Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.
"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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quinta-feira, julho 02, 2026
A CASA QUE DESABA
quarta-feira, julho 01, 2026
DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS
Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.
Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.
O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.
A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.
— We want eat, disse-lhe impaciente.
O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.
— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!
Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.
O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”. Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.
Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.
Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026
segunda-feira, junho 29, 2026
O TEMPO E OS AUTOCARROS
terça-feira, junho 23, 2026
TOMÉ ARMANDO A VOZ QUE SE CALA
O Tomé foi homem de entrega e de voz. Serviu a Rádio Luanda por cerca de três décadas, emprestando o timbre firme e a disciplina profissional a uma instituição que se tornou parte da sua vida. Mas antes da rádio, conhecemo‑nos na Igreja Metodista Unida, cargo pastoral Moisés, nos anos 80, quando espreitávamos a adolescência, seguindo-se a juventude que nos reunia em cânticos e fraternidade.
A sua vida foi marcada pela simplicidade e pela proximidade. Não acumulou riquezas, não se deixou seduzir pelo poder fácil. O Tomé foi presença solidária, voz que se oferecia, coração que se partilhava.
Ontem, ao aconselhar um jovem a poupar, lembrei‑me da música de Elias dya Kimwezu: uma poupa porque “a fome madruga”, outro é esbanjador porque entende que “a morte chega durante a noite”. Hoje, essa reflexão ganha corpo. A vida é breve e Tomé partiu sem aviso, deixando‑nos a interrogação: poupar para o futuro ou viver intensamente o presente?
Refúgio‑me em João 14:2‑3: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar‑vos lugar.” Quero acreditar que o Tomé Armando, filho da tia Tomba, foi preparar‑nos lugar, que a sua partida não é fim, mas transição.
Exalto nele a dedicação profissional, a fidelidade às raízes, a ternura com que tratava os seus. O Tomé foi voz, foi memória, foi laço. Hoje, o nosso Cacaca cala‑se na terra, mas continua a falar em nós, nos gestos que deixou, nas lembranças que nos unem.
Que a sua vida seja lembrada não pela doença que o levou, mas pela força com que serviu, pela dignidade com que viveu e pelo afecto com que nos tratou.
Foi-se mais um "Dactora"!
segunda-feira, junho 22, 2026
ALEGRILHOSO: UM SENTIMENTO DUPLO
Ponto prévio: a língua, com seus conservadorismos, desusos e neologismos, pertence àqueles que a usam no seu dia a dia e que a dão forma e vida.
Há palavras que nascem da boca do povo e se tornam marcas de identidade. Outras surgem da necessidade de dizer mais do que o vocabulário herdado permite. Em Angola, proponho que se acolha uma palavra nova, justa e necessária: “alegrilhoso”. A fusão de alegria e orgulho, inseparáveis quando se trata de conquistas pessoais e colectivas.A primeira vez que ouvi a expressão foi verbalizada por um menino de Chongoroi, município de Benguela, em entrevista à TPA, depois de um espectáculo infantil realizado a propósito do Dia da Criança Africana, 16 de Junho. Yuri, bom falador e conhecedor das suas gentes e traços culturais em que se destaca a boa educação, falou de forma sabida, altiva, respeitosa e sem gaguejar diante do jornalista. Feitas as contas, por junto e atado, o menino só podia ficar alegrilhoso. E eu, espectador atento, também fiquei assim depois de ver a performance e a entrevista.
Do meu lado, a travessia académica também me conduz a este sentimento. Em 1994 iniciei a formação média em jornalismo no IMEL, concluída em 1996 sem nunca recorrer a exame de recurso. Em 2003, já no 4.º ano da licenciatura em Didáctica de História no ISCED de Luanda, abracei também o ISPRA, onde me graduei em Ciências da Comunicação. Seguiram-se a pós-graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (GCH), na Faculdade de Agudos, (São Paulo, 2014–2015), e o Mestrado em Ciências Empresariais na Universidade Fernando Pessoa (Porto 2020). Cada etapa foi uma conquista, cada diploma um marco. Do ponto de vista académico, não posso senão sentir-me alegre e orgulhoso. Mas dizer apenas isso parece insuficiente. O que sinto é mais: é alegrilhoso.
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| Yuri: rapaz do Chongoroi |
A língua portuguesa em Angola tem longa tradição de absorver termos que exprimem melhor a nossa realidade. “Alegrilhoso” não é apenas uma soma de palavras. É uma síntese de emoções que se entrelaçam.
Alegria: o sorriso que nasce da conquista.
Orgulho: a consciência do esforço e da dignidade alcançada.
Alegrilhoso: o estado em que ambos se fundem, inseparáveis.
Em Angola, onde a oralidade sempre foi veículo de identidade, criar palavras novas, como "pocalizar e porradar", é também afirmar soberania linguística. “Alegrilhoso” pode tornar-se expressão corrente em discursos de formatura, em crónicas jornalísticas, em canções populares. É uma palavra que carrega o peso da luta e o brilho da vitória. Assim como “kilamba” ou “mwamba” evocam realidades locais, “alegrilhoso” pode ser a marca de uma geração que não se contenta em traduzir sentimentos alheios, mas inventa os seus próprios.
Hoje, ao olhar para o meu percurso e ao recordar a altivez de Yuri em Chongoroi, não encontro termo mais justo. Não sou apenas alegre, nem apenas orgulhoso. Sou alegrilhoso. E creio que muitos angolanos, ao nomear as suas vitórias pessoais e colectivas, sentirão que esta palavra também lhes pertence.
segunda-feira, junho 15, 2026
MEMÓRIAS DE LUANDA ENTRE O ZANGADO E O KIKOLO
No Zangado, percorri ruas que na infância me pareciam largas, mas que hoje se revelam estreitas. Talvez porque nos anos oitenta contavam-se nos dedos os veículos e conhecia-se o “roncar” de cada um deles. Estacionado perto da antiga Serração Baylundu, chamou-me a atenção a persistência das casas de madeira, tão comuns nas décadas de 70, 80 e 90. Algumas resistem ao tempo. Seja por dificuldades financeiras em transformá-las em alvenaria, seja por saudosismo. Notei também a tentativa de recapeamento de algumas ruas, mas as tampas das sarjetas ficaram mais altas do que o pavimento, fazendo com que a água “nunca entre nas sarjetas”. Pergunto-me: haverá algum fiscal por lá ou é tudo “faz de conta”, dado o afastamento do bairro das ruas onde passam os nguvulu?
O soar do lingala em todas as esquinas e o cheiro a lyamba em pleno dia foram outras anotações mentais com que saí do Zangado.
_ Luanda está a ser tomada silenciosamente por gente que vem de fora, desabafou, desgostoso um idoso.
Segui ao Kikolo, e aqui a memória borbulhou, levando-me cada vez mais ao passado, aos tempos em que Luanda tinha comboios com duas bitolas: a maior, que atendia e ainda atende as locomotivas que partem do Mbungu a Malanje, com ramificação para Ndondo; e a menor, do ramal que partia da estação dos Musekes e terminava junto à Moagem do Kikolo. Foi nesse comboio que viajei inúmeras vezes em busca do negócio da época: restos de sabão que os moradores das cercanias da Induve conseguiam em kandongas e outros kambalaxos, derretendo-os para produzir um detergente líquido a que chamávamos “sabão cocó”.
Onde passava o comboio, da Cuca ao Kikolo, ergueram-se armazéns, lojas e habitações. A Mabor General, fábrica que impunha respeito e cujos pneus rasgavam as estradas de Angola inteira, é hoje um cadáver transformado em armazéns de pouca serventia. Sobre o destino dos equipamentos, não há notícia. Vindos do Kikolo, já mais estarrecidos e pesarosos, lembrei-me do antigo imbondeiro próximo da Escola 1 de Junho, nosso local de descanso quando fazíamos o percurso Kikolo-Rangel a pé.
— Aqui havia um imbondeiro e uma rua asfaltada que ia à oficina da Renault — atirei ao tio António Martins.
— Sim, sobrinho Lúcio, era a Manauto 7 — respondeu ele, trazendo-me à memória outras “Manauto’s” espalhadas por Luanda. Junto à Cipal, na Rua Ngola Kilwanji, havia uma.
— Mais à frente — prosseguiu — era a entrada para a Praça do Cala Boca. O sobrinho lembra-se? — provocou.
Fazia tempo que não trocávamos palavras, como sempre acontece com pessoas comovidas que saem de funerais muito chorados. Cala Boca era um mercado que, na década de 80, rivalizava com Tira Biquíni, Kalemba, Roque Santeiro, Beato Salu, Trapalhões, Banga Sumo, Corridas, Congolenses e poucos outros. Sempre que meus tios e primos vinham do Lubolu com macroeira para vender na Praça do Tunga Ngó (antiga Praça das Corridas), acompanhava-os ao mercado de Cala Boca ou ao Kalemba para comprarem calças pré-lavadas, camisas “a jornal” e sapatilhas de meia-bota, que os tornavam muito queridos nas aldeias de Kuteka e arredores. Dir-se-ia que eram mizangala por quem muitas garotas “morriam”. Eu, por minha vez, contentava-me com os gelados de corantes e as sandes de sardinha frita que, para a fome e costumes de então, sabiam a pizza para o apetite e fome dos meus filhos de hoje.
Lda, 15.05.26
Publicado no Jornal LUANDA a 25 de Maio de 2026
sábado, junho 13, 2026
KALULU ANTES DA NOSSA ERA
Foi nesse contexto que a Igreja Católica, braço espiritual do governo ocupacionista, ergueu as suas primeiras construções — sempre monumentais, sempre futuristas.
Conta-se, inclusive dentro da própria tradição católica, que a primeira comunidade “catolicizada” foi a de Kibuma, no sopé da montanha que vigia Kalulu do outro lado do Kambuku. A escolha não foi aleatória: ali começava a evangelização, ali se plantava o novo centro de poder simbólico.
À época, os brancos eram escassos, os mulatos ainda menos visíveis, e os cabo-verdianos — chamados “colonos de segunda” — chegariam depois.
Os negros autóctones, em número considerável, viviam as suas vidas em regime de subsistência, sem acesso às estruturas que se desenhavam para os “civilizados”. Musafu, Kapopa, Bairro Wambu, Azul e outros ainda não existiam. Apenas a Mbanze, capital informal de aldeolas distantes, concentrava alguma organização.
Com o tempo, o recrutamento para as lavouras de café e a acção dos evangelizadores aceleraram o crescimento demográfico. Kalulu expandiu-se, mas sem planeamento urbano. As cercanias do vilarejo cresceram mal, sem arruamentos, sem drenagem, sem visão.
A Igreja da Missão, hoje situada em Musafu, foi construída com portas voltadas para Kibuma — um gesto que muitos ainda interpretam como simbólico: a evangelização começou ali, não na vila.
Mais tarde, ergueram outra igreja na vila, no alto do penhasco que oferece as costas ao Kambuku. A sua parte traseira voltada para o rio é, até hoje, motivo de interrogações. Essa igreja era destinada aos “civilizadores” e aos “civilizados” da vila. A geografia espiritual da colonização estava desenhada.
A entrada principal da igreja, voltada para o jardim da vila, é precedida por uma imponente escadaria frontal, construída em pedra e calcetada no tempo. Essa escadaria não é apenas acesso físico — é também símbolo de ascensão, separação e hierarquia. Quem sobe, vindo do centro da vila, atravessa não só degraus, mas camadas de poder e pertença.
A vigiar tudo e todos, estava — e continua — a Fortaleza de Kalulu, já centenária e guardadora de muitos segredos sobre refregas e vidas amputadas. Serviu o colono, serviu o poder revolucionário. Hoje, serve a Pátria e a comunidade. É monumento histórico, testemunha silenciosa de transições, rupturas e permanências.
Kalulu enfrenta agora o desafio de transformar os seus subúrbios em zonas urbanizadas. Mas quem fará isso? Com que meios? E com que visão? Novas vilas como Munenga, Kisongo e Kabuta estão a nascer. Que sejam desenhadas antes que a desordem urbana se instale — antes que o futuro repita os erros do passado.
Kalulu, antes da nossa era, não era apenas um lugar. Era uma promessa não cumprida, uma memória que ainda exige reparação e planeamento.
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Publicado pelo Jornal Litoral a 25 de Setembro de 2025
terça-feira, junho 09, 2026
CUIDADO: BURACO NA VIA!
No improvisado mercado à beira da estrada, onde os carros que seguem às províncias enchem os depósitos de combustível e os homens o estômago, há um pregão que se destaca. Não é de peixe seco nem de ginguba torrada, mas de música.
Samy, figura conhecida do pedaço, corre de carro em carro com um leitor de CD numa mão e uma caixa de discos na outra. O cabelo comprido, em crista rebelde que lhe atravessa o ngimbu, já é marca registada.
— É ce-dê origon, kota! Música de qualidade que não te deixa mal na viagem. Quem compra volta sempre! — garante, com a convicção de quem já faz do negócio profissão há cinco anos.
De repente, ergue um disco com título provocador: “Rir até mostrar o último molar”.
— Kota, já ouviste esse? Só duzentos paus. Com cento e noventa também bate! — regateia, como bom comerciante de esquina.
Algibeira aberta, Kwanzas entregues, e Samy ainda recomenda:
— Kota, experimenta a faixa quatro!
O rádio dispara e, em coro com o estado das estradas, ecoa:
"Se vais na província tenha cuidado, na via do Dondo tem lá buraco... buraco bué!"
Um dos passageiros não se contém:
— Epá, granda queta! Parece que o cantor anda a fazer levantamento topográfico todos os dias!
Entre risos e balanços do carro, a música segue como se fosse boletim oficial de obras públicas:
Via do Dondo tem buraco; na do Libolo estão a tapar; da Kibala bué de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda Angola está um buraco; mas a taxa já está no pontué!
E assim, durante os 1050 quilómetros que separam Luanda das terras de Mwene Vunonge, não se ouviu outra balada senão essa, do grupo humorístico "Estamos a Vir". Uma sátira sonora que, entre gargalhadas e batuques, lembra ao viajante que em Angola, além da música, o buraco também virou património nacional.
Algures em Angola, 17.02.2015
Obs: A constatação, em 2026, é de que a EN do Zenza ao Dondo está em perfeitas condições de trafegabilidade.
sábado, junho 06, 2026
MEMÓRIAS DE ESCOLA
segunda-feira, junho 01, 2026
INFANTÁRIO DA AVÓ KYOKO: LIÇÕES DE VIDA E AFECTO
O funcionamento do infantário era simples e solidário: cada mãe deixava com a avó Kyoko uma pequena panela com funji e conduto, ou ainda jinguba, batata assada, banana e outros alimentos.
À hora do almoço, a avó reunia as crianças e distribuía os manjares deixados, enquanto as mães trabalhavam despreocupadas, regressando alegres pelos cuidados recebidos pelos seus petizes.
Mas a avó Kyoko não se limitava a alimentar. Ela ensinava: cantavam juntas, ouviam estórias e fábulas e realizavam pequenos trabalhos adaptados à idade — juntar pratos, lavá-los, acender a fogueira, trançar o cabelo, entre outras actividades de pequena monta.
À noite, tornava-se professora das pubertárias, que se reuniam na sua “Kandumba” para receberem lições sobre a vida afectiva, prevenção de gravidez precoce e convivência conjugal. Essas adolescentes, por sua vez, garantiam o sustento da casa: lenha, água e iguarias e ingredientes para a confecção da "wala" [garapa].
A casa da avó Kyoko era também o ponto de encontros e reencontros entre as jovens e os galanteadores da aldeia e outros vindos de aldeias distantes em busca de um amor — recomendado ou tentando a sorte.
Esse ambiente, embora simples, era permeado por códigos de respeito e encantamento, onde os olhares se cruzavam sob o olhar atento da matriarca, que sabia distinguir entre o afecto genuíno e a frivolidade passageira.
A casa da avó Kyoko tinha tudo de um pouco para se viver. E tudo acontecia com naturalidade, espontaneidade e afecto. Hoje, faltam casas assim — nas cidades e até nas aldeias. A solidariedade esfumou-se e com ela a busca por amparo e conhecimento.
É possível resgatar essas práticas?
Talvez sim. Mas as comunidades precisam de conhecer o passado e reconhecer a eficácia dos bons costumes que o egoísmo, as crendices e o oportunismo estão a matar.
Publicado no Jornal de Angola de 03.01.2026
domingo, maio 31, 2026
EXPLORANDO SÃO TOMÉ
Assim, entre Monte Forte e Malanza, permanece um vazio que é ao mesmo tempo barreira e promessa. A ilha, que se orgulha de sua unidade cultural, ainda não se encontra fisicamente inteira. O viajante que percorre seus limites descobre que o coração verde da ilha é guardião da memória e da biodiversidade, mas também obstáculo à comunicação. O futuro de São Tomé talvez esteja em decidir se esse vazio deve permanecer como muralha natural ou se será vencido pelo traço humano que unirá norte e sul.
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Publicado pelo Jornal de Angola a 07.06.2026
sábado, maio 30, 2026
ENCONTRO LITERÁRIO REFORÇA LAÇOS CULTURAIS
O momento ganhou especial simbolismo quando Kanyanga recitou um poema recente de autoria de Salvaterra, reforçando a atmosfera de partilha literária. Em gesto de reconhecimento, recebeu como oferta o livro É nosso o solo sagrado, da poetisa Alda do Espírito Santo, cujo centenário se assinala este ano.
Este encontro evidencia a relevância da diplomacia cultural e literária, fortalecendo pontes entre Angola e São Tomé e Príncipe, e reafirma o papel da literatura como espaço de diálogo e união entre povos.
quinta-feira, maio 28, 2026
NOITE EM SÃO TOMÉ
São Tomé, 02 de Maio. A noite descia leve sobre o distrito de Água Grande. O rio Água Grande, que corta a cidade ao meio, entrava mansinho no Atlântico, sem gorgorejos nem reclamações.
As luzes do Palácio Presidencial refletiam sobre a baía, encandeando preguiçosas, como se trocassem olhares silenciosos com a Sé Catedral. Os sinos, já cansados, pareciam aposentados: apenas uma missa vez ou outra, e o murmúrio das Ave-Marias. No pátio, um cão sem dono marcava passos pelo rossio, farejando restos de comida junto aos contentores transbordantes.
O Café Baía já era memória. As Linhas Aéreas de São Tomé mudaram de sede, assim como o Banco Central. No Ministério da Saúde reinava calma: nada de ambulâncias, nada de correria. Apenas uma roulotte sobre o passeio, servindo caipirinhas e outras bebidas, como se fosse o coração pulsante da noite.
Uma jovem esbelta passava apressada, falando ao telefone, sem medo e sem tempo para ceder palavra. Outra, avantajada, lançava isco:
— Cê quer sair com companhia?
Mais adiante, uma música em decibéis acima do normal denunciava uma discoteca ou casa noturna. O ritmo escapava pelas paredes, misturando-se ao ar quente da noite. E a pergunta pairava: haveria também casas de alterne escondidas nas esquinas da cidade?
Mas o que mais impressionava era a segurança. Sem ladrões, sem pressa, tudo seguia leve-leve, sem zangas. A noite em São Tomé parecia caminhar ao ritmo da confiança, como se cada esquina fosse familiar e cada rosto conhecido.
São Tomé à noite é feita de contrastes: o silêncio do rio, a calma dos ministérios, o brilho imperial da lua-cheia e ao mesmo tempo o bulício das ruas, os convites improvisados, a música que explode sem pedir licença, num e noutro canto. É uma cidade que repousa e desperta ao mesmo tempo, onde cada esquina guarda uma história e cada olhar sugere um segredo.
quarta-feira, maio 27, 2026
UM TOUR PELA ZONA SUL DE SÃO TOMÉ
Em Pantuf, distrito de Mé-Zóchi, deixei escapar: “Estas ruas estreitas parecem linhas de um poema, e o artocarpus é o refrão que se repete em cada esquina.” Arlindo sorriu e disse: “É verdade. Aqui lutamos para que a beleza da terra não se perca no descuido. O lixo insiste em aparecer, mas nós insistimos em limpar, porque esta é a nossa casa.”
Segui até Água Izé, onde as ruínas da antiga roça, outrora fábrica de óleo de palma e cacau, erguiam-se como fantasmas. Murmurei: “Este silêncio é pesado.” Arlindo acrescentou: “Os políticos perseguem os antecessores, em vez de trazerem empresários. A juventude cresce, mas os empregos rareiam.” Suspirei: “É como uma terra fértil sem sementes. Há que devolver-lhe vida.”
Na antiga Base Americana, detive-me. “Aqui a voz da América gritava mais alto do que todos os media santomenses”, pensei, lembrando o eco de uma presença que moldou imaginários e silenciou vozes locais.
Na praia das Sete Ondas, sorvi água de coco e comentei: “Este sabor fresco é como um poema que se escreve na boca.” À entrada de Mé-Zóchi, provei o doce vinho de palma. “É o sangue da terra transformado em festa”, disse, erguendo o copo improvisado.A visita à Roça Monte Café trouxe história. Fundada no século XIX, foi uma das maiores produtoras de café da ilha, símbolo da riqueza colonial. Hoje, é sede de uma cooperativa de exportadores que nada exporta. Observei: “É como um livro de capa dourada, mas sem páginas dentro”, tocando as paredes que guardam memórias de trabalho e exploração.
No Bairro Batepá, distrito de Mé-Zóchi, o silêncio tornou-se pesado. Ali, a 3 de Fevereiro de 1953, centenas de são-tomenses foram mortos pela repressão colonial portuguesa.
Diante do monumento, murmurei: “Este chão é sagrado. É o vosso 3 de Fevereiro, como o nosso 4 de Janeiro na Baixa de Cassanje. Dois gritos diferentes, mas a mesma dor.” Arlindo respondeu em voz baixa: “É por isso que nunca esquecemos. O massacre ensinou-nos que a liberdade custa caro.”
O epílogo da jornada foi na Cascata de São Nicolau. A água caía com força, como se lavasse o tempo. Contemplei e disse: “Aqui a ilha fala na língua da eternidade. Cada gota é memória, cada queda é futuro.”Assim terminou o meu tour: não apenas uma viagem por estradas e roças, mas um mergulho na alma de São Tomé, onde se diz "Somos Todos Parentes" e onde cada canto guarda histórias que se entrelaçam com as de Angola, duas geografias unidas pela dor, pela resistência e pela esperança.
A LEVIANDADE DA SH BOUTIQUE
Mas o fecho da estadia trouxe uma cena menos poética. No hotel SH BOUTIQUE, a experiência foi marcada por infiltrações de água do ar condicionado, tapetes encharcados e um cheiro de bolor insuportável. Reclamações não atendidas, noites mal dormidas com porta e janela abertas para puder respirar. A carta que escrevi ao gerente, no dia 6 de maio, resume o desfecho:
“Sem condições dignas de acomodação, só me resta interromper a minha estadia no vosso hotel e solicitar o reembolso do dia em falta.”
O que mais faz mossa não é apenas o problema físico do quarto, mas a atitude dos funcionários e da gerência: tudo levado no espírito “leve-leve”. Esse traço cultural, tão bonito na música e na convivência, torna-se corrosivo quando se instala na gestão. O “leve-leve” pode ser filosofia de vida, mas não pode ser desculpa para a falta de rigor.
Países e organizações não se desenvolvem nesse passo. O hóspede que reclama, o cidadão que exige, o investidor que aposta — todos precisam de respostas sérias e eficazes. Sem isso, a simpatia transforma-se em desconfiança, e o encanto em frustração.
São Tomé e Príncipe tem talento, cultura e hospitalidade. O desafio é transformar o “leve-leve” em calor humano e acolhimento genuíno, sem abdicar da disciplina que o desenvolvimento exige. Só assim o país poderá afirmar-se como destino e como nação.
Publicado no jornal Pungo a Ndongo de 30 de Maio de 2026
segunda-feira, maio 25, 2026
O ASSISTENTE E O MESTRE
Durante meses, conheceu os equipamentos de rádio, um a um, descobrindo-lhes a utilidade e a serventia na construção do “edifício sonoro”, esse som que chega ao ouvinte por via de um receptor.
Ora na sonoplastia, ouvindo e escolhendo os trechos mais impactantes dos áudios; ora na redacção, sugerindo a palavra certa ou levando apressadamente à cabine de locução o guião cuspido pela Olivetti, que tictava sons melodiosos ao ritmo vigoroso do editor José Rodrigues.
Em casa, a mãe aguardava ouvir o nome do seu querido Phande na ficha técnica, lida no início e no fim do noticiário. E chegou o dia em que o ajudante passou a constar:
Edição: Zé Rodrigues
Cuidados sonoros: Sebastião dos Santos
Técnica final: Agostinho Vanda
Assistência: Phande-a-Umba
Apresentação: Mário Guerra
Na primeira vez, foi gáudio na redacção da Emissora Comercial e em casa. Cada vez que o nome de um estagiário entrava na ficha técnica ou apresentava uma pequena peça, os neófitos reuniam-se no fim do turno para comemorar. Em casa, amigos e familiares rejubilavam.
— Agora o meu filho é mesmo jornalista. Falaram o nome dele na rádio — comentavam as mães.
O tempo passou. Phande consolidava a aprendizagem e já lia pequenas peças e até sínteses de notícias, regra geral telex seleccionados da Agência Nacional. Todavia, em casa, a mãe passou do júbilo à preocupação. Um dia, ao chegar, foi chamado pela progenitora:
— Phande, senta aqui. Desde que começaste a trabalhar na rádio já vamos a caminho de nove meses. Às vezes ouvimos a tua voz, outras vezes pronunciam o teu nome. Aqui em casa todos ficamos contentes, mas há uma coisa que me preocupa — disse Kilombo Ky’Etinu, pausada, afectiva.
— Sim, mãe. O que te preocupa então? Será o facto de eu sair sempre muito cedo, quando todos ainda dormem?
— Não, meu filho. É que os teus colegas têm tarefas. Ouvimos todos os dias no noticiário. O que dizem de ti é que apenas ficas a assisti-los. Mas é mesmo isso, filho? Só ficas a assistir os outros a desempenharem as suas tarefas e não fazes mais nada?
Phande riu, pousou o braço no ombro da “sua velha”:
— Calma, mãe! Assistência, em rádio, é ajudar. Eu estou no estágio, o meu trabalho é de ajudante!
***
Vinte e trê anos depois, Phande já era homem grande na profissão e na idade. Dera-lhe netos, casa e felicidade. Kilombo Ky’Etinu contraíra cegueira irreversível, mas apurara a audição e o humor. Phande ausentara-se do país para defender o Mestrado. Ao regressar, a mãe chamou-o:
— Phande, senta aqui. Como correram os estudos que foste fazer?
— A defesa correu bem, mãe. De zero a vinte obtive dezasseis.
— Oh! Dezasseis para vinte, só faltaram quatro pontos. Muitos parabéns! Mas diz-me uma coisa: agora qual é a tua classe?
— Sou mestre, mãe.
A anciã franziu a testa:
— Como assim mestre, se já eras doutor? Então esses pedreiros que fazem parede torta é que são da tua igualhagem? Não pode ser. Estás a mentir-me, filho!
Publicado no Jornal de Angola de 21 de Junho de 2026
domingo, maio 24, 2026
ÁGUA GRANDE DEPOIS DA CHUVA
Mas a beleza natural não resiste ao descuido humano. Ao longo do seu percurso urbano, o rio vai recebendo resíduos sólidos, testemunho da fragilidade da educação e gestão ambiental. Paradoxalmente, a população de São Tomé mantém o hábito de varrer em frente às casas e negócios, como se fosse ritual de dignidade. Os contentores, porém, transbordam, aguardando recolha que tarda. A cena lembra os bons costumes da Luanda periurbana dos anos 1980, quando o gesto de varrer era comum. Só falta ajustar a responsabilidade da câmara em recolher os contentores cheios sempre que se ache pertinente.
sexta-feira, maio 22, 2026
HOMENAGEM AOS MÁRTIRES DE BATEPÁ
A 30 de Abril de 2026, diante do monumento de Batepá em Mé-Zóchi, senti que cada pedra guardava o eco de um grito silenciado em 1953. O massacre, conduzido pela administração colonial portuguesa, ceifou centenas de vidas santomenses acusadas injustamente de preparar uma revolta. Prisões arbitrárias, torturas e execuções sumárias transformaram aquele episódio num marco da resistência contra a opressão.
As palavras da poesia vieram à mente como testemunho. Alda do Espírito Santo escreveu: “Batepá não é apenas sangue derramado, é raiz que germina na terra da liberdade.” Por seu turno, Conceição Lima recorda: “Os mortos de Batepá caminham comigo, lembrando que a pátria nasceu do seu silêncio.”
Do lado angolano, Agostinho Neto eternizou Kasanji em versos: “Aqui onde a terra se abre em sangue, aqui nasceu a liberdade.” Essas vozes literárias não apenas narram, mas transformam dor em consciência, memória em futuro.
O monumento de Batepá é hoje espaço de reflexão, tal como Kasanji permanece vivo na poesia e na memória angolana. A literatura e a arte cumprem o papel de preservar a memória coletiva, de desafiar o esquecimento e de ligar histórias que, embora ocorridas em diferentes geografias, fazem parte de uma mesma luta.
Assim como o 4 de Janeiro é celebrado em Angola, o 3 de Fevereiro em São Tomé e Príncipe é o Dia dos Mártires da Liberdade. Essas datas não são apenas recordações de tragédias, mas símbolos da resistência que culminou na independência de 1975.
A ponte entre Batepá e Kasanji mostra que a luta anticolonial foi continental e que recordar esses episódios é reafirmar a dignidade conquistada pelos povos africanos. Gostaria que eu complemente esta crônica com uma reflexão sobre o papel da poesia na independência africana?
domingo, maio 17, 2026
LEVE-LEVE NA MARGINAL
Revezam-se a velha calçada, gasta pelo tempo e pelas ondas perenes com o seu muro antigo, estreito e curto, que vai cedendo lugar ao novo, mais robusto, mais alto, mais afirmativo. Logo adiante, a pedra calçada substitui o betão cansado, como se a cidade decidisse, pouco a pouco, reencontrar a sua forma. Nada se faz de rompante. Tudo acontece “leve-leve”.
Ali perto, junto à zona da cooperativa, um barco há muito encalhado vai entregando o seu corpo ao mar. A madeira e o ferro, outrora tensos e funcionais, abriram-se em cavidades que hoje abrigam peixes e pequenos organismos marinhos. O que foi instrumento de trabalho tornou-se refúgio de vida. Não houve pressa em salvá-lo, nem urgência em retirá-lo. O mar encarregou-se do resto. E com paciência infinita.
É também ali que se alinham pequenos kaiês, construções simples, feitas de madeira, zinco e engenho, onde se vende peixe, se conversa, se descansa. Mais do que barracas, são pontos de vida. Lugares onde o tempo não se mede em relógios, mas em marés e histórias. O kaiê é, em miniatura, a própria filosofia santomense: funcional, comunitária e descomplicada.
Já no século XXI, surgem intervenções de requalificação, incluindo o início de uma nova calçada sobre a baía, pensada para proteger a orla e oferecer outro desenho à cidade. A pedra regressa, substituindo o betão, e o muro cresce. Não apenas em altura, mas em intenção e futuro. É um gesto de modernidade, ainda em curso, que convive com o passado sem o apagar.
A Marginal acompanha bairros que contam, à sua maneira, a história da cidade até ao Porto de Ana Chaves. São zonas onde viveram pescadores, estivadores, pequenos comerciantes,gente que fez do mar sustento e horizonte. Bairros de mistura, de circulação, onde a cidade respira de frente para a água.
E, no entanto, apesar das transformações, algo permanece inalterado: o ritmo. Aqui, o tempo parece inesgotável. Não há urgência que domine, nem ansiedade que dite regras. É a paz e a calma que mais ordenam.
E talvez seja esse o maior ensinamento da Marginal: entre o velho que cede e o novo que se levanta, entre o barco que se desfaz e a vida que nele nasce, há uma certeza tranquila. Tudo acontece, mas nada se precipita.
Soberano Kanyanga, STP, 3.5.26
Publicado pelo Jornal de Angola a 10.05.2026
quarta-feira, maio 13, 2026
LEVE-LEVE: ENTRE A SERENIDADE E O DESAFIO DO DESENVOLVIMENTO EM STP
Durante uma semana em São Tomé e Príncipe, tive em Arlindo Fernando mais do que um guia e motorista. Foi um intérprete silencioso de uma forma de viver.
Logo no primeiro encontro, impôs-se uma evidência que foi a ausência de pressa. Não era desorganização, nem desleixo. Era outra relação com o tempo.
O Arlindo não se irritava com os condutores excessivamente lentos, nem com as manobras feitas em locais impróprios que, em qualquer outra geografia, provocariam buzinas e gestos de impaciência. Em São Tomé, nada disso. A progressão faz-se ao ritmo possível, não ao ritmo desejado.
No segundo dia, combinámos que me recolhesse às 9 horas. Chegou largos minutos depois, já após uma chamada impaciente de minha parte. Ao ritmo de Angola, cada minuto perdido é valioso. Sem constrangimento, como se o tempo fosse maleável, Arlindo chegou bem-humorado como quem diz: “tudo se pode fazer” nos instantes ou dias seguintes.
Essa experiência não foi isolada. Ao longo da estadia, percebi que, com excepção de algumas populações mais ao norte, como em Neves, o santomense evita o atrito. Prefere a paz à confrontação, a concórdia ao conflito. Fala de política, sim, mas sem acidez; expressa desejos de melhoria de vida, mas sem agressividade reivindicativa. Há uma aceitação tranquila do presente, uma espécie de pacto tácito com a realidade.É neste contexto que emerge o conceito de “leve-leve”.
O que é, afinal, o “leve-leve”?
Mais do que uma expressão, o “leve-leve” é uma filosofia social. Traduz uma forma de estar baseada na calma, na tolerância e na recusa do confronto desnecessário. É uma ética de convivência que privilegia o equilíbrio emocional, a harmonia comunitária e a adaptação ao fluxo natural das circunstâncias.
Não significa necessariamente preguiça ou indiferença. É, antes, uma escolha cultural. É viver sem pressa, sem tensão permanente, sem dramatizar os obstáculos.
As virtudes de uma vida sem antagonismos
As vantagens desta filosofia são evidentes.
Desde logo, a coesão social. Num ambiente onde o conflito é evitado, as relações tendem a ser mais estáveis e respeitosas. A convivência diária ganha em leveza.
Depois, o bem-estar psicológico. A ausência de pressa reduz o stress, melhora a qualidade de vida e cria espaço para relações humanas mais genuínas.
Há também uma dimensão cultural importante: o “leve-leve” preserva uma identidade própria, resistente à lógica acelerada e muitas vezes desumanizante do mundo contemporâneo.
Mas há um outro lado, menos confortável.
Quando o “leve-leve” transborda para as esferas institucional e económica, pode traduzir-se em lentidão decisória, baixa produtividade e ineficiência. A tolerância excessiva pode degenerar em complacência. A ausência de conflito pode inibir a exigência.
Num país que precisa de “acertar o passo”, desenvolver infraestruturas, melhorar serviços e criar oportunidades, a inação, ainda que pacífica, tem custos elevados.
O risco maior não é a calma em si, mas a sua transformação em imobilismo. A questão central (que coloco) não é rejeitar o “leve-leve”, mas reinterpretá-lo.
É possível e desejável manter a serenidade nas relações humanas, a tolerância e o espírito conciliador, ao mesmo tempo que se introduz maior rigor na gestão, pontualidade nos compromissos e sentido de urgência nas políticas públicas.
O desafio está em construir um novo equilíbrio que passe pela calma no trato e firmeza na acção.
O “leve-leve” é uma riqueza cultural de São Tomé e Príncipe. Explica, em grande medida, a paz social e a qualidade humana que se respira no arquipélago. Mas, num contexto de desenvolvimento, exige um ajuste fino.
Arlindo, com a sua calma inabalável, não é apenas um personagem desta narrativa. É o símbolo de um país que precisa de encontrar o seu próprio ritmo, sem perder a alma, mas também sem perder o tempo.

























