido. A casa sofre um abalo. Ficam a viúva e os filhos, tentando remendar ou manter o que é possível, mas a harmonia funcional já não é a mesma. A peça fundamental, o espeto da casa, deixou de existir. E quando a viúva o acompanha, é como se a casa desabasse por completo.
Nesta quarta‑feira, 1 de Julho, perdemos Carla Toala João, viúva do meu finado tio Augusto João “Gasolina”. Era uma tia‑amiga. A nossa relação manteve‑se forte e inquebrantável, mesmo depois de o espeto se ter partido. Hoje, sinto como se a casa tivesse finalmente desabado. Transita em paz, tia Caita!

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