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quarta-feira, dezembro 01, 2021

VIANA REAL

É sábado. Dirijo-me a uma barbearia que fica nas imediações da Igreja Metodista e, mal pus o corpo no passeio, a saudação do barbeiro é:

- Kota, tens mais uma máscara?!
- Para quê? - Indaguei surpreso.
- Para tô kasule, mô pai. Sei que se eu não me mascarar, o pai não vai cortar cabelo!
Sem pedir a dedução do valor da máscara ao serviço que me prestaria, fui ao carro e peguei mais duas: uma para a minha reserva e outra para ele.
Hora e vinte depois, quando tinha pedicure feita, cabelo e barba aparados, procurei sair para o carro.
Um rapaz, franzino, meio sujo, cara de quem sofre um sofrimento alheio, pois crianças deviam ser felizes na sua inocência... o rapaz levava uma caixa para engraxar sapatos e aguardava-me junto à porta do carro, se calhar, para pôr-me a ver o meu rosto no sapato limpo.
- Papá, por favor, pode pagar-me uma pomada? - Disse, quase implorando, ao mesmo tempo que mostrava a fome, os ossos que lhe restavam do corpo e a vontade de ganhar seu pão justo.
Travei as lágrimas para puxar a minha fita, dos idos anos de 84-87, e atender-lhe ao pedido.
- Espera aí. Quanto é a graxa? - Questionei para puxar conversa.
- É cem.
- E a pomada?
- É trezentos, pai.
O rapaz parecia começar a perder a paciência. Li-lhe nos olhos que procuravam cliente que desse sapatos a engraxar ou por um patrocinador para a requerida pomada.
- Espera filho. Onde é que vives?
- Na Boa Fé?
- Tu deves ter sete ou oito anos. Me parece...
- Não pai. Tenho 11 anos.
- Com quem vives?
- Vivo com a minha mãe.
Para prender a sua atenção, eu vasculhava o carro, aos olhitos acesos dele, a ver se encontrasse dinheiro.
- Que faz tua mãe? - Voltei a indagar.
- Não faz nada.
- E teu pai?
- Não vivemos com ele.
Não perguntei se tinha irmãos.
Peguei em duas notas de duzentos Kwanzas e pedi que se aproximasse.
- Tens cem?
- Não. Mas vou procurar.
Era a vez dele de vasculhar a caixinha e os bolsos até encontrar uma moeda que me entregou.
- Os trezentos são teus e tens a pomada paga.
- Muito obrigado, papá! Posso limpar poeira nos teus ténis?
- Não precisas. Ainda irei ao campo e voltam a sujar. Mas responde uma coisa.
- Estudas?
- Sim. Estudo à tarde na escola ao lado dos Escorpiões da Boa Fé.
- Muito bom, filho. Ouve. Vou te contar uma verdade. Nos anos oitenta, para ti é já há muito tempo. Havia guerra e eu sai do Libolo com dez anos. Posto em Luanda, também vendia para ajudar a mãe que era viúva e comprar cadernos. Estou aqui hoje, como me vês. Estuda. Está bem? Se estudares, podes ser administrador de Viana, governador de Luanda ou mesmo ministro. Estás a ouvir bem, nê?
- Sim papá!
- Toma os cem Kwanzas que me deste de troco. Pensa sempre no conselho que te dei. Não fica bandido por causa do trabalho ou da estiga dos colegas e amigos. Eu também passei por isso.
O rapaz recebeu a moeda e meteu-se na padaria, que se achava a metros, para comprar pão. Afinal, já tinha dinheiro para a pomada!
Parti em direcção à administração municipal para me encontrar com o chefe da "Brigada kamartelo". Há muito que os fiscais do Zango brincam como javalis na minha lavra.
Nem por voz nem por mensagem o encontrava. Parti para a obra. A entrar para a rotunda do Zango 2, surge um motoqueiro da polícia e outro que me mandam, arrogantemente, retirar o carro da via porque vinha uma coluna de civis que, no pensar deles, "tinham mais direitos do que todos".
Abri o vidro e disse ao polícia:
- Carros deles têm dois eixos como o meu. Também vou trabalhar e ninguém vai ao piquenique.
O jovem polícia mostrou educação mas estava a cumprir ordens. Continuou accionando a sirene e mandando abrir o caminho para os "donos da estrada" passarem.
Os apressados e poderosos lá se foram. Era uma coluna de uma dúzia de jeeps.
- Quem era o todo importante mobilizador de batedores?
A resposta ficou perdida na floresta da arrogância renascente que alguns patriotas de ocasião vão impondo ao povo heroico e sempre generoso para com os passageiros de última carruagem.
Segui atrás do fumo deixado por eles que se perderam no horizonte. Parecia terem ido ao Kalumbu ou proximidades.
De regresso, aborrecido, com os "assaltos" semanais à minha obra por parte dos fiscais de Viana e do Zango, sou novamente apanhado no mesmo local pela mesma coluna.
O primeiro batedor mandou-me retirar o carro. Ignorei-o. Veio o segundo, o mesmo que me abordara em voz. Baixei o vidro e mostrei meu crachá. Mas ele não tinha tempo. Outro polícia de trânsito, que se achava fora daquela patrulha a fiscalizar os candongueiros, fez-me sinal para que eu acostasse, sem no entanto parar. Entendi-lhe a elevação. Parei ao pé dele e disse-lhe em voz doce:
- Meu jovem, também estou a trabalhar. Se eles têm pressa que arranjem boas estradas ou que saiam cedo de casa!..
O jovem polícia aprumou-se e "ofereceu-me" uma continência a que agradeci prontamente.
Salvou o meu dia de um pecado por palavras asquerosas.

sexta-feira, novembro 26, 2021

KITUMBULU E OS EMPREENDEDORES SEM CONTINUADORES

Sem energia e com os estridentes gritos do neto e da filha derradeira, puxei a fita e comecei a "vê-la", desde os tempos de menino, quando ganhei lucidez para juntar estórias à História dos que me rodeia(ra)m.
Tive pouco tempo de convívio com o meu avô paterno que morreu no "Ano da agricultura"¹. Quatro anos mais tarde, quando eu contava apenas oito, seguiu-se-lhe o meu progenitor. Todo o roteiro de capítulos gravados foi-me narrado pela minha mãe, uma nora que se esmerava em conhecer os caminhos e a genealogia do marido.
Conta-se que o Velho Kaphuku² (Ngana Muryangu) tem a sua origem na região de Karyangu³, de onde saíra em busca de sol e sorte, a mesma sorte que dizem "persegue os audazes".
O rio Longa passa por Karyangu e embranha-se por pequenas planícies e zonas escarpadas, até se afogar num estuário, junto ao Atlântico.
Seguindo o Longa abaixo, Ngana Muryangu atingiu a região de Ndala Kaxibu, antes de atravessar o rio, na região de Kuteka⁴, e se instalar em Kitumbulu⁵ onde plantou café, mandou povoar um riacho e fez vida, atraindo ou juntando-se a outros makulu⁶ avisados do seu tempo.
Alguns, ao que a História vai desvendando, terão se instalado em Kitumbulu, zona escondida entre montanhas, por causa da perseguição colonial aos esclarecidos de então, depois dos acontecimentos de 1961.
O café, monocultura que dava dinheiro ao Estado colonial português, era uma boa escapatória ao autóctene que se queria ver distante dos exploradores e dava a possibilidade de agregar ao refúgio o lado empreendedor.
Ora, todos eles, e todos meus parentes pelo lado paterno e materno Ngang'Embombo (Matabicho), João dos Santos (João Kitumbulu), Kyuma Albano e Kaphuku (Ngana Muryangu), ninguém teve continuador no seu empreendimento cafeícola. A cafeicultura era um refúgio mas também um "funeral" de tudo quanto tinham amealhado e podiam colectar naquele momento. Valeu-lhes apenas a liberdade de não irem ao pseudo-contrato, estarem empenhados nas suas tarefas coordenativas da comunidade e apoio à revolução, ganhando alguns trocados para pagar impostos e "comprar sal".
As terras que lavraram e cultivaram estão aí. Intactas. Todos, em Kuteka, sabem de quem são e a mensagem vai passando de geração em geração, mesmo com os descendentes directos ausentes e, nalguns casos incógnitos. As frutas das árvores que persistem às intempéries vão sendo colhidas e comidas. E os recados chegam.
- Colhi um balde de laranjas na fazenda do velho Kanyanga (meu avô materno).
Quem, porém, vai fazer a poda das plantas resilientes ao tempo e às intempéries e ampliar os campos? Nem nossos pais, nem nós fomos talhados para a agricultura longe do asfalto.
Sem guerra, eventualmente mantivéssemos o contacto e os afectos. A guerra e as escolas afastaram Kitumbulu e criaram em nós outras ocupações, outras formas de trabalhar e de empreender!
Por essa via, outros "Kitumbulu" podem estar a nascer nas cidades e a correrem o risco d enão terem continuadores. Veja-se, a título de exemplo, um investimento (de todo o suor) em uma "farmácia", sem que um dos herdeiros tenha paixão pela saúde. Talvez alguém esteja a construir um edifício comercial, podendo deixá-lo por concluir, sem que um dos herdeiros tenha vocação para a construção e ou para o comércio!
Vendê-lo-ão à primeira oferta, sem uma mínimo prospecção do mercado imobiliário. Será mero descaso para eles (herdeiros) e um desperdício para quem podia desfrutar do fruto do seu suor em vez de empreender. Terá sido o caso Kitumbulu!
Quanto a mim, ficou apenas no sangue o gosto pelas plantas e pelos animais domésticos que levei até à grande cidade.
=
¹ Ano de 1978.
² Fernando Ndambi, tb conhecido por Ngana Muryangu.
³ Leste de Kibala.
⁴ Regedoria da comuna de Munenga.
⁵ Área proxima da aldeia de Mbangu- Kuteka.
⁶ Mais velhos. Para além de Ngana Muryangu, apontavam-se João dos Santos (João Kitumbulu), saído da região de Kindongo, e Matabicho, de Mbangu-Kuteka.

 

sexta-feira, novembro 19, 2021

A ÁGUA, O FRIO E O MAGRINHO

Vila do Ebo, 13 de Novembro. O ano é esse mesmo.

A cadeia montanhosa e pedregosa que abraça a região, faz com que haja um microclima com nuvens a encobrir o topo das elevações que se vestem de branco quase todos os dias. Tal faz com que a água, em gotículas finas, grossas ou até acompanhadas de granizo caia ao acordar, ao almoçar e ao jantar.

Esse clima, com água e lama, faz as crianças se sujarem durante as suas brincadeiras e tarefas confiadas à idade. Dentre os petizes conhecidos está Magrinho. É slim, de pouca fala e educado a não mentir. Bem, Magrinho tem outro nome, o da escola como dizem, e a data de nascimento que só a mãe e o professor conhecem.
Quando se lhe pergunta em que ano nasceu, Magrinho diz que foi em Novembro!
Na visita ao Ebo, vi magrinho brincar com outros irmãos. Quando perguntado "quem havia sujado o carro, Magrinho teve a coragem de apontar o irmão e denunciar-se.
- Foi o João e eu, tio!
Tomámos boa nota da sua verticalidade e fizemo-nos amigos. Passou a ser Magrinho pr'aqui e Magrinho pr'ali. Durante os três dias, ele foi a mascote da casa, fazendo-nos esquecer, por curtos instantes, o momento lúgubre que nos levou ao Ebo.
Mas a melhor do Magrinho, que não sabia dizer quantos anos tem, variando entre dois e 12, quando o irmão mais velho tem nove, foi quando o tio Beto Spina, vendo-o sujo e prestes a ir dormir, o ordenou a lavar o corpo.
- Magrinho!
- Tio!
-Vai tomar banho.
- Não, tio. Hoje não vou tomar banho.
- Vai lá, pá! Tens medo do frio?
- Não, tio. A água está a levar as pessoas!

A resposta derradeira de Magrinho parecia cómica, risível. Mas levou-nos a mergulhar no assunto que nos levara ao Ebo. Nossa mãe Mariana Almeida, a avô materna do Magrinho, fora arrastada, quatro dias antes, por uma corrente de água ao atravessar um riacho pelo que passou variadíssimas vezes ao longo dos seus sessenta e três anos.
Ficámos a reflectir na inteligência do Magrinho que passou a detestar a água, por lhe ter arrancado a avó.
- Não, tio. A água está a levar as pessoas! - Tem razão o Magrinho.

sexta-feira, novembro 12, 2021

NGASAKIDILA, MALANJI!

Depois de termos sido convidados pelo Governo Provincial para presidir ao Júris do Prémio Provincial de Jornalismo de Malanje 2019, eis que surgiu novo convite para integrar a equipa avaliadora em 2021.

Melhor do que em 2019, o Presidente foi eleito entre os pares, missão que Marcos Gabriel, Ema Massunga Da Silva, Adelino Ngunza e Isidoro Natalicio Isidoro acabaram por me atribuir. O Ngunza foi vice e o Natalício secretário.

Foram intensas reuniões e viagens, cansativas de Luanda a Malanje, entre os dias 30 e 31 de Outubro e 10 e 11 de Novembro, para além de intenso trabalho de casa, debates e troca de argumentos técnicos, usando vias virtuais.

O Regulamento do Prémio, a "doutrina", a experiência e a consciência de cada um dos integrantes foram elementos balizadores da actuação do Júris que concluiu o seu trabalho a faltarem minutos da gala de premiação, 11.11.2021, no auditório da Rádio Malanje.

E não nos ficámos pela análise minuciosa e anúncio dos melhores em cada categoria. Fizemos recomendações aos jornalistas para que mesmo não havendo comunicação de concurso, cada escriba se esmerasse em preparar uma reportagem (sem pressa) que seria da agenda seting, obedecendo à planificação, listagem de fontes (documentais e pessoais), busca de informação in situ, cruzamento de informações, redacção/edição/montagem e difusão. Foi ainda recomendada a abstenção ao uso indevido de propriedade intelectual alheia (plágio).

À entidade promotora e às direcções dos medias de Malanje foi sugerida a formação contínua (por medida) dos jornalistas para que possam reportar melhor Malanje e participar em outros concursos como o Prémio Nacional de Jornalismo ou mesmo o da SADC.

Fazemos vênia ao Governador mwata Kwata Kanawa, que no final da actividade, nos chamou para dizer que "tinha gostado das recomendações e sugestões".
Obrigado, Malanje e meus pares, pela oportunidade!

segunda-feira, novembro 08, 2021

LAMBIJI E CONDUTO

 - Ombelela nyê?!- Perguntava o tio Vinte e Cinco à mulher, sempre que chegasse da tonga¹.

- Lambiji kihi, Elombo?! - Indagava, igualmente, o meu pai, antes dos amicíssimos juntarem as jantas, uma noite em casa do tio Vinte e Cinco e outra em nossa. Era assim religiosamente.

Porém, o vizinho Cacebola, um ovimbundu que tinha estudado um pouco mais e que era capataz (ajudante do gerente), preferia pronunciar o termo conduto para se referir ao que acompanhava o pirão.
Era fuba de milho, feijão e peixe seco amarelado ou acastanhado que o "patrão-Estado" continuava a distribuir aos camponeses da fazenda. Estávamos a finalizar a década de setenta do séc. XX.

www.mozindico.blogspot.com faz referência a conduto (Angola) como "iguaria" acompanhante, sobretudo para o pirão/funji e outros alimentos.
Na meu consciente, o termo entra por volta de 1978, quando a minha família se mudou de Kitumbulu (fazenda de meu avô Fernando Ndambi) à fazenda Israel (comuna da Munenga).
Os trabalhadores ovimbundu da fazenda (rebaptizada Hoji-ya-Henda) usavam termos como pirão em vez de funji e conduto para a iguaria acompanhante.
Até então, o termo familiar, no "nosso Kimbundu de Kuteka", era lambiji².
Se calhar, por ser um povo ribeirinho (Longa), o peixe tenha sido o principal conduto de sua dieta, fora os vegetais que, senso geral, recebiam a designação de lambiji.
Genericamente, lambiji/ mbiji podia ser peixe, verduras, insectos (grilos, cigarras, térmitas/salalé, gafanhotos) ou carne.
- Lelo, lambiji kihi?³
- Lambiji xiwe!⁴
Ombelela era/é outra expressão usada pelos ovimbundu com quem privei na infância para se referirem à iguaria acompanhante do pirão.
O termo conduto vem ganhando força e "expansão nacional", impondo-se no léxico da Língua Veicular (Pt). Porém, é mister assinalar e registar as particularidades de cada região e povo, no que diz respeito às suas particularidades sociológicas e linguísticas, pois a construção do todo nacional passa, indubitavelmente, pelo "eu" de cada comunidade.
O angolano Carlos Figueiredo, professor e investigador de História e Linguística do Libolo, diz que "conduto é termo português, bastante usado no norte de Portugal, sendo que o seu uso em Angola terá a ver com as fases da colonização das diferentes áreas da então colónia, pois o termo era comum no Português da Idade Média. Note-se que a colonização de Benguela Nova (actual Benguela) e Planalto Central, ou seja das zonas Ovimbundu, dá-se a partir do início do séc. XVII, ou seja, quando ainda se falava o Português do período clássico. Esta ocupação é muito anterior à colonização do interior do Cuanza-Sul, que vai acontecer apenas no final do século XIX, quando já se fala o Português moderno. Portanto, no Libolo, a palavra “conduto” foi usada também para definir a a ração dada pelos colonos aos trabalhadores."
Fernanda Bandos, portuguesa, acrescenta que "conduto é um termo usado pelos meus avós portugueses, mas que tem sido substituído pelo termo acompanhamento em muitos restaurantes em Lisboa."
Por seu turno, o quissongoense (Libolo) Artur Cussendala recorda que, na sua aldeia, "todo o acompanhante é tratado genericamente por mbiji (peixe)".
O escritor e pesquisador social Gociante Patissa, quando solicitado a debitar sobre a expressão mbelela/ombelela, explica que "conforme as variantes do umbundu, mbelela ou ombelala podem referir-se exclusivamente ao conduto que tenha a ver com carne (de animal), passando o resto a integrar a categoria de "lombo", o que abarca também peixe e feijão. [É assim] na região de Benguela, os considerados vacisanji e vassale (estes últimos mais próximos do Kwanza-Sul)".
No leste/nordeste de Angola, onde predomina a língua Ucokwe, ikasa é o designativo do acompanhante de xima⁵. O poeta e jornalista João De Figueiredo Wassamba confirma que tal designação genérica "aplica-se a carne, peixe verduras, insectos e demais acompanhantes".

=
¹- Empreitada. Parte distribuída, na fazenda, como empreitada diária.
² Acompanhante.
³ Hoje, qual será o acompanhante/conduto?
⁴ Será (carne de) paca.
⁵ O mesmo que funji para os ambundu. Os tucokwe comem, preferencialmente, pasta feita de farinha de mandioca (fuba de bombô).

segunda-feira, novembro 01, 2021

LONGESO

Desde que o "Jornal de Sábado" foi ao Wambu fazer e transmitir as notícias daquele dia, a partir de Mbalundu, que o longeso¹ passou a ser assunto de comentários e "interesse nacional, sobretudo por parte dos adyakime².

Quando pequeno, nas hortas do Limbe³ e, mais tarde, de Kalulu, sempre que desbravasse a terra, surgiam pequenos tubérculos saídos quase que do nada. Pequenos, comparados a grãos de jinguba⁴, nunca tinham desperto a nossa atenção, salvo raras excepções de alguns mais velhos que, à escondida os lavavam e experimentavam, sempre longe de nossos olhares.
Foi depois da RNA ter, em crónica, anunciado que "Mbalundu era o único município do país onde se podia encontrar os [super-afrodisíacos] longeso" que comecei a rebobinar a minha longa metragem de recordações até chegar a ele.
Bem atrás de minha casa, em Viana, está a centenária Lagoa de Terembembe aonde os homens canalizam, hoje, todas as águas pluviais e urbanas de Viana. Onde haja água e terra há longeso!
Quem quiser comprar, pode procurar-me para ganhar a capacidade metralhadora e de "produção gemelar". Tenho uma honga⁵ de longeso.
=
¹ tubérculo de uma herbácea cujas folhas se podem confundir com as de alheiro, presente nas zonas baixas e ribeirinhas.
² Mais velhos (Kimbundu).
³ Aldeia (extinta) da comuna da Munenga, ficava a dois Km da actual Pedra Escrita, na EN120.
⁴ Amendoim.
⁵ Lavra em terreno plano e ou baixo. Horta.

segunda-feira, outubro 25, 2021

SEGUINDO PEGADAS DE CÃO

À chegada, dois cães de aparência saudável e uns galináceos que se confundem com a cor do areal despertam a atenção de quem acosta a embarcação, antes mesmo de ir ter com os makwenze da polícia que guardam e garantem a inviolabilidade da nossa fronteira fluvial.
Há uma vênia que se cumpre: a saudação que é sinónimo de educação e bons costumes e a identificação do objecto da visita, mesmo tratando-se de local de interesse turístico-histórico.
Os jovens, filhos alheios, não complicam ninguém e são bons cicerones pelos três principais motivos daquela península (no passado conhecida por mwan-a-nkukutu) o marco em betão da Administração do Soyo, que dizem ser católico; as "tendas" dos protectores de tartarugas e o marco deixado por Diogo Cão num longínquo ano do século XV.
- Ir ao Soyo sem chegar à Ponta do Padrão - dizem - equivale a ir a Roma e não chegar ao Vaticano!
Será?!
Ainda a pensar no ditado, ergui a cabeça, para além da água farta e da areia. Mangais fechados com raízes que "caem dos céus", figueiras, mangueiras, palmeiras, acácias e vegetação rasteira fazem parte da flora marcante.
- Kota, ali, antes do marco deixado pelo Cão, é um símbolo da Igreja. Os gajos xindaram em língua estrangeira. - Explicou o jovem polícia de guarnição fronteiriça que se diz natural do Rangel, em Luanda.
- Podemos ver o que escreveram? Se calhar, com o google translator, eu consiga dizer-vos o que está gravado. - Disse-lhe, procurando convencê-lo a mostrar a placa em betão que não ficava distante do acostamento.
- Kota, escreveram em italiano. - Ripostou em sua defesa.
Aproximamo-nos. Confirmei a inscrição, nítida na língua modernizada por Camões, o conterrâneo de Diogo Cão que por lá passara em 1482.

"MUNICÍPIO DO SOYO
POR AQUI PASSAM OS CAMINHOS DA HISTÓRIA
1490-1491".Li, com a ajuda da mulher, 5 anos mais nova e com a visão ainda em dia.
- Oh! Como é que o kota leu sem traduzir? Ou fala também o italiano dos padres?! - Indagou o jovem admirado.
- Em cima usaram mesmo Português. A numeração é a romana que se aprende na quarta classe. - Elucidei-o.
O jovem balbuciou umas palavras imperceptíveis, uns resmungos a soar "no meu tempo isso não se ensina na escola".
Caminhámos alguns metros até ao marco deixado pelo Diogo. O que se vê é a reconstituição feita há 102 anos (1919), pois o original "foi levado pelo bravo mar", deixando pela trás "apenas as correntes". - Explicou paciente o jovem cicerone.
- Aliás, kota, você foi nosso Prof° e sabe das coisas. Mas, olha! Aquilo que falou que ensinam-lhe na quarta classe (numeração romana), deve ser apenas no tempo do kota. No nosso tempo é só já vuzar. Relógio é no telefone. Os números que ensinam são somente esses da tuga...




- Pois é, jovem. Compreendo. Nasci ao tempo de Spínola. Comecei a estudar ao tempo de Neto e quando fiz a quarta, Zé-Du ainda era jovem. Nós começamos a aprender a numeração romana na segunda classe, quando nos ensinaram a ver as horas (Ciências Integradas). Aprofundamos na quarta classe onde acrescemos a potenciação aos números romanos. - Expliquei-lhe paternalmente, ao que acolheu com um convite.
- Chefe! - Virou-se para o meu irmão polícia que nos levou à Ponta do Padrão. - Quando o pai voltar ao Soyo, "lhe traz" novamente aqui! - Rematou, ao que anuímos.

segunda-feira, outubro 18, 2021

A POEIRA E O ESQUECIMENTO DE URBES KWANZA-SULINAS

Mal acordei, as primeiras leituras foram sobre a disponibilidade de água que pode aumentar em Kalulu e sobre a poeira no Sumbe e Benguela Velha (Porto Amboim).

A terceira leitura que me chegou foi sobre o turismo e crescimento industrial e económico em municípios como Ebo, Kilenda e Kasonge, aventando alguns que "a província precisa de um nguvulo mais dinâmico", conjecturando até nomes.

Sobre os temas lidos, apraz-me comentar que, na conjuntura actual, o KS não depende do pulso do governador. Depende de outros factores como Planos de Desenvolvimento Urbanístico e Industrial dinheiro real e pensamento nas futuras gerações.

Problemas que enfrentam cidades como Sumbe e Porto Amboim devem ser resolvidos à montante e não à jusante. Haverá sempre barro a deslizar das montanhas às cidades e entupindo os colectores (espreite ainda o que a Kanata faz ao Lobito).

Quanto a Kalulu, minha "mother land", que foi das primeiras circunscrições (mais de cem anos), ela teve vigor enquanto o trânsito Luanda-Centro se fazia pela ponte Filomeno da Câmara, passando por Kabuta (sofreu o mesmo azar que Golungo Alto que viu o comboio passar-lhe ao lado para Malanje).

Sem a reparação (asfaltagem) daquela via que liga São Pedro da Kilemba-Kabuta-Kaluku-Kibala...), Kalulu continuará a ser um enclave esquecido à esquerda da EN120.

E, como Kalulu, o KS tem vários outros enclaves: Ebo, Kilenda e Kasonge são exemplos. Quem é que vai lá em visita, para além dos que estão comprometidos afectivamente com a localidade?


segunda-feira, outubro 11, 2021

O PERMK E ÂNGULOS DO KWITU

 

A cirurgia feita com cimento e tinta, em sede do PERMK¹, disfarça o quão a cidade foi estropiada entre 1992/93.

Olhando, porém, com atenção, vêem-se ainda "gangrenas" de feridas nunca curadas e cicatrizes de perfurações que afectaram os edifícios e pessoas neles refugiadas.
Quando conheci a cidade, em 1998, o canteiro que separa os dois sentidos da Avenida Joaquim Capango (rua principal) acolhia campas, aboboreiras e milheiral.
De um lado da Avenida tinham estado os defensores, sem rectaguarda alimentar. Do outro lado (em que se encontra a administração municipal) estavam os sedentos invasores com uma logística intacta, camuflada aos olhos cegos da UNAVEM e CMVF².
Há que se narrar a história desse período lúgubre do Kwitu e julgar, na cabine de voto, os autores de nossas más memórias.
=
1- Programa Especial de Reabilitação Mínima do Kwitu.
2- Comissão Mista de Verificação e Fiscalização. Órgão que acompanhou a implantação dos acordos de Bicesse até à realização das primeiras eleições em Angola (1992).

sexta-feira, outubro 01, 2021

AINDA SOBRE O "ARROZAL BENGUELENSIS"

Durante os meses de Agosto e Setembro/2021, fiz milhares de quilómetros por estradas. Percorri Cabinda de sul a norte, fiz Luanda-Soyo-Luanda, Luanda-Cuito-Luanda e Luanda- Quibala-Luanda, fora o roteiro Luanda-Huambo-Chipindo-Longonjo-Menongue-Cuchi-Lubango-Benguela- Sumbe-Luanda, feito em Maio.

Notei que os acidentes com camiões, sobretudo os articulados, e alguns ligeiros também acontecem mais ali onde a estrada está degradada. Na ida e regresso do Cuito vi dois pesados capotados à entrada de Calomboloca, só para citar um de vários exemplos que se acham a mãos de semear.
À propósito da relação entre qualidade das rodovias versus acidentes ou capotamentos de camiões carregados, Moh Canhanga escreveu que "se a estrada tivesse sido reparada não teríamos a 'novela' do arroz em Benguela". Elogiei o jovem, que espreitou para fora de caixa e viu que havia mais árvores naquela "floresta" de debates, para além dos jovens fotografados em flagrante posse do produto transportado pelo camião acidentado.
- Teria havido capotamento se a rodovia estivesse em condições de circulação?
- Talvez sim, talvez não!
Há acidentes causados pela degradação das rodovias, como há outros acidentes que ocorrem em perfeitas pistas, onde é chamada a responsabilidade do condutor ou o estado técnico do equipamento ...
O mérito da colocação do do jovem Moh Canhanga vai para a necessidade de se olhar para fora de caixa e buscar outros ângulos de análise.
Ora, os behavioristas (comportamentalistas) americanos realizaram um estudo para aferir o "instinto animalesco incubado no homem" e a tendência em destruir coisa alheia.
Pararam, durante uma semana, um carro novo num descampado para ver qual seria o comportamento da população.
Mesmo sem que se conhecesse o dono, ninguém o danificou.
Na semana seguinte, alguém passou e quebrou, propositadamente, um dos vidros. Em menos de 48 horas, o carro ficou totalmente descaracterizado.
Voltemos ao arroz de Benguela. Se o primeiro que se deparou com o acidente tivesse ido para socorrer e proteger a carga, eventualmente os demais colaborassem nessa demanda. O primeiro que tomou para si um saco de arroz abriu o caminho e despertou o lado animalesco dos demais.
Já fiz um estudo semelhante com o lixo. Quando construi a minha casa, a envolvente era uma lixeira (espaço em que a vizinhança preguiçosa e antabônica depositava os seus descartados). Empenhei-me uma semana a limpar e controlar. Os mesmos que ali deitavam lixo, perderam a coragem de largar o primeiro saco num espaço totalmente limpo.
Depois de ler o estudo dos behavioristas americanos, larguei um saquinho de lixo no espaço e, no dia seguinte, estava a área repleta de sacos!
Levei mais uma semana a limpar e controlar.
Resumindo: um de dois factores ou ambos terão propiciado o assalto ao camião de arroz em Benguela.
a) a qualidade da rodovia;
b) o estado psico-social e ético do primeiro assaltante.
Tenho dito.

Soberano Kanyanga
29.09.2021

PS: publicado pelo Jornal de Angola de 03.10.2021

quarta-feira, setembro 29, 2021

VIAGEM DE SONHO A KALULU

Realizada num 15 de Setembro, já leva século, quase. Não existia ainda a EN120 ou, para ser mais preciso, sobre o largo e caudaloso Kwanza, o novo atalho, desenhado entre o Alto Dondo e o Fortim da Kibala, não possuía ainda travessia. Pretendia-se encurtar a distância entre a crescente capital e a florescente Nova Lisboa de então. Ao pôr-do-Sol emergia a capital do novo distrito, Benguela Velha.

Saudoso do meu Libolo, fiz-me à estrada, na minha Power Glic "olhos de águia". Luanda-Alto Dongo-São-Pedro foi um mimo, dançando ao som roncaresco da bichona.
Chegado ao Kwanza, enorme e apressado de uma viagem que o leva do Citembo a sul de Luanda, deparei-me com a ponte Filomeno da Câmara. Comprida e majestosa. Alta sobre um rio rápido e pedregoso. Quão engenhosos terão sido os seus obreiros!
- Ei-la! - Gritei para mim mesmo, fazendo-se eco, rio abaixo. E a ponte era longa!

Transpu-la. Era Kalulu o destino e Kabuta, do café negro, forte e quente, o próximo marco sem paragem nem narrativa. À passagem, far-se-ia noite, num atalho curvilíneo sem alcatrão. E assim foi.
Ao raiar do sol, Kalulu à espreita. Quem não te vê?!
Como tu apenas a capitalíssima do Distrito de Kwanza-Norte, Golungo Alto, que o elevar do comboio a longínquas terras de Njinga pretende levar ao ostracismo. Maldito comboio de 1917!
- Que não nos venham a nós dias nefastos. Soliloquiei.
- A nós basta a Filomeno da Câmara que nos leva ao Huambo e terras inimagináveis dest'Angol'amada! - Cogitei premonitório.
Cheguei a Kalulu, pois claro! Passei a Kapopa e visitei a Missão e o Musafu inteiro. Espreitei a Mbanze dos Dambos. Retornei, pela Pedra Santa, sempre. Alonguei-me no alcatrão, quase sem a cor inicial que fumegava aos olhos negros de pretos cansados de contratado. Passei pela Fortaleza e o Palácio que se esconde em sua axila abaixo. O posto administrativo do Concelho é à direita, contígua à Fazenda onde exploradores de negros depositam moedas lacrimejantes.
Reparei com minúcia as casas da vila, erguidas por brancos da metrópole ou filhos nascidos cá. Albergam hoje mestiços que se dizem donos disto e d'aquilo, da terra também, mas que se negam, na vergonha mesquinha, negros ou brancos. Preferem um termo intermédio!

Mais adiante é o Cassequel, corruptela de areal extraído do materno Kimbundu. A Mbanze é mais adiante.

Sem mesmo pousar as malas ou limpar a poeira agarrada à Chevy como parasita faminto em hóspede corpulento, pus-me a conversas exploratórias, de bar em bar e de esquina em esquina.
- Olá, nosso patrício! Aceita café?
- É da Kabuta ou do Lwati? Eu aceito, nem que seja da Kisala!
- Tem o Kisongo ainda a Divisão de Agricultura e Florestas? Tem a Munenga o dendém e o girassol? - Café-palavra-café. Fui intercalando.
E nas conversas, a vila que é pequena, rua e meia, no dizer de nossos asoko¹ kibalenses, parecia grande. Os falares depreciativos denunciavam a existência de quatro blocos: o do Hagâcê, o do Cêcê, o dos nativos autóctones da Mbanza e o dos mulatos herdeiros. E parecia que todos os prosélitos se digladiavam, mesmo sem mando ou complacência dos patronos, tirando os mulahatu² e os descendentes de negroides que regaram cafezais com lágrimas e suor.
- Somos os mais fortes, os donos, os mais poderosos, os que mais fizeram, os que mais fazem, os que sempre aproveitaram a terra, os que dão de comer, os que mijam grosso, os que...
- E tu, forasteiro, em que ala te enquadras? - Provocou-me uma cobiçada rapariga de cor cremosa que sugava para si todos os olhos. Era assim onde passasse, embora tida como sem ala.
- Sou de cá. Dos que defendem o todo como união das partes. Sou dos que pedem alcatrão para São Pedro-Kabuta-Kalulu-Kibala. Dos que se indignam com o porvir que há-de-ser com a nova travessia no Kyamafulu! - Respondi amável. Porém, quando me preparava para acolher o abraço dela, despertei da viagem. Era sonho?!
=
¹- Plural de Kis(s)oko, homólogo.
²- Relativo a mestiços ou mulatos.
Obs: texto sujeito à revisão.

terça-feira, setembro 21, 2021

ANDULO QUE NÃO FALA UMBUNDU

A reabertura de Luanda ao país, dois anos depois de chegar a covid-19, está a ser vivida com grande intensidade. Talvez pensando na experiência da "mini-paz", aquela de 1991-92 que trouxe a falsa quimera de "twaliyeva, twayovoka", a que se seguiu um fecho pior até 2002. O acordo de Lusaka de 20 de Novembro de 2004 e o "Gurne" que se lhe seguiu foram aborto de mini-paz e nenhuma se iguala a essa que estamos com ela.


Desta vez, as manas e os manos que já viveram nas décadas de guerra pré-eleitoral e todas as mini-paz, decidiram:
- Se abriram Luanda, vamos aproveitar sair, ir passear, visitar as famílias, ver monumentos, fazer turismo, revitalizar-se longe dos filhos, etc.
Uns estão a sair mesmo com turismos, uns é com pick ups e jeeps. Outros é mesmo com e em camiões. O sarcov-2 e sua pandemia ainda estão a ser ignorados (mas, cuidado)!
De Miconje à Foz do Kunene e do Lobito ao Lwaw, as estradas variam entre o muito bom, o bom, o razoável, o dá para chegar ao destino e o horrível a precisarem de cabeça pensante e mão trabalhadora para conseguir dinheiro e refazê-las.
Foi nesse turbilhão de ideias e de "vamos aproveitar" que a minha "ndona" disse para mim:
- Ó coiso, você num tá de férias?! Ainda vamos ao Andulo!
Para quem esteja em falta, qualquer ordem é só já acatar. Peguei as malas e pu-las no carro. Tutulukutu! Nem tempo tive para em pensar em tal Andulo em que nunca estive.
Quando tentei reclamar, só um pouco, a procurar mostrar que existo, a senhora ansiosa em ir à sua terra "natal", gritou-me um "vamos com Gêpess". Nem sequer perguntou se o telefone tinha saldo de dados para alimentar o GPS. Fomos. Andar era só andar.
Depois de duas horas e meia ao volante, ergui a cabeça e vi uma placa escrita QUIBALA NORTE. A mulher também retirou os olhos do whatsapp e exteriorizou um estalido bocal (na minha língua é muxoxu).
- Fiiuuu! Não estavas só a temar que não conheces o caminho? Estamos a chegar à Quibala. Depois da Vila, entra pelo caminho do Mussende. - Ordenou.
Acelerei. A estrada estava boa. O velocímetro parecia decidido em ficar entre os 120 e 140Km/h. O motor contava uma canção alegre. Parecia empolgado. Não demorou, encontramos outra placa: ANDULO.
A mulher falou para mim, desta vez, com carinho.
- Ó marido, ainda chegamos!
- Chegamos onde?
- Não viste a placa?
- E as casas partidas, e o bunker, e a administração? - Lembrei-me da guerra e do tempo em que na recruta adoptei a alcunha de Matoumorro e comecei a rajadá-la com perguntas.
- Calma. Tudo isso está lá à frente. - Respondeu-me, ao que de imediato baixou o vidro para saudar:
- Ndati, ó manas, ainda passaram bem?!
À saudação recebeu silêncio apenas. Achei estranho mas ela relevou, atestando que "o Andulo estava a ser invadido por gente estranha que não falava umbundu" e podia tratar-se desses grupos trazidos pelo comércio e pelo garimpo nas margens do Kwanza.
Seguindo o ritmo da canção da máquina, voltei a acelerar. Não tardou, encontrámos uma vila. Os povos falavam uma língua bantu do norte de Angola. Algumas palavras me pareciam familiares. Eram próximas do Lingala. Mas outras se aproximavam ao Kimbundu.
- Andulo por aqui?! A mim parecia estranho. Menos a ela que fixou o olhar nos destroços duma residência que parecia majestosa num tempo a caminho de meio século.
A falar com os botões, fiquei à busca de respostas sobre o que fora aquele edifício de dois pisos, deitado abaixo, antes de ter sido transformada em simples pedaços de betão e ferros retorcidos. Vieram-me à memória a história e estórias de 1975 quando o norte de Angola foi disputado pela FNLA e pelo MPLA que proclamou a RPA.
Para a mulher, estávamos a entrar no Andulo. Apenas quando viu os as redes, os pescadores, as canoas estendidas ao sol e o extenso mar se deu conta de que estávamos num "Andulo" em que não se fala Umbundu.
- É Nzeto, afinal! - Concluímos.
Um amigo ambrizetano (pois nasceu antes do 25 de Abril), disse-me já em Luanda quem foi que dinamitou o edifício que conta a história da guerra na vila de Nzeto.
- Até 1975 e alguns anos depois, era edifício do Comércio. Depois, terá sido convertido em Sede Municipal do MPLA. Foi durante a insurreição pós-eleições que as milícias do partido perdedor invadiram a vila e dinamitaram o edifício. - Contou o Nelson.
Vieram-me outras memorias do Libolo. Junto ao Cine há um edifício que era de dois pisos cujos "pés" foram estropiados, fazendo-o cair sem possibilidade de ter proveito. O Laboratório da "Escola Técnica Preparatória", o Tribunal dos anos oitenta e a esquadra policial tiveram a mesma sorte, em Kalulu.
Consciente de que estava no seu país, extenso e diverso, mas não no seu Andulo bieno, a mulher soltou um "e agora"?!
- Pois é. Agora é seguir a estrada ao encontro de novas "descobertas". Há Mbanza-a Kongo, Noki, Soyo e Matadi pela frente!