É tarde malanjina. A sensação é mista: suor para quem caminha e um vento frio que sopra dos prados não muito distantes. O desafio é transpor a linha férrea que tem o seu epílogo em Malanji. O bairro contíguo responde por Ritondo, celebrizado pela equipa de futebol que, em 2003, disputou o Girabola — uma efémera glória que durou apenas uma temporada antes do regresso às divisões inferiores.
Pelo caminho, despertam a atenção as chamadas “casas coloniais”, cujas telhas foram substituídas por chapas metálicas.
— Não conservariam a exuberância se fossem pintadas a preceito e mantivessem as telhas originais?
A pergunta, colocada por muitos, ecoa, mas continua sem resposta.
Galguei metros, bons metros para lá da linha férrea, até que novamente o cimento começou a substituir o adobe rebocado. O saneamento apresenta reclamações: há lixo em locais incertos e águas putrefactas que correm lentamente, denunciando fragilidades urbanas.
Regresso à ferrovia que se estica até Luwanda e caminho sobre ela. Não há barulho. Não se ouve o apito distante do comboio. Não há a algazarra de passageiros atrasados ou de viajantes à procura de camas junto à estação. As herbáceas que abraçam os carris denunciam a ausência da máquina de ferro e a saudade de outros tempos.
Mais uma vez, o lixo encontra morada nos capinzais circundantes. Postiços descartados também. As galinhas esgravatam insectos e grãos na terra, enquanto os suínos revolvem o vazio com os seus focinhos.
Kambondo reconhecido, regresso ao centro da cidade e volto os olhos para aquele que é, provavelmente, o maior edifício alguma vez tentado em Malanji. Da base ao terraço contam-se onze pisos e um entrepiso. Mesmo esquecido, continua a dominar a paisagem urbana e a despertar a curiosidade de quem passa.
Acolho-me numa sombra e começo a perguntar a todos os que passam:
— O que seria este edifício e a quem pertenceu?
Uns gaguejam uma resposta que nunca procuraram. Outros refugiam-se no habitual:
— Não sou de cá.
Recorro a amigos e conhecidos, intelectuais, estudiosos e apaixonados por Malanji — malanjinos que carregam histórias e saudades nos reencontros em Luwanda.
Entre os testemunhos recolhidos surge a contribuição de Tomás Gavino Coelho, que recua às origens da construção. Segundo relata, o início das obras ocorreu entre 1968 e 1970 e o empreendimento pertencia ao grande comerciante malanjino António Santos Pinto. A firma A. Santos Pinto & Irmão possuía o seu estabelecimento comercial na rua principal da cidade, sensivelmente em frente ao antigo edifício do cinema. O empreiteiro encarregado da construção era conhecido por Caracol. Ainda de acordo com esta memória, numa primeira fase, quando apenas o rés-do-chão se encontrava concluído, funcionaram ali estabelecimentos comerciais e uma instituição bancária.
O testemunho acrescenta substância histórica a um edifício envolto em lendas urbanas e ajuda a compreender que aquele gigante de betão não nasceu do acaso, mas de um projecto privado que procurava acompanhar a prosperidade que então caracterizava a cidade.
O edifício encontra-se hoje em avançado estado de degradação e reclama uma reabilitação profunda. Sabe-se que foi objecto de avaliação pelo Laboratório de Engenharia de Angola, que analisou a estrutura para aferir se o seu futuro passaria pela recuperação ou pela demolição.
O gigante adormecido já não ostenta a arrogância dos dias em que foi concebido para dominar a paisagem urbana de Malanji. Continua alto, visível de vários pontos da cidade, mas carrega no corpo as cicatrizes de décadas de abandono. As paredes, outrora erguidas para anunciar prosperidade, exibem agora manchas escuras, sinais de infiltração e o desgaste imposto pelo sol, pela chuva e pelo esquecimento.
Muitas das janelas perderam os seus caixilhos e vidraças. Algumas aberturas parecem olhos vazios voltados para a cidade, observando silenciosamente o movimento das ruas. No interior, o eco substituiu as vozes. Corredores despidos, compartimentos vazios e escadarias sem movimento compõem um cenário onde o tempo parece ter estagnado.
Aqui e ali, a vegetação encontrou caminho entre fissuras e reentrâncias, numa lenta reconquista daquilo que o homem começou e não concluiu. Os vestígios deixados por ocupantes ocasionais misturam-se ao lixo acumulado, revelando que a estrutura, embora abandonada, nunca deixou de fazer parte da vida da cidade.
Ainda assim, o edifício resiste. A sua estrutura mantém-se firme o suficiente para alimentar debates sobre uma eventual recuperação. Não parece um corpo derrotado, mas antes uma obra suspensa entre o passado e o futuro, à espera de que alguém decida o seu destino.
Durante algum tempo, o imóvel terá servido de abrigo para alguns cidadãos e acolhido instituições como o Banco BCI, a Hyundai e a LIVEGUM (Liga da Velha Guarda de Malanji), entre outras.
Uma versão contada por um jornalista local acrescenta uma nova perspectiva:
— Este edifício pertence a Isabel dos Santos. Comprou em 2015. Será escritórios, aparthotel e shopping.
A informação circula como parte da memória recente da cidade, embora careça de confirmação documental pública sobre a titularidade e sobre os projectos previstos para o imóvel.
Outra versão dá conta de que o proprietário original deixou a construção inacabada, apesar de várias tentativas posteriores de aquisição por privados. Segundo esta leitura, os processos anteriores não terão reunido critérios considerados adequados do ponto de vista legal e económico para salvaguarda do interesse do Estado.
Procurei também um septuagenário, nativo de Malanji, antigo responsável pela área da cultura nacional. A resposta veio pronta:
— Não tenho informação sobre o edifício.
Agradeci, pesaroso. Mas é também esta a cultura de Malanji por escrever. A história de uma cidade constrói-se de memórias, esquecimentos, silêncios e testemunhos contraditórios.
Na busca de completar a promessa dos dez mil passos diários, meti-me novamente a sul, a caminho de Maxinde, local que visitara pela manhã. Avancei mais algumas léguas e descobri que entre a cidade e o verdadeiro Maxinde existe o bairro Kafuku-Fuku pelo meio, assim como se interpõem o rio Malanji e o bairro Kamoma entre Maxinde e Kangambu.
A visita à “ponte pequena”, também conhecida como “barragem”, fica para uma próxima vinda do turista explorador.
Por desvendar fica ainda parte da história do gigante adormecido. Mas já se sabe mais do que ontem. Sabe-se que nasceu da iniciativa empresarial de António Santos Pinto. Sabe-se que começou a erguer-se nos derradeiros anos da década de 1960. Sabe-se que acolheu comércio e banca quando ainda era apenas um rés-do-chão. E sabe-se que continua ali, resistente, apesar do abandono.
Enquanto isso, Malanji segue a sua vida. A urbe está invejosamente limpa. Na periferia, as galinhas esgravatam. Os suínos chafurdam. O comboio permanece ausente. E o edifício, mesmo no coração da cidade, continua a guardar a sua última riqueza: a capacidade de fazer perguntas a uma cidade que ainda procura respostas sobre o seu próprio passado.
Soberano Kanyanga, XXVIII de VII de MMVI, publicado pelo Jornal de Angola de 26 Julho/2026.
Publicado no Jornal de Angola a 26 de Julho/26



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