Por alguns instantes, o acampamento de Cifwe, na comuna de Kalunda, município de Mukondo, pareceu-me casa. Não pela proximidade, mas pelo eco de uma pronúncia rara: “Kânyaanga”, dita com a firmeza dos meus do Lubolu, sem o peso aportuguesado que tantas vezes distorce o apelido.
O diálogo diário de segurança, obrigatório na indústria mineira, desenrolava-se como ritual de sobrevivência. Mas antes, um detalhe curioso: ali não há rede de telefonia. A internet, frágil e limitada, nasce de uma engenharia satelital que cobre apenas vinte metros de raio.
Quando o telefone conseguiu aceder à rede, assumiu o fuso da Zâmbia. O despertador, cúmplice involuntário, tocou às 4h30 em vez das 5h30 combinadas. Acordei cedo demais, como se o tempo me tivesse deslocado para além da fronteira invisível. Por pouco, senti-me homem da faixa leste de Angola. Corria o último dia de junho de 2026.
O cansaço da jornada extenuante, porém, fizera com que o sono me tomasse como a própria morte. Nesse mergulho inconsciente, sonhei com as doçuras do desfrute do saldo do meu árduo trabalho. Em viagens fabulosas que a mente tece, fiz compras e cruzei-me com um homem rico, disposto a pagar-me um milhão e meio de dólares em troca de uma consultoria à distância. Prestes a ditar-lhe o número do meu IBAN, o despertador do telefone tocou, arrancando-me brutalmente do sonho.
Acordei maldisposto, sentei-me na cabeceira da cama, elevei as mãos à cabeça e gritei:
— Agora, quem paga o meu dinheiro?
Para único consolo, vieram os gestos de hospitalidade esboçados pelas populações das aldeias por onde passámos. Reunidas na berma da via poeirenta e acidentada, foram acenando calorosamente, como quem diz: "Voltem sempre ao Muxiko Leste e resolvam os problemas que estamos com eles!"
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In: viagem ao Muxiko Leste
















