"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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terça-feira, agosto 04, 2026
O GIGANTE ADORMECIDO DE MALANJI
segunda-feira, agosto 03, 2026
EXPLORANDO AS MARGENS DO RIO QUE DÁ NOME A MALANJI
Dezoito de Julho/26. Sol ainda preguiçoso, como acontece nas manhãs de Kasimbu. Saí do casco urbano desenhado a lápis, esquadra e régua — onde as ruas ainda teimam em ser perpendiculares — para me perder, de propósito, nas entranhas da periferia. Tomei a manhã para conhecer dois bairros que os meus amigos, em Luwanda, evocam com a nostalgia da infância: Maxinde e Kangambu. A memória deles serviu de bússola, afinando a minha intimidade com esta terra.
Maxinde, contíguo à cidade (do lado de cá do rio, para quem vai a Ndalatandu), foi o meu primeiro destino. Ainda cheira a centro, mas já se ouve o cacarejar das galinhas e o grunhido dos ngulu a disputar o lixo que, por essas bandas é raro. As casas fazem a transição entre as de bloco de cimento e a maioria de adobe, blocos de barro cru que o sol endurece. De Maxinde, percorri uma rua longitudinal que me conduziu à Katepa-Zona 5, onde a malha urbana se desfaz em caminhos que se perdem na imensidão do bairro.
Regressei ao eixo principal e atravessei a ponte sobre o Rio Malanji, que corre lento e barrento. A margem oposta, ao rio despe-se de vez do urbanismo. Antes de alcançar Kangambu, passei pela Kamoma, paralela à Carreira de Tiro — nomes que os mais novos já não sabem explicar, mas que ficaram como cicatrizes no mapa, embora a pólvora se tenha dissipado no tempo que apenas os velhos e os militares conservam. A estrada é a EN230, que liga Ndalatandu a Saurimo, rasgando Malanji.
O interior ee Kangambu, paralelo ao Bairro Campo "de Aviação", espera pelo asfalto. Imperam ainda as ruelas desenhadas sem a destreza do arquitecto e os caminhos que se estreitam até às lavras. A terra vermelha domina. Os pés andrajosos ganham cor e a pele ressequida, nesse tempo frio e seco, transforma-se em mapa.
Contei as casas pelas veredas. As de cimento são ilhas raras; a maioria é de adobe, coberta por chapas de zinco que tilintam com o vento e ofendem os olhos quando o sol as atinge. Os velhos colmos de capim são hoje uma raridade, quase lenda. Os mais velhos dizem que o zinco chegou para ficar, mesmo que queime a alma ao meio-dia.
Enquanto pisava o Kangambu, viajava com os meus amigos que hoje estão em Luwanda. Eles falam destes bairros como quem fala de um quintal enorme, onde as brincadeiras se misturavam ao cheiro do peixe seco e do milho assado. No bulício dos carros e arranha-céus, basta mencionar o meu Lubolu para que os olhos deles viajem para estas margens, para as casas de barro cru e as chapas de zinco que, vistas do alto, parecem escamas de um dragão adormecido.sábado, agosto 01, 2026
A CABEÇADA DE JOSEFA
Na nossa infância, no Kaputu, Rua da Ambaca, os bilos estavam sempre presentes. Era como se fossem pão de cada dia. Faziam parte das brincadeiras e serviam de testes para hierarquizar os grupos.
quinta-feira, julho 30, 2026
FRUTAS SILVESTRES: MEMÓRIA DE VIAGEM
sábado, julho 25, 2026
QUEM PAGA O MEU DINHEIRO?
Por alguns instantes, o acampamento de Cifwe, na comuna de Kalunda, município de Mukondo, pareceu-me casa. Não pela proximidade, mas pelo eco de uma pronúncia rara: “Kânyaanga”, dita com a firmeza dos meus do Lubolu, sem o peso aportuguesado que tantas vezes distorce o apelido.
O diálogo diário de segurança, obrigatório na indústria mineira, desenrolava-se como ritual de sobrevivência. Mas antes, um detalhe curioso: ali não há rede de telefonia. A internet, frágil e limitada, nasce de uma engenharia satelital que cobre apenas vinte metros de raio.
Quando o telefone conseguiu aceder à rede, assumiu o fuso da Zâmbia. O despertador, cúmplice involuntário, tocou às 4h30 em vez das 5h30 combinadas. Acordei cedo demais, como se o tempo me tivesse deslocado para além da fronteira invisível. Por pouco, senti-me homem da faixa leste de Angola. Corria o último dia de junho de 2026.
O cansaço da jornada extenuante, porém, fizera com que o sono me tomasse como a própria morte. Nesse mergulho inconsciente, sonhei com as doçuras do desfrute do saldo do meu árduo trabalho. Em viagens fabulosas que a mente tece, fiz compras e cruzei-me com um homem rico, disposto a pagar-me um milhão e meio de dólares em troca de uma consultoria à distância. Prestes a ditar-lhe o número do meu IBAN, o despertador do telefone tocou, arrancando-me brutalmente do sonho.
Acordei maldisposto, sentei-me na cabeceira da cama, elevei as mãos à cabeça e gritei:
— Agora, quem paga o meu dinheiro?
Para único consolo, vieram os gestos de hospitalidade esboçados pelas populações das aldeias por onde passámos. Reunidas na berma da via poeirenta e acidentada, foram acenando calorosamente, como quem diz: "Voltem sempre ao Muxiko Leste e resolvam os problemas que estamos com eles!"
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In: viagem ao Muxiko Leste
quarta-feira, julho 22, 2026
DIZIMUNIVERSALISTA: ENTRE FÉ E RUÍNA
O sol desaparecia atrás das casas e a noite começava a cobrir o bairro. Phande e Kitembo levantaram‑se do banco, caminhando devagar pela rua poeirenta. A conversa ficava no ar, como aviso: o dízimo encapuzado pela ganância é caminho de empobrecimento e só a consciência crítica pode salvar a fé da ruína.
domingo, julho 19, 2026
A ESTRADA E OS BURACOS ÓRFÃOS
(Crónica de viagem)
Viajar pela EN322, entre Kakuzu e Alto Dondo (Malanji e Kwanza-Norte), é experimentar um contraste permanente entre o conforto e a apreensão. O asfalto, em largos troços, apresenta-se em bom estado e convida o condutor a manter uma velocidade compatível com a qualidade da via. É precisamente aí que reside o perigo: quando a confiança se instala, surgem, quase do nada, buracos dispersos, sem qualquer sinalização prévia e sem vestígios de reparação.
quarta-feira, julho 15, 2026
QUEM É O MALUCO?
Corria apressado o mês de Junho. Como o mês, apressados "corriam" os motoqueiros e os condutores dos veículos usados para táxis por aplicativo. Esses jovens que parecem nunca terem frequentado escolas de condução. Sempre eles em primeiro lugar nas manobras perigosas e velocidade descontrolada. Circulava na Rua Ngola Kilwanji, próximo da Mabor. Um passageiro de um SUV baixou o vidro e lançou pela rua um saco com restos de comida. Parei, liguei o intermitente, apanhei o lixo e fui devolver ao condutor do veículo:
— Leve o vosso lixo a um sítio adequado para descarte, disse-lhe com firmeza.
O homem ficou petrificado e repassou o lixo ao "suíno" que se encontrava no banco de trás.
Pedi desculpas aos condutores que vinham atrás de mim e segui viagem. Uns aplaudiram, outros acharam-me “maluco”. Mas quando os valores estão invertidos, ser chamado de maluco é, na verdade, sinal de consciência.
Mais tarde, ao recordar no Facebook o meu pequeno canteiro em Kalulu, lavra anexa à da cunhada Angelina, os sobrinhos informaram-me:
— Tio, a mamã está em Luanda.
Ela tinha viajado do Dondo, onde mora, para visitar os filhos. Aproveitei a ocasião para ir vê-la.
— Cunhada Angelina, precisava de reconhecer presencialmente o quanto foste mãe na minha vida.
Ela sorriu, com a serenidade dos seus 64 anos:
— Meu cunhado, nunca foste chato. Foste apenas alguém que precisava de cuidado, e eu dei o que pude.
Angelina Bernardo Canoa, ex-esposa do meu primo “mano Gonçalves”, cuidou de mim entre 1987 e 1989 com amor e paciência, mesmo em tempos de carência. Hoje, continua a mesma mãe de sempre.
Foi um dia em que fiz duas devoluções: o lixo na estrada e a manifestação de gratidão à família que me sustentou com amor e carinho.
quinta-feira, julho 09, 2026
UTILIDADE COLATERAL DE UM BUSINESS CARD
O business card, tradicionalmente designado cartão de visita, é um pequeno cartão que reúne os principais elementos de identificação profissional de uma pessoa. Inclui, entre outros:
sexta-feira, julho 03, 2026
MAN-PÁSCOA: O KOTA QUE TROUXE RESPETO À RUA DA AMBACA
quinta-feira, julho 02, 2026
A CASA QUE DESABA
Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.
quarta-feira, julho 01, 2026
DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS
Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.
Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.
O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.
A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.
— We want eat, disse-lhe impaciente.
O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.
— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!
Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.
O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”. Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.
Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.
Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026
segunda-feira, junho 29, 2026
O TEMPO E OS AUTOCARROS
terça-feira, junho 23, 2026
TOMÉ ARMANDO A VOZ QUE SE CALA
O Tomé foi homem de entrega e de voz. Serviu a Rádio Luanda por cerca de três décadas, emprestando o timbre firme e a disciplina profissional a uma instituição que se tornou parte da sua vida. Mas antes da rádio, conhecemo‑nos na Igreja Metodista Unida, cargo pastoral Moisés, nos anos 80, quando espreitávamos a adolescência, seguindo-se a juventude que nos reunia em cânticos e fraternidade.
A sua vida foi marcada pela simplicidade e pela proximidade. Não acumulou riquezas, não se deixou seduzir pelo poder fácil. O Tomé foi presença solidária, voz que se oferecia, coração que se partilhava.
Ontem, ao aconselhar um jovem a poupar, lembrei‑me da música de Elias dya Kimwezu: uma poupa porque “a fome madruga”, outro é esbanjador porque entende que “a morte chega durante a noite”. Hoje, essa reflexão ganha corpo. A vida é breve e Tomé partiu sem aviso, deixando‑nos a interrogação: poupar para o futuro ou viver intensamente o presente?
Refúgio‑me em João 14:2‑3: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar‑vos lugar.” Quero acreditar que o Tomé Armando, filho da tia Tomba, foi preparar‑nos lugar, que a sua partida não é fim, mas transição.
Exalto nele a dedicação profissional, a fidelidade às raízes, a ternura com que tratava os seus. O Tomé foi voz, foi memória, foi laço. Hoje, o nosso Cacaca cala‑se na terra, mas continua a falar em nós, nos gestos que deixou, nas lembranças que nos unem.
Que a sua vida seja lembrada não pela doença que o levou, mas pela força com que serviu, pela dignidade com que viveu e pelo afecto com que nos tratou.
Foi-se mais um "Dactora"!

















