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sábado, maio 21, 2022

UM "PALÁCIO" INACABADO EM KALULU

Quem viveu/vive em Kalulu conhece esse inacabado. Desde 1987 que o vejo nas mesmas condições, ou melhor, a faltar, sequencialmente, um tijolo, uma abobadilha, um aramezito, até, se calhar, um dia ruir a estrutura (como já se vêm os estragos feitos pela oxidação do material ferroso e constante humidade causada pela chuva).

Voltei a passar por lá e os guardas do banco erguido paralelamente diziam ser "a melhor planta entre os edifícios construídos (projectados) na vila".
- Tem cave e vem até aqui. - Indicava um deles, posicionando-se no passeio.
Nos anos 80 e início da década de noventa do século XX, mesmo constando no léxico político angolano o axioma "partir os dentes à pequena burguesia", Miguel Neto era já um homem próspero, quando comparado a outros kalulenses de então, que professavam a pobreza da "ditadura do proletariado".
Ao que sei, não era dirigente político. Tinha camiões amarelos (Volvo) que circulavam, com algum à vontade, entre as comunas do Libolo e os municípios à volta, incluindo cidades como Sumbe e Luanda. No Lussusso, por exemplo, tinha um "bar" que pleiteava com o do Falcão e do Olímpio (já reabilitados e em funcionamento). Apenas o do Miguel Neto continua em escombros.
Com o fim da guerra (Acordos de Bicesse, 1990) e abertura do país à economia de mercado, quando se esperava que o homem prosperasse, vimo-lo erguer uma firma/sucursal na intercepção entre a Venida Lenine e a Avenida Rei Katyavala, transferindo-se, posteriormente, para o Kunene.
O que fazia e que lhe dava prosperidade em tempo de guerra e o que lhe aconteceu em tempo de paz para que não consiga sequer concluiu o que iniciou num tempo económica e militarmente difícil?
Dizem que "vive agora na África do Sul", deixando o seu "faustuoso" imóvel por concluir.
Até quando?

sábado, maio 14, 2022

CONVERSAS DE CAMPONESES

"Mais vale desintegrar um átomo do que o preconceito" (Einstein).

Os povos rurais do Kwanza-Sul, nomeadamente os do Ebo, desde sempre que "encabeçaram" que a mandioqueira, a batateira e a cana plantam-se na vertical, o que resulta em apenas um broto, fraco enraizamento e, concomitantemente, baixa produção.

No Ebo, julga-se que o cultivo de feijão e milho, por exemplo, "são coisas de mulheres". Os homens, contam eles, devem dedicar-se à cebola, tomate e, quando possível, à recolha de abacates e mangas.
Confirmei que a batateira, a jingubeira, o milheiro, o feijoeiro e a mandioqueira crescem, regra geral, sobre a mesma estaca o que os leva a uma grande disputa por espaço e nutrientes, resultando em fraca colheita.
A prática é antiga e não se muda desde os tempos avoengos, inexistindo técnicos de extensão agrária que corrijam os modelos menos produtivos para propiciar mais renda às famílias votadas totalmente ao cultivo da terra.
Ao mesmo tempo que não mudam o procedimento, para esperar por resultados diferentes, vão lamentando a escassez e a fome e "invejando" a fartura do branco colono que já se foi, há quarenta e sete anos, e dos poucos fazendeiros avisados na arte do cultivo da terra.
Na manhã de 12.02, após anotar mentalmente o modo de produção dos eboenses, chamei um jovem para uma curta conversa sobre as melhores práticas agrícolas. Falei-lhe sobre a necessidade de separação das culturas, plantio denso e rotativo.
Falei-lhe das três formas de vencer a fome a curto, médio e longo prazo, conforme um adágio que li: cultivar "cereais, árvores frutíferas e conhecimentos".
Mostrei-lhe como seria possível "andar a rir à toa" daqui a cinco anos, apostando na agricultura, sobretudo no plantio de frutícolas.
Com uma pedra a fazer de caneta sobre o másculo solo torrado pela chuva (ainda) ausente, desenhei:
Imagina-te que tens dois hectares. Em um semeias somente feijão, sendo que a colheita pode se de 3 toneladas (3 mil quilos). Imagina que o teu lucro médio seja de Kz 400/Kg. Multiplica Kz 400 x 3000 Kg =1200000.
- Um milhão e duzentos?! - Exclamou Tony, admirado.
- Sim. Isso mesmo. Pensa bem e age. - Recomendei.
No segundo hectare, continuei a prelecção, planta, com espaçamento de 4 a 5 metros, abacateiros, o que te daria 20 linhas com cada 20 árvores, totalizando 400 abacateiros.
Perguntei a ele quantas caixas colhia em cada árvore e qual era o preço da caixa de abacate, hoje.
As respostas foram: média de 8 caixas por árvores, ao preço de Kz 1300.
Pegamos a calculadora e fizemos, de novo, as contas: 400 árvores vezes 8 caixas, vezes kz 1300 = Kz 4160000 (quatro milhões, cento e sessenta mil).
- Tudo isso, tio?
- Tudo isso, sim. É possível se agires como empreendedor.
Quanto à mandioqueira e batateira, passa a fazer campos separados e a plantar na horizontal para maior enraizamento e produtividade. Sabes que quanto mais raízes houver, mais mandioca haverá. - Expliquei.
O jovem, radiante, esfregou as mãos e prometeu agir.
Numa visita que fizemos, à tarde, a um idoso (tio Sabalu Lumbu) que nos recebeu alegre e em família, no meio da conversa, depois dos habituais "mahezu", passei os mesmos conhecimentos, explicando quantas raízes teria numa estaca horizontal de mandioqueira ou batateira, ao que ele mesmo foi conferindo.
Falei-lhe das vantagens das árvores de frutas e, de novo, fizemos as contas com números ditados por ele. Perguntei -lhe sobre a ausência de peras e maçãs do Ebo, muito estimadas por pessoas de idade que por lá passaram, e o mais velho "espetou-me" (com o devido distanciamento covidiano) um valente abraço.
- Sobrinho, obrigado! Vou experimentar. É saber até morrer! Se os brancos tinham saído de suas terras para fazer agricultura aqui tinham grande produção é porque dá lucro. Mal deles, e dos fazendeiros também, é que não ensinam o povo como acontece na Cela. - Rematou o tio Sabalou visivelmente alegre, oferecendo-me, depois, uma cabra que ficou na vila cede do Ebo para reprodução.
De regresso a Luanda, fiz paragem, obrigatória, na aldeia de Pedra Escrita (Libolo) onde deixei marcas da minha meninice. Na conversa com o mano Gonça, veio de novo o tópico do plantio. A introdução aconteceu quando ele me convidou a ir com ele à horta para apanhar cana. Perguntei-o (estavam outros nossos parentes à volta) como é que plantavam a cana, a batateira e a mandioqueira. O meu espanto foi receber explicações convincentes deles que julgavam-me desactualizado, ante a minha luandização desde 1984.
- Se você quer deixar Luanda para vir fazer fazenda é melhor aprender já. Agora a "semente" põe-se deitada". - Disse, num misto de brincadeira e seriedade, Victória Sabino, uma prima e ex-colega da "kabunga".
Peguei um palito e, ante ao momento de convívio e atenção que me brindavam, fui perguntando:
- Mas, é deitado assim (oblíqua) ou na horizontal?
O mais velho Kapitia Silva que estava de pé, tomou a palavra, como que explicando a um infante. Fez comigo conforme procedi com o Tony, no Ebo. Pegou ele o palito e foi explicando:
- Mano Kajila, vê bem. Essa (referia-se ao palito) é a mandioqueira. Se lhe mete de pé, como fazíamos, só nasce um filho. Onde nasce o filho é que aparecem as raízes. Está perceber, nê? Agora se o mano põe deitado, em todos os botões (nódulos) nasce filho e nasce raiz. Se cada raiz é uma mandioca, então o mano já sabe qualê o método que dá mais mandiocas. É ou não é, mano?
Todos os olhos estavam virados para mim (no pensar deles, o luandizado que não entende de novos métodos de plantio).
- Agradeci e, com o mano Gonça, fomos à horta. Mostrou-me o milheiro que não disputa terreno com nenhuma outra cultura e foi explicando:
- Mano, aqui temos o milho. É somente milho. Ali temos a mandioqueira que também está sozinha. Ali em baixo são as canas. Já desactivámos as mandioqueiras para as canas crescerem sozinhas. Lembras-te dessa mangueira?
- Não, mano. - Respondi.
- É aquela que me deste com a cajá-manga. Já está a dar frutas há 4 anos. A parceira dele é que secou.


Beto Spina colheu canas, enquanto o tio António apreciava e elogiava as explicações do mano Gonça que estava muito avançado em relação aos povos do Ebo.

Publicado no Jornal de Economia & Finanças a 15.04.2022

domingo, maio 08, 2022

A ESTRADA QUE DÁ CONHECIMENTO

Para "saber é (preciso) andar". Sim. É cada vez mais evidente o aforismo africano que recorda que n em sempre a idade é sinónimo de conhecimento pleno. A idade confere experiência ganha entre erros e acertos (nossos e alheios), mas é preciso andar para ver e conhecer outras realidades, longe do nosso olho e nariz.

Aqui chegados, um infante pode saber coisas que os mais velhos ignorem ou mesmo que os livros não contem com exactidão. Estou ainda na introdução.

Bem, conheci hoje um kota que, tendo nascido em Angola, vive na estranja, se calhar, antes de eu ter nascido ou ido poucos meses depois de minha mãe me ter dado à luz. É o António. Por feliz coincidência, eu tb sou António.

O António que, estando em trabalho em Luanda, me foi procurar no meu posto de trabalho para nos vermos "caralmente" e trocarmos um dedo de conversa, nasceu no Amboim, município da província de que sou também originário.

Ele, filho e neto de cafeicultores e torrefatores de café, teve de sair do país, acompanhando os papás, por causa das kavwanzas de setenta-e-cinco (ou antes), conhecendo vários países, dentre eles a terra do Uncle San e a actual Rainbow Naction ao tempo da segregação. Já lá irei.
Voltemos ao Amboim.

Contou o meu amigo, neto, pelo lado paterno, de uma mestiça do Kunji, (Vye) que sua avó, embora mestiça, pois gerada por um europeu e uma negra, era tão linda e de pele tão clara e olhos azuis que era tida como branca pura. Já seu pai, gerado de uma mestiça e um branco, era tão mulato que os sul-africanos-carcamanos-segregadores sequer o deixavam hospedar-se em casa dos pais na South.

Contou ainda o António que, vivendo na África do Sul racista com os avós saídos de Angola, enquanto os pais trabalhavam em Nova Iorque (ONU), ele a irmã de pai e mãe tiveram de frequentar escolas diferentes, tendo em conta a falta de assertividade dos segregadores quanto à raça dos dois: um era tido como mestiço e outro como white. Já viu?! Coisas como essas, nem os livros dizem com exactidão, dando à oratura um valor amplificado num país de matriz griot.

Mas, o mais comovente, e que me deixou quase com lágrimas nos olhos, foi a narrativa do António sobre a visita que fez à Gabela, ainda no tempo da kitota. Era já trabalhador de uma organização internacional que tinha representação em Luanda. Foi nessas andanças que chegado a Ngimbi, decidiu, a contra gosto de uns, ir a Gabela, cidade que perde de forma continuada, essa caracterização urbana, percorrendo a pé as ruas que deixou limpas e alcatroadas e onde se fazia passear, na infância, montado em sua bicicleta.

Encontrou-as como elas ainda estão hoje: casas com pintura por renovar há quase cinquenta anos (parte minha), vidros quebrados por repor, cinema sem janelas e outros recuos ...

Mais coragem teve ainda o António ao ir bater à porta da casa em que nasceu e ver o quarto que era dele.
Disse que pediu, diligentemente, à senhora que ocupava o imóvel, agora repartido entre quatro ou mais famílias, que apenas o deixasse ver, "mesmo que tivesse de fazer uma declaração donativa", o que acalmou os receios da senhora que, ao ver um "pula" cinquenta e tal kasimbus no lombo, a dizer-lhe "nasci nesta casa", terá pensado que o dono chegara para despejo imediato.

Quer saber o que aconteceu depois da visita?
Pois é. Entre satisfação por ter adentrado, nostalgia e pesar, pela forma como encontrou o seu antigo quarto-companheiro de intimidades, o António, saiu com o rosto banhado em lágrimas. Chamou pela senhora que desfruta do uso campeão e, olhando para a nudez e fome, presente nas costelas desmusculadas das crianças, levou a mão direita à algibeira e declarou aos soluços:
- Minha, senhora, muito obrigado por tudo. Ainda não tive sequer tempo de ir a uma casa de câmbios. Tenho essa notinha que espero, a troque em sitio recomendado pelas autoridades, e compre rebuçados para os meninos. - Dito isso, elevou a nota de USD cem.
- Senhor dono da casa, muito obrigada. Aqui, esse dinheiro que nos oferece não compra só rebuçados. Compra comida para uma semana para todos estes meninos. - Agradeceu Maria Kuzanda.

É preciso andar e ouvir para crescer em conhecimentos.
Hoje, tomei nota de que o racismo sul-africano, ao tempo do apartheid, era muito mais severo e controverso do que imaginava. Além de, sem consciência e sem pejo, separar irmãos de mesmo pai e mãe em branco, mestiço e preto, mantinha porém os japoneses, donos da Toyota, Honda e Suzuki, como brancos, ao passo que todos os demais asiáticos eram tidos como colored!
Já viu?!

domingo, maio 01, 2022

RETRATO DE KAMBAW

Kambaw. Contados os 300 Km até Kalulu, a que se acrescem outros 50 quilómetros de picada a contornar montanhas e cursos de água, à aldeia só vai quem é convidado, tenha parentes próximos ou ame a aventura. Até os "mamadús", que já encontrei em muitos lugares longínquos de Angola, ainda "não descobriram onde fica".

Kambaw é aldeia da comuna de Kis(s)ongo, município do Lubolu. O Kis(s)ongo, que pela sua riqueza (dizem que tem diamantes no curso do rio Kwanza), sempre esteve sob domínio dos insurrectos, até à paz total.
À chegada, 11h30 de 06.03 22, a aldeia parecia muito calma, não fosse um óbito, à entrada, chorado com makyakya e som de "gravador" que substituiu a ngoma e kis(s)aka na noite poeirenta. Estavam todos (excepto os bêbados que restavam no óbito) a escolher roupa e sapatos de fardo oferecidos pelo sô Oka. A tarde seria de bola.
Oka, um dos raros empresários locais, construiu a sua casa na ponta da aldeia e mobilizou o povo para a feitura de adobes, distribuiu chapas de zinco e fornece energia do seu termo gerador, durante as 24 horas do dia, a todos os 250 agregados familiares.
Perto de cento e cinquenta homens e mulheres trabalham na fazenda de 750 hectares de frutíferas e uma loja facilita as compras, fazendo de Kambaw a mais organizada aldeia no meio no interland kis(s)ongwense.
Mas Oka, o benfeitor, não se fica por aqui. Sabe que "mais do que dar pão e peixe, o melhor é dar anzóis e enxadas".
A aldeia tem uma escola e um posto médico que invejam a sede comunal, assim como um sistema de distribuição de água potável, 24 sob 24horas.
- A água que ele bebe é a mesma que nós bebemos. É de um furo e vem canalizada para os chafarizes e para a casa dele. - Confirmam os aldeões que acrescentam não comprar livros escolares nem brinquedos para as crianças no natal.
Como "o pepino torce-se de pequeno", Oka prepara a "lavra escola" para ensinar às crianças as boas práticas agrícolas.
- É isso que vai fazer com que no futuro tenham boas colheitas e renda. - Diz motivado.
Mas no apoio filantrópico não se fica por aqui. Trinta e cinco equipas juniores e seniores participam dos campeonatos comunais de futebol, sendo ele o organizador de toda a máquina, incluindo equipamentos e transporte. As duas equipas de Kambaw sagraram-se campeãs (júnior e sénior) e os sobas pedem o relato de Vaz Kinguri que pode visitar Kambaw nos próximos dias.
- Aqui também temos craques como os do Petro e D'Agosto. É por isso que estamos a pedir ao boss Oka para trazer o Vaz Kinguri e relatar o nosso jogo com o chará dele daqui. - Disse, solícito, Xavier, o capitão dos kas(s)ules de Kambaw.

À tarde, antes de as lâmpadas dispostas nas duas margens da única rua substituírem a do sol, recebi os sobas de Kambau e de duas outras aldeias próximas que foram saudar o visitante do sô Oka.
Falaram, de suas bocas, sobre o salto que aconteceu em suas vidas e de seus súbditos com a presença daquele senhor.
- Queremos que a ele se juntem outros. -Solicitaram.
- Para Kambaw ser sede, só falta o administrador comunal se mudar para aqui. - Confirmaram, comparando as infraestruturas existentes numa e noutra aldeia.
Falámos do esforço que os sobas e a comunidade devem fazer para preservar os equipamentos sociais existentes, encorajando e protegendo os meios do empreendedor e tomar as decisões mais assertivas.
- Não se preocupe, nosso filho. Nós estamos com ele e o caminho que nos indicar em Agosto é o que vamos seguir. - Disseram os sobas, antes de nos despedirmos. Os galos já ensaiavam o seu primeiro canto.
6.3.22

quinta-feira, abril 28, 2022

UM "CARAPAU" NA CONSOLA

 Era um dia de distribuição de peixe "fresco" que, na verdade, era congelado e raro em Kalulu. O ano, que quase se perde na memória, era 1988. Para quem fosse em visita, a vila estava cheia e agitada. Para nós era apenas "dia do peixe fresco" que faria diferença no almoço e na janta durante a semana. A kizaka, a kabwenya e outros condutos vezeiros estariam, por dias, em gozo de férias, dando lugar ao peixe "cozinhado", grelhado e assado, até acabar, pois poucos tinham meios de conservação.

Calhava vez sim, meses nunca, a chegada da câmara frigoríficas com peixe congelado que era distribuído pelas delegações municipais, empresas públicas, empresas privadas reconhecidas pelo governo e destes para as secções e destas aos trabalhadores.​
O autor desta prosa vivia com um primo professor primário na escola nº 3, na Banza de Kalulu. Por isso, estando ele a ministrar aulas, orientou o "irmão", que já era conhecido dos colegas, para ir à fila e receber as unidades que lhe eram "de direito". Vivia-se ainda o tempo da igualdade entre os iguais, embora havendo já diferença entre os que se mostravam diferentes do "povo em geral".​
Quem vai hoje a Kalulu, encontra, depois da Pensão da Tia Ká uma entrada. Era um largo quintal onde estacionava o camião frigorífico em que eram retiradas as caixas de carapau congelado, distribuído às delegações municipais, administrações comunais e outros organismos públicos e privados. Recebidas as malas, encontravam-se outros espaços para o retalho equitativo pelos
trabalhadores, salvaguardo o estômago largo dos delegados, comissários, chefes de secções e outros que recebiam mais do que a maioria.
Como em todos os tempos, Kalulu já tinha os pequenos "gregos" que andavam com uns artefactos de madeira com um um pico de metal com que "pescavam" nos locais de distribuição.​ Fazia sol e um pouco de poeira. Um dos grupos que procedia a abertura das malas de peixe congelado e distribuição unitária abrigava-se no passeio, debaixo da consola do edifício que comportava a EDIL (foto), hoje Pensão e restaurante. À frente estava o PCU (Posto Comando Unificado), cujas instalações acolhem o comando municipal da polícia.​

Um rapaz desconhecido controlou a desatenção dos distribuidores e receptores de carapau e, sem ser visto, pescou com o seu artefacto um peixe, colocando-se em fuga no meio da multidão.
Um kota, daqueles reguilas que não gostava de perder nenhuma contenda, pôs-se ao encalce do rapaz, desferindo-lhe um veloz pontapé que falhou no menino e acertou no vazio. O sapato, único do dikota, que era funcionário público, voou e encontrou descanso no cimo da laje consola.​ As horas que se seguiram foram para o mwadyakime encontrar uma escada que lhe permitisse reaver o pé direito do sapato castanho.
A rapaziada "pescadora" ficou dividida entre o olho no peixe e a estiga ao kota que perdera o sapato camossim​ por causa de um carapau.​ De lá em diante, os "sapatos de recreio com duas flores", que vinham da Jugoslávia, passaram a ser chamados "carapau".

Obs: publicado pelo Jornal de Angola de 17.04.2022

sexta-feira, abril 22, 2022

TRAVESSIA LESTE

Rio Longa, 06.03.2022 - O local fotografado fica à montante da "ponte do Lususu" que liga o Lubolu à Kibala. Levado pela curiosidade e exploração turística da região, meti-me, pela primeira vez, pela rodovia asfaltada (depois da guerra) que une os dois municípios do Kwanza-Sul, a leste da EN 120.

Até aqui, tinha parca memória daquela via que me levaria à aldeia de Kisangu onde vivia o meu homónimo (irmão do meu pai) que terei visitado em 1977. Lembro-me apenas que fui carregado ao ombro do meu pai e a aldeia tinha uma lagoa por perto, onde apareciam patos selvagens que chamávamos por pato d'água.

Depois do falecimento do meu "pai pequeno", na década de noventa do século passado, o filho Manuel Luciano (também finado) mudara-se para Kisangu, onde deixou a viúva e o filho.

Saído do Kisongu, juntei ao útil o agradável: conhecer a primeira estrada e primeira ponte sobre o rio Longa, por onde se trafegava de Luanda à Nova Lisboa (Huambo), passando pela ponte Filomeno da Câmara (travessia sobre o rio Kwanza), rio Longa (ponte que antiga na imagem), Kibala-Santa Comba (Cela) e daí em diante. Foi também uma oportunidade para conferir as imagens que conservava da visita ao Kisangu e ver os parentes.

Sendo a primeira passagem e sem estórias e história sobre o tabuleiro, a visualização de destroços no rio forcou a paragem.
- Ela foi destruída pelos maninhos na guerra de oitenta. - Contou o ancião Kime que pescava à linha no rio Longa.

Engoli desapontado com os autores, mergulhando num caudal de interrogações:
- Por que a destruíram, se ela até andava bem escondida numa picada remota?
- Quanto dinheiro se terá gasto na sua substituta?
- Por que não se pouparam coisas que a todos faziam e fazem falta?
Continuei a marcha, num asfalto sem mácula. Dois quilómetros depois, parei para perguntar se já estava no Kisangu, ao que as senhoras que marchavam de regresso para casa disseram sim.
- Ka mon'Andono K'aphuku. Luciano Kajila nduku yami¹.- Apresentei-me, ao que me indicaram onde vive a viúva e o filho do meu finado primo Manuel Luciano.
Uma casuarina de flores vermelhas convidou-me a adentrar uns 15 metros que separam o conglomerado habitacional familiar da rodovia. Plantar flores é um hobby da minha família paterna e "não podia ser outro lugar". Falei para a mulher que me acompanhou na viagem.
- Como é que sabes que é aqui a entrada?
- Vamos. Eu sei que o Manuel gostava de Plantas. É um hábito de família.
Encontrámos o Mingo, meu sobrinho a colocar barro numa parede feita de adobes. A casota tem cobertura de chapas de zingo.
Apresentou-me a sua avó materna que fomos saudar, apresentando-me num Kimbundu aportuguesado e usando o mesmo discurso. Sou filho de António e chará do finado Luciano.
A idosa, já com pouco foco nos olhos, passeou a memória pelo tempo. Vieram-lhe as imagens e as conversas. Agradeceu a visita surpresa e desejou-nos boa viagem.
Já a sair, depois de ter deixado ao sobrinho umas patacas, surgiu a mãe dele que recebera recado de que iam pessoas num carro à casa dela. Chegou ofegante. Quase não conseguia falar. Não lamentou a nossa ausência, o que era de esperar. Afinal o Kisangu já não fica longe. É fora do tráfego normal (EN 120) mas tem também estrada asfaltada e a ponte que fora destruída já foi reposta há maus de dez anos. Aliás, foi isso que levou alguns dos Kisangwistas, que se encontravam refugiados em outras paragens, de volta à aldeia natal.

A "cunhada" queixou-se do miúdo que, sendo órfão de pai, decidiu arranjar mulher.
- Não há problema, cunhada. Vamos ajudar. Ele é teu filho único e precisas de alguém por perto para se ajudarem. Não fez mal. está é a fazer bem. Tinha já deixado umas moedas mas, agora que me falou do pedido, acrescento mais essas moedas para ver se ajudamos na compra das coisas do alembamento.
Vieram-me à mente imagens de conversas (poucas) com o meu homónimo e de meu primo Manuel Luciano, da vez que fora rusgado pelas FAPLA e levado a Kalulu. - Os olhos quase se emocionavam e despedi-me prometendo não desperdiçar a próxima oportunidade para visita-los.
- Já sei onde vocês estão. Fiquem bem, cunhada!
Com a estrada a inclinar para Oeste, atingimos a EN 120, próximo de Mbumba-Alunga, onde se instalou uma grande empresa agrícola. Lá vive a irã mais nova de António Fernando, meu finado progenitor. A terceira paragem foi na aldeia Xele (Shell), mais a norte, onde vive uma das minhas irmãs, a única que decidiu viver na Kibala. Quer a tia Kambandu, quer a Júlia tinham ido às lavras.
Com o sol a afundar-se no Atlântico, Luanda ficava a 4 horas.

=
1- Sou filho de António Kaphuku. Lucianop Kajila é meu homónimo (chará).

Publicado no Jornal Cultura de 11 de Maio de 2022

sexta-feira, abril 15, 2022

UM FANTOCHE NA FARRA

Havia semana e meia que o espião terrorista estava misturado entre as gentes, comendo e bebendo com eles, ouvindo as conversas, indagando e sendo respondido e, sobretudo, tomando as notas, corrigindo o "tiro" e planificando novas vias de entrada e saída.

O movimento e movimentação regular de tropas republicanas levavam, às vezes, as pessoas, até os mais avisados e treinados pela herdeira da pide, à desatenção, fazendo com que os espiões "terroristas", fardados com uniforme republicano ou à paisana, penetrassem em surdina e se instalassem entre a população.

Sorte madrasta teve o Nuryeji. Vivia a sua segunda semana no Dundo, de bar em bar e de festa em festa. Exibindo, às vezes, o seu walkie talkie, era um pequeno mwata aos olhos dos incautos convivas, pagando cigarros, walwa e chafurdando o que podia.

A cidade, abastecida de géneros alimentares pela empresa kamanguista, era das mais importantes e recebendo dirigentes da capital e de urbes vizinhas a sul, sudeste e sudoeste. Até os do Comité Central, que politicavam na grande avenida das heroínas e do carro de assalto, mandavam requisições disto e daquilo.

Por essa altura, os terroristas faziam já "visitas" de sabotagem em quase todos os projectos, roubando comida, danificando o transporte de energia e apossando-se de bilhas de concentrado. Estávamos a viver a década de oitenta do século XX. Já tinham surpreendido e neutralizado a guarda e a gestão de um projecto, queimando um Hércules que pousara carregado de comida e sobressalentes.

Um dia, conto a estória dos "escapes rotos" por causa das bebedeiras dos terroristas que confundiram vinagre com vinho branco. Leram vino. Era italiano. Bastou beberem-no com gula de kaporroteiro sedento para diarreiarem dias e noites sem tréguas.

O terrorista Nuryeji estava camuflado numa festa da cidade. As pessoas conheciam-se e os civis toleravam os militares. Ninguém conhecia o terrorista. Por isso, alguns olhos, na festa, estavam postos nele, embora, treinado, se calhar, na bófia israelense, fosse de poucos falares e comedidos movimentos corporais.

Foi que uns akwenze decidiram dar-lhe de beber.

- Beba Camarada, não se acanhe!

Entre a indelicadeza que podia acirrar as desconfianças e a aceitação, o terrorista preferiu a segurança.

Meio copo, mais um copo, mais copo e meio, até que a bebida lhe aqueceu o corpo, ao ponto de meter-se na batucada, à roda dançante do cinguvu e ngoma ya phutu.

À medida que se ia contorcendo, com aquele dançar estranho que borrifava as noites sunguradas de Likwa, as calças do fantoche foram subindo e as peúgas exibindo o macho da galinha.

Alguém atento soltou aos ventos "fantoche na roda!" Instalou-se grande algazarra.

- É fantoche!

- Agarra fantoche, prende fantoche, mata fantoche!

Bem tentou ainda dar um pulo e marcar alguns passos para se desfazer na mata que era a sua predilecta cidade. Porém, os homens em todos os lados fizeram-se floresta e cumpriu-se a sentença:

- Amarra fantoche, prende fantoche, mata o fantoche!

Caído em desgraça, toda a sua vida e conexões foi, depois, exposta pelas vozes que desfilavam na frequência do walkie talkie disfarçável que levava preso à cintura.

Passaram semanas, meses, se calhar, e não se falou em todo o nordeste de outra coisa que integrasse a estória daquele fantoche apanhado na farra.

Publicado pelo Jornal Cultura, 16.03.2022 e Jornal de Angola de 20.03.2022

sexta-feira, abril 08, 2022

NUM "MATONGÊ" DAS ARÁBIAS

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, você, eventualmente, já sabia. Que os "zazás" não se lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para aonde quer que estejam, também é líquido. A novidade deve ser o "casamento" entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu.

A geografia aponta para Deira, uma zona comercial do tipo São Paulo de Luanda ou Hoji-ya-Henda dos anos 90/2000. Aqui, os indianos, paquistaneses e outros "eses" ficam quase num "chega-chega" à minha lojeca, com produtos sem preço que vendem ao critério da pressa ou desatenção do putativo cliente, sobretudo na hora da pausa para o almoço e ou reza muçulmana em que quase tudo fecha.
Uns até chegam a fechar os clientes na loja para melhor os convencer a comprar e ou desistirem de perguntar/procurar por preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o "matongê".
A fome daquele dia e hora era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, o que o levaria a perceber a nossa angústia e desistir, temporariamente, do seu "come in, i'l give you a very good price".
- We want eat. - Falei-lhe.
O homem olhou para nossa tez amelaninada e terá também medido o "volume" da nossa fome.
- Came on. I will show you where you can find what you need", disse, num inglês de tom arranhado e de fácil compreensão para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, adentrámos outro, subimos num elevador e no terceiro piso, que se parecia a uma vivenda, adentramos um restaurante(?) sem o cuidado que os asiáticos e europeus conferem a lugares para servir comida. Parecia algures no Palanca e tinha de tudo quanto a foto mostra e muito mais: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, mKaybu, peit'alto, carne seca e, se calhar, até carne de "primo" e makoso!
Por mais caricato que possa parecer, enquanto levávamos ao estômago as "bolas" de fufu, embrulhadas em folhas de maniôc, o comerciante espreitava de cinco em cinco minutos, apelando que não deixássemos de passar pela sua lojeca de bujingangas e outras modernices de curta duração e serventia.
É como se pretendesse deixar clarificado: mostro-vos a comida de vossa terra mas tendes de deixar moedas no meu mealheiro!

sexta-feira, abril 01, 2022

SOMEWHERE IN AFRICA WITH INDIANS

- Hello! You look like south african. Where are you from?
- Not South Africa. We are from Angola
- Oh! Angola. You've a very long war. How many Savimbi have in Angola?
- Only one.
- Oh! only one?! He's fighting, fighting not stop. He destroyed my business in Kwandu-Kuvangu and Moxiko. Why you don't put hin in a container?
...
In another East African country, an Indian, seeing that his wife was in a terminal pregnancy, decides to take her to Daman for delivery.
- He's not my son! - He exclaimed grumbling to see the baby full of melanin, while the woman swore and cried to all the saints, angels and archangels that she would never betray him.
The hospital advises on DNA testing, and both the accusing husband and the wife accused of "androidism" constitute attorneys.
- Let us put it clear. - He announced, while rehearsing the sanction.
Hours later, a little crestfallen, his lawyer arrived.
Doctor, this baby is your 99.99 percent.
- You are telling that but I don't believ. Look at me and look at her mother from her. We are yellow and baby is black. It isn't possible. - He sustained.
- But, why, Doctor, do you think it's impossible? If DNA test says that is yours? - Asked the lawyer perplexed.
- Pay attention! - He appealed, justifying then:
- when you plant tomato you get tomato. You don't get piri-piri. Isn't it? Why me and my wife yellow we have black son?
After all, it turned out that he was of black descent!
Photo: flying over Mbuji-Mayi (DRC)
Pode ser uma imagem de texto

terça-feira, março 29, 2022

SUA CABRA!

Parece asneira, se a expressão for jogada com carga pejorativa por cima de uma mulher. Lá chegaremos.

Sabalu Lumbu, 60 anos, natural e residente em Ndalambiri, Ebo, é um tio que, até hoje, ainda não sabemos quem adoptou quem.
Nutrimos uma estima recíproca, sendo ele irmão mais novo da mãe do meu compadre João Martins. Conhecemo-nos na CADA. aonde, em 2018, fomos visitar a irmã do compadre João Martins que se encontrava internada no dispensário de TB. Falámos sobre uns assuntos circunstanciais. e, sem demora, nasceu uma empatia de tio para sobrinho.  A finada tia Mariana Almeida, irmã mais velha de Sabalu Lumbu,  é que já me conhecia.

Posto na sede do Ebo, a 12.02.2022, decidi que não sairia de lá sem o ver. Já lhe tinha ofertado um facto, em Novembro de 2021, quando fomos ao óbito da tia Mariana, o que o deixou maravilhado.
- Nessa aldeia, e mesmo na vila, ninguém tem fato como o meu! - Gabava-se de pessoas a ventos.
Desta vez, levei um presentinho para ele, mas me tinha esquecido do mesmo no albergue em que estava alojado. Saído do rio (do banho), Sabalu Lumbu, encontrou-nos já sentados em sua casa, pondo a prosa em dia (mahezu) com a esposa e a irmã  que saíra de sua aldeia (próxima) para visita-lo.
Mal chegou, como que procurando cumprir uma promessa antiga, meteu-se a rondar o matagal à volta de casa, intentando procurar por algo que somente ele sabia.
- Ti Sabalu, não está a sentar. É o quê então? Será que já deixou de beber? - Provoquei-o.
- Não meu sobrinho. Isso não se deixa. Se trouxe uma garrafita, pode tirar. - Respondeu.
Enfiei os dedos na algibeira e de lá saíram mil Kwanzas que ele recebeu com vênia. Porém, não se assentou. Transpôs uma esquina e desfez-se de nosso horizonte visual, voltando momentos depois ofegante.
- Já bebeu! - Pensamos todos sem o verbalizar.
A conversa seguiu rumo, intensificando-se à medida que fossem chegando pessoas a quem João Martins brindava com recordações dos anos 80 e 90 do século findo, antes de deixar Ndalambiri para instalar-se na Cela e depois em Luanda.
Depois da despedida, e já junto ao carro encontrámos um saco contendo batata-doce e uma cabra amarrada que seria transportada no SUV, o que me levou a  perguntar atónito:
- De quem e p'raonde vai esse cabrito?

- Sua cabra! - Respondeu, sem mais acrescentar.
A LuSa, assim baptizada em alusão às iniciais de nossos nomes (Luciano e Sabalu), ficou no Ebo a fazer companhia ao cabrito do João Martins, contando que dentro de dois anos me venha a dar um bode.
Por coincidência, na mesma noite, navegando pelas redes sociais, chegou-me uma estória sobre dois rapazes a quem foi dado dinheiro para a compra de tênis. Um comprou um par de tênis que perfilava na primeira linha da moda. O outro comprou uma cabra. Passados dois anos, o primeiro tinha os tênis rotos e andar quase descalço, ao passo que o segundo tinha já sete cabritos, podendo comprar igual número de tênis.
Fiquei a reflectir, para além do alcance simbólico e da consideração que se tem por quem recebe de oferta uma cabra, no valor comercial e multiplicador daquele presente do ti Sabalu Lumbu. Foi mais do que um simples caprino!

Publicado pelo Jornal de Angola, 06.03.22