Conheci São Tomé em 1998 por acaso, vindo de Bamako. O destino era Luanda, mas o voo da Air Gabon não apareceu, ou melhor, sumiu sem esperar pelos passageiros saídos de Bamako. Sem visto para entrar no Gabão, em plena época de eleições, vi-me diante da possibilidade de ficar uma semana retido no aeroporto. A solução surgiu inesperada: comprar uma passagem para São Tomé, país que já então dispensava os angolanos de visto prévio. A entrada era concedida no aeroporto mediante o pagamento de 50 dólares. Assim, desembarquei na ilha.
Recebidos pela Embaixada, Manuel Correia, do Jornal de Angola, e eu fomos alojados no Café Baía, à beira da Baía de Ana Chaves. Não era apenas um espaço de hospedagem: era uma verdadeira casa de encontros, onde política e quotidiano se misturavam. Tive o privilégio de ver ali o então Primeiro-Ministro de São Tomé e Príncipe, Major Raúl Bragança Neto, que, sempre que podia, ensaiava uma prosa com o proprietário — companheiro de percurso político e cúmplice de memórias partilhadas. O Café Baía, mais do que paredes e mesas, era um palco discreto de diálogos que moldavam o país.
Ali, o Rio da Água Grande desagua no mar, cortando a cidade e servindo de testemunha silenciosa às histórias que se cruzam na capital. O rio, que nasce no interior verdejante da ilha, atravessa São Tomé e termina junto ao mar, como se quisesse lembrar que toda viagem tem um destino, mesmo quando começa por acidente.
Volto vinte e oito anos depois. Encontro um país que carrega dificuldades económicas, mas também sinais de esperança: a marginal está a ser reparada e prolongada, o Banco Central ergueu um novo edifício, alguns largos ganham nova vida. Outros, porém, aguardam melhores dias. A função pública segue o ritmo das 08h00 às 16h30. No primeiro dia, percorro o Largo da Cultura, onde se acham o Cinema, o Arquivo Histórico, a Biblioteca Nacional e um espaço público próximo da Embaixada de Angola.
A árvore da fruta-pão, tão comum em São Tomé como a mangueira em Luanda, brota em cada esquina. Contei ao Arlindo, motorista que me apoia, que levei 27 anos para conseguir um exemplar em Angola, comprado por 50 dólares. A resposta veio rápida e irónica: “Daqui você leva 50 mudas!”
Entre memórias e reencontros, o Rio da Água Grande permanece como metáfora da própria ilha: atravessa o coração da cidade e, ao chegar ao mar, mistura-se com o mundo. Tal como eu, que chego por acaso e saio com histórias que o tempo não apaga. O resto é “leve-leve”, como se diz por cá. Uma vida sem pressa, sem estresse para o turista e, talvez, também para os nativos e moradores.
Leve-leve. Vamos contar estórias de São Tomé, país que tem preços estipulados em Dobras (moeda local) e Euros.
— E o Kwanza?
— O Kwanza é bom, mas aqui ainda não estamos a receber — respondeu-me a bela do aeroporto.
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Publicado pelo Jornal de Angola, 03.05.2026































