Avô João dos Santos, “João Kitumbulu”, assim chamado por ter erguido uma fazenda na região alta e semi-plana de Kitumbulu, Kuteka, era tio de minha mãe, nascido em Kindongo, a quem ela tratava por pai.
A casa do avô João, aos meus olhos de criança, parecia um mundo inteiro e autónomo: a cozinha ampla, onde se guardavam tachos e panelas; a despensa, feita de vários “quartos” cheios de mantimentos e instrumentos de campo; a casa menor de dois cómodos, da tia Mingota e do tio Infeliz; e a casa maior, onde se encontrava o quarto do avô João e da avó Emília, com sofás, cristaleira de em que se guardavam os copos de cristal e o material de enfermagem, a sala de jantar com mesa longa e cadeiras, a sala de estar com sofás e máquina de costura, e ainda o quarto do tio Augusto “Kapayo”, onde repousava uma geleira a petróleo.
O avô João gostava de reunir os netos à mesa. Entre feijoadas fumegantes, doces e frutas que a tia Linda nos oferecia — a mim, ao Augusto pequeno e ao Santos — havia sempre o sabor da infância: goiabas maduras, mangas cortadas em pedaços generosos, bolinhos de mel que adoçavam o paladar.
Mas, entre guloseimas e risos, surgiam também as inevitáveis cenas de flatulência. Muitas vezes éramos nós, os netos, que, tentando conter o ar nauseabundo, víamos nossas forças vencidas pelo odor mais forte. Outras vezes, o cheiro intenso, vindo de som inaudível, surgia da mesa, mas as culpas eram jogadas cá abaixo.
“Mais velho não peida”, dizia-se. E havíamos inventado um código: peido de adulto assumido por criança rendia um mimo.
Assim, sempre que se perguntasse "quem peidou" eu estava pronto a defender o adulto flatulento.
A ciência, anos mais tarde, viria confirmar o que a mesa já nos ensinava. Vanusa Ana de Abreu et al. (2020) lembram que o envelhecimento altera a digestão e a microbiota intestinal, favorecendo a produção de gases. O CSIRO Research Team (2026), em estudo publicado na JAMA Network Open, mostrou que adultos saudáveis liberam gases entre duas e sete vezes ao dia, mas nos idosos essa frequência tende a ser maior devido ao trânsito intestinal mais lento e à fermentação bacteriana intensificada.
Já Patriota (2025) observa que dietas ricas em fibras, recomendadas para prevenir a constipação, também aumentam a produção de gases, tornando a flatulência mais frequente.
Essas memórias de infância, entre feijoadas, frutas da tia Linda e códigos secretos, encontram eco na ciência: o que para nós era brincadeira, para os mais velhos era fisiologia. A flatulência, longe de ser apenas motivo de chacota, revela o corpo em sua cadência natural, lembrando-nos que até os silêncios e odores da mesa fazem parte da vida que se partilha.
Assim, entre o riso e o saber, guardo a lembrança de que a mesa do avô João era convivência e vida em estado puro.
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