Durante meses, conheceu os equipamentos de rádio, um a um, descobrindo-lhes a utilidade e a serventia na construção do “edifício sonoro”, esse som que chega ao ouvinte por via de um receptor.
Ora na sonoplastia, ouvindo e escolhendo os trechos mais impactantes dos áudios; ora na redacção, sugerindo a palavra certa ou levando apressadamente à cabine de locução o guião cuspido pela Olivetti, que tictava sons melodiosos ao ritmo vigoroso do editor José Rodrigues.
Em casa, a mãe aguardava ouvir o nome do seu querido Phande na ficha técnica, lida no início e no fim do noticiário. E chegou o dia em que o ajudante passou a constar:
Edição: Zé Rodrigues
Cuidados sonoros: Sebastião dos Santos
Técnica final: Agostinho Vanda
Assistência: Phande-a-Umba
Apresentação: Mário Guerra
Na primeira vez, foi gáudio na redacção da Emissora Comercial e em casa. Cada vez que o nome de um estagiário entrava na ficha técnica ou apresentava uma pequena peça, os neófitos reuniam-se no fim do turno para comemorar. Em casa, amigos e familiares rejubilavam.
— Agora o meu filho é mesmo jornalista. Falaram o nome dele na rádio — comentavam as mães.
O tempo passou. Phande consolidava a aprendizagem e já lia pequenas peças e até sínteses de notícias, regra geral telex seleccionados da Agência Nacional. Todavia, em casa, a mãe passou do júbilo à preocupação. Um dia, ao chegar, foi chamado pela progenitora:
— Phande, senta aqui. Desde que começaste a trabalhar na rádio já vamos a caminho de nove meses. Às vezes ouvimos a tua voz, outras vezes pronunciam o teu nome. Aqui em casa todos ficamos contentes, mas há uma coisa que me preocupa — disse Kilombo Ky’Etinu, pausada, afectiva.
— Sim, mãe. O que te preocupa então? Será o facto de eu sair sempre muito cedo, quando todos ainda dormem?
— Não, meu filho. É que os teus colegas têm tarefas. Ouvimos todos os dias no noticiário. O que dizem de ti é que apenas ficas a assisti-los. Mas é mesmo isso, filho? Só ficas a assistir os outros a desempenharem as suas tarefas e não fazes mais nada?
Phande riu, pousou o braço no ombro da “sua velha”:
— Calma, mãe! Assistência, em rádio, é ajudar. Eu estou no estágio, o meu trabalho é de ajudante!
***
Vinte e trê anos depois, Phande já era homem grande na profissão e na idade. Dera-lhe netos, casa e felicidade. Kilombo Ky’Etinu contraíra cegueira irreversível, mas apurara a audição e o humor. Phande ausentara-se do país para defender o Mestrado. Ao regressar, a mãe chamou-o:
— Phande, senta aqui. Como correram os estudos que foste fazer?
— A defesa correu bem, mãe. De zero a vinte obtive dezasseis.
— Oh! Dezasseis para vinte, só faltaram quatro pontos. Muitos parabéns! Mas diz-me uma coisa: agora qual é a tua classe?
— Sou mestre, mãe.
A anciã franziu a testa:
— Como assim mestre, se já eras doutor? Então esses pedreiros que fazem parede torta é que são da tua igualhagem? Não pode ser. Estás a mentir-me, filho!































