"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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sábado, setembro 26, 2026
RAÍZES URBANAS
terça-feira, setembro 22, 2026
AS DUAS CABEÇADAS QUE ME SALVARAM
Há episódios na vida que não se apagam. Não por serem grandiosos, mas por serem decisivos. No meu caso, foram duas cabeçadas que me ensinaram, em momentos distintos, o significado de protecção e de afirmação.
A primeira não foi minha. Foi da Josefa. No Kaputu da minha infância, na Rua da Ambaca, os bilos eram mais do que brigas de meninos — eram mecanismos de classificação social. Através deles se decidia quem mandava, quem resistia e quem precisava de protector. Quem não dominasse a basula, o kafrique ou outras artes da peleja tinha de escolher bem em quem se encostar.
Eu não era dos mais fortes, embora houvesse outros piores do que eu. Talvez por isso tenha aprendido cedo a observar os nomes que pesavam no bairro. Entre eles, o primo Ngoçalo, temido nas disputas do Kilwanji, e o Man Páscoa. Mas, verdade seja dita, quem realmente resolvia as coisas não eram eles. Era a prima Josefa.
Num desses dias banais, em que a brincadeira e pode terminar em provação, o Miguel, já feito jovem, katetense, espírito inflamado, decidiu fazer-me seu batuque. Corri. Como qualquer rapaz que conhece os próprios limites. Na tentativa de me derrubar, caiu ele próprio. E ali a coisa piorou.
A queda feriu-lhe o orgulho. E orgulho ferido, no Kaputu, não ficava sem resposta.
Ao entardecer, alguém me avisou: ele esperava-me na esquina. Caminhei com o medo colado aos pés, como poeira que não se sacode. Foi então que Josefa surgiu, informada, pronta e determinada.
— Hoje Kalulu se defende.
Havia ali mais do que coragem. Havia identidade. Um sentido de pertencimento que não se explicava, mas defendia-se.
Miguel apareceu, agarrou-me. E, antes que o destino se cumprisse, Josefa antecipou-se. A cabeçada foi seca, certeira. Miguel caiu. O confronto acabou ali, sem discurso e sem cerimónia.
Naquele dia em diante, não ganhei apenas protecção. Ganhei um tempo. Ganhei o direito de crescer sem a marca de uma humilhação desmerecida e a prima Josefa tornou-se uma lenda.
Dizia-se no bairro:
— Não te metas com a Josefa. Aquela tira dentes com cabeçada.
A segunda cabeçada levou anos a chegar. E desta vez, longe da prima Josefa.
Foi numa aldeia do Lubolu, chamada Bangu-de Kuteka (nome traduzido do Kimbundu local para Português), já no final da década de oitenta, num contexto mais duro, onde a vida deixava menos margem para inocências. Foi ali que o nome de Paulo Kambangela se impôs.
Kambangela — a cigarra, talvez pelo grito, talvez pelo temperamento — carregava uma fama construída a pulso. Desde os tempos em Kitumbulu, ainda miúdo a correr atrás de macacos no milho, até se tornar o lutador mais temido de Kuteka. Ágil, astuto, implacável.
Dizia-se dele:— A luta de Kambangela só acaba quando ele ganha.
E pior: se fugisses, ele perseguia. Se resistisses, ele esperava. Em Kambangela, a luta não era jogo. Era predestinação.
O destino, que gosta de costurar fios invisíveis, colocou-me no seu caminho através de uma herança que nem era minha: o ódio que ele nutria pelo seu antigo padrasto, meu avô paterno.
Eu era ainda um adolescente, aprendiz de costura, mais habituado a bainhas do que a punhos. Estava a trabalhar quando ele chegou. As provocações vieram primeiro. Depois, o insulto. E, sem transição, a agressão.
Tentei explicar. Não adiantou. Tentei evitar. Não foi possível. E, pela primeira vez, ao contrário da cena do Kaputu, não havia ninguém entre mim e o golpe.
A multidão estava, como sempre, presente: uns com vontade de intervir, outros com sede de espetáculo. Mas ninguém pisaria aquela linha. Todos temia Kambangela que queria fazer-me batuque.
E naquele instante, percebi algo essencial: havia momentos na vida em que não se herda protecção. Constrói-se.
Quando ele me pressionou, quando pensei que ficaria preso àquela força maior, aconteceu algo inesperado: ergui-me com ele às costas. O corpo reagiu antes do medo.
Já fora da sala, ele preparava o seu método: jogo de pernas, batidas no peito, golpe final.
Mas, dessa vez, eu não fugi. Agarrei-o pelos colarinhos, algo que não lhe passou pela cabeça. Nunca alguém ousara desafiá-lo àquela maneira.
E fiz aquilo que a memória guardava, silenciosamente, desde o Kaputu. Uma cabeçada.
O impacto levou consigo mais do que o equilíbrio de Kambangela. Levou um mito. Ele caiu. E com ele, caiu a ideia de invencibilidade que o rodeava.
O silêncio que se seguiu era diferente daquele da infância.
Ali, não havia lenda a nascer. Havia uma a terminar.
Mandaram-me fugir. Diziam que ele voltaria, que buscaria vingança. Mas algo já tinha mudado nele e em mim. No dia seguinte, no meio de uma caçada, evitámo-nos. E nunca mais lutou. Kambangela, o invencível, parou ali.
Hoje, quando olho para trás, vejo duas cabeçadas e um percurso. A cabeçada de Josefa salvou-me quando eu não tinha ainda ferramentas para me defender. Foi gesto de amparo, de pertença, de comunidade.
A que desferi a Paulo Kambangela salvou-me de permanecer preso a esse lugar de fragilidade e libertou a aldeia de um troglodita que a todos humilhava. Foi gesto de ruptura, de crescimento e de afirmação.
Entre uma e outra, a vida ensinou-me que todos precisamos de uma Josefa em algum momento, mas chega o dia em que temos de nos tornar, para nós próprios, essa força que intervém.
E, curiosamente, foi um gesto bruto, quase animal, que me ensinou a mais profunda das lições humanas: há batalhas que nos são poupadas e há outras que nos são confiadas.
As duas batalhas, à sua maneira, salvam-nos.
terça-feira, setembro 15, 2026
A DEFESA DO BEM PÚBLICO COMEÇA COM A VIGILÂNCIA DE CADA CIDADÃO
Há uma realidade que se tornou inquietantemente comum nas nossas cidades: a destruição silenciosa do património público perante a indiferença de muitos. Ruas e avenidas equipadas com redes separadoras, concebidas para impedir travessias perigosas e proteger vidas, são recortadas por cidadãos que insistem em atravessar onde e quando lhes convém, ignorando passadeiras e passagens pedonais. O resultado é previsível: acidentes, perdas humanas e a degradação de infra-estruturas construídas com recursos de todos.
O problema, porém, não se limita ao desrespeito pelas regras de trânsito. Cabos eléctricos da iluminação pública são roubados em plena luz do dia. Tampas de sarjetas desaparecem, transformando vias públicas em armadilhas para automobilistas e peões, além de comprometerem o funcionamento da macro-drenagem e agravarem as inundações. Contentores de lixo ficam sem rodas, outros são incendiados. Iluminárias públicas são furtadas. Bancos de jardins são destruídos. Em muitos casos, tais actos ocorrem nas proximidades de esquadras ou de outras instituições públicas, revelando um preocupante défice de vigilância e de responsabilização.
Como advertia Garrett Hardin (1968), na sua reflexão sobre a "tragédia dos bens comuns", quando cada indivíduo procura apenas satisfazer os seus interesses imediatos, ignorando o interesse colectivo, toda a comunidade acaba por sofrer as consequências. O património público e os recursos estratégicos da nação são bens comuns e exigem o compromisso permanente de cada cidadão na sua preservação.
É igualmente oportuno recordar Elinor Ostrom (1990), Prémio Nobel da Economia, que demonstrou que os bens colectivos podem ser protegidos com sucesso quando as comunidades participam activamente na sua gestão, estabelecem mecanismos de vigilância e não toleram comportamentos desviantes.
A experiência internacional confirma que nenhuma sociedade consegue proteger o património comum apenas através da acção do Estado. A participação dos cidadãos é indispensável.
É por isso que se torna pertinente reflectir sobre o eventual regresso das Brigadas Populares de Vigilância (BPV), adaptadas aos princípios do Estado democrático de direito e respeitando integralmente os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Não como instrumentos de perseguição, mas como expressão organizada da cidadania activa, da vigilância comunitária e da cooperação entre população e autoridades.
A segurança do património público e dos recursos estratégicos da nação não pode continuar a ser entendida como responsabilidade exclusiva da Polícia ou das administrações locais. Cada cidadão deve assumir-se como guardião dos bens que pertencem à colectividade. Quem presencia o roubo de cabos eléctricos, a destruição de um jardim, a vandalização de uma escola ou de um hospital, o furto de tampas de sarjetas ou o açambarcamento ilegal de combustíveis e permanece em silêncio contribui, ainda que involuntariamente, para a continuação desses actos.
A denúncia responsável dos prevaricadores não constitui delação. É um acto puro de cidadania. O silêncio, por sua vez, protege o infractor e penaliza toda a sociedade. Cada banco destruído, cada candeeiro furtado, cada tampa de sarjeta roubada e cada litro de combustível desviado representam dinheiro público desperdiçado. É o dinheiro dos nossos impostos e dos recursos nacionais que terá de ser novamente mobilizado para reparar danos, reforçar a fiscalização ou compensar perdas. Cada kwanza gasto para repor o que foi destruído ou recuperar o que foi desviado deixa de ser investido em novas escolas, hospitais, estradas, sistemas de abastecimento de água, iluminação pública ou outras infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento.
Como defendia Robert Putnam (1993), sociedades que cultivam confiança, cooperação e participação cívica desenvolvem maior capacidade de proteger o interesse público e de promover o desenvolvimento sustentável.
Não basta exigir mais do Estado. É necessário que os cidadãos façam a sua parte. A defesa do património público começa na consciência de que ele não pertence ao Governo, nem às administrações municipais e comunais, nem às empresas públicas. Pertence ao povo. É nosso. Cada poste de iluminação, cada contentor de lixo, cada jardim, cada estrada, cada escola, cada hospital e cada litro de combustível subsidiado foram financiados pelo esforço colectivo da Nação.
Se queremos cidades e vilas mais organizadas, mais seguras e um país economicamente mais forte, precisamos de transformar a vigilância cívica numa cultura permanente. É urgente denunciar quem destrói, quem rouba, quem vandaliza e quem enriquece à custa do património comum. É urgente rejeitar a indiferença. O futuro de Angola depende da capacidade de construir, mas também da maturidade de preservar aquilo que já foi construído e de proteger os recursos estratégicos que sustentam o nosso desenvolvimento.
Uma nação forte mede-se tanto pelas obras que inaugura e também pela forma como os seus cidadãos cuidam, defendem e vigiam o património que pertence a todos.
sexta-feira, setembro 11, 2026
ENTRE COLINAS E MEMÓRIAS NA ROTA WIZI–MAKELA
Logo pela manhã, com o sol ainda preguiçoso e o nevoeiro cerrado, homens e mulheres caminham com enxadas e catanas nas mãos, muitas vezes com crianças às costas e outras correndo em passo miúdo. “Vamos para as lavras”, dizem, enquanto seguem em silêncio ritmado, compondo um quadro humano que se repete diariamente.
As casas de adobes queimados emprestam cor de tijolo à paisagem. Quando rebocadas e pintadas, lembram as chamadas “casas dos colonos”, construções definitivas que marcam a memória arquitectónica da região. A rodovia, traçada em localidades montanhosas, corta colinas ou se ergue no topo delas, oferecendo curvas impressionantes e perigosas. “Aqui é preciso prudência, senão a estrada cobra caro”, alerta um morador, referindo‑se às curvas herdadas do antigo traçado das caravanas de carregadores, a famosa “estrada do cavalo”.
Há mérito no trabalho de eliminação das ravinas que afectavam a rodovia Negaje–Makela. Embora algumas ainda se avistem, de elevada profundidade e complexidade, são hoje poucas. “Já não temos medo de ver a estrada a desaparecer com as chuvas”, comenta um agricultor satisfeito.
A relação entre vivos e defuntos é intensa. As campas erguem‑se junto às residências, como forma de reverência. “Eles estão sempre connosco”, explica uma anciã, mostrando que a memória dos que partiram permanece no quotidiano dos vivos.
Ao contrário de outras bwalas, aqui não se vêem casas cobertas de capim. A rota Wizi–Makela distingue‑se por aldeias de alvenaria, ladeadas por abacateiros, safueiros e palmeiras. Contudo, as últimas árvores estão descuidadas: sem poda, sem colheita de dendém, acumulando ramos secos. “Se alguém acender fogo, a palmeira morre e leva os bichos que nela vivem”, lamenta um jovem, referindo‑se à “malavueira” que já não recebe os cuidados de outrora.
Entre curvas e colinas, casas alinhadas e memórias vivas, lavras crescentes e palmeiras esquecidas, a estrada Wizi–Makela permite ao viajante um retrato da vida que pulsa no interior do Wizi, onde cada detalhe revela a convivência entre o passado, o presente e o futuro que se desenha com o trabalho e suor de todos os dias.
Publicado pelo Jornal de Angola a 06.09.2026
terça-feira, setembro 08, 2026
PONTE SOBRE O ZAMBEZE: MEMÓRIA DE ÁGUAS
Atravessei o Zambeze nos dias 29 de Junho e 1 de Julho, quando o sol se inclinava sobre as margens de Kazombo e o vento trazia o cheiro das flores de buganvílias meleiras. A ponte nova, de ferro e betão, ergue‑se como um gesto de permanência sobre águas que não se detêm. Dizem que o Zambeze “entrou, não gostou e saiu” de Angola, mas quem o observa percebe que ele deixou raízes invisíveis, como quem planta lembranças antes de partir.
sábado, setembro 05, 2026
"MALUQUICES” E ACTOS DE INCIVILIDADE
Mas talvez o verdadeiro motivo da minha indignação não tenha sido a aparência daquele homem. Foi o seu comportamento.
No início da "Grande Avenida dos Combatentes", em Luanda, há um contentor onde os moradores depositam diariamente aquilo de que já não precisam. É um recipiente destinado a concentrar o lixo, facilitar a sua recolha e, sobretudo, evitar que a cidade se transforme num imenso depósito a céu aberto.
Aquele homem, porém, parecia ter tomado o contentor como propriedade privada. Sendo meu caminho de todas as manhãs, tenho observado que o vigia como quem guarda um cofre. Não permite que outros se aproximem para procurar entre os descartados qualquer objecto que ainda possa ter alguma utilidade. É uma realidade que se tornou familiar nas nossas cidades: pessoas que sobrevivem do que os outros deitam fora e que, na sua luta diária pela sobrevivência, acabam por disputar o próprio lixo.
Até aqui, há uma questão social que merece reflexão e respeito. Quem procura comida, roupa ou objectos aproveitáveis no lixo está, muitas vezes, a revelar mais sobre a pobreza da sociedade do que sobre a sua própria condição.
O que me revoltou foi outra coisa. O contentor estava ali, ao alcance da mão. Mesmo assim, o homem pegou num saco de lixo e outras coisas fora dele e os atirou para o chão, ao lado do recipiente que ele próprio parecia considerar seu território. Foi então que abrandei a marcha da viatura e o chamei à razão — caso ainda a tivesse.
Há uma contradição difícil de aceitar: alguém pode disputar um contentor para retirar dele aquilo que considera aproveitável e, simultaneamente, contribuir para que a área à sua volta fique mais suja. E mais paradoxal ainda é ver o contentor vazio e a rua apinhada de lixo.
Talvez a pergunta mais importante seja outra: que cidade estamos a construir quando até quem vive do lixo deixa de respeitar o lugar onde o lixo deve ser colocado?
Não se trata apenas daquele homem. Trata-se de nós. Tripulantes de grandes cilindradas, passageiros em autocarros e táxis colectivos ou privativos, pais e encarregados que mandam os filhos descartar o lixo...
Uma cidade limpa não depende exclusivamente dos serviços de recolha. Depende também do comportamento dos cidadãos. O Estado pode instalar contentores, organizar a recolha e limpar as ruas. Mas, se continuarmos a atirar resíduos para o chão, a retirar as tampas dos contentores e das sarjetas, a espalhar o lixo ou a considerar o espaço público como coisa de ninguém, estaremos sempre a limpar hoje aquilo que sujámos ontem, sofrendo as consequências: moscas, mosquitos, ratos, malária e outras doenças devidas à pobre higiene.
Saí daquele episódio com duas conclusões: deitar o lixo no chão, estando o contentor ao lado, é um acto de incivilidade, seja cometido por um cidadão bem vestido ou por alguém que vive na rua; a dignidade humana não se mede pela roupa que vestimos, mas também não pode servir de desculpa para a destruição da dignidade colectiva.O contentor não é propriedade de ninguém. A rua também não. Ambos pertencem à cidade. E a cidade, no fundo, pertence a todos nós e deve ser cuidada por todos.
Por isso, urge maior sensibilização e também punição com coimas aos munícipes que insistem em lançar o lixo na rua, mesmo havendo contentores e horários estipulados para a deposição. Só assim poderemos inverter este ciclo de incivilidade e construir uma cidade verdadeiramente limpa.
* 27.08.26
Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo, a 4.9.2026
terça-feira, setembro 01, 2026
BUGANVÍLIAS COLONIAIS MARCAM PRESENÇA EM NANA KANDUNDU
A viagem de Lwaw a Kazombo e vice-versa, nos dias 29 e 30 de Junho, levou-me a atravessar Nana Kandundu, lugar que se ergue discreto no sertão, mas carregado de memórias. O silêncio quase absoluto da telefonia acompanhava o percurso, como se a própria terra guardasse segredos antigos.
sexta-feira, agosto 28, 2026
POR QUE É NECESSÁRIO RECONHECER E ELEVAR CIRCUNSCRIÇÕES?
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| Adm. Fátima e Soberano Kanyanga |
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| 1º aniv. do município da Munenga |
sábado, agosto 22, 2026
RUMO AO FUTURO
Para isso, é essencial envolver ciência, arquitectura e consciência como pilares da formação da juventude.
A ciência deve ser ensinada não como mera repetição de fórmulas, mas como pensamento crítico, investigação e inovação. Os jovens precisam de aprender a aplicar a tecnologia para resolver problemas locais: agricultura sustentável, energias limpas, saúde comunitária e gestão de recursos naturais.
A arquitectura deve ser entendida como urbanismo sustentável, capaz de criar cidades inteligentes, resilientes e inclusivas. É preciso ensinar a preservar o património cultural e, ao mesmo tempo, projectar infraestruturas futuristas que respondam às mudanças climáticas e às necessidades de uma população em crescimento.
A consciência deve ser cultivada como ética e cidadania activa. Os jovens devem aprender que cada decisão tem impacto social e ambiental. É necessário formar cidadãos responsáveis, solidários e conscientes da sua missão colectiva.
O que se deve ensinar aos jovens é uma educação integral: ciência para compreender e transformar, arquitectura para projectar espaços de vida digna, e consciência para agir com responsabilidade. Só assim se constrói o país que queremos daqui a cem anos, não correndo atrás do presente, mas preparando o futuro com visão, disciplina e inovação.
sábado, agosto 15, 2026
ILUMINAÇÃO, BURACOS E ESCURIDÃO SÃO PERIGOS NAS ESTRADAS
Os crescentes acidentes com vítimas mortais, dezenas de feridos e destruição de viaturas nas estradas nacionais de Angola têm uma causa que se repete como um refrão trágico: buracos inesperados em vias que, à primeira vista, parecem em bom estado técnico. O condutor, surpreendido, vê-se forçado a escolher entre esquivar o buraco em velocidade — arriscando colisões ou saídas de pista — ou passar por cima dele e comprometer o veículo. É uma armadilha recorrente em troços como Ndondo-Kapanda, Zenza-Ndalatandu-Malanji, Waku Kungu-Alto Hama, Kibala-INP, Cabo Ledo-Longa, Luvangu-Ondjiva, entre outros.
A estrada 230, entre Zenza e Mazozo, complementa esse drama onde conduzir sem iluminação pública nem sinalização horizontal se assemelha a jogar à cabra-cega, avançando às cegas, guiado apenas pelas luzes dos veículos em sentido contrário e pela intuição de não sair da faixa.
O encandeamento das luzes máximas, a ausência de linhas de guia e os buracos sazonais transformam cada viagem num exercício de sobrevivência.
As consequências são devastadoras. Colisões frontais, saídas de pista e fadiga mental tornam-se rotina, minando a confiança colectiva na segurança viária. O impacto económico soma-se: atrasos no transporte, custos adicionais de manutenção e perda de vidas produtivas. Cada buraco é mais do que uma simples ausencia de manutenção técnica. É um golpe na dignidade de quem circula e na credibilidade das instituições responsáveis pela infraestrutura.
A solução exige coragem e investimento em iluminação pública, preferencialmente solar, que daria visibilidade às estradas. A marcação viária reflectiva e a sinalização vertical em curvas e zonas de risco devolveriam referências claras aos condutores. Em aditamento, campanhas de educação rodoviária e fiscalização rigorosa disciplinariam o tráfego e o uso adequado das luzes. É preciso, acima de tudo, uma política de manutenção preventiva, que não espere pela tragédia para tapar buracos, nem os "deixar engordar como frangos no aviário que aguardam pelo abate", como bem ironizou o menino Bebê, na Marginal do Ndondo.
Conduzir em Angola não deveria ser metáfora de cabra-cega, mas experiência de confiança e progresso. As estradas são caminhos de vida, não de morte. Investir em infraestrutura viária é investir em esperança, garantindo que cada viagem seja feita com segurança, dignidade e futuro.
Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo de 14 de Agosto de 2026
quarta-feira, agosto 12, 2026
À MESA DO AVÔ JOÃO: FEIJOADAS, DOCES E FLATULÊNCIAS
Já Patriota (2025) observa que dietas ricas em fibras, recomendadas para prevenir a constipação, também aumentam a produção de gases, tornando a flatulência mais frequente.segunda-feira, agosto 10, 2026
APELO AOS PARENTES E AMIGOS
Somos formalmente livres, mas vivemos sem liberdade real. Sem tempo, sem dinheiro e, mesmo entre os que têm, sem desfrute. Esta condição afasta-nos dos nossos parentes e amigos.
O mais cruel é quando cessamos funções: o tempo volta, mas os afectos não nos recebem como antes. A liberdade que nos prometem é apenas uma pausa entre obrigações.
sábado, agosto 08, 2026
MALANJI: A CIDADE QUE SE DEIXA CAMINHAR
Quando Marcos Nhunga era governador de Cabinda, visitei aquela província e regressei impressionado com a limpeza da cidade capital. Agora, em Malanji, encontrei o mesmo traço de governação. As conhecidas visitas relâmpago do governador às obras, muitas delas realizadas durante a noite, parecem ter criado uma cultura permanente de fiscalização e exigência. O resultado salta aos olhos. Malanji é, sem exagero, uma cidade invejosamente limpa, sobretudo quando comparada com a nossa capitalíssima, tendo já parte das árvores podadas, enquanto a chuva observa férias.
Mas nenhuma cidade é perfeita. Enquanto caminhava, deparei-me com colectores de águas pluviais destampados, onde alguém, por inexplicável hábito, havia depositado garrafas PET.
— Quem faz isso? — perguntei a um senhor que observava a rua, encostado à sombra de uma mangueira carregada de flores.
Sorriu, como quem já respondera à mesma pergunta muitas vezes.
— Não são os filhos de Malanji. Esse costume veio de outras paragens. Há quem pense que o colector é um contentor de lixo. Depois, quando chegam as chuvas, todos reclamam das inundações.
Poucos metros adiante, uma senhora que varria alegremente o passeio interrompeu o trabalho para reforçar a conversa.
— Nós limpamos. A Administração limpa. Mas basta uma pessoa sem educação cívica para estragar o esforço de muitos.
Continuei a caminhada. A manhã era fria e o sol ainda despertava lentamente. Aqui e acolá, pequenos buracos, abertos pelo tempo ou por intervenções nas condutas subterrâneas, aguardavam reparação nos passeios. Noutros pontos, montículos de terra deixados por obras de construção civil esperavam remoção. Nada, porém, suficientemente relevante para apagar a impressão dominante de ordem, limpeza e cuidado.
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| Borracheira nascida no alpendre |
O que mais me inquietou foram algumas casas antigas. Uma aqui, outra acolá, vencidas pelo tempo, como velhos combatentes que recusam abandonar a trincheira. Fiquei a imaginar as histórias escondidas entre aquelas paredes gastas. Perguntei-me se os proprietários já não dispõem de recursos para as recuperar, se pedem por elas valores que ninguém aceita ou se, simplesmente, aguardam que o tempo decida o destino daquilo que já não conseguem salvar.
Malanji possui uma identidade que se construiu muito antes da Angola independente. O seu território integrou a esfera de influência do histórico Reino da Matamba, associado à figura maior de Njinga Mbandi. Mais tarde, tornou-se um importante centro administrativo e comercial do interior, consolidando a sua relevância com a chegada do Caminho-de-Ferro de Luanda, que impulsionou o crescimento económico e urbano da região. Hoje, permanece uma província maioritariamente Ambundu, enriquecida pela convivência com comunidades Holo, Bondo e outros grupos que contribuíram para a riqueza da sua identidade cultural.
Talvez seja essa herança que explica o modo discreto como Malanji acolhe quem a visita. A cidade não precisa de monumentos grandiosos nem de gestos espalhafatosos para impressionar. Basta permitir que o visitante a percorra a pé. Foi assim que a descobri.
Ao regressar, levo comigo uma convicção: no pós-independência há realizações que merecem reconhecimento. Nem tudo está concluído. Ainda há património por recuperar, passeios por remendar e comportamentos por corrigir. Mas uma cidade limpa, organizada e humanamente habitável nunca é obra exclusiva de um governo. É o resultado do encontro entre uma administração exigente e cidadãos que compreendem que a rua também é a extensão da sua casa.
Foi essa Malanji que encontrei: uma cidade que se deixa caminhar. Uma cidade que convida à contemplação e à reflexão. Uma cidade que demonstra, silenciosamente, que o desenvolvimento não se mede apenas pelos edifícios que se constroem, mas também pela limpeza das ruas, pela disciplina dos seus habitantes e pelo respeito que cada cidadão demonstra pelo espaço comum.
Porque, no fim de contas, é a forma como tratamos o que é de todos que revela quem relamente somos.
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Publicado a 2 de Agosto no Jornal de Angola
quarta-feira, agosto 05, 2026
KI KUMBALAYETU KINGISUMBU KINDOMBO
[Em nossa terra nunca compraria rama de batata.]
Era o retrato da perda de autonomia, da dependência forçada, da ruptura com o chão que sustentava a vida.
Hoje, sem guerra que empurre para o êxodo, muitos continuam a migrar para os centros urbanos, mas a cidade, que parecia promessa, revela-se dura e cruel: falta de habitação, desemprego, carestia, falta de solidariedade dos parentes e dos vizinhos. Perante um mar de carências, o sonho urbano, muitas vezes, se transforma em desencanto.
_ Vizinha Katembo, em Luanda não se pede sal nem óleo _ responde a vizinha.
_ Vizinho Maventa, papá pediu para emprestar só a catana para cortar lenha _ anuncia o infante.
A resposta nua e ríspida não se faz rogada.
_ Bebeto, diz ao papá que quem sai do mato para Luanda tem que trazer catana dele. Aqui, cada um por si. Quem se aleja se cura. Se não está a conseguir, volte para a aldeia.
A canção nos lembra que a dignidade começa na terra e que o verde ao redor das casas, nos quintais e nos espaços urbanos, pode devolver autonomia e esperança.
Plantar jindungu, hortelã, alecrim, mamoeiros e outras culturas frutícolas e hortícolas é mais que prática agrícola: é acto de resistência, de memória e de futuro.
Nos vasos e pequenos canteiros podem crescer alface, couve, salsa, cebolinha, tomate cereja, pimento, gengibre, manjericão e cenoura, sem exigir grandes espaços.
Nos quintais urbanos, sem descaracterizar as habitações e a cidade, podem florescer mangueiras, goiabeiras, limoeiros, maracujazeiros, bananeiras, abacateiros e papaieiras, árvores que oferecem sombra, beleza e alimento.
Não se deve abandonar as aldeias sem reflexão e estruturação. Aproveitar os espaços urbanos e domésticos para cultivar, capitalizar recursos, reduzir custos e construir vida melhor são caminhos de sustentabilidade e dignidade.
Que cada quintal seja lavra, cada varanda seja horta, cada comunidade seja jardim. Assim, a memória se transforma em prática e a prática em futuro seguro.
(Título) publicado no jornal Pungo a Ndongo a 19 de Junho de 2026.





















