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domingo, outubro 04, 2026

O ZOOLÓGICO PERDIDO DA ILHA DE LUWANDA

Recordo a primeira vez que visitei o Jardim Zoológico da Ilha de Luwanda, ainda criança, nos anos 1980. Para quem nascera e vivera os primeiros dez anos no Lubolu, habituado a enxotar e caçar macacos, lebres, pacas, veados, corças, javalis, jiboias, porcos-espinho e chacais, o impacto foi diferente. Ali, os animais estavam próximos da cidade, num pequeno “muxitu” cercado pelo mar, onde não podiam fugir nem ser caçados. Era um espetáculo de natureza domesticada, um regalo para os olhos e para a imaginação


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O zoológico, criado por volta da década de 1950, foi concebido como espaço de educação ambiental e preservação da fauna angolana, exibindo espécies emblemáticas como macacos, palancas, pacaças, crocodilos, chacais, aves tropicais, porcos-espinho, jiboias, hienas, leopardos e até a palanca negra gigante, símbolo nacional. Servia de porta de entrada para o conhecimento da biodiversidade, numa época em que Angola ainda não tinha parques estruturados para o turismo ecológico.
Na semana passada voltei ao recinto. O que encontrei foi desolador: escombros de casas, cabanas de pescadores, lixo de consumo e restos de obras, além de grupos religiosos e escuteiros que usam o espaço sem qualquer ordem. O muro de gradeamentos foi roubado, substituído por chapas opacas que escondem a degradação. Perguntei-me como se rouba um quilómetro de grades sem que ninguém veja, com tantas forças policiais instaladas na própria ilha.
Hoje, quem manda naquele espaço são os trambiqueiros e oportunistas. Não há bilheteira, não há animais, não há conservação. O que deveria ser um património ambiental e cultural transformou-se em depósito de lixo e refúgio de marginais. A floresta perdeu a dupla função de preservar espécies vegetais endémicas e mostrar a fauna nacional.
A extinção do zoológico não foi avisada nem justificada. Angola tem recursos humanos e financeiros, uma fauna rica e condições para manter um espaço digno. O abandono é um insulto à memória colectiva e à educação das futuras gerações. Não podemos perder esta batalha contra o lixo, contra a indiferença e contra o esquecimento. O espaço da Ilha de Luwanda merece ser recuperado como parque ecológico e educativo, devolvendo à cidade um lugar de encontro com a natureza e com a sua própria história.

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