Na Avenida Marginal de São Tomé, o “leve-leve” deixa de ser apenas expressão e torna-se paisagem. Ganha corpo enquanto as pessoas ganham o mar. Há um compasso invisível que regula passos, conversas e silêncios — e ninguém parece disposto a contrariá-lo.
Revezam-se a velha calçada, gasta pelo tempo e pelas ondas perenes com o seu muro antigo, estreito e curto, que vai cedendo lugar ao novo, mais robusto, mais alto, mais afirmativo. Logo adiante, a pedra calçada substitui o betão cansado, como se a cidade decidisse, pouco a pouco, reencontrar a sua forma. Nada se faz de rompante. Tudo acontece “leve-leve”.
Ali perto, junto à zona da cooperativa, um barco há muito encalhado vai entregando o seu corpo ao mar. A madeira e o ferro, outrora tensos e funcionais, abriram-se em cavidades que hoje abrigam peixes e pequenos organismos marinhos. O que foi instrumento de trabalho tornou-se refúgio de vida. Não houve pressa em salvá-lo, nem urgência em retirá-lo. O mar encarregou-se do resto. E com paciência infinita.
É também ali que se alinham pequenos kaiês, construções simples, feitas de madeira, zinco e engenho, onde se vende peixe, se conversa, se descansa. Mais do que barracas, são pontos de vida. Lugares onde o tempo não se mede em relógios, mas em marés e histórias. O kaiê é, em miniatura, a própria filosofia santomense: funcional, comunitária e descomplicada.
A Marginal, na sua forma mais antiga, remonta ao período colonial português, com traços que se consolidaram entre as décadas de 1940 e 1960, quando a cidade de São Tomé se expandia voltada para o mar com muitas portas. Era uma frente simples, prática, mais pensada para servir do que para encantar. Com o tempo, o desgaste das marés e a pressão urbana tornaram inevitável a mudança.
Já no século XXI, surgem intervenções de requalificação, incluindo o início de uma nova calçada sobre a baía, pensada para proteger a orla e oferecer outro desenho à cidade. A pedra regressa, substituindo o betão, e o muro cresce. Não apenas em altura, mas em intenção e futuro. É um gesto de modernidade, ainda em curso, que convive com o passado sem o apagar.
A Marginal acompanha bairros que contam, à sua maneira, a história da cidade até ao Porto de Ana Chaves. São zonas onde viveram pescadores, estivadores, pequenos comerciantes,gente que fez do mar sustento e horizonte. Bairros de mistura, de circulação, onde a cidade respira de frente para a água.
E, no entanto, apesar das transformações, algo permanece inalterado: o ritmo. Aqui, o tempo parece inesgotável. Não há urgência que domine, nem ansiedade que dite regras. É a paz e a calma que mais ordenam.
O “leve-leve” não impede que a cidade mude. Apenas exige que mude ao seu modo.
E talvez seja esse o maior ensinamento da Marginal: entre o velho que cede e o novo que se levanta, entre o barco que se desfaz e a vida que nele nasce, há uma certeza tranquila. Tudo acontece, mas nada se precipita.
Soberano Kanyanga, STP, 3.5.26
Publicado pelo Jornal de Angola a 10.05.2026
































