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quinta-feira, outubro 01, 2026

A ANGÚSTIA DA REFORMA: QUANDO O TRABALHO SE CONFUNDE COM A PRÓPRIA VIDA

Kujiza dedicou praticamente toda a sua vida ao serviço do Estado. Aos dezassete anos ingressou na Polícia, onde permaneceu até aos vinte e cinco. A sua rotina era marcada pela disciplina rigorosa: farda, paradas, rondas, cumprimento de missões e observância irrestrita das normas dos corpos paramilitares. Aprendeu cedo que, naquele ambiente, a hierarquia não era objeto de discussão.

O seu comandante costumava dizer:
— Ordem de chefe é como lâmina: corta. Por isso, cumpre-se.
E Kujiza cumpria.
Anos mais tarde, ingressou na Administração Pública, onde iniciou a carreira como técnica simples. Graças à disciplina adquirida na vida policial, destacou-se pelo profissionalismo, assiduidade e dedicação. Subiu gradualmente na carreira até alcançar a função de chefe de departamento, uma das mais elevadas da administração intermédia.
A etiqueta da Administração Pública exigia aprumo. Para manter a imagem compatível com as responsabilidades do cargo, Kujiza sacrificou parte significativa dos seus rendimentos em roupas adequadas, acessórios e sapatos de qualidade. O guarda-fatos e a sapateira transformaram-se, para ela, em instrumentos de trabalho tão importantes quanto os processos e relatórios que diariamente analisava.
Durante décadas, o ministério foi mais do que um local de trabalho. Tornou-se a sua segunda casa, ou talvez a primeira. Raramente faltava ao serviço. Poucas vezes gozou férias em condições. Muitas vezes abdicou do descanso, do convívio familiar e dos prazeres pessoais para cumprir as exigências da instituição.
Quando a música da vida profissional parecia mais animada, o sino da idade e do tempo de serviço tocou inevitavelmente. Mais de trinta e cinco anos de serviço prestado ao Estado e sessenta anos de idade. Não havia alternativa. O destino estava traçado: a reforma.
Confrontada com essa realidade iminente, Kujiza reagiu com angústia:
— Por que me querem fora do Ministério? Sempre foi a minha casa. A minha rotina foi vir trabalhar todos os dias sem faltar. Sempre me vesti com aprumo e exemplaridade para que os utentes se sentissem confortáveis e confiantes no meu trabalho e no trabalho da instituição. E é justamente agora, quando alcancei uma chefia intermédia, que me dizem para sair? Onde vou usar os meus vestidos? Onde vou usar os meus sapatos de marca?
Depois de alguns instantes de silêncio, continuou:
— Durante quarenta anos quase não gozei férias em condições. Nem sei o que significa mimar-me com o fruto do meu trabalho. Durante muito tempo nem sequer havia recursos suficientes. Agora que começou a pingar alguma recompensa pelos anos de sacrifício, retiram-me da festa?
As suas palavras não expressavam apenas tristeza. Revelavam uma crise identitária. Kujiza não estava apenas a deixar um emprego; estava a afastar-se de um modo de vida que lhe dera propósito, reconhecimento e sentido de pertença durante décadas.
Situações como a de Kujiza multiplicam-se em muitas instituições públicas e privadas. Muitos trabalhadores chegam ao final da carreira sem preparação psicológica, social, económica e até familiar para enfrentar a vida pós-reforma. Acostumados a horários, chefias, responsabilidades e rotinas diárias, sentem dificuldade em redefinir o seu papel na sociedade.
A literatura científica sobre envelhecimento e reforma demonstra que a transição para a aposentação não deve ser encarada como um acontecimento pontual, mas como um processo que exige preparação antecipada. O sociólogo e gerontólogo Robert Atchley (1976) sustenta que a reforma envolve diversas fases de adaptação e que o sucesso dessa transição depende da capacidade do indivíduo para reconstruir objectivos, rotinas e identidades após o encerramento da carreira profissional.
Por sua vez, Wang e Shultz (2010) defendem que o planeamento da reforma deve abranger não apenas a dimensão financeira, mas também os aspectos psicológicos, sociais e ocupacionais da vida futura. Segundo estes autores, trabalhadores que se preparam antecipadamente apresentam melhores níveis de bem-estar e adaptação após a aposentação.
Mais recentemente, Shultz e Wang (2011) reforçaram a ideia de que a reforma constitui um processo de transição gradual, durante o qual as pessoas precisam redefinir a sua identidade e encontrar novas formas de participação social, produtividade e realização pessoal.
Dessa forma, torna-se imperioso que as instituições implementem Programas de Preparação para a Reforma (PPR). Esses programas devem ajudar os trabalhadores em fim de carreira a compreender o que estão a deixar e, sobretudo, o que poderão vir a fazer. Devem prepará-los para novas rotinas, novos projectos de vida, actividades de empreendedorismo, consultoria, voluntariado, formação de jovens profissionais ou simplesmente para usufruírem, com qualidade e dignidade, da pensão conquistada ao longo de décadas de trabalho.
O grande desafio não consiste apenas em preparar o servidor para abandonar o emprego, mas em capacitá-lo para continuar a viver com propósito. Afinal, quem passou a vida inteira a servir o Estado precisa d3 aprender que a reforma não representa o fim da utilidade social, mas o início de uma nova etapa em que poderá, finalmente, colocar a sua experiência ao serviço de si próprio, da família e da comunidade.
Porque ninguém deveria chegar ao último dia de trabalho perguntando, como Kujiza:
— E agora, quem serei eu sem o meu gabinete, sem a minha rotina e sem o meu trabalho?
A melhor resposta para essa pergunta começa muitos anos antes da reforma. Começa com preparação, planeamento e construção consciente de uma vida que continue a fazer sentido para além do serviço activo.

Luciano Canhanga (MSc em Ciência Empresarial)

terça-feira, setembro 29, 2026

MANHÃ FRIA ENTRE VOZES E COBRE

A manhã em Cifwe era friorenta, muito mais para os visitantes desabituados ao clima áspero do saliente de Cazombo. Os prospectores e auxiliares, já feitos à rotina, moviam‑se com naturalidade, enquanto os recém‑chegados descobriam o rigor da actividade mineira. 

Governantes idos de Lwanda e do Muxiko Leste, ao lado dos responsáveis da mineradora Anglo American, formaram uma roda. Os oradores, escolhidos por voluntariado ou consenso, procuravam dissipar dúvidas: as boas‑vindas, as apresentações, as demandas e as rotinas do dia passavam em revista antes da partida para o campo.

Três línguas se alternavam: o Lunda‑Ndembo da terra, o português oficial e o inglês dos empresários e colaboradores zambianos e sul-africanos que ajudam a perseguir o copperbelt, essa faixa de cobre que atravessa Zâmbia, Congo e Angola, e que a Anglo American tenta inscrever no mapa mineiro nacional. 

Confirmando os dados, na região também se fala o Luvale, o Cokwe e o Ngangela, línguas bantu que convivem com o português, havendo adultos e crianças que pouco experimentam a língua veicular angolana. Como observa o linguista Ezequiel Pedro José Bernardo, a realidade multilingue de Angola exige políticas que valorizem as línguas nacionais e reconheçam a diversidade como riqueza e não como obstáculo.

E tudo correu bem. Sem dúvidas, apenas o tempo se via triplicado. Mas, como repetem os da indústria extractiva, “nada é mais precioso do que a segurança das pessoas, dos equipamentos, do ambiente e das finanças”. A frase ecoava como um provérbio moderno, lembrando que o cobre, por mais valioso que seja, não supera a vida. Ainda assim, se encontrado em quantidade significativa, o cobre poderá transformar a região: gerar emprego, dinamizar a economia local e nacional, abrir caminhos de desenvolvimento. Os trilhos abertos para prospecção já servem os habitantes, permitindo circulação antes impossível; árvores cortadas para acessos são aproveitadas como lenha e carvão; pontes, antes inexistentes, facilitam hoje a travessia de rios e riachos, aproximando comunidades.

Foi mais uma experiência, um dia bem passado com prospectores de cobre, debaixo das árvores frondosas e do chilrear permanente dos pássaros. E, como diria Ruy Duarte de Carvalho, “há lugares onde a língua se faz ponte e o trabalho se faz memória”. Cifwe, naquela manhã fria de Julho nascente, foi exactamente isso: um espaço onde o rigor da mineração se encontrou com a pluralidade das línguas, a serventia prática das obras e a persistência da esperança.

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In: Viagem ao Muxiko Leste

sábado, setembro 26, 2026

RAÍZES URBANAS

Em uma rua movimentada do casco urbano de Malanji ergue-se diante dos olhos uma casa colonial em ruínas, testemunho silencioso de tempos idos. À entrada, sobre a varanda que outrora se abrigava sob uma pequena pala, germinou uma semente de mulembeira. A chuva, a poeira acumulada e os tijolos húmidos ofereceram-lhe o berço improvável. Sem mãos que limpassem ou cuidassem, a árvore cresceu, descendo raízes firmes até ao solo, como se buscasse reconciliação entre o alto e a terra. Hoje, a borracheira impõe-se, abraçando as paredes frágeis e ameaçando o que resta da estrutura. É a natureza a reclamar o espaço que o homem abandonou.

Mas esta não é uma história isolada. Andando com mais atenção, vê-se que se multiplicam casas coloniais desabitadas, entregues ao tempo e à ruína. São património sem dono, ou talvez património esquecido? O olhar interroga: por que permanecem assim? Será que o mercado imobiliário pouco atrai? Ou que os terrenos urbanos não despertam interesse suficiente para serem reabilitados?

O paradoxo é ainda maior quando se observa que, além das casas abandonadas, existem terrenos devolutos em muitas ruas do interior da cidade. Espaços onde nunca se construiu absolutamente nada, que permanecem parados, como cicatrizes abertas no tecido urbano. 

Esses terrenos, se aproveitados, poderiam melhorar o rosto da cidade, dar lugar a praças, escolas, centros culturais ou habitações dignas. O vazio que representam apela ao reforço de políticas de ordenamento e completamento de uma urbe desenha a régua e esquadro.

A imagem da borracheira que nasce no alto e finca raízes no chão é poderosa. Representa a persistência da vida, mas também o esquecimento e a inacção humana. Cada raiz que se estende é um lembrete de que o abandono abre caminho à natureza e que o tempo, paciente, transforma ruínas em paisagens vivas.

Imagens como essa de Malanji, mui presentes em antigas fazendas, podem ser vistas em outras cidades e vilas. É tempo de lançar mão à obra, restaurando, vendendo a quem possa dar melhor aproveitamento ou doar a quem possa dar serventia.

E, quanto à serventia, há ainda outra interrogação: que utilidade é dada à Central Termoeléctrica de Malanji, junto ao rio que empresta o nome à urbe, tendo em conta que Malanji é actualmente a província de Angola com maior produção de energia hidroeléctrica em Kapanda e Lawuca? Se a província já se abastece de fontes hídricas abundantes, não seria racional transferir as turbinas e os depósitos de combustível da central para regiões como Muxiko Leste ou Kwandu, províncias neófitas no ordenamento jurídico angolano e com enormes carências energéticas? Tal medida poderia transformar o que hoje é redundância em solução, levando luz e desenvolvimento a zonas ainda mergulhadas na penumbra.

Mahezu, ngana!

Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo, a 31.07.26

terça-feira, setembro 22, 2026

AS DUAS CABEÇADAS QUE ME SALVARAM

Há episódios na vida que não se apagam. Não por serem grandiosos, mas por serem decisivos. No meu caso, foram duas cabeçadas que me ensinaram, em momentos distintos, o significado de protecção e de afirmação.

A primeira não foi minha. Foi da Josefa. No Kaputu da minha infância, na Rua da Ambaca, os bilos eram mais do que brigas de meninos — eram mecanismos de classificação social. Através deles se decidia quem mandava, quem resistia e quem precisava de protector. Quem não dominasse a basula, o kafrique ou outras artes da peleja tinha de escolher bem em quem se encostar.

Eu não era dos mais fortes, embora houvesse outros piores do que eu. Talvez por isso tenha aprendido cedo a observar os nomes que pesavam no bairro. Entre eles, o primo Ngoçalo, temido nas disputas do Kilwanji, e o Man Páscoa. Mas, verdade seja dita, quem realmente resolvia as coisas não eram eles. Era a prima Josefa.

Num desses dias banais, em que a brincadeira e pode terminar em provação, o Miguel, já feito jovem, katetense, espírito inflamado, decidiu fazer-me seu batuque. Corri. Como qualquer rapaz que conhece os próprios limites. Na tentativa de me derrubar, caiu ele próprio. E ali a coisa piorou.

A queda feriu-lhe o orgulho. E orgulho ferido, no Kaputu, não ficava sem resposta.

Ao entardecer, alguém me avisou: ele esperava-me na esquina. Caminhei com o medo colado aos pés, como poeira que não se sacode. Foi então que Josefa surgiu, informada, pronta e determinada.

— Hoje Kalulu se defende.

Havia ali mais do que coragem. Havia identidade. Um sentido de pertencimento que não se explicava, mas defendia-se.

Miguel apareceu, agarrou-me. E, antes que o destino se cumprisse, Josefa antecipou-se. A cabeçada foi seca, certeira. Miguel caiu. O confronto acabou ali, sem discurso e sem cerimónia.

Naquele dia em diante, não ganhei apenas protecção. Ganhei um tempo. Ganhei o direito de crescer sem a marca de uma humilhação desmerecida e a prima Josefa tornou-se uma lenda.

Dizia-se no bairro: 

— Não te metas com a Josefa. Aquela tira dentes com cabeçada.

A segunda cabeçada levou anos a chegar. E desta vez, longe da prima Josefa.

Foi numa aldeia do Lubolu, chamada Bangu-de Kuteka (nome traduzido do Kimbundu local para Português), já no final da década de oitenta, num contexto mais duro, onde a vida deixava menos margem para inocências. Foi ali que o nome de Paulo Kambangela se impôs.

Kambangela — a cigarra, talvez pelo grito, talvez pelo temperamento — carregava uma fama construída a pulso. Desde os tempos em Kitumbulu, ainda miúdo a correr atrás de macacos no milho, até se tornar o lutador mais temido de Kuteka. Ágil, astuto, implacável.

Dizia-se dele:

— A luta de Kambangela só acaba quando ele ganha.

E pior: se fugisses, ele perseguia. Se resistisses, ele esperava. Em Kambangela, a luta não era jogo. Era predestinação.

O destino, que gosta de costurar fios invisíveis, colocou-me no seu caminho através de uma herança que nem era minha: o ódio que ele nutria pelo seu antigo padrasto, meu avô paterno.

Eu era ainda um adolescente, aprendiz de costura, mais habituado a bainhas do que a punhos. Estava a trabalhar quando ele chegou. As provocações vieram primeiro. Depois, o insulto. E, sem transição, a agressão.

Tentei explicar. Não adiantou. Tentei evitar. Não foi possível. E, pela primeira vez, ao contrário da cena do Kaputu, não havia ninguém entre mim e o golpe.

A multidão estava, como sempre, presente: uns com vontade de intervir, outros com sede de espetáculo. Mas ninguém pisaria aquela linha. Todos temia Kambangela que queria fazer-me batuque.

E naquele instante, percebi algo essencial: havia momentos na vida em que não se herda protecção. Constrói-se.

Quando ele me pressionou, quando pensei que ficaria preso àquela força maior, aconteceu algo inesperado: ergui-me com ele às costas. O corpo reagiu antes do medo.

Já fora da sala, ele preparava o seu método: jogo de pernas, batidas no peito, golpe final.

Mas, dessa vez, eu não fugi. Agarrei-o pelos colarinhos, algo que não lhe passou pela cabeça. Nunca alguém ousara desafiá-lo àquela maneira.

E fiz aquilo que a memória guardava, silenciosamente, desde o Kaputu. Uma cabeçada.

O impacto levou consigo mais do que o equilíbrio de Kambangela. Levou um mito. Ele caiu. E com ele, caiu a ideia de invencibilidade que o rodeava.

O silêncio que se seguiu era diferente daquele da infância.

Ali, não havia lenda a nascer. Havia uma a terminar.

Mandaram-me fugir. Diziam que ele voltaria, que buscaria vingança. Mas algo já tinha mudado nele e em mim. No dia seguinte, no meio de uma caçada, evitámo-nos. E nunca mais lutou. Kambangela, o invencível, parou ali.

Hoje, quando olho para trás, vejo duas cabeçadas e um percurso. A cabeçada de Josefa salvou-me quando eu não tinha ainda ferramentas para me defender. Foi gesto de amparo, de pertença, de comunidade.

A que desferi a Paulo Kambangela salvou-me de permanecer preso a esse lugar de fragilidade e libertou a aldeia de um troglodita que a todos humilhava. Foi gesto de ruptura, de crescimento e de afirmação.

Entre uma e outra, a vida ensinou-me que todos precisamos de uma Josefa em algum momento, mas chega o dia em que temos de nos tornar, para nós próprios, essa força que intervém.

E, curiosamente, foi um gesto bruto, quase animal, que me ensinou a mais profunda das lições humanas: há batalhas que nos são poupadas e há outras que nos são confiadas.

As duas batalhas, à sua maneira, salvam-nos.

terça-feira, setembro 15, 2026

A DEFESA DO BEM PÚBLICO COMEÇA COM A VIGILÂNCIA DE CADA CIDADÃO

Há uma realidade que se tornou inquietantemente comum nas nossas cidades: a destruição silenciosa do património público perante a indiferença de muitos. Ruas e avenidas equipadas com redes separadoras, concebidas para impedir travessias perigosas e proteger vidas, são recortadas por cidadãos que insistem em atravessar onde e quando lhes convém, ignorando passadeiras e passagens pedonais. O resultado é previsível: acidentes, perdas humanas e a degradação de infra-estruturas construídas com recursos de todos.

O problema, porém, não se limita ao desrespeito pelas regras de trânsito. Cabos eléctricos da iluminação pública são roubados em plena luz do dia. Tampas de sarjetas desaparecem, transformando vias públicas em armadilhas para automobilistas e peões, além de comprometerem o funcionamento da macro-drenagem e agravarem as inundações. Contentores de lixo ficam sem rodas, outros são incendiados. Iluminárias públicas são furtadas. Bancos de jardins são destruídos. Em muitos casos, tais actos ocorrem nas proximidades de esquadras ou de outras instituições públicas, revelando um preocupante défice de vigilância e de responsabilização.

A estes actos junta-se um fenómeno de enorme gravidade para a economia angolana: o açambarcamento e o contrabando de combustíveis. Redes organizadas adquirem grandes quantidades de gasolina e gasóleo, muitas vezes recorrendo a múltiplos abastecimentos ou à utilização de recipientes improvisados, para posteriormente revendê-los ilegalmente ou encaminhá-los para além das nossas fronteiras. Este comportamento provoca escassez artificial nos postos de abastecimento, alimenta a especulação, favorece o mercado paralelo, gera perdas avultadas para o Estado e compromete os benefícios da política de subsidiação dos combustíveis, concebida para servir os cidadãos e impulsionar a actividade económica nacional. Cada litro desviado representa recursos públicos que deixam de cumprir a sua finalidade social e transformam-se em prejuízo para todos os angolanos.

Como advertia Garrett Hardin (1968), na sua reflexão sobre a "tragédia dos bens comuns", quando cada indivíduo procura apenas satisfazer os seus interesses imediatos, ignorando o interesse colectivo, toda a comunidade acaba por sofrer as consequências. O património público e os recursos estratégicos da nação são bens comuns e exigem o compromisso permanente de cada cidadão na sua preservação.

É igualmente oportuno recordar Elinor Ostrom (1990), Prémio Nobel da Economia, que demonstrou que os bens colectivos podem ser protegidos com sucesso quando as comunidades participam activamente na sua gestão, estabelecem mecanismos de vigilância e não toleram comportamentos desviantes. 

A experiência internacional confirma que nenhuma sociedade consegue proteger o património comum apenas através da acção do Estado. A participação dos cidadãos é indispensável.

É por isso que se torna pertinente reflectir sobre o eventual regresso das Brigadas Populares de Vigilância (BPV), adaptadas aos princípios do Estado democrático de direito e respeitando integralmente os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Não como instrumentos de perseguição, mas como expressão organizada da cidadania activa, da vigilância comunitária e da cooperação entre população e autoridades.

A segurança do património público e dos recursos estratégicos da nação não pode continuar a ser entendida como responsabilidade exclusiva da Polícia ou das administrações locais. Cada cidadão deve assumir-se como guardião dos bens que pertencem à colectividade. Quem presencia o roubo de cabos eléctricos, a destruição de um jardim, a vandalização de uma escola ou de um hospital, o furto de tampas de sarjetas ou o açambarcamento ilegal de combustíveis e permanece em silêncio contribui, ainda que involuntariamente, para a continuação desses actos.

A denúncia responsável dos prevaricadores não constitui delação.  É um acto puro de cidadania. O silêncio, por sua vez, protege o infractor e penaliza toda a sociedade. Cada banco destruído, cada candeeiro furtado, cada tampa de sarjeta roubada e cada litro de combustível desviado representam dinheiro público desperdiçado. É o dinheiro dos nossos impostos e dos recursos nacionais que terá de ser novamente mobilizado para reparar danos, reforçar a fiscalização ou compensar perdas. Cada kwanza gasto para repor o que foi destruído ou recuperar o que foi desviado deixa de ser investido em novas escolas, hospitais, estradas, sistemas de abastecimento de água, iluminação pública ou outras infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento.

Como defendia Robert Putnam (1993), sociedades que cultivam confiança, cooperação e participação cívica desenvolvem maior capacidade de proteger o interesse público e de promover o desenvolvimento sustentável. 

Não basta exigir mais do Estado. É necessário que os cidadãos façam a sua parte. A defesa do património público começa na consciência de que ele não pertence ao Governo, nem às administrações municipais e comunais, nem às empresas públicas. Pertence ao povo. É nosso. Cada poste de iluminação, cada contentor de lixo, cada jardim, cada estrada, cada escola, cada hospital e cada litro de combustível subsidiado foram financiados pelo esforço colectivo da Nação.

Se queremos cidades e vilas mais organizadas, mais seguras e um país economicamente mais forte, precisamos de transformar a vigilância cívica numa cultura permanente. É urgente denunciar quem destrói, quem rouba, quem vandaliza e quem enriquece à custa do património comum. É urgente rejeitar a indiferença. O futuro de Angola depende da capacidade de construir, mas também da maturidade de preservar aquilo que já foi construído e de proteger os recursos estratégicos que sustentam o nosso desenvolvimento.

Uma nação forte mede-se tanto pelas obras que inaugura e também pela forma como os seus cidadãos cuidam, defendem e vigiam o património que pertence a todos.

sexta-feira, setembro 11, 2026

ENTRE COLINAS E MEMÓRIAS NA ROTA WIZI–MAKELA

Viajar pela estrada que liga Wizi a Makela ma Zombo é mergulhar numa paisagem que mistura tradição e um aceno à "modernidade. O percurso mostra aldeias rurais que se alinham com harmonia, algumas lembrando as construções massivas das centralidades urbanas. Nsoso, Zulu, Damba, Kibokolo, Bwanga, Kisolongo, Kayndu Antigo, Kasaka, Kipaka, Kilanda e Bungu são exemplos vivos dessa arquitectura que se impõe ao longo da rota.

Logo pela manhã, com o sol ainda preguiçoso e o nevoeiro cerrado, homens e mulheres caminham com enxadas e catanas nas mãos, muitas vezes com crianças às costas e outras correndo em passo miúdo. “Vamos para as lavras”, dizem, enquanto seguem em silêncio ritmado, compondo um quadro humano que se repete diariamente.

As casas de adobes queimados emprestam cor de tijolo à paisagem. Quando rebocadas e pintadas, lembram as chamadas “casas dos colonos”, construções definitivas que marcam a memória arquitectónica da região. A rodovia, traçada em localidades montanhosas, corta colinas ou se ergue no topo delas, oferecendo curvas impressionantes e perigosas. “Aqui é preciso prudência, senão a estrada cobra caro”, alerta um morador, referindo‑se às curvas herdadas do antigo traçado das caravanas de carregadores, a famosa “estrada do cavalo”.

Há mérito no trabalho de eliminação das ravinas que afectavam a rodovia Negaje–Makela. Embora algumas ainda se avistem, de elevada profundidade e complexidade, são hoje poucas. “Já não temos medo de ver a estrada a desaparecer com as chuvas”, comenta um agricultor satisfeito.

A relação entre vivos e defuntos é intensa. As campas erguem‑se junto às residências, como forma de reverência. “Eles estão sempre connosco”, explica uma anciã, mostrando que a memória dos que partiram permanece no quotidiano dos vivos.

Ao contrário de outras bwalas, aqui não se vêem casas cobertas de capim. A rota Wizi–Makela distingue‑se por aldeias de alvenaria, ladeadas por abacateiros, safueiros e palmeiras. Contudo, as últimas árvores estão descuidadas: sem poda, sem colheita de dendém, acumulando ramos secos. “Se alguém acender fogo, a palmeira morre e leva os bichos que nela vivem”, lamenta um jovem, referindo‑se à “malavueira” que já não recebe os cuidados de outrora.

Entre curvas e colinas, casas alinhadas e memórias vivas, lavras crescentes e palmeiras esquecidas, a estrada Wizi–Makela permite ao viajante um retrato da vida que pulsa no interior do Wizi, onde cada detalhe revela a convivência entre o passado, o presente e o futuro que se desenha com o trabalho e suor de todos os dias.


Publicado pelo Jornal de Angola a 06.09.2026

terça-feira, setembro 08, 2026

PONTE SOBRE O ZAMBEZE: MEMÓRIA DE ÁGUAS

Atravessei o Zambeze nos dias 29 de Junho e 1 de Julho, quando o sol se inclinava sobre as margens de Kazombo e o vento trazia o cheiro das flores de buganvílias meleiras. A ponte nova, de ferro e betão, ergue‑se como um gesto de permanência sobre águas que não se detêm. Dizem que o Zambeze “entrou, não gostou e saiu” de Angola, mas quem o observa percebe que ele deixou raízes invisíveis, como quem planta lembranças antes de partir.

A velha ponte de pedra, Ponte Marechal Craveiro Lopes, construída entre o final da década de 1940 e o início da década de 1950, guarda apenas retalhos da sua serventia. Foi construída num tempo em que o rio era caminho de gente andrajosa, pescadores de misoji e de sonhos coloniais, tendo resistido até que a guerra lhe roubasse o corpo. Hoje, jaz como um verso esquecido, mas ainda murmura histórias nas margens. A nova, mais larga e firme, é símbolo de reconstrução, como escreveu Luandino Vieira, “há caminhos que se refazem quando o homem decide voltar a ser rio”.

O Zambeze, com sua correnteza paciente, parece carregar a memória de todos os que o cruzaram. António Jacinto diria que “há rios que não se cansam de correr, mesmo quando o homem lhes corta o caminho”, e é isso que se sente ao olhar suas águas: uma persistência que desafia fronteiras. O Kasay, seu vizinho inquieto, corre paralelo, precipitando‑se no Zaire, que desagua junto ao Soyo, dois rios que se despedem de Angola por rumos diferentes, mas com o mesmo destino de eternidade líquida.

A ponte de Kazombo, para além de uma obra de engenharia, é sinónimo de resistência. O gesto de atravessar é também o de recordar. Cada passo sobre o cimento é um reencontro com o passado, uma conversa silenciosa entre o viajante e o rio. O Zambeze, que toca Angola apenas de passagem, deixa no coração de quem o vê a certeza de que há águas que não se vão. Apenas mudam de nome.

Assim, entre Lwaw e Makondo, entre o rumor das águas e o pó da estrada, compreende‑se que o rio é também memória. A ponte nova é o testemunho de que o tempo pode reconstruir o que a guerra desfez e que o homem, ao cruzar o Zambeze, não atravessa apenas um curso de água. Atravessa a própria história.
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In: Viagem ao Muxiko Leste

sábado, setembro 05, 2026

"MALUQUICES” E ACTOS DE INCIVILIDADE

Hoje* chamei “nervo” a um "maluco". Sim, maluco. Foi a palavra que me ocorreu naquele instante. As vestes sujas, o aspecto desleixado e a maneira como se comportava diante de um contentor de lixo davam-lhe, aos olhos de quem passava, a aparência de alguém perdido de si mesmo.

Mas talvez o verdadeiro motivo da minha indignação não tenha sido a aparência daquele homem. Foi o seu comportamento.

No início da "Grande Avenida dos Combatentes", em Luanda, há um contentor onde os moradores depositam diariamente aquilo de que já não precisam. É um recipiente destinado a concentrar o lixo, facilitar a sua recolha e, sobretudo, evitar que a cidade se transforme num imenso depósito a céu aberto.

Aquele homem, porém, parecia ter tomado o contentor como propriedade privada. Sendo meu caminho de todas as manhãs, tenho observado que o vigia como quem guarda um cofre. Não permite que outros se aproximem para procurar entre os descartados qualquer objecto que ainda possa ter alguma utilidade. É uma realidade que se tornou familiar nas nossas cidades: pessoas que sobrevivem do que os outros deitam fora e que, na sua luta diária pela sobrevivência, acabam por disputar o próprio lixo.

Até aqui, há uma questão social que merece reflexão e respeito. Quem procura comida, roupa ou objectos aproveitáveis no lixo está, muitas vezes, a revelar mais sobre a pobreza da sociedade do que sobre a sua própria condição.

O que me revoltou foi outra coisa. O contentor estava ali, ao alcance da mão. Mesmo assim, o homem pegou num saco de lixo e outras coisas fora dele e os atirou para o chão, ao lado do recipiente que ele próprio parecia considerar seu território. Foi então que abrandei a marcha da viatura e o chamei à razão — caso ainda a tivesse.

Há uma contradição difícil de aceitar: alguém pode disputar um contentor para retirar dele aquilo que considera aproveitável e, simultaneamente, contribuir para que a área à sua volta fique mais suja. E mais paradoxal ainda é ver o contentor vazio e a rua apinhada de lixo.

Talvez a pergunta mais importante seja outra: que cidade estamos a construir quando até quem vive do lixo deixa de respeitar o lugar onde o lixo deve ser colocado?

Não se trata apenas daquele homem. Trata-se de nós. Tripulantes de grandes cilindradas, passageiros em autocarros e táxis colectivos ou privativos, pais e encarregados que mandam os filhos descartar o lixo...

Uma cidade limpa não depende exclusivamente dos serviços de recolha. Depende também do comportamento dos cidadãos. O Estado pode instalar contentores, organizar a recolha e limpar as ruas. Mas, se continuarmos a atirar resíduos para o chão, a retirar as tampas dos contentores e das sarjetas, a espalhar o lixo ou a considerar o espaço público como coisa de ninguém, estaremos sempre a limpar hoje aquilo que sujámos ontem, sofrendo as consequências: moscas, mosquitos, ratos, malária e outras doenças devidas à pobre higiene.

Saí daquele episódio com duas conclusões: deitar o lixo no chão, estando o contentor ao lado, é um acto de incivilidade, seja cometido por um cidadão bem vestido ou por alguém que vive na rua; a dignidade humana não se mede pela roupa que vestimos, mas também não pode servir de desculpa para a destruição da dignidade colectiva.O contentor não é propriedade de ninguém. A rua também não. Ambos pertencem à cidade. E a cidade, no fundo, pertence a todos nós e deve ser cuidada por todos.

Por isso, urge maior sensibilização e também punição com coimas aos munícipes que insistem em lançar o lixo na rua, mesmo havendo contentores e horários estipulados para a deposição. Só assim poderemos inverter este ciclo de incivilidade e construir uma cidade verdadeiramente limpa.

* 27.08.26

Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo, a 4.9.2026

terça-feira, setembro 01, 2026

BUGANVÍLIAS COLONIAIS MARCAM PRESENÇA EM NANA KANDUNDU

A viagem de Lwaw a Kazombo e vice-versa, nos dias 29 e 30 de Junho, levou-me a atravessar Nana Kandundu, lugar que se ergue discreto no sertão, mas carregado de memórias. O silêncio quase absoluto da telefonia acompanhava o percurso, como se a própria terra guardasse segredos antigos.

Ao entrar na vila, os escombros de casas coloniais, ainda ornados por buganvílias que resistem ao tempo, revelavam a marca de um passado em que ali se desenvolveu uma vida intensa, centro de decisões administrativas, de trocas comerciais e de convivência humana.
Nana Kandundu já foi Capitania-Mor em 1909, passou ao regime militar em 1912, transformou-se em posto civil em 1919 e, em 1922, chegou a ser sede da Circunscrição do Alto Zambeze, antes de perder esse estatuto em 1927, quando Kazombo retomou a centralidade. Cada mudança deixou cicatrizes e memórias que ainda hoje se percebem nas ruínas, nas velhas construções e na atmosfera melancólica da localidade.

Após a independência nacional, e sobretudo durante os longos anos da guerra civil, a região foi progressivamente mergulhada no isolamento. A distância dos principais centros urbanos, a destruição de infraestruturas e a precariedade das vias terrestres transformaram a região do Alto Zambeze num dos territórios mais esquecidos de Angola. Em muitas épocas do ano, chegar a Nana Kandundu equivalia a uma autêntica expedição, sujeita às condições das picadas e à imprevisibilidade das chuvas. O abandono forçado pela guerra interrompeu dinâmicas económicas, travou o crescimento populacional e contribuiu para a degradação de patrimónios que testemunhavam a importância histórica da localidade.

Essa condição de isolamento continua a ser um dos maiores desafios da região. Contudo, já se observam sinais de mudança. A asfaltagem da Estrada Nacional 250, no troço Lwaw–Kazombo, está em curso e constitui uma das mais importantes apostas para a integração territorial do Muxiko Leste, encurtando distâncias e facilitando a circulação de pessoas, bens e serviços.

Neste novo contexto administrativo, a escolha de Kazombo como capital da província do Muxiko Leste representa uma oportunidade histórica para todo o corredor territorial que liga Lwaw a Kazombo. Situada entre estas duas localidades, Nana Kandundu poderá beneficiar da sua posição geográfica estratégica, deixando de ser apenas um ponto de passagem para se afirmar como um polo intermédio de serviços, comércio e valorização cultural. O próprio Governo Provincial tem destacado Nana Kandundu como um território de elevado potencial histórico, turístico, agrícola e cultural, sublinhando o seu papel na nova configuração administrativa da província.

Nana Kandundu possui um peso simbólico muito superior à sua dimensão demográfica. O município é reconhecido como um importante centro da cultura luvale, acolhendo referências tradicionais de grande prestígio, entre as quais a Rainha Nyakatolo, considerada uma das mais altas autoridades tradicionais dos povos Luvale

Hoje, a vila é pequena, mas não desprovida de sinais de esperança. Um pouco adiante das ruínas coloniais surgem escolas, postos médicos e outros equipamentos sociais, fruto do esforço do Estado, das autoridades locais e de cidadãos que continuam a investir na terra onde nasceram ou à qual regressaram. São sinais discretos, mas firmes, de crescimento e persistência.

O lema provincial “União, Trabalho e Desenvolvimento” encontra eco em Nana Kandundu. A localidade, elevada recentemente à categoria de município da província do Muxiko Leste, simboliza simultaneamente memória e futuro. Entre buganvílias que florescem sobre paredes em ruínas e novas infraestruturas que despontam no horizonte, o visitante percebe que a história não terminou. Pelo contrário: depois de décadas de esquecimento, Nana Kandundu parece reencontrar o seu lugar no mapa do desenvolvimento regional, alimentando a esperança de que as estradas, os investimentos e a nova dinâmica provincial lhe devolvam parte da importância que outrora conheceu.
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In: Viagem a Muxiko Leste. Texto publicado pelo Jornal de Angola de 19 de Julho de 2026.

sexta-feira, agosto 28, 2026

POR QUE É NECESSÁRIO RECONHECER E ELEVAR CIRCUNSCRIÇÕES?

O acto administrativo de criação, reconhecimento ou elevação de circunscrições — aldeias, povoações, comunas ou municípios — é de grande valia histórica, social e comunitária. É por meio dele que o Estado legitima juridicamente a existência das localidades, fixa datas oficiais de fundação ou elevação e garante enquadramento administrativo. Tal reconhecimento não é apenas burocrático: consolida a identidade coletiva, abre acesso a recursos públicos e cria marcos que se transformam em festividades locais e em memória institucional.  
Adm. Fátima e Soberano Kanyanga

Autores como Eric Hobsbawm (The Invention of Tradition, 1983) e Benedict Anderson (Imagined Communities, 1983) sublinham que os actos formais de institucionalização são fundamentais para a construção da memória e da identidade coletiva. Sem eles, a história das comunidades fica dependente da oralidade, sujeita a disputas e esquecimentos. Quando um país ordena o seu território com despachos de criação e ou elevação das suas circunscrições, o passo subsequente é a compilação de índice histórico-coreográfico.

A importância destes actos administrativos foi reconhecida no período colonial, quando se compilavam índices que sistematizavam a geografia e a história administrativa do território. O último grande esforço foi o Índice Histórico-Corográfico de Angola, elaborado por Mário Milheiros e publicado em 1972 pelo Instituto de Investigação Científica de Angola. Esta obra reuniu dados sobre localidades e circunscrições, funcionando como referência científica e administrativa.  

O índice de Milheiros é exemplo de como o registo documental permite consolidar a memória territorial e oferecer aos investigadores e às comunidades uma base sólida para compreender a evolução das circunscrições.  

Consequências da ausência do procedimento

Muitas das antigas comunas elevadas a município, com base na Nova Divisão Política-Administrativa de Angola (Lei n.º 14/24, de 3 de Julho), tiveram dificuldade em encontrar o dia da festa municipal. A memória humana é efémera: os que vivenciaram os actos de criação ou elevação já não existem e, se ainda sobrevivem, não possuem escolarização ou o hábito do registo histórico.  

Como consequência, algumas circunscrições, na ausência de registos fiáveis, apontaram datas que nada têm a ver com o registo histórico. A Munenga, por exemplo, cuja criação do posto administrativo aconteceu em 28 de Agosto de 1923 (cf. Boletim Oficial ou Índice Histórico-Corográfico de Angola de Milheiros), está a festejar a 13 de Março. Quando se alertou a edilidade, já iam na ponta final os preparativos, revelando a fragilidade da memória institucional. Na situação da Munenga devem existir muitos outros municípios e comunas de Angola. 

O caso da aldeia de Pedra Escrita

1º aniv. do município da Munenga
A aldeia de Pedra Escrita, no município da Munenga, surgiu apenas na década de 1980 do século XX. Não há registo oficial conhecido da sua criação ou reconhecimento formal com publicação em Diário da República como acontecia no período colonial (exemplo de Lussusso, Banza da Munenga, Banza da Cabuta, etc.) Consequentemente, a comunidade existe socialmente, mas carece de reconhecimento institucional que fixe datas e estatuto. Trata-se de um exemplo de reconhecimento informal, que enfraquece a identidade oficial e a possibilidade de celebrar datas festivas legitimadas.  

A experiência angolana mostra que a ausência de índices histórico-corográficos actualizados e de registos oficiais de criação/elevação de localidades gera fragilidade na memória institucional e na identidade comunitária.  
Para a história: dificulta a reconstrução cronológica e a valorização das comunidades.  
Para a administração: cria zonas cinzentas, onde localidades existem sem estatuto claro.  
Para a identidade local: impede que datas festivas sejam legitimadas, enfraquecendo o sentimento de pertença.  

É urgente retomar a prática de compilar índices histórico-corográficos nacionais, actualizados e acessíveis, que integrem tanto os actos oficiais como a memória oral. Assim, aldeias como Pedra Escrita e municípios como Munenga poderão ter reconhecimento pleno, com datas fixadas e celebradas, fortalecendo a identidade e a coesão comunitária.  

Referências bibliográficas
- Milheiros, Mário. Índice Histórico-Corográfico de Angola. Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1972.  
- Anderson, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Verso, 1983.  
- Hobsbawm, Eric & Ranger, Terence. The Invention of Tradition. Cambridge University Press, 1983.  
- Ki-Zerbo, Joseph. História da África Negra. Lisboa: Publicações Europa-América, 1990.  
- República de Angola. Lei n.º 14/24, de 3 de Julho — Nova Divisão Político-Administrativa.

sábado, agosto 22, 2026

RUMO AO FUTURO

Conhecer o passado é útil para compreender os caminhos percorridos e os valores perdidos, mas não deve ser o destino. O verdadeiro desafio é pensar cem anos à frente e construir hoje o país que queremos ver em 2126. É assim que fazem nações como a China, os Emirados Árabes Unidos ou o Japão: não correm apenas para igualar o presente, projectam o futuro.

Para isso, é essencial envolver ciência, arquitectura e consciência como pilares da formação da juventude.

A ciência deve ser ensinada não como mera repetição de fórmulas, mas como pensamento crítico, investigação e inovação. Os jovens precisam de aprender a aplicar a tecnologia para resolver problemas locais: agricultura sustentável, energias limpas, saúde comunitária e gestão de recursos naturais.

A arquitectura deve ser entendida como urbanismo sustentável, capaz de criar cidades inteligentes, resilientes e inclusivas. É preciso ensinar a preservar o património cultural e, ao mesmo tempo, projectar infraestruturas futuristas que respondam às mudanças climáticas e às necessidades de uma população em crescimento.

A consciência deve ser cultivada como ética e cidadania activa. Os jovens devem aprender que cada decisão tem impacto social e ambiental. É necessário formar cidadãos responsáveis, solidários e conscientes da sua missão colectiva.

O que se deve ensinar aos jovens é uma educação integral: ciência para compreender e transformar, arquitectura para projectar espaços de vida digna, e consciência para agir com responsabilidade. Só assim se constrói o país que queremos daqui a cem anos, não correndo atrás do presente, mas preparando o futuro com visão, disciplina e inovação.

sábado, agosto 15, 2026

ILUMINAÇÃO, BURACOS E ESCURIDÃO SÃO PERIGOS NAS ESTRADAS

Os crescentes acidentes com vítimas mortais, dezenas de feridos e destruição de viaturas nas estradas nacionais de Angola têm uma causa que se repete como um refrão trágico: buracos inesperados em vias que, à primeira vista, parecem em bom estado técnico. O condutor, surpreendido, vê-se forçado a escolher entre esquivar o buraco em velocidade — arriscando colisões ou saídas de pista — ou passar por cima dele e comprometer o veículo. É uma armadilha recorrente em troços como Ndondo-Kapanda, Zenza-Ndalatandu-Malanji, Waku Kungu-Alto Hama, Kibala-INP, Cabo Ledo-Longa, Luvangu-Ondjiva, entre outros.

A estrada 230, entre Zenza e Mazozo, complementa esse drama onde conduzir sem iluminação pública nem sinalização horizontal se assemelha a jogar à cabra-cega, avançando às cegas, guiado apenas pelas luzes dos veículos em sentido contrário e pela intuição de não sair da faixa. 

O encandeamento das luzes máximas, a ausência de linhas de guia e os buracos sazonais transformam cada viagem num exercício de sobrevivência.

As consequências são devastadoras. Colisões frontais, saídas de pista e fadiga mental tornam-se rotina, minando a confiança colectiva na segurança viária. O impacto económico soma-se: atrasos no transporte, custos adicionais de manutenção e perda de vidas produtivas. Cada buraco é mais do que uma simples ausencia de manutenção técnica. É um golpe na dignidade de quem circula e na credibilidade das instituições responsáveis pela infraestrutura.

A solução exige coragem e investimento em iluminação pública, preferencialmente solar, que daria visibilidade às estradas. A marcação viária reflectiva e a sinalização vertical em curvas e zonas de risco devolveriam referências claras aos condutores. Em aditamento, campanhas de educação rodoviária e fiscalização rigorosa disciplinariam o tráfego e o uso adequado das luzes. É preciso, acima de tudo, uma política de manutenção preventiva, que não espere pela tragédia para tapar buracos, nem os "deixar engordar como frangos no aviário que aguardam pelo abate", como bem ironizou o menino Bebê, na Marginal do Ndondo.

Conduzir em Angola não deveria ser metáfora de cabra-cega, mas experiência de confiança e progresso. As estradas são caminhos de vida, não de morte. Investir em infraestrutura viária é investir em esperança, garantindo que cada viagem seja feita com segurança, dignidade e futuro.


Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo de 14 de Agosto de 2026 

quarta-feira, agosto 12, 2026

À MESA DO AVÔ JOÃO: FEIJOADAS, DOCES E FLATULÊNCIAS

 

Avô João dos Santos, “João Kitumbulu”, assim chamado por ter erguido uma fazenda na região alta e semi-plana de Kitumbulu, Kuteka, era tio de minha mãe, nascido em Kindongo, a quem ela tratava por pai.

A casa do avô João, aos meus olhos de criança, parecia um mundo inteiro e autónomo: a cozinha ampla, onde se guardavam tachos e panelas; a despensa, feita de vários “quartos” cheios de mantimentos e instrumentos de campo; a casa menor de dois cómodos, da tia Mingota e do tio Infeliz; e a casa maior, onde se encontrava o quarto do avô João e da avó Emília, com sofás, cristaleira de em que se guardavam os copos de cristal e o material de enfermagem, a sala de jantar com mesa longa e cadeiras, a sala de estar com sofás e máquina de costura, e ainda o quarto do tio Augusto “Kapayo”, onde repousava uma geleira a petróleo.
O avô João gostava de reunir os netos à mesa. Entre feijoadas fumegantes, doces e frutas que a tia Linda nos oferecia — a mim, ao Augusto pequeno e ao Santos — havia sempre o sabor da infância: goiabas maduras, mangas cortadas em pedaços generosos, bolinhos de mel que adoçavam o paladar.
Mas, entre guloseimas e risos, surgiam também as inevitáveis cenas de flatulência. Muitas vezes éramos nós, os netos, que, tentando conter o ar nauseabundo, víamos nossas forças vencidas pelo odor mais forte. Outras vezes, o cheiro intenso, vindo de som inaudível, surgia da mesa, mas as culpas eram jogadas cá abaixo.
“Mais velho não peida”, dizia-se. E havíamos inventado um código: peido de adulto assumido por criança rendia um mimo.
Assim, sempre que se perguntasse "quem peidou" eu estava pronto a defender o adulto flatulento.
A ciência, anos mais tarde, viria confirmar o que a mesa já nos ensinava. Vanusa Ana de Abreu et al. (2020) lembram que o envelhecimento altera a digestão e a microbiota intestinal, favorecendo a produção de gases. O CSIRO Research Team (2026), em estudo publicado na JAMA Network Open, mostrou que adultos saudáveis liberam gases entre duas e sete vezes ao dia, mas nos idosos essa frequência tende a ser maior devido ao trânsito intestinal mais lento e à fermentação bacteriana intensificada.
Já Patriota (2025) observa que dietas ricas em fibras, recomendadas para prevenir a constipação, também aumentam a produção de gases, tornando a flatulência mais frequente.
Essas memórias de infância, entre feijoadas, frutas da tia Linda e códigos secretos, encontram eco na ciência: o que para nós era brincadeira, para os mais velhos era fisiologia. A flatulência, longe de ser apenas motivo de chacota, revela o corpo em sua cadência natural, lembrando-nos que até os silêncios e odores da mesa fazem parte da vida que se partilha.
Assim, entre o riso e o saber, guardo a lembrança de que a mesa do avô João era convivência e vida em estado puro.
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Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 21 de Agosto/2026

segunda-feira, agosto 10, 2026

APELO AOS PARENTES E AMIGOS

Chamo às nossas actuais demandas de “escravatura pós-moderna”.

Somos formalmente livres, mas vivemos sem liberdade real. Sem tempo, sem dinheiro e, mesmo entre os que têm, sem desfrute. Esta condição afasta-nos dos nossos parentes e amigos.


O mais cruel é quando cessamos funções: o tempo volta, mas os afectos não nos recebem como antes. A liberdade que nos prometem é apenas uma pausa entre obrigações.