"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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sábado, junho 06, 2026
MEMÓRIAS DE ESCOLA
segunda-feira, junho 01, 2026
INFANTÁRIO DA AVÓ KYOKO: LIÇÕES DE VIDA E AFECTO
O funcionamento do infantário era simples e solidário: cada mãe deixava com a avó Kyoko uma pequena panela com funji e conduto, ou ainda jinguba, batata assada, banana e outros alimentos.
À hora do almoço, a avó reunia as crianças e distribuía os manjares deixados, enquanto as mães trabalhavam despreocupadas, regressando alegres pelos cuidados recebidos pelos seus petizes.
Mas a avó Kyoko não se limitava a alimentar. Ela ensinava: cantavam juntas, ouviam estórias e fábulas e realizavam pequenos trabalhos adaptados à idade — juntar pratos, lavá-los, acender a fogueira, trançar o cabelo, entre outras actividades de pequena monta.
À noite, tornava-se professora das pubertárias, que se reuniam na sua “Kandumba” para receberem lições sobre a vida afectiva, prevenção de gravidez precoce e convivência conjugal. Essas adolescentes, por sua vez, garantiam o sustento da casa: lenha, água e iguarias e ingredientes para a confecção da "wala" [garapa].
A casa da avó Kyoko era também o ponto de encontros e reencontros entre as jovens e os galanteadores da aldeia e outros vindos de aldeias distantes em busca de um amor — recomendado ou tentando a sorte.
Esse ambiente, embora simples, era permeado por códigos de respeito e encantamento, onde os olhares se cruzavam sob o olhar atento da matriarca, que sabia distinguir entre o afecto genuíno e a frivolidade passageira.
A casa da avó Kyoko tinha tudo de um pouco para se viver. E tudo acontecia com naturalidade, espontaneidade e afecto. Hoje, faltam casas assim — nas cidades e até nas aldeias. A solidariedade esfumou-se e com ela a busca por amparo e conhecimento.
É possível resgatar essas práticas?
Talvez sim. Mas as comunidades precisam de conhecer o passado e reconhecer a eficácia dos bons costumes que o egoísmo, as crendices e o oportunismo estão a matar.
Publicado no Jornal de Angola de 03.01.2026
domingo, maio 31, 2026
EXPLORANDO SÃO TOMÉ
Assim, entre Monte Forte e Malanza, permanece um vazio que é ao mesmo tempo barreira e promessa. A ilha, que se orgulha de sua unidade cultural, ainda não se encontra fisicamente inteira. O viajante que percorre seus limites descobre que o coração verde da ilha é guardião da memória e da biodiversidade, mas também obstáculo à comunicação. O futuro de São Tomé talvez esteja em decidir se esse vazio deve permanecer como muralha natural ou se será vencido pelo traço humano que unirá norte e sul.
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Publicado pelo Jornal de Angola a 07.06.2026
sábado, maio 30, 2026
ENCONTRO LITERÁRIO REFORÇA LAÇOS CULTURAIS
O momento ganhou especial simbolismo quando Kanyanga recitou um poema recente de autoria de Salvaterra, reforçando a atmosfera de partilha literária. Em gesto de reconhecimento, recebeu como oferta o livro É nosso o solo sagrado, da poetisa Alda do Espírito Santo, cujo centenário se assinala este ano.
Este encontro evidencia a relevância da diplomacia cultural e literária, fortalecendo pontes entre Angola e São Tomé e Príncipe, e reafirma o papel da literatura como espaço de diálogo e união entre povos.
quinta-feira, maio 28, 2026
NOITE EM SÃO TOMÉ
São Tomé, 02 de Maio. A noite descia leve sobre o distrito de Água Grande. O rio Água Grande, que corta a cidade ao meio, entrava mansinho no Atlântico, sem gorgorejos nem reclamações.
As luzes do Palácio Presidencial refletiam sobre a baía, encandeando preguiçosas, como se trocassem olhares silenciosos com a Sé Catedral. Os sinos, já cansados, pareciam aposentados: apenas uma missa vez ou outra, e o murmúrio das Ave-Marias. No pátio, um cão sem dono marcava passos pelo rossio, farejando restos de comida junto aos contentores transbordantes.
O Café Baía já era memória. As Linhas Aéreas de São Tomé mudaram de sede, assim como o Banco Central. No Ministério da Saúde reinava calma: nada de ambulâncias, nada de correria. Apenas uma roulotte sobre o passeio, servindo caipirinhas e outras bebidas, como se fosse o coração pulsante da noite.
Uma jovem esbelta passava apressada, falando ao telefone, sem medo e sem tempo para ceder palavra. Outra, avantajada, lançava isco:
— Cê quer sair com companhia?
Mais adiante, uma música em decibéis acima do normal denunciava uma discoteca ou casa noturna. O ritmo escapava pelas paredes, misturando-se ao ar quente da noite. E a pergunta pairava: haveria também casas de alterne escondidas nas esquinas da cidade?
Mas o que mais impressionava era a segurança. Sem ladrões, sem pressa, tudo seguia leve-leve, sem zangas. A noite em São Tomé parecia caminhar ao ritmo da confiança, como se cada esquina fosse familiar e cada rosto conhecido.
São Tomé à noite é feita de contrastes: o silêncio do rio, a calma dos ministérios, o brilho imperial da lua-cheia e ao mesmo tempo o bulício das ruas, os convites improvisados, a música que explode sem pedir licença, num e noutro canto. É uma cidade que repousa e desperta ao mesmo tempo, onde cada esquina guarda uma história e cada olhar sugere um segredo.
quarta-feira, maio 27, 2026
UM TOUR PELA ZONA SUL DE SÃO TOMÉ
Em Pantuf, distrito de Mé-Zóchi, deixei escapar: “Estas ruas estreitas parecem linhas de um poema, e o artocarpus é o refrão que se repete em cada esquina.” Arlindo sorriu e disse: “É verdade. Aqui lutamos para que a beleza da terra não se perca no descuido. O lixo insiste em aparecer, mas nós insistimos em limpar, porque esta é a nossa casa.”
Segui até Água Izé, onde as ruínas da antiga roça, outrora fábrica de óleo de palma e cacau, erguiam-se como fantasmas. Murmurei: “Este silêncio é pesado.” Arlindo acrescentou: “Os políticos perseguem os antecessores, em vez de trazerem empresários. A juventude cresce, mas os empregos rareiam.” Suspirei: “É como uma terra fértil sem sementes. Há que devolver-lhe vida.”
Na antiga Base Americana, detive-me. “Aqui a voz da América gritava mais alto do que todos os media santomenses”, pensei, lembrando o eco de uma presença que moldou imaginários e silenciou vozes locais.
Na praia das Sete Ondas, sorvi água de coco e comentei: “Este sabor fresco é como um poema que se escreve na boca.” À entrada de Mé-Zóchi, provei o doce vinho de palma. “É o sangue da terra transformado em festa”, disse, erguendo o copo improvisado.A visita à Roça Monte Café trouxe história. Fundada no século XIX, foi uma das maiores produtoras de café da ilha, símbolo da riqueza colonial. Hoje, é sede de uma cooperativa de exportadores que nada exporta. Observei: “É como um livro de capa dourada, mas sem páginas dentro”, tocando as paredes que guardam memórias de trabalho e exploração.
No Bairro Batepá, distrito de Mé-Zóchi, o silêncio tornou-se pesado. Ali, a 3 de Fevereiro de 1953, centenas de são-tomenses foram mortos pela repressão colonial portuguesa.
Diante do monumento, murmurei: “Este chão é sagrado. É o vosso 3 de Fevereiro, como o nosso 4 de Janeiro na Baixa de Cassanje. Dois gritos diferentes, mas a mesma dor.” Arlindo respondeu em voz baixa: “É por isso que nunca esquecemos. O massacre ensinou-nos que a liberdade custa caro.”
O epílogo da jornada foi na Cascata de São Nicolau. A água caía com força, como se lavasse o tempo. Contemplei e disse: “Aqui a ilha fala na língua da eternidade. Cada gota é memória, cada queda é futuro.”Assim terminou o meu tour: não apenas uma viagem por estradas e roças, mas um mergulho na alma de São Tomé, onde se diz "Somos Todos Parentes" e onde cada canto guarda histórias que se entrelaçam com as de Angola, duas geografias unidas pela dor, pela resistência e pela esperança.
A LEVIANDADE DA SH BOUTIQUE
Mas o fecho da estadia trouxe uma cena menos poética. No hotel SH BOUTIQUE, a experiência foi marcada por infiltrações de água do ar condicionado, tapetes encharcados e um cheiro de bolor insuportável. Reclamações não atendidas, noites mal dormidas com porta e janela abertas para puder respirar. A carta que escrevi ao gerente, no dia 6 de maio, resume o desfecho:
“Sem condições dignas de acomodação, só me resta interromper a minha estadia no vosso hotel e solicitar o reembolso do dia em falta.”
O que mais faz mossa não é apenas o problema físico do quarto, mas a atitude dos funcionários e da gerência: tudo levado no espírito “leve-leve”. Esse traço cultural, tão bonito na música e na convivência, torna-se corrosivo quando se instala na gestão. O “leve-leve” pode ser filosofia de vida, mas não pode ser desculpa para a falta de rigor.
Países e organizações não se desenvolvem nesse passo. O hóspede que reclama, o cidadão que exige, o investidor que aposta — todos precisam de respostas sérias e eficazes. Sem isso, a simpatia transforma-se em desconfiança, e o encanto em frustração.
São Tomé e Príncipe tem talento, cultura e hospitalidade. O desafio é transformar o “leve-leve” em calor humano e acolhimento genuíno, sem abdicar da disciplina que o desenvolvimento exige. Só assim o país poderá afirmar-se como destino e como nação.
Publicado no jornal Pungo a Ndongo de 30 de Maio de 2026
segunda-feira, maio 25, 2026
O ASSISTENTE E O MESTRE
Durante meses, conheceu os equipamentos de rádio, um a um, descobrindo-lhes a utilidade e a serventia na construção do “edifício sonoro”, esse som que chega ao ouvinte por via de um receptor.
Ora na sonoplastia, ouvindo e escolhendo os trechos mais impactantes dos áudios; ora na redacção, sugerindo a palavra certa ou levando apressadamente à cabine de locução o guião cuspido pela Olivetti, que tictava sons melodiosos ao ritmo vigoroso do editor José Rodrigues.
Em casa, a mãe aguardava ouvir o nome do seu querido Phande na ficha técnica, lida no início e no fim do noticiário. E chegou o dia em que o ajudante passou a constar:
Edição: Zé Rodrigues
Cuidados sonoros: Sebastião dos Santos
Técnica final: Agostinho Vanda
Assistência: Phande-a-Umba
Apresentação: Mário Guerra
Na primeira vez, foi gáudio na redacção da Emissora Comercial e em casa. Cada vez que o nome de um estagiário entrava na ficha técnica ou apresentava uma pequena peça, os neófitos reuniam-se no fim do turno para comemorar. Em casa, amigos e familiares rejubilavam.
— Agora o meu filho é mesmo jornalista. Falaram o nome dele na rádio — comentavam as mães.
O tempo passou. Phande consolidava a aprendizagem e já lia pequenas peças e até sínteses de notícias, regra geral telex seleccionados da Agência Nacional. Todavia, em casa, a mãe passou do júbilo à preocupação. Um dia, ao chegar, foi chamado pela progenitora:
— Phande, senta aqui. Desde que começaste a trabalhar na rádio já vamos a caminho de nove meses. Às vezes ouvimos a tua voz, outras vezes pronunciam o teu nome. Aqui em casa todos ficamos contentes, mas há uma coisa que me preocupa — disse Kilombo Ky’Etinu, pausada, afectiva.
— Sim, mãe. O que te preocupa então? Será o facto de eu sair sempre muito cedo, quando todos ainda dormem?
— Não, meu filho. É que os teus colegas têm tarefas. Ouvimos todos os dias no noticiário. O que dizem de ti é que apenas ficas a assisti-los. Mas é mesmo isso, filho? Só ficas a assistir os outros a desempenharem as suas tarefas e não fazes mais nada?
Phande riu, pousou o braço no ombro da “sua velha”:
— Calma, mãe! Assistência, em rádio, é ajudar. Eu estou no estágio, o meu trabalho é de ajudante!
***
Vinte e trê anos depois, Phande já era homem grande na profissão e na idade. Dera-lhe netos, casa e felicidade. Kilombo Ky’Etinu contraíra cegueira irreversível, mas apurara a audição e o humor. Phande ausentara-se do país para defender o Mestrado. Ao regressar, a mãe chamou-o:
— Phande, senta aqui. Como correram os estudos que foste fazer?
— A defesa correu bem, mãe. De zero a vinte obtive dezasseis.
— Oh! Dezasseis para vinte, só faltaram quatro pontos. Muitos parabéns! Mas diz-me uma coisa: agora qual é a tua classe?
— Sou mestre, mãe.
A anciã franziu a testa:
— Como assim mestre, se já eras doutor? Então esses pedreiros que fazem parede torta é que são da tua igualhagem? Não pode ser. Estás a mentir-me, filho!
domingo, maio 24, 2026
ÁGUA GRANDE DEPOIS DA CHUVA
Mas a beleza natural não resiste ao descuido humano. Ao longo do seu percurso urbano, o rio vai recebendo resíduos sólidos, testemunho da fragilidade da educação e gestão ambiental. Paradoxalmente, a população de São Tomé mantém o hábito de varrer em frente às casas e negócios, como se fosse ritual de dignidade. Os contentores, porém, transbordam, aguardando recolha que tarda. A cena lembra os bons costumes da Luanda periurbana dos anos 1980, quando o gesto de varrer era comum. Só falta ajustar a responsabilidade da câmara em recolher os contentores cheios sempre que se ache pertinente.
sexta-feira, maio 22, 2026
HOMENAGEM AOS MÁRTIRES DE BATEPÁ
A 30 de Abril de 2026, diante do monumento de Batepá em Mé-Zóchi, senti que cada pedra guardava o eco de um grito silenciado em 1953. O massacre, conduzido pela administração colonial portuguesa, ceifou centenas de vidas santomenses acusadas injustamente de preparar uma revolta. Prisões arbitrárias, torturas e execuções sumárias transformaram aquele episódio num marco da resistência contra a opressão.
As palavras da poesia vieram à mente como testemunho. Alda do Espírito Santo escreveu: “Batepá não é apenas sangue derramado, é raiz que germina na terra da liberdade.” Por seu turno, Conceição Lima recorda: “Os mortos de Batepá caminham comigo, lembrando que a pátria nasceu do seu silêncio.”
Do lado angolano, Agostinho Neto eternizou Kasanji em versos: “Aqui onde a terra se abre em sangue, aqui nasceu a liberdade.” Essas vozes literárias não apenas narram, mas transformam dor em consciência, memória em futuro.
O monumento de Batepá é hoje espaço de reflexão, tal como Kasanji permanece vivo na poesia e na memória angolana. A literatura e a arte cumprem o papel de preservar a memória coletiva, de desafiar o esquecimento e de ligar histórias que, embora ocorridas em diferentes geografias, fazem parte de uma mesma luta.
Assim como o 4 de Janeiro é celebrado em Angola, o 3 de Fevereiro em São Tomé e Príncipe é o Dia dos Mártires da Liberdade. Essas datas não são apenas recordações de tragédias, mas símbolos da resistência que culminou na independência de 1975.
A ponte entre Batepá e Kasanji mostra que a luta anticolonial foi continental e que recordar esses episódios é reafirmar a dignidade conquistada pelos povos africanos. Gostaria que eu complemente esta crônica com uma reflexão sobre o papel da poesia na independência africana?
domingo, maio 17, 2026
LEVE-LEVE NA MARGINAL
Revezam-se a velha calçada, gasta pelo tempo e pelas ondas perenes com o seu muro antigo, estreito e curto, que vai cedendo lugar ao novo, mais robusto, mais alto, mais afirmativo. Logo adiante, a pedra calçada substitui o betão cansado, como se a cidade decidisse, pouco a pouco, reencontrar a sua forma. Nada se faz de rompante. Tudo acontece “leve-leve”.
Ali perto, junto à zona da cooperativa, um barco há muito encalhado vai entregando o seu corpo ao mar. A madeira e o ferro, outrora tensos e funcionais, abriram-se em cavidades que hoje abrigam peixes e pequenos organismos marinhos. O que foi instrumento de trabalho tornou-se refúgio de vida. Não houve pressa em salvá-lo, nem urgência em retirá-lo. O mar encarregou-se do resto. E com paciência infinita.
É também ali que se alinham pequenos kaiês, construções simples, feitas de madeira, zinco e engenho, onde se vende peixe, se conversa, se descansa. Mais do que barracas, são pontos de vida. Lugares onde o tempo não se mede em relógios, mas em marés e histórias. O kaiê é, em miniatura, a própria filosofia santomense: funcional, comunitária e descomplicada.
Já no século XXI, surgem intervenções de requalificação, incluindo o início de uma nova calçada sobre a baía, pensada para proteger a orla e oferecer outro desenho à cidade. A pedra regressa, substituindo o betão, e o muro cresce. Não apenas em altura, mas em intenção e futuro. É um gesto de modernidade, ainda em curso, que convive com o passado sem o apagar.
A Marginal acompanha bairros que contam, à sua maneira, a história da cidade até ao Porto de Ana Chaves. São zonas onde viveram pescadores, estivadores, pequenos comerciantes,gente que fez do mar sustento e horizonte. Bairros de mistura, de circulação, onde a cidade respira de frente para a água.
E, no entanto, apesar das transformações, algo permanece inalterado: o ritmo. Aqui, o tempo parece inesgotável. Não há urgência que domine, nem ansiedade que dite regras. É a paz e a calma que mais ordenam.
E talvez seja esse o maior ensinamento da Marginal: entre o velho que cede e o novo que se levanta, entre o barco que se desfaz e a vida que nele nasce, há uma certeza tranquila. Tudo acontece, mas nada se precipita.
Soberano Kanyanga, STP, 3.5.26
Publicado pelo Jornal de Angola a 10.05.2026
quarta-feira, maio 13, 2026
LEVE-LEVE: ENTRE A SERENIDADE E O DESAFIO DO DESENVOLVIMENTO EM STP
Durante uma semana em São Tomé e Príncipe, tive em Arlindo Fernando mais do que um guia e motorista. Foi um intérprete silencioso de uma forma de viver.
Logo no primeiro encontro, impôs-se uma evidência que foi a ausência de pressa. Não era desorganização, nem desleixo. Era outra relação com o tempo.
O Arlindo não se irritava com os condutores excessivamente lentos, nem com as manobras feitas em locais impróprios que, em qualquer outra geografia, provocariam buzinas e gestos de impaciência. Em São Tomé, nada disso. A progressão faz-se ao ritmo possível, não ao ritmo desejado.
No segundo dia, combinámos que me recolhesse às 9 horas. Chegou largos minutos depois, já após uma chamada impaciente de minha parte. Ao ritmo de Angola, cada minuto perdido é valioso. Sem constrangimento, como se o tempo fosse maleável, Arlindo chegou bem-humorado como quem diz: “tudo se pode fazer” nos instantes ou dias seguintes.
Essa experiência não foi isolada. Ao longo da estadia, percebi que, com excepção de algumas populações mais ao norte, como em Neves, o santomense evita o atrito. Prefere a paz à confrontação, a concórdia ao conflito. Fala de política, sim, mas sem acidez; expressa desejos de melhoria de vida, mas sem agressividade reivindicativa. Há uma aceitação tranquila do presente, uma espécie de pacto tácito com a realidade.É neste contexto que emerge o conceito de “leve-leve”.
O que é, afinal, o “leve-leve”?
Mais do que uma expressão, o “leve-leve” é uma filosofia social. Traduz uma forma de estar baseada na calma, na tolerância e na recusa do confronto desnecessário. É uma ética de convivência que privilegia o equilíbrio emocional, a harmonia comunitária e a adaptação ao fluxo natural das circunstâncias.
Não significa necessariamente preguiça ou indiferença. É, antes, uma escolha cultural. É viver sem pressa, sem tensão permanente, sem dramatizar os obstáculos.
As virtudes de uma vida sem antagonismos
As vantagens desta filosofia são evidentes.
Desde logo, a coesão social. Num ambiente onde o conflito é evitado, as relações tendem a ser mais estáveis e respeitosas. A convivência diária ganha em leveza.
Depois, o bem-estar psicológico. A ausência de pressa reduz o stress, melhora a qualidade de vida e cria espaço para relações humanas mais genuínas.
Há também uma dimensão cultural importante: o “leve-leve” preserva uma identidade própria, resistente à lógica acelerada e muitas vezes desumanizante do mundo contemporâneo.
Mas há um outro lado, menos confortável.
Quando o “leve-leve” transborda para as esferas institucional e económica, pode traduzir-se em lentidão decisória, baixa produtividade e ineficiência. A tolerância excessiva pode degenerar em complacência. A ausência de conflito pode inibir a exigência.
Num país que precisa de “acertar o passo”, desenvolver infraestruturas, melhorar serviços e criar oportunidades, a inação, ainda que pacífica, tem custos elevados.
O risco maior não é a calma em si, mas a sua transformação em imobilismo. A questão central (que coloco) não é rejeitar o “leve-leve”, mas reinterpretá-lo.
É possível e desejável manter a serenidade nas relações humanas, a tolerância e o espírito conciliador, ao mesmo tempo que se introduz maior rigor na gestão, pontualidade nos compromissos e sentido de urgência nas políticas públicas.
O desafio está em construir um novo equilíbrio que passe pela calma no trato e firmeza na acção.
O “leve-leve” é uma riqueza cultural de São Tomé e Príncipe. Explica, em grande medida, a paz social e a qualidade humana que se respira no arquipélago. Mas, num contexto de desenvolvimento, exige um ajuste fino.
Arlindo, com a sua calma inabalável, não é apenas um personagem desta narrativa. É o símbolo de um país que precisa de encontrar o seu próprio ritmo, sem perder a alma, mas também sem perder o tempo.
sexta-feira, maio 08, 2026
SOMOS TODOS PRIMOS!
Falámos de tudo: jornalismo e jornalistas, política e democracia, liberdades e pactos de nação. O tempo parecia insuficiente para tantas memórias e reflexões. O angolano profissional sente-se bem em São Tomé, e eu percebi que aqui, mais do que em qualquer outro lugar, a expressão ganha corpo: “Somos todos primos!”
terça-feira, maio 05, 2026
SANTOMENSES LÊEM SOBERANO KANYANGA
Em visita à ilha de São Tomé, eu, Soberano Kanyanga, autor dos livros Amores de Mel’aço e Lubolu & arredores, publicados em abril último, ofereci quatro exemplares da minha já extensa produção literária à Embaixada de Angola em São Tomé e Príncipe. Entre os títulos entregues constam Kitotas: recuos e avanços, A falta de motivação e o impacto nos colaboradores – Estudo de caso no Ministério de Geologia e Minas, Lubolu & arredores e Amores de Mel’aço.
segunda-feira, maio 04, 2026
O SOM DA BUZINA EM BOA MORTE
Foi no bairro Boa Morte, a caminho de Mesquita, que ouvi o som de uma buzina. Por instantes, temi presságios: seria pelo nome do bairro? Haveria morte boa e morte má? Mas logo percebi que não havia mistério, apenas o aviso prudente de um automobilista a prevenir outros na curva. A vida, aqui, é feita de gestos simples que se confundem com poesia.
No dia 4 de Maio, a busca era por mudas de coqueiro. A zona escolhida foi Mesquita, onde se ergue a BECAF — Base Experimental de Culturas Alimentares e Frutícolas. Entre viveiros e ensaios agrícolas, encontrei a promessa de levar comigo não apenas uma planta, mas um pedaço vivo da ilha.
São Tomé revelava-se assim: buzinas que não anunciam tragédias, mas prudência; bairros de nomes fortes, aldeias onde termina o asfalto; despedida e permanência. O coqueiro, escolhido como lembrança, tornou-se metáfora de raiz e de retorno, lembrando que cada viagem é também um reencontro futuro.
domingo, maio 03, 2026
O RESGATE DA BANDEIRA
Na via de acesso, o cenário é o mesmo: casas humildes, (Ka)prédios de madeira sobre estacas e muitas árvores frutícolas nos quintais, destacando-se cajamangueiras e fruteiras (artocarpus altilis).
À volta e no interior do mercado, há lixo por tratar, mas menos lixo do que em mercados angolanos. Curiosidade: algumas vendedeiras usam balanças.
O meu guia explicou que o Mercado Municipal foi movimentado do centro da cidade (Rua Yon Gato) para a periferia, por causa da sujeira.
Andando pelas bancadas, um facto chamou-me à atenção: uma bandeira de Angola estendida no chão e usada como base para a venda de "matabala". Perguntei, discretamente, pela dona do negócio. Precisava de resgatar o símbolo da minha identidade patriótica. Disseram-me que era a Dona Luisa, mas achava-se momentaneamente ausente.
Fernando (o guia) e eu puxámos conversa com duas vendedeiras de trato fácil que prometeram procurar pela Luisa, caso pagássemos duas Rosemas ao preço de 35 Dobras cada. Depois encostou-se a nós a avó Adelaide, assim tratada carinhosamente por outras vendedeiras, uma anciã de 80 anos, boa faladora e conselheira das mais novas, conforme testemunharam.
Finalmente, a Dona Luisa apareceu. Para que ela deixasse de estender a bandeira de Angola para a exposição de matabala (tubérculos) era preciso comprar outro pano. Lá começou a negociação.
Ela, que disse possuir uma outra bandeira de Angola "nova e ainda plastificada", pretendia 100 Dobras em troca e uma Rosema (cerveja nacional). Fomos regateando por uns não menos de 30 minutos. Entre conversa séria e brincadeira à mistura, venceu o bom senso. O resgate da bandeira ficou por 70 Dobras. A Rosema amenizou a tensão inicial e facilitou a barganha. Outras 30 Dobras foram oferecidas à mamã Adelaide que, na sua missão de conselheira, recomendou as mais jovens a amarem e respeitarem os maridos."Eu já não ando no caminho de homem, mas sei que o respeito é a base de tudo", recomenfou sabiamente.
Foi então que, já mais descontraída, a própria Luisa contou um episódio curioso:
— Há uma semana, passou por mim uma mulher que demoradamente olhou para a bandeira e para mim. Não me disse nada, mas parecia aflita. Não entendi se era a matabala ou a bandeira em que estas se achavam que a fizeram parar por muito tempo.
A história ficou suspensa no ar, como um enigma. Talvez fosse apenas curiosidade, talvez fosse a consciência silenciosa de quem reconhece o peso de um símbolo nacional. O olhar daquela mulher, sem palavras, segundo o testemunho da própria Luísa, parecia carregar a mesma aflição que agora me movia: o desejo de ver a bandeira respeitada.
sábado, maio 02, 2026
ENTRE RUÍNAS E MEMÓRIAS
sexta-feira, maio 01, 2026
ENTRE BAMAKO E O RIO DA ÁGUA GRANDE
Recebidos pela Embaixada, Manuel Correia, do Jornal de Angola, e eu fomos alojados no Café Baía, à beira da Baía de Ana Chaves. Não era apenas um espaço de hospedagem: era uma verdadeira casa de encontros, onde política e quotidiano se misturavam. Tive o privilégio de ver ali o então Primeiro-Ministro de São Tomé e Príncipe, Major Raúl Bragança Neto, que, sempre que podia, ensaiava uma prosa com o proprietário — companheiro de percurso político e cúmplice de memórias partilhadas. O Café Baía, mais do que paredes e mesas, era um palco discreto de diálogos que moldavam o país.
Ali, o Rio da Água Grande desagua no mar, cortando a cidade e servindo de testemunha silenciosa às histórias que se cruzam na capital. O rio, que nasce no interior verdejante da ilha, atravessa São Tomé e termina junto ao mar, como se quisesse lembrar que toda viagem tem um destino, mesmo quando começa por acidente.
A árvore da fruta-pão, tão comum em São Tomé como a mangueira em Luanda, brota em cada esquina. Contei ao Arlindo, motorista que me apoia, que levei 27 anos para conseguir um exemplar em Angola, comprado por 50 dólares. A resposta veio rápida e irónica: “Daqui você leva 50 mudas!”
Entre memórias e reencontros, o Rio da Água Grande permanece como metáfora da própria ilha: atravessa o coração da cidade e, ao chegar ao mar, mistura-se com o mundo. Tal como eu, que chego por acaso e saio com histórias que o tempo não apaga. O resto é “leve-leve”, como se diz por cá. Uma vida sem pressa, sem estresse para o turista e, talvez, também para os nativos e moradores.
Leve-leve. Vamos contar estórias de São Tomé, país que tem preços estipulados em Dobras (moeda local) e Euros.
— E o Kwanza?
— O Kwanza é bom, mas aqui ainda não estamos a receber — respondeu-me a bela do aeroporto.
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Publicado pelo Jornal de Angola, 03.05.2026
quinta-feira, abril 30, 2026
SOS: ZANGOS FEDORENTOS!
A Lei n.º 14/24, de 5 de Setembro, publicada no Diário da República Iª Série n.º 171, redefiniu a divisão política-administrativa de Angola, criando novas unidades territoriais e elevando o número de províncias de 18 para 21. Entre as alterações mais significativas está a criação da província de Icolo e Bengo, com sede em Catete, e a transferência de Calumbo, antes comuna de Viana, para esta nova jurisdição.
Com esta mudança, os contratos de recolha de lixo que eram assegurados pelo município de Viana cessaram automaticamente, deixando Calumbo sem cobertura regular. As empresas que operavam na área suspenderam os serviços e, até ao momento, não foi homologada uma nova operadora para assumir a limpeza urbana. O resultado é visível e dramático: bairros inteiros transformaram-se em lixeiras a céu aberto, com resíduos espalhados pelas ruas, passeios e zonas residenciais.
De “lixeiras no meio do bairro” passou-se a “bairros no meio da lixeira”. As chuvas recentes agravaram ainda mais a situação, formando poças de água estagnada que, misturadas ao lixo, criam condições ideais para a proliferação de mosquitos, vermes, moscas e ratos. Este ambiente insalubre tem provocado o aumento de doenças como cólera, febre tifóide e paludismo, levando os munícipes a recorrer com maior frequência aos centros de saúde e hospitais, que já enfrentam limitações de recursos.
O administrador municipal de Calumbo reconheceu publicamente que "a paralisação da recolha se deve à cessação dos contratos herdados de Viana" e informou que o governo provincial realizou concurso público para selecionar uma nova empresa de saneamento, mas "o processo encontra-se pendente de homologação judicial". Enquanto isso, brigadas especiais e parceiros locais têm feito recolhas pontuais, claramente insuficientes para responder à dimensão do problema.
Este manifesto é um apelo urgente às autoridades competentes: visitar Calumbo, constatar a gravidade da situação e adoptar medidas imediatas e estruturais. É imperioso garantir a recolha regular de resíduos, instalar contentores adequados, reforçar campanhas de sensibilização comunitária e acelerar os processos burocráticos que impedem a entrada em funcionamento da nova operadora. A população do município de Calumbo (todos os Zangos) não pode continuar a viver entre lixeiras, exposta a doenças e à degradação da sua dignidade.
SOS Calumbo: é hora de agir.
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Fontes:
Diário da República Iª Série n.º 171, Lei n.º 14/24 de 5 de setembro de 2024; Declarações do administrador municipal de Calumbo a órgãos de imprensa nacionais.
segunda-feira, abril 27, 2026
RECUO NO TEMPO, AVANÇO NA CONSCIÊNCIA
Estive em Pequim, na segunda semana de abril de 2026. Caminhei por ruas largas, atravessei pontes discretas e observei, quase sem dar por isso, canais urbanos por onde a água escorria com ordem e disciplina. Só mais tarde compreendi plenamente que aqueles rios artificiais — aparentemente silenciosos — eram, afinal, um dos pilares invisíveis da normalidade urbana que ali se vive.
Em Pequim, os rios urbanos funcionam como uma rede de escoamento controlado: recolhem as águas pluviais, encaminham-nas para destinos adequados e evitam inundações repentinas, sobrecarga dos sistemas de esgoto e perturbações crónicas à mobilidade. Na prática, esses canais impedem que a cidade fique paralisada após cada tempestade. Traduzem-se em vidas poupadas, vias desobstruídas e actividade económica contínua. A água cai, é absorvida, conduzida e devolvida à natureza sem drama — como se assim devesse ser em qualquer grande cidade.
Coincidentemente, era nesse mesmo período que Luanda e Benguela enfrentavam chuvas intensas, com enchentes devastadoras que implantaram luto e provocaram perdas económicas avultadas a inúmeras famílias. Enquanto eu observava, do outro lado do mundo, a serenidade de uma cidade preparada, chegavam notícias de bairros alagados, casas destruídas, crianças impedidas de ir à escola e famílias obrigadas a recomeçar do nada. O contraste não poderia ser mais cruel — nem mais pedagógico.
Em Luanda, a ausência de uma drenagem estruturada, composta por rios artificiais e corredores hidráulicos planeados, produz exactamente o oposto do que vi em Pequim. Sem uma infraestrutura capaz de dar vazão às águas pluviais, cada chuva forte transforma ruas em torrentes, bairros inteiros em lagoas improvisadas e esgotos em fontes abertas de contaminação. A cidade deixa de funcionar, a dignidade humana fica suspensa e o prejuízo acumula-se como lama depois da enxurrada.
As consequências são diretas e dolorosas.
Para as pessoas, traduzem-se no aumento de doenças de veiculação hídrica, como a cólera e a febre tifóide; em desalojamentos recorrentes; na perda de bens arduamente conquistados; no risco permanente de afogamentos; e na interrupção do acesso a serviços essenciais como escolas, hospitais e mercados.
Para a economia, revelam-se na paralisação do comércio formal e informal, na destruição acelerada das infraestruturas viárias, em custos elevados com reparações sempre emergenciais e nunca estruturais, na queda da produtividade devido às faltas ao trabalho e no aumento dos custos logísticos para a distribuição de bens.
O mais inquietante é que nada disto é surpresa. O caos hidrológico repete-se ano após ano, estação chuvosa após estação chuvosa, como se fosse um destino inevitável e não o resultado directo de opções — ou da ausência delas.
Por isso, depois do que vi em Pequim e do que sabemos que aconteceu, mais uma vez, em Luanda e Benguela, a pergunta que se impõe já não é se Luanda precisa de uma drenagem urbana composta, que inclua rios artificiais planeados e integrados à cidade. A verdadeira questão é por quanto mais tempo continuaremos a pagar, em vidas humanas e em recursos financeiros, o preço devastador da sua ausência.
E cada chuva que cai sem encontrar caminho é, no fundo, um lembrete de que a água segue sempre o seu curso — cabe às cidades decidir se esse curso será a favor ou contra elas.

































