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segunda-feira, junho 29, 2026

O TEMPO E OS AUTOCARROS

Há dias, li que o Governo Provincial de Luanda está a devolver ao povo as praças, os largos, os espaços públicos que há muito haviam perdido a sua alma, sequestrados por interesses de alguns "chico-espertos". Transformam-nos, de novo, em lugares de convívio, de memória, de cidadania. É de aplaudir, sim. Porque a cidade não é feita só de prédios e de asfalto. É feita de encontros, de bancos onde se sentam velhos, de crianças que correm à volta de um chafariz, de jovens que se paqueram para dar em namoro e constituição de famílias e memória. Recuperar o património público é recuperar um pouco do que nos tiraram sem pedir e sem anuirmos.

E foi a pensar nisso que me lembrei do Cine Ngola e suas cercanias. Era um lugar movimentado. De manhã as partidas das carreiras que rasgavam o país levando e deixando pessoas, cartas, jornais, revistas e saudades. O Mercado dos Congolenses era limpo, organizado e "obrigava-nos a tomar banho e vestir roupa da escola ou de domingo para lá ir comprar algo que não se vendesse na Praça das Corridas que ficava perto do Supermercado Nzala Ikola de António Silvestre (próximo da Escola 5). À tarde, matiné e à noite soiré no cine com filmes que se mantêm intactos na memória: Trinitá, Minha última sétima bala, El bambino, Trapalhões na Serra Pelada, Meu nome é ninguém, etc.
Lembro-me de como ali, outrora, se juntava tanta gente para sonhar com outras vidas dentro do escuro de uma sala. Hoje, está ali um espectro de cimento ressequido e estropiado, sem cinema e sem serventia. Alguém vendeu o Cine Ngola para o transformar em nada.
Outro exemplo, mais fundo ainda: o espaço onde apanhávamos os autocarros da ETIM. A ETIM era uma coisa de outro tempo. Ligava quase todos os municípios de Angola, num tempo em que viajar era aventura, mas aventura possível. Lembro-me de mim, garoto, madrugada ainda cerrada, a acompanhar a minha mãe até aos "congolenses". As imbamba já equilibradas nas cabeças dela e na minha, um lenço atado, o olhar sério de quem vai para o Lubolu num autocarro da ETIM. E as máquinas eram as KEVE, rectangulares, montadas cá, montadas em Angola. Feias, dir-se-ia hoje, mas eram muito nossas.
A fábrica já era. A frota também desapareceu. As instalações da ETIM, em Luanda, foram vendidas ou cedidas à TURA. E da TURA, que foi dos autocarros? Há anos que não se vê um nas ruas de Luanda.
Uns dizem: "O Estado não é dos melhores gestores de empresas". E é verdade, muitas vezes. Mas privatizar um bem público para que ele deixe de ter serventia, isso, creio, é pior do que a mais desastrada das gestões estatais. Porque, ao menos, na gestão pública ainda há quem grite, quem reclame, quem se lembre de que aquele autocarro levava mães ao Lubolu, ao Wizi, a Ngulungu Artu, a Kamabatela, ao Mbalundu e Luvangu... Privatizado e abandonado, o bem vira coisa de "lobos". E ninguém pergunta: o que ganhámos com esta operação?
O tempo levou os KEVE, as rotas, as mães de imbamba à cabeça. De quando em vez, cruzo com um desses autocarros, sobrevivente periclitante, sôfrego, o ferro a cair, o tecto abatido. Parece um fantasma de si mesmo, mas lá vai deixando na descarga do escape o rasto da história, contando um passado áureo. Dá pena o autocarro e dá raiva o muito que devíamos ter e desandou.
Aplaudo, pois, o esforço de devolver praças e largos à cidade. Que se lembre também o Cine Ngola. Que se olhe para o que restou das instalações da ETIM passadas à falecida TURA, e se pergunte: que serviço público queremos, afinal?
Porque recuperar o espaço público é bonito, sim. Mas recuperar o serviço público, o autocarro que passa, a mãe que chega ao Lubolu, é mais urgente. É a memória a pedir passagem.
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Publicado no jornal Luanda a 06.07.2026

terça-feira, junho 23, 2026

TOMÉ ARMANDO A VOZ QUE SE CALA


Hoje (22.06.2026), o silêncio pesa mais do que nunca. Perdemos o Tomé de Carvalho Armando, o nosso Cacaca, primo e coetâneo, que me chamava com carinho de “meu primo da Kiki”, lembrando a Kibala, terra de procedência dos nossos pais. A notícia da sua morte, por doença, chega como golpe inesperado, sobretudo porque ainda ontem nos asseguravam que evoluía positivamente.

O Tomé foi homem de entrega e de voz. Serviu a Rádio Luanda por cerca de três décadas, emprestando o timbre firme e a disciplina profissional a uma instituição que se tornou parte da sua vida. Mas antes da rádio, conhecemo‑nos na Igreja Metodista Unida, cargo pastoral Moisés, nos anos 80, quando espreitávamos a adolescência, seguindo-se a juventude que nos reunia em cânticos e fraternidade.

A sua vida foi marcada pela simplicidade e pela proximidade. Não acumulou riquezas, não se deixou seduzir pelo poder fácil. O Tomé foi presença solidária, voz que se oferecia, coração que se partilhava.

Ontem, ao aconselhar um jovem a poupar, lembrei‑me da música de Elias dya Kimwezu: uma poupa porque “a fome madruga”, outro é esbanjador porque entende que “a morte chega durante a noite”. Hoje, essa reflexão ganha corpo. A vida é breve e Tomé partiu sem aviso, deixando‑nos a interrogação: poupar para o futuro ou viver intensamente o presente?

Refúgio‑me em João 14:2‑3: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar‑vos lugar.” Quero acreditar que o Tomé Armando, filho da tia Tomba, foi preparar‑nos lugar, que a sua partida não é fim, mas transição.

Exalto nele a dedicação profissional, a fidelidade às raízes, a ternura com que tratava os seus. O Tomé foi voz, foi memória, foi laço. Hoje, o nosso Cacaca cala‑se na terra, mas continua a falar em nós, nos gestos que deixou, nas lembranças que nos unem.

Que a sua vida seja lembrada não pela doença que o levou, mas pela força com que serviu, pela dignidade com que viveu e pelo afecto com que nos tratou. 

Foi-se mais um "Dactora"!

segunda-feira, junho 22, 2026

ALEGRILHOSO: UM SENTIMENTO DUPLO

Ponto prévio: a língua, com seus conservadorismos, desusos e neologismos, pertence àqueles que a usam no seu dia a dia e que a dão forma e vida.

Há palavras que nascem da boca do povo e se tornam marcas de identidade. Outras surgem da necessidade de dizer mais do que o vocabulário herdado permite. Em Angola, proponho que se acolha uma palavra nova, justa e necessária: “alegrilhoso”. A fusão de alegria e orgulho, inseparáveis quando se trata de conquistas pessoais e colectivas.

A primeira vez que ouvi a expressão foi verbalizada por um menino de Chongoroi, município de Benguela, em entrevista à TPA, depois de um espectáculo infantil realizado a propósito do Dia da Criança Africana, 16 de Junho. Yuri, bom falador e conhecedor das suas gentes e traços culturais em que se destaca a boa educação, falou de forma sabida, altiva, respeitosa e sem gaguejar diante do jornalista. Feitas as contas, por junto e atado, o menino só podia ficar alegrilhoso. E eu, espectador atento, também fiquei assim depois de ver a performance e a entrevista.

Do meu lado, a travessia académica também me conduz a este sentimento. Em 1994 iniciei a formação média em jornalismo no IMEL, concluída em 1996 sem nunca recorrer a exame de recurso. Em 2003, já no 4.º ano da licenciatura em Didáctica de História no ISCED de Luanda, abracei também o ISPRA, onde me graduei em Ciências da Comunicação. Seguiram-se a pós-graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (GCH), na Faculdade de Agudos, (São Paulo, 2014–2015), e o Mestrado em Ciências Empresariais na Universidade Fernando Pessoa (Porto 2020). Cada etapa foi uma conquista, cada diploma um marco. Do ponto de vista académico, não posso senão sentir-me alegre e orgulhoso. Mas dizer apenas isso parece insuficiente. O que sinto é mais: é alegrilhoso

Yuri: rapaz do Chongoroi

A língua portuguesa em Angola tem longa tradição de absorver termos que exprimem melhor a nossa realidade. “Alegrilhoso” não é apenas uma soma de palavras. É uma síntese de emoções que se entrelaçam.

Alegria: o sorriso que nasce da conquista.

Orgulho: a consciência do esforço e da dignidade alcançada.

Alegrilhoso: o estado em que ambos se fundem, inseparáveis.

Em Angola, onde a oralidade sempre foi veículo de identidade, criar palavras novas, como "pocalizar e porradar", é também afirmar soberania linguística. “Alegrilhoso” pode tornar-se expressão corrente em discursos de formatura, em crónicas jornalísticas, em canções populares. É uma palavra que carrega o peso da luta e o brilho da vitória. Assim como “kilamba” ou “mwamba” evocam realidades locais, “alegrilhoso” pode ser a marca de uma geração que não se contenta em traduzir sentimentos alheios, mas inventa os seus próprios.

Hoje, ao olhar para o meu percurso e ao recordar a altivez de Yuri em Chongoroi, não encontro termo mais justo. Não sou apenas alegre, nem apenas orgulhoso. Sou alegrilhoso. E creio que muitos angolanos, ao nomear as suas vitórias pessoais e colectivas, sentirão que esta palavra também lhes pertence.

segunda-feira, junho 15, 2026

MEMÓRIAS DE LUANDA ENTRE O ZANGADO E O KIKOLO

Forçado pelo destino, pela morte que sempre chega, mesmo quando muito postergada, dirigi-me ao Zangado para prestar solidariedade ao meu compadre Beto Spina, cujo cunhado, António Saldanha, deixou o mundo dos mortais. Tendo o funeral sido realizado no campo santo do Km 14, empreendi duas viagens: a primeira foi a deslocação do meu corpo ao Zangado e ao Kikolo; a segunda foi a viagem da mente ao passado.

No Zangado, percorri ruas que na infância me pareciam largas, mas que hoje se revelam estreitas. Talvez porque nos anos oitenta contavam-se nos dedos os veículos e conhecia-se o “roncar” de cada um deles. Estacionado perto da antiga Serração Baylundu, chamou-me a atenção a persistência das casas de madeira, tão comuns nas décadas de 70, 80 e 90. Algumas resistem ao tempo. Seja por dificuldades financeiras em transformá-las em alvenaria, seja por saudosismo. Notei também a tentativa de recapeamento de algumas ruas, mas as tampas das sarjetas ficaram mais altas do que o pavimento, fazendo com que a água “nunca entre nas sarjetas”. Pergunto-me: haverá algum fiscal por lá ou é tudo “faz de conta”, dado o afastamento do bairro das ruas onde passam os nguvulu?

O soar do lingala em todas as esquinas e o cheiro a lyamba em pleno dia foram outras anotações mentais com que saí do Zangado.

_ Luanda está a ser tomada silenciosamente por gente que vem de fora, desabafou, desgostoso um idoso.

Para mim, é algo de pôr o indivíduo um pouco zangado com o descaso em que se tornaram os bairros da nossa infância. O que vi e relato é uma pequena fotografia do que são o Marçal, o Rangel (com seu Kaputu e México incluídos), assim como o Prenda que, com ruelas e aduelas apertadíssimas, se tornou oferta à delinquência e à promiscuidade.

Segui ao Kikolo, e aqui a memória borbulhou, levando-me cada vez mais ao passado, aos tempos em que Luanda tinha comboios com duas bitolas: a maior, que atendia e ainda atende as locomotivas que partem do Mbungu a Malanje, com ramificação para Ndondo; e a menor, do ramal que partia da estação dos Musekes e terminava junto à Moagem do Kikolo. Foi nesse comboio que viajei inúmeras vezes em busca do negócio da época: restos de sabão que os moradores das cercanias da Induve conseguiam em kandongas e outros kambalaxos, derretendo-os para produzir um detergente líquido a que chamávamos “sabão cocó”.

Onde passava o comboio, da Cuca ao Kikolo, ergueram-se armazéns, lojas e habitações. A Mabor General, fábrica que impunha respeito e cujos pneus rasgavam as estradas de Angola inteira, é hoje um cadáver transformado em armazéns de pouca serventia. Sobre o destino dos equipamentos, não há notícia. Vindos do Kikolo, já mais estarrecidos e pesarosos, lembrei-me do antigo imbondeiro próximo da Escola 1 de Junho, nosso local de descanso quando fazíamos o percurso Kikolo-Rangel a pé.

— Aqui havia um imbondeiro e uma rua asfaltada que ia à oficina da Renault — atirei ao tio António Martins.  

— Sim, sobrinho Lúcio, era a Manauto 7 — respondeu ele, trazendo-me à memória outras “Manauto’s” espalhadas por Luanda. Junto à Cipal, na Rua Ngola Kilwanji, havia uma.  

— Mais à frente — prosseguiu — era a entrada para a Praça do Cala Boca. O sobrinho lembra-se? — provocou.  

Fazia tempo que não trocávamos palavras, como sempre acontece com pessoas comovidas que saem de funerais muito chorados. Cala Boca era um mercado que, na década de 80, rivalizava com Tira Biquíni, Kalemba, Roque Santeiro, Beato Salu, Trapalhões, Banga Sumo, Corridas, Congolenses e poucos outros. Sempre que meus tios e primos vinham do Lubolu com macroeira para vender na Praça do Tunga Ngó (antiga Praça das Corridas), acompanhava-os ao mercado de Cala Boca ou ao Kalemba para comprarem calças pré-lavadas, camisas “a jornal” e sapatilhas de meia-bota, que os tornavam muito queridos nas aldeias de Kuteka e arredores. Dir-se-ia que eram mizangala por quem muitas garotas “morriam”. Eu, por minha vez, contentava-me com os gelados de corantes e as sandes de sardinha frita que, para a fome e costumes de então, sabiam a pizza para o apetite e fome dos meus filhos de hoje.

Lda, 15.05.26

Publicado no Jornal LUANDA a 25 de Maio de 2026

sábado, junho 13, 2026

KALULU ANTES DA NOSSA ERA

Antes que os mapas fossem redesenhados e os nomes ganhassem estatuto administrativo, Kalulu era apenas um sopro de aldeias dispersas, chamadas “mbala”, onde os autóctones viviam sob regime feudal, longe das estruturas coloniais que viriam a impor-se. A memória oral local situa o início da dominação das revoltas por volta de 1917, quando os levantamentos colectivos foram sufocados e a resistência passou a vibrar apenas nos murmúrios das montanhas.

Foi nesse contexto que a Igreja Católica, braço espiritual do governo ocupacionista, ergueu as suas primeiras construções — sempre monumentais, sempre futuristas. 

Conta-se, inclusive dentro da própria tradição católica, que a primeira comunidade “catolicizada” foi a de Kibuma, no sopé da montanha que vigia Kalulu do outro lado do Kambuku. A escolha não foi aleatória: ali começava a evangelização, ali se plantava o novo centro de poder simbólico.

À época, os brancos eram escassos, os mulatos ainda menos visíveis, e os cabo-verdianos — chamados “colonos de segunda” — chegariam depois. 

Os negros autóctones, em número considerável, viviam as suas vidas em regime de subsistência, sem acesso às estruturas que se desenhavam para os “civilizados”. Musafu, Kapopa, Bairro Wambu, Azul e outros ainda não existiam. Apenas a Mbanze, capital informal de aldeolas distantes, concentrava alguma organização.

Com o tempo, o recrutamento para as lavouras de café e a acção dos evangelizadores aceleraram o crescimento demográfico. Kalulu expandiu-se, mas sem planeamento urbano. As cercanias do vilarejo cresceram mal, sem arruamentos, sem drenagem, sem visão. 

A Igreja da Missão, hoje situada em Musafu, foi construída com portas voltadas para Kibuma — um gesto que muitos ainda interpretam como simbólico: a evangelização começou ali, não na vila.

Mais tarde, ergueram outra igreja na vila, no alto do penhasco que oferece as costas ao Kambuku. A sua parte traseira voltada para o rio é, até hoje, motivo de interrogações. Essa igreja era destinada aos “civilizadores” e aos “civilizados” da vila. A geografia espiritual da colonização estava desenhada.

A entrada principal da igreja, voltada para o jardim da vila, é precedida por uma imponente escadaria frontal, construída em pedra e calcetada no tempo. Essa escadaria não é apenas acesso físico — é também símbolo de ascensão, separação e hierarquia. Quem sobe, vindo do centro da vila, atravessa não só degraus, mas camadas de poder e pertença.

A vigiar tudo e todos, estava — e continua — a Fortaleza de Kalulu, já centenária e guardadora de muitos segredos sobre refregas e vidas amputadas. Serviu o colono, serviu o poder revolucionário. Hoje, serve a Pátria e a comunidade. É monumento histórico, testemunha silenciosa de transições, rupturas e permanências.


Kalulu enfrenta agora o desafio de transformar os seus subúrbios em zonas urbanizadas. Mas quem fará isso? Com que meios? E com que visão? Novas vilas como Munenga, Kisongo e Kabuta estão a nascer. Que sejam desenhadas antes que a desordem urbana se instale — antes que o futuro repita os erros do passado.

Kalulu, antes da nossa era, não era apenas um lugar. Era uma promessa não cumprida, uma memória que ainda exige reparação e planeamento.

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Publicado pelo Jornal Litoral a 25 de Setembro de 2025

terça-feira, junho 09, 2026

CUIDADO: BURACO NA VIA!

No improvisado mercado à beira da estrada, onde os carros que seguem às províncias enchem os depósitos de combustível e os homens o estômago, há um pregão que se destaca. Não é de peixe seco nem de ginguba torrada, mas de música.  

Samy, figura conhecida do pedaço, corre de carro em carro com um leitor de CD numa mão e uma caixa de discos na outra. O cabelo comprido, em crista rebelde que lhe atravessa o ngimbu, já é marca registada.  

— É ce-dê origon, kota! Música de qualidade que não te deixa mal na viagem. Quem compra volta sempre! — garante, com a convicção de quem já faz do negócio profissão há cinco anos.  

De repente, ergue um disco com título provocador: “Rir até mostrar o último molar”.  

— Kota, já ouviste esse? Só duzentos paus. Com cento e noventa também bate! — regateia, como bom comerciante de esquina.  

Algibeira aberta, Kwanzas entregues, e Samy ainda recomenda:  

— Kota, experimenta a faixa quatro!  

O rádio dispara e, em coro com o estado das estradas, ecoa:  

"Se vais na província tenha cuidado, na via do Dondo tem lá buraco... buraco bué!"  

Um dos passageiros não se contém:  

— Epá, granda queta! Parece que o cantor anda a fazer levantamento topográfico todos os dias!  

Entre risos e balanços do carro, a música segue como se fosse boletim oficial de obras públicas:  

Via do Dondo tem buraco; na do Libolo estão a tapar; da Kibala bué de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda Angola está um buraco; mas a taxa já está no pontué!  

E assim, durante os 1050 quilómetros que separam Luanda das terras de Mwene Vunonge, não se ouviu outra balada senão essa, do grupo humorístico "Estamos a Vir". Uma sátira sonora que, entre gargalhadas e batuques, lembra ao viajante que em Angola, além da música, o buraco também virou património nacional.


Algures em Angola, 17.02.2015

Obs: A constatação, em 2026, é de que a EN do Zenza ao Dondo está em perfeitas condições de trafegabilidade.

sábado, junho 06, 2026

MEMÓRIAS DE ESCOLA

Rangel, 02 de Junho de 2026, semana da criança angolana. Ao passar pela antiga Escola Grande da Terra Nova, em Luanda, senti como se o tempo tivesse parado e me devolvesse às primeiras imagens da infância. Recordo o ano de 1979, chamado de Ano da Formação de Quadros, quando ingressei no ensino primário numa escola improvisada de adobe e coberta de capim, na aldeia de Kalombo, actual município da Munenga. As carteiras eram barracas de paus fincados no solo e o professor chamava-se José Boracha.


No ano seguinte, a sala de aulas foi transferida para a zona de pecuária da Fazenda Hoji ya Henda, onde frequentei a primeira classe. Era num sobrado das instalações da fazenda.
A segunda classe, em 1982, decorreu no antigo acampamento dos "trabalhadores mbalundu", junto ao campo de aviação, sob orientação do professor Jorge Manuel Carlos. Um cómodo que ainda conservava a cobertura foi aproveitado.

Em 1983, a escola foi deslocada para o intervalo entre as aldeolas de João Salomão e Kambundu Azevedo, perto da atual aldeia de Pedra Escrita. Construída pelos encarregados de educação, novamente em adobes e coberta de capim, tinha apenas uma sala com dois quadros improvisados, onde se intercalavam turmas de manhã e à tarde. A pré era conduzida por um monitor da quarta classe, sempre sob a supervisão do professor. Fazíamos mais de 8 quilómetros (ida e volta) em cada um desses lugares aonde íamos em busca do saber científico.

No ano seguinte, 1984, refugiado em Luanda e sem documentos, ingressei numa turma da segunda classe na sala 18 da Escola Grande da Terra Nova, tendo como mestre o professor Arnaldo Manuel Carlos. Já a terceira e a quarta que não terminei foi na sala 3 com a professora "Bebé", Luzia de nome próprio.

De volta ao Libolo, desta na sede municipal Kalulu, concluí a quarta classe (ensino de adultos) numa sala anexa da Escola nº 1 de Kalulu, Dr. António Agostinho Neto, instalada no Hospital Municipal do Libolo, com o professor Afonso Benedito. O segundo nível, quinta e sexta classes, foi feito entre 1988 e 1990 na escola Kwame Nkrumah. Depois do ataque da Unita a Kalulu, em Dezembro de 1989, regressei a Luanda em 1990 para frequentar o terceiro nível na escola Ngola Mbandi, antigo Liceu Emídio Navarro.

O ensino médio, no curso de Jornalismo, decorreu no IMEL, entre 1994 e 1996. Seguiram-se os estudos superiores em instituições de Angola, Brasil e Portugal: ISCED, ISPRA, FAAG e UFP, onde concluí o mestrado.

Cada escola, cada sala improvisada ou edifício mais estruturado, foi mais do que um espaço físico. Foram lugares de resistência, esperança e sonho. Hoje, ao olhar para a Escola Grande da Terra Nova, vejo não apenas paredes e janelas, mas ecos de vozes infantis, o cheiro do giz, o esforço dos professores e a persistência dos alunos. São memórias que se transformaram em raízes, sustentando o caminho que percorri e que ainda percorro.

Publicado pelo Jornal LUANDA a 22 de Junho de 2026

segunda-feira, junho 01, 2026

INFANTÁRIO DA AVÓ KYOKO: LIÇÕES DE VIDA E AFECTO

A “avó Mariana”, também conhecida por Kyoko Ky’Eteta, foi prima-irmã da minha mãe. De tanta simpatia e longevidade, tornou-se matriarca da aldeia de Mbango Yo’Teka, assumindo espontaneamente o cuidado das crianças menores cujas mães, por razões diversas, não podiam levá-las às lavras. A sua casa transformou-se num verdadeiro infantário comunitário e ela passou a dedicar-se exclusivamente à infância, isenta das tarefas de busca de lenha, água ou alimentos — bens que lhe eram providenciados pelas mamãs da aldeia em gesto de gratidão.

O funcionamento do infantário era simples e solidário: cada mãe deixava com a avó Kyoko uma pequena panela com funji e conduto, ou ainda jinguba, batata assada, banana e outros alimentos. 

À hora do almoço, a avó reunia as crianças e distribuía os manjares deixados, enquanto as mães trabalhavam despreocupadas, regressando alegres pelos cuidados recebidos pelos seus petizes.

Mas a avó Kyoko não se limitava a alimentar. Ela ensinava: cantavam juntas, ouviam estórias e fábulas e realizavam pequenos trabalhos adaptados à idade — juntar pratos, lavá-los, acender a fogueira, trançar o cabelo, entre outras actividades de pequena monta.

À noite, tornava-se professora das pubertárias, que se reuniam na sua “Kandumba” para receberem lições sobre a vida afectiva, prevenção de gravidez precoce e convivência conjugal. Essas adolescentes, por sua vez, garantiam o sustento da casa: lenha, água e iguarias e ingredientes para a confecção da "wala" [garapa].

A casa da avó Kyoko era também o ponto de encontros e reencontros entre as jovens e os galanteadores da aldeia e outros vindos de aldeias distantes em busca de um amor — recomendado ou tentando a sorte. 

Esse ambiente, embora simples, era permeado por códigos de respeito e encantamento, onde os olhares se cruzavam sob o olhar atento da matriarca, que sabia distinguir entre o afecto genuíno e a frivolidade passageira.

A casa da avó Kyoko tinha tudo de um pouco para se viver. E tudo acontecia com naturalidade, espontaneidade e afecto. Hoje, faltam casas assim — nas cidades e até nas aldeias. A solidariedade esfumou-se e com ela a busca por amparo e conhecimento. 

É possível resgatar essas práticas? 

Talvez sim. Mas as comunidades precisam de conhecer o passado e reconhecer a eficácia dos bons costumes que o egoísmo, as crendices e o oportunismo estão a matar.


Publicado no Jornal de Angola de 03.01.2026