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terça-feira, novembro 07, 2023

O ESTADO DAS "NOSSAS MARAVILHAS"

Entre Novembro de 2013 a Setembro de 2014 assistimos a um concurso nacional de promoção de "acidentes geográficos" passíveis de se tornarem locais de interesse turístico e dignos de memória colectiva, passando à designação de "sete maravilhas" de Angola.

Grutas do Zenzo, Lagoa de Karumbu, Quedas de Kalandula, Morro do Moku, Quedas do Cihúmbwe, Fenda da Tundavala e Floresta de Cabinda sagraram-se vencedores, entre vinte e sete finalistas.

Durante a campanha, com ampla divulgação mediática e dinheiro fresco que a sustentou, jornalistas retomados, políticos e figuras proeminentes da sociedade emprestaram seus rostos e vozes para atrair os votos, numa espécie de "gosto do Kanyanga, ele promove Kalulu, voto em Kalulu!"

Racionais ou eufóricos, votamos e foi bom. 

Mesmo não tendo sido finalista, a minha mulher pediu-me para conhecer as Cachoeiras da Binga e, acto contínuo, fomos conhecer as Quedas de Kalandula, em Malanji.

Passados 9 anos, quatro perguntas me ocorrem:

1- Que incrementos infraestruturais tiveram as sete "maravilhas" de Angola?

3- Que quantidade de turistas recebe anualmente cada uma destas "maravilhas"?

3- A par da contemplação visual, há preservação da fauna e flora, podendo ser outros atractivos?

4- A Table Mountain (Cape Town), por exemplo, é um parque nacional. Como vamos nós (Angola) em relação a esta matéria nas nossas "sete maravilhas"?

quarta-feira, novembro 01, 2023

DE VOLTA À MONTANHA

A 16 de Setembro de 2023 fui, pela terceira vez, ao cume da "Table Mountain", tida como uma das "sete melhores maravilhas turísticas do mundo", levado pelo telesférico ou "cable" na língua deles. 

Ao contrário das duas primeiras visitas, em que foram dias ensolarados e abertos, portanto, sem nuvens, desta vez a nuvens densas confundiam-se com chuva preguiçosa e a sensação térmica andava à volta dos 3° celcius, imprópria para um cidadão que vive regularmente próximo da Linha do Equador. 

Mesmo com essa adversidade (frio intenso), e depois de um café e um chocolate quentes, deu para me atrever a uma caminhada pelos andarilhos e pontos de observação cuidadosamente construídos no também Parque Nacional. Chamou-me à atenção a presença do Damão-de-Cabo ou Hyrox, um animal roedor que vive entre pedras, caminhando sobre elas como se tivesse araldite entre as patinhas com três dedos apenas. É o kezu, no nosso Kimbundu, ou canta-pedra, como aprendi no Português Libolense da minha infância.

Confesso. Já andei à caça destes mamíferos placentários e experimentei a missão árdua de os capturar e deliciar-me com o sabor de sua carne, num período de escassez de conduto. Lamento. Foi em uma época de total ignorância e carências, para além do facto de que o animal ainda se apresentava a cantarolar por todos os lados onde houvesse grutas e rochedos.

No Libolo, por exemplo, a deslocação forçada pela guerra civil de muitas pessoas de suas aldeias, deixando para trás os seus meios de subsistência, empurrou-os à caça desenfreada, não só para se alimentarem, mas também para trocarem a carne por outros alimentos e bens. Como consequência, criou-se o vício da caça pelo dinheiro e ficou gravemente acometida a fauna, algo que tende a persistir, demandando mão firme e pesada.

É triste que homens de hoje, alguns mais abastados, do ponto de vista de informação científica e materialmente, continuem a dizimar animais, legando a seus filhos e netos apenas estórias sobre animais (que estejam eventualmente) extintos da nossa fauna que já foi muito rica.

Cada um, na sua aldeia, no seu bairro, na sua comunidade pode ser influenciador positivo sobre a necessidade de criarmos animais domésticos e pouparmos os selvagens. 

Já nos idos de 1980, o meu pai (de feliz memória) recomendava:

- Só se mata uma fêmea se não puder ser identificada previamente.

E jutificava que "as fêmeas eram a continuidade da fauna". No dizer dele, embora com pouca instrução académica, "se as fémeas acabassem já não teríamos animal nenhum e deixaríamos de caçar".

É que se não tomarmos consciência agora, pode ser que os nossos netos tenham de ir, daqui a cinquenta anos, pedir à África do Sul um casal de canta-pedras para repovoar os nossos parques como o da Tundavala que, ao que se diz, foi declarado "Local de Interesse" depois de ter sido classificado como uma das 7 maravilhas turísticas de Angola.

Pense nisso!

sábado, outubro 28, 2023

A ÁGUA QUE (NÃO) TEMOS LÁ & CÁ

Lisboa, a segunda capital de um bom número de angolanos, alguns fingidos em bons patriotas, registou uma temperatura máxima de 27° na terça 26.10. Nesse período, Luanda e Lisboa são cidades quentes que impõe algumas necessidades comuns aos cidadãos residentes e visitantes, sobretudo os amantes da caminhada. Porém, uma das coisas que faz diferença entre as duas capitais é o facto de o caminhante lisboeta puder encontrar um bebedouro numa paragem de autocarro, numa estação de comboios ou num jardim. 

Em Luanda, apesar de muitos não conferirem qualidade à água da rede pública, sabemos que a maioria da população a leva ao estômago sem outros tratamentos prévios como a decantação, fervura, desinfecção com iodo ou pastilhas, filtração ou adição. Essas pessoas, por serem as que menos dinheiro possuem, eventualmente, não se inibiriam em beber água da bica instalada no largo da Independência, da Mutamba ou na Marginal do Bispo. 

O que vemos é que, enquanto avançamos em uma direcção com a reposição da água encanada (o que é a todos os níveis louvável) a extensão destas serventias ao espaço público vai demorando. 

Em Lisboa, onde as pessoas preferem a água da torneira à engarrafada, é comum encontrar bebedouros públicos nas ruas e largos da cidade. Embora nãomais precisem de chafarizes, num largo da cidade do Porto encontrei um esguicho que tanto atende os que passam sedentos, como serve de memória colectiva, lembrando como a água chegava à comunidade antes de ser encanada para as residências.

Será que, por extensão, os angolanos negariam bicas nas ruas e largos das cidades e vilas?

Eventualmente alguém diga que a construção desses equipamentos enfrentaria o desafio da segurança, visto que cresce o vandalismo contra a coisa pública. Aqui, a solução é mesmo o uso de "mão de plumas e barrete de ferro" por parte da nossa polícia e dos órgãos de justiça. Automobilista que parta assentos públicos ou poste de iluminação deve repô-los, acrescido de multa exemplar, para além da responsabilização pelo acidente. Bandido que danifique ou roube bem público deve ser condenado à pena correcional e serviços comunitários. Quando isso acontecer, os bens e equipamentos públicos permanecerão perenemente e o seu usufruto alegrará gerações.
Já agora, que tal dos urinóis públicos que, sob gestão de jovens actualmente desempregados (através de parcerias-publico-privadas), podem conferir valor social, económico e ambiental às nossas vilas e cidades?
Penso que é chegado o tempo para voltarmos ao normal!
Publicado pelo Jor. Angola a 12.11.2023

domingo, outubro 22, 2023

HIKING A MOUNTAIN

Os 950 m de altura, em atalho íngreme do Kloof Corner (a caminho da Table Mountain), pareciam insuperáveis para um quase cinquentão, único entre uma vintena de jovens de vinte a trinta anos. Olhando para o desafio, escalar a montanha por um andarilho, o lado preguiçoso que, infelizmente, todos temos apelava à desistência. 

Sons estranhos vozeiravam em mim. "Kota, não vale apenas só. Vai p'ra casa, prepara tua prova e aprecia uma "kisângwa".

Procurei não ceder e o lado corajoso se sobrepôs, apelando-me ao foco no resultado e não no desafio. 

Quando, ofegante, a meio do percurso, sem saber se continuava ou desistia, com os vasos nasais a se mostrarem demasiadamente estreitos para levar aos pulmões a quantidade de ar que estes demandavam, abri a boca e levei-a mais próxima dos pulmões. Foi como se um veículo 4×4 tivesse ligado o turbo.

Não tardou. Os jovens que me achavam de velho passaram a perguntar-me um a um: "Kota, de onde provêm toda essa tua energia"?

A minha resposta foi curta e incisiva: Perante uma prova aparentemente difícil, foque-se no resultado e não no desafio!

Mais um vez, cansado, mas realizado, já no sopé e enquanto esperava pela chegada do Uber, encostei-me a um rochedo, tal qual George Washington, após a travessia do rio Mississipi, mas, não fazendo perguntas como ele, fiquei a pensar na (im)possibilidade de termos também andarilhos nas nossas serras e montanhas para "entreter" turistas e amealhar alguma pecúnia que muita falta nos faz. Vieram-me à cabeça todas as montanhas da minha infância e puberdade como o Morro do Moco, o Luvili, o Manyangwa (entre Muxixi e Lususu, cuja cordilheira se estende ao Kitumbulu), a Serra da Leba, a encosta do Cristo Rei (Lubango) a Tundavala, a Serra das Neves, o morro do Tongo, as montanhas do Kabutu (Kuteka ao Kikole), a Phaka (Kisongo), o Kalyematuji (Kalulu), o Lupange, o Morro do Xingo, as Serras da Kanda e Kusu e tantas outras elevações escaláveis.


domingo, outubro 15, 2023

NOTAS (AVULSAS) DE UM TURISTA-ESTUDANTE

Em formação em Sea Point, que quer dizer "em frente ao mar", o autor destas linhas foi percorrendo as ruas e os edifícios, contemplando-os e comparando o que tinha analogia com coisas conhecidas ou imaginadas. Sea Point é uma cidade (anexa a Cape Town) animada e próspera. Ao longo da costa, o Sea Point Promenade é um passeio popular para caminhadas. Existem vários bares de sushi, restaurantes de fast food e pizarias. Artesanato africano, café artesanal e música ao vivo são algumas das atrações do colorido Mojo Market, mas a curiosidade estendeu-se à Central City, como é também designada Cape Town, a pontos como:

Kirstenboch: é um jardim botânico, no centro de Cape Town. Aqui começou a colónia e a cidade. Depois de os holandeses terem aportado, começaram a fazer pequena agricultura e, depois, uma mais desenvolvida para se alimentarem, enquanto descansavam, e para abastecer outros navios que velejavam para as Índias Orientais e ou rumando de regresso à Europa.

Da alta e lisa montanha corria, mar abaixo, um rio de água doce e fresca que facilitava a horticultura e a criação de animais. Com certeza que já leu ou ouvir falar sobre os boers (fazendeiros holandeses que se instalaram no Cabo).

"Era preciso também curar os doentes que não continuavam as viagens por fadiga e outras comorbidades”.

No sopé do espilhaço, as videiras e o vinho juntaram-se às ervas alimentares, medicinais e especiarias.

Para além da água, na encosta da Table Moutain, os lenhadores aproveitaram a densidade da floresta para produzirem lenha e carvão que atendiam a "estação em terra" e os navios transoceânicos.

A cordilheira circundante está, porém, hoje, bastante arborizada com pinheiros e outras espécies, numa combinação entre árvores nativas e decorativas. Até animais selvagens (não violentos) voltaram e convivem com os humanos, numa impressionante harmonia.

Mas não são apenas rosas neste vergel. Há também loisas. Uma delas é a quantidade de mendigos e sem-abrigos que inundam o relvado, chegando a ser um "incómodo" aos turistas desacostumados com aquelas molduras de lazarones espalhados pelo Kirstenboch.

Até o pequeno esquilo apoquenta-se do massivo exército de homeless men, pois, se pensasse, optaria sempre pela melhor escolha entre a panela ou a grelha e as animadas brincadeiras num horto sem gatos e cães famintos.

Cansado, mas reconfortado, miro para a Geologia de Cape Town e a do Lubango que me parecem gêmeas, apesar de uma situar-se a um palmo do Atlântico e outra olhar distante o largo mar. Viro-me para as obras também e vejo um caminho longo pela frente que temos todos, corajosamente, de fazer.

Bo Kaap: bairro "nobre" de Cape Town que foi, no século XVIII, acampamento de escravos saídos da Ásia e alguns da África Oriental para a Colónia do Cabo. Embora não sejam todos ou maioritariamente malaios, o bairro é referenciado em algumas passagens literárias também como "Bairro dos malaios".

Dada a história que encerra, é hoje emblemático e digno de várias visitas de turistas, sendo um dos cartazes postais da Cidade de Cabo.

As casas, segundo o que vimos e a narração do guia turístico, são multicolores e pintadas duas a três vezes ao ano para manter o aspecto cromático exterior atraente.

"Passou de um acampamento de escravos para uma zona nobre", não sendo "qualquer um que consiga comprar casa em Bo Caap", explicou o guia.

A policromia, dizem os dados históricos recolhidos, surgiu com a libertação dos escravos que pintaram suas casas, mostrando sua nova condição de homens livres.

Dado que a religião maioritária era e é ainda a muçulmana, o bairro recebeu, no período do apartheid, vários muçulmanos não brancos de outros bairros. Foi excepção de não brancos mantidos na cidade.

Ainda no tempo da escravatura, conta-se, os escravagistas concediam o 1° de Janeiro de todos os anos como "free day" ou dia de festa para os moradores de Bo Kaap.

"O 1° de Janeiro era um dia em que os escravos e outros trabalhadores semi-livres festejavam, dançavam ao batuque, cantavam e comiam do que podiam. Até hoje, passadas varias gerações e l mais de um século desde a abolição da escravatura, o primeiro dia do ano, continua a ser festa em Bo Kaap", conta Jawaiya Cassiem, professora de inglês para estrangeiros em uma das bem cotadas escolas de Sea Point e declarada descendente de escravos "malaios".

Numa dada altura, o crescimento da população de Bo Kaap levou a expansão para outra localidade que se passou a chamar District Six. Este foi, infelizmente, demolido (com os haveres das populações dentro das habitações) pelo regime do apartheid, empurrando os mais de 90% de seus moradores negros para bairros longínquos de Cape Tow.

Há, porém, entre os homens que a história regista, alguns que o tempo reabilita. É o caso de Cecil Rhodes.

Quarenta e nove anos foi quanto viveu o explorador britânico, fundador da Rodésia do Sul (Zimbabué) e Rodésia do Norte (Zâmbia).

O homem foi ainda o mentor da ideia para construção de uma ferrovia que ligasse as cidades de Cabo e Cairo, sendo o carrasco do "Mapa Cor-de-Rosa" elaborado pelos "tugas" que pretendiam ligar as então colónias de Angola e Moçambique.

O guia turístico, que conduziu Mangodinho e colegas da "kabunga anglófona" a alguns pontos de referência histórica de Cape Town, explicou que “Cecil, é recordado como um visionário que fez de Cape Town o que é hoje".

Neto de emigrantes de Java e Reino Unido (avós maternos e paternos, respectivamente), o guia turístico foi mais profundo em dizer que "a colonização é, a todos os níveis, condenável, mas há obras, como a de Cecil, que se constituem em boas memórias".

Rhodes fundou também a diamantífera De Beers e foi Primeiro-ministro da Colónia do Cabo, de 1890 a 1896. Foi a seguir as suas peugadas que cheguei a Boschendal, num tour que nos levou à prova de vinhos sul-africanos. Foi-nos apresentada como "Cecil John Rodhes's Farm" ou seja, a fazenda da família do fundador da De Beers.

À exuberância verdejante e plana dos campos, no sopé, foi agregado o turismo agrovinícola. As "farm" também acolhem casamentos e outros eventos sumptuosos. Outra pequena nota é que, aqui, o negócio agrícola tem um percurso familiar.

Muitas propriedades passaram de mãos. Umas se juntaram a outras, alargando os hectares, e algumas foram vendidas a novos donos, mas os adquirentes são pessoas e organizações com tacto, conhecimento e tradição nesse segmento de negócio.

A propósito, ao longo do tour, vimos uma fazenda que apresentava terrenos vastos em repouso ou sem nunca receberem alguma semente e uma velha casa sem tecto e portas. Irónico, o jovem que ia comigo disse para mim:

_ Tio, essa fazenda deve ser de um político negro sul-africano.

Quando o questionei sobre a razão daquele pressentimento e observação, o jovem foi peremptório:

_ Faz-me lembrar as fazendas coloniais que foram estatizadas, entrando em desuso até se tornarem propriedade de ninguém. Quando veio a nova vaga dos políticos-fazendeiros, tomaram-nas como suas, sem nunca plantar sequer uma nova árvore. Simplesmente pintaram ou repararam algumas casas, as dos antigos donos fazendeiros, colocaram alguns cavalos e construíram piscinas para o deleite dos seus filhos e de suas concubinas.

Saídas de um jovem, menor de trinta anos, aquelas palavras secas e realísticas levaram-me a pensar no quanto devemos reflectir sobre a agricultura que (ainda não) temos, como fazer para que o nosso prato seja cada vez mais nacional e se agregue ao cultivo da terra, enquanto paixão e profissão, a componente turística.

_ Kenhê o mwangolé que tem a sua fazenda (herança familiar) bem arrumadinha e aberta a visitantes que debitam algumas moedas à entrada e/ou à saída?

Quanto à prova de vinhos, relatarei um dia.

Durante o dia, de vinícola em vinícola, mostrámos a nossa angolanidade e convicção ideológica, respeitando, obvio, a alheia e fazendo pontes. Afinal, somos poucos e cabemos todos no país que muito precisa de nossas ideias e labor.


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Texto publicado pelo Jor. Angola de 15.10.2023

segunda-feira, outubro 09, 2023

OS ÓCULOS DE MANDELA E OS MEUS

Embora sejam úteis ao meu trabalho, os meus óculos não têm história. Ganham, agora, a sorte de ter uma estória (escrita e publicada).

Usei uns sem graduação, quando era teeneger, abandonando-os na primeira esquina da juventude, quando o culturismo ocupava parte do pouco tempo livre. 

Depois, surgiu a necessidade ingente de renda e, de desempregado, passei a ter (quase) invariavelmente dois ou mais patrões.

A entrar para a fase adulta ou juventude plena (ainda), a exposição prolongada ao écrã do computador (deduzo) ter-me-á levado à primeira consulta de optometria e oftalmologia. Houve ainda um interregno, depois de quatro a cinco anos de uso de lentes correctivas. Porém, hoje, depois do telefone celular, os óculos são o meu segundo objecto de preocupação imediata e permanente.

Passemos a Madiba. 

Quem caminha à beira-mar, em Sea Point, Cape Town, verá, inocultável, um monumento réplica dos óculos do primeiro presidente negro da África do Sul. A caminhar pela baia, "Mandela's Glasses" é um ponto em que os turistas de várias origens (e até nacionais) procuram parar e fazer uma foto ímpar que serve de lembrança aos amigos (daqueles que fazem publicações nas redes sociais) e para marcar durante a vida toda a estadia em Sea Point e a passagem pelo local.

Cada detalhe, cada objecto da vida de um líder com a grandeza de Nelson Mandela ou Agostinho Neto pode ser transformado em motivo de atracção turística.

É sabido que os angolanos, representados pela Direcção do MPLA, negaram-se em receber os restos mortais do "guia imortal" sem os seus óculos, tendo, ao que se diz, a urna funerária voltada à União Soviética (Setembro de 1979) para a colocação dos óculos e permitir que o cadáver embalsamado fosse facilmente reconhecido como o de Agostinho Neto que sempre se apresentou em público com os seus pesados óculos.

Vejamos, por exemplo, como a China, noutra latitude, faz para fomentar o turismo interno, fazendo réplicas de monumentos de outros países.

Uma réplica da Torre Eiffel pode ser vista em Tianducheng, ao passo que Xangai tem cópias da Torre (inclinada) de Pisa e Thames Town. A Florentia Village pode ser visitada em Wuqing e Hallstatt, em Huizhou.

_ Podemos copiar o monumento com a réplica dos óculos de Mandela e termos também na nossa Marginal de Luanda um local com os "Óculos de Neto"?

Acredito piamente que é possível!

quarta-feira, outubro 04, 2023

CÁ&LÁ: ESTÁ DIFÍCIL

Os dados da edilidade de Lisboa apontam uma estimativa de 2 mil e trezentos homeless e ou acampados (em jardins).

Muitas entradas e saídas de comboio estão impedidas pelos "sem casa" que nelas se instalaram. 

Garagens, armazéns, varandas, esquinas, tudo serve para estender papelão ou colchão.

Pior: quem vive debaixo de ponte ou coisa parecida enfrenta enormes dificuldades para manter a higiene. Entre fazer-se lazarone ou procurar emprego, a primeira opção parece mais à mão. Porém, não colhe, como também já não há tantos dadores perante a quantidade infinita de mãos estendidas à caridade.

Entre os homeless constam imigrantes (legais e ilegais), refugiados (ucranianos, sírios e africanos) e tantos outros nacionais (perdidos na kangonya e kapuka) que se fazem passar por refugiados.

Se você quer emigrar, a decisão é sua. Saiba, porém, que: está mesmo duro!

Tal como cantou Dog Murras, "uns não voRtam é só vRegonha. Não têm nada fora!"

domingo, outubro 01, 2023

NÓS E AS PISCINAS


Nos anos 10 deste século XXI, conheci a Piscina de Saurimo, descrita em muitas crónicas do meu finado amigo Delfim Corral, um saurimuense que abandonou a terra por força das refregas pós-independência, mas que nunca alheou o seu inigualável amor à terra que o fez ser vivente, enquanto connosco respirou ar, nessa curta passagem à terra superficial. Os relatos de Delfim Corral foram tão nostálgicos e encantadores que me pus à "descoberta" da "bendita" piscina, antes mesmo do início da sua reparação, assumida financeiramente, ao que soube, por Catoca, no quadro da sua responsabilidade social. Chegou-me ao ouvido que, durante a elaboração do projecto ou sua execução, "terá havido um erro" na reabilitação e aquilo que se esperava ser "Piscina Olímpica de Saurimo" ficou (mais uma vez) pelo papel", dada a inadequação ao que os órgãos reitores da modalidade de natação exigem para a prática desportiva. 
A segunda visita que fiz às instalações, acompanhando uma equipa da Federação Angolana de Natação, que recomendou correcções sobre a profundidade e outros aspectos técnicos, encontrei um tanque (novamente) habitado por batráquios. Constou-me que ela chegou a ser (re)inaugurada, ainda ao tempo da governadora Cândida Narciso, mas nunca reaberta ao público. 
Há pessoas com muita sensibilidade, a quem doi ver piscinas 
abandonadas, sobretudo em zonas interiores sem mar e sem adequadas e confiáveis praias fluviais. 
O meu amigo Delfim deixou-nos sem receber notícias sobre a volta à serventia da piscina de sua infância. Os miúdos a quem esperávamos ensinar a nadar tornaram-se adultos e outra geração vai passar, desta vez, sem as praias fluviais do Rio Mwangeji e sem a esperada piscina.
Em Agosto2023, tive a sorte de adentrar o espaço que acolhe a antiga Piscina do Lubango (Nossa Senhora do Monte). Escrevo "antiga piscina", com todo o desdouro que isso me causa, dado o facto de "tanque sem água ser apenas uma construção e não, exactamente, uma piscina", como disse um septuagenário lubanguense, no auge da sua folga.
Calculo que, para além de a natação ser dos exercícios físicos mais completos e de lazer, os "mentecaptos" de então terão pensado na sua serventia, numa cidade interior, cujo clima e geologia se aproximam aos da Cidade do Cabo, mas com a desfeita divina de não ter mar à vista.
Sem o Atlântico por perto, sem rios com margens largas e enseadas, sem uma piscina que rivalize com as praias de água salgada, a vida do lubanguese de então teria, com certeza, tido menos qualidade e graça do que teve. 
Moçâmedes, no Atlântico, seria o destino sabatino e dominical de muitas famílias locais e turistas, em busca de água, sol e sal, enfrentando, semanas sim e semanas também, os perigos e agruras da serpenteante rodovia que separa as duas cidades do Sul de Angola.
Em assomo à minha vergonha, a piscina erguida em Nossa Senhora do Monte continuava mero tanque que se estende seco, roto e cabisbaixo aos sóis vezeiros, contrariando os desejos e carências de gente bastante. 
Enquanto ia pensando neste apontamento e a ver se encontro resposta à pergunta "que problemas temos contra a manutenção e construção de novas piscinas", eis que "caio" em  Sea Point, África do Sul, onde, por possuírem uma costa escarpada e pedregosa, os munícipes e turistas são bafejados com largas e limpas piscinas à beira-mar, logrando dois momentos, duas serventias, em um mesmo lazer: ficam os olhos satisfeitos, a mente oxigenada e sadia e o corpo são (mente sã corpo são).
Aqui chegado, e com o respeito devido aos que pensam nessas questões, tidas por alguns como "periféricas", sem que lhes cheguem as cabimentações, volto à indagação primária: que problemas, afinal, temos com a água e as piscinas que tanto precisamos e não as construímos ou reparamos?


Sea Point, 27.08.2023. 
Publicado pelo Jor. Angola a 10.09.23

sexta-feira, setembro 29, 2023

QUEM DISSE QUE HOMEM NÃO CHORA?

A fila não era longa. A manhã é que já  levava quilómetros de tempo perdido de forma inglória.  Esperar, em uma fila, sem saber, de certo, se o atendente vem ou não e se a que hora chega, é, deveras, uma seca. 
Chamados a provar o que os próprios  cientistas reconhecem "haver erros recorrentes em resultados apresentados", lá estavam líderes e liderados para o teste de despistagem ou confirmação do corona vírus. 
Uma dúzia e meia, entre falsos sorrisos e receio aparente. Todos apreensivos quanto ao método de exame a que seriam submetidos e  resultado que podia ser inesperado.
- Será?
- E se for?!
- Bem. Sandinga. Se for, que seja. Se não, for melhor! - Atirou Dois Tempos, um dos melhor graduados daquela esquadra.
Não demorou a chamada. Primeiro para o alistamento e, depois, para o tira teimas.
O exame consistia em fazer "endoscopia", sem gritar, nem lacrimejar.
- Está tudo bem, senhor? - Indagou a médica. 
- Está bem. Mas se lhe disser que está tudo bem estaria a mentir. É um desconforto esse tubo dentro de mim.
- Realmente. Mas isso passa. O mais importante é o resultado. Pode sair, sô tor 2 Tempos.
- Obrigado pelas palavras. Estou apenas a endireitar o rosto para não aparecer à frente da tropa com lagrimas visíveis.
- Ah! Um homem chefe tambem chora?!
- Deixa, Cda médica. Para mim, o choro são as palavras exteriorizadas. Sei guardar a angústia para o momento privado. 
E foi saindo e se endireitando ao encontro da "tropa" que aguardava por notícias, preferencialmente boas. O teste era inédito.
- Chefe, doeu?
- Não. Até dá prazer em bisar. É como amêndoa.

Lembram-se das vacinas em que davam amêndoas? Nada de medo. Está e vai estar tudo bem! - Concluiu 2 Tempos, fazendo a curva para apanhar a viatura que deixara desguarnecida na rua do Giraflor.

domingo, setembro 24, 2023

EXPERIÊNCIA DE SEA POINT NA FISCALIZAÇÃO DO ESTACIONAMENTO URBANO

Essas senhoras (na foto ) é que fiscalizam o "street parking" de Sea Point e Cape Town.

Munidas de equipamentos de facturação, chamada de polícias e outros, gerem os espaços demarcados para o estacionamento temporário, colectando para a edilidade e agindo contra os incumpridores (resulta em outras colectas).

Aqui, os espaços para o estacionamento nas ruas da cidade não são dos jovens preguiçosos e viciados como em Luanda. São da edilidade que buscou uma parceria público-privada (ppp) para a sua gestão.

Ao fim do dia, os gestores dos espaços para estacionamento urbano dirigem-se, como a imagem mostra, ao "post-office" onde fazem as contas. 

Dá prazer vê-las a entrarem, depois de contas feitas, em lojas ou "street market" para pegarem o jantar e suprir outras necessidades caseiras.

Em 2020, eu havia feito uma reportagem ao meu Cda. de feliz memória Sérgio Rescova, enquanto governador de Luanda. Pareceu ter acolhido os dados que lhe passei, mas não demorou e foi enviado ao Uige, perecendo tempo depois.

Num curso sobre Economia Moderna, ENNAP 2020-2021, apresentei o assunto como meu "paper" reflexivo (espécie de monografia), tendo merecido um efusivo acolhimento do professor que recomendou "elevá-lo a artigo científico e ou materializar a experiência em Luanda".

Espero que o meu Cda Manuel Homem leia e mande uns olheiros aqui. Estamos prontos para contribuir.

terça-feira, setembro 19, 2023

NEM TUDO O MAR ACEITA

Apesar de largo, profundo e acolhedor, todo o mar também sabe defender-se e rejeitar as imposições. 

Os sul-africanos de Cape Town não depositam descartados na praia (escarpada e pedregosa) de Sea Point. É o próprio mar que devolve à terra as algas e raízes que suas ondas arrancam das encostas. 

Quanto a nós, Angola, que fazemos do mar "depósito" de lixo variado, a nossa paga pode estar por vir!


Por outro lado, há, aqui, um vento forte que encurva as árvores na marginal.

Sem detritos jogados pelo bicho-homem, as praias são pedregosas e impróprias ao mergulho, adicionando-se-lhe algas e raízes arrancadas de mangais de ilhas próximas.

_ Deus é bom em dar, quando quer, figos a quem não tem dentes ou impedir que dentes cariados enfrentem ossos duros de roer.

sexta-feira, setembro 15, 2023

ODJOVE vs MULONDOLO

A ilustração à volta do produto "licoroso", feito à base da fruta de (a)marula, a tal que "embebeda" elefantes, tem a ver com uma embala que, não é mais do que uma aldeola familiar. 


Na Fmca2023, à garrafa contendo odjove foi apensado um mapa contendo diversas construções como: a casa particular do patriarca, a zona de recepções, as inúmeras casas de esposas (com e sem filhos) as casas dos filhos e filhas (ainda solteiros) etc.

E dizia o marketeiro:

_ O sekulu, depois de beber odjove, percorre (em acto fecundativo) todas as casas das esposas, voltando leve e cansado em sua casa particular no dia seguinte.

Mais disse ainda que "no período da colheita da fruta,  tendo em conta as suas propriedades afrodisíacas, os régulos atenuam as sentenças de casos de adultérios que acontecem com frequência,  devido ao consumo do odjove".

Enquanto o odjove é kunenense, no kwanza-sul as raízes que dizem "dar sucesso" e "criar amizade entre genros e sogras" são as de mulondolo. Também já vi e provei o dito liquor de mulondolo.

Contam os nativos do Lubolu e Kibala que "quem usa mulondolo (as folhas são refogáveis e as raízes 'tira-teima') tem a mulher a falar constantemente bem dele junto da mãe".

Não é descrito, do ponto de vista de marketing, como o odjove dos kunenenses, mas dizem "dar uma resistência inimaginável que deixa abaixo do chinelo o famigerado pau-de-kabinda ou o longeso do Wambu".

Em quem acreditar e em que confiar?

sexta-feira, setembro 08, 2023

ENTRE PORT'AMBOIM E LONGA

 

Depois do Porto Amboim, a caminho do Rio Longa (EN100), há uma aldeia em que vendem mudas de plantas frutícolas e peixe seco do mar.

Parei para atender ao pedido da mulher que encomendara peixe. Durante a barganha mantida entre o cliente e a vendedora ficou uma promessa não vinculativa, mas que era preciso procurar honrar de alguma forma. Ela pedira saldo de Kz 500 para compensar o desconto feito de Kz 27 mil para os Kz 20 mil que eu tinha disponíveis.
Vasculhados os bolsos e a viatura, inexistindo mais dinheiro, procurei por algo de valor simbólico para oferecer à senhora, mas também não encontrava.
É que me deparo, depois, com uma t-shirt nova do MPLA na minha mochila de campo que fica permanentemente na viatura.
Para confirmar se podia oferecê-la sem ferir susceptibilidades, indaguei:
_ Aqui nessa aldeia de que partido são?
_ A maioria como eu somos do MPLA. O bocado que resta são daquele partido aí.
A senhora não pronunciou o nome. Apenas apontou para uma bandeira que esvoaçava rota como cuecas de uma dilaji.
Compreendi e dei-lhe a t-shirt com muito gosto.
_ Muito obrigado, camarada cliente! _ Agradeceu a senhora a quem respondi com um leve sorriso.
_ Fi-lo com prazer, minha camarada!

sexta-feira, setembro 01, 2023

ESTÓRIAS LUBOLENSES (II)

1-Estrada Munenga-Kalulu: concebida como rodovia de terceira classe (intermunicipal) viu-se forçada a receber todo o tráfego rodoviário da EN120, quando se reparou o troço Desvio da Munenga-Lususu. Como consequência, ficou "gravemente maltratada" e demanda profunda reparação.

2- Rodovia Kalulu-Lwati-Kibala: Ainda em terra batida, recebeu o tráfego da EN120 (Lwanda-Wambu), desviado da Munenga. Como era de esperar, o solo ficou moído e a poeira impera. Quando a ela se junta o nevoeiro kasimbático, todo o cuidado é pouco. Ao tempo em que HC era Ministro das obras públicas estava no plano das que deviam deixar de ser estradas de terra batida. Porém, iniciada a asfaltagem da Kibala à Ponte (Leste) sobre o Longa, nunca o asfalto chegou a Kalulu, aguardando nova oportunidade que pode ser realidade, visto que a empreitada foi já adjudicada.
3- Troço asfaltado, entre o Rio Longa e Lwati, em território Lubolense. Nesse período seco, quando não é a poeira que incomoda, são as queimadas desordenadas que ameaçam a integridade do automobilista.
4- Uma Classe ou Centro de Pregação Metodista numa aldeia entre o Longa e Lwati. A chama do metodismo mantém-se acesa no Lubolu, contrariando os homens do "roteiro metodista que omite as estações da Margem Sul do Kwanza". A Missão de Mbang'wanga foi fulcral na expansão do metodismo para Kyenya, Kisongo, Kalulu e Munenga.
5- Kabuta, comuna do Lubolu que se liga a São Pedro da Kilemba reclama pela reposição da "Estrada Nacional" que corta Kalulu, passando pela Ponte Filomeno da Câmara. Sem a reposição dessa importante rodovia, Kalulu será sempre um "matuku" (esconderijo/enclave) aonde só vai quem tiver de visitar parentes, negócios ou em missão de serviço. Repondo a Estrada Nacional Kilemba-Kabuta-Kalulu-Kibala, encurtar-se-á a distância entre o Leste e Norte em relação ao Centro e Sul do país, conferindo maior movimento e vida a Kalulu.

Confira fotos em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid0NfmcZJ1ykXfq2QAxsRuCdUd6CnYZF1vPsxWeGGL7PTDRLo6b7xHSZYsgcZdHBSkal&id=100001342406431&mibextid=Nif5oz

terça-feira, agosto 29, 2023

QUE TURISMU'ÉSSE?

 Além da Fmca2023

Nascido entre cafezais, no Lubolu interior, com ratos que demandam gatos, interiorizei a máxima "olho no peixe sobre a grelha e olho no gato" que, quando vê peixe, se esquece do rato.


Assim, em actividade profissional intensa, no Luvangu, tomei a liberdade de conceder duas horas de turismo à equipa que comigo trabalhou "full time", das 8 da manhã às 8 da noite e de terça a domingo.

- É último dia da Fmca2023 e partiremos de volta hoje. Não fica bem estarmos uma semana no Luvangu sem alimentar os olhos e descontrair (por alguns instantes) a mente. _ Ofereci, ao que vivas soaram.

Antes, criei dois grupos, para que a exposição não ficasse desguarnecida, e fomos pelo asfalto, passando o riacho Mukufi, subindo a zona escarpada, até que a negrura do asfalto cedeu lugar à larga calçada que nos eleva ao miradouro do abismo de 1200 metros (profundidade), tendo como fundo a zona desértica da Bibala, no Namibe.

A Fenda da Tundavala, local turístico de elevado regalo e com uma "estrada de pedra" digna de gabo, vive sozinha, entre seixos. Sem rede telefónica; sem toilette; sem quiosques para venda de água, café e souvenirs; sem cobrança de portagem (que podia serra estratificada entre nativos locais, turistas nacionais e estrangeiros; sem definição de andarilhos (impedindo que os vários trilhos prejudiquem a rara vargem entre penhascos); sem recolha de dinheiro (marginalizando uma grande oportunidade de arrecadação se receitas para a edilidade); sem ideias conhecidas... Enfim, é só rebo que regala, mas, o homem é biológico e tem as necessidades sempre a persegui-lo.

É nos penhascos da Tundavala que termina o Planalto Central de Angola. Daqui se desfruta uma paisagem magnífica que se estende por dezenas de quilómetros.

Antes, outras quatro notas, já repousavam no meu bloco de notas.

1- Num aldeamento turístico que atende pelo pomposo nome Kimbu do soberano, levou-se hora e meia a receber comida "prato do dia" que demandava somente aquecimento. Toda a jornada de espera, foi sem água, sem serviço e só desconsideração. Estava cheio? Estava, mas nós também éramos clientes e precisávamos de alguma atenção, por mais ínfima que fosse. Tomada a refeição, já a contragosto, foram mais exactos 34 minutos de espera pela água e factura, levando-me a reclamar do "gerente" que se não me fosse apresentada a conta e o terminal de pagamento automático, ausentar-nos-íamos, pagando onde eles nos alcançassem.

2- À noite (quinta-feira), numa esplanada, no bairro Palanca, Humpata, voltei a pedir comida que já houvesse feita. 

- Sim, mano. Tem. É só uns minutos.

Veio o chá de limão para enfrentar a gripe e o frio desses dias. Até aqui, parecia que as coisas correriam à feição. Transcorridas duas horas, não veio a comida que "era só aquecer".

_ Desculpa, senhor. Houve um pequeno erro técnico. A comida não chegou. Vai ter de esperar mais trinta minutos. 

A esperar, seria entregue à meia-noite e meia. 

3- Dia seguinte, seis e meia da manhã à procura de chá quente num Posto de Abastecimento da Puma.

_ Bom dia, minha senhora! Quase desfaleço de fome. Tem algo quente que se coma?

_ Bom dia, senhores! Lamento não termos, de momento. Os produtos chegam as sete horas, mas posso fazer-vos um chá e sugerir biscoitos.

Essa diligente senhora devia gerir o Kimbu e a esplanada.

4- Noite, outra vez, em Nossa Senhora do Monte, decido, em companhia da minha "tropa", procurar algo para enganar as lombrigas na feira alimentícia. Uma hora, de baixo de ventos friorentos, para ter o pirão e a carne assada. Ninguém se dignou em perguntar ou sugerir, como normalmente acontece em instituições hoteleiras dignas "se enquanto esperam ouvem poemas", petiscam algo assado ou bebem kanyome ...

Apesar de a cidade ter recebido milhares de visitantes e estes exercerem alguma pressão (anormal) sobre os serviços, há uma pergunta que não se quer calar: que turismo é esse (que não valoriza o cliente)?!


Publicado no Jornal de Angola de 20.08.23

segunda-feira, agosto 21, 2023

ESTÓRIAS LUBOLENSES (I)

1- Causou-me um susto ao ouvi-lo pronunciar alegremente o seu nome: "Sou o jovem Kinema (deficiente) que lhe está a pedir, há três dias, o livro sobre as Kitotas no Lubolu. O kota prometeu que veria no seu carro". Fiquei embasbacado e não resisti. Na ausência de outro, dei-lhe o meu exemplar de anotações para melhorias na próxima edição.

O Kinema é um jovem empenhado e que busca o conhecimento histórico-científico.
2- Nos anos 80, século XX, até que os autocarros da ETIM e ETP deixaram de ir a Kalulu, era aqui, bifurcação entre a rua principal e a Deolinda Rodrigues, que se esperavam e apanhavam os autocarros públicos. Atrás do edifício ficava o mercado onde comprávamos a comida e o fardo que os camaradas da "Swapo" vendiam e ou permutavam.
3- Aldeia de Pedra Escrita (comuna da Munenga). A construção da Biblioteca está momentaneamente parada, mas já avançou o suficiente que já pode ser equipada. Tem chão bruto e tecto. Falta reboque das paredes interiores e exteriores e pintura.
Alguém ajuda?
4- Um alemão participante das Jornadas Internacionais Técnico-Cientificas, em Kalulu. Ele diz ter gostado da "nossa Eka" que deixou de ser "do Dondo".

Confira fotos em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid02vmanaPUm16gg2ve4zQzwqJzTfKy93xqgCfEoK28VHE6MmieFbR1RHkA2X4daokv7l&id=100001342406431&mibextid=Nif5oz

terça-feira, agosto 15, 2023

NOVA MODA NORUEGUESA

Ponto prévio: 

Por esses dias e, eventualmente, vindouros, não condenem a criança ou o adulto que vá parar, em visita, ao Reino da Noruega e errar se for chamado a apontar a bandeira do Reino. A nova moda (deles) faz flutuar por quase todos os edifícios principais, em todas as cidades uma bandeira multicolor que não é a daquele reino (rei). 

Iam a passos lentos e a conversa girava em torno dos jifunji. Isso mesmo, no meu kimbundu lubolense, a palavra funji é singular, fazendo plural com a anteposição do prefixo "ji". Assim, jifunji é plural. 

A saudade da pasta feita com fuba (farinha no dizer deles) de bombó ou de milho, que no centro e sul ganha o pomposo substativo de pirão, fazia dos angolanos descobridores de semelhanças antre a oferta e o desejado. Ficava-se pelo pink fish (o salmão), caro noutras paragens e baratucho no norte gélido. E a conversa sobre funji e jifunji ganhou vários conceitos e interpretações. _ Já viste? Aqui se um gajo tiver dois jifunji é pecado, mas se em vez de casares mulher para te fazer funji te juntares a homem igual dar-te-ão é homem elevado e moderno. Isso é caminho? _ Interrogou Xavitu, algo irritado.

O sol vergonhoso procurava abrir-se ao deleite de homens e mulheres de todas as idades que dele procuravam como os angolanos ao funji. É, afinal verão, embora os visitantes africanos andassem agasalhados como se estivessem a viver o cacimbo da zona tropical.

_ Como esse andar, que despreza a maternidade, qualquer dia a humanidade deixa de crescer e os lobos tomam conta das cidades, levando-nos ã extinção. _ Atirou Lumingu, ganhando a aprovação silenciosa dos demais. Pelo menos ninguém o contrariou até que Phande emendou.

_ Não, mano Lumingu. Antes de os lobos virem substituí-los, vão reclamar subpovoamento e abrirão as fronteiras aos africanos que ainda não desistiram da procriação. Significa que o país, com suas instituições e normas, será passado a gente que o vai tomar durante décadas e séculos silenciosos, o que será bom para a criolização da raça humana.

terça-feira, agosto 08, 2023

KALULU-01:01


E, estando eu no posto de abastecimento de combustíveis da Rua da Missão, em Kalulu, eis que apareceram diante de mim dois petizes. Depois de aturada observação e busca de arrojo, o menino que se achava mais expansivo ganhou coragem e abordou-me: 

_ Boa tarde, tio! Não quer ser meu padrinho? 

Vendo o bando de rapazes andrajosos e pedintes, alguns sem necessidade para o efeito, respondi à medida de correcção. 

 _ Boa tarde, sobrinho! Já tenho muitos afilhados. Mas, que idade tens e por que estás aqui? 
O petiz, tentando esquivar as perguntas, pôs-se ao mato, surgindo, depois, o seu irmão José Domingos que se ofereceu para trabalhar, como se de adulto se tratasse. 
_ Tio, posso ser teu cobrador. Já tenho 12 anos e faço 13. 
_ Tu não tens idade para trabalhar, nem eu vivo aqui. Por que não estudas em vez de pedinchar e procurar trabalho? _ Contrariei-o, ao que respondeu "estudo a sexta classe". 
_ Está bem. Vou oferecer-te um livro. _Disse-lhe. 
Após isso, o Paulo Domingos, que se escondera, reapareceu e explicou que tinha onze anos e estudava a quinta classe. 
_ Vocês são irmãos?
_ Sim, somos.
_ Um disse ter doze e tu dizes ter onze anos. São mesmo irmãos ou primos? _ Insisti.
_ Somos irmãos de pai. Ele tem duas mães. Eu moro ali (apontava para o bairro Kapopa) e vim aqui (Musafu) passar as férias com eles. _ Explicou o José.
Autografei dois "Kitotas: recuos e avanços". O José sabia ler, mas o Paulo ainda juntava letras e sílabas, o que me levou a concluir que os tempos mudaram para baixo.
Eu, na Escola Kwame Nkrumah, na quinta classe, em Kalulu, já escrevia poesia!

Kalulu, 24.07.2023

terça-feira, agosto 01, 2023

KALULU AOS MEUS HODIERNOS OLHOS

Apesar de os olhos infantis atribuírem grandeza distinta da visão adulta, o Kambuku, rio da minha e meninice de muitos kalulenses, encolheu. 
Mostra-se, nesse Julho minguante, quase um fiozito, rasgando o vale que, nos anos oitenta do séc finado, enfeitava-se de hortas feitas por todos nós, empobrecidos ou endinheirados pelo dinheiro negado aos primeiros. 
Fazer/ter horta, era sinal de pertença e honra à nossa matriz cultural (nossos hábitos campestres). Aí sim, alguns desviavam ligeiramente o curso da água para regar, repondo-a, depois, no leito habitual e natural.
O aumento da população em Kalulu (da Mbanze, Kasekel, Bairro Wambu ao Musafu), uns reproduzindo-se mais do que a produção alimentar e outros trazidos pela fúria das guerras e descontinuidade das roças e fazendas, colocou o Kambuku entre casas e casebres, trazendo a pertinência do debate sobre a necessidade da construção de um novo leito rochoso (feito de  cimento e pedras que por cá abundam) para evitar o assoreamento e a desaparição do rio (a exemplo do Mwangeji, em Saurimo).
Num contexto de edificações padronizadas, sucedâneas a um plano de evolução  urbanística, Kalulu seria hoje uma cidade digna dessa designação. Tamanha foi a sua elasticidade, chegando, na rota que nos leva à Munenga, até às proximidades do açude, construído sobre o Rio Tamba (que se junta ao Kambuku junto ao Bairro Musafu). 
Nos anos oitenta e início da década de noventa, contavam-se as famílias, com líderes já idosos, que viviam na margem sul do Kambuku, (Estrada da Munenga): o mais velho José Branco e sua prole, a família Kandumba (sapateiro), o velho Tandela e sua família, o mais velho Kalungane (dono do palmar que se vé na baixa) e que tinha 4 esposas e vários filhos, a família Galanga, a tia Gina (mãe do Digão) e seus filhos, o mais velho kiteke (que depois se tornou padrasto do Digão) e sua família. O fundador do bairro foi o senhor Buto, detontor de  uma família composta por 3 esposas e vários filhos. Vivia ainda, antes na ponte sobre o Kambuku (sentido Munenga-Kalulu), a velha Helena, mãe do senhor Francisco Geraldo.
Depois da casa do idoso sapateiro, ficava o Posto de Controlo e, mais além, a Estação de Tratamento de Água. Não era dada permissão para construir atrás do controlo.
Pela via da Kabuta, Kalulu esticou-se até às proximidades da Fazenda Barata, onde se ergueu o novo aeródromo que nas nossas vozes é "aroporto".
A zona conhecida como Mangueirinhas, ontem Quartel das tropas LCB, que se achava escondido atrás de rochedos, é hoje um novo conglomerado habitacional que alberga o Posto de Correspondência da RNA. Já apelei "ene" vezes que com um pouco mais de esforço se pode fazer daquelas instalações a Rádio Comunitária de Kalulu, ao que mantenho a minha doação como formador de sementes locais que se acham em boas doses no ISPTLO. Todos os bons kalulenses unidos podem sustentar a Rádio.
A propósito, Kenhê que montou uma sobre outra a composição de penedos que servem de enlevo encantador aos visitantes de Kalulu? Kenhê que duvida que a reposição da estrada que liga a Ponte Filomeno-Kabuta-Kalulu dará vigor à vila e ao município, dando-lhe a áurea do tempo em que Kyamafulu e EN120 inexistiam?
Apesar de conhecer todas as comunas do Lubolu (e as rodovias e picadas que partem da vila à Munenga, ao Kisongo e à Kabuta), de Kalulu e suas gentes conheço apenas um caminho: o que me leva a pensar insistentemente nas próximas gerações!

Texto publicado no Jornal de Angola de 06.08.2023