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sábado, outubro 28, 2023

A ÁGUA QUE (NÃO) TEMOS LÁ & CÁ

Lisboa, a segunda capital de um bom número de angolanos, alguns fingidos em bons patriotas, registou uma temperatura máxima de 27° na terça 26.10. Nesse período, Luanda e Lisboa são cidades quentes que impõe algumas necessidades comuns aos cidadãos residentes e visitantes, sobretudo os amantes da caminhada. Porém, uma das coisas que faz diferença entre as duas capitais é o facto de o caminhante lisboeta puder encontrar um bebedouro numa paragem de autocarro, numa estação de comboios ou num jardim. 

Em Luanda, apesar de muitos não conferirem qualidade à água da rede pública, sabemos que a maioria da população a leva ao estômago sem outros tratamentos prévios como a decantação, fervura, desinfecção com iodo ou pastilhas, filtração ou adição. Essas pessoas, por serem as que menos dinheiro possuem, eventualmente, não se inibiriam em beber água da bica instalada no largo da Independência, da Mutamba ou na Marginal do Bispo. 

O que vemos é que, enquanto avançamos em uma direcção com a reposição da água encanada (o que é a todos os níveis louvável) a extensão destas serventias ao espaço público vai demorando. 

Em Lisboa, onde as pessoas preferem a água da torneira à engarrafada, é comum encontrar bebedouros públicos nas ruas e largos da cidade. Embora nãomais precisem de chafarizes, num largo da cidade do Porto encontrei um esguicho que tanto atende os que passam sedentos, como serve de memória colectiva, lembrando como a água chegava à comunidade antes de ser encanada para as residências.

Será que, por extensão, os angolanos negariam bicas nas ruas e largos das cidades e vilas?

Eventualmente alguém diga que a construção desses equipamentos enfrentaria o desafio da segurança, visto que cresce o vandalismo contra a coisa pública. Aqui, a solução é mesmo o uso de "mão de plumas e barrete de ferro" por parte da nossa polícia e dos órgãos de justiça. Automobilista que parta assentos públicos ou poste de iluminação deve repô-los, acrescido de multa exemplar, para além da responsabilização pelo acidente. Bandido que danifique ou roube bem público deve ser condenado à pena correcional e serviços comunitários. Quando isso acontecer, os bens e equipamentos públicos permanecerão perenemente e o seu usufruto alegrará gerações.
Já agora, que tal dos urinóis públicos que, sob gestão de jovens actualmente desempregados (através de parcerias-publico-privadas), podem conferir valor social, económico e ambiental às nossas vilas e cidades?
Penso que é chegado o tempo para voltarmos ao normal!
Publicado pelo Jor. Angola a 12.11.2023

domingo, outubro 22, 2023

HIKING A MOUNTAIN

Os 950 m de altura, em atalho íngreme do Kloof Corner (a caminho da Table Mountain), pareciam insuperáveis para um quase cinquentão, único entre uma vintena de jovens de vinte a trinta anos. Olhando para o desafio, escalar a montanha por um andarilho, o lado preguiçoso que, infelizmente, todos temos apelava à desistência. 

Sons estranhos vozeiravam em mim. "Kota, não vale apenas só. Vai p'ra casa, prepara tua prova e aprecia uma "kisângwa".

Procurei não ceder e o lado corajoso se sobrepôs, apelando-me ao foco no resultado e não no desafio. 

Quando, ofegante, a meio do percurso, sem saber se continuava ou desistia, com os vasos nasais a se mostrarem demasiadamente estreitos para levar aos pulmões a quantidade de ar que estes demandavam, abri a boca e levei-a mais próxima dos pulmões. Foi como se um veículo 4×4 tivesse ligado o turbo.

Não tardou. Os jovens que me achavam de velho passaram a perguntar-me um a um: "Kota, de onde provêm toda essa tua energia"?

A minha resposta foi curta e incisiva: Perante uma prova aparentemente difícil, foque-se no resultado e não no desafio!

Mais um vez, cansado, mas realizado, já no sopé e enquanto esperava pela chegada do Uber, encostei-me a um rochedo, tal qual George Washington, após a travessia do rio Mississipi, mas, não fazendo perguntas como ele, fiquei a pensar na (im)possibilidade de termos também andarilhos nas nossas serras e montanhas para "entreter" turistas e amealhar alguma pecúnia que muita falta nos faz. Vieram-me à cabeça todas as montanhas da minha infância e puberdade como o Morro do Moco, o Luvili, o Manyangwa (entre Muxixi e Lususu, cuja cordilheira se estende ao Kitumbulu), a Serra da Leba, a encosta do Cristo Rei (Lubango) a Tundavala, a Serra das Neves, o morro do Tongo, as montanhas do Kabutu (Kuteka ao Kikole), a Phaka (Kisongo), o Kalyematuji (Kalulu), o Lupange, o Morro do Xingo, as Serras da Kanda e Kusu e tantas outras elevações escaláveis.


domingo, outubro 15, 2023

NOTAS (AVULSAS) DE UM TURISTA-ESTUDANTE

Em formação em Sea Point, que quer dizer "em frente ao mar", o autor destas linhas foi percorrendo as ruas e os edifícios, contemplando-os e comparando o que tinha analogia com coisas conhecidas ou imaginadas. Sea Point é uma cidade (anexa a Cape Town) animada e próspera. Ao longo da costa, o Sea Point Promenade é um passeio popular para caminhadas. Existem vários bares de sushi, restaurantes de fast food e pizarias. Artesanato africano, café artesanal e música ao vivo são algumas das atrações do colorido Mojo Market, mas a curiosidade estendeu-se à Central City, como é também designada Cape Town, a pontos como:

Kirstenboch: é um jardim botânico, no centro de Cape Town. Aqui começou a colónia e a cidade. Depois de os holandeses terem aportado, começaram a fazer pequena agricultura e, depois, uma mais desenvolvida para se alimentarem, enquanto descansavam, e para abastecer outros navios que velejavam para as Índias Orientais e ou rumando de regresso à Europa.

Da alta e lisa montanha corria, mar abaixo, um rio de água doce e fresca que facilitava a horticultura e a criação de animais. Com certeza que já leu ou ouvir falar sobre os boers (fazendeiros holandeses que se instalaram no Cabo).

"Era preciso também curar os doentes que não continuavam as viagens por fadiga e outras comorbidades”.

No sopé do espilhaço, as videiras e o vinho juntaram-se às ervas alimentares, medicinais e especiarias.

Para além da água, na encosta da Table Moutain, os lenhadores aproveitaram a densidade da floresta para produzirem lenha e carvão que atendiam a "estação em terra" e os navios transoceânicos.

A cordilheira circundante está, porém, hoje, bastante arborizada com pinheiros e outras espécies, numa combinação entre árvores nativas e decorativas. Até animais selvagens (não violentos) voltaram e convivem com os humanos, numa impressionante harmonia.

Mas não são apenas rosas neste vergel. Há também loisas. Uma delas é a quantidade de mendigos e sem-abrigos que inundam o relvado, chegando a ser um "incómodo" aos turistas desacostumados com aquelas molduras de lazarones espalhados pelo Kirstenboch.

Até o pequeno esquilo apoquenta-se do massivo exército de homeless men, pois, se pensasse, optaria sempre pela melhor escolha entre a panela ou a grelha e as animadas brincadeiras num horto sem gatos e cães famintos.

Cansado, mas reconfortado, miro para a Geologia de Cape Town e a do Lubango que me parecem gêmeas, apesar de uma situar-se a um palmo do Atlântico e outra olhar distante o largo mar. Viro-me para as obras também e vejo um caminho longo pela frente que temos todos, corajosamente, de fazer.

Bo Kaap: bairro "nobre" de Cape Town que foi, no século XVIII, acampamento de escravos saídos da Ásia e alguns da África Oriental para a Colónia do Cabo. Embora não sejam todos ou maioritariamente malaios, o bairro é referenciado em algumas passagens literárias também como "Bairro dos malaios".

Dada a história que encerra, é hoje emblemático e digno de várias visitas de turistas, sendo um dos cartazes postais da Cidade de Cabo.

As casas, segundo o que vimos e a narração do guia turístico, são multicolores e pintadas duas a três vezes ao ano para manter o aspecto cromático exterior atraente.

"Passou de um acampamento de escravos para uma zona nobre", não sendo "qualquer um que consiga comprar casa em Bo Caap", explicou o guia.

A policromia, dizem os dados históricos recolhidos, surgiu com a libertação dos escravos que pintaram suas casas, mostrando sua nova condição de homens livres.

Dado que a religião maioritária era e é ainda a muçulmana, o bairro recebeu, no período do apartheid, vários muçulmanos não brancos de outros bairros. Foi excepção de não brancos mantidos na cidade.

Ainda no tempo da escravatura, conta-se, os escravagistas concediam o 1° de Janeiro de todos os anos como "free day" ou dia de festa para os moradores de Bo Kaap.

"O 1° de Janeiro era um dia em que os escravos e outros trabalhadores semi-livres festejavam, dançavam ao batuque, cantavam e comiam do que podiam. Até hoje, passadas varias gerações e l mais de um século desde a abolição da escravatura, o primeiro dia do ano, continua a ser festa em Bo Kaap", conta Jawaiya Cassiem, professora de inglês para estrangeiros em uma das bem cotadas escolas de Sea Point e declarada descendente de escravos "malaios".

Numa dada altura, o crescimento da população de Bo Kaap levou a expansão para outra localidade que se passou a chamar District Six. Este foi, infelizmente, demolido (com os haveres das populações dentro das habitações) pelo regime do apartheid, empurrando os mais de 90% de seus moradores negros para bairros longínquos de Cape Tow.

Há, porém, entre os homens que a história regista, alguns que o tempo reabilita. É o caso de Cecil Rhodes.

Quarenta e nove anos foi quanto viveu o explorador britânico, fundador da Rodésia do Sul (Zimbabué) e Rodésia do Norte (Zâmbia).

O homem foi ainda o mentor da ideia para construção de uma ferrovia que ligasse as cidades de Cabo e Cairo, sendo o carrasco do "Mapa Cor-de-Rosa" elaborado pelos "tugas" que pretendiam ligar as então colónias de Angola e Moçambique.

O guia turístico, que conduziu Mangodinho e colegas da "kabunga anglófona" a alguns pontos de referência histórica de Cape Town, explicou que “Cecil, é recordado como um visionário que fez de Cape Town o que é hoje".

Neto de emigrantes de Java e Reino Unido (avós maternos e paternos, respectivamente), o guia turístico foi mais profundo em dizer que "a colonização é, a todos os níveis, condenável, mas há obras, como a de Cecil, que se constituem em boas memórias".

Rhodes fundou também a diamantífera De Beers e foi Primeiro-ministro da Colónia do Cabo, de 1890 a 1896. Foi a seguir as suas peugadas que cheguei a Boschendal, num tour que nos levou à prova de vinhos sul-africanos. Foi-nos apresentada como "Cecil John Rodhes's Farm" ou seja, a fazenda da família do fundador da De Beers.

À exuberância verdejante e plana dos campos, no sopé, foi agregado o turismo agrovinícola. As "farm" também acolhem casamentos e outros eventos sumptuosos. Outra pequena nota é que, aqui, o negócio agrícola tem um percurso familiar.

Muitas propriedades passaram de mãos. Umas se juntaram a outras, alargando os hectares, e algumas foram vendidas a novos donos, mas os adquirentes são pessoas e organizações com tacto, conhecimento e tradição nesse segmento de negócio.

A propósito, ao longo do tour, vimos uma fazenda que apresentava terrenos vastos em repouso ou sem nunca receberem alguma semente e uma velha casa sem tecto e portas. Irónico, o jovem que ia comigo disse para mim:

_ Tio, essa fazenda deve ser de um político negro sul-africano.

Quando o questionei sobre a razão daquele pressentimento e observação, o jovem foi peremptório:

_ Faz-me lembrar as fazendas coloniais que foram estatizadas, entrando em desuso até se tornarem propriedade de ninguém. Quando veio a nova vaga dos políticos-fazendeiros, tomaram-nas como suas, sem nunca plantar sequer uma nova árvore. Simplesmente pintaram ou repararam algumas casas, as dos antigos donos fazendeiros, colocaram alguns cavalos e construíram piscinas para o deleite dos seus filhos e de suas concubinas.

Saídas de um jovem, menor de trinta anos, aquelas palavras secas e realísticas levaram-me a pensar no quanto devemos reflectir sobre a agricultura que (ainda não) temos, como fazer para que o nosso prato seja cada vez mais nacional e se agregue ao cultivo da terra, enquanto paixão e profissão, a componente turística.

_ Kenhê o mwangolé que tem a sua fazenda (herança familiar) bem arrumadinha e aberta a visitantes que debitam algumas moedas à entrada e/ou à saída?

Quanto à prova de vinhos, relatarei um dia.

Durante o dia, de vinícola em vinícola, mostrámos a nossa angolanidade e convicção ideológica, respeitando, obvio, a alheia e fazendo pontes. Afinal, somos poucos e cabemos todos no país que muito precisa de nossas ideias e labor.


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Texto publicado pelo Jor. Angola de 15.10.2023

segunda-feira, outubro 09, 2023

OS ÓCULOS DE MANDELA E OS MEUS

Embora sejam úteis ao meu trabalho, os meus óculos não têm história. Ganham, agora, a sorte de ter uma estória (escrita e publicada).

Usei uns sem graduação, quando era teeneger, abandonando-os na primeira esquina da juventude, quando o culturismo ocupava parte do pouco tempo livre. 

Depois, surgiu a necessidade ingente de renda e, de desempregado, passei a ter (quase) invariavelmente dois ou mais patrões.

A entrar para a fase adulta ou juventude plena (ainda), a exposição prolongada ao écrã do computador (deduzo) ter-me-á levado à primeira consulta de optometria e oftalmologia. Houve ainda um interregno, depois de quatro a cinco anos de uso de lentes correctivas. Porém, hoje, depois do telefone celular, os óculos são o meu segundo objecto de preocupação imediata e permanente.

Passemos a Madiba. 

Quem caminha à beira-mar, em Sea Point, Cape Town, verá, inocultável, um monumento réplica dos óculos do primeiro presidente negro da África do Sul. A caminhar pela baia, "Mandela's Glasses" é um ponto em que os turistas de várias origens (e até nacionais) procuram parar e fazer uma foto ímpar que serve de lembrança aos amigos (daqueles que fazem publicações nas redes sociais) e para marcar durante a vida toda a estadia em Sea Point e a passagem pelo local.

Cada detalhe, cada objecto da vida de um líder com a grandeza de Nelson Mandela ou Agostinho Neto pode ser transformado em motivo de atracção turística.

É sabido que os angolanos, representados pela Direcção do MPLA, negaram-se em receber os restos mortais do "guia imortal" sem os seus óculos, tendo, ao que se diz, a urna funerária voltada à União Soviética (Setembro de 1979) para a colocação dos óculos e permitir que o cadáver embalsamado fosse facilmente reconhecido como o de Agostinho Neto que sempre se apresentou em público com os seus pesados óculos.

Vejamos, por exemplo, como a China, noutra latitude, faz para fomentar o turismo interno, fazendo réplicas de monumentos de outros países.

Uma réplica da Torre Eiffel pode ser vista em Tianducheng, ao passo que Xangai tem cópias da Torre (inclinada) de Pisa e Thames Town. A Florentia Village pode ser visitada em Wuqing e Hallstatt, em Huizhou.

_ Podemos copiar o monumento com a réplica dos óculos de Mandela e termos também na nossa Marginal de Luanda um local com os "Óculos de Neto"?

Acredito piamente que é possível!

quarta-feira, outubro 04, 2023

CÁ&LÁ: ESTÁ DIFÍCIL

Os dados da edilidade de Lisboa apontam uma estimativa de 2 mil e trezentos homeless e ou acampados (em jardins).

Muitas entradas e saídas de comboio estão impedidas pelos "sem casa" que nelas se instalaram. 

Garagens, armazéns, varandas, esquinas, tudo serve para estender papelão ou colchão.

Pior: quem vive debaixo de ponte ou coisa parecida enfrenta enormes dificuldades para manter a higiene. Entre fazer-se lazarone ou procurar emprego, a primeira opção parece mais à mão. Porém, não colhe, como também já não há tantos dadores perante a quantidade infinita de mãos estendidas à caridade.

Entre os homeless constam imigrantes (legais e ilegais), refugiados (ucranianos, sírios e africanos) e tantos outros nacionais (perdidos na kangonya e kapuka) que se fazem passar por refugiados.

Se você quer emigrar, a decisão é sua. Saiba, porém, que: está mesmo duro!

Tal como cantou Dog Murras, "uns não voRtam é só vRegonha. Não têm nada fora!"

domingo, outubro 01, 2023

NÓS E AS PISCINAS


Nos anos 10 deste século XXI, conheci a Piscina de Saurimo, descrita em muitas crónicas do meu finado amigo Delfim Corral, um saurimuense que abandonou a terra por força das refregas pós-independência, mas que nunca alheou o seu inigualável amor à terra que o fez ser vivente, enquanto connosco respirou ar, nessa curta passagem à terra superficial. Os relatos de Delfim Corral foram tão nostálgicos e encantadores que me pus à "descoberta" da "bendita" piscina, antes mesmo do início da sua reparação, assumida financeiramente, ao que soube, por Catoca, no quadro da sua responsabilidade social. Chegou-me ao ouvido que, durante a elaboração do projecto ou sua execução, "terá havido um erro" na reabilitação e aquilo que se esperava ser "Piscina Olímpica de Saurimo" ficou (mais uma vez) pelo papel", dada a inadequação ao que os órgãos reitores da modalidade de natação exigem para a prática desportiva. 
A segunda visita que fiz às instalações, acompanhando uma equipa da Federação Angolana de Natação, que recomendou correcções sobre a profundidade e outros aspectos técnicos, encontrei um tanque (novamente) habitado por batráquios. Constou-me que ela chegou a ser (re)inaugurada, ainda ao tempo da governadora Cândida Narciso, mas nunca reaberta ao público. 
Há pessoas com muita sensibilidade, a quem doi ver piscinas 
abandonadas, sobretudo em zonas interiores sem mar e sem adequadas e confiáveis praias fluviais. 
O meu amigo Delfim deixou-nos sem receber notícias sobre a volta à serventia da piscina de sua infância. Os miúdos a quem esperávamos ensinar a nadar tornaram-se adultos e outra geração vai passar, desta vez, sem as praias fluviais do Rio Mwangeji e sem a esperada piscina.
Em Agosto2023, tive a sorte de adentrar o espaço que acolhe a antiga Piscina do Lubango (Nossa Senhora do Monte). Escrevo "antiga piscina", com todo o desdouro que isso me causa, dado o facto de "tanque sem água ser apenas uma construção e não, exactamente, uma piscina", como disse um septuagenário lubanguense, no auge da sua folga.
Calculo que, para além de a natação ser dos exercícios físicos mais completos e de lazer, os "mentecaptos" de então terão pensado na sua serventia, numa cidade interior, cujo clima e geologia se aproximam aos da Cidade do Cabo, mas com a desfeita divina de não ter mar à vista.
Sem o Atlântico por perto, sem rios com margens largas e enseadas, sem uma piscina que rivalize com as praias de água salgada, a vida do lubanguese de então teria, com certeza, tido menos qualidade e graça do que teve. 
Moçâmedes, no Atlântico, seria o destino sabatino e dominical de muitas famílias locais e turistas, em busca de água, sol e sal, enfrentando, semanas sim e semanas também, os perigos e agruras da serpenteante rodovia que separa as duas cidades do Sul de Angola.
Em assomo à minha vergonha, a piscina erguida em Nossa Senhora do Monte continuava mero tanque que se estende seco, roto e cabisbaixo aos sóis vezeiros, contrariando os desejos e carências de gente bastante. 
Enquanto ia pensando neste apontamento e a ver se encontro resposta à pergunta "que problemas temos contra a manutenção e construção de novas piscinas", eis que "caio" em  Sea Point, África do Sul, onde, por possuírem uma costa escarpada e pedregosa, os munícipes e turistas são bafejados com largas e limpas piscinas à beira-mar, logrando dois momentos, duas serventias, em um mesmo lazer: ficam os olhos satisfeitos, a mente oxigenada e sadia e o corpo são (mente sã corpo são).
Aqui chegado, e com o respeito devido aos que pensam nessas questões, tidas por alguns como "periféricas", sem que lhes cheguem as cabimentações, volto à indagação primária: que problemas, afinal, temos com a água e as piscinas que tanto precisamos e não as construímos ou reparamos?


Sea Point, 27.08.2023. 
Publicado pelo Jor. Angola a 10.09.23