Quando Marcos Nhunga era governador de Cabinda, visitei aquela província e regressei impressionado com a limpeza da cidade capital. Agora, em Malanji, encontrei o mesmo traço de governação. As conhecidas visitas relâmpago do governador às obras, muitas delas realizadas durante a noite, parecem ter criado uma cultura permanente de fiscalização e exigência. O resultado salta aos olhos. Malanji é, sem exagero, uma cidade invejosamente limpa, sobretudo quando comparada com a nossa capitalíssima, tendo já parte das árvores podadas, enquanto a chuva observa férias.
Mas nenhuma cidade é perfeita. Enquanto caminhava, deparei-me com colectores de águas pluviais destampados, onde alguém, por inexplicável hábito, havia depositado garrafas PET.
— Quem faz isso? — perguntei a um senhor que observava a rua, encostado à sombra de uma mangueira carregada de flores.
Sorriu, como quem já respondera à mesma pergunta muitas vezes.
— Não são os filhos de Malanji. Esse costume veio de outras paragens. Há quem pense que o colector é um contentor de lixo. Depois, quando chegam as chuvas, todos reclamam das inundações.
Poucos metros adiante, uma senhora que varria alegremente o passeio interrompeu o trabalho para reforçar a conversa.
— Nós limpamos. A Administração limpa. Mas basta uma pessoa sem educação cívica para estragar o esforço de muitos.
Continuei a caminhada. A manhã era fria e o sol ainda despertava lentamente. Aqui e acolá, pequenos buracos, abertos pelo tempo ou por intervenções nas condutas subterrâneas, aguardavam reparação nos passeios. Noutros pontos, montículos de terra deixados por obras de construção civil esperavam remoção. Nada, porém, suficientemente relevante para apagar a impressão dominante de ordem, limpeza e cuidado.
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| Borracheira nascida no alpendre |
O que mais me inquietou foram algumas casas antigas. Uma aqui, outra acolá, vencidas pelo tempo, como velhos combatentes que recusam abandonar a trincheira. Fiquei a imaginar as histórias escondidas entre aquelas paredes gastas. Perguntei-me se os proprietários já não dispõem de recursos para as recuperar, se pedem por elas valores que ninguém aceita ou se, simplesmente, aguardam que o tempo decida o destino daquilo que já não conseguem salvar.
Malanji possui uma identidade que se construiu muito antes da Angola independente. O seu território integrou a esfera de influência do histórico Reino da Matamba, associado à figura maior de Njinga Mbandi. Mais tarde, tornou-se um importante centro administrativo e comercial do interior, consolidando a sua relevância com a chegada do Caminho-de-Ferro de Luanda, que impulsionou o crescimento económico e urbano da região. Hoje, permanece uma província maioritariamente Ambundu, enriquecida pela convivência com comunidades Holo, Bondo e outros grupos que contribuíram para a riqueza da sua identidade cultural.
Talvez seja essa herança que explica o modo discreto como Malanji acolhe quem a visita. A cidade não precisa de monumentos grandiosos nem de gestos espalhafatosos para impressionar. Basta permitir que o visitante a percorra a pé. Foi assim que a descobri.
Ao regressar, levo comigo uma convicção: no pós-independência há realizações que merecem reconhecimento. Nem tudo está concluído. Ainda há património por recuperar, passeios por remendar e comportamentos por corrigir. Mas uma cidade limpa, organizada e humanamente habitável nunca é obra exclusiva de um governo. É o resultado do encontro entre uma administração exigente e cidadãos que compreendem que a rua também é a extensão da sua casa.
Foi essa Malanji que encontrei: uma cidade que se deixa caminhar. Uma cidade que convida à contemplação e à reflexão. Uma cidade que demonstra, silenciosamente, que o desenvolvimento não se mede apenas pelos edifícios que se constroem, mas também pela limpeza das ruas, pela disciplina dos seus habitantes e pelo respeito que cada cidadão demonstra pelo espaço comum.
Porque, no fim de contas, é a forma como tratamos o que é de todos que revela quem relamente somos.
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Publicado a 2 de Agosto no Jornal de Angola



















