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terça-feira, agosto 04, 2026

O GIGANTE ADORMECIDO DE MALANJI

É tarde malanjina. A sensação é mista: suor para quem caminha e um vento frio que sopra dos prados não muito distantes. O desafio é transpor a linha férrea que tem o seu epílogo em Malanji. O bairro contíguo responde por Ritondo, celebrizado pela equipa de futebol que, em 2003, disputou o Girabola — uma efémera glória que durou apenas uma temporada antes do regresso às divisões inferiores.

Pelo caminho, despertam a atenção as chamadas “casas coloniais”, cujas telhas foram substituídas por chapas metálicas.

— Não conservariam a exuberância se fossem pintadas a preceito e mantivessem as telhas originais?

A pergunta, colocada por muitos, ecoa, mas continua sem resposta.

Galguei metros, bons metros para lá da linha férrea, até que novamente o cimento começou a substituir o adobe rebocado. O saneamento apresenta reclamações: há lixo em locais incertos e águas putrefactas que correm lentamente, denunciando fragilidades urbanas.

Regresso à ferrovia que se estica até Luwanda e caminho sobre ela. Não há barulho. Não se ouve o apito distante do comboio. Não há a algazarra de passageiros atrasados ou de viajantes à procura de camas junto à estação. As herbáceas que abraçam os carris denunciam a ausência da máquina de ferro e a saudade de outros tempos.

Mais uma vez, o lixo encontra morada nos capinzais circundantes. Postiços descartados também. As galinhas esgravatam insectos e grãos na terra, enquanto os suínos revolvem o vazio com os seus focinhos.

Kambondo reconhecido, regresso ao centro da cidade e volto os olhos para aquele que é, provavelmente, o maior edifício alguma vez tentado em Malanji. Da base ao terraço contam-se onze pisos e um entrepiso. Mesmo esquecido, continua a dominar a paisagem urbana e a despertar a curiosidade de quem passa.

Acolho-me numa sombra e começo a perguntar a todos os que passam:
— O que seria este edifício e a quem pertenceu?
Uns gaguejam uma resposta que nunca procuraram. Outros refugiam-se no habitual:
— Não sou de cá.
Recorro a amigos e conhecidos, intelectuais, estudiosos e apaixonados por Malanji — malanjinos que carregam histórias e saudades nos reencontros em Luwanda.

Entre os testemunhos recolhidos surge a contribuição de Tomás Gavino Coelho, que recua às origens da construção. Segundo relata, o início das obras ocorreu entre 1968 e 1970 e o empreendimento pertencia ao grande comerciante malanjino António Santos Pinto. A firma A. Santos Pinto & Irmão possuía o seu estabelecimento comercial na rua principal da cidade, sensivelmente em frente ao antigo edifício do cinema. O empreiteiro encarregado da construção era conhecido por Caracol. Ainda de acordo com esta memória, numa primeira fase, quando apenas o rés-do-chão se encontrava concluído, funcionaram ali estabelecimentos comerciais e uma instituição bancária.

O testemunho acrescenta substância histórica a um edifício envolto em lendas urbanas e ajuda a compreender que aquele gigante de betão não nasceu do acaso, mas de um projecto privado que procurava acompanhar a prosperidade que então caracterizava a cidade.

O edifício encontra-se hoje em avançado estado de degradação e reclama uma reabilitação profunda. Sabe-se que foi objecto de avaliação pelo Laboratório de Engenharia de Angola, que analisou a estrutura para aferir se o seu futuro passaria pela recuperação ou pela demolição.

O gigante adormecido já não ostenta a arrogância dos dias em que foi concebido para dominar a paisagem urbana de Malanji. Continua alto, visível de vários pontos da cidade, mas carrega no corpo as cicatrizes de décadas de abandono. As paredes, outrora erguidas para anunciar prosperidade, exibem agora manchas escuras, sinais de infiltração e o desgaste imposto pelo sol, pela chuva e pelo esquecimento.

Muitas das janelas perderam os seus caixilhos e vidraças. Algumas aberturas parecem olhos vazios voltados para a cidade, observando silenciosamente o movimento das ruas. No interior, o eco substituiu as vozes. Corredores despidos, compartimentos vazios e escadarias sem movimento compõem um cenário onde o tempo parece ter estagnado.

Aqui e ali, a vegetação encontrou caminho entre fissuras e reentrâncias, numa lenta reconquista daquilo que o homem começou e não concluiu. Os vestígios deixados por ocupantes ocasionais misturam-se ao lixo acumulado, revelando que a estrutura, embora abandonada, nunca deixou de fazer parte da vida da cidade.

Ainda assim, o edifício resiste. A sua estrutura mantém-se firme o suficiente para alimentar debates sobre uma eventual recuperação. Não parece um corpo derrotado, mas antes uma obra suspensa entre o passado e o futuro, à espera de que alguém decida o seu destino.

Durante algum tempo, o imóvel terá servido de abrigo para alguns cidadãos e acolhido instituições como o Banco BCI, a Hyundai e a LIVEGUM (Liga da Velha Guarda de Malanji), entre outras.

Uma versão contada por um jornalista local acrescenta uma nova perspectiva:

— Este edifício pertence a Isabel dos Santos. Comprou em 2015. Será escritórios, aparthotel e shopping.

A informação circula como parte da memória recente da cidade, embora careça de confirmação documental pública sobre a titularidade e sobre os projectos previstos para o imóvel.

Outra versão dá conta de que o proprietário original deixou a construção inacabada, apesar de várias tentativas posteriores de aquisição por privados. Segundo esta leitura, os processos anteriores não terão reunido critérios considerados adequados do ponto de vista legal e económico para salvaguarda do interesse do Estado.

Procurei também um septuagenário, nativo de Malanji, antigo responsável pela área da cultura nacional. A resposta veio pronta:
— Não tenho informação sobre o edifício.

Agradeci, pesaroso. Mas é também esta a cultura de Malanji por escrever. A história de uma cidade constrói-se de memórias, esquecimentos, silêncios e testemunhos contraditórios.

Na busca de completar a promessa dos dez mil passos diários, meti-me novamente a sul, a caminho de Maxinde, local que visitara pela manhã. Avancei mais algumas léguas e descobri que entre a cidade e o verdadeiro Maxinde existe o bairro Kafuku-Fuku pelo meio, assim como se interpõem o rio Malanji e o bairro Kamoma entre Maxinde e Kangambu.

A visita à “ponte pequena”, também conhecida como “barragem”, fica para uma próxima vinda do turista explorador.

Por desvendar fica ainda parte da história do gigante adormecido. Mas já se sabe mais do que ontem. Sabe-se que nasceu da iniciativa empresarial de António Santos Pinto. Sabe-se que começou a erguer-se nos derradeiros anos da década de 1960. Sabe-se que acolheu comércio e banca quando ainda era apenas um rés-do-chão. E sabe-se que continua ali, resistente, apesar do abandono.

Enquanto isso, Malanji segue a sua vida. A urbe está invejosamente limpa. Na periferia, as galinhas esgravatam. Os suínos chafurdam. O comboio permanece ausente. E o edifício, mesmo no coração da cidade, continua a guardar a sua última riqueza: a capacidade de fazer perguntas a uma cidade que ainda procura respostas sobre o seu próprio passado.

Soberano Kanyanga, XXVIII de VII de MMVI, publicado pelo Jornal de Angola de 26 Julho/2026.


segunda-feira, agosto 03, 2026

EXPLORANDO AS MARGENS DO RIO QUE DÁ NOME A MALANJI

Dezoito de Julho/26. Sol ainda preguiçoso, como acontece nas manhãs de Kasimbu. Saí do casco urbano desenhado a lápis, esquadra e régua — onde as ruas ainda teimam em ser perpendiculares — para me perder, de propósito, nas entranhas da periferia. Tomei a manhã para conhecer dois bairros que os meus amigos, em Luwanda, evocam com a nostalgia da infância: Maxinde e Kangambu. A memória deles serviu de bússola, afinando a minha intimidade com esta terra.

Maxinde, contíguo à cidade (do lado de cá do rio, para quem vai a Ndalatandu), foi o meu primeiro destino. Ainda cheira a centro, mas já se ouve o cacarejar das galinhas e o grunhido dos ngulu a disputar o lixo que, por essas bandas é raro. As casas fazem a transição entre as de bloco de cimento e a maioria de adobe, blocos de barro cru que o sol endurece. De Maxinde, percorri uma rua longitudinal que me conduziu à Katepa-Zona 5, onde a malha urbana se desfaz em caminhos que se perdem na imensidão do bairro.

Regressei ao eixo principal e atravessei a ponte sobre o Rio Malanji, que corre lento e barrento. A margem oposta, ao rio despe-se de vez do urbanismo. Antes de alcançar Kangambu, passei pela Kamoma, paralela à Carreira de Tiro — nomes que os mais novos já não sabem explicar, mas que ficaram como cicatrizes no mapa, embora a pólvora se tenha dissipado no tempo que apenas os velhos e os militares conservam. A estrada é a EN230, que liga Ndalatandu a Saurimo, rasgando Malanji.

O interior ee Kangambu, paralelo ao Bairro Campo "de Aviação", espera pelo asfalto. Imperam ainda as ruelas desenhadas sem a destreza do arquitecto e os caminhos que se estreitam até às lavras. A terra vermelha domina. Os pés andrajosos ganham cor e a pele ressequida, nesse tempo frio e seco, transforma-se em mapa.

Contei as casas pelas veredas. As de cimento são ilhas raras; a maioria é de adobe, coberta por chapas de zinco que tilintam com o vento e ofendem os olhos quando o sol as atinge. Os velhos colmos de capim são hoje uma raridade, quase lenda. Os mais velhos dizem que o zinco chegou para ficar, mesmo que queime a alma ao meio-dia.

Enquanto pisava o Kangambu, viajava com os meus amigos que hoje estão em Luwanda. Eles falam destes bairros como quem fala de um quintal enorme, onde as brincadeiras se misturavam ao cheiro do peixe seco e do milho assado. No bulício dos carros e arranha-céus, basta mencionar o meu Lubolu para que os olhos deles viajem para estas margens, para as casas de barro cru e as chapas de zinco que, vistas do alto, parecem escamas de um dragão adormecido.

Regressei ao centro ao fim da manhã, com o pó vermelho nos sapatos e a sensação de dever cumprido. A cidade desenhada a régua é apenas a capa do livro. As páginas verdadeiras estão nestes bairros periféricos, onde o asfalto cede à terra, o cimento perde para o adobe, e o zinco canta sobre o vazio deixado pelo capim. Amanhã, talvez, volte ao Kangambu, ou fique pela Katepa-Zona 5, só para ver se o tempo corre mais devagar ali, como corre na saudade dos meus amigos.

Texto publicado pelo jornal Pungo a Ndongo de 24 de Julho de 2026.

sábado, agosto 01, 2026

A CABEÇADA DE JOSEFA

Na nossa infância, no Kaputu, Rua da Ambaca, os bilos estavam sempre presentes. Era como se fossem pão de cada dia. Faziam parte das brincadeiras e serviam de testes para hierarquizar os grupos.

Um fraco, que não fosse bom de basula, kafrique e outros malabarismos na peleja, tinha de escolher como amigo e protector alguém melhor do que ele e temido em outros quarteirões.

Dentre os poucos reverenciados, o primo Ngoçalo era um dos que batiam, nas brincadeiras de anandenge, outros garotos a quem chamávamos de “nossos tejos do Kilwanje", em que figurava o primo Zé Kandungu.

Eram pancadas de jogos, disputas infantis de liderança, que acabava em estigas, risos e poeira levantada no chão da Rua da Ambaca ou no descampado do Kilwanje. Mas quem batia de verdade era a irmã dele, a prima Josefa.

Certa vez, eu brincava com os amigos empunhando jaja, a fisga minúscula que fazia parte das nossas diversões no bairro. O Miguel, nascido em Luanda e filho de pais procedentes de Katete, sentiu-se ofendido e procurou agredir-me. Empreendi uma retirada apressada, pé no ngimbu, em direcção à zona do Chafariz do Kaputu. O Miguel, ao tentar desferir-me uma rasteira, falhou no meu pé e caiu desalmadamente no asfalto. A sua ira aumentou e, ferido no orgulho, esperou por mim numa esquina até ao entardecer.

Tendo presenciado o ocorrido, a prima Josefa, cujos pais eram de Kalulu, assim como eu, não quis que o mal e a supremacia katetense vingassem naquele dia.

Já fim de tarde, eu caminhava apreensivo. Alguém me tinha dito que o Miguel, morador perto da casa do Nelito Joga Bwé, esperava-me para desforrar a queda que tivera.

A prima Josefa, já informada sobre os intentos do jovem Miguel, interceptou-me antes da curva.
— Luciano, não vás sozinho. O Miguel está à tua espera.
— Mana Josefa, eu não lhe fiz nada. Só estava a brincar com os meus amigos e ele me escolheu para me bater. Quando fugi, ele caiu sozinho.
— Ele não quer saber. Caiu, ficou ferido e está furioso. Agora procura vingança.
— E se me apanhar? — perguntei, com voz trêmula.
— Se te apanhar, não te preocupes. Eu trato disso. Hoje Kalulu se defende.

Respirei fundo. A prima Josefa ajeitou os calções, entregou-me os seus chinelos e sentenciou:
— Não sente medo. Anda como se nada tivesse acontecido. Se ele vier e te tocar, vai me conhecer.

E não tardou. O Miguel surgiu da esquina, escoriado e com os olhos faiscando. Agarrou-me com força pelo braço direito, pronto para a agressão. Mas a prima Josefa avançou como raio. Num movimento certeiro, desferiu-lhe uma cabeçada que ecoou pelo bairro. O agressor cambaleou, viu estrelas e caiu.

Eu, pasmado pela façanha da prima Josefa, só consegui murmurar:
— Mana Josefa, salvaste-me…
— É para isso que servem as manas. Agora corre para casa do tio Ferreira. Se ele te agredir amanhã ou noutro dia, vai a casa me avisar que eu lhe tiro a banga de katetista.

A fama de Josefa espalhou-se. No Kaputu, dizia-se em tom de aviso:
— Não te metas com a Josefa. Vai te tirar dentes com cabeçada. Pergunta ao Miguel!

Foi assim que ganhei uma protectora. Josefa, por sua vez, consolidou a lenda de ser “dona de uma cabeçada estarrecedora”, lembrada até hoje pelos que viveram aqueles tempos na Rua da Ambaca e arredores.
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Publicado no Jornal Luanda, a 8.6.2026

quinta-feira, julho 30, 2026

FRUTAS SILVESTRES: MEMÓRIA DE VIAGEM

No acampamento dos prospectores da Angloamerican, em Kalunda, município de Makondo, no Muxiko Leste, encontrei uma fruta silvestre que os tucokwe chamam Thongo. Familiar para mim, pois também se expande pelo centro e centro‑norte de Angola, tornou‑se companheira inesperada da jornada, durante dois intensos dias de trabalho (30 de Junho e 1 de Julho/2026).

Dez frutas guardadas no bolso do colete percorreram mais de mil e quinhentos quilómetros, sobrevivendo ao calor e ao pó das estradas. Ao chegar, transformaram‑se em três copos de sumo saboroso, refresco que parecia conter o néctar da fruta e o espírito da viagem. As sementes, agora expostas ao sol brando, aguardam o momento de serem lançadas à terra, como promessa de continuidade e gesto de perenização de uma experiência que não se quer efémera.
Os “kalwandas” ou lwandizados que comigo viajaram a Kalunda ignoraram o valor daquelas frutas, excepto o mwatha Mwangongo, natural da Lunda Norte, talvez por não reconhecerem no silvestre a força da memória. Mas eu vi ali mais do que alimento. Vi a persistência da natureza, a lembrança da minha infância a cortar dias sim e semanas também o sertão, a resistência de um cheiro e sabor que atravessam regiões e épocas e a possibilidade de transformar o ordinário em extraordinário.

A fruta silvestre recolhida em Kalunda, ignorada e entregue à fome das aves, é, para mim metáfora de vida, símbolo da bondade e beneficência da floresta e testemunho de que a flora guarda riquezas invisíveis aos olhos apressados. O sumo extraído, nutritivo e saboroso, é também narrativa de uma viagem que se inscreve na memória de uma terra que insiste em oferecer, mesmo no silêncio, sinais de futuro.
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In: Viagem ao Muxiko Leste

sábado, julho 25, 2026

QUEM PAGA O MEU DINHEIRO?

Por alguns instantes, o acampamento de Cifwe, na comuna de Kalunda, município de Mukondo, pareceu-me casa. Não pela proximidade, mas pelo eco de uma pronúncia rara: “Kânyaanga”, dita com a firmeza dos meus do Lubolu, sem o peso aportuguesado que tantas vezes distorce o apelido.

O diálogo diário de segurança, obrigatório na indústria mineira, desenrolava-se como ritual de sobrevivência. Mas antes, um detalhe curioso: ali não há rede de telefonia. A internet, frágil e limitada, nasce de uma engenharia satelital que cobre apenas vinte metros de raio.

Quando o telefone conseguiu aceder à rede, assumiu o fuso da Zâmbia. O despertador, cúmplice involuntário, tocou às 4h30 em vez das 5h30 combinadas. Acordei cedo demais, como se o tempo me tivesse deslocado para além da fronteira invisível. Por pouco, senti-me homem da faixa leste de Angola. Corria o último dia de junho de 2026.

O cansaço da jornada extenuante, porém, fizera com que o sono me tomasse como a própria morte. Nesse mergulho inconsciente, sonhei com as doçuras do desfrute do saldo do meu árduo trabalho. Em viagens fabulosas que a mente tece, fiz compras e cruzei-me com um homem rico, disposto a pagar-me um milhão e meio de dólares em troca de uma consultoria à distância. Prestes a ditar-lhe o número do meu IBAN, o despertador do telefone tocou, arrancando-me brutalmente do sonho.

Acordei maldisposto, sentei-me na cabeceira da cama, elevei as mãos à cabeça e gritei:

— Agora, quem paga o meu dinheiro?

Para único consolo, vieram os gestos de hospitalidade esboçados pelas populações das aldeias por onde passámos. Reunidas na berma da via poeirenta e acidentada, foram acenando calorosamente, como quem diz: "Voltem sempre ao Muxiko Leste e resolvam os problemas que estamos com eles!"

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In: viagem ao Muxiko Leste

quarta-feira, julho 22, 2026

DIZIMUNIVERSALISTA: ENTRE FÉ E RUÍNA

Era fim de tarde no bairro Kaputu. O sol, cansado, tingia de vermelho as paredes descascadas das casas. O cheiro de peixe seco misturava‑se ao pó levantado pelas crianças que corriam atrás de uma bola improvisada.
Num banco de madeira, sob a sombra de uma mangueira envelhecida, Phande e Kitembo conversavam. O ambiente era simples, mas carregado de reflexão.
De não muito distante, chegava-lhes o murmúrio das vizinhas lavando roupa no tanque, o som distante de um rádio a tocar semba e o vento leve que trazia consigo o cheiro do mar.
Kitembo, com o olhar curioso, abriu a conversa:
— Phande, sempre me pergunto sobre o dízimo que as igrejas insistem em pedir nas pregações. Até parece exigência, quando devia ser voluntário. Os cristãos falam em dar dez por cento dos rendimentos, como está escrito em Levítico e Malaquias. No Islão, há o zakat, que é 2,5% da riqueza líquida, destinado aos pobres e endividados. Mas afinal, qual é a finalidade verdadeira destas práticas que vemos hoje em dia?
Phande ajeitou o chapéu de palha e respondeu com calma:
— No princípio, meu irmão, tanto o dízimo como o zakat nasceram como gestos de solidariedade. Eram formas de manter a comunidade viva, de partilhar o pouco que se tinha. Mas hoje, muitas igrejas da prosperidade transformaram o dízimo em contrato financeiro. A fé virou percentagem e o crente pobre é explorado em nome da esperança.
Kitembo franziu o cenho, pensativo:
— Então já não é só espiritualidade. É negócio...
Phande suspirou e contou a história de João Kambundu, trabalhador do Porto Pesqueiro:
— João recebe de ordenado Kz 750.000. Logo entrega Kz 75.000 à igreja. Fica com Kz 675.000, dos quais dá Kz 400.000 à esposa e distribui mesadas de Kz 15.000 a cada um dos três filhos. Mas a roda do dízimo não pára: a esposa retira para a igreja Kz 40.000 e os filhos, obedientes, entregam Kz 1.500 cada um. No fim, a família inteira descontou Kz 119.500 do salário. O que poderia servir para comida, escola ou remédio vai parar nos cofres da igreja e no bolso do pastor.
Kitembo abanou a cabeça, indignado:
— E o pastor, o que faz com tanto dinheiro?
Phande olhou para o horizonte e disse com ironia:
— O gajo do pastor Kabwiza está a engordar com o dinheiro dos dízimos dos pobres que apresentam esqueleto sem carne. Enquanto as famílias se tornam frágeis, ele e o templo se fortalecem.
O silêncio tomou conta por alguns instantes. O vento balançava as folhas da mangueira, como se também refletisse sobre a conversa. Kitembo murmurou:
— A fé não deveria ser confundida com contabilidade.
Phande completou:
— Exacto. O dízimo, quando praticado com consciência, pode ser gesto de partilha. Mas, quando se torna obrigação cega e exploratória, arruína lares e fortalece apenas os pastores das promessas terrenas. João e sua família são apenas um retrato de milhares de lares angolanos. O que se entrega às igrejas não volta em prosperidade, mas em discursos repetidos e promessas adiadas.

O sol desaparecia atrás das casas e a noite começava a cobrir o bairro. Phande e Kitembo levantaram‑se do banco, caminhando devagar pela rua poeirenta. A conversa ficava no ar, como aviso: o dízimo encapuzado pela ganância é caminho de empobrecimento e só a consciência crítica pode salvar a fé da ruína.

domingo, julho 19, 2026

A ESTRADA E OS BURACOS ÓRFÃOS

(Crónica de viagem)


Viajar pela EN322, entre Kakuzu e Alto Dondo (Malanji e Kwanza-Norte), é experimentar um contraste permanente entre o conforto e a apreensão. O asfalto, em largos troços, apresenta-se em bom estado e convida o condutor a manter uma velocidade compatível com a qualidade da via. É precisamente aí que reside o perigo: quando a confiança se instala, surgem, quase do nada, buracos dispersos, sem qualquer sinalização prévia e sem vestígios de reparação.
São verdadeiras armadilhas. Não aparecem porque o motorista conduza mal. Aparecem porque alguém deixou de cumprir o dever de os eliminar ou, pelo menos, de os assinalar.
Num pequeno aglomerado populacional, reduzi a velocidade para deixar passar alguns peões que saiam das lavras. Um idoso, sentado à sombra de uma mangueira, abanou a cabeça e comentou:
— Tenha cuidado, meu filho. Esses buracos aparecem quando a pessoa já pensa que a estrada está boa. Já vimos pneus a rebentar, viaturas danificadas e acidentes por causa deles.
A frase ficou a ecoar nos meus ouvidos ao longo da viagem. De facto, os buracos parecem surgir de surpresa, como se estivessem à espera do momento em que o condutor relaxa. E basta uma fracção de segundo para um desvio brusco provocar uma colisão ou um despiste.
Ao mesmo tempo, a paisagem oferece um sinal encorajador. A electricidade chegou a muitas aldeias que ladeiam a chamada "Estrada de Kapanda". À medida que a noite se aproximava, pequenas luzes começavam a desenhar o contorno das povoações, revelando casas iluminadas, pequenos estabelecimentos comerciais em funcionamento e crianças a brincar junto às residências.
Junto a uma cantina, um jovem sorria enquanto observava as lâmpadas acesas.
— Antes, quando escurecia, a aldeia morria. Agora há vida até mais tarde. Os miúdos revisam, as pessoas trabalham e já não temos medo da escuridão.
É impossível não reconhecer o alcance dessa transformação. A energia eléctrica leva desenvolvimento, cria oportunidades e devolve dignidade às comunidades. No entanto, esse mesmo progresso perde parte do seu brilho quando a estrada que o acompanha continua a esconder perigos evitáveis.
As perguntas, então, sucedem-se naturalmente:
Quem identifica aqueles buracos?
Quem decide quando devem ser reparados? Quem responde pela ausência de sinalização? E quando ocorre um acidente, será suficiente atribuir toda a responsabilidade ao automobilista, invocando excesso de velocidade, sonolência ou embriaguez, sem considerar que a própria via pode ter contribuído decisivamente para o desfecho?
Mais adiante, noite feita, já na EN120, entre Alto Dondo e Munenga, outra imagem reforçou essas inquietações. O parapeito de uma ponte estava destruído, aparentemente arrancado pelo impacto de uma viatura. Restavam apenas as marcas da violência da colisão e uma sensação de abandono.
Um camionista, que também havia parado para observar o local, comentou:
— Quem bate devia pagar. Hoje falta um pedaço da ponte; amanhã pode faltar uma vida. O acidente passa, mas o prejuízo fica para todos.
A observação era tão simples quanto certeira. Afinal, quem repara os danos causados ao património público? Existe um mecanismo eficaz para responsabilizar quem destrói equipamentos do Estado? Ou os estragos permanecem anos à espera de uma reparação que nunca chega, enquanto o risco aumenta para os utilizadores da via?
Infelizmente, esta cultura de abandono não se limita às estradas nacionais. Nas cidades multiplicam-se postes de iluminação tombados, bancos de jardins arrancados, passeios degradados, fontanários secos ou partidos e inúmeros outros equipamentos públicos que parecem condenados ao esquecimento. O dano torna-se paisagem; a ausência de reparação transforma-se em rotina; e a falta de responsabilização alimenta novos actos de vandalismo e de negligência.
Uma estrada não é apenas uma faixa de asfalto. É um património colectivo que exige manutenção permanente, fiscalização rigorosa e responsabilização efectiva. Cada buraco ignorado representa um risco. Cada grade de ponte destruída e não substituída é um convite ao próximo acidente. Cada equipamento público abandonado transmite a perigosa mensagem de que aquilo que pertence a todos acaba por não pertencer a ninguém.
No fim da viagem ficou-me uma convicção incômoda: as estradas não podem continuar sem dono. Porque, enquanto os buracos permanecerem órfãos e os prejuízos ao bem público ficarem sem responsáveis, serão os condutores, os passageiros e o próprio Estado a pagar, todos os dias, uma factura que poderia ser evitada.

quarta-feira, julho 15, 2026

QUEM É O MALUCO?

Corria apressado o mês de Junho. Como o mês, apressados "corriam" os motoqueiros e os condutores dos veículos usados para táxis por aplicativo. Esses jovens que parecem nunca terem frequentado escolas de condução. Sempre eles em primeiro lugar nas manobras perigosas e velocidade descontrolada. Circulava na Rua Ngola Kilwanji, próximo da Mabor. Um passageiro de um SUV baixou o vidro e lançou pela rua um saco com restos de comida. Parei, liguei o intermitente, apanhei o lixo e fui devolver ao condutor do veículo:

— Leve o vosso lixo a um sítio adequado para descarte, disse-lhe com firmeza.

O homem ficou petrificado e repassou o lixo ao "suíno" que se encontrava no banco de trás.

Pedi desculpas aos condutores que vinham atrás de mim e segui viagem. Uns aplaudiram, outros acharam-me “maluco”. Mas quando os valores estão invertidos, ser chamado de maluco é, na verdade, sinal de consciência.

Mais tarde, ao recordar no Facebook o meu pequeno canteiro em Kalulu, lavra anexa à da cunhada Angelina, os sobrinhos informaram-me:

— Tio, a mamã está em Luanda.

Ela tinha viajado do Dondo, onde mora, para visitar os filhos. Aproveitei a ocasião para ir vê-la.

— Cunhada Angelina, precisava de reconhecer presencialmente o quanto foste mãe na minha vida.

Ela sorriu, com a serenidade dos seus 64 anos:

— Meu cunhado, nunca foste chato. Foste apenas alguém que precisava de cuidado, e eu dei o que pude.

Angelina Bernardo Canoa, ex-esposa do meu primo “mano Gonçalves”, cuidou de mim entre 1987 e 1989 com amor e paciência, mesmo em tempos de carência. Hoje, continua a mesma mãe de sempre. 

Foi um dia em que fiz duas devoluções: o lixo na estrada e a manifestação de gratidão à família que me sustentou com amor e carinho.

quinta-feira, julho 09, 2026

UTILIDADE COLATERAL DE UM BUSINESS CARD

O business card, tradicionalmente designado cartão de visita, é um pequeno cartão que reúne os principais elementos de identificação profissional de uma pessoa. Inclui, entre outros:

Nome completo;
Função ou cargo;
Instituição de exercício;
Contactos telefónicos e electrónicos;
Elementos distintivos, como o logótipo institucional.

É, por natureza, um instrumento de identificação, representação e comunicação profissional.

Embora o uso mais comum seja o estabelecimento de contactos profissionais (networking), o cartão de visita cumpre outras funções importantes:
Permite que o titular seja imediatamente reconhecido, reforçando a credibilidade e a representação da instituição.
Serve como referência de contacto rápida, simples e acessível para parceiros, instituições, imprensa e demais interlocutores.
Funciona como um registo físico que permanece com quem o recebe e pode ser consultado posteriormente, facilitando futuras aproximações.
De forma inesperada, mas recorrente, cartões de visita guardados em carteiras ou pastas perdidas tornam‑se pistas essenciais para identificar ou contactar o proprietário.

Casos Reais do Business Card como ponte de recuperação
O amigo Malelo perdeu a carteira num táxi. Entre os documentos encontrava‑se um cartão de visita de Luciano Canhanga. Esse pequeno cartão tornou‑se a única referência de contacto para a pessoa que encontrou a carteira, permitindo‑lhe estabelecer ligação e, a partir daí, devolver os documentos ao verdadeiro dono.

No mercado do Km 30, em Icolo e Bengo, Anselmo perdeu uma carteira contendo o Bilhete de Identidade, a carta de condução e vários outros documentos pessoais. Dentro dela havia um cartão de visita de Luciano Canhanga que, novamente, serviu como elo indirecto, permitindo que o achador estabelecesse contacto e viabilizasse a devolução.

Uma jornalista da ANGOP, residente e trabalhadora no Namibe, esqueceu, em um restaurante de Luanda, a sua carteira contendo documentos pessoais, cartões de serviço e o Bilhete de Identidade. No seu interior estava um cartão de visita de Luciano Canhanga, que serviu de ponte imediata:
A pessoa que encontrou a carteira ligou para o contacto constante no cartão. Informado, Luciano Canhanga activou a rede de jornalistas da ANGOP em Luanda. Através dessa articulação, identificou‑se que a proprietária era profissional da Agência no Namibe. As duas mulheres foram colocadas em contacto, permitindo a devolução e restituindo tranquilidade e dignidade à proprietária.

Reflexão final
O cartão de visita é, antes de tudo, um instrumento profissional destinado a facilitar contactos e representar o seu titular. Contudo, os três casos relatados demonstram que ele pode assumir um papel socialmente relevante, funcionando como um elo humano em momentos de perda, ansiedade e vulnerabilidade.

Num tempo em que a comunicação se digitaliza rapidamente, o business card preserva um valor singular: é um objecto físico que viaja, permanece e fala por nós, mesmo na nossa ausência. Pode criar pontes inesperadas, recuperar documentos, restituir identidades e reforçar a confiança entre cidadãos.
Um cartão de visita não serve apenas para abrir portas profissionais. Pode, em circunstâncias específicas, repor ordem, devolver pertenças e restaurar o sorriso de alguém.

sexta-feira, julho 03, 2026

MAN-PÁSCOA: O KOTA QUE TROUXE RESPETO À RUA DA AMBACA

Nos anos 80, na Rua da Ambaca, Kaputu (Rangel), os bilos eram mais do que simples brigas de miúdos: eram rituais de afirmação, de hegemonia entre grupos e quarteirões. Os líderes não pelejavam todos os dias; bastava medir forças uma vez. O perdedor reconhecia o vencedor e reverenciava-o. Em caso de empate, surgia o kisoko — meio termo que selava a paz entre iguais.

Naquele tempo, figuras como Raimundo (o kota Ténis), Tomás e Paulito eram respeitados, mas não se envolviam tanto nas pelejas quanto o recém-chegado Man-Páscoa.
— “Olha, o Man-Páscoa chegou!” — murmuravam os rapazes na fila do pão do depósito do Kilwanje.
— “Esse é tejo, não faz nada” — provocava um zombador do grupo do Kilwanje.
Man-Páscoa, inicialmente catalogado como “fakiri”, suportou provocações até ao limite. Um dia, cansado das zombarias, respondeu com firmeza:
— “Respeito não se pede, conquista-se!” — e desferiu uma bofetada forte e certeira. O adversário, humilhado, no dia seguinte ainda sofria as consequências.
A notícia correu rápido. O temido Man-Domingo, líder do grupo rival, apareceu para defender o seu pupilo. O bilo, junto ao depósito de pão do Kilwanje, foi intenso:
— “Aqui mando eu!” — gritou Man-Domingo.
— “Hoje não. Hoje somos taco-a-taco!” — respondeu Man-Páscoa, firme.
A luta entre Man-Páscoa e Man-Domingo só não terminou em humilhação ao homem do Kilwanje porque os homens da ODP presentes intervieram rápido, quando o viram numa apertada kapanga. Mas o recado estava dado: Man-Páscoa não era qualquer um. Daquele dia em diante, ele e os seus pupilos passaram a ser respeitados na fila do pão.
Quando os “maiorais” não entravam em cena, a defesa do grupo da Rua da Ambaca ficava a cargo de Raimundo (Ténis), Malick (Ngonçalo) e de mim que tinha testado vitoriosamente em Zé Kandungu, do grupo do Kilwanje. Os demais estavam sob nossa jurisdição.
— “Se mexerem com vocês, chamem-nos. Nós seguramos a barra.” — dizia Raimundo, reforçando a coesão do grupo.
— “Aqui ninguém fica sem pão, nem sem respeito.” — completava Malick.
A chegada de Man-Páscoa foi um marco. Ele trouxe segurança, respeito e equilíbrio às disputas entre os grupos da Rua da Ambaca e do Kilwanje. Mais do que um líder de pelejas, tornou-se símbolo de coragem e de justiça entre as crianças e adolescentes do bairro.
O seu legado mostra que, mesmo nos bilos da infância, havia códigos de honra, diálogos de rixa e de paz e, sobretudo, a busca por reconhecimento. Man-Páscoa personificou essa busca, transformando-se em referência para todos nós. Retornou ao seu Kalulu, dedicando-se humildemente à agricultura.

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Imagem gerada por IA

quinta-feira, julho 02, 2026

A CASA QUE DESABA

Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.

Do campo da Angola profunda, guardo vivas as lembranças das casas de pau‑a‑pique ou de adobes, erguidas com um espeto vertical que sustentava o colmo feito de capim. Com o passar do tempo, e quando a manutenção falhava, o espeto cedia, o tecto ruía e, assim, a pobre casa perdia a sua “vida”.
Mais tarde, já adolescente e jovem, ao percorrer os longos caminhos de Angola, deparei‑me com outro cenário semelhante: as infra-estruturas habitacionais deixadas pela presença colonial. Com o abandono e ou ausência de manutenção, começava o processo de desventramento: primeiro desaparecia a janela, depois a porta; mais tarde, o barrote que segurava as telhas. A cobertura caía, e as intempéries encarregavam‑se de acelerar a degradação, fazendo crescer vegetação no interior e levando ao desmoronar das paredes.
É o mesmo que acontece num lar quando parte o marido. A casa sofre um abalo. Ficam a viúva e os filhos, tentando remendar ou manter o que é possível, mas a harmonia funcional já não é a mesma. A peça fundamental, o espeto da casa, deixou de existir. E quando a viúva o acompanha, é como se a casa desabasse por completo.
Nesta quarta‑feira, 1 de Julho, perdemos Carla Toala João, viúva do meu finado tio Augusto João “Gasolina”. Era uma tia‑amiga. A nossa relação manteve‑se forte e inquebrantável, mesmo depois de o espeto se ter partido. Hoje, sinto como se a casa tivesse finalmente desabado. Transita em paz, tia Caita!

quarta-feira, julho 01, 2026

DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS

Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.  

O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.  

Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.  

A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.  

— We want eat, disse-lhe impaciente.  

O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.  

— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.  

Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!  

Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.  

O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”.  Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.  

Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.


Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026

segunda-feira, junho 29, 2026

O TEMPO E OS AUTOCARROS

Há dias, li que o Governo Provincial de Luanda está a devolver ao povo as praças, os largos, os espaços públicos que há muito haviam perdido a sua alma, sequestrados por interesses de alguns "chico-espertos". Transformam-nos, de novo, em lugares de convívio, de memória, de cidadania. É de aplaudir, sim. Porque a cidade não é feita só de prédios e de asfalto. É feita de encontros, de bancos onde se sentam velhos, de crianças que correm à volta de um chafariz, de jovens que se paqueram para dar em namoro e constituição de famílias e memória. Recuperar o património público é recuperar um pouco do que nos tiraram sem pedir e sem anuirmos.

E foi a pensar nisso que me lembrei do Cine Ngola e suas cercanias. Era um lugar movimentado. De manhã as partidas das carreiras que rasgavam o país levando e deixando pessoas, cartas, jornais, revistas e saudades. O Mercado dos Congolenses era limpo, organizado e "obrigava-nos a tomar banho e vestir roupa da escola ou de domingo para lá ir comprar algo que não se vendesse na Praça das Corridas que ficava perto do Supermercado Nzala Ikola de António Silvestre (próximo da Escola 5). À tarde, matiné e à noite soiré no cine com filmes que se mantêm intactos na memória: Trinitá, Minha última sétima bala, El bambino, Trapalhões na Serra Pelada, Meu nome é ninguém, etc.
Lembro-me de como ali, outrora, se juntava tanta gente para sonhar com outras vidas dentro do escuro de uma sala. Hoje, está ali um espectro de cimento ressequido e estropiado, sem cinema e sem serventia. Alguém vendeu o Cine Ngola para o transformar em nada.
Outro exemplo, mais fundo ainda: o espaço onde apanhávamos os autocarros da ETIM. A ETIM era uma coisa de outro tempo. Ligava quase todos os municípios de Angola, num tempo em que viajar era aventura, mas aventura possível. Lembro-me de mim, garoto, madrugada ainda cerrada, a acompanhar a minha mãe até aos "congolenses". As imbamba já equilibradas nas cabeças dela e na minha, um lenço atado, o olhar sério de quem vai para o Lubolu num autocarro da ETIM. E as máquinas eram as KEVE, rectangulares, montadas cá, montadas em Angola. Feias, dir-se-ia hoje, mas eram muito nossas.
A fábrica já era. A frota também desapareceu. As instalações da ETIM, em Luanda, foram vendidas ou cedidas à TURA. E da TURA, que foi dos autocarros? Há anos que não se vê um nas ruas de Luanda.
Uns dizem: "O Estado não é dos melhores gestores de empresas". E é verdade, muitas vezes. Mas privatizar um bem público para que ele deixe de ter serventia, isso, creio, é pior do que a mais desastrada das gestões estatais. Porque, ao menos, na gestão pública ainda há quem grite, quem reclame, quem se lembre de que aquele autocarro levava mães ao Lubolu, ao Wizi, a Ngulungu Artu, a Kamabatela, ao Mbalundu e Luvangu... Privatizado e abandonado, o bem vira coisa de "lobos". E ninguém pergunta: o que ganhámos com esta operação?
O tempo levou os KEVE, as rotas, as mães de imbamba à cabeça. De quando em vez, cruzo com um desses autocarros, sobrevivente periclitante, sôfrego, o ferro a cair, o tecto abatido. Parece um fantasma de si mesmo, mas lá vai deixando na descarga do escape o rasto da história, contando um passado áureo. Dá pena o autocarro e dá raiva o muito que devíamos ter e desandou.
Aplaudo, pois, o esforço de devolver praças e largos à cidade. Que se lembre também o Cine Ngola. Que se olhe para o que restou das instalações da ETIM passadas à falecida TURA, e se pergunte: que serviço público queremos, afinal?
Porque recuperar o espaço público é bonito, sim. Mas recuperar o serviço público, o autocarro que passa, a mãe que chega ao Lubolu, é mais urgente. É a memória a pedir passagem.
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Publicado no jornal Luanda a 06.07.2026

terça-feira, junho 23, 2026

TOMÉ ARMANDO A VOZ QUE SE CALA


Hoje (22.06.2026), o silêncio pesa mais do que nunca. Perdemos o Tomé de Carvalho Armando, o nosso Cacaca, primo e coetâneo, que me chamava com carinho de “meu primo da Kiki”, lembrando a Kibala, terra de procedência dos nossos pais. A notícia da sua morte, por doença, chega como golpe inesperado, sobretudo porque ainda ontem nos asseguravam que evoluía positivamente.

O Tomé foi homem de entrega e de voz. Serviu a Rádio Luanda por cerca de três décadas, emprestando o timbre firme e a disciplina profissional a uma instituição que se tornou parte da sua vida. Mas antes da rádio, conhecemo‑nos na Igreja Metodista Unida, cargo pastoral Moisés, nos anos 80, quando espreitávamos a adolescência, seguindo-se a juventude que nos reunia em cânticos e fraternidade.

A sua vida foi marcada pela simplicidade e pela proximidade. Não acumulou riquezas, não se deixou seduzir pelo poder fácil. O Tomé foi presença solidária, voz que se oferecia, coração que se partilhava.

Ontem, ao aconselhar um jovem a poupar, lembrei‑me da música de Elias dya Kimwezu: uma poupa porque “a fome madruga”, outro é esbanjador porque entende que “a morte chega durante a noite”. Hoje, essa reflexão ganha corpo. A vida é breve e Tomé partiu sem aviso, deixando‑nos a interrogação: poupar para o futuro ou viver intensamente o presente?

Refúgio‑me em João 14:2‑3: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar‑vos lugar.” Quero acreditar que o Tomé Armando, filho da tia Tomba, foi preparar‑nos lugar, que a sua partida não é fim, mas transição.

Exalto nele a dedicação profissional, a fidelidade às raízes, a ternura com que tratava os seus. O Tomé foi voz, foi memória, foi laço. Hoje, o nosso Cacaca cala‑se na terra, mas continua a falar em nós, nos gestos que deixou, nas lembranças que nos unem.

Que a sua vida seja lembrada não pela doença que o levou, mas pela força com que serviu, pela dignidade com que viveu e pelo afecto com que nos tratou. 

Foi-se mais um "Dactora"!