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segunda-feira, junho 22, 2026

ALEGRILHOSO: UM SENTIMENTO DUPLO

Ponto prévio: a língua, com seus conservadorismos, desusos e neologismos, pertence àqueles que a usam no seu dia a dia e que a dão forma e vida.

Yuri: rapaz do Chongoroi

Há palavras que nascem da boca do povo e se tornam marcas de identidade. Outras surgem da necessidade de dizer mais do que o vocabulário herdado permite. Em Angola, proponho que se acolha uma palavra nova, justa e necessária: “alegrilhoso”. A fusão de alegria e orgulho, inseparáveis quando se trata de conquistas pessoais e colectivas.

A primeira vez que ouvi a expressão foi verbalizada por um menino de Chongoroi, município de Benguela, em entrevista à TPA, depois de um espectáculo infantil realizado a propósito do Dia da Criança Africana, 16 de Junho. Yuri, bom falador e conhecedor das suas gentes e traços culturais em que se destaca a boa educação, falou de forma sabida, altiva, respeitosa e sem gaguejar diante do jornalista. Feitas as contas, por junto e atado, o menino só podia ficar alegrilhoso. E eu, espectador atento, também fiquei assim depois de ver a performance e a entrevista.

Do meu lado, a travessia académica também me conduz a este sentimento. Em 1994 iniciei a formação média em jornalismo no IMEL, concluída em 1996 sem nunca recorrer a exame de recurso. Em 2003, já no 4.º ano da licenciatura em Didáctica de História no ISCED de Luanda, abracei também o ISPRA, onde me graduei em Ciências da Comunicação. Seguiram-se a pós-graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (GCH), na Faculdade de Agudos, (São Paulo, 2014–2015), e o Mestrado em Ciências Empresariais na Universidade Fernando Pessoa (Porto 2020). Cada etapa foi uma conquista, cada diploma um marco. Do ponto de vista académico, não posso senão sentir-me alegre e orgulhoso. Mas dizer apenas isso parece insuficiente. O que sinto é mais: é alegrilhoso.


A língua portuguesa em Angola tem longa tradição de absorver termos que exprimem melhor a nossa realidade. “Alegrilhoso” não é apenas uma soma de palavras. É uma síntese de emoções que se entrelaçam.

Alegria: o sorriso que nasce da conquista.

Orgulho: a consciência do esforço e da dignidade alcançada.

Alegrilhoso: o estado em que ambos se fundem, inseparáveis.

Em Angola, onde a oralidade sempre foi veículo de identidade, criar palavras novas, como "pocalizar", é também afirmar soberania linguística. “Alegrilhoso” pode tornar-se expressão corrente em discursos de formatura, em crónicas jornalísticas, em canções populares. É uma palavra que carrega o peso da luta e o brilho da vitória. Assim como “kilamba” ou “mwamba” evocam realidades locais, “alegrilhoso” pode ser a marca de uma geração que não se contenta em traduzir sentimentos alheios, mas inventa os seus próprios.

Hoje, ao olhar para o meu percurso e ao recordar a altivez de Yuri em Chongoroi, não encontro termo mais justo. Não sou apenas alegre, nem apenas orgulhoso. Sou alegrilhoso. E creio que muitos angolanos, ao nomear as suas vitórias pessoais e colectivas, sentirão que esta palavra também lhes pertence.


(Soberano Kanyanga)

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