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quinta-feira, julho 09, 2026

UTILIDADE COLATERAL DE UM BUSINESS CARD

O business card, tradicionalmente designado cartão de visita, é um pequeno cartão que reúne os principais elementos de identificação profissional de uma pessoa. Inclui, entre outros:

Nome completo;
Função ou cargo;
Instituição de exercício;
Contactos telefónicos e electrónicos;
Elementos distintivos, como o logótipo institucional.

É, por natureza, um instrumento de identificação, representação e comunicação profissional.

Embora o uso mais comum seja o estabelecimento de contactos profissionais (networking), o cartão de visita cumpre outras funções importantes:
Permite que o titular seja imediatamente reconhecido, reforçando a credibilidade e a representação da instituição.
Serve como referência de contacto rápida, simples e acessível para parceiros, instituições, imprensa e demais interlocutores.
Funciona como um registo físico que permanece com quem o recebe e pode ser consultado posteriormente, facilitando futuras aproximações.
De forma inesperada, mas recorrente, cartões de visita guardados em carteiras ou pastas perdidas tornam‑se pistas essenciais para identificar ou contactar o proprietário.

Casos Reais do Business Card como ponte de recuperação
O amigo Malelo perdeu a carteira num táxi. Entre os documentos encontrava‑se um cartão de visita de Luciano Canhanga. Esse pequeno cartão tornou‑se a única referência de contacto para a pessoa que encontrou a carteira, permitindo‑lhe estabelecer ligação e, a partir daí, devolver os documentos ao verdadeiro dono.

No mercado do Km 30, em Icolo e Bengo, Anselmo perdeu uma carteira contendo o Bilhete de Identidade, a carta de condução e vários outros documentos pessoais. Dentro dela havia um cartão de visita de Luciano Canhanga que, novamente, serviu como elo indirecto, permitindo que o achador estabelecesse contacto e viabilizasse a devolução.

Uma jornalista da ANGOP, residente e trabalhadora no Namibe, esqueceu, em um restaurante de Luanda, a sua carteira contendo documentos pessoais, cartões de serviço e o Bilhete de Identidade. No seu interior estava um cartão de visita de Luciano Canhanga, que serviu de ponte imediata:
A pessoa que encontrou a carteira ligou para o contacto constante no cartão. Informado, Luciano Canhanga activou a rede de jornalistas da ANGOP em Luanda. Através dessa articulação, identificou‑se que a proprietária era profissional da Agência no Namibe. As duas mulheres foram colocadas em contacto, permitindo a devolução e restituindo tranquilidade e dignidade à proprietária.

Reflexão final
O cartão de visita é, antes de tudo, um instrumento profissional destinado a facilitar contactos e representar o seu titular. Contudo, os três casos relatados demonstram que ele pode assumir um papel socialmente relevante, funcionando como um elo humano em momentos de perda, ansiedade e vulnerabilidade.

Num tempo em que a comunicação se digitaliza rapidamente, o business card preserva um valor singular: é um objecto físico que viaja, permanece e fala por nós, mesmo na nossa ausência. Pode criar pontes inesperadas, recuperar documentos, restituir identidades e reforçar a confiança entre cidadãos.
Um cartão de visita não serve apenas para abrir portas profissionais. Pode, em circunstâncias específicas, repor ordem, devolver pertenças e restaurar o sorriso de alguém.

sexta-feira, julho 03, 2026

MAN-PÁSCOA: O KOTA QUE TROUXE RESPETO À RUA DA AMBACA

Nos anos 80, na Rua da Ambaca, Kaputu (Rangel), os bilos eram mais do que simples brigas de miúdos: eram rituais de afirmação, de hegemonia entre grupos e quarteirões. Os líderes não pelejavam todos os dias; bastava medir forças uma vez. O perdedor reconhecia o vencedor e reverenciava-o. Em caso de empate, surgia o kisoko — meio termo que selava a paz entre iguais.

Naquele tempo, figuras como Raimundo (o kota Ténis), Tomás e Paulito eram respeitados, mas não se envolviam tanto nas pelejas quanto o recém-chegado Man-Páscoa.
— “Olha, o Man-Páscoa chegou!” — murmuravam os rapazes na fila do pão do depósito do Kilwanje.
— “Esse é tejo, não faz nada” — provocava um zombador do grupo do Kilwanje.
Man-Páscoa, inicialmente catalogado como “fakiri”, suportou provocações até ao limite. Um dia, cansado das zombarias, respondeu com firmeza:
— “Respeito não se pede, conquista-se!” — e desferiu uma bofetada forte e certeira. O adversário, humilhado, no dia seguinte ainda sofria as consequências.
A notícia correu rápido. O temido Man-Domingo, líder do grupo rival, apareceu para defender o seu pupilo. O bilo, junto ao depósito de pão do Kilwanje, foi intenso:
— “Aqui mando eu!” — gritou Man-Domingo.
— “Hoje não. Hoje somos taco-a-taco!” — respondeu Man-Páscoa, firme.
A luta entre Man-Páscoa e Man-Domingo só não terminou em humilhação ao homem do Kilwanje porque os homens da ODP presentes intervieram rápido, quando o viram numa apertada kapanga. Mas o recado estava dado: Man-Páscoa não era qualquer um. Daquele dia em diante, ele e os seus pupilos passaram a ser respeitados na fila do pão.
Quando os “maiorais” não entravam em cena, a defesa do grupo da Rua da Ambaca ficava a cargo de Raimundo (Ténis), Malick (Ngonçalo) e de mim que tinha testado vitoriosamente em Zé Kandungu, do grupo do Kilwanje. Os demais estavam sob nossa jurisdição.
— “Se mexerem com vocês, chamem-nos. Nós seguramos a barra.” — dizia Raimundo, reforçando a coesão do grupo.
— “Aqui ninguém fica sem pão, nem sem respeito.” — completava Malick.
A chegada de Man-Páscoa foi um marco. Ele trouxe segurança, respeito e equilíbrio às disputas entre os grupos da Rua da Ambaca e do Kilwanje. Mais do que um líder de pelejas, tornou-se símbolo de coragem e de justiça entre as crianças e adolescentes do bairro.
O seu legado mostra que, mesmo nos bilos da infância, havia códigos de honra, diálogos de rixa e de paz e, sobretudo, a busca por reconhecimento. Man-Páscoa personificou essa busca, transformando-se em referência para todos nós. Retornou ao seu Kalulu, dedicando-se humildemente à agricultura.

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Imagem gerada por IA

quinta-feira, julho 02, 2026

A CASA QUE DESABA

Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.

Do campo da Angola profunda, guardo vivas as lembranças das casas de pau‑a‑pique ou de adobes, erguidas com um espeto vertical que sustentava o colmo feito de capim. Com o passar do tempo, e quando a manutenção falhava, o espeto cedia, o tecto ruía e, assim, a pobre casa perdia a sua “vida”.
Mais tarde, já adolescente e jovem, ao percorrer os longos caminhos de Angola, deparei‑me com outro cenário semelhante: as infra-estruturas habitacionais deixadas pela presença colonial. Com o abandono e ou ausência de manutenção, começava o processo de desventramento: primeiro desaparecia a janela, depois a porta; mais tarde, o barrote que segurava as telhas. A cobertura caía, e as intempéries encarregavam‑se de acelerar a degradação, fazendo crescer vegetação no interior e levando ao desmoronar das paredes.
É o mesmo que acontece num lar quando parte o marido. A casa sofre um abalo. Ficam a viúva e os filhos, tentando remendar ou manter o que é possível, mas a harmonia funcional já não é a mesma. A peça fundamental, o espeto da casa, deixou de existir. E quando a viúva o acompanha, é como se a casa desabasse por completo.
Nesta quarta‑feira, 1 de Julho, perdemos Carla Toala João, viúva do meu finado tio Augusto João “Gasolina”. Era uma tia‑amiga. A nossa relação manteve‑se forte e inquebrantável, mesmo depois de o espeto se ter partido. Hoje, sinto como se a casa tivesse finalmente desabado. Transita em paz, tia Caita!

quarta-feira, julho 01, 2026

DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS

Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.  

O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.  

Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.  

A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.  

— We want eat, disse-lhe impaciente.  

O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.  

— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.  

Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!  

Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.  

O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”.  Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.  

Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.


Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026

segunda-feira, junho 29, 2026

O TEMPO E OS AUTOCARROS

Há dias, li que o Governo Provincial de Luanda está a devolver ao povo as praças, os largos, os espaços públicos que há muito haviam perdido a sua alma, sequestrados por interesses de alguns "chico-espertos". Transformam-nos, de novo, em lugares de convívio, de memória, de cidadania. É de aplaudir, sim. Porque a cidade não é feita só de prédios e de asfalto. É feita de encontros, de bancos onde se sentam velhos, de crianças que correm à volta de um chafariz, de jovens que se paqueram para dar em namoro e constituição de famílias e memória. Recuperar o património público é recuperar um pouco do que nos tiraram sem pedir e sem anuirmos.

E foi a pensar nisso que me lembrei do Cine Ngola e suas cercanias. Era um lugar movimentado. De manhã as partidas das carreiras que rasgavam o país levando e deixando pessoas, cartas, jornais, revistas e saudades. O Mercado dos Congolenses era limpo, organizado e "obrigava-nos a tomar banho e vestir roupa da escola ou de domingo para lá ir comprar algo que não se vendesse na Praça das Corridas que ficava perto do Supermercado Nzala Ikola de António Silvestre (próximo da Escola 5). À tarde, matiné e à noite soiré no cine com filmes que se mantêm intactos na memória: Trinitá, Minha última sétima bala, El bambino, Trapalhões na Serra Pelada, Meu nome é ninguém, etc.
Lembro-me de como ali, outrora, se juntava tanta gente para sonhar com outras vidas dentro do escuro de uma sala. Hoje, está ali um espectro de cimento ressequido e estropiado, sem cinema e sem serventia. Alguém vendeu o Cine Ngola para o transformar em nada.
Outro exemplo, mais fundo ainda: o espaço onde apanhávamos os autocarros da ETIM. A ETIM era uma coisa de outro tempo. Ligava quase todos os municípios de Angola, num tempo em que viajar era aventura, mas aventura possível. Lembro-me de mim, garoto, madrugada ainda cerrada, a acompanhar a minha mãe até aos "congolenses". As imbamba já equilibradas nas cabeças dela e na minha, um lenço atado, o olhar sério de quem vai para o Lubolu num autocarro da ETIM. E as máquinas eram as KEVE, rectangulares, montadas cá, montadas em Angola. Feias, dir-se-ia hoje, mas eram muito nossas.
A fábrica já era. A frota também desapareceu. As instalações da ETIM, em Luanda, foram vendidas ou cedidas à TURA. E da TURA, que foi dos autocarros? Há anos que não se vê um nas ruas de Luanda.
Uns dizem: "O Estado não é dos melhores gestores de empresas". E é verdade, muitas vezes. Mas privatizar um bem público para que ele deixe de ter serventia, isso, creio, é pior do que a mais desastrada das gestões estatais. Porque, ao menos, na gestão pública ainda há quem grite, quem reclame, quem se lembre de que aquele autocarro levava mães ao Lubolu, ao Wizi, a Ngulungu Artu, a Kamabatela, ao Mbalundu e Luvangu... Privatizado e abandonado, o bem vira coisa de "lobos". E ninguém pergunta: o que ganhámos com esta operação?
O tempo levou os KEVE, as rotas, as mães de imbamba à cabeça. De quando em vez, cruzo com um desses autocarros, sobrevivente periclitante, sôfrego, o ferro a cair, o tecto abatido. Parece um fantasma de si mesmo, mas lá vai deixando na descarga do escape o rasto da história, contando um passado áureo. Dá pena o autocarro e dá raiva o muito que devíamos ter e desandou.
Aplaudo, pois, o esforço de devolver praças e largos à cidade. Que se lembre também o Cine Ngola. Que se olhe para o que restou das instalações da ETIM passadas à falecida TURA, e se pergunte: que serviço público queremos, afinal?
Porque recuperar o espaço público é bonito, sim. Mas recuperar o serviço público, o autocarro que passa, a mãe que chega ao Lubolu, é mais urgente. É a memória a pedir passagem.
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Publicado no jornal Luanda a 06.07.2026

terça-feira, junho 23, 2026

TOMÉ ARMANDO A VOZ QUE SE CALA


Hoje (22.06.2026), o silêncio pesa mais do que nunca. Perdemos o Tomé de Carvalho Armando, o nosso Cacaca, primo e coetâneo, que me chamava com carinho de “meu primo da Kiki”, lembrando a Kibala, terra de procedência dos nossos pais. A notícia da sua morte, por doença, chega como golpe inesperado, sobretudo porque ainda ontem nos asseguravam que evoluía positivamente.

O Tomé foi homem de entrega e de voz. Serviu a Rádio Luanda por cerca de três décadas, emprestando o timbre firme e a disciplina profissional a uma instituição que se tornou parte da sua vida. Mas antes da rádio, conhecemo‑nos na Igreja Metodista Unida, cargo pastoral Moisés, nos anos 80, quando espreitávamos a adolescência, seguindo-se a juventude que nos reunia em cânticos e fraternidade.

A sua vida foi marcada pela simplicidade e pela proximidade. Não acumulou riquezas, não se deixou seduzir pelo poder fácil. O Tomé foi presença solidária, voz que se oferecia, coração que se partilhava.

Ontem, ao aconselhar um jovem a poupar, lembrei‑me da música de Elias dya Kimwezu: uma poupa porque “a fome madruga”, outro é esbanjador porque entende que “a morte chega durante a noite”. Hoje, essa reflexão ganha corpo. A vida é breve e Tomé partiu sem aviso, deixando‑nos a interrogação: poupar para o futuro ou viver intensamente o presente?

Refúgio‑me em João 14:2‑3: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar‑vos lugar.” Quero acreditar que o Tomé Armando, filho da tia Tomba, foi preparar‑nos lugar, que a sua partida não é fim, mas transição.

Exalto nele a dedicação profissional, a fidelidade às raízes, a ternura com que tratava os seus. O Tomé foi voz, foi memória, foi laço. Hoje, o nosso Cacaca cala‑se na terra, mas continua a falar em nós, nos gestos que deixou, nas lembranças que nos unem.

Que a sua vida seja lembrada não pela doença que o levou, mas pela força com que serviu, pela dignidade com que viveu e pelo afecto com que nos tratou. 

Foi-se mais um "Dactora"!

segunda-feira, junho 22, 2026

ALEGRILHOSO: UM SENTIMENTO DUPLO

Ponto prévio: a língua, com seus conservadorismos, desusos e neologismos, pertence àqueles que a usam no seu dia a dia e que a dão forma e vida.

Há palavras que nascem da boca do povo e se tornam marcas de identidade. Outras surgem da necessidade de dizer mais do que o vocabulário herdado permite. Em Angola, proponho que se acolha uma palavra nova, justa e necessária: “alegrilhoso”. A fusão de alegria e orgulho, inseparáveis quando se trata de conquistas pessoais e colectivas.

A primeira vez que ouvi a expressão foi verbalizada por um menino de Chongoroi, município de Benguela, em entrevista à TPA, depois de um espectáculo infantil realizado a propósito do Dia da Criança Africana, 16 de Junho. Yuri, bom falador e conhecedor das suas gentes e traços culturais em que se destaca a boa educação, falou de forma sabida, altiva, respeitosa e sem gaguejar diante do jornalista. Feitas as contas, por junto e atado, o menino só podia ficar alegrilhoso. E eu, espectador atento, também fiquei assim depois de ver a performance e a entrevista.

Do meu lado, a travessia académica também me conduz a este sentimento. Em 1994 iniciei a formação média em jornalismo no IMEL, concluída em 1996 sem nunca recorrer a exame de recurso. Em 2003, já no 4.º ano da licenciatura em Didáctica de História no ISCED de Luanda, abracei também o ISPRA, onde me graduei em Ciências da Comunicação. Seguiram-se a pós-graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (GCH), na Faculdade de Agudos, (São Paulo, 2014–2015), e o Mestrado em Ciências Empresariais na Universidade Fernando Pessoa (Porto 2020). Cada etapa foi uma conquista, cada diploma um marco. Do ponto de vista académico, não posso senão sentir-me alegre e orgulhoso. Mas dizer apenas isso parece insuficiente. O que sinto é mais: é alegrilhoso

Yuri: rapaz do Chongoroi

A língua portuguesa em Angola tem longa tradição de absorver termos que exprimem melhor a nossa realidade. “Alegrilhoso” não é apenas uma soma de palavras. É uma síntese de emoções que se entrelaçam.

Alegria: o sorriso que nasce da conquista.

Orgulho: a consciência do esforço e da dignidade alcançada.

Alegrilhoso: o estado em que ambos se fundem, inseparáveis.

Em Angola, onde a oralidade sempre foi veículo de identidade, criar palavras novas, como "pocalizar e porradar", é também afirmar soberania linguística. “Alegrilhoso” pode tornar-se expressão corrente em discursos de formatura, em crónicas jornalísticas, em canções populares. É uma palavra que carrega o peso da luta e o brilho da vitória. Assim como “kilamba” ou “mwamba” evocam realidades locais, “alegrilhoso” pode ser a marca de uma geração que não se contenta em traduzir sentimentos alheios, mas inventa os seus próprios.

Hoje, ao olhar para o meu percurso e ao recordar a altivez de Yuri em Chongoroi, não encontro termo mais justo. Não sou apenas alegre, nem apenas orgulhoso. Sou alegrilhoso. E creio que muitos angolanos, ao nomear as suas vitórias pessoais e colectivas, sentirão que esta palavra também lhes pertence.

segunda-feira, junho 15, 2026

MEMÓRIAS DE LUANDA ENTRE O ZANGADO E O KIKOLO

Forçado pelo destino, pela morte que sempre chega, mesmo quando muito postergada, dirigi-me ao Zangado para prestar solidariedade ao meu compadre Beto Spina, cujo cunhado, António Saldanha, deixou o mundo dos mortais. Tendo o funeral sido realizado no campo santo do Km 14, empreendi duas viagens: a primeira foi a deslocação do meu corpo ao Zangado e ao Kikolo; a segunda foi a viagem da mente ao passado.

No Zangado, percorri ruas que na infância me pareciam largas, mas que hoje se revelam estreitas. Talvez porque nos anos oitenta contavam-se nos dedos os veículos e conhecia-se o “roncar” de cada um deles. Estacionado perto da antiga Serração Baylundu, chamou-me a atenção a persistência das casas de madeira, tão comuns nas décadas de 70, 80 e 90. Algumas resistem ao tempo. Seja por dificuldades financeiras em transformá-las em alvenaria, seja por saudosismo. Notei também a tentativa de recapeamento de algumas ruas, mas as tampas das sarjetas ficaram mais altas do que o pavimento, fazendo com que a água “nunca entre nas sarjetas”. Pergunto-me: haverá algum fiscal por lá ou é tudo “faz de conta”, dado o afastamento do bairro das ruas onde passam os nguvulu?

O soar do lingala em todas as esquinas e o cheiro a lyamba em pleno dia foram outras anotações mentais com que saí do Zangado.

_ Luanda está a ser tomada silenciosamente por gente que vem de fora, desabafou, desgostoso um idoso.

Para mim, é algo de pôr o indivíduo um pouco zangado com o descaso em que se tornaram os bairros da nossa infância. O que vi e relato é uma pequena fotografia do que são o Marçal, o Rangel (com seu Kaputu e México incluídos), assim como o Prenda que, com ruelas e aduelas apertadíssimas, se tornou oferta à delinquência e à promiscuidade.

Segui ao Kikolo, e aqui a memória borbulhou, levando-me cada vez mais ao passado, aos tempos em que Luanda tinha comboios com duas bitolas: a maior, que atendia e ainda atende as locomotivas que partem do Mbungu a Malanje, com ramificação para Ndondo; e a menor, do ramal que partia da estação dos Musekes e terminava junto à Moagem do Kikolo. Foi nesse comboio que viajei inúmeras vezes em busca do negócio da época: restos de sabão que os moradores das cercanias da Induve conseguiam em kandongas e outros kambalaxos, derretendo-os para produzir um detergente líquido a que chamávamos “sabão cocó”.

Onde passava o comboio, da Cuca ao Kikolo, ergueram-se armazéns, lojas e habitações. A Mabor General, fábrica que impunha respeito e cujos pneus rasgavam as estradas de Angola inteira, é hoje um cadáver transformado em armazéns de pouca serventia. Sobre o destino dos equipamentos, não há notícia. Vindos do Kikolo, já mais estarrecidos e pesarosos, lembrei-me do antigo imbondeiro próximo da Escola 1 de Junho, nosso local de descanso quando fazíamos o percurso Kikolo-Rangel a pé.

— Aqui havia um imbondeiro e uma rua asfaltada que ia à oficina da Renault — atirei ao tio António Martins.  

— Sim, sobrinho Lúcio, era a Manauto 7 — respondeu ele, trazendo-me à memória outras “Manauto’s” espalhadas por Luanda. Junto à Cipal, na Rua Ngola Kilwanji, havia uma.  

— Mais à frente — prosseguiu — era a entrada para a Praça do Cala Boca. O sobrinho lembra-se? — provocou.  

Fazia tempo que não trocávamos palavras, como sempre acontece com pessoas comovidas que saem de funerais muito chorados. Cala Boca era um mercado que, na década de 80, rivalizava com Tira Biquíni, Kalemba, Roque Santeiro, Beato Salu, Trapalhões, Banga Sumo, Corridas, Congolenses e poucos outros. Sempre que meus tios e primos vinham do Lubolu com macroeira para vender na Praça do Tunga Ngó (antiga Praça das Corridas), acompanhava-os ao mercado de Cala Boca ou ao Kalemba para comprarem calças pré-lavadas, camisas “a jornal” e sapatilhas de meia-bota, que os tornavam muito queridos nas aldeias de Kuteka e arredores. Dir-se-ia que eram mizangala por quem muitas garotas “morriam”. Eu, por minha vez, contentava-me com os gelados de corantes e as sandes de sardinha frita que, para a fome e costumes de então, sabiam a pizza para o apetite e fome dos meus filhos de hoje.

Lda, 15.05.26

Publicado no Jornal LUANDA a 25 de Maio de 2026

sábado, junho 13, 2026

KALULU ANTES DA NOSSA ERA

Antes que os mapas fossem redesenhados e os nomes ganhassem estatuto administrativo, Kalulu era apenas um sopro de aldeias dispersas, chamadas “mbala”, onde os autóctones viviam sob regime feudal, longe das estruturas coloniais que viriam a impor-se. A memória oral local situa o início da dominação das revoltas por volta de 1917, quando os levantamentos colectivos foram sufocados e a resistência passou a vibrar apenas nos murmúrios das montanhas.

Foi nesse contexto que a Igreja Católica, braço espiritual do governo ocupacionista, ergueu as suas primeiras construções — sempre monumentais, sempre futuristas. 

Conta-se, inclusive dentro da própria tradição católica, que a primeira comunidade “catolicizada” foi a de Kibuma, no sopé da montanha que vigia Kalulu do outro lado do Kambuku. A escolha não foi aleatória: ali começava a evangelização, ali se plantava o novo centro de poder simbólico.

À época, os brancos eram escassos, os mulatos ainda menos visíveis, e os cabo-verdianos — chamados “colonos de segunda” — chegariam depois. 

Os negros autóctones, em número considerável, viviam as suas vidas em regime de subsistência, sem acesso às estruturas que se desenhavam para os “civilizados”. Musafu, Kapopa, Bairro Wambu, Azul e outros ainda não existiam. Apenas a Mbanze, capital informal de aldeolas distantes, concentrava alguma organização.

Com o tempo, o recrutamento para as lavouras de café e a acção dos evangelizadores aceleraram o crescimento demográfico. Kalulu expandiu-se, mas sem planeamento urbano. As cercanias do vilarejo cresceram mal, sem arruamentos, sem drenagem, sem visão. 

A Igreja da Missão, hoje situada em Musafu, foi construída com portas voltadas para Kibuma — um gesto que muitos ainda interpretam como simbólico: a evangelização começou ali, não na vila.

Mais tarde, ergueram outra igreja na vila, no alto do penhasco que oferece as costas ao Kambuku. A sua parte traseira voltada para o rio é, até hoje, motivo de interrogações. Essa igreja era destinada aos “civilizadores” e aos “civilizados” da vila. A geografia espiritual da colonização estava desenhada.

A entrada principal da igreja, voltada para o jardim da vila, é precedida por uma imponente escadaria frontal, construída em pedra e calcetada no tempo. Essa escadaria não é apenas acesso físico — é também símbolo de ascensão, separação e hierarquia. Quem sobe, vindo do centro da vila, atravessa não só degraus, mas camadas de poder e pertença.

A vigiar tudo e todos, estava — e continua — a Fortaleza de Kalulu, já centenária e guardadora de muitos segredos sobre refregas e vidas amputadas. Serviu o colono, serviu o poder revolucionário. Hoje, serve a Pátria e a comunidade. É monumento histórico, testemunha silenciosa de transições, rupturas e permanências.


Kalulu enfrenta agora o desafio de transformar os seus subúrbios em zonas urbanizadas. Mas quem fará isso? Com que meios? E com que visão? Novas vilas como Munenga, Kisongo e Kabuta estão a nascer. Que sejam desenhadas antes que a desordem urbana se instale — antes que o futuro repita os erros do passado.

Kalulu, antes da nossa era, não era apenas um lugar. Era uma promessa não cumprida, uma memória que ainda exige reparação e planeamento.

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Publicado pelo Jornal Litoral a 25 de Setembro de 2025

terça-feira, junho 09, 2026

CUIDADO: BURACO NA VIA!

No improvisado mercado à beira da estrada, onde os carros que seguem às províncias enchem os depósitos de combustível e os homens o estômago, há um pregão que se destaca. Não é de peixe seco nem de ginguba torrada, mas de música.  

Samy, figura conhecida do pedaço, corre de carro em carro com um leitor de CD numa mão e uma caixa de discos na outra. O cabelo comprido, em crista rebelde que lhe atravessa o ngimbu, já é marca registada.  

— É ce-dê origon, kota! Música de qualidade que não te deixa mal na viagem. Quem compra volta sempre! — garante, com a convicção de quem já faz do negócio profissão há cinco anos.  

De repente, ergue um disco com título provocador: “Rir até mostrar o último molar”.  

— Kota, já ouviste esse? Só duzentos paus. Com cento e noventa também bate! — regateia, como bom comerciante de esquina.  

Algibeira aberta, Kwanzas entregues, e Samy ainda recomenda:  

— Kota, experimenta a faixa quatro!  

O rádio dispara e, em coro com o estado das estradas, ecoa:  

"Se vais na província tenha cuidado, na via do Dondo tem lá buraco... buraco bué!"  

Um dos passageiros não se contém:  

— Epá, granda queta! Parece que o cantor anda a fazer levantamento topográfico todos os dias!  

Entre risos e balanços do carro, a música segue como se fosse boletim oficial de obras públicas:  

Via do Dondo tem buraco; na do Libolo estão a tapar; da Kibala bué de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda Angola está um buraco; mas a taxa já está no pontué!  

E assim, durante os 1050 quilómetros que separam Luanda das terras de Mwene Vunonge, não se ouviu outra balada senão essa, do grupo humorístico "Estamos a Vir". Uma sátira sonora que, entre gargalhadas e batuques, lembra ao viajante que em Angola, além da música, o buraco também virou património nacional.


Algures em Angola, 17.02.2015

Obs: A constatação, em 2026, é de que a EN do Zenza ao Dondo está em perfeitas condições de trafegabilidade.

sábado, junho 06, 2026

MEMÓRIAS DE ESCOLA

Rangel, 02 de Junho de 2026, semana da criança angolana. Ao passar pela antiga Escola Grande da Terra Nova, em Luanda, senti como se o tempo tivesse parado e me devolvesse às primeiras imagens da infância. Recordo o ano de 1979, chamado de Ano da Formação de Quadros, quando ingressei no ensino primário numa escola improvisada de adobe e coberta de capim, na aldeia de Kalombo, actual município da Munenga. As carteiras eram barracas de paus fincados no solo e o professor chamava-se José Boracha.


No ano seguinte, a sala de aulas foi transferida para a zona de pecuária da Fazenda Hoji ya Henda, onde frequentei a primeira classe. Era num sobrado das instalações da fazenda.
A segunda classe, em 1982, decorreu no antigo acampamento dos "trabalhadores mbalundu", junto ao campo de aviação, sob orientação do professor Jorge Manuel Carlos. Um cómodo que ainda conservava a cobertura foi aproveitado.

Em 1983, a escola foi deslocada para o intervalo entre as aldeolas de João Salomão e Kambundu Azevedo, perto da atual aldeia de Pedra Escrita. Construída pelos encarregados de educação, novamente em adobes e coberta de capim, tinha apenas uma sala com dois quadros improvisados, onde se intercalavam turmas de manhã e à tarde. A pré era conduzida por um monitor da quarta classe, sempre sob a supervisão do professor. Fazíamos mais de 8 quilómetros (ida e volta) em cada um desses lugares aonde íamos em busca do saber científico.

No ano seguinte, 1984, refugiado em Luanda e sem documentos, ingressei numa turma da segunda classe na sala 18 da Escola Grande da Terra Nova, tendo como mestre o professor Arnaldo Manuel Carlos. Já a terceira e a quarta que não terminei foi na sala 3 com a professora "Bebé", Luzia de nome próprio.

De volta ao Libolo, desta na sede municipal Kalulu, concluí a quarta classe (ensino de adultos) numa sala anexa da Escola nº 1 de Kalulu, Dr. António Agostinho Neto, instalada no Hospital Municipal do Libolo, com o professor Afonso Benedito. O segundo nível, quinta e sexta classes, foi feito entre 1988 e 1990 na escola Kwame Nkrumah. Depois do ataque da Unita a Kalulu, em Dezembro de 1989, regressei a Luanda em 1990 para frequentar o terceiro nível na escola Ngola Mbandi, antigo Liceu Emídio Navarro.

O ensino médio, no curso de Jornalismo, decorreu no IMEL, entre 1994 e 1996. Seguiram-se os estudos superiores em instituições de Angola, Brasil e Portugal: ISCED, ISPRA, FAAG e UFP, onde concluí o mestrado.

Cada escola, cada sala improvisada ou edifício mais estruturado, foi mais do que um espaço físico. Foram lugares de resistência, esperança e sonho. Hoje, ao olhar para a Escola Grande da Terra Nova, vejo não apenas paredes e janelas, mas ecos de vozes infantis, o cheiro do giz, o esforço dos professores e a persistência dos alunos. São memórias que se transformaram em raízes, sustentando o caminho que percorri e que ainda percorro.

Publicado pelo Jornal LUANDA a 22 de Junho de 2026

segunda-feira, junho 01, 2026

INFANTÁRIO DA AVÓ KYOKO: LIÇÕES DE VIDA E AFECTO

A “avó Mariana”, também conhecida por Kyoko Ky’Eteta, foi prima-irmã da minha mãe. De tanta simpatia e longevidade, tornou-se matriarca da aldeia de Mbango Yo’Teka, assumindo espontaneamente o cuidado das crianças menores cujas mães, por razões diversas, não podiam levá-las às lavras. A sua casa transformou-se num verdadeiro infantário comunitário e ela passou a dedicar-se exclusivamente à infância, isenta das tarefas de busca de lenha, água ou alimentos — bens que lhe eram providenciados pelas mamãs da aldeia em gesto de gratidão.

O funcionamento do infantário era simples e solidário: cada mãe deixava com a avó Kyoko uma pequena panela com funji e conduto, ou ainda jinguba, batata assada, banana e outros alimentos. 

À hora do almoço, a avó reunia as crianças e distribuía os manjares deixados, enquanto as mães trabalhavam despreocupadas, regressando alegres pelos cuidados recebidos pelos seus petizes.

Mas a avó Kyoko não se limitava a alimentar. Ela ensinava: cantavam juntas, ouviam estórias e fábulas e realizavam pequenos trabalhos adaptados à idade — juntar pratos, lavá-los, acender a fogueira, trançar o cabelo, entre outras actividades de pequena monta.

À noite, tornava-se professora das pubertárias, que se reuniam na sua “Kandumba” para receberem lições sobre a vida afectiva, prevenção de gravidez precoce e convivência conjugal. Essas adolescentes, por sua vez, garantiam o sustento da casa: lenha, água e iguarias e ingredientes para a confecção da "wala" [garapa].

A casa da avó Kyoko era também o ponto de encontros e reencontros entre as jovens e os galanteadores da aldeia e outros vindos de aldeias distantes em busca de um amor — recomendado ou tentando a sorte. 

Esse ambiente, embora simples, era permeado por códigos de respeito e encantamento, onde os olhares se cruzavam sob o olhar atento da matriarca, que sabia distinguir entre o afecto genuíno e a frivolidade passageira.

A casa da avó Kyoko tinha tudo de um pouco para se viver. E tudo acontecia com naturalidade, espontaneidade e afecto. Hoje, faltam casas assim — nas cidades e até nas aldeias. A solidariedade esfumou-se e com ela a busca por amparo e conhecimento. 

É possível resgatar essas práticas? 

Talvez sim. Mas as comunidades precisam de conhecer o passado e reconhecer a eficácia dos bons costumes que o egoísmo, as crendices e o oportunismo estão a matar.


Publicado no Jornal de Angola de 03.01.2026

domingo, maio 31, 2026

EXPLORANDO SÃO TOMÉ

Em busca do desconhecido e alimentando a curiosidade, viajei entre Santa Catarina e Porto Alegre. A ilha de São Tomé guarda um silêncio que não é apenas geográfico, mas também histórico. Pela Zona Norte, cheguei ao túnel de Santa Catarina, onde a estrada costeira que vem de Neves reclama reabilitação, interrompendo-se na aldeia de Monte Forte, sem prosseguir para sul. Do outro lado da ilha, saído da capital, caminhei até à Praia das 7 Ondas, já na zona de Malanza, pouco antes de Porto Alegre, onde a estrada que vem de Santana e Angolares também se extingue. São limites aparentes, não finais, porque além deles existe apenas a floresta cerrada, o maciço central e os trilhos antigos que, em tempos, ligavam comunidades através de caminhos pedonais usados por caçadores, agricultores e andarilhos.  

A ausência de ligação directa entre o norte e sul da ilha não é fruto de esquecimento, mas da própria natureza de São Tomé. O Pico de São Tomé ergue-se como muralha, rodeado por florestas do Obô, cuja densidade e valor ecológico tornam qualquer obra rodoviária um desafio técnico e ambiental. No período colonial, as estradas foram desenhadas para servir plantações e o porto da capital, nunca para unir os extremos da ilha. Assim, Santa Catarina e Porto Alegre permaneceram como pontos isolados, ligados apenas por rotas costeiras que obrigam o viajante a contornar pela cidade de São Tomé.  

No passado, havia caminhos de terra batida e trilhos que atravessavam o interior, mas nunca se consolidaram em vias formais. Hoje, quem deseja ir de norte a sul precisa de regressar à capital e daí seguir pela outra costa, multiplicando distâncias e tempo. Há planos discutidos em documentos de desenvolvimento nacional para integrar os extremos da ilha, mas o custo elevado e o impacto ambiental têm travado qualquer execução. Angola, parceira histórica e permanente, já apoiou hospitais e projectos energéticos em São Tomé e manifestou interesse em infraestruturas rodoviárias.  

O que está em jogo não é apenas uma estrada: é a possibilidade de unir comunidades que vivem em extremos opostos, de facilitar o comércio interno, de abrir novas rotas turísticas e de reforçar o sentimento de pertença nacional. Alguns defendem que, antes do asfalto, seria mais viável reforçar a ligação marítima costeira, com barcos que unam Santa Catarina e Porto Alegre. Outros acreditam que a estrada, mesmo cara, seria um gesto de integração definitiva.  

Assim, entre Monte Forte e Malanza, permanece um vazio que é ao mesmo tempo barreira e promessa. A ilha, que se orgulha de sua unidade cultural, ainda não se encontra fisicamente inteira. O viajante que percorre seus limites descobre que o coração verde da ilha é guardião da memória e da biodiversidade, mas também obstáculo à comunicação. O futuro de São Tomé talvez esteja em decidir se esse vazio deve permanecer como muralha natural ou se será vencido pelo traço humano que unirá norte e sul.

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Publicado pelo Jornal de Angola a 07.06.2026

sábado, maio 30, 2026

ENCONTRO LITERÁRIO REFORÇA LAÇOS CULTURAIS

Em missão privada a São Tomé, o escritor angolano Soberano Kanyanga reuniu-se, a 30 de Abril de 2026, com o Secretário-Geral da União dos Escritores de São Tomé e Príncipe (UESTP), Dr. Jerónimo Salvaterra. O encontro, marcado por gestos de cortesia e partilha cultural, incluiu a oferta de três títulos da produção literária de Kanyanga: Amores de Mel’aço, Lubolu & arredores e Kitotas: recuos e avanços. 


Durante a reunião, Salvaterra destacou a importância da cooperação cultural entre a UESTP e a União de Escritores Angolanos (UEA), recordando a visita anterior de Lopito Feijó, então Presidente da Mesa da Assembleia Geral da UEA. Sublinhou ainda a necessidade de aprofundar os laços existentes, promovendo a troca de experiências e conhecimentos entre escritores dos dois países.  

O momento ganhou especial simbolismo quando Kanyanga recitou um poema recente de autoria de Salvaterra, reforçando a atmosfera de partilha literária. Em gesto de reconhecimento, recebeu como oferta o livro É nosso o solo sagrado, da poetisa Alda do Espírito Santo, cujo centenário se assinala este ano.

Este encontro evidencia a relevância da diplomacia cultural e literária, fortalecendo pontes entre Angola e São Tomé e Príncipe, e reafirma o papel da literatura como espaço de diálogo e união entre povos.

quinta-feira, maio 28, 2026

NOITE EM SÃO TOMÉ

São Tomé, 02 de Maio. A noite descia leve sobre o distrito de Água Grande. O rio Água Grande, que corta a cidade ao meio, entrava mansinho no Atlântico, sem gorgorejos nem reclamações.  

As luzes do Palácio Presidencial refletiam sobre a baía, encandeando preguiçosas, como se trocassem olhares silenciosos com a Sé Catedral. Os sinos, já cansados, pareciam aposentados: apenas uma missa vez ou outra, e o murmúrio das Ave-Marias. No pátio, um cão sem dono marcava passos pelo rossio, farejando restos de comida junto aos contentores transbordantes.  

O Café Baía já era memória. As Linhas Aéreas de São Tomé mudaram de sede, assim como o Banco Central. No Ministério da Saúde reinava calma: nada de ambulâncias, nada de correria. Apenas uma roulotte sobre o passeio, servindo caipirinhas e outras bebidas, como se fosse o coração pulsante da noite. 

Uma jovem esbelta passava apressada, falando ao telefone, sem medo e sem tempo para ceder palavra. Outra, avantajada, lançava isco:  

— Cê quer sair com companhia?  

Mais adiante, uma música em decibéis acima do normal denunciava uma discoteca ou casa noturna. O ritmo escapava pelas paredes, misturando-se ao ar quente da noite. E a pergunta pairava: haveria também casas de alterne escondidas nas esquinas da cidade?  

Mas o que mais impressionava era a segurança. Sem ladrões, sem pressa, tudo seguia leve-leve, sem zangas. A noite em São Tomé parecia caminhar ao ritmo da confiança, como se cada esquina fosse familiar e cada rosto conhecido.  

São Tomé à noite é feita de contrastes: o silêncio do rio, a calma dos ministérios, o brilho imperial da lua-cheia e ao mesmo tempo o bulício das ruas, os convites improvisados, a música que explode sem pedir licença, num e noutro canto. É uma cidade que repousa e desperta ao mesmo tempo, onde cada esquina guarda uma história e cada olhar sugere um segredo.

quarta-feira, maio 27, 2026

UM TOUR PELA ZONA SUL DE SÃO TOMÉ

No dia 30 de Abril de 2026, atravessei memórias e paisagens em São Tomé, guiado por Arlindo, jovem motorista que me oferecia não apenas direcção, mas também palavras que revelavam a alma da ilha.  

Em Pantuf, distrito de Mé-Zóchi, deixei escapar: “Estas ruas estreitas parecem linhas de um poema, e o artocarpus é o refrão que se repete em cada esquina.” Arlindo sorriu e disse: “É verdade. Aqui lutamos para que a beleza da terra não se perca no descuido. O lixo insiste em aparecer, mas nós insistimos em limpar, porque esta é a nossa casa.”  

Segui até Água Izé, onde as ruínas da antiga roça, outrora fábrica de óleo de palma e cacau, erguiam-se como fantasmas. Murmurei: “Este silêncio é pesado.” Arlindo acrescentou: “Os políticos perseguem os antecessores, em vez de trazerem empresários. A juventude cresce, mas os empregos rareiam.” Suspirei: “É como uma terra fértil sem sementes. Há que devolver-lhe vida.”  

Na antiga Base Americana, detive-me. “Aqui a voz da América gritava mais alto do que todos os media santomenses”, pensei, lembrando o eco de uma presença que moldou imaginários e silenciou vozes locais.  

Na praia das Sete Ondas, sorvi água de coco e comentei: “Este sabor fresco é como um poema que se escreve na boca.” À entrada de Mé-Zóchi, provei o doce vinho de palma. “É o sangue da terra transformado em festa”, disse, erguendo o copo improvisado.  

A visita à Roça Monte Café trouxe história. Fundada no século XIX, foi uma das maiores produtoras de café da ilha, símbolo da riqueza colonial. Hoje, é sede de uma cooperativa de exportadores que nada exporta. Observei: “É como um livro de capa dourada, mas sem páginas dentro”, tocando as paredes que guardam memórias de trabalho e exploração.  

No Bairro Batepá, distrito de Mé-Zóchi, o silêncio tornou-se pesado. Ali, a 3 de Fevereiro de 1953, centenas de são-tomenses foram mortos pela repressão colonial portuguesa.  

Diante do monumento, murmurei: “Este chão é sagrado. É o vosso 3 de Fevereiro, como o nosso 4 de Janeiro na Baixa de Cassanje. Dois gritos diferentes, mas a mesma dor.” Arlindo respondeu em voz baixa: “É por isso que nunca esquecemos. O massacre ensinou-nos que a liberdade custa caro.”  

O epílogo da jornada foi na Cascata de São Nicolau. A água caía com força, como se lavasse o tempo. Contemplei e disse: “Aqui a ilha fala na língua da eternidade. Cada gota é memória, cada queda é futuro.”  

Assim terminou o meu tour: não apenas uma viagem por estradas e roças, mas um mergulho na alma de São Tomé, onde se diz "Somos Todos Parentes" e onde cada canto guarda histórias que se entrelaçam com as de Angola, duas geografias unidas pela dor, pela resistência e pela esperança.








A LEVIANDADE DA SH BOUTIQUE

Foram seis dias intensos em São Tomé e Príncipe, entre encontros com jornalistas, memórias partilhadas e reencontros emocionantes. A promessa de uma entrevista com Hermínia das Neves, chefe do Departamento de Programas da RNSTP, sobre a minha carreira literária e o livro Amores de Mel’aço, ficou suspensa por causa da transmissão da plenária da Assembleia Nacional. O país vive o seu ritmo próprio, e a rádio, fiel ao dever institucional, cedeu espaço à política.  

Mas o fecho da estadia trouxe uma cena menos poética. No hotel SH BOUTIQUE, a experiência foi marcada por infiltrações de água do ar condicionado, tapetes encharcados e um cheiro de bolor insuportável. Reclamações não atendidas, noites mal dormidas com porta e janela abertas para puder respirar. A carta que escrevi ao gerente, no dia 6 de maio, resume o desfecho:  

Sem condições dignas de acomodação, só me resta interromper a minha estadia no vosso hotel e solicitar o reembolso do dia em falta.”  

O que mais faz mossa não é apenas o problema físico do quarto, mas a atitude dos funcionários e da gerência: tudo levado no espírito “leve-leve”. Esse traço cultural, tão bonito na música e na convivência, torna-se corrosivo quando se instala na gestão. O “leve-leve” pode ser filosofia de vida, mas não pode ser desculpa para a falta de rigor.  

Países e organizações não se desenvolvem nesse passo. O hóspede que reclama, o cidadão que exige, o investidor que aposta — todos precisam de respostas sérias e eficazes. Sem isso, a simpatia transforma-se em desconfiança, e o encanto em frustração.  

São Tomé e Príncipe tem talento, cultura e hospitalidade. O desafio é transformar o “leve-leve” em calor humano e acolhimento genuíno, sem abdicar da disciplina que o desenvolvimento exige. Só assim o país poderá afirmar-se como destino e como nação.


Publicado no jornal Pungo a Ndongo de 30 de Maio de 2026 

segunda-feira, maio 25, 2026

O ASSISTENTE E O MESTRE

Naquela rádio — a primeira comercial da grande cidade — Phande trabalhava havia seis meses. Madrugador, pontual, percorria diariamente o quilómetro e meio que o separava do local de recolha. Desde cedo aprendera que o caminho faz-se andando e que a entrega ao trabalho é a melhor escola.  

Durante meses, conheceu os equipamentos de rádio, um a um, descobrindo-lhes a utilidade e a serventia na construção do “edifício sonoro”, esse som que chega ao ouvinte por via de um receptor.  

Ora na sonoplastia, ouvindo e escolhendo os trechos mais impactantes dos áudios; ora na redacção, sugerindo a palavra certa ou levando apressadamente à cabine de locução o guião cuspido pela Olivetti, que tictava sons melodiosos ao ritmo vigoroso do editor José Rodrigues.  

Em casa, a mãe aguardava ouvir o nome do seu querido Phande na ficha técnica, lida no início e no fim do noticiário. E chegou o dia em que o ajudante passou a constar:  

Edição: Zé Rodrigues  

Cuidados sonoros: Sebastião dos Santos  

Técnica final: Agostinho Vanda  

Assistência: Phande-a-Umba  

Apresentação: Mário Guerra

Na primeira vez, foi gáudio na redacção da Emissora Comercial e em casa. Cada vez que o nome de um estagiário entrava na ficha técnica ou apresentava uma pequena peça, os neófitos reuniam-se no fim do turno para comemorar. Em casa, amigos e familiares rejubilavam.  

— Agora o meu filho é mesmo jornalista. Falaram o nome dele na rádio — comentavam as mães.

O tempo passou. Phande consolidava a aprendizagem e já lia pequenas peças e até sínteses de notícias, regra geral telex seleccionados da Agência Nacional. Todavia, em casa, a mãe passou do júbilo à preocupação. Um dia, ao chegar, foi chamado pela progenitora:  

— Phande, senta aqui. Desde que começaste a trabalhar na rádio já vamos a caminho de nove meses. Às vezes ouvimos a tua voz, outras vezes pronunciam o teu nome. Aqui em casa todos ficamos contentes, mas há uma coisa que me preocupa — disse Kilombo Ky’Etinu, pausada, afectiva.  

— Sim, mãe. O que te preocupa então? Será o facto de eu sair sempre muito cedo, quando todos ainda dormem?  

— Não, meu filho. É que os teus colegas têm tarefas. Ouvimos todos os dias no noticiário. O que dizem de ti é que apenas ficas a assisti-los. Mas é mesmo isso, filho? Só ficas a assistir os outros a desempenharem as suas tarefas e não fazes mais nada?  

Phande riu, pousou o braço no ombro da “sua velha”:  

— Calma, mãe! Assistência, em rádio, é ajudar. Eu estou no estágio, o meu trabalho é de ajudante!

***

Vinte e trê anos depois, Phande já era homem grande na profissão e na idade. Dera-lhe netos, casa e felicidade. Kilombo Ky’Etinu contraíra cegueira irreversível, mas apurara a audição e o humor. Phande ausentara-se do país para defender o Mestrado. Ao regressar, a mãe chamou-o:  

— Phande, senta aqui. Como correram os estudos que foste fazer?  

— A defesa correu bem, mãe. De zero a vinte obtive dezasseis.  

— Oh! Dezasseis para vinte, só faltaram quatro pontos. Muitos parabéns! Mas diz-me uma coisa: agora qual é a tua classe?  

— Sou mestre, mãe.  

A anciã franziu a testa:  

— Como assim mestre, se já eras doutor? Então esses pedreiros que fazem parede torta é que são da tua igualhagem? Não pode ser. Estás a mentir-me, filho!


Publicado no Jornal de Angola de 21 de Junho de 2026

domingo, maio 24, 2026

ÁGUA GRANDE DEPOIS DA CHUVA

"Somos Todos Primos"/São Tomé e Príncipe, 5 de Maio, 2026_ A manhã trouxe chuva breve, mas suficiente para lavar o pó e suavizar o calor habitual de um país equatorial. O ar, ainda húmido, parecia fresco, convidando a passos leves ao longo do curso do rio Água Grande. Chamam-lhe “grande rio”. Cada povo orgulha-se do que tem de maior e melhor. Para nós, Angola, habituados ao Kwanza, Zenza, Nyiha, Kotofe ou Mukonga em tempo chuvoso, o Água Grande mais se assemelha a um riacho ou uma ribeira. Compará-lo ao Longa ou ao Kuvu seria exagero poético.

Mas a beleza natural não resiste ao descuido humano. Ao longo do seu percurso urbano, o rio vai recebendo resíduos sólidos, testemunho da fragilidade da educação e gestão ambiental. Paradoxalmente, a população de São Tomé mantém o hábito de varrer em frente às casas e negócios, como se fosse ritual de dignidade. Os contentores, porém, transbordam, aguardando recolha que tarda. A cena lembra os bons costumes da Luanda periurbana dos anos 1980, quando o gesto de varrer era comum.  Só falta ajustar a responsabilidade da câmara em recolher os contentores cheios sempre que se ache pertinente.

As ruas, por sua vez, contam histórias de algum descaso. Buracos escavados pelo tempo e pela chuva convivem com outros abertos sob pretexto de reparações de fibra óptica, condutas de água ou energia, com direito a debate parlamentar. O resultado é um cenário que traz à memória os passeios de vilas angolanas, deixados à espera de renovação, depois da partida do construtor primário.


Caminhar pelo curso urbano do Rio Água Grande depois da chuva é, portanto, um exercício de contemplação e melancolia. Entre o frescor da manhã e o peso do lixo acumulado duranteo fim-de-semana, entre o orgulho do nome e a pequenez do curso, revela-se a contradição de uma cidade que guarda hábitos de cuidado, mas carece de atenção institucional. O rio segue, leve-leve, como quem carrega tanto a esperança quanto o descuido dos homens.