O sol desaparecia atrás das casas e a noite começava a cobrir o bairro. Phande e Kitembo levantaram‑se do banco, caminhando devagar pela rua poeirenta. A conversa ficava no ar, como aviso: o dízimo encapuzado pela ganância é caminho de empobrecimento e só a consciência crítica pode salvar a fé da ruína.
"MESU MAJIKUKA"
= INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO =
Desde 29/Abril/2005
Abordando FACTOS e IDEIAS
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quarta-feira, julho 22, 2026
DIZIMUNIVERSALISTA: ENTRE FÉ E RUÍNA
domingo, julho 19, 2026
A ESTRADA E OS BURACOS ÓRFÃOS
(Crónica de viagem)
Viajar pela EN322, entre Kakuzu e Alto Dondo (Malanji e Kwanza-Norte), é experimentar um contraste permanente entre o conforto e a apreensão. O asfalto, em largos troços, apresenta-se em bom estado e convida o condutor a manter uma velocidade compatível com a qualidade da via. É precisamente aí que reside o perigo: quando a confiança se instala, surgem, quase do nada, buracos dispersos, sem qualquer sinalização prévia e sem vestígios de reparação.
quarta-feira, julho 15, 2026
QUEM É O MALUCO?
Quinze de Junho de 2026_ Circulava na Rua Ngola Kilwanji, próximo da Mabor. Um passageiro de um SUV baixou o vidro e lançou pela rua um saco com restos de comida. Parei, liguei o intermitente, apanhei o lixo e fui devolver ao condutor do veículo:
— Leve o vosso lixo a um sítio adequado para descarte, disse-lhe com firmeza.
O homem ficou petrificado e repassou o lixo ao "suíno" que se encontrava no banco de trás.
Pedi desculpas aos condutores que vinham atrás de mim e segui viagem. Uns aplaudiram, outros acharam-me “maluco”. Mas quando os valores estão invertidos, ser chamado de maluco é, na verdade, sinal de consciência.
Mais tarde, ao recordar no Facebook o meu pequeno canteiro em Kalulu, lavra anexa à da cunhada Angelina, os sobrinhos informaram-me:
— Tio, a mamã está em Luanda.
Ela tinha viajado do Dondo, onde mora, para visitar os filhos. Aproveitei a ocasião para ir vê-la.
— Cunhada Angelina, precisava de reconhecer presencialmente o quanto foste mãe na minha vida.
Ela sorriu, com a serenidade dos seus 64 anos:
— Meu cunhado, nunca foste chato. Foste apenas alguém que precisava de cuidado, e eu dei o que pude.
Angelina Bernardo Canoa, ex-esposa do meu primo “mano Gonçalves”, cuidou de mim entre 1987 e 1989 com amor e paciência, mesmo em tempos de carência. Hoje, continua a mesma mãe de sempre.
Foi um dia em que fiz duas devoluções: o lixo na estrada e a manifestação de gratidão à família que me sustentou com amor e carinho.
quinta-feira, julho 09, 2026
UTILIDADE COLATERAL DE UM BUSINESS CARD
O business card, tradicionalmente designado cartão de visita, é um pequeno cartão que reúne os principais elementos de identificação profissional de uma pessoa. Inclui, entre outros:
sexta-feira, julho 03, 2026
MAN-PÁSCOA: O KOTA QUE TROUXE RESPETO À RUA DA AMBACA
quinta-feira, julho 02, 2026
A CASA QUE DESABA
Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.
quarta-feira, julho 01, 2026
DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS
Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.
Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.
O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.
A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.
— We want eat, disse-lhe impaciente.
O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.
— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!
Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.
O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”. Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.
Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.
Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026
segunda-feira, junho 29, 2026
O TEMPO E OS AUTOCARROS
terça-feira, junho 23, 2026
TOMÉ ARMANDO A VOZ QUE SE CALA
O Tomé foi homem de entrega e de voz. Serviu a Rádio Luanda por cerca de três décadas, emprestando o timbre firme e a disciplina profissional a uma instituição que se tornou parte da sua vida. Mas antes da rádio, conhecemo‑nos na Igreja Metodista Unida, cargo pastoral Moisés, nos anos 80, quando espreitávamos a adolescência, seguindo-se a juventude que nos reunia em cânticos e fraternidade.
A sua vida foi marcada pela simplicidade e pela proximidade. Não acumulou riquezas, não se deixou seduzir pelo poder fácil. O Tomé foi presença solidária, voz que se oferecia, coração que se partilhava.
Ontem, ao aconselhar um jovem a poupar, lembrei‑me da música de Elias dya Kimwezu: uma poupa porque “a fome madruga”, outro é esbanjador porque entende que “a morte chega durante a noite”. Hoje, essa reflexão ganha corpo. A vida é breve e Tomé partiu sem aviso, deixando‑nos a interrogação: poupar para o futuro ou viver intensamente o presente?
Refúgio‑me em João 14:2‑3: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar‑vos lugar.” Quero acreditar que o Tomé Armando, filho da tia Tomba, foi preparar‑nos lugar, que a sua partida não é fim, mas transição.
Exalto nele a dedicação profissional, a fidelidade às raízes, a ternura com que tratava os seus. O Tomé foi voz, foi memória, foi laço. Hoje, o nosso Cacaca cala‑se na terra, mas continua a falar em nós, nos gestos que deixou, nas lembranças que nos unem.
Que a sua vida seja lembrada não pela doença que o levou, mas pela força com que serviu, pela dignidade com que viveu e pelo afecto com que nos tratou.
Foi-se mais um "Dactora"!
segunda-feira, junho 22, 2026
ALEGRILHOSO: UM SENTIMENTO DUPLO
Ponto prévio: a língua, com seus conservadorismos, desusos e neologismos, pertence àqueles que a usam no seu dia a dia e que a dão forma e vida.
Há palavras que nascem da boca do povo e se tornam marcas de identidade. Outras surgem da necessidade de dizer mais do que o vocabulário herdado permite. Em Angola, proponho que se acolha uma palavra nova, justa e necessária: “alegrilhoso”. A fusão de alegria e orgulho, inseparáveis quando se trata de conquistas pessoais e colectivas.A primeira vez que ouvi a expressão foi verbalizada por um menino de Chongoroi, município de Benguela, em entrevista à TPA, depois de um espectáculo infantil realizado a propósito do Dia da Criança Africana, 16 de Junho. Yuri, bom falador e conhecedor das suas gentes e traços culturais em que se destaca a boa educação, falou de forma sabida, altiva, respeitosa e sem gaguejar diante do jornalista. Feitas as contas, por junto e atado, o menino só podia ficar alegrilhoso. E eu, espectador atento, também fiquei assim depois de ver a performance e a entrevista.
Do meu lado, a travessia académica também me conduz a este sentimento. Em 1994 iniciei a formação média em jornalismo no IMEL, concluída em 1996 sem nunca recorrer a exame de recurso. Em 2003, já no 4.º ano da licenciatura em Didáctica de História no ISCED de Luanda, abracei também o ISPRA, onde me graduei em Ciências da Comunicação. Seguiram-se a pós-graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (GCH), na Faculdade de Agudos, (São Paulo, 2014–2015), e o Mestrado em Ciências Empresariais na Universidade Fernando Pessoa (Porto 2020). Cada etapa foi uma conquista, cada diploma um marco. Do ponto de vista académico, não posso senão sentir-me alegre e orgulhoso. Mas dizer apenas isso parece insuficiente. O que sinto é mais: é alegrilhoso.
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| Yuri: rapaz do Chongoroi |
A língua portuguesa em Angola tem longa tradição de absorver termos que exprimem melhor a nossa realidade. “Alegrilhoso” não é apenas uma soma de palavras. É uma síntese de emoções que se entrelaçam.
Alegria: o sorriso que nasce da conquista.
Orgulho: a consciência do esforço e da dignidade alcançada.
Alegrilhoso: o estado em que ambos se fundem, inseparáveis.
Em Angola, onde a oralidade sempre foi veículo de identidade, criar palavras novas, como "pocalizar e porradar", é também afirmar soberania linguística. “Alegrilhoso” pode tornar-se expressão corrente em discursos de formatura, em crónicas jornalísticas, em canções populares. É uma palavra que carrega o peso da luta e o brilho da vitória. Assim como “kilamba” ou “mwamba” evocam realidades locais, “alegrilhoso” pode ser a marca de uma geração que não se contenta em traduzir sentimentos alheios, mas inventa os seus próprios.
Hoje, ao olhar para o meu percurso e ao recordar a altivez de Yuri em Chongoroi, não encontro termo mais justo. Não sou apenas alegre, nem apenas orgulhoso. Sou alegrilhoso. E creio que muitos angolanos, ao nomear as suas vitórias pessoais e colectivas, sentirão que esta palavra também lhes pertence.
segunda-feira, junho 15, 2026
MEMÓRIAS DE LUANDA ENTRE O ZANGADO E O KIKOLO
No Zangado, percorri ruas que na infância me pareciam largas, mas que hoje se revelam estreitas. Talvez porque nos anos oitenta contavam-se nos dedos os veículos e conhecia-se o “roncar” de cada um deles. Estacionado perto da antiga Serração Baylundu, chamou-me a atenção a persistência das casas de madeira, tão comuns nas décadas de 70, 80 e 90. Algumas resistem ao tempo. Seja por dificuldades financeiras em transformá-las em alvenaria, seja por saudosismo. Notei também a tentativa de recapeamento de algumas ruas, mas as tampas das sarjetas ficaram mais altas do que o pavimento, fazendo com que a água “nunca entre nas sarjetas”. Pergunto-me: haverá algum fiscal por lá ou é tudo “faz de conta”, dado o afastamento do bairro das ruas onde passam os nguvulu?
O soar do lingala em todas as esquinas e o cheiro a lyamba em pleno dia foram outras anotações mentais com que saí do Zangado.
_ Luanda está a ser tomada silenciosamente por gente que vem de fora, desabafou, desgostoso um idoso.
Segui ao Kikolo, e aqui a memória borbulhou, levando-me cada vez mais ao passado, aos tempos em que Luanda tinha comboios com duas bitolas: a maior, que atendia e ainda atende as locomotivas que partem do Mbungu a Malanje, com ramificação para Ndondo; e a menor, do ramal que partia da estação dos Musekes e terminava junto à Moagem do Kikolo. Foi nesse comboio que viajei inúmeras vezes em busca do negócio da época: restos de sabão que os moradores das cercanias da Induve conseguiam em kandongas e outros kambalaxos, derretendo-os para produzir um detergente líquido a que chamávamos “sabão cocó”.
Onde passava o comboio, da Cuca ao Kikolo, ergueram-se armazéns, lojas e habitações. A Mabor General, fábrica que impunha respeito e cujos pneus rasgavam as estradas de Angola inteira, é hoje um cadáver transformado em armazéns de pouca serventia. Sobre o destino dos equipamentos, não há notícia. Vindos do Kikolo, já mais estarrecidos e pesarosos, lembrei-me do antigo imbondeiro próximo da Escola 1 de Junho, nosso local de descanso quando fazíamos o percurso Kikolo-Rangel a pé.
— Aqui havia um imbondeiro e uma rua asfaltada que ia à oficina da Renault — atirei ao tio António Martins.
— Sim, sobrinho Lúcio, era a Manauto 7 — respondeu ele, trazendo-me à memória outras “Manauto’s” espalhadas por Luanda. Junto à Cipal, na Rua Ngola Kilwanji, havia uma.
— Mais à frente — prosseguiu — era a entrada para a Praça do Cala Boca. O sobrinho lembra-se? — provocou.
Fazia tempo que não trocávamos palavras, como sempre acontece com pessoas comovidas que saem de funerais muito chorados. Cala Boca era um mercado que, na década de 80, rivalizava com Tira Biquíni, Kalemba, Roque Santeiro, Beato Salu, Trapalhões, Banga Sumo, Corridas, Congolenses e poucos outros. Sempre que meus tios e primos vinham do Lubolu com macroeira para vender na Praça do Tunga Ngó (antiga Praça das Corridas), acompanhava-os ao mercado de Cala Boca ou ao Kalemba para comprarem calças pré-lavadas, camisas “a jornal” e sapatilhas de meia-bota, que os tornavam muito queridos nas aldeias de Kuteka e arredores. Dir-se-ia que eram mizangala por quem muitas garotas “morriam”. Eu, por minha vez, contentava-me com os gelados de corantes e as sandes de sardinha frita que, para a fome e costumes de então, sabiam a pizza para o apetite e fome dos meus filhos de hoje.
Lda, 15.05.26
Publicado no Jornal LUANDA a 25 de Maio de 2026
sábado, junho 13, 2026
KALULU ANTES DA NOSSA ERA
Foi nesse contexto que a Igreja Católica, braço espiritual do governo ocupacionista, ergueu as suas primeiras construções — sempre monumentais, sempre futuristas.
Conta-se, inclusive dentro da própria tradição católica, que a primeira comunidade “catolicizada” foi a de Kibuma, no sopé da montanha que vigia Kalulu do outro lado do Kambuku. A escolha não foi aleatória: ali começava a evangelização, ali se plantava o novo centro de poder simbólico.
À época, os brancos eram escassos, os mulatos ainda menos visíveis, e os cabo-verdianos — chamados “colonos de segunda” — chegariam depois.
Os negros autóctones, em número considerável, viviam as suas vidas em regime de subsistência, sem acesso às estruturas que se desenhavam para os “civilizados”. Musafu, Kapopa, Bairro Wambu, Azul e outros ainda não existiam. Apenas a Mbanze, capital informal de aldeolas distantes, concentrava alguma organização.
Com o tempo, o recrutamento para as lavouras de café e a acção dos evangelizadores aceleraram o crescimento demográfico. Kalulu expandiu-se, mas sem planeamento urbano. As cercanias do vilarejo cresceram mal, sem arruamentos, sem drenagem, sem visão.
A Igreja da Missão, hoje situada em Musafu, foi construída com portas voltadas para Kibuma — um gesto que muitos ainda interpretam como simbólico: a evangelização começou ali, não na vila.
Mais tarde, ergueram outra igreja na vila, no alto do penhasco que oferece as costas ao Kambuku. A sua parte traseira voltada para o rio é, até hoje, motivo de interrogações. Essa igreja era destinada aos “civilizadores” e aos “civilizados” da vila. A geografia espiritual da colonização estava desenhada.
A entrada principal da igreja, voltada para o jardim da vila, é precedida por uma imponente escadaria frontal, construída em pedra e calcetada no tempo. Essa escadaria não é apenas acesso físico — é também símbolo de ascensão, separação e hierarquia. Quem sobe, vindo do centro da vila, atravessa não só degraus, mas camadas de poder e pertença.
A vigiar tudo e todos, estava — e continua — a Fortaleza de Kalulu, já centenária e guardadora de muitos segredos sobre refregas e vidas amputadas. Serviu o colono, serviu o poder revolucionário. Hoje, serve a Pátria e a comunidade. É monumento histórico, testemunha silenciosa de transições, rupturas e permanências.
Kalulu enfrenta agora o desafio de transformar os seus subúrbios em zonas urbanizadas. Mas quem fará isso? Com que meios? E com que visão? Novas vilas como Munenga, Kisongo e Kabuta estão a nascer. Que sejam desenhadas antes que a desordem urbana se instale — antes que o futuro repita os erros do passado.
Kalulu, antes da nossa era, não era apenas um lugar. Era uma promessa não cumprida, uma memória que ainda exige reparação e planeamento.
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Publicado pelo Jornal Litoral a 25 de Setembro de 2025
terça-feira, junho 09, 2026
CUIDADO: BURACO NA VIA!
No improvisado mercado à beira da estrada, onde os carros que seguem às províncias enchem os depósitos de combustível e os homens o estômago, há um pregão que se destaca. Não é de peixe seco nem de ginguba torrada, mas de música.
Samy, figura conhecida do pedaço, corre de carro em carro com um leitor de CD numa mão e uma caixa de discos na outra. O cabelo comprido, em crista rebelde que lhe atravessa o ngimbu, já é marca registada.
— É ce-dê origon, kota! Música de qualidade que não te deixa mal na viagem. Quem compra volta sempre! — garante, com a convicção de quem já faz do negócio profissão há cinco anos.
De repente, ergue um disco com título provocador: “Rir até mostrar o último molar”.
— Kota, já ouviste esse? Só duzentos paus. Com cento e noventa também bate! — regateia, como bom comerciante de esquina.
Algibeira aberta, Kwanzas entregues, e Samy ainda recomenda:
— Kota, experimenta a faixa quatro!
O rádio dispara e, em coro com o estado das estradas, ecoa:
"Se vais na província tenha cuidado, na via do Dondo tem lá buraco... buraco bué!"
Um dos passageiros não se contém:
— Epá, granda queta! Parece que o cantor anda a fazer levantamento topográfico todos os dias!
Entre risos e balanços do carro, a música segue como se fosse boletim oficial de obras públicas:
Via do Dondo tem buraco; na do Libolo estão a tapar; da Kibala bué de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda Angola está um buraco; mas a taxa já está no pontué!
E assim, durante os 1050 quilómetros que separam Luanda das terras de Mwene Vunonge, não se ouviu outra balada senão essa, do grupo humorístico "Estamos a Vir". Uma sátira sonora que, entre gargalhadas e batuques, lembra ao viajante que em Angola, além da música, o buraco também virou património nacional.
Algures em Angola, 17.02.2015
Obs: A constatação, em 2026, é de que a EN do Zenza ao Dondo está em perfeitas condições de trafegabilidade.
sábado, junho 06, 2026
MEMÓRIAS DE ESCOLA
segunda-feira, junho 01, 2026
INFANTÁRIO DA AVÓ KYOKO: LIÇÕES DE VIDA E AFECTO
O funcionamento do infantário era simples e solidário: cada mãe deixava com a avó Kyoko uma pequena panela com funji e conduto, ou ainda jinguba, batata assada, banana e outros alimentos.
À hora do almoço, a avó reunia as crianças e distribuía os manjares deixados, enquanto as mães trabalhavam despreocupadas, regressando alegres pelos cuidados recebidos pelos seus petizes.
Mas a avó Kyoko não se limitava a alimentar. Ela ensinava: cantavam juntas, ouviam estórias e fábulas e realizavam pequenos trabalhos adaptados à idade — juntar pratos, lavá-los, acender a fogueira, trançar o cabelo, entre outras actividades de pequena monta.
À noite, tornava-se professora das pubertárias, que se reuniam na sua “Kandumba” para receberem lições sobre a vida afectiva, prevenção de gravidez precoce e convivência conjugal. Essas adolescentes, por sua vez, garantiam o sustento da casa: lenha, água e iguarias e ingredientes para a confecção da "wala" [garapa].
A casa da avó Kyoko era também o ponto de encontros e reencontros entre as jovens e os galanteadores da aldeia e outros vindos de aldeias distantes em busca de um amor — recomendado ou tentando a sorte.
Esse ambiente, embora simples, era permeado por códigos de respeito e encantamento, onde os olhares se cruzavam sob o olhar atento da matriarca, que sabia distinguir entre o afecto genuíno e a frivolidade passageira.
A casa da avó Kyoko tinha tudo de um pouco para se viver. E tudo acontecia com naturalidade, espontaneidade e afecto. Hoje, faltam casas assim — nas cidades e até nas aldeias. A solidariedade esfumou-se e com ela a busca por amparo e conhecimento.
É possível resgatar essas práticas?
Talvez sim. Mas as comunidades precisam de conhecer o passado e reconhecer a eficácia dos bons costumes que o egoísmo, as crendices e o oportunismo estão a matar.
Publicado no Jornal de Angola de 03.01.2026
domingo, maio 31, 2026
EXPLORANDO SÃO TOMÉ
Assim, entre Monte Forte e Malanza, permanece um vazio que é ao mesmo tempo barreira e promessa. A ilha, que se orgulha de sua unidade cultural, ainda não se encontra fisicamente inteira. O viajante que percorre seus limites descobre que o coração verde da ilha é guardião da memória e da biodiversidade, mas também obstáculo à comunicação. O futuro de São Tomé talvez esteja em decidir se esse vazio deve permanecer como muralha natural ou se será vencido pelo traço humano que unirá norte e sul.
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Publicado pelo Jornal de Angola a 07.06.2026
sábado, maio 30, 2026
ENCONTRO LITERÁRIO REFORÇA LAÇOS CULTURAIS
O momento ganhou especial simbolismo quando Kanyanga recitou um poema recente de autoria de Salvaterra, reforçando a atmosfera de partilha literária. Em gesto de reconhecimento, recebeu como oferta o livro É nosso o solo sagrado, da poetisa Alda do Espírito Santo, cujo centenário se assinala este ano.
Este encontro evidencia a relevância da diplomacia cultural e literária, fortalecendo pontes entre Angola e São Tomé e Príncipe, e reafirma o papel da literatura como espaço de diálogo e união entre povos.

















