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sábado, agosto 15, 2026

ILUMINAÇÃO, BURACOS E ESCURIDÃO SÃO PERIGOS NAS ESTRADAS

Os crescentes acidentes com vítimas mortais, dezenas de feridos e destruição de viaturas nas estradas nacionais de Angola têm uma causa que se repete como um refrão trágico: buracos inesperados em vias que, à primeira vista, parecem em bom estado técnico. O condutor, surpreendido, vê-se forçado a escolher entre esquivar o buraco em velocidade — arriscando colisões ou saídas de pista — ou passar por cima dele e comprometer o veículo. É uma armadilha recorrente em troços como Ndondo-Kapanda, Zenza-Ndalatandu-Malanji, Waku Kungu-Alto Hama, Kibala-INP, Cabo Ledo-Longa, Luvangu-Ondjiva, entre outros.

A estrada 230, entre Zenza e Mazozo, complementa esse drama onde conduzir sem iluminação pública nem sinalização horizontal se assemelha a jogar à cabra-cega, avançando às cegas, guiado apenas pelas luzes dos veículos em sentido contrário e pela intuição de não sair da faixa. 

O encandeamento das luzes máximas, a ausência de linhas de guia e os buracos sazonais transformam cada viagem num exercício de sobrevivência.

As consequências são devastadoras. Colisões frontais, saídas de pista e fadiga mental tornam-se rotina, minando a confiança colectiva na segurança viária. O impacto económico soma-se: atrasos no transporte, custos adicionais de manutenção e perda de vidas produtivas. Cada buraco é mais do que uma simples ausencia de manutenção técnica. É um golpe na dignidade de quem circula e na credibilidade das instituições responsáveis pela infraestrutura.

A solução exige coragem e investimento em iluminação pública, preferencialmente solar, que daria visibilidade às estradas. A marcação viária reflectiva e a sinalização vertical em curvas e zonas de risco devolveriam referências claras aos condutores. Em aditamento, campanhas de educação rodoviária e fiscalização rigorosa disciplinariam o tráfego e o uso adequado das luzes. É preciso, acima de tudo, uma política de manutenção preventiva, que não espere pela tragédia para tapar buracos, nem os "deixar engordar como frangos no aviário que aguardam pelo abate", como bem ironizou o menino Bebê, na Marginal do Ndondo.

Conduzir em Angola não deveria ser metáfora de cabra-cega, mas experiência de confiança e progresso. As estradas são caminhos de vida, não de morte. Investir em infraestrutura viária é investir em esperança, garantindo que cada viagem seja feita com segurança, dignidade e futuro.


Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo de 14 de Agosto de 2026 

quarta-feira, agosto 12, 2026

À MESA DO AVÔ JOÃO: FEIJOADAS, DOCES E FLATULÊNCIAS

 Avô João dos Santos, “João Kitumbulu”, assim chamado por ter erguido uma fazenda na região alta e semi-plana de Kitumbulu, Kuteka, era tio de minha mãe, nascido em Kindongo, a quem ela tratava por pai.

A casa do avô João, aos meus olhos de criança, parecia um mundo inteiro e autónomo: a cozinha ampla, onde se guardavam tachos e panelas; a despensa, feita de vários “quartos” cheios de mantimentos e instrumentos de campo; a casa menor de dois cómodos, da tia Mingota e do tio Infeliz; e a casa maior, onde se encontrava o quarto do avô João e da avó Emília, com sofás, cristaleira de em que se guardavam os copos de cristal e o material de enfermagem, a sala de jantar com mesa longa e cadeiras, a sala de estar com sofás e máquina de costura, e ainda o quarto do tio Augusto “Kapayo”, onde repousava uma geleira a petróleo.
O avô João gostava de reunir os netos à mesa. Entre feijoadas fumegantes, doces e frutas que a tia Linda nos oferecia — a mim, ao Augusto pequeno e ao Santos — havia sempre o sabor da infância: goiabas maduras, mangas cortadas em pedaços generosos, bolinhos de mel que adoçavam o paladar.
Mas, entre guloseimas e risos, surgiam também as inevitáveis cenas de flatulência. Muitas vezes éramos nós, os netos, que, tentando conter o ar nauseabundo, víamos nossas forças vencidas pelo odor mais forte. Outras vezes, o cheiro intenso, vindo de som inaudível, surgia da mesa, mas as culpas eram jogadas cá abaixo.
“Mais velho não peida”, dizia-se. E havíamos inventado um código: peido de adulto assumido por criança rendia um mimo.
Assim, sempre que se perguntasse "quem peidou" eu estava pronto a defender o adulto flatulento.
A ciência, anos mais tarde, viria confirmar o que a mesa já nos ensinava. Vanusa Ana de Abreu et al. (2020) lembram que o envelhecimento altera a digestão e a microbiota intestinal, favorecendo a produção de gases. O CSIRO Research Team (2026), em estudo publicado na JAMA Network Open, mostrou que adultos saudáveis liberam gases entre duas e sete vezes ao dia, mas nos idosos essa frequência tende a ser maior devido ao trânsito intestinal mais lento e à fermentação bacteriana intensificada.
Já Patriota (2025) observa que dietas ricas em fibras, recomendadas para prevenir a constipação, também aumentam a produção de gases, tornando a flatulência mais frequente.
Essas memórias de infância, entre feijoadas, frutas da tia Linda e códigos secretos, encontram eco na ciência: o que para nós era brincadeira, para os mais velhos era fisiologia. A flatulência, longe de ser apenas motivo de chacota, revela o corpo em sua cadência natural, lembrando-nos que até os silêncios e odores da mesa fazem parte da vida que se partilha.
Assim, entre o riso e o saber, guardo a lembrança de que a mesa do avô João era convivência e vida em estado puro.

segunda-feira, agosto 10, 2026

APELO AOS PARENTES E AMIGOS

Chamo às nossas actuais demandas de “escravatura pós-moderna”.

Somos formalmente livres, mas vivemos sem liberdade real. Sem tempo, sem dinheiro e, mesmo entre os que têm, sem desfrute. Esta condição afasta-nos dos nossos parentes e amigos.


O mais cruel é quando cessamos funções: o tempo volta, mas os afectos não nos recebem como antes. A liberdade que nos prometem é apenas uma pausa entre obrigações.

sábado, agosto 08, 2026

MALANJI: A CIDADE QUE SE DEIXA CAMINHAR

Há cidades que se conhecem de automóvel e há cidades que exigem os pés. Malanji pertence a estas últimas. Caminhei grande parte do seu casco urbano. Fiz questão de percorrer ruas sem pressa, observar as fachadas, os passeios, as árvores e os rostos. A Rua Utra Machado percorri-a de lés a lés, até o asfalto terminar, como quem procura compreender uma cidade para além da fotografia oficial.

Quando Marcos Nhunga era governador de Cabinda, visitei aquela província e regressei impressionado com a limpeza da cidade capital. Agora, em Malanji, encontrei o mesmo traço de governação. As conhecidas visitas relâmpago do governador às obras, muitas delas realizadas durante a noite, parecem ter criado uma cultura permanente de fiscalização e exigência. O resultado salta aos olhos. Malanji é, sem exagero, uma cidade invejosamente limpa, sobretudo quando comparada com a nossa capitalíssima, tendo já parte das árvores podadas, enquanto a chuva observa férias.

Mas nenhuma cidade é perfeita. Enquanto caminhava, deparei-me com colectores de águas pluviais destampados, onde alguém, por inexplicável hábito, havia depositado garrafas PET.

— Quem faz isso? — perguntei a um senhor que observava a rua, encostado à sombra de uma mangueira carregada de flores.

Sorriu, como quem já respondera à mesma pergunta muitas vezes.

— Não são os filhos de Malanji. Esse costume veio de outras paragens. Há quem pense que o colector é um contentor de lixo. Depois, quando chegam as chuvas, todos reclamam das inundações.

Poucos metros adiante, uma senhora que varria alegremente o passeio interrompeu o trabalho para reforçar a conversa.

— Nós limpamos. A Administração limpa. Mas basta uma pessoa sem educação cívica para estragar o esforço de muitos.

Continuei a caminhada. A manhã era fria e o sol ainda despertava lentamente. Aqui e acolá, pequenos buracos, abertos pelo tempo ou por intervenções nas condutas subterrâneas, aguardavam reparação nos passeios. Noutros pontos, montículos de terra deixados por obras de construção civil esperavam remoção. Nada, porém, suficientemente relevante para apagar a impressão dominante de ordem, limpeza e cuidado.

Borracheira nascida no alpendre


O que mais me inquietou foram algumas casas antigas. Uma aqui, outra acolá, vencidas pelo tempo, como velhos combatentes que recusam abandonar a trincheira. Fiquei a imaginar as histórias escondidas entre aquelas paredes gastas. Perguntei-me se os proprietários já não dispõem de recursos para as recuperar, se pedem por elas valores que ninguém aceita ou se, simplesmente, aguardam que o tempo decida o destino daquilo que já não conseguem salvar.

Malanji possui uma identidade que se construiu muito antes da Angola independente. O seu território integrou a esfera de influência do histórico Reino da Matamba, associado à figura maior de Njinga Mbandi. Mais tarde, tornou-se um importante centro administrativo e comercial do interior, consolidando a sua relevância com a chegada do Caminho-de-Ferro de Luanda, que impulsionou o crescimento económico e urbano da região. Hoje, permanece uma província maioritariamente Ambundu, enriquecida pela convivência com comunidades Holo, Bondo e outros grupos que contribuíram para a riqueza da sua identidade cultural.

Talvez seja essa herança que explica o modo discreto como Malanji acolhe quem a visita. A cidade não precisa de monumentos grandiosos nem de gestos espalhafatosos para impressionar. Basta permitir que o visitante a percorra a pé. Foi assim que a descobri.

Ao regressar, levo comigo uma convicção: no pós-independência há realizações que merecem reconhecimento. Nem tudo está concluído. Ainda há património por recuperar, passeios por remendar e comportamentos por corrigir. Mas uma cidade limpa, organizada e humanamente habitável nunca é obra exclusiva de um governo. É o resultado do encontro entre uma administração exigente e cidadãos que compreendem que a rua também é a extensão da sua casa.


Foi essa Malanji que encontrei: uma cidade que se deixa caminhar. Uma cidade que convida à contemplação e à reflexão. Uma cidade que demonstra, silenciosamente, que o desenvolvimento não se mede apenas pelos edifícios que se constroem, mas também pela limpeza das ruas, pela disciplina dos seus habitantes e pelo respeito que cada cidadão demonstra pelo espaço comum.

Porque, no fim de contas, é a forma como tratamos o que é de todos que revela quem relamente somos.

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Publicado a 2 de Agosto no Jornal de Angola

quarta-feira, agosto 05, 2026

KI KUMBALAYETU KINGISUMBU KINDOMBO

[Em nossa terra nunca compraria rama de batata.]

Esta frase, em kimbundu lubolense, nascida da dor dos recuados de então (como eram chamados os deslocados), recorda o tempo em que famílias inteiras, obrigadas a abandonar as aldeias, as lavras e quintas, se viram privadas até daquilo que antes brotava naturalmente da terra. 

Era o retrato da perda de autonomia, da dependência forçada, da ruptura com o chão que sustentava a vida. 

Hoje, sem guerra que empurre para o êxodo, muitos continuam a migrar para os centros urbanos, mas a cidade, que parecia promessa, revela-se dura e cruel: falta de habitação, desemprego, carestia, falta de solidariedade dos parentes e dos vizinhos. Perante um mar de carências, o sonho urbano, muitas vezes, se transforma em desencanto.

_ Vizinha Katembo, em Luanda não se pede sal nem óleo _ responde a vizinha.

_ Vizinho Maventa, papá pediu para emprestar só a catana para cortar lenha _ anuncia o infante. 

A resposta nua e ríspida não se faz rogada.

_ Bebeto, diz ao papá que quem sai do mato para Luanda tem que trazer catana dele. Aqui, cada um por si. Quem se aleja se cura. Se não está a conseguir, volte para a aldeia.

A canção nos lembra que a dignidade começa na terra e que o verde ao redor das casas, nos quintais e nos espaços urbanos, pode devolver autonomia e esperança. 

Plantar jindungu, hortelã, alecrim, mamoeiros e outras culturas frutícolas e hortícolas é mais que prática agrícola: é acto de resistência, de memória e de futuro. 

Nos vasos e pequenos canteiros podem crescer alface, couve, salsa, cebolinha, tomate cereja, pimento, gengibre, manjericão e cenoura, sem exigir grandes espaços. 

Nos quintais urbanos, sem descaracterizar as habitações e a cidade, podem florescer mangueiras, goiabeiras, limoeiros, maracujazeiros, bananeiras, abacateiros e papaieiras, árvores que oferecem sombra, beleza e alimento. 

Não se deve abandonar as aldeias sem reflexão e estruturação. Aproveitar os espaços urbanos e domésticos para cultivar, capitalizar recursos, reduzir custos e construir vida melhor são caminhos de sustentabilidade e dignidade. 

Que cada quintal seja lavra, cada varanda seja horta, cada comunidade seja jardim. Assim, a memória se transforma em prática e a prática em futuro seguro.


(Título) publicado no jornal Pungo a Ndongo a 19 de Junho de 2026.

terça-feira, agosto 04, 2026

O GIGANTE ADORMECIDO DE MALANJI

É tarde malanjina. A sensação é mista: suor para quem caminha e um vento frio que sopra dos prados não muito distantes. O desafio é transpor a linha férrea que tem o seu epílogo em Malanji. O bairro contíguo responde por Ritondo, celebrizado pela equipa de futebol que, em 2003, disputou o Girabola — uma efémera glória que durou apenas uma temporada antes do regresso às divisões inferiores.

Pelo caminho, despertam a atenção as chamadas “casas coloniais”, cujas telhas foram substituídas por chapas metálicas.

— Não conservariam a exuberância se fossem pintadas a preceito e mantivessem as telhas originais?

A pergunta, colocada por muitos, ecoa, mas continua sem resposta.

Galguei metros, bons metros para lá da linha férrea, até que novamente o cimento começou a substituir o adobe rebocado. O saneamento apresenta reclamações: há lixo em locais incertos e águas putrefactas que correm lentamente, denunciando fragilidades urbanas.

Regresso à ferrovia que se estica até Luwanda e caminho sobre ela. Não há barulho. Não se ouve o apito distante do comboio. Não há a algazarra de passageiros atrasados ou de viajantes à procura de camas junto à estação. As herbáceas que abraçam os carris denunciam a ausência da máquina de ferro e a saudade de outros tempos.

Mais uma vez, o lixo encontra morada nos capinzais circundantes. Postiços descartados também. As galinhas esgravatam insectos e grãos na terra, enquanto os suínos revolvem o vazio com os seus focinhos.

Kambondo reconhecido, regresso ao centro da cidade e volto os olhos para aquele que é, provavelmente, o maior edifício alguma vez tentado em Malanji. Da base ao terraço contam-se onze pisos e um entrepiso. Mesmo esquecido, continua a dominar a paisagem urbana e a despertar a curiosidade de quem passa.

Acolho-me numa sombra e começo a perguntar a todos os que passam:
— O que seria este edifício e a quem pertenceu?
Uns gaguejam uma resposta que nunca procuraram. Outros refugiam-se no habitual:
— Não sou de cá.
Recorro a amigos e conhecidos, intelectuais, estudiosos e apaixonados por Malanji — malanjinos que carregam histórias e saudades nos reencontros em Luwanda.

Entre os testemunhos recolhidos surge a contribuição de Tomás Gavino Coelho, que recua às origens da construção. Segundo relata, o início das obras ocorreu entre 1968 e 1970 e o empreendimento pertencia ao grande comerciante malanjino António Santos Pinto. A firma A. Santos Pinto & Irmão possuía o seu estabelecimento comercial na rua principal da cidade, sensivelmente em frente ao antigo edifício do cinema. O empreiteiro encarregado da construção era conhecido por Caracol. Ainda de acordo com esta memória, numa primeira fase, quando apenas o rés-do-chão se encontrava concluído, funcionaram ali estabelecimentos comerciais e uma instituição bancária.

O testemunho acrescenta substância histórica a um edifício envolto em lendas urbanas e ajuda a compreender que aquele gigante de betão não nasceu do acaso, mas de um projecto privado que procurava acompanhar a prosperidade que então caracterizava a cidade.

O edifício encontra-se hoje em avançado estado de degradação e reclama uma reabilitação profunda. Sabe-se que foi objecto de avaliação pelo Laboratório de Engenharia de Angola, que analisou a estrutura para aferir se o seu futuro passaria pela recuperação ou pela demolição.

O gigante adormecido já não ostenta a arrogância dos dias em que foi concebido para dominar a paisagem urbana de Malanji. Continua alto, visível de vários pontos da cidade, mas carrega no corpo as cicatrizes de décadas de abandono. As paredes, outrora erguidas para anunciar prosperidade, exibem agora manchas escuras, sinais de infiltração e o desgaste imposto pelo sol, pela chuva e pelo esquecimento.

Muitas das janelas perderam os seus caixilhos e vidraças. Algumas aberturas parecem olhos vazios voltados para a cidade, observando silenciosamente o movimento das ruas. No interior, o eco substituiu as vozes. Corredores despidos, compartimentos vazios e escadarias sem movimento compõem um cenário onde o tempo parece ter estagnado.

Aqui e ali, a vegetação encontrou caminho entre fissuras e reentrâncias, numa lenta reconquista daquilo que o homem começou e não concluiu. Os vestígios deixados por ocupantes ocasionais misturam-se ao lixo acumulado, revelando que a estrutura, embora abandonada, nunca deixou de fazer parte da vida da cidade.

Ainda assim, o edifício resiste. A sua estrutura mantém-se firme o suficiente para alimentar debates sobre uma eventual recuperação. Não parece um corpo derrotado, mas antes uma obra suspensa entre o passado e o futuro, à espera de que alguém decida o seu destino.

Durante algum tempo, o imóvel terá servido de abrigo para alguns cidadãos e acolhido instituições como o Banco BCI, a Hyundai e a LIVEGUM (Liga da Velha Guarda de Malanji), entre outras.

Uma versão contada por um jornalista local acrescenta uma nova perspectiva:

— Este edifício pertence a Isabel dos Santos. Comprou em 2015. Será escritórios, aparthotel e shopping.

A informação circula como parte da memória recente da cidade, embora careça de confirmação documental pública sobre a titularidade e sobre os projectos previstos para o imóvel.

Outra versão dá conta de que o proprietário original deixou a construção inacabada, apesar de várias tentativas posteriores de aquisição por privados. Segundo esta leitura, os processos anteriores não terão reunido critérios considerados adequados do ponto de vista legal e económico para salvaguarda do interesse do Estado.

Procurei também um septuagenário, nativo de Malanji, antigo responsável pela área da cultura nacional. A resposta veio pronta:
— Não tenho informação sobre o edifício.

Agradeci, pesaroso. Mas é também esta a cultura de Malanji por escrever. A história de uma cidade constrói-se de memórias, esquecimentos, silêncios e testemunhos contraditórios.

Na busca de completar a promessa dos dez mil passos diários, meti-me novamente a sul, a caminho de Maxinde, local que visitara pela manhã. Avancei mais algumas léguas e descobri que entre a cidade e o verdadeiro Maxinde existe o bairro Kafuku-Fuku pelo meio, assim como se interpõem o rio Malanji e o bairro Kamoma entre Maxinde e Kangambu.

A visita à “ponte pequena”, também conhecida como “barragem”, fica para uma próxima vinda do turista explorador.

Por desvendar fica ainda parte da história do gigante adormecido. Mas já se sabe mais do que ontem. Sabe-se que nasceu da iniciativa empresarial de António Santos Pinto. Sabe-se que começou a erguer-se nos derradeiros anos da década de 1960. Sabe-se que acolheu comércio e banca quando ainda era apenas um rés-do-chão. E sabe-se que continua ali, resistente, apesar do abandono.

Enquanto isso, Malanji segue a sua vida. A urbe está invejosamente limpa. Na periferia, as galinhas esgravatam. Os suínos chafurdam. O comboio permanece ausente. E o edifício, mesmo no coração da cidade, continua a guardar a sua última riqueza: a capacidade de fazer perguntas a uma cidade que ainda procura respostas sobre o seu próprio passado.

Soberano Kanyanga, XXVIII de VII de MMVI, publicado pelo Jornal de Angola de 26 Julho/2026.


Publicado no Jornal de Angola a 26 de Julho/26

segunda-feira, agosto 03, 2026

EXPLORANDO AS MARGENS DO RIO QUE DÁ NOME A MALANJI

Dezoito de Julho/26. Sol ainda preguiçoso, como acontece nas manhãs de Kasimbu. Saí do casco urbano desenhado a lápis, esquadra e régua — onde as ruas ainda teimam em ser perpendiculares — para me perder, de propósito, nas entranhas da periferia. Tomei a manhã para conhecer dois bairros que os meus amigos, em Luwanda, evocam com a nostalgia da infância: Maxinde e Kangambu. A memória deles serviu de bússola, afinando a minha intimidade com esta terra.

Maxinde, contíguo à cidade (do lado de cá do rio, para quem vai a Ndalatandu), foi o meu primeiro destino. Ainda cheira a centro, mas já se ouve o cacarejar das galinhas e o grunhido dos ngulu a disputar o lixo que, por essas bandas é raro. As casas fazem a transição entre as de bloco de cimento e a maioria de adobe, blocos de barro cru que o sol endurece. De Maxinde, percorri uma rua longitudinal que me conduziu à Katepa-Zona 5, onde a malha urbana se desfaz em caminhos que se perdem na imensidão do bairro.

Regressei ao eixo principal e atravessei a ponte sobre o Rio Malanji, que corre lento e barrento. A margem oposta, ao rio despe-se de vez do urbanismo. Antes de alcançar Kangambu, passei pela Kamoma, paralela à Carreira de Tiro — nomes que os mais novos já não sabem explicar, mas que ficaram como cicatrizes no mapa, embora a pólvora se tenha dissipado no tempo que apenas os velhos e os militares conservam. A estrada é a EN230, que liga Ndalatandu a Saurimo, rasgando Malanji.

O interior ee Kangambu, paralelo ao Bairro Campo "de Aviação", espera pelo asfalto. Imperam ainda as ruelas desenhadas sem a destreza do arquitecto e os caminhos que se estreitam até às lavras. A terra vermelha domina. Os pés andrajosos ganham cor e a pele ressequida, nesse tempo frio e seco, transforma-se em mapa.

Contei as casas pelas veredas. As de cimento são ilhas raras; a maioria é de adobe, coberta por chapas de zinco que tilintam com o vento e ofendem os olhos quando o sol as atinge. Os velhos colmos de capim são hoje uma raridade, quase lenda. Os mais velhos dizem que o zinco chegou para ficar, mesmo que queime a alma ao meio-dia.

Enquanto pisava o Kangambu, viajava com os meus amigos que hoje estão em Luwanda. Eles falam destes bairros como quem fala de um quintal enorme, onde as brincadeiras se misturavam ao cheiro do peixe seco e do milho assado. No bulício dos carros e arranha-céus, basta mencionar o meu Lubolu para que os olhos deles viajem para estas margens, para as casas de barro cru e as chapas de zinco que, vistas do alto, parecem escamas de um dragão adormecido.

Regressei ao centro ao fim da manhã, com o pó vermelho nos sapatos e a sensação de dever cumprido. A cidade desenhada a régua é apenas a capa do livro. As páginas verdadeiras estão nestes bairros periféricos, onde o asfalto cede à terra, o cimento perde para o adobe, e o zinco canta sobre o vazio deixado pelo capim. Amanhã, talvez, volte ao Kangambu, ou fique pela Katepa-Zona 5, só para ver se o tempo corre mais devagar ali, como corre na saudade dos meus amigos.

Texto publicado pelo jornal Pungo a Ndongo de 24 de Julho de 2026.

sábado, agosto 01, 2026

A CABEÇADA DE JOSEFA

Na nossa infância, no Kaputu, Rua da Ambaca, os bilos estavam sempre presentes. Era como se fossem pão de cada dia. Faziam parte das brincadeiras e serviam de testes para hierarquizar os grupos.

Um fraco, que não fosse bom de basula, kafrique e outros malabarismos na peleja, tinha de escolher como amigo e protector alguém melhor do que ele e temido em outros quarteirões.

Dentre os poucos reverenciados, o primo Ngoçalo era um dos que batiam, nas brincadeiras de anandenge, outros garotos a quem chamávamos de “nossos tejos do Kilwanje", em que figurava o primo Zé Kandungu.

Eram pancadas de jogos, disputas infantis de liderança, que acabava em estigas, risos e poeira levantada no chão da Rua da Ambaca ou no descampado do Kilwanje. Mas quem batia de verdade era a irmã dele, a prima Josefa.

Certa vez, eu brincava com os amigos empunhando jaja, a fisga minúscula que fazia parte das nossas diversões no bairro. O Miguel, nascido em Luanda e filho de pais procedentes de Katete, sentiu-se ofendido e procurou agredir-me. Empreendi uma retirada apressada, pé no ngimbu, em direcção à zona do Chafariz do Kaputu. O Miguel, ao tentar desferir-me uma rasteira, falhou no meu pé e caiu desalmadamente no asfalto. A sua ira aumentou e, ferido no orgulho, esperou por mim numa esquina até ao entardecer.

Tendo presenciado o ocorrido, a prima Josefa, cujos pais eram de Kalulu, assim como eu, não quis que o mal e a supremacia katetense vingassem naquele dia.

Já fim de tarde, eu caminhava apreensivo. Alguém me tinha dito que o Miguel, morador perto da casa do Nelito Joga Bwé, esperava-me para desforrar a queda que tivera.

A prima Josefa, já informada sobre os intentos do jovem Miguel, interceptou-me antes da curva.
— Luciano, não vás sozinho. O Miguel está à tua espera.
— Mana Josefa, eu não lhe fiz nada. Só estava a brincar com os meus amigos e ele me escolheu para me bater. Quando fugi, ele caiu sozinho.
— Ele não quer saber. Caiu, ficou ferido e está furioso. Agora procura vingança.
— E se me apanhar? — perguntei, com voz trêmula.
— Se te apanhar, não te preocupes. Eu trato disso. Hoje Kalulu se defende.

Respirei fundo. A prima Josefa ajeitou os calções, entregou-me os seus chinelos e sentenciou:
— Não sente medo. Anda como se nada tivesse acontecido. Se ele vier e te tocar, vai me conhecer.

E não tardou. O Miguel surgiu da esquina, escoriado e com os olhos faiscando. Agarrou-me com força pelo braço direito, pronto para a agressão. Mas a prima Josefa avançou como raio. Num movimento certeiro, desferiu-lhe uma cabeçada que ecoou pelo bairro. O agressor cambaleou, viu estrelas e caiu.

Eu, pasmado pela façanha da prima Josefa, só consegui murmurar:
— Mana Josefa, salvaste-me…
— É para isso que servem as manas. Agora corre para casa do tio Ferreira. Se ele te agredir amanhã ou noutro dia, vai a casa me avisar que eu lhe tiro a banga de katetista.

A fama de Josefa espalhou-se. No Kaputu, dizia-se em tom de aviso:
— Não te metas com a Josefa. Vai te tirar dentes com cabeçada. Pergunta ao Miguel!

Foi assim que ganhei uma protectora. Josefa, por sua vez, consolidou a lenda de ser “dona de uma cabeçada estarrecedora”, lembrada até hoje pelos que viveram aqueles tempos na Rua da Ambaca e arredores.
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Publicado no Jornal Luanda, a 8.6.2026