O silêncio dentro de um avião não é o silêncio da contemplação, nem o repouso da viagem. É um vazio que se impõe, como se a bordo tivesse sido decretada a ausência de música, de filmes, de anúncios, de qualquer sinal que nos situe entre a origem e o destino. O passageiro, entregue à monotonia, descobre que a única “performance” disponível é o ressonar da ocupante da cadeira da frente.
"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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domingo, fevereiro 15, 2026
UM VOO SEM VOZ NEM IMAGEM
domingo, fevereiro 08, 2026
CAMINHADA, LEITÃO E SOLIDARIEDADE MECÂNICA
Eram três angolanos: duas mulheres e um homem. Uma das senhoras tinha uma encomenda por despachar nos correios e o homem, já mais velho, acossado pela fome e pela sede de caminhar, encontrou companhia para satisfazer o desejo das pernas e o roncar do estómago. Rumaram da José Malhoa ao El Corte Inglês. Bons passos, marcados sem stress nem pressa.
Adentraram a grande superfície — como chamam os tugas. A Fina, que também é fina no trato das questões laborais e profissionais, despachou a encomenda enquanto Suzana vasculhava a internet para confirmar que nada de anormal contra a sua organização circulava nas redes sociais.
Cumprida a demanda, meteram-se a percorrer o longo corredor do piso inferior até ao “Forno do Leitão do Zé”.
— Eu também gosto de porco — emendou a Fina, ao que Suzana acompanhou na decisão.
Pediram três pratos, regados com água e refrigerantes. O preço era razoável e aceitável para a vida do “turista” com poucos dias ainda de estadia. Enquanto o velho Soba e a Fina acompanhavam os preparativos e entretinham com conversa jovem brasileiro que os atendia, a Suzana foi ocupar uma mesa de quatro lugares.
Berta, jovem cafuça, ocupava uma das mesas. Inicialmente parecia cabo-verdiana. Depois, chamados por uma força invisível, juntaram-se à mesa próxima. Já eram quatro negroides. Chegou a amiga de Berta, Luísa, com sotaque ainda angolano. Depois, outra senhora negroide ocupou a mesa da mesma fila, perfazendo seis negros sentados espontaneamente lado a lado.
O ajuntamento não programado foi obra da lente da solidariedade mecânica _ conceito de Émile Durkheim _, sendo uma forma de coesão social baseada em semelhanças — culturais, linguísticas, raciais ou religiosas.
Segundo a teoria de Durkheim, indivíduos que partilham origens ou identidades comuns tendem a se reconhecer mutuamente e a se agrupar, mesmo sem combinar previamente.
Os angolanos e africanos, ao se encontrarem no mesmo espaço, foram atraídos uns pelos outros por afinidades de língua, sotaque e aparência. A proximidade espontânea criou uma pequena comunidade momentânea, marcada pela sensação de pertença e reconhecimento.
O encontro no “Forno do Leitão do Zé” não foi apenas gastronómico: foi um retrato vivo da solidariedade mecânica, essa força silenciosa que aproxima pessoas semelhantes e lhes dá a sensação de estarem em casa, mesmo longe dela.
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Publicado pelo Jornal de Angola a 23.22.2025
domingo, fevereiro 01, 2026
LYAMBA: PROIBIÇÃO, CONSUMO E REGULAÇÃO
Em Angola, o porte e consumo de lyamba permanecem proibidos por lei. O "Relatório Nacional sobre Drogas 2022" assinala que “a cannabis é a substância ilícita mais consumida no país, sobretudo entre jovens dos 15 aos 34 anos”.
A norma jurídica vigente enquadra o consumo como ilícito, mas a realidade mostra que o uso se tornou mais visível em espaços públicos ou de frequência pública, contrastando com os tempos em que os fumadores se escondiam e envergonhavam de ser catalogados como "lyambeiros ou kangonyeros".
Nas ruas da Vila de Viana, junto ao residencial Kizomba, o consumo é perceptível em quintais onde se organizam festas e descampados, acompanhado pelo cheiro característico e pelo estalar das sementes queimadas.
A lógica económica ajuda a explicar o fenómeno: quanto maior o número de consumidores, maior a procura; quanto maior a procura, maior o preço ou a produção. Assim, a lyamba torna-se um negócio lucrativo, ainda que clandestino.
Experiências internacionais:
- Namíbia: O consumo de cannabis é ilegal. A legislação herdada do período colonial prevê penas severas. Em 2023, o Namibian Legal Assistance Centre afirmou que “a criminalização da cannabis é discriminatória e desactualizada”, defendendo reformas legais.
- África do Sul: Em 2024, o Parlamento aprovou a Cannabis for Private Purposes Act. O texto legal estabelece que “adultos podem cultivar e consumir cannabis em casa, desde que não haja crianças presentes”. A venda comercial continua restrita, mas a lei eliminou registos criminais de condenados por posse.
- Holanda: Conhecida pela política de tolerância, permite a venda de pequenas quantidades em coffeeshops. Contudo, a posse acima de 5 gramas e o cultivo comercial permanecem ilegais. Em 2025, o governo iniciou um projeto-piloto para regulamentar toda a cadeia de produção e distribuição. O Dutch Ministry of Health declarou que o objectivo é “tornar o mercado mais transparente e controlado”.
A comparação mostra três modelos distintos:
- Proibição rígida (Namíbia) mantém o consumo na clandestinidade.
- Legalização parcial (África do Sul) reconhece o uso privado, mas limita o comércio.
- Regulação controlada (Holanda) integra produção e venda em sistema oficial.
Angola enfrenta o dilema entre manter a proibição, que não impede o consumo, ou avançar para uma regulação que permita controlar, tributar e reduzir riscos sociais.
Em síntese, a lyamba já é um negócio lucrativo na prática. A questão que se coloca é se o Estado angolano deve continuar a combatê-la apenas pela via repressiva (mas branda e incossistente) ou se deve considerar modelos regulatórios que conciliem saúde pública, economia e liberdade individual.
Fontes:
_ Relatório Nacional sobre Drogas 2022 – Angola
_ Namibian Legal Assistance Centre, 2023
_ Cannabis for Private Purposes Act, South Africa, 2024
_ Dutch Ministry of Health, Pilot Project on Cannabis Regulation, 2025.
Publicado no Jornal Pungo a Ndongo, a 24 de Janeiro de 2026
quinta-feira, janeiro 29, 2026
LINHA DE SINTRA: ENTRE CARRIS E DESENCONTROS
Desde 2002 que me sento, quando calha, nos "bancos enegrecidos" dos comboios que ligam Lisboa-Oriente a Sintra. A viagem é sempre mais do que deslocação, configurando-se num retrato vivo da cidade em mutação.
segunda-feira, janeiro 26, 2026
Nota de Autor
Soberano Kanyanga é o nome literário de Luciano Canhanga, escritor, cronista e investigador das tradições culturais angolanas. A adopção do pseudónimo corresponde ao compromisso estético e intelectual que o autor assume com a palavra escrita, com a memória colectiva e com o imaginário das comunidades que o formaram.
Natural do Libolo, Cuanza‑Sul, e radicado em Luanda, Luciano Canhanga construiu um percurso marcado pela observação fina do quotidiano, pela recuperação das narrativas locais e pelo diálogo contínuo entre a infância, a oralidade e a modernidade angolana. A sua escrita combina ternura e rigor, humor e crítica social, numa constante afirmação da identidade cultural.
Contos para Lúcia, obra dedicada à sua filha, inscreve‑se na continuidade desse projecto literário: resgatar valores, afectos e memórias que atravessam gerações, valorizando o espaço familiar como território de aprendizagem sensível e criativa. Cada história é um gesto de carinho, um fragmento de vivência e um convite à imaginação.
quinta-feira, janeiro 22, 2026
AMÉLIA SUTILA, MULHER LOTADORA DE VIANA
quinta-feira, janeiro 15, 2026
PEDRA, BRONZE E IDEOLOGIA
Com a ascensão do modelo socialista e a redefinição dos símbolos públicos, o busto de Américo Tomás foi removido do pedestal, sendo substituído por uma figura emblemática do marxismo internacional: Vladimir Lénin, descrito na época como o “guia mundial dos trabalhadores”. A nova escultura representava o alinhamento ideológico do novo Estado angolano com os países do bloco socialista, num contexto de luta anti-imperialista e afirmação revolucionária.
O busto de Lénin permaneceu no largo até perto de 1990, ano da queda do Muro de Berlim, que marcou o declínio das referências soviéticas em várias partes do mundo. Com o fim da Guerra Fria e a abertura política em Angola, o monumento foi desmontado e separado: o pedestal de mármore encontra-se hoje no Hall do Governo Provincial do Uíge, enquanto o paradeiro do busto permanece desconhecido.
Mais do que simples estruturas de pedra e bronze, os monumentos são marcos da memória colectiva, que espelham os ciclos de poder, os ventos da transformação e os pactos simbólicos entre o Estado e o povo. A sua trajectória convida à reflexão sobre o papel da escultura pública na construção da identidade nacional, na pedagogia da história e na reconciliação com o passado.
domingo, janeiro 11, 2026
ANGOLA VS PORTUGAL: DESCOBERTAS & RECIPROCIDADE
Seguiram-se degredados, condenados, pobres sem terra, artesãos sem mercado, analfabetos e soldados. Paulo Dias de Novais, em 1575, fundou a colónia de Luanda com quatrocentos homens, muitos deles aventureiros e militares sem fortuna. Vieram em nome da “civilização”, mas logo se dedicaram ao comércio de escravos e à apropriação de terras e recursos naturais. Ficaram quinhentos anos, sem que ninguém lhes cobrasse renovação de estadia ou exigisse documentos. Tornaram-se donos de tudo quanto era nosso, por "dádiva" que diziam divina.
Hoje, cumprida a “missão civilizadora”, não será lídino que nós também descubramos o outro lado? Vamos com passaportes, levamos algum dinheiro e ficamos para conhecer como são por lá as coisas. Não nos apossamos de terras, de minas de ouro ou poços de petróleo, nem de mulheres alheias. Apenas buscamos oportunidades. Quem é, afinal, o maior pecador nesta equação de aproveitadores?
Os números falam por si. Em Angola, embora o fluxo de novos emigrantes portugueses tenha diminuído [menos de mil chegaram em 2024] a comunidade instalada continua numerosa, mantendo presença visível nas cidades e nos negócios. Ilegais, com sobreestadia, também os há e nem temos fechado supermercados para os rusgar.
Até 1975 viviam "ilegalmente" no território angolano perto de meio milhão de portugueses. Em 2014 a estatística apontava 120 mil e actualmente são cerca de 30 mil.
Em Portugal, por sua vez, a comunidade angolana cresceu 66% em 2025, chegando aos 92 mil residentes legais, tornando-se a segunda maior entre os estrangeiros.
Reciprocidade, pois. Ontem vieram sem passaporte, hoje nós vamos com documentos. Ontem instalaram-se sem pedir licença, hoje buscamos apenas oportunidades legítimas. Ontem apropriaram-se de terras e de vidas, hoje procuramos trabalho e dignidade. A história, vista de frente, devolve-nos o espelho: quem descobriu quem, e quem aproveitou mais?
Por: Soberano Kanyanga
quarta-feira, janeiro 07, 2026
UMA HISTÓRIA POR CONTAR EM MAKELA MA NZOMBO
Na rua principal de Makela ma Nzombo [Maquela do Zombo], onde o trânsito flui em dois sentidos separados por um longo "chouriço" e a vida administrativa pulsa entre edifícios públicos, emerge uma estrutura silenciosa e enigmática. Entre a Direcção Municipal da Saúde e a Administração local, no lado direito de quem sobe, encontra-se um edifício de alvenaria cuja laje superior está desabada — como se tivesse sido interrompido por uma força súbita.
O edifício, hoje com a parte superior decepada e sem função aparente, levanta perguntas que ecoam entre os visitantes e os moradores mais novos:
Que serventia teve antes de ser danificado?
Quem o construiu?
Quem o destruiu, quando e porquê?
Nenhuma placa, nenhum registo visível, nenhuma memória oficial parece responder com clareza ao visitante de Makela ma Nzombo.
Mais do que ruína, a estrutura representa uma história por contar — um capítulo suspenso da memória urbana, que desafia o esquecimento e convida à investigação. A sua presença física, entre instituições que simbolizam cuidado e governação, reforça o contraste entre o que foi e o que poderia ter sido.
Recuperar a história deste edifício é mais do que um exercício de curiosidade: é um gesto de respeito pela verdade, pela arquitectura interrompida e pela memória dos que ali viveram, trabalharam ou resistiram.
quinta-feira, janeiro 01, 2026
ESCOLAS, IGREJAS E O PARADOXO DA SOLIDARIEDADE
Quando se propõe a edificação de uma escola comunitária — mesmo que provisória — para elevar o nível de conhecimento das crianças e da própria aldeia, a resposta é quase sempre categórica: “É obrigação do governo.” E de facto, é. Todavia, quando o Estado ainda não chegou, seria nocivo à comunidade “quebrar esse galho”, se quem mais ganharia seria ela própria?
O paradoxo torna-se mais evidente ao observarmos as igrejas locais. Com recursos escassos, os aldeões conseguem erguer templos imponentes para os seus padrões, sustentando-os com ofertas semanais — pecuniárias e alimentares. A fé mobiliza, une e constrói. Mas por que não se aplica essa mesma força à educação, à saúde, à dignidade dos que servem?
Em tempos, sugeri a construção comunitária de casas para professores e enfermeiros que percorrem até 200 km para prestar serviços à aldeia. Argumentei que isso atrairia suas famílias, reduziria faltas e garantiria melhor atendimento. A resposta foi dura: “É obrigação do governo. Eles são pagos e não dividem seus ordenados connosco.”
E os pastores? Que mais-valia trazem? São pagos com as ofertas domingueiras e outras dos mesmos crentes que negam colaborar com a educação e a saúde. Os pastores dividem os seus rendimentos? Ou será que oferecem algo mais intangível — fé, esperança, pertença — que os torna dignos do esforço colectivo?
Esta reflexão não pretende desmerecer a fé, mas sim convocar a consciência comunitária para o valor da educação e da saúde como pilares de emancipação. Se a fé constrói templos, que a razão construa escolas. Se o espírito acolhe pastores, que o corpo acolha professores e enfermeiros. A solidariedade não deve ser selectiva. Ela é o cimento da cidadania.
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Publicado no Jornal de Angola a 09 de Novembro de 2025
segunda-feira, dezembro 29, 2025
CAÇA, MEMÓRIA E EQUILÍBRIO NA ROTA DO WIZI
De três proposições haverá pelo menos uma válida. Era comum, nas minhas andanças pela rota entre Kaxitu [carne pequena] e o Wizi, encontrar "carne pequena" exposta à beira da estrada: símios, seixas, veados, pacas e outros bichos do mato, caçados com armadilhas ou caçadeiras, pendurados em varas ou estendidos sobre folhas de bananeira. A paisagem era quase sempre a mesma — aldeões atentos ao movimento, compradores de passagem, e o cheiro da caça fresca a anunciar o sustento do dia.
Recentemente, fiz uma viagem de ida e volta a Maquela do Zombo, passando por Mpangi a Lukeni [Pango a Luquém], e algo me surpreendeu: não vimos animais expostos, nem carne já tratada. O silêncio da estrada parecia dizer mais do que mil cartazes. Terão desaparecido os animais nas redondezas, vítimas da caça desenfreada? Terão os aldeões despertado para o risco da extinção? Ou será que a fiscalização apertou o cerco aos caçadores furtivos?
Seja qual for a resposta — ou se forem todas juntas —, o certo é que, enquanto as papilas gustativas reclamavam a ausência de carne de caça, a consciência ambiental regressava tranquila. Porque, se a caça para fins alimentares é compreensível e até legítima em muitos contextos rurais, a caça mercantilista, feita sem critério nem medida, é eticamente reprovável e ecologicamente perigosa.
Em Angola, a caça de subsistência está profundamente enraizada nas práticas ancestrais dos povos do mato. É fonte de proteína, rito de passagem, saber transmitido entre gerações. Eu próprio iniciei-me na arte da caça com tenra idade, no actual município da Munenga: primeiro como acompanhante dos mais velhos, depois como carregador de presas abatidas, e mais tarde como caçador singular, com armadilhas feitas à mão e olhos treinados para ler pegadas.
Mas os tempos mudam. Segundo o Decreto Presidencial n.º 222/24, que regula a caça e a gestão sustentável da fauna selvagem em Angola, é imperativo garantir o equilíbrio ecológico, a justiça social e a preservação das espécies. A Estratégia Nacional da Biodiversidade (2019–2025) reforça que a exploração dos recursos biológicos deve atender às necessidades actuais sem comprometer as gerações futuras.
O ponto de equilíbrio talvez esteja aí: entre o respeito pela tradição e a responsabilidade com o futuro. Caçar para comer, sim. Caçar para enriquecer, não. Preservar o que resta, regenerar o que se perdeu, e educar para que a caça continue a ser um saber — e não uma sentença de morte para a biodiversidade.
Porque, no fim, a estrada do Wizi não é apenas um caminho asfaltado ao qual confluem outros caminhos nascidos no denso sertão. É também um espelho do que somos e do que escolhemos deixar para os que vêm depois.
Publicado no Jornal de Angola de 24 de Janeiro de 2026
segunda-feira, dezembro 22, 2025
IA: DADOS PESSOAIS E O PONTO DE EQUILÍBRIO
Todavia, o uso reiterado da IA expõe riscos: a dependência excessiva pode levar à divulgação inadvertida de informação sensível, sobretudo quando prompts ou outputs não são devidamente filtrados.
A protecção de dados na legislação angolana
Angola dispõe da Lei n.º 22/11, de 17 de Junho, sobre a Protecção de Dados Pessoais, que estabelece princípios fundamentais:
- Transparência: o titular deve ser informado sobre o tratamento dos seus dados.
- Licitude e proporcionalidade: os dados só podem ser recolhidos e tratados de forma legal e na medida necessária.
- Finalidade: os dados devem ser usados apenas para o propósito declarado.
- Veracidade e conservação limitada: garantir exactidão e evitar retenção indefinida.
A lei criou ainda a Agência de Protecção de Dados (APD), responsável por fiscalizar e regular o cumprimento das normas.
O que NÃO deve ser inserido num prompt
Ao elaborar prompts para Inteligência Artificial (IA) é essencial evitar inserir dados sensíveis ou não confirmados publicamente, sob pena de expor informação estratégica ou comprometer a credibilidade institucional. Exemplos:
- Dados pessoais: nomes completos, números de telefone, moradas, documentos de identificação.
- Informação financeira confidencial: salários, contratos, valores de transações não divulgados.
- Agenda de altas entidades: datas e locais de deslocações oficiais não anunciadas publicamente.
- Decisões internas em curso: projetos ainda em análise, deliberações não aprovadas, negociações em andamento.
- Conteúdos estratégicos: planos de segurança, relatórios reservados, informações militares ou empresariais sigilosas.
Reflexão sobre o exemplo da agenda presidencial
Se o comunicador sabe que o Presidente da República vai proceder a uma inauguração dentro de duas semanas, mas a assessoria de imprensa ainda não informou publicamente, esse dado não deve ser inserido no prompt.
- Razão: a agenda presidencial é dinâmica e pode ser alterada; antecipar informação não oficial pode gerar desinformação ou quebra de protocolo.
- Boa prática: só utilizar dados já confirmados e divulgados oficialmente. Caso contrário, o prompt deve ser construído em termos genéricos, sem comprometer a confidencialidade.
Exemplo seguro: “Elabore um texto sobre a importância das inaugurações presidenciais para o desenvolvimento nacional” (sem mencionar data ou local não divulgados).
O ponto de equilíbrio
O equilíbrio entre a incontornabilidade da IA e a protecção de dados reside em três pilares:
- Uso consciente: prompts devem ser redigidos com rigor, evitando inserir dados sensíveis ou não confirmados.
- Curadoria humana: cabe ao comunicador institucional filtrar, adaptar e validar os conteúdos produzidos pela IA.
- Conformidade legal: qualquer utilização de dados deve respeitar os princípios da Lei 22/11, garantindo que a inovação não compromete direitos fundamentais.
Conclusão
A Inteligência Artificial é incontornável e continuará a moldar a comunicação institucional. Porém, o seu uso deve ser acompanhado de prudência e respeito pela Lei de Protecção de Dados Pessoais, sob pena de transformar eficiência em vulnerabilidade.
O ponto de equilíbrio reside na integração harmoniosa entre máquina e humano: a IA fornece velocidade e escala, enquanto o comunicador garante legitimidade, ética e segurança. Assim, a mensagem institucional não apenas informa, mas preserva a confiança pública e protege os direitos individuais.
Bibliografia
Adriano Charles Silva Cruz, Inteligência Artificial e a Comunicação nas Organizações, Revista Temática – UFPB, 2023.
Agência de Protecção de Dados (APD), Lei n.º 22/11 – Protecção de Dados Pessoais, Diário da República, APD Angola, 2011.
Glaucia Ellen de Sousa França & Maria Lívia Pachêco de Oliveira, O Impacto da Inteligência Artificial na Comunicação Organizacional, Intercom – Congresso NE, 2024.
Rafael Cardoso Sampaio, Marcelo Sabbatini & Ricardo Limongi, Diretrizes para o Uso Ético e Responsável da Inteligência Artificial Generativa, Cadernos Gestão Pública e Cidadania – FGV, 2025.
Wallace Santos, Segurança de Dados e Ética em Engenharia de Prompt: O Elo Frágil entre Humano e IA, DIO, 2025.
Universidade de Évora, Estratégia Institucional para o Uso da Inteligência Artificial, Rádio Campanário 2025.
Por: Soberano Kanyanga (Luciano Canhanga)
segunda-feira, dezembro 15, 2025
MINI‑MANUAL PARA CONSTRUÇÃO DE PROMPTS
Principios fundamentais
- Clareza: o prompt deve ser directo, sem ambiguidades.
- Objectivo: indicar sempre a finalidade (nota oficial, notícia, resumo, dramatização).
- Contexto: incluir público‑alvo, tom desejado e enquadramento institucional.
- Estrutura: organizar em tópicos ou instruções sequenciais.
- Exemplificação: fornecer modelos ou exemplos ajuda a Inteligência Artificial a alinhar‑se ao estilo pretendido.
Elementos a incluir
- Tema central: assunto ou evento a tratar.
- Formato: nota oficial, notícia, carta, discurso, etc.
- Tom: formal, jornalístico, educativo, dramatizado.
- Dados confirmados: datas, locais, nomes e factos já divulgados publicamente.
- Estilo: adjectivação moderada, linguagem clara e objectiva.
Elementos a evitar
- Dados pessoais: números de telefone, moradas, documentos de identificação.
- Informação financeira confidencial: salários, contratos, valores não divulgados.
- Agenda de altas entidades não publicada: datas e locais de deslocações oficiais ainda não confirmadas pela assessoria.
- Decisões internas em curso: projectos em análise, negociações reservadas.
- Planos estratégicos sensíveis: segurança, relatórios militares ou empresariaes sigilosos.
Exemplo prático:
Se o comunicador sabe que o Presidente da República vai inaugurar uma obra dentro de duas semanas, mas a assessoria ainda não divulgou oficialmente, esse dado não deve ser inserido no prompt.
- Risco: a agenda pode ser alterada e a divulgação antecipada compromete protocolo e credibilidade.
- Alternativa segura: “Elabore um texto sobre a importância das inaugurações presidenciais para o desenvolvimento nacional” (sem mencionar data ou local não confirmados).
Boas práticas
- Usar linguagem neutra: evitar juízos de valor ou adjectivos excessivos.
- Ser específico: quanto mais detalhado o pedido, mais preciso o resultado.
- Revisar outputs: nunca publicar sem revisão/organização humana.
- Adaptar ao público: ajustar o tom e o ritmo narrativo conforme o destinatário.
- Garantir conformidade legal: respeitar a Lei n.º 22/11 sobre Protecção de Dados Pessoais (Angola).
Conclusão
A construção de prompts é arte e técnica. A Inteligência Artificial é incontornável, mas só produz resultados legítimos e aceitáveis quando guiada por instruções claras, seguras e conformes à lei e ao conhecimento. O comunicador institucional deve assumir o papel de curador/sistematizador, traduzindo a linguagem máquina em mensagem humanizada, protegendo dados e preservando a confiança pública.
Aqui está uma bibliografia ajustada ao conteúdo do seu mini-manual, organizada por ordem alfabética de autor. Ela cobre temas como engenharia de prompts, comunicação institucional, proteção de dados e boas práticas com IA.
Bibliografia
* Ana Nobre, Guia Completa de Como Criar Prompts Perfeitos Para Modelos de IA: IA & A Educação, 2025;
* Damares Lourenço, Engenharia de Prompt: O Coração da Revolução da Inteligência Artificial, DIO, 2025;
* David Gabriel, Como Escrever Prompts Eficazes Para IA: O Guia Completo Para Obter Resultados Incríveis, Inteligência Futura, 2025;
* Luciano Canhanga (Soberano Kanyanga) | Mini-Manual para Construção de Prompts, Edição própria, www.mesumajikuka.blogspot.com, 2025;
* Pachi Parra, A Comunicação com LLMs: O Poder da Engenharia de Prompts, iMasters, 2025;
* Portal IA Hoje, Prompt Engineering – Como Comunicar com a Inteligência Artificial, Inteligência Artificial Hoje, 2025;
* República de Angola, Lei n.º 22/11 – Lei da Protecção de Dados Pessoais, Diário da República / Assembleia Nacional, 201;
* Redação PUCPR, Engenharia de Prompt: Como Maximizar o Potencial da IA, Pós Digital PUCPR, 2025.
terça-feira, dezembro 09, 2025
A INCONTORNABILIDADE DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PRODUÇÃO DE TEXTOS INSTITUCIONAIS
Conceitos
sexta-feira, dezembro 05, 2025
AUTOCLISMO ATRASA VIAGEM EXECUTIVA DA MACON POR 3 HORAS
Os passageiros, já com malas e carga depositadas nos porões, ao apresentarem as passagens ao motorista, ouviram, por duas vezes, a resposta que lhes causou desalento:
"O vosso autocarro é das 7h30 e não este".
Furiosos, cerca de uma dezena de passageiros dirigiu‑se à sala do chefe de plantão, enquanto outros pressionavam as vendedoras de bilhetes e anunciantes das partidas.
Segundo o chefe de plantão, «houve falta de coordenação entre a sala e a comunicação áudio». Explicou ainda que, embora o autocarro estivesse pronto, «verificou‑se avaria no autoclismo».
Assim, uma falha técnica aparentemente menor acabou por impor aos passageiros da rota Luanda ao Sumbe, Benguela e Lubango [autocarro executivo com partida agendada para as 7h30] uma espera de três horas, com prejuízos nas ligações e compromissos marcados, para além de danos morais.
Solicitado o livro de reclamações, não estava no seu posto o zelador deste.
segunda-feira, dezembro 01, 2025
A FOTOGRAFIA "PAGA-JÁ" DO TIO ALBINO NGANGA
Ali, na fronteira entre esses dois universos, encostados a um antigo Berliet Tramagal militar e a um Peugeot branco - ambos abandonados e fazendo companhia ao lixo ainda escasso - erguia-se a casa de Albino Nganga, cuja moradia de pau-a-pique possuía um quintal de chapas de zinco acastanhadas pelo tempo e retorcidas pelo vento.
Amigo dilecto do meu tio, Ferreira Nganga, o velho Albino possuía uma máquina para fotografia momentânea que a criatividade luandense de então baptizara de "paga-já". Aos nossos olhos de crianças, a máquina era uma caixa pesada, suportada por um tripé - uma câmara escura e mágica cujos segredos só ele conhecia. Tanto mais que nunca fora visto a ceder a caixa fotográfica a outra pessoa.
A minha primeira foto foi uma "paga-já", quando frequentei a "Escola Grande" da Terra Nova e contava dez anos. Antes disso, nunca fora fotografado para tratar documento nenhum. As minhas fotos mais recuadas, ainda disponíveis, são do tempo em que estudei no Ngola Mbandi (sétima e oitava classes), sendo já no início da década de 90. Conservo o cartão da AAEM - Associação dos Alunos do Ensino Médio, mesmo sendo, à data, pré-aluno do ensino médio.
Em 1984 ou 85, o tio Ferreira Nganga levou-me a casa do seu parente e amigo Abino Nganga para tirar um retrato. O velho Albino começava sempre com uma advertência solene: "atenção, não se mexe!"
De tanto fitar a câmara enquanto o fotógrafo mexia demoradamente nos instrumentos, o petiz acabava por fechar os olhos. E era exactamente nesse instante de fadiga visual que ele executava o mágico flash. A regra era clara: caso precisasse de repetir o flash, pagar-se-ia a dobrar. Era, de facto, um sacrilégio consumar a fotografia paga-já do tio Albino.
Naquele tempo, os velhos eram profundamente unidos, fazendo-se sempre acompanhar de filhos e sobrinhos para que fossem conhecidos pelos parentes. Todos os amigos e coetâneos do tio eram tratados por "tio", tecendo uma vasta rede de cumplicidades que fortalecia os laços entre todos.
sexta-feira, novembro 28, 2025
DE QUEM E PARA QUE SERVE O DINHEIRO DA IGREJA?
Numa busca básica ao "mundo cibernético" informei-me que "as catedrais e sedes paroquiais da Igreja Católica em Angola (ICA), entre o século XIX e século XX, foram construídas com uma combinação de materiais locais e importados. A arquitectura religiosa refletia tanto influências europeias quanto adaptações às condições locais, sendo os principais recursos utilizados: (i) Pedra e tijolo: nas cidades, utilizava-se pedra esculpida e tijolos cozidos, muitas vezes importados de Portugal ou produzidos localmente; (ii) Madeira: era um material essencial, especialmente para estruturas internas, telhados e portas. Muitas igrejas utilizavam madeira de árvores nativas, como o pau-ferro e o mogno; (iii) Argamassa e cal: cal era um elemento fundamental na construção, usada para unir tijolos e pedras. Muitas vezes, era produzida a partir de calcário local; (iv) Telhas cerâmicas: algumas igrejas tinham telhados cobertos com telhas de barro cozido, que eram importadas ou fabricadas em Angola; (v) Materiais decorativos: vitrais, altares esculpidos e imagens sacras eram frequentemente importados da Europa, especialmente de Portugal e Itália.

















