Estive em Pequim, na segunda semana de abril de 2026. Caminhei por ruas largas, atravessei pontes discretas e observei, quase sem dar por isso, canais urbanos por onde a água escorria com ordem e disciplina. Só mais tarde compreendi plenamente que aqueles rios artificiais — aparentemente silenciosos — eram, afinal, um dos pilares invisíveis da normalidade urbana que ali se vive.
Em Pequim, os rios urbanos funcionam como uma rede de escoamento controlado: recolhem as águas pluviais, encaminham-nas para destinos adequados e evitam inundações repentinas, sobrecarga dos sistemas de esgoto e perturbações crónicas à mobilidade. Na prática, esses canais impedem que a cidade fique paralisada após cada tempestade. Traduzem-se em vidas poupadas, vias desobstruídas e actividade económica contínua. A água cai, é absorvida, conduzida e devolvida à natureza sem drama — como se assim devesse ser em qualquer grande cidade.
Coincidentemente, era nesse mesmo período que Luanda e Benguela enfrentavam chuvas intensas, com enchentes devastadoras que implantaram luto e provocaram perdas económicas avultadas a inúmeras famílias. Enquanto eu observava, do outro lado do mundo, a serenidade de uma cidade preparada, chegavam notícias de bairros alagados, casas destruídas, crianças impedidas de ir à escola e famílias obrigadas a recomeçar do nada. O contraste não poderia ser mais cruel — nem mais pedagógico.
Em Luanda, a ausência de uma drenagem estruturada, composta por rios artificiais e corredores hidráulicos planeados, produz exactamente o oposto do que vi em Pequim. Sem uma infraestrutura capaz de dar vazão às águas pluviais, cada chuva forte transforma ruas em torrentes, bairros inteiros em lagoas improvisadas e esgotos em fontes abertas de contaminação. A cidade deixa de funcionar, a dignidade humana fica suspensa e o prejuízo acumula-se como lama depois da enxurrada.
As consequências são diretas e dolorosas.
Para as pessoas, traduzem-se no aumento de doenças de veiculação hídrica, como a cólera e a febre tifóide; em desalojamentos recorrentes; na perda de bens arduamente conquistados; no risco permanente de afogamentos; e na interrupção do acesso a serviços essenciais como escolas, hospitais e mercados.
Para a economia, revelam-se na paralisação do comércio formal e informal, na destruição acelerada das infraestruturas viárias, em custos elevados com reparações sempre emergenciais e nunca estruturais, na queda da produtividade devido às faltas ao trabalho e no aumento dos custos logísticos para a distribuição de bens.
O mais inquietante é que nada disto é surpresa. O caos hidrológico repete-se ano após ano, estação chuvosa após estação chuvosa, como se fosse um destino inevitável e não o resultado directo de opções — ou da ausência delas.
Por isso, depois do que vi em Pequim e do que sabemos que aconteceu, mais uma vez, em Luanda e Benguela, a pergunta que se impõe já não é se Luanda precisa de uma drenagem urbana composta, que inclua rios artificiais planeados e integrados à cidade. A verdadeira questão é por quanto mais tempo continuaremos a pagar, em vidas humanas e em recursos financeiros, o preço devastador da sua ausência.
E cada chuva que cai sem encontrar caminho é, no fundo, um lembrete de que a água segue sempre o seu curso — cabe às cidades decidir se esse curso será a favor ou contra elas.
























