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segunda-feira, junho 15, 2026

MEMÓRIAS DE LUANDA ENTRE O ZANGADO E O KIKOLO

Forçado pelo destino, pela morte que sempre chega, mesmo quando muito postergada, dirigi-me ao Zangado para prestar solidariedade ao meu compadre Beto Spina, cujo cunhado, António Saldanha, deixou o mundo dos mortais. Tendo o funeral sido realizado no campo santo do Km 14, empreendi duas viagens: a primeira foi a deslocação do meu corpo ao Zangado e ao Kikolo; a segunda foi a viagem da mente ao passado.

No Zangado, percorri ruas que na infância me pareciam largas, mas que hoje se revelam estreitas. Talvez porque nos anos oitenta contavam-se nos dedos os veículos e conhecia-se o “roncar” de cada um deles. Estacionado perto da antiga Serração Baylundu, chamou-me a atenção a persistência das casas de madeira, tão comuns nas décadas de 70, 80 e 90. Algumas resistem ao tempo. Seja por dificuldades financeiras em transformá-las em alvenaria, seja por saudosismo. Notei também a tentativa de recapeamento de algumas ruas, mas as tampas das sarjetas ficaram mais altas do que o pavimento, fazendo com que a água “nunca entre nas sarjetas”. Pergunto-me: haverá algum fiscal por lá ou é tudo “faz de conta”, dado o afastamento do bairro das ruas onde passam os nguvulu?

O soar do lingala em todas as esquinas e o cheiro a lyamba em pleno dia foram outras anotações mentais com que saí do Zangado.

_ Luanda está a ser tomada silenciosamente por gente que vem de fora, desabafou, desgostoso um idoso.

Para mim, é algo de pôr o indivíduo um pouco zangado com o descaso em que se tornaram os bairros da nossa infância. O que vi e relato é uma pequena fotografia do que são o Marçal, o Rangel (com seu Kaputu e México incluídos), assim como o Prenda que, com ruelas e aduelas apertadíssimas, se tornou oferta à delinquência e à promiscuidade.

Segui ao Kikolo, e aqui a memória borbulhou, levando-me cada vez mais ao passado, aos tempos em que Luanda tinha comboios com duas bitolas: a maior, que atendia e ainda atende as locomotivas que partem do Mbungu a Malanje, com ramificação para Ndondo; e a menor, do ramal que partia da estação dos Musekes e terminava junto à Moagem do Kikolo. Foi nesse comboio que viajei inúmeras vezes em busca do negócio da época: restos de sabão que os moradores das cercanias da Induve conseguiam em kandongas e outros kambalaxos, derretendo-os para produzir um detergente líquido a que chamávamos “sabão cocó”.

Onde passava o comboio, da Cuca ao Kikolo, ergueram-se armazéns, lojas e habitações. A Mabor General, fábrica que impunha respeito e cujos pneus rasgavam as estradas de Angola inteira, é hoje um cadáver transformado em armazéns de pouca serventia. Sobre o destino dos equipamentos, não há notícia. Vindos do Kikolo, já mais estarrecidos e pesarosos, lembrei-me do antigo imbondeiro próximo da Escola 1 de Junho, nosso local de descanso quando fazíamos o percurso Kikolo-Rangel a pé.

— Aqui havia um imbondeiro e uma rua asfaltada que ia à oficina da Renault — atirei ao tio António Martins.  

— Sim, sobrinho Lúcio, era a Manauto 7 — respondeu ele, trazendo-me à memória outras “Manauto’s” espalhadas por Luanda. Junto à Cipal, na Rua Ngola Kilwanji, havia uma.  

— Mais à frente — prosseguiu — era a entrada para a Praça do Cala Boca. O sobrinho lembra-se? — provocou.  

Fazia tempo que não trocávamos palavras, como sempre acontece com pessoas comovidas que saem de funerais muito chorados. Cala Boca era um mercado que, na década de 80, rivalizava com Tira Biquíni, Kalemba, Roque Santeiro, Beato Salu, Trapalhões, Banga Sumo, Corridas, Congolenses e poucos outros. Sempre que meus tios e primos vinham do Lubolu com macroeira para vender na Praça do Tunga Ngó (antiga Praça das Corridas), acompanhava-os ao mercado de Cala Boca ou ao Kalemba para comprarem calças pré-lavadas, camisas “a jornal” e sapatilhas de meia-bota, que os tornavam muito queridos nas aldeias de Kuteka e arredores. Dir-se-ia que eram mizangala por quem muitas garotas “morriam”. Eu, por minha vez, contentava-me com os gelados de corantes e as sandes de sardinha frita que, para a fome e costumes de então, sabiam a pizza para o apetite e fome dos meus filhos de hoje.

Lda, 15.05.26

Publicado no Jornal LUANDA a 25 de Maio de 2026

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