Translate (tradução)

segunda-feira, agosto 02, 2021

UM MUKONGO E TRÊS MBALUNDU EM KINGIMBI

A região de matas cerradas com capim esparso nas encostas ou cume de montanhas chama-se Kingimbi, Nâmbuangongo, margem do rio Lifune. Na picada sinuosa, curvilínea, estreita e coberta de capim e arbustos somente os carros todo-terreno ou tractores ainda ausentes "torram farinha".

O asfalto, aí onde existe, fica longe. É a floresta e seus mistérios quem mais gritam. A vida é pacífica para o trabalho árduo dos camponeses, ainda, "importados" em elevadas doses do planalto angolano.

Estes, tal como no passado, sem mesmo temer as chacinas "upa-lumumbistas[1]" de 1961, são os que mais se prestam ao trabalho agrícola por conta de outrem, aceitando uma estada de ano e tal para uma renda de Kz 25 mil/mês.

- É esse dinheiro que quando multiplicamos por doze ou mais, dá para comprar boi e vaca na terra de origem onde os que têm ajuizo se tornam também empreendedores.

Outros, porém, se tornam casamenteiros de várias akâe e produtores de vários filhos.

- É o azar que traz o dinheiro. - Diz Francisco.

António, Francisco e José, jovens vindos de Kaciwngu, Wambu, juntaram-se a Pedro, um mukongo, que chefia a equipa. Estão a 12 quilómetros da aldeia mais próxima e 14 da estrada asfaltada que vai a Muxaluando, sem lá chegar negra-betuminosa. Os três jovens, 25 anos abaixo, renderam outros manos que já fizeram o seu pé-de-meia e se tornaram investidores também. Preferem contratos de permanência anual. Dos três, só um bebe. Outros dois são da igreja Sende[2]. Por isso não manjam carne suína nem fumam. Álcool, dizem, só na ferida.

- Assim mesmo, como fez o mano Angostinho, quando terminar, vou para a aldeia e faço como ele. Compro duas cabeças e começo minha lavra.

Na fazenda, em Kingimbi, não têm gastos com alimentação.

- O patrão é nosso amigo. - Dizem.

Leva-lhes comida, bebidas não alcoólicas, roupas e têm placa fotovoltaica e parabólica.

- Ainda só falta mesmo jornal e revistas para se divertir. -Pediram. por isso ficaram com os jornais do cronista que foram devorados como no tempo em que o JDM me chegava actual e quente com seis meses de atraso, distribuído pela CEDIL dos anos oitenta.

Algo parece repetir-se, embora em moldes repensados.

Os ovimbundu, "dada a sua paciência", obediência e resistência em trabalhos manuais árduos foram os trabalhadores predilectos nas tongas. Povoaram os Kwanzas, Malanje, Uije, Cabinda, Bengo e Zaire. Temo-los em toda Angol'Agrícola.

Antes eram recrutados à força, soba a capa de contratos esclavagistas que davam, ao fim de um tempo sem fim, em pano e cobertor de quinta categoria, meio quilo de fuba e duas tábuas de peixe seco acastanhado. Regressavam ou nunca às suas terras onde eram re-escravizados por outro colono. Os que nunca voltaram constituíram comunidades culturalmente coesas, ensinando a língua e cultura a seus rebentos. É pela sua dispersão que "a angolanização[3] dos ovimbundu é meio caminho para a solidificação do sentimento de angolanidade por todo o país".

Nos dias que correm, recorrem aos contratos. Mal remunerados a olho nu. O trabalho agrícola manual é agreste. As matas montanhosas do Nâmbwa são impenetráveis. Os tractores, inexistentes, podem lavrar as margens ribeirinhas, porém, a perna e a mão cuidam da montanha. Por isso, são essenciais os jovens "mbalundu[4]" fortes, sem vícios e sem família que ganham e juntam tostões para uma vida livre e empreendedora. Há nesta imensa Angol'Agrícola vários António, Francisco e José que como os citados trocam força abundante por dinheiro necessário. Mas também aprendem. António, Francisco e José refinam a pesca fluvial, aprimoram a montagem de armadilhas várias para os animais e aperfeiçoam a defesa ao largo da propriedade. Saberão, com certeza, cuidar das suas ou concorrer em outras fazendas mais estruturadas e melhor remuneradas.

A esses jovens valentes, o cronista abraça e encoraja. Só no dicionário o benefício surge antes do trabalho!

 



[1] UPA=União dos Povos de Angola, predecessora da FNLA. Lumumba foi o 1º Primeiro-Ministro do Congo Belga independente.

[2] Adventistas do Sétimo Dia (corruptela em Umbundu).

[3] Criação de sentimento nacional ou patriótico.

[4] Ovimbundu (por extensão).

quinta-feira, julho 29, 2021

O METODISMO, A FENÊ E MOVIMENTO DE NETO

A lucidez no discurso e o peso da idade são provas do valor histórico-experimental do que lhe vem da alma. Velho Afonso José, religioso metodista desde criança, diz que "nunca frequentou outra" senão a sua "apostante" americana, a Igreja Metodista Unida em Angola.

Natural de Nambuangongo, comuna de Canacassala, o ancião mergulha nas memórias do percurso que leva Angola à independência e atira sem titubear:

- O cão não dá osso no outro.

Quando solicitado a esmiuçar, o mbuta muntu[1] vai mais a fundo.


- Em 1961 jovens daqui, do Nâmbwa , fizeram uma emboscada para impedir os colonos de sair para Luanda ou São Salvador. Os brancos montaram uma cilada e atraíram as mulheres, idosos e crianças para uma igreja a que atearam fogo. Esse massacre de Uhumba é, para nós, o início da luta, mas ninguém escreveu nos livros. Os jovens, usando catanas, machados e armas de pólvora de fabrico rudimentar, atacaram, em resposta, os colonos que retaliou com artilharia, canhões e infantaria. Quando a população se refugiou nas matas, usaram até bombas de napalm para queimar a produção no meio da floresta.

Quanto ao primeiro movimento na região do Nâmbwa, Afonso José diz que "foi a 'UPA Lumumba'".

- É assim que os guerrilheiros se apresentavam nos ataques. Primeiro na Fazenda Margarida e mais tarde em todo o norte. O MPLA chegou depois no Kaji Mazumbu e no Ngalama, Piri, em 1966.

Aqui, prosseguiu, "eram mais os jovens que iam ao Congo ao encontro do irmão Holden para receber treinamento no Kinkuzu e em busca de material como armas e munições".

Todos os chefes de famílias que permaneciam nas aldeias ou refugiados nas matas, pretendendo abandonar Angola, contribuíam com valores que se dizia "para fazer registo em São Salvador".

- Era a contribuição para a luta. É por isso que reclamamos, quando nos dizem que não combatemos ou vemos que só uns são integrados nos antigos combatentes e outros não. - Justifica, lançando interrogações ao vento.

- Quenhê o mais velho que está em Nâmbwa e não combateu? Uns estavam nos quartéis e outros nos destacamentos. Todos lutaram contra o branco. Infelizmente, quando um irmão desviou dinheiro da UPA para o MPLA aí começou a separação e o desentendimento entre uns e outros e fomos até 1974, ora ataca o colono ora ataca o irmão igual. - Recorda melancólico.

Segundo o mais velho Afonso, nos kibetu[2] entre a Fenê e o Movimento de Neto, "o 25 de Abril foi a salvação do MPLA aqui no Norte".



[1] Idoso, pessoa notável e/ou respeitável.

[2] Porrada, confrontação.

quinta-feira, julho 22, 2021

O KAMUTUMBULÊ[1] DE KICANGA SALA

A aldeia fica a uns 3 quilómetros de Muxaluandu, a capital do Nambuangongo. Kicanga Sala. É assim que está grafado na sinalética da IMUA[2] local. A rua da igreja, que tem perto de meio quilómetro, é a mesma em que ele vivo.

Cara do Car(v)alho. É o nome que ganhou nas trafulhas que a vida lhe impôs.

Nas nvundas[3] que se sucederam à chacina da Fazenda Marta, em 1961, meteu-me na mata e na guerrilha e em busca da revolução que o levou ao Congo de Mobutu, onde gastou a juventude.

- O estrangeiro, em terra do outro, para se impor, tem de ter algo extraordinário. Inteligência, profissão, força ou elegância. Qualquer coisa. - Conta.

Cara do Car(v)alho, altura média, era, à data, um poço de força. Um refugiado que fazia trabalhos braçais e não admitia abusos.

- Eu ameaçava e batia mesmo. Mas batia com responsabilidade. Só quem passasse dos limites. - Justifica.

Hoje, setenta e quatro "cacimbos" no lombo, já curvo, é uma bengala de pau, com terminal em T, que o ajuda a erguer o corpo e caminhar. Comparados os exemplares vivos da sua mocidade, CdC é ainda um muzangala[4]. Quem for a Kicanga Sala encontra-o bem aparentado. Cabelo negro, sem calvície, corte bem alinhado, num estilo que o remete ao Congo de Tshisekedi[5]. Coluna vergada, andando a custo, dado peso da idade, sempre sorridente, um falar preguiçoso, mas melódico. Gosta de apanhar sol nascente de "cacimbo" à beira da rodovia poeirenta que vai a Muxya. Sentado numa cadeira branca, de plástico, junto à mangueira na elevação, permitindo-lhe ver quem entra e sai da aldeia, calças e casaco pretos, camisola branca e chinelos também enegrecidos, é receptor de todas as saudações.

- Bom dia, tio Cara. Bom dia, avô Cara. Bom dia, compadre Cara. Bom dia, papá Cara, Bom dia, irmão Cara ... - Cumprimentam-no e responde, mesmo a contragosto. E explica:

- Hoje já não gosto desse nome. - Atirou, depois de responder amigavelmente à saudação do seu amigo Kito, procedente de Luanda.

Cara do Car(v)alho explica como surgiu o nome que lhe ficou colado para toda a existência.

- No Congo, era preciso atitude. Era assim que eu advertia os insurrectos. Quando voltámos, nos anos oitenta, fui trabalhar em Kiminya, onde os que me conheciam continuaram a me chamar como faziam no Congo. Continuei a advertir os que mangavam o meu sotaque com a mesma expressão, "cala a boca, seu cara-de- car(v)alho!". Vim para a aldeia natal e o nome me seguiu. -Conta o septuagenário.



[1] Indecifrável, impronunciável, incitável.

[2] Igreja Metodista Unida em Angola.

[3] Guerras, confusões.

[4] Jovem.

[5] Alusão a Félix Kisekedi, Presidente da RDC.

quinta-feira, julho 15, 2021

VATATE WANDA KO KACIPEMBE

Corriam os anos sessenta do século XX. A chuva tinha caído bastante naquele ano distante. Os rios ainda escoavam em abundância. As florestas alegres de verde, embora o capim começasse a vergar as flores para baixo, dando lugar à festa das codornas entre o areal esparso dos caminhos afunilados. Anunciava-se o kasimbu, reortografado pelos lusos por cacimbo. Às mães estava confiada com a colheita do último milho e a preparação de novas terras para a época vindoura. Era tempo de olhar para o cipembe¹ que reentra na lavoura.

Para os pais, eram tempos difíceis. Estavam divididos entre a participação na luta armada pela independência, que deles ordenava entrega afóbica, e o recrutamento coercivo para as milícias africanas do regime colonial. Muitos corações estavam divididos, assim com os lares e as famílias que podiam ter um tropa tuga e um irmão kambuta². Porém, aos infantes a vida corria bem, divididos entre a escola, as férias, a pesca miúda, as caçadas, as armadilhas aos pássaros e as brincadeiras. Fora da escola, com professores rígidos no ensino do â-mbê-cê-ndê, as férias grandes era o melhor que as crianças viviam de suas vidas inocentes e imaculadas.

Nos parcos momentos de inactividade militar, os pais de Kambweyo dividiam-se entre a lavra, a pastorícia e a nembele³. Uns abraçavam-se às vihamba⁴ e outros à arte de kukendja⁵.

Os jovens, cuidadores da aldeia e os intelectuais saídos para o trabalho nas vilas e cidade, aproveitavam o sábado para exorcizar a dureza do trabalho o contragosto que era combater ao lado do combatido e pôr a politica em dia. Era dia da Voz de Angola⁶.

No momento em que a aldeia de Kambweyo se mostrava vazia, Borges, um DGS, barba aparada, óculos escuros em tarde cinzenta, fez-se à Aldeia, interceptando Arlindo e Agostinho, meninos a contar 3 e 6 anos que brincavam à corrida de jante.

- Então, estão bem?

- Sim, chefe.

- Aonde foi vosso pai.

- Papai wanda ko kacipembe7.

Borges, um DGS/PIDE com já muitos anos de Angola, conhecia os códigos, as expressões mais frequentes e os lugares.

Era um tempo em que a metrópole concorria para o lugar cimeiro de maior produtor vinícola da Europa. Os destilados locais que haviam sido remetidos à preciosidade da clandestinidade estavam "terminantemente proibidos" e caçados os seus fabricantes e utilizadores.

Nas aldeias do Vye, os jovens de então os haviam rebaptizado de kacipembe. Nome que soava cipembe8 aos ouvidos de caçadores de desgraça alheia.

Borges, confuso, sacou dois rebuçados da sua sacola e voltou a aproximar-se dos dois primos que empunhavam cada um deles uma jante de bicicleta com que ensaiavam corridas de uma ponta a outra de Kambweyo.

- Ó meninos, venham cá. Tenho rebuçados para vocês.

Enfiou a mão ao porta-luvas e de lá retirou a sacola na qual guardava as guloseimas. Escolheu duas unidades e emendou:

- Se quiserem amêndoas também é só dizerem. - Adoçou.

Agostinho, o mais velho, dois anos à frente e Arlindo com cinco anos, aproximaram-se desconfiados. Filhos de irmãos assimilados, falavam português, mas estavam treinados: com branco, mesmo amigo dos papás, resposta é só em Umbundu.

- Então, digam lá outra vez. Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe.

- Hum-hum. - Abanaram as cabeças em jeito de negação.

- Então aonde foram vossos papás e os amigos de vossos papás. - Indagou o agente Borges, conhecido na aldeia, por causa da sua Land Rover branca com carroça coberta de lona que já levara para castigos na cidade jovens e adultos daquela aldeia.

- Vatete vanda ko kacipembe9. - Voltaram a responder os petizes.

Confundindo kacipembe e cipembe, Borges meteu-se, sem caça, a caminho da cidade. Os meninos e os jovens de Kambweyo tinham ganho o dia, enquanto o agende da PIDE/DGS registava mais um fracasso nas suas tentativas de prender e molestar os utilizadores de destilados locais.


=

¹- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).

²-Guerrilheiro do MPLA

³- Igreja (Umbundu).

⁴-Adereços mágicos, mixórdias (Umbundu).

⁵- Destilar (Umbundu)

⁶- Programa radiofônico do MPLA emitido a partir de Dolisie, República Popular do Congo.

⁷- Bebida destilada à base de milho, cana e outros produtos).

8- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).

9- Os papás foram beber kaporroto/kacipembe.

=
Adaptado de uma estória contada por Agostinho Lopes.

quinta-feira, julho 08, 2021

RAZÕES DO APLAUSO AO SIMPLIFICA 1.0

Para renovar a sua carta de condução, um cidadão (bem, identificado) foi a uma repartição da Direcção de Transito e Segurança Rodoviária. Conferidos os documentos, foi-lhe dada uma nota para liquidação, pois a instituição não tinha Terminal de Pagamento Automático.

- Senhor vai à administração municipal para proceder ao pagamento dos emolumentos.
Posto no banco indicado, não havia ATM.
- Senhor, vai ao outro banco.
Posto no banco indicado, ficou a saber, depois de enorme espera na fila, que o ATM tinha ficado sem papel.
Foi procurar outro banco para proceder ao pagamento e o dia fez-se tarde.
No dia seguinte, voltou às instalações policiais para apresentar o comprovativo do pagamento.
- Senhor, falta o atestado médico. Vai à administração tratar.
- Mas, ó chefe, por que não me disse já ontem e trataria tudo lá? Contrariado, foi em busca da nova demanda. Voltou à administração municipal que lhe fora indicado:
- O senhor deve ter o modelo. Vendem na Imprensa Nacional ou no SIAC (que ficava a 30 minutos de carro). - Informaram-no.
Com algumas palavras dóceis, lá apareceu um modelo ao preço de Kz 2mil que pagou sem comprovativo.
- O senhor deve ir àquela outra repartição para pagar a inspecção que custa Kz 3mil. - Indicaram-lhe.
Feito o pagamento, o médico/inspector não estava no seu posto.
- O senhor deve esperar até que ele chegue, caso ainda volte (eram já 14h30), ou voltar amanhã às 14h50 para fazer a inspecção e receber o atestado.
Ao terceiro dia, depois de mais 30 minutos de espera, lá chegou o homem:
- Fulano de tal!
- Presente!
- Vê bem?
- Sim. Vejo. Naquela placa (que se achava distante) lê-se iva.
- Ok. E os pés estão em dia? Nenhuma dor?
Correu no mesmo lugar, mostrando aptidão, antes de responder.
- Como vê, sô tor, estou em dia. - Disse, em meio a brincadeira, para descontrair.
Aguardem a chamada daqui a pouco.
Mais trinta minutos, recebeu o atestado de aptidão física, entretanto, tarde para ir à entidade policial.
Ao quarto dia, apresentou os documentos, tendo sido diligentemente atendido.
Por mais que o órgão policial queira ser eficiente, se outros serviços à montante não forem lestos, o resultado final será lento e levará alguns automobilistas/taxistas (aqueles que vemos só com papel de multa) a preferirem o recurso a Mateus 5:25.

quinta-feira, julho 01, 2021

O WC E A COLECTA DE INFORMAÇÕES

Que o wc é um dos lugares em que mais tempo fico, isso a minha família há muito já sabe. Que o vaso sanitário é também o "assento" em que mais me demoro, fora do ambiente profissional, isso há muito eu conclui. O wc, longe do que alguns desavisados pensam, "mero lugar para higienização do corpo e descarga do aparelho digestivo", é também um espaço íntimo, onde o utente fala consigo mesmo, servindo-se de elevada privacidade que o leva a viajar aos mais complexos dossiers. Tanto é que, no seu livro de memórias (pág. 88), o Gen. Higino Carneiro conta ter visitado um brigadeiro da equipa militar opositora, tendo "encontrado no wc telegramas militares" que se constituíam em confidências militares naquela altura e circunstâncias¹.

Gosto de entrar em wc higienizado, arrumado e com outras alternativas, para que ninguém me imponha pressão.

Antes da inovação tecnológica, quem fosse  ao wc, latrina ou sentina, fazia-se acompanhar de um jornal que lhe fazia companhia na hora de "expulsar os demônios" e servir-se do mesmo para limpar as "lágrimas do demônio".
Vezes havia em que, na ausência de um jornal de qualquer data, o papel intermédio do saco de cimento ou um caderno antigo faziam o lugar do sapupo². Hoje é telemóvel. Tem notícias frescas e ao gosto, vídeos, piadas, fotos, dicionário, gramática e até os álbuns familiares. Essa coisa pequena, o telemóvel, é hoje o "amigo inseparável" do homem moderno.

Mas, sobre o wc não é tudo. Descobri que é um bom lugar para obter informações sem ter de se chatear ou obrigar a ninguém. É como o indivíduo que fica escondido numa sacristia ou confessionário. Lá chegam os desabafos e as confissões desarmadas e desalmadas.

Um desconforto intestinal levou-me a ficar dez minutos em um wc que tinha outras cabines. Sem fazer barulho, para que ninguém desse conta da ocupação prolongada da cabine, se constrangesse verbalmente, ainda um mal-humorado a gritar "sai daí, cagão", fiquei quietinho a dialogar com o meu telefone.

Não é que muitas confissões e desabafos me chegaram ao ouvido?
Calculo que o wc seja também um lugar predileto de gente ligada à obtenção de  informação classificada, sem fazer recursos a métodos ortodoxos!
=
¹ Memórias - Soldado da Pátria, 2021, pg. 88: "... Lembro-me de um dia ter ido à casa onde residia o brigadeiro António Urbano ´Tchassanha´, membro da UNITA na Comissão Política, para tratarmos assuntos prementes. Estávamos a falar e pedi para ir à casa de banho. Lá observei, com surpresa, grande quantidade de telegramas que eles trocavam com a direcção, no concernente às forças militares e ao processo de desmobilização. Os telegramas relatavam o que estavam a esconder em armamento e forças militares. Abordei-o, surpreso pelo que vi e li. Ficou sem jeito. Não soube justificar. Pois, uma vez mais aí estavam provas irrefutáveis da violação dos Acordos de Paz no âmbito militar"...
²-  Sabugo, também conhecido como "caroço de milho".

terça-feira, junho 29, 2021

NÂMBUA: A GUERRILHA, A REGIÃO E AS ESTRADAS

Tá maluka, avô chegou, kaleluia são designativos da mota de três rodas (coexistem também as de seis rodas adaptadas para cisternas de transporte de água). A esses nomes, oriundos da rica invencionice angolana, junta-se outro, por ironia coincidente com a designação de uma municipalidade aonde os carros chegam a custo. Nâmbua. Isso mesmo. Diminutivo de Nâmbuangongo que fica na província do Bengo.

Não sei por que "carga d'água", as kaleluia no Bié, Huambo e Benguela ou tá maluka no corredor leste/tucokwe foram rebaptizadas de Nâmbua, depois de conhecidas, entre os povos ambundu das cidades, por "avô chegou", alusão à capacidade de transporte de imbamba que só mesmo as avós (avô de mulher) têm paciência e amor para tal.
As primeiras vezes que ouvi falar sobre Nambuangongo ou Nâmbua e sua árvore ande se confeccionavam luandos (muxi-a-lwandu) era sobre a tenacidade e coragem dos guerrilheiros do MPLA que ali montaram, sem nunca fraquejar, a Primeira Região Político-Militar.
Soube, contado pelos livros e pela oralidade dos adyakime, que "não foi fácil manter o povo organizado e combativo nas matas da região, arreigado na luta contra o colono kaputu e, outras vezes, nos reencontros com os irmãos da UPA".
Os rapazes que cantam "deixa de falar na minha amiga é yabará, kiwaya ou kilapi" também trouxeram o Nâmbua ao live da televisão que diz "somos todos nós" e mostraram a riqueza cultural da região ao país e ao mundo. Mas sobre o Nâmbua do futuro, que devia ser já presente, pouco relataram nas canções.
Já na Angola recente, com as estradas a chegarem mais distante, ecoam gritos sobre o estado "lastimável" das picadas. Vozes bem audíveis reclamam "porquê que estando Muxialuando (a sede do Nâmbua) bem perto de Luanda, a poucos quilômetros de Kaxito, não tem estrada asfaltada".
Vieram promessas, até mesmo adjudicação de obras para que os carros de todas as cilindradas, tamanhos, bolsos e gostos chegassem por lá.
Em conversa, um amigo natural de Muxi-a-luandu (como ele gosta de diferenciar na pronúncia do topônimo) que foi pioneiro na guerrilha, conferiu, a brincar, que "muitos que por lá fizeram a tropa de guerrilha e da salvaguarda da independência subiram na vida e também têm seus carros que gostariam de mostrar os tios e avós que ficaram na banda".
- Como é possível que a minha mãe, para ver o meu carro, tem de vir a Luanda por cima de uma Nâmbua e eu não posso ir mostrar os frutos da participação na guerrilha, formação e trabalho árduo? - Questionava-se o sexagenário., acrescentando "é por isso que temos de gritar até sermos ouvidos".
Via noticiários soube que o Nambuangongo terá já estrada asfaltada e o meu amigo poderá ir, sem enfrentar buracos no período de cacimbo ou lama no tempo chuvoso. As Nâmbuas vão deixar de fazer viagens longas e cingir-se ao transporte de banana e mandioca da lavra à vila. Afinal, o Nambuangongo é berço da nossa luta, parte da nossa pátria e da nossa História e merece o melhor que outros já têm.

terça-feira, junho 22, 2021

WAKYUKILA KWAMAMÔ

A expressão eufemística em título é, às vezes, substituída por way kwamamô, utilizadas para diminuir o impacto nefasto de uma perda humana.
Wakyukila equivale a regressou e way é o mesmo que foi, em Português, sendo mamô, mãe (Kimbundu kibalense).
Essa prosa surge em virtude do passamento físico do mais velho Martins Sabonete Mambo, nosso pai, vizinho e amigo na Classe Jeremias do Cargo Moisés (Igreja Metodista Unida em Angola) e no bairro Rangel.
Conheci-o em 1984, quando vim a Luanda fugindo a guerra no meu Libolo.
Na Classe, eram seus contemporâneos os velhos João Kambundu, Joaquim Artur (Kumbu) e António Magalhães. Havia outros papás como José Morais que eram mais novos. Recordo-me de algumas conversas dele com seus amigos, cuja despreocupação, ante a minha presença, permitia dar trabalho aos meus ouvidos.
- Eye a Mambo, kumbi pi wekelaxi usupeta¹?
Ele simplesmente ria de lado e colocava na conversa um outro tema, despistando os amigos de um tema que criava irritantes no seio dos membros em relação à observância do "livro da disciplina metodista".
Às vezes, para nos afastar de suas prosas íntimas, os papás mandavam-nos colocar petróleo nos candeeiros de que éramos guardiões.
- Vai pôr pitalolo no candiero. Amanhã tem outro culto.
É nós, cumpridores e expeditos, executávamos com pressa e perícia aguardando, já meio distanciados dos mais velhos que glosavam um Kimbundu refinando e um português arrazoado, uma possível nova orientação ou o "fecha a porta e vamos".
Já no bairro, o Velho Mambo sabia pôr disciplina e/ou fazer a miudagem rir até colocar a descoberto o último molar.
Lembro-me dos elogios que fazia ao seu antigo mecânico de nome Mateus. Ele, Velho Mambo, tinha um Renault 4 antigo que havia comprado por abate na Sonangol, onde trabalhara. O senhor Mateus (pai da Sambita e outros meninos que foram meus alunos) era mecânico automóvel na FAPA/DAA².
Nos elogios ao mecânico, com alguma sátira pelo meio, o mais velho Mambo disparou certa vez.
- Mateuju ra é mbo macânico. Ruviá pára no ar, Mateuju ranja³.
Porém, no dia em que o Renault o deixou na rua, depois de sair das mãos do mecânico Mateus, o ancião não deixou de desabafar o seu descontentamento:
- Esse ngaju ndu Mateuju, mboca mbe cumbilhitu palece mbuneco ndu lua Cêsamo!
Pai de meus amigos, o Velho Mambo era um exemplo de progenitor dedicado e que tudo procurava fazer em prol dos filhos, defendendo a sua filha Luzia com o porrinho que ele chamava de Humbi.
Só os jovens bem educados e que se destacavam nos estudos mereciam o respeito dele e podiam ir pedir autorização para que a filha pudesse ir com eles ao cinema, à praia ou (mais tarde) ao dancing.
- Velho Mambo, vim só pedir para autorizar a Gia ir connosco à praia no dia xis. Vamos fulano, sicrano e beltrano. Pretendemos partir à hora xis e regressar à hora K. - Era assim, quer fosse para o cinema ou para o dancing.
- Amanhã volta para te dar resposta. - Respondia, para dar tempo de chamar uma das pessoas citadas e averiguar se o destino e as pessoas enumeradas eram certas.
- No dia aprazado para a resposta, fazia umas recomendações sobre os procedimentos a observar e concluía com uma citação que, para mim, era já música.
- Se cuidem e se vigiem. Têm que andar sempre juntos para ninguém se extraviar. Ouviu bem?
- Sim, velho Mambo. Muito obrigado!
===
¹ Ó Mambo, quando é que deixas de "bebiscar"?
²- Forças Armadas Populares de Angola/Defesa Anti-Aérea.
³- Avião em vôo pará no ar e o Mateus repara a avaria.

terça-feira, junho 15, 2021

A ESPLANADA, A LAVANDARIA, OS BALNEÁRIOS E O RIO

- Ó chefe, ainda aquele dirigente deixou saudade. É verdade. Ele, onde chegava, fazia. Ainda aqui mesmo deixou emprego. Hotê, restaurantes, etecetera. Ainda vê aqui. Aquele, lá, ao fundo, era para ser lavandaria. Era para as pessoas não lavarem mais no rio. As pessoas deviam vir cartar¹ só água no rio e lavar na lavandaria. Lá, junto a ponte, eram as casas de banho. Veio lavar ou veio se divertir, a higienização seria já ali. Aquele, tipo armazém, que está a ver aí, é o gimnodesportivo. Ó mano, o homem ainda trabalhou. Ainda estamos a lhe sentir mesmo saudade. Aqui, era para fazer esplanada com cadeiras dentro e fora, a olhar para o rio Cuebe, e ainda, dizem, devia subir mais. Era para ser mesmo um hotê. Assim, a pessoa mesmo que lhe falem gatuno, ainda vale apena gatuno que trabalha e não os outros. Ainda se terminassem só essas e outras coisas, o povo ia se beneficiar e ia gostar. Vê ainda, ó mano, o que o kaputu cikolonya² deixou: prédios, caminho-de-ferro, pontes, e muitos eteceteras. Vocês ainda que andam a sentar com os governantes lhes avisem só. Obra do outro que saiu é melhor acabar. O povo vai gostar.

A senhora, nos seus aparentes setenta anos, parecia lavada, manhã cedo, de um fermentado ou destilado abundante e de pouco preço no sudeste. Apesar de o cacimbo ter menos de setenta e duas horas, o frio era já de rasgar as fossas nasais e rachar os lábios. A lagartagem³ via-se por todos os lados e repartições, os linhos e algodão leves tinham dado corpo aos casacos pesados e peludos por dentro. Ainda bem que a covid-19 impôs as máscaras faciais. Aqui, são também apelidadas de "trava bafo".
- Pessoa você lhe vê bem vestida, ó mano, lhe manda desmascarar. Já saiu na casa do kacipembe⁴. Quando a pessoa lhes fala verdade, lhes tira o capuz, me falam sai daqui ó velha bêbada. Bebi na tua casa? Pronto, ó chefe, vou atravessar. Se quer galinha eu vendo na estação. Me encontra lá, pergunta mamá Nacitula.
===
¹- Encher o recipiente de água e levá-lo, normalmente, à cabeça. A expressão deriva de acarretar.
²- Colono português.
3- Relativo ao acto de colocar-se ao sol, à semelhança do que faz o lagarto que procura pelo sol nascente.
⁴- Bebida fermentada usada no sul e sudeste.

terça-feira, junho 08, 2021

O RIO QUE SEPARA KK DA HUILA


Agora que "as terras do fim do mundo" parecem proximas e já são apelidadas de "terras do progresso", apesar da sua enorme extensão e com alguns círculos a reclamar divisão em duas províncias, há quem olhe para a designação da província e para os marcos que lhe dão o topônimo (Kwandu-Kuvangu) e faça sair um novo grito.

"O Kuvangu (hoje pertencente à vizinha Huila) também é nosso"!
O rio Kutatu, cuja ponte se vê em primeiro plano, é hoje a divisão entre a Huila e KWANDU KUVANGU, estando o rio e município do Kuvangu integrados na Huila (pelo menos nesse extremo).
O Kutatu (comuna do Kuxi, (KK) e o Kuvangu (Huila) têm ferro em abundância.

terça-feira, junho 01, 2021

A KATOMBELA E O LOPITO QUE NEGA SER BG

 


(Ponto prévio: não gaste em vão sua pedra).

Quando me tornei homem sapiens (consciente do que há e se diz à volta de mim), município de Katombela não havia ainda.
Havia a fábrica de celulose (tintas e pepel) que estudei na terceira classe do tempo de Agostinho Neto (em termos de frequência escolar, sou de outra geração, a que apanhou ainda o modelo português mas com livros adaptados à realidade angolana). Soube também, pelos livros e contares de mais velhos, que na Katombela (estou a pronunciar) havia muita cana-de-açúcar e uma unidade transformadora. Uns diziam que "não havia macaco com estômago bastante para desafiar as bananas em Katombela". Contava-se ainda que "aquele rio era um arrasta visitantes que nele se jogassem sem permissão". É que verdade ou invencionices, os mitos e a razão andaram sempre juntos.
Por outro lado, conta-se ainda, que os "finos" lopitangas, mesmo vivendo na escarpada Kanata ou kaponte, ou Kalomanda, ou kamunda, ou "kamentira" diziam-se (parece que continuam) que "NÃO SÃO BENGUELENSES".
Mas eukiêntão?!
Sigamos: nessa "briga entre benguelenses (capitalinos) e os portenses do Lopito (passagem e não o escritor poeta) alguém foi vijunário (de vijú) e orgulhoso do brio industrial da sua Katombela e "impôs" um novo município, curto junto ao mar, mas que se estende ao interior, abraçando o Monte Belo e outras terras que separam a planície dos montes planos.
Assim, o Lopito corre para norte, ao encontro do Sumbe. O novo município katombelense enfia-se no interland, a leste, ao passo que o município "capitáa" corre para leste e sul. Pronto, está (re)contada a estória. Resta a sua atenção ao alto da Kanata, a capital periurbana do Lopito. Deleite-se com a escadaria que podia ser montada de forma anelar e com ruas entre conjuntos habitacionais. O engenho do "salve-se quem puder" colocou as habitações "uma na cabeça da outra", num manto escorregadio que se entrega fácil e afável à chuva farta da região.
Comparada a Kanata do Lopito ao Américo Boa Vida do Sumbe, só acorre uma frase: na arquitectura incomum, poeira e afobia VALISETAHÃLA!

domingo, maio 30, 2021

AMEKO

Quando cheguei a Quilengues, terra de meus amigos e colegas de profissão, as jovens que encontrei a aproveitar a sombra da "árvore grande", que em Luanda chamam mulembeira, perguntaram-me:

- Ó mano, ainda ouvimos que na descida, da bifurcação prá cá, houve lá um acidente. Kenhê que se acidentou?
- Ameko, respondi.
- Afiná, o mano ainda é mesmo daqui. Mas, fala ainda. Está a vir daonde? - Perguntou uma jovem encostada a uma roulote. Era esbelta para o seu tempo e território.
- Ó, mana, me dá ainda de comer e de beber. Gasosa é quantué e a sandes é quantué? - Indaguei, procurando aumentar a empatia que já tinha ganho no primeiro contacto.
- Gasosa em garrafa é trezentos. Sandes de chouriço e ovos é quinhentos. Se tem já teu pão te faço lá kadesconto.
Sôfrego da longa viagem - Luanda-Huambo-Chipindo-Huambo-Longonjo-Huambo-Menongue-Cutato-Menongue-Lubango-Quilengues- mas ainda com algum vigor, dei uns passos até à padaria que se achava à frente da mulembeira, cujas folhas lutavam contra o sol, emprestando-nos a sua sombra.
- Mana, meu pão é esse aqui. Para os meus colegas faz mesmo com o teu pão. Eram três a se reerguer ainda na viatura estacionada em frente ao Partido.
- Mas ó mano, ainda num me contaste lá se és daonde e estás a vir daonde.
- Sou teu cunhado. Minha mulher é biena e vim ver "se encontro mais uma kafeko daqui". Até vou já ligar ao meu amigo Kassana para me indicar onde posso comprar terreno. - Enfeitei para o contento da minha interlocutora.
- Mulher daqui, ó mano, num vale a pena. Vais acordar sozinho. - Alertou a Magrinha, nome que lhe dei sem que ela soubesse.
- Mas, assim, fazem quê? E eu que me encantei com o Quilengues, faço como? - Adocei.
- Vó ter dar lá um kaconselho. Se o mano quiser faz, mas também se quiser 'mbora acordar todos os dias sozinho, problema é teu. Faz assim, endireitou o discurso: terreno ou casa, pode comprar. Aqui é bom. Tem água, tem energia, passam muitos carros e a vila tem muito movimento. Mas isso faz também as kafeko ficar com as cabeças no ar. Mulher mesmo, para manter, arranja noutro sítio e lhe traz aqui. As daqui, esquece ainda!
Mesmo a enfeitar a boca, só para não sentir a lentidão do tempo que separava a sandes pachorrenta da minha boca, acenei a cabeça em jeito de aceitação.
- Manos podem já encostar. - Chamou a outra jovem da roulotte. Era também magra mas com algumas picanhas fora do lugar e uma indisposição de grávida recente. Aliás, essa, enquanto a Magrinha dialogava abertamente, contando os novos hábitos dalgumas moças descasadas de Quilengues, ela reprovava com gestos e palavras balbuciadas do tipo "nó le conta isso".
Manjamos. E como a cidade de Benguela ainda estava distante e já pronta a receber o sol que para lá se dirigia apressado para mais um esconderijo, decidimos partir, mirando os olhos nas árvores e nas montanhas que corriam apressadas para trás, ao ritmo dum motor vigoroso que bebia gasóleo com a mesma pressa com que me desfiz do refrigerante.
- Ó mana, vamos partir. Eu voltarei, com certeza, para comprar terreno e viver aqui. Salipo.
- Ewa. Endipo ciwa!