[Crónica de uma terceira passagem pela capital europeia]
Acordei. A coluna ainda não se refez completamente, mas a cabeça já não dói. E talvez seja justamente por estar ainda entre o sono e a vigília que consigo escutar melhor uma coisa que, em Luanda, quase nunca se escuta: o silêncio.
Se há algo que "inquieta" em Bruxelas é a paz, para quem vive numa espécie de guerra social permanente.
Aqui não se ouvem passarinhos a chilrear. Não há motoristas enfurecidos a buzinar desesperadamente. Não se ouvem sons soltos ao vento, vindos de uma festa qualquer, próxima ou distante. Não há galos a cantar, galinhas a cacarejar, cães a ladrar ou gatos noctívagos a miar.
Há um silêncio quase absoluto.
E esse silêncio contrasta violentamente com a nossa realidade diária e vezeira.
Em certas zonas suburbanas de Luanda, o dia parece nascer já em estado de discussão. A cidade acorda aos gritos. Buzina-se para avançar, para parar, para reclamar, para anunciar a presença. A rua é estrada, mercado, sala de conversa, oficina, paragem, restaurante improvisado e, por vezes, extensão da própria casa.
Não é apenas desordem. É uma maneira de produzir a cidade.
Joana Venâncio, ao estudar o processo urbano de Luanda, chama a atenção para o facto de a cidade não poder ser compreendida apenas pela oposição entre o formal e o informal. A informalidade, escreve a investigadora, tornou-se parte do próprio processo de construção urbana.
Talvez seja isso que explica aquilo que, visto daqui, parece excesso.
Excesso de vozes. Excesso de buzinas. Excesso de mercadoria. Excesso de gente. Excesso de movimento.
Em Luanda, a cidade não espera que o espaço seja preparado para ser ocupado. O cidadão ocupa-o primeiro e adapta-o depois.
É a lógica da sobrevivência.
É também a lógica de uma economia que aprendeu a funcionar onde o Estado, o planeamento urbano ou a infraestrutura formal ainda não chegaram.
Os kandongueiros são um exemplo. Castro, Reschilian e Zanetti observam que o transporte informal não é apenas um sinal de “desordem”, mas um dos mecanismos fundamentais da mobilidade e da expansão metropolitana de Luanda.
E há as zungueiras. Há os vendedores de rua. Há as bancadas que nascem junto aos passeios. Há a mercadoria que sai da loja para a calçada. Há a casa que se transforma em pequeno comércio.
Há uma cidade que se reinventa todos os dias.
Em Bruxelas, a sensação é outra.
A cidade parece desenhada a régua e esquadro, embora não seja exactamente assim. Há ruas antigas, estreitas, sinuosas; há bairros que nasceram em épocas diferentes; há igrejas que parecem marcar o início e/ou o fim de determinadas ruas. Há uma história urbana feita de camadas.
Mas existe uma coisa que se sente imediatamente: a norma.
Ela está no passeio. No estacionamento. No trânsito. Na fachada. Na obra. Na publicidade. Na utilização do espaço público.
A própria cidade estabelece planos e regulamentos urbanísticos vinculativos. E, na zona da Grand-Place, classificada pela UNESCO, existem regras específicas destinadas a conciliar conservação patrimonial, turismo, comércio e habitação.
Não significa que tudo seja perfeito.
O trânsito pode ser lento. As ruas podem estar congestionadas. Há obras. Há mudanças. Há conflitos entre automóveis, bicicletas, transportes públicos e peões.
Mas sente-se uma diferença fundamental: a cidade parece saber que existem regras e, sobretudo, parece esperar que elas sejam cumpridas.
Isso produz uma outra estética urbana.
Menos improvisação. Mais previsibilidade.
Menos grito. Mais contenção.
Menos ocupação espontânea. Mais negociação com a regra.
E depois há Matongé.
Ah, Matongé!
Ali a África reaparece.
Não exactamente a África que deixámos, mas uma África transportada, reorganizada e domesticada pela cidade europeia.
É como se alguém tivesse trazido pedaços de Kinshasa, Dakar, Luwanda, Brazzaville, Lagos e de tantos outros lugares, colocado tudo dentro de uma moldura belga e dito: podem viver aqui, mas dentro das regras daqui.
A descrição oficial de Visit Brussels é curiosamente poética: a Chaussée de Wavre é apresentada como a “artéria principal”, as galerias de Ixelles e da Porte de Namur como os “pulmões”, e as ruas circundantes como “vasos sanguíneos”.
E é precisamente essa a sensação.
Matongé respira.
Ali há cabeleireiros, cosméticos, restaurantes africanos, cafés, agências de viagens, transferências de dinheiro, igrejas, frutas tropicais e lojas onde a mercadoria parece querer escapar da montra para a rua.
É uma pequena África dentro de Bruxelas.
Uma África que fala mais alto.
Uma África que gesticula mais.
Uma África que vende, compra, regateia, cumprimenta, discute e ri.
Mas existe uma diferença fundamental.
Aquele mundo que, em determinados bairros de Luwanda, pode espalhar-se pela cidade inteira, aqui encontra um território relativamente delimitado.
A desordem — se quisermos chamar-lhe assim — tem endereço.
E talvez seja essa uma das grandes lições de Matongé: a cidade europeia não elimina necessariamente a diferença; organiza-a.
Depois, basta caminhar alguns minutos e a paisagem muda.
O centro de Bruxelas recebe-nos com outra linguagem.
As fachadas antigas, as lojas, os restaurantes, as cervejarias, os hotéis, os centros comerciais, as lojas disto e daquilo — até de produtos que, em Luwanda, reconheceríamos como "mayuya" ou mercadoria de consumo popular — funcionam dentro de uma engrenagem comercial rigorosa.
A “marginal do comércio” apresenta-se como um formigueiro humano.
Gente de várias origens e com vários destinos.
Gente que parece ter decidido que o melhor lugar para estar não é necessariamente o fogão de casa nem a sala fria e silenciosa.
Está na rua.
Na loja.
No bar.
No restaurante.
No café.
No casino.
No centro comercial.
Na calçada.
Há uma espécie de felicidade comercial.
A cidade consome, mas também oferece espaço para que o consumo seja uma forma de convivência.
E, curiosamente, há muito movimento sem haver necessariamente barulho, nem sujeira.
É talvez essa a grande diferença.
Há vida sem algazarra.
Há multidão sem tumulto.
Há comércio sem gritaria.
Há trânsito sem guerra e há higiene por todo o lado.
Esta é a minha terceira passagem por Bruxelas em 26 anos.
A primeira aconteceu em 2000. Vim em formação sobre as relações entre a União Europeia e os países ACP — África, Caraíbas e Pacífico. Foi uma passagem essencialmente institucional. Entre salas de formação, documentos e reuniões, houve também a oportunidade de chegar à sede da Comissão Europeia.
A segunda aconteceu duas décadas depois, em 2022, portanto 22 anos depois da primeira. Foi uma passagem especialmente ligada ao percurso de Angola na Iniciativa de Transparência nas Indústrias Extractivas, a ITIE.
Em Setembro de 2020, Angola formalizou a intenção de aderir à ITIE. Em Março de 2022 apresentou formalmente a candidatura. E foi em 16 de Junho de 2022, numa reunião do Conselho de Administração da ITIE realizada em Bruxelas, que Angola foi admitida como país implementador da iniciativa, tornando-se o 57.º país da ITIE e o 28.º de África.
Ou seja, aquela "segunda Bruxelas" não foi apenas uma passagem pela cidade.
Foi também um momento na história recente da governação dos recursos minerais, petróleo e gás de Angola.
A terceira é agora.
E esta é, seguramente, a passagem que mais me permite andar por Bruxelas.
Não apenas chegar, reunir e partir.
Andar.
Observar.
Sentir.
Comparar.
Escutar.
E talvez seja andando que uma cidade verdadeiramente se revela.
Desta vez, venho por causa da Conferência Mundial da ITIE 2026, que decorre(u) em Bruxelas, Square, nos dias 8 e 9 de Outubro, co-organizada pelo Governo da Bélgica e pela Comissão Europeia. A conferência reune mais de mil participantes, entre governos, empresas, sociedade civil, investidores, parceiros de desenvolvimento e especialistas de mais de 50 países, sob o tema “Transparency for shared prosperity” — “Transparência para uma prosperidade partilhada”.
A discussão situou-se muito além da simples publicação de números.
Pretendeu-se discutir como a transparência, os dados e o diálogo podem melhorar a governação dos recursos naturais, reduzir riscos de corrupção, reforçar a mobilização de receitas, apoiar cadeias de valor responsáveis, fortalecer a confiança e assegurar que a riqueza proveniente dos recursos naturais produza benefícios duradouros para os cidadãos.
É uma discussão particularmente importante para países como Angola.
Porque petróleo, gás e minerais não são apenas recursos enterrados no subsolo.
São receitas.
São emprego.
São investimento.
São território.
São comunidades.
São ambiente.
São soberania.
São futuro.
E, quando a ITIE fala de transparência, fala também da possibilidade de transformar informação em confiança e confiança em desenvolvimento.
Como resumiu a presidente do Conselho de Administração da ITIE, Helen Clark, o momento exige que “governance and transparency” estejam no centro das políticas energéticas.
Talvez por isso esta terceira Bruxelas tenha sido diferente.
Nas duas primeiras, vim sobretudo para participar.
Nesta, estou também a caminhar.
E caminhar permite descobrir coisas que uma sala de conferências nunca revela.
Permite descobrir o silêncio da manhã.
O comércio que começa devagar.
O trabalhador que atravessa a rua.
O turista que procura uma praça.
O africano que entra numa loja de Matongé.
O belga que espera o transporte.
O restaurante que abre.
A cidade que se limpa.
A cidade que trabalha.
A cidade que, apesar das suas contradições, parece ter aprendido que a liberdade de cada um termina onde começa o espaço do outro.
E é talvez aqui que a comparação com Luwanda se torna mais interessante.
Não se trata de dizer que Bruxelas é perfeita e Luwanda é desordenada.
Seria uma conclusão pobre, sem racio.
Luwanda tem uma vitalidade que Bruxelas não possui.
Tem calor humano.
Tem improvisação.
Tem capacidade extraordinária de sobrevivência.
Tem uma economia informal que, muitas vezes, sustenta famílias inteiras.
Tem uma rua que é viva porque as pessoas a transformam em vida.
Bruxelas, por seu lado, tem uma coisa que Luwanda ainda procura consolidar em muitas áreas: a capacidade de transformar a regra em hábito colectivo.
Uma cidade pode ter riqueza e continuar desorganizada.
Pode ter pobreza e ser organizada.
Pode ter belas avenidas e péssimos comportamentos.
Pode ter ruas estreitas e uma excelente convivência urbana.
A verdadeira diferença talvez não esteja no tamanho das ruas.
Está na relação que os cidadãos estabelecem com elas.
Volto à janela.
Silêncio.
Nenhum galo.
Nenhuma galinha.
Nenhum cão.
Nenhuma festa perdida na distância.
Nenhuma buzina desesperada.
Bruxelas dorme — ou talvez apenas fale baixo.
E eu, vindo de uma cidade onde a manhã frequentemente chega aos gritos, descubro que o silêncio também pode ser uma forma de riqueza.
Mas Matongé está ali.
A África está ali.
Respira, conversa, vende, compra, ri e, às vezes, fala mais alto do que devia.
Talvez seja bom que esteja.
Porque uma cidade completamente silenciosa também seria uma cidade sem memória.
E Bruxelas, com toda a sua ordem, parece saber disso.
Por isso deixa a África falar.
Só lhe pede uma coisa:
que fale dentro das regras da casa.
É assim Bruxelas de 2026.
















