O telefone tocou. Do outro lado, uma voz aflita, quase suplicante, tentava explicar o inexplicável.
"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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segunda-feira, outubro 26, 2026
CINCO MIL KWANZAS E UMA CONSCIÊNCIA TRANQUILA
domingo, outubro 25, 2026
COMBOIOS DE ONTEM E DE HOJE
Um ramal estendia-se do Museke até ao Kikolo, junto à moagem de trigo, enquanto outro ligava a Estação do Zenza do Itombe ao Ndondo para facilitar levar a Luwanda pessoas e produtos alí chegados, vindos da zona sul.
Não eram linhas redundantes como hoje, permitindo comboios ascendentes e descendentes em simultâneo.
As frequências e os intervalos eram mais longos. O comboio enchia-se de pessoas e imbambas. Os passageiros, conhecendo as frequências, preparavam-se para não perder a viagem.
A história ferroviária de Luwanda começou em 31 de Outubro de 1888, com a inauguração do primeiro troço de 45 km entre Luwanda e Funda, pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro de Ambaca (Henriques, 2015). Em 1909, a linha chegou a Malanji, consolidando-se como eixo vital para o transporte de passageiros e mercadorias. O ramal de Kalumbu, inaugurado em 1925, estendia-se por 31 km até à margem do rio Kwanza (Osório, 2015). O ramal de Golungo Alto, aberto em 1918, somava 31 km desde a Kanyoka. O do Kikolo levava trigo à moageira e passageiros para a Estação do Museke e vice-versa. Todos os ramais foram desativados ao longo do século XX, quando a expansão urbana e a falta de manutenção ditaram o seu fim (Africa Press, 2023).
Durante décadas, o Caminho de Ferro de Luwanda transportou milhares de passageiros por dia. Nos anos 1950, a rede atingia mais de 500 km de extensão, com composições que levavam tanto pessoas como mercadorias agrícolas e industriais. A cidade cresceu, mas o comboio manteve-se como símbolo de convivência e de esperança.
Hoje, as composições DMU são mais curtas e rápidas, mas as frequências continuam longas. Luwanda reclama novos ramais: a reposição dos comboios para Funda, Kikolo e Kalumbu, assim como a construção de novos ramais: Morro dos Veados-Porto-Kakwaku e Cabo Lombo-Kakwaku.
A reativação e construção destas linhas poderia aliviar o trânsito, reduzir a poluição e devolver ao comboio o papel de espaço de conversa e de memória colectiva.
Se a Europa não aposentou o comboio, por que nós o faríamos? Para além de transporte barato e seguro, o comboio é refúgio contra o stress urbano e promessa de longevidade.
Como lembra Tomás Leiria Pinto (2015), o comboio foi símbolo de planeamento e integração logística. Para nós, continua a ser símbolo de esperança, de reencontro com a cidade e de futuro partilhado.
Publicado no Jornal LUANDA de 17.08.2026
sexta-feira, outubro 23, 2026
DAS DERROTAS SUCESSIVAS À «QUERIDURA» DE LULA
(Uma análise do tempo no poder, das vitórias eleitorais e da popularidade presidencial no Brasil)
quinta-feira, outubro 22, 2026
AS CATEDRAIS DO SALALÉ
As termiteiras são construídas por milhões de térmitas sociais, sobretudo do género Macrotermes, ao longo de vários anos. O monte visível é apenas a parte exterior de uma estrutura muito mais vasta. Sob a superfície estende-se uma complexa rede de galerias, câmaras, túneis de ventilação e compartimentos destinados à criação das larvas, ao armazenamento de alimentos e ao cultivo de fungos que servem de alimento à colónia.
Em muitos casos, o sistema subterrâneo ultrapassa os seis metros de profundidade, ligando-se a uma intricada rede de condutas que regula a circulação do ar, a humidade e a temperatura. É um sistema de climatização natural tão eficiente que tem inspirado arquitectos e engenheiros na concepção de edifícios de baixo consumo energético.
O biólogo sul-africano Eugene Marais, um dos primeiros estudiosos do comportamento das térmitas, descreveu-as como organismos capazes de agir como uma única entidade. Mais tarde, investigadores como David Attenborough ajudaram a revelar ao grande público a impressionante organização destas sociedades, enquanto o entomólogo Stephen Pratt aprofundou os mecanismos de construção colectiva e inteligência distribuída.
Ao longo dos séculos, as termiteiras despertaram também a imaginação humana. Algumas apresentam formas cónicas, outras lembram torres, colunas ou esculturas esculpidas pelo vento.
Na tradição oral de várias comunidades africanas, há quem lhes atribua significados espirituais ou ancestrais. Há ainda quem, observando certas formas mais esguias ou arredondadas, veja nelas uma curiosa semelhança com partes do corpo humano. Não passa de um exercício da imaginação, mas demonstra como a natureza frequentemente dialoga com o imaginário das pessoas.
No leste de Angola, onde a paisagem alterna entre extensas savanas e manchas de floresta, estes montes tornam-se parte da identidade visual do território. Não são simples acidentes do relevo. São marcos da paisagem, companheiros de viagem e testemunhas silenciosas do tempo. Muitas aldeias parecem crescer ao lado deles, como se reconhecessem, intuitivamente, a importância daquele pequeno monumento erguido por criaturas quase invisíveis.
A utilidade das termiteiras, porém, vai muito além da ecologia. Os geólogos conhecem bem o seu valor científico. Ao escavarem profundamente para recolher partículas finas do solo, as térmitas transportam para a superfície materiais provenientes de camadas que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis.
Por essa razão, os montes de salalé são frequentemente amostrados durante campanhas de prospecção mineral. A análise geoquímica da terra das termiteiras pode revelar a presença de elementos-traço associados a jazigos enterrados, funcionando como indicadores naturais de minerais como ouro, cobre, níquel, diamantes e outros depósitos metálicos. Em diversas regiões de África e da Austrália, esta técnica tornou-se um complemento importante da prospecção geológica convencional.
É curioso pensar que um insecto de poucos milímetros possa auxiliar a ciência na descoberta das riquezas escondidas nas profundezas da Terra. Enquanto as térmitas trabalham para garantir a sobrevivência da sua colónia, acabam por trazer à superfície pistas que orientam o olhar atento dos geólogos.
Talvez seja essa a maior lição das termiteiras. Aquilo que parece apenas um monte de terra é, afinal, um monumento à persistência, à cooperação e ao engenho. Não foi construído por máquinas, nem por arquitectos famosos, mas por milhões de pequenos seres que, sem alarde, transformam grãos de terra em obras que resistem ao tempo.
Na estrada entre Kazombo e Makondo, elas continuam de pé. Umas altas, outras baixas. Umas jovens, outras centenárias. Todas lembrando ao viajante que a natureza também sabe construir monumentos e que, muitas vezes, as maiores maravilhas começam com criaturas quase imperceptíveis aos nossos olhos.
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In: Viagem ao Muxiko Leste
Publicado no Jornal de Angola de 05.07.2026
segunda-feira, outubro 19, 2026
CRIAR ROEDORES E AVES PARA DIVERSIFICAR A DIETA
O coelho adapta-se facilmente a diferentes climas, incluindo tropicais. Alimenta-se de feno, folhas verdes e rações ricas em fibras, praticando a cecotrofia (reingestão de fezes nutritivas). A sua reprodução é extremamente rápida: a gestação dura apenas 30–32 dias e pode resultar em várias ninhadas anuais, cada uma com 6 a 10 filhotes. A carne de coelho é rica em proteína, de baixo teor de gordura e fácil digestão, sendo considerada um alimento saudável e de elevado valor nutricional.
Quanto aos porquinhos-da-Índia, adaptam-se bem a climas temperados e tropicais. Alimentam-se de capim, folhas verdes e legumes, necessitando de suplementação de vitamina C. A gestação dura entre 59–72 dias e pode gerar 3 a 4 ninhadas por ano, com cerca de 3 filhotes por parto. A sua carne é magra, nutritiva e tradicionalmente consumida nos Andes, representando uma fonte acessível de proteína animal.
O projecto representa uma estratégia inovadora de diversificação alimentar, aproveitando espécies de fácil manejo e reprodução rápida. A criação de coelhos, porquinhos-da-Índia, pombos e galinhas poderá transformar a dieta prisional, garantindo proteína acessível e sustentável, em linha com práticas de ciência animal (Cheeke, 1987).
quinta-feira, outubro 15, 2026
FORTALEZAS DO KWANZA-SUL: REABILITAR A MEMÓRIA E PRESERVAR A HISTÓRIA
No seu Discurso sobre o Estado da Nação, proferido a 15 de Outubro de 2026, o Presidente da República, João Lourenço, anunciou a reabilitação de importantes fortalezas históricas da província do Kwanza-Sul, nomeadamente as de Kalulu, Kibala e Kikombo. A iniciativa insere-se no esforço de valorização do património histórico-cultural nacional e representa uma oportunidade para recuperar monumentos que testemunham diferentes períodos da história de Angola, desde a ocupação colonial e a resistência dos povos locais até aos processos de transformação política e social ocorridos ao longo do século XX.
Mais do que simples estruturas militares, estas fortalezas constituem marcos materiais de um passado complexo, cuja preservação permitirá às gerações actuais e futuras compreender melhor os acontecimentos que moldaram a identidade das comunidades locais e a própria formação do Estado angolano.Entre estas infra-estruturas históricas, a Fortaleza de Kalulu assume particular relevância por estar intimamente ligada à história da resistência das populações do Lubolu à penetração colonial portuguesa.
Situada no novo município de Kalulu (região do Lubolu), a Fortaleza de Kalulu foi construída em 1897, por iniciativa do tenente Albano Augusto Pais Brandão, num período em que as autoridades coloniais portuguesas procuravam consolidar a sua presença no interior de Angola. A região do Lubolu era então palco de sucessivos confrontos entre as forças coloniais e as populações locais, que resistiam à ocupação estrangeira e à imposição da administração portuguesa.
A construção da fortaleza obedeceu a uma lógica essencialmente militar. A sua finalidade era garantir a defesa das posições portuguesas, assegurar as linhas de comunicação e servir de base para as operações destinadas à ocupação efectiva do território. A fortificação tornou-se, assim, um dos símbolos da presença colonial na região.
Albano Augusto Pais Brandão ocupa, por isso, um lugar destacado na história da fortaleza. O seu envolvimento nas campanhas militares portuguesas está documentado no Relatório da Coluna de Operações à Sanga, elaborado entre Outubro de 1903 e Fevereiro de 1904 e conservado no Arquivo Histórico Militar português. O documento descreve operações militares realizadas em localidades do Lubolu e evidencia a persistência dos esforços portugueses para subjugar grupos que resistiam à autoridade colonial.
Contudo, a história da Fortaleza de Kalulu não pode ser contada apenas do ponto de vista da ocupação colonial. Ela está profundamente ligada à memória da resistência das populações do Lubolu, que durante décadas se opuseram à presença portuguesa.
Os conflitos iniciados na década de 1890 prolongaram-se pelos primeiros anos do século XX, culminando em importantes episódios de contestação, entre os quais se destaca o levantamento de 1917. A resistência das comunidades locais constitui um elemento fundamental da identidade histórica da região e permanece viva na memória colectiva das populações.
Neste contexto, a Pedra Escrita do Lubolu (Ndala Uzu), actualmente classificada como património histórico-cultural nacional, assume um significado particular. Associada às memórias das guerras de resistência contra a ocupação colonial, este local complementa simbolicamente a Fortaleza de Kalulu. Enquanto a fortaleza testemunha a implantação do dispositivo militar português, a Pedra Escrita (junto à aldeia de Ndala Uzu) recorda a persistência e a determinação dos povos locais na defesa da sua autonomia.
Durante a luta de libertação nacional, entre 1961 e 1975, Kalulu permaneceu sob administração portuguesa, acompanhando a evolução do conflito que conduziria à independência de Angola. Embora não existam evidências documentais que atribuam à fortaleza um papel específico em operações militares decisivas desse período, a sua origem mantém-na associada à história da presença colonial na região.
Após a independência, o Lubolu voltaria a viver tempos difíceis. No contexto da guerra civil angolana, Kalulu foi invadida em 5 de Setembro de 1983, 25 de Dezembro de 1989 e depois, durante o conflito pós-eleitoral que se seguiu a 1992, por forças da UNITA, episódios que provocaram, mortes e ferimentos de civis, deslocações de populações e profundas perturbações na vida económica e social do município. Tal como acontece relativamente ao período colonial tardio, não existem elementos suficientes para determinar de forma rigorosa a utilização operacional específica da fortaleza durante esses acontecimentos, daí que toda a narração em primeira pessoa de militares e comissários do período republicano é bem-vinda.
Reabilitar para conhecer e preservar
O anúncio presidencial da reabilitação da Fortaleza de Kalulu representa, por isso, muito mais do que uma simples obra de recuperação física. Trata-se de uma oportunidade para transformar o monumento num espaço de conhecimento, reflexão e valorização da memória colectiva.
A intervenção deverá ser acompanhada por investigação histórica, recolha de testemunhos das comunidades locais, levantamento documental e instalação de conteúdos interpretativos que permitam contextualizar os diversos momentos da história da região. Dessa forma, será possível apresentar aos visitantes uma visão equilibrada e abrangente do passado, reconhecendo simultaneamente a presença colonial, a resistência das populações do Lubolu e os acontecimentos posteriores à independência.
A Fortaleza de Kalulu poderá, assim, afirmar-se como um importante pólo de memória histórica do Kwanza-Sul, integrado no conjunto de fortalezas que o Estado angolano pretende preservar e valorizar. Mais do que recuperar pedras e muralhas, a sua reabilitação permitirá conservar a memória plural de um território cuja história foi marcada pela resistência, pela ocupação, pela luta e pela permanente capacidade de renovação do povo angolano.
Fontes
Arquivo Histórico Militar de Portugal, Relatório da Coluna de Operações à Sanga, elaborado por Albano Augusto Pais Brandão (1903-1904);
Decreto Executivo n.º 136/19, de 12 de Junho, relativo à classificação da Pedra Escrita do Libolo;
Discurso sobre o Estado da Nação, Presidente da República de Angola, 15 de Outubro de 2026;
Eduardo Ferreira dos Santos, Tese de Doutoramento, Universidade de São Paulo, 2015;
Kindala Mabuel, Jornal Cultura, 2 a 15 de Janeiro de 2018.
domingo, outubro 11, 2026
BRUXELAS: O SILÊNCIO E A (DES)ORDEM
[Crónica de uma terceira passagem pela capital europeia]
Acordei. A coluna ainda não se refez completamente, mas a cabeça já não dói. E talvez seja justamente por estar ainda entre o sono e a vigília que consigo escutar melhor uma coisa que, em Luanda, quase nunca se escuta: o silêncio.
Se há algo que "inquieta" em Bruxelas é a paz, para quem vive numa espécie de guerra social permanente.
Aqui não se ouvem passarinhos a chilrear. Não há motoristas enfurecidos a buzinar desesperadamente. Não se ouvem sons soltos ao vento, vindos de uma festa qualquer, próxima ou distante. Não há galos a cantar, galinhas a cacarejar, cães a ladrar ou gatos noctívagos a miar.
Há um silêncio quase absoluto.
E esse silêncio contrasta violentamente com a nossa realidade diária e vezeira.
Em certas zonas suburbanas de Luanda, o dia parece nascer já em estado de discussão. A cidade acorda aos gritos. Buzina-se para avançar, para parar, para reclamar, para anunciar a presença. A rua é estrada, mercado, sala de conversa, oficina, paragem, restaurante improvisado e, por vezes, extensão da própria casa.
Não é apenas desordem. É uma maneira de produzir a cidade.
Joana Venâncio, ao estudar o processo urbano de Luanda, chama a atenção para o facto de a cidade não poder ser compreendida apenas pela oposição entre o formal e o informal. A informalidade, escreve a investigadora, tornou-se parte do próprio processo de construção urbana.
Talvez seja isso que explica aquilo que, visto daqui, parece excesso.
Excesso de vozes. Excesso de buzinas. Excesso de mercadoria. Excesso de gente. Excesso de movimento.
Em Luanda, a cidade não espera que o espaço seja preparado para ser ocupado. O cidadão ocupa-o primeiro e adapta-o depois.
É a lógica da sobrevivência.
É também a lógica de uma economia que aprendeu a funcionar onde o Estado, o planeamento urbano ou a infraestrutura formal ainda não chegaram.
Os kandongueiros são um exemplo. Castro, Reschilian e Zanetti observam que o transporte informal não é apenas um sinal de “desordem”, mas um dos mecanismos fundamentais da mobilidade e da expansão metropolitana de Luanda.
E há as zungueiras. Há os vendedores de rua. Há as bancadas que nascem junto aos passeios. Há a mercadoria que sai da loja para a calçada. Há a casa que se transforma em pequeno comércio.
Há uma cidade que se reinventa todos os dias.
Em Bruxelas, a sensação é outra.
A cidade parece desenhada a régua e esquadro, embora não seja exactamente assim. Há ruas antigas, estreitas, sinuosas; há bairros que nasceram em épocas diferentes; há igrejas que parecem marcar o início e/ou o fim de determinadas ruas. Há uma história urbana feita de camadas.
Mas existe uma coisa que se sente imediatamente: a norma.
Ela está no passeio. No estacionamento. No trânsito. Na fachada. Na obra. Na publicidade. Na utilização do espaço público.
A própria cidade estabelece planos e regulamentos urbanísticos vinculativos. E, na zona da Grand-Place, classificada pela UNESCO, existem regras específicas destinadas a conciliar conservação patrimonial, turismo, comércio e habitação.
Não significa que tudo seja perfeito.
O trânsito pode ser lento. As ruas podem estar congestionadas. Há obras. Há mudanças. Há conflitos entre automóveis, bicicletas, transportes públicos e peões.
Mas sente-se uma diferença fundamental: a cidade parece saber que existem regras e, sobretudo, parece esperar que elas sejam cumpridas.
Isso produz uma outra estética urbana. Menos improvisação. Mais previsibilidade. Menos grito. Mais contenção. Menos ocupação espontânea. Mais negociação com a regra.
E depois há Matongé. Ah, Matongé! Ali a África reaparece.
Não exactamente a África que deixámos, mas uma África transportada, reorganizada e domesticada pela cidade europeia.
É como se alguém tivesse trazido pedaços de Kinshasa, Dakar, Luwanda, Brazzaville, Lagos e de tantos outros lugares, colocado tudo dentro de uma moldura belga e dito: podem viver aqui, mas dentro das regras daqui.
A descrição oficial de Visit Brussels é curiosamente poética: a Chaussée de Wavre é apresentada como a “artéria principal”, as galerias de Ixelles e da Porte de Namur como os “pulmões”, e as ruas circundantes como “vasos sanguíneos”.
E é precisamente essa a sensação. O Matongé respira.
Ali há cabeleireiros, cosméticos, restaurantes africanos, cafés, agências de viagens, transferências de dinheiro, igrejas, frutas tropicais e lojas onde a mercadoria parece querer escapar da montra para a rua.
É uma pequena África dentro de Bruxelas. Uma África que fala mais alto. Uma África que gesticula mais. Uma África que vende, compra, regateia, cumprimenta, discute e ri. Mas existe uma diferença fundamental.
Aquele mundo que, em determinados bairros de Luwanda, pode espalhar-se pela cidade inteira, aqui encontra um território relativamente delimitado. A desordem — se quisermos chamar-lhe assim — tem endereço.
E talvez seja essa uma das grandes lições de Matongé: a cidade europeia não elimina necessariamente a diferença; organiza-a.
Depois, basta caminhar alguns minutos e a paisagem muda. O centro de Bruxelas recebe-nos com outra linguagem.
As fachadas antigas, as lojas, os restaurantes, as cervejarias, os hotéis, os centros comerciais, as lojas disto e daquilo — até de produtos que, em Luwanda, reconheceríamos como "mayuya" ou mercadoria de consumo popular — funcionam dentro de uma engrenagem comercial rigorosa.
A “marginal do comércio” apresenta-se como um formigueiro humano. Gente de várias origens e com vários destinos. Gente que parece ter decidido que o melhor lugar para estar não é necessariamente o fogão de casa nem a sala fria e silenciosa. Está na rua. Na loja. No bar. No restaurante. No café. No casino. No centro comercial. Na calçada. Há uma espécie de felicidade comercial.
A cidade consome, mas também oferece espaço para que o consumo seja uma forma de convivência. E, curiosamente, há muito movimento sem haver necessariamente barulho, nem sujeira. É talvez essa a grande diferença. Há vida sem algazarra. Há multidão sem tumulto. Há comércio sem gritaria. Há trânsito sem guerra e há higiene por todo o lado. Esta é a minha terceira passagem por Bruxelas em 26 anos.
A primeira aconteceu em 2000. Vim em formação sobre as relações entre a União Europeia e os países ACP — África, Caraíbas e Pacífico. Foi uma passagem essencialmente institucional. Entre salas de formação, documentos e reuniões, houve também a oportunidade de chegar à sede da Comissão Europeia.
A segunda aconteceu duas décadas depois, em 2022, portanto 22 anos depois da primeira. Foi uma passagem especialmente ligada ao percurso de Angola na Iniciativa de Transparência nas Indústrias Extractivas, a ITIE.
Em Setembro de 2020, Angola formalizou a intenção de aderir à ITIE. Em Março de 2022 apresentou formalmente a candidatura. E foi em 16 de Junho de 2022, numa reunião do Conselho de Administração da ITIE realizada em Bruxelas, que Angola foi admitida como país implementador da iniciativa, tornando-se o 57.º país da ITIE e o 28.º de África. Ou seja, aquela "segunda Bruxelas" não foi apenas uma passagem pela cidade. Foi também um momento na história recente da governação dos recursos minerais, petróleo e gás de Angola.
A terceira é agora. E esta é, seguramente, a passagem que mais me permite andar por Bruxelas. Não apenas chegar, reunir e partir. Andar. Observar. Sentir. Comparar. Escutar. E talvez seja andando que uma cidade verdadeiramente se revela.
Desta vez, venho por causa da Conferência Mundial da ITIE 2026, que decorre(u) em Bruxelas, Square, nos dias 8 e 9 de Outubro, co-organizada pelo Governo da Bélgica e pela Comissão Europeia. A conferência reune mais de mil participantes, entre governos, empresas, sociedade civil, investidores, parceiros de desenvolvimento e especialistas de mais de 50 países, sob o tema “Transparency for shared prosperity” — “Transparência para uma prosperidade partilhada”.
A discussão situou-se muito além da simples publicação de números.
Pretendeu-se discutir como a transparência, os dados e o diálogo podem melhorar a governação dos recursos naturais, reduzir riscos de corrupção, reforçar a mobilização de receitas, apoiar cadeias de valor responsáveis, fortalecer a confiança e assegurar que a riqueza proveniente dos recursos naturais produza benefícios duradouros para os cidadãos.
É uma discussão particularmente importante para países como Angola. Porque petróleo, gás e minerais não são apenas recursos enterrados no subsolo. São receitas. São emprego. São investimento. São território. São comunidades. São ambiente. São soberania. São futuro!
E, quando a ITIE fala de transparência, fala também da possibilidade de transformar informação em confiança e confiança em desenvolvimento. Como resumiu a presidente do Conselho de Administração da ITIE, Helen Clark, o momento exige que “governance and transparency” estejam no centro das políticas energéticas.
Talvez por isso esta terceira Bruxelas tenha sido diferente. Nas duas primeiras, vim sobretudo para participar. Nesta, estou também a caminhar. E caminhar permite descobrir coisas que uma sala de conferências nunca revela. Permite descobrir o silêncio da manhã. O comércio que começa devagar. O trabalhador que atravessa a rua. O turista que procura uma praça. O africano que entra numa loja de Matongé. O belga que espera o transporte. O restaurante que abre. A cidade que se limpa. A cidade que trabalha.
A cidade que, apesar das suas contradições, parece ter aprendido que a liberdade de cada um termina onde começa o espaço do outro.
Luwanda tem uma vitalidade que Bruxelas não possui. Tem calor humano. Tem improvisação. Tem capacidade extraordinária de sobrevivência. Tem uma economia informal que, muitas vezes, sustenta famílias inteiras. Tem uma rua que é viva porque as pessoas a transformam em vida.
Bruxelas, por seu lado, tem uma coisa que Luwanda ainda procura consolidar em muitas áreas: a capacidade de transformar a regra em hábito colectivo.
Uma cidade pode ter riqueza e continuar desorganizada. Pode ter pobreza e ser organizada. Pode ter belas avenidas e péssimos comportamentos. Pode ter ruas estreitas e uma excelente convivência urbana.
A verdadeira diferença talvez não esteja no tamanho das ruas. Está na relação que os cidadãos estabelecem com elas.
Volto à janela. Silêncio. Nenhum galo. Nenhuma galinha. Nenhum cão. Nenhuma festa perdida na distância. Nenhuma buzina desesperada. Bruxelas dorme — ou talvez apenas fale baixo.
E eu, vindo de uma cidade onde a manhã frequentemente chega aos gritos, descubro que o silêncio também pode ser uma forma de riqueza.
Mas Matongé está ali. A África está ali. Respira, conversa, vende, compra, ri e, às vezes, fala mais alto do que devia. Talvez seja bom que esteja. Porque uma cidade completamente silenciosa também seria uma cidade sem memória.
E Bruxelas, com toda a sua ordem, parece saber disso. Por isso deixa a África falar. Só lhe pede uma coisa: que fale dentro das regras da casa.
É assim Bruxelas de 2026.
quinta-feira, outubro 08, 2026
CAMINHOS DE MAKONDO
Vinte e nove de Junho de 2026. O comércio e as vias de comunicação são o coração que ainda pulsa fraco no Muxiko Leste. A comitiva saída de Lwanda, a capitalíssima, chegada ao Lwau às nove horas, percorreu 270 quilómetros até Kazombo, entre pouco asfalto e muita terra batida. Dali, mais uma centena de quilómetros até Kalunda, comuna do município de Makondo, consumindo perto de 4 horas de viagem. O tempo, aqui, mede-se em poeira e paciência.
domingo, outubro 04, 2026
O ZOOLÓGICO PERDIDO DA ILHA DE LUWANDA
Recordo a primeira vez que visitei o Jardim Zoológico da Ilha de Luwanda, ainda criança, nos anos 1980. Para quem nascera e vivera os primeiros dez anos no Lubolu, habituado a enxotar e caçar macacos, lebres, pacas, veados, corças, javalis, jiboias, porcos-espinho e chacais, o impacto foi diferente. Ali, os animais estavam próximos da cidade, num pequeno “muxitu” cercado pelo mar, onde não podiam fugir nem ser caçados. Era um espetáculo de natureza domesticada, um regalo para os olhos e para a imaginação
O zoológico, criado por volta da década de 1950, foi concebido como espaço de educação ambiental e preservação da fauna angolana, exibindo espécies emblemáticas como macacos, palancas, pacaças, crocodilos, chacais, aves tropicais, porcos-espinho, jiboias, hienas, leopardos e até a palanca negra gigante, símbolo nacional. Servia de porta de entrada para o conhecimento da biodiversidade, numa época em que Angola ainda não tinha parques estruturados para o turismo ecológico.sábado, outubro 03, 2026
COMO O ISMAEL DESBLOQUEOU AS FOTOS DO MEU CASÓRIO
Faltavam poucos dias e tive um entrave técnico por causa de uma despesa que eu considerava desnecessária. Recebeste uma reclamação e me convocaste com "nervo de pai". Compareci. O almoço foi em um restaurante que ficava à meia distância entre o teu e o meu local de trabalho.
quinta-feira, outubro 01, 2026
A ANGÚSTIA DA REFORMA: QUANDO O TRABALHO SE CONFUNDE COM A PRÓPRIA VIDA
Kujiza dedicou praticamente toda a sua vida ao serviço do Estado. Aos dezassete anos ingressou na Polícia, onde permaneceu até aos vinte e cinco. A sua rotina era marcada pela disciplina rigorosa: farda, paradas, rondas, cumprimento de missões e observância irrestrita das normas dos corpos paramilitares. Aprendeu cedo que, naquele ambiente, a hierarquia não era objeto de discussão.










