![]() |
| Adm. Fátima e Soberano Kanyanga |
![]() |
| 1º aniv. do município da Munenga |
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
![]() |
| Adm. Fátima e Soberano Kanyanga |
![]() |
| 1º aniv. do município da Munenga |
Para isso, é essencial envolver ciência, arquitectura e consciência como pilares da formação da juventude.
A ciência deve ser ensinada não como mera repetição de fórmulas, mas como pensamento crítico, investigação e inovação. Os jovens precisam de aprender a aplicar a tecnologia para resolver problemas locais: agricultura sustentável, energias limpas, saúde comunitária e gestão de recursos naturais.
A arquitectura deve ser entendida como urbanismo sustentável, capaz de criar cidades inteligentes, resilientes e inclusivas. É preciso ensinar a preservar o património cultural e, ao mesmo tempo, projectar infraestruturas futuristas que respondam às mudanças climáticas e às necessidades de uma população em crescimento.
A consciência deve ser cultivada como ética e cidadania activa. Os jovens devem aprender que cada decisão tem impacto social e ambiental. É necessário formar cidadãos responsáveis, solidários e conscientes da sua missão colectiva.
O que se deve ensinar aos jovens é uma educação integral: ciência para compreender e transformar, arquitectura para projectar espaços de vida digna, e consciência para agir com responsabilidade. Só assim se constrói o país que queremos daqui a cem anos, não correndo atrás do presente, mas preparando o futuro com visão, disciplina e inovação.
Os crescentes acidentes com vítimas mortais, dezenas de feridos e destruição de viaturas nas estradas nacionais de Angola têm uma causa que se repete como um refrão trágico: buracos inesperados em vias que, à primeira vista, parecem em bom estado técnico. O condutor, surpreendido, vê-se forçado a escolher entre esquivar o buraco em velocidade — arriscando colisões ou saídas de pista — ou passar por cima dele e comprometer o veículo. É uma armadilha recorrente em troços como Ndondo-Kapanda, Zenza-Ndalatandu-Malanji, Waku Kungu-Alto Hama, Kibala-INP, Cabo Ledo-Longa, Luvangu-Ondjiva, entre outros.
A estrada 230, entre Zenza e Mazozo, complementa esse drama onde conduzir sem iluminação pública nem sinalização horizontal se assemelha a jogar à cabra-cega, avançando às cegas, guiado apenas pelas luzes dos veículos em sentido contrário e pela intuição de não sair da faixa.
O encandeamento das luzes máximas, a ausência de linhas de guia e os buracos sazonais transformam cada viagem num exercício de sobrevivência.
As consequências são devastadoras. Colisões frontais, saídas de pista e fadiga mental tornam-se rotina, minando a confiança colectiva na segurança viária. O impacto económico soma-se: atrasos no transporte, custos adicionais de manutenção e perda de vidas produtivas. Cada buraco é mais do que uma simples ausencia de manutenção técnica. É um golpe na dignidade de quem circula e na credibilidade das instituições responsáveis pela infraestrutura.
A solução exige coragem e investimento em iluminação pública, preferencialmente solar, que daria visibilidade às estradas. A marcação viária reflectiva e a sinalização vertical em curvas e zonas de risco devolveriam referências claras aos condutores. Em aditamento, campanhas de educação rodoviária e fiscalização rigorosa disciplinariam o tráfego e o uso adequado das luzes. É preciso, acima de tudo, uma política de manutenção preventiva, que não espere pela tragédia para tapar buracos, nem os "deixar engordar como frangos no aviário que aguardam pelo abate", como bem ironizou o menino Bebê, na Marginal do Ndondo.
Conduzir em Angola não deveria ser metáfora de cabra-cega, mas experiência de confiança e progresso. As estradas são caminhos de vida, não de morte. Investir em infraestrutura viária é investir em esperança, garantindo que cada viagem seja feita com segurança, dignidade e futuro.
Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo de 14 de Agosto de 2026
Avô João dos Santos, “João Kitumbulu”, assim chamado por ter erguido uma fazenda na região alta e semi-plana de Kitumbulu, Kuteka, era tio de minha mãe, nascido em Kindongo, a quem ela tratava por pai.
Somos formalmente livres, mas vivemos sem liberdade real. Sem tempo, sem dinheiro e, mesmo entre os que têm, sem desfrute. Esta condição afasta-nos dos nossos parentes e amigos.
O mais cruel é quando cessamos funções: o tempo volta, mas os afectos não nos recebem como antes. A liberdade que nos prometem é apenas uma pausa entre obrigações.
Quando Marcos Nhunga era governador de Cabinda, visitei aquela província e regressei impressionado com a limpeza da cidade capital. Agora, em Malanji, encontrei o mesmo traço de governação. As conhecidas visitas relâmpago do governador às obras, muitas delas realizadas durante a noite, parecem ter criado uma cultura permanente de fiscalização e exigência. O resultado salta aos olhos. Malanji é, sem exagero, uma cidade invejosamente limpa, sobretudo quando comparada com a nossa capitalíssima, tendo já parte das árvores podadas, enquanto a chuva observa férias.
Mas nenhuma cidade é perfeita. Enquanto caminhava, deparei-me com colectores de águas pluviais destampados, onde alguém, por inexplicável hábito, havia depositado garrafas PET.
— Quem faz isso? — perguntei a um senhor que observava a rua, encostado à sombra de uma mangueira carregada de flores.
Sorriu, como quem já respondera à mesma pergunta muitas vezes.
— Não são os filhos de Malanji. Esse costume veio de outras paragens. Há quem pense que o colector é um contentor de lixo. Depois, quando chegam as chuvas, todos reclamam das inundações.
Poucos metros adiante, uma senhora que varria alegremente o passeio interrompeu o trabalho para reforçar a conversa.
— Nós limpamos. A Administração limpa. Mas basta uma pessoa sem educação cívica para estragar o esforço de muitos.
Continuei a caminhada. A manhã era fria e o sol ainda despertava lentamente. Aqui e acolá, pequenos buracos, abertos pelo tempo ou por intervenções nas condutas subterrâneas, aguardavam reparação nos passeios. Noutros pontos, montículos de terra deixados por obras de construção civil esperavam remoção. Nada, porém, suficientemente relevante para apagar a impressão dominante de ordem, limpeza e cuidado.
![]() |
| Borracheira nascida no alpendre |
O que mais me inquietou foram algumas casas antigas. Uma aqui, outra acolá, vencidas pelo tempo, como velhos combatentes que recusam abandonar a trincheira. Fiquei a imaginar as histórias escondidas entre aquelas paredes gastas. Perguntei-me se os proprietários já não dispõem de recursos para as recuperar, se pedem por elas valores que ninguém aceita ou se, simplesmente, aguardam que o tempo decida o destino daquilo que já não conseguem salvar.
Malanji possui uma identidade que se construiu muito antes da Angola independente. O seu território integrou a esfera de influência do histórico Reino da Matamba, associado à figura maior de Njinga Mbandi. Mais tarde, tornou-se um importante centro administrativo e comercial do interior, consolidando a sua relevância com a chegada do Caminho-de-Ferro de Luanda, que impulsionou o crescimento económico e urbano da região. Hoje, permanece uma província maioritariamente Ambundu, enriquecida pela convivência com comunidades Holo, Bondo e outros grupos que contribuíram para a riqueza da sua identidade cultural.
Talvez seja essa herança que explica o modo discreto como Malanji acolhe quem a visita. A cidade não precisa de monumentos grandiosos nem de gestos espalhafatosos para impressionar. Basta permitir que o visitante a percorra a pé. Foi assim que a descobri.
Ao regressar, levo comigo uma convicção: no pós-independência há realizações que merecem reconhecimento. Nem tudo está concluído. Ainda há património por recuperar, passeios por remendar e comportamentos por corrigir. Mas uma cidade limpa, organizada e humanamente habitável nunca é obra exclusiva de um governo. É o resultado do encontro entre uma administração exigente e cidadãos que compreendem que a rua também é a extensão da sua casa.
Foi essa Malanji que encontrei: uma cidade que se deixa caminhar. Uma cidade que convida à contemplação e à reflexão. Uma cidade que demonstra, silenciosamente, que o desenvolvimento não se mede apenas pelos edifícios que se constroem, mas também pela limpeza das ruas, pela disciplina dos seus habitantes e pelo respeito que cada cidadão demonstra pelo espaço comum.
Porque, no fim de contas, é a forma como tratamos o que é de todos que revela quem relamente somos.
=
Publicado a 2 de Agosto no Jornal de Angola
[Em nossa terra nunca compraria rama de batata.]
Era o retrato da perda de autonomia, da dependência forçada, da ruptura com o chão que sustentava a vida.
Hoje, sem guerra que empurre para o êxodo, muitos continuam a migrar para os centros urbanos, mas a cidade, que parecia promessa, revela-se dura e cruel: falta de habitação, desemprego, carestia, falta de solidariedade dos parentes e dos vizinhos. Perante um mar de carências, o sonho urbano, muitas vezes, se transforma em desencanto.
_ Vizinha Katembo, em Luanda não se pede sal nem óleo _ responde a vizinha.
_ Vizinho Maventa, papá pediu para emprestar só a catana para cortar lenha _ anuncia o infante.
A resposta nua e ríspida não se faz rogada.
_ Bebeto, diz ao papá que quem sai do mato para Luanda tem que trazer catana dele. Aqui, cada um por si. Quem se aleja se cura. Se não está a conseguir, volte para a aldeia.
A canção nos lembra que a dignidade começa na terra e que o verde ao redor das casas, nos quintais e nos espaços urbanos, pode devolver autonomia e esperança.
Plantar jindungu, hortelã, alecrim, mamoeiros e outras culturas frutícolas e hortícolas é mais que prática agrícola: é acto de resistência, de memória e de futuro.
Nos vasos e pequenos canteiros podem crescer alface, couve, salsa, cebolinha, tomate cereja, pimento, gengibre, manjericão e cenoura, sem exigir grandes espaços.
Nos quintais urbanos, sem descaracterizar as habitações e a cidade, podem florescer mangueiras, goiabeiras, limoeiros, maracujazeiros, bananeiras, abacateiros e papaieiras, árvores que oferecem sombra, beleza e alimento.
Não se deve abandonar as aldeias sem reflexão e estruturação. Aproveitar os espaços urbanos e domésticos para cultivar, capitalizar recursos, reduzir custos e construir vida melhor são caminhos de sustentabilidade e dignidade.
Que cada quintal seja lavra, cada varanda seja horta, cada comunidade seja jardim. Assim, a memória se transforma em prática e a prática em futuro seguro.
(Título) publicado no jornal Pungo a Ndongo a 19 de Junho de 2026.
Dezoito de Julho/26. Sol ainda preguiçoso, como acontece nas manhãs de Kasimbu. Saí do casco urbano desenhado a lápis, esquadra e régua — onde as ruas ainda teimam em ser perpendiculares — para me perder, de propósito, nas entranhas da periferia. Tomei a manhã para conhecer dois bairros que os meus amigos, em Luwanda, evocam com a nostalgia da infância: Maxinde e Kangambu. A memória deles serviu de bússola, afinando a minha intimidade com esta terra.
Maxinde, contíguo à cidade (do lado de cá do rio, para quem vai a Ndalatandu), foi o meu primeiro destino. Ainda cheira a centro, mas já se ouve o cacarejar das galinhas e o grunhido dos ngulu a disputar o lixo que, por essas bandas é raro. As casas fazem a transição entre as de bloco de cimento e a maioria de adobe, blocos de barro cru que o sol endurece. De Maxinde, percorri uma rua longitudinal que me conduziu à Katepa-Zona 5, onde a malha urbana se desfaz em caminhos que se perdem na imensidão do bairro.
Regressei ao eixo principal e atravessei a ponte sobre o Rio Malanji, que corre lento e barrento. A margem oposta, ao rio despe-se de vez do urbanismo. Antes de alcançar Kangambu, passei pela Kamoma, paralela à Carreira de Tiro — nomes que os mais novos já não sabem explicar, mas que ficaram como cicatrizes no mapa, embora a pólvora se tenha dissipado no tempo que apenas os velhos e os militares conservam. A estrada é a EN230, que liga Ndalatandu a Saurimo, rasgando Malanji.
O interior ee Kangambu, paralelo ao Bairro Campo "de Aviação", espera pelo asfalto. Imperam ainda as ruelas desenhadas sem a destreza do arquitecto e os caminhos que se estreitam até às lavras. A terra vermelha domina. Os pés andrajosos ganham cor e a pele ressequida, nesse tempo frio e seco, transforma-se em mapa.
Contei as casas pelas veredas. As de cimento são ilhas raras; a maioria é de adobe, coberta por chapas de zinco que tilintam com o vento e ofendem os olhos quando o sol as atinge. Os velhos colmos de capim são hoje uma raridade, quase lenda. Os mais velhos dizem que o zinco chegou para ficar, mesmo que queime a alma ao meio-dia.
Enquanto pisava o Kangambu, viajava com os meus amigos que hoje estão em Luwanda. Eles falam destes bairros como quem fala de um quintal enorme, onde as brincadeiras se misturavam ao cheiro do peixe seco e do milho assado. No bulício dos carros e arranha-céus, basta mencionar o meu Lubolu para que os olhos deles viajem para estas margens, para as casas de barro cru e as chapas de zinco que, vistas do alto, parecem escamas de um dragão adormecido.Na nossa infância, no Kaputu, Rua da Ambaca, os bilos estavam sempre presentes. Era como se fossem pão de cada dia. Faziam parte das brincadeiras e serviam de testes para hierarquizar os grupos.
Por alguns instantes, o acampamento de Cifwe, na comuna de Kalunda, município de Mukondo, pareceu-me casa. Não pela proximidade, mas pelo eco de uma pronúncia rara: “Kânyaanga”, dita com a firmeza dos meus do Lubolu, sem o peso aportuguesado que tantas vezes distorce o apelido.
O diálogo diário de segurança, obrigatório na indústria mineira, desenrolava-se como ritual de sobrevivência. Mas antes, um detalhe curioso: ali não há rede de telefonia. A internet, frágil e limitada, nasce de uma engenharia satelital que cobre apenas vinte metros de raio.
Quando o telefone conseguiu aceder à rede, assumiu o fuso da Zâmbia. O despertador, cúmplice involuntário, tocou às 4h30 em vez das 5h30 combinadas. Acordei cedo demais, como se o tempo me tivesse deslocado para além da fronteira invisível. Por pouco, senti-me homem da faixa leste de Angola. Corria o último dia de junho de 2026.
O cansaço da jornada extenuante, porém, fizera com que o sono me tomasse como a própria morte. Nesse mergulho inconsciente, sonhei com as doçuras do desfrute do saldo do meu árduo trabalho. Em viagens fabulosas que a mente tece, fiz compras e cruzei-me com um homem rico, disposto a pagar-me um milhão e meio de dólares em troca de uma consultoria à distância. Prestes a ditar-lhe o número do meu IBAN, o despertador do telefone tocou, arrancando-me brutalmente do sonho.
Acordei maldisposto, sentei-me na cabeceira da cama, elevei as mãos à cabeça e gritei:
— Agora, quem paga o meu dinheiro?
Para único consolo, vieram os gestos de hospitalidade esboçados pelas populações das aldeias por onde passámos. Reunidas na berma da via poeirenta e acidentada, foram acenando calorosamente, como quem diz: "Voltem sempre ao Muxiko Leste e resolvam os problemas que estamos com eles!"
=
In: viagem ao Muxiko Leste
O sol desaparecia atrás das casas e a noite começava a cobrir o bairro. Phande e Kitembo levantaram‑se do banco, caminhando devagar pela rua poeirenta. A conversa ficava no ar, como aviso: o dízimo encapuzado pela ganância é caminho de empobrecimento e só a consciência crítica pode salvar a fé da ruína.
(Crónica de viagem)