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quarta-feira, maio 29, 2019

NO AERO HOSEA KUTAKO

- How are you (como está)? - Perguntou a jovem do atendimento aos passageiros para emissão da passagem e pesagem das malas e outras imbambas.
- Estou bem, obrigado. And you? - Retorqui, usando a minha habitual língua e experimentando a alheia.
- Brigado. - Respondeu a jovem, 19 ou vinte anos aproximadamente, a olhar para a ferrada fisionomia e curiosidade em aprender "port'angolês".
- Luciano, good name. Are you going do Cabinda? (Luciano, bonito nome. Va...is a Cabinda)? - Voltou a questionar.
- No. Im going to Luanda. Cabinda is far away (Vou a Luanda. Cabinda fica longe). - Respondi-lhe abrincar.
- Até cabinda's people white (Os cabindenses são brancos)? - Voltou a questionar, curiosa.
- No. Cabinda is north of Angola, near Republic of Congo. They are Black (Não. Cabinda é norte de Angola, próximo da República do Congo. Eles são também negros). - Expliquei, ao que a jovem ficou mais curiosa ainda.
- But they look like white. Use then skin cream (Mas eles parecem brancos. Será que usam creme para clarear a pele)?
- Sim, filha. Isso mesmo. Alguns se paculam, mas não são todos. - Respondi, desta vez em "port'angolês".
- And what's paculam (o que é paculam)?
- Its mean that some of then use frequentely cream to clear the skin (significa que alguns usam creme para clarear a pele).
- Thank you mister Luciano. Good trip to Angola (obrigado, Sr. Luciano e boa viagem a Angola)...
Durante a viagem fiquei a "banzelar" no avião. O que levou a moça namibiana a me confundir com os paculados, mesmo depois de ter levado com o sol de Whindoek nas caminhadas matinais de todos os dias durante uma semana?
Pela próxima digo-lhe as respostas que me ficara pela garganta.
- Im from Libolo and we don't use paculation! Those people that use paculation left our contry by Bitcheket post border, in Cabinda, going to RDC (eu sou do Libolo e não uso creme clareante de pele. Aquelas pessoas que se paculam e que dizem ser angolanas de Cabinda, abandonam o nosso país pelo posto fronteiriço Bitchekete, em Cabinda, rumando ao Congo Democrático)!


quarta-feira, maio 22, 2019

DESTIN'OESTE

(Windhoek)
Desde que frequentei a quarta classe (1986/7) que interiorizei, de muitas, uma certeza: caminhar para oeste basta ser levado pelo sol. O caminho é onde ele se dirige, deixando que, de manhã, lhe bata ardentemente às costas e, quando já ele se posicionar à frente, lhe ofusque a visão em confronto directo. Foi o que fiz nesta quarta etapa de "descobrimento e comparação" da cidade dos Warriors à nossa "quadricentésimo, quadragésimo sexto aniversariante".
 Partindo, como sempre, do centro, marchei em direcção à Dr. David Hoseia Meroro Avenue que nos leva a Westline. Há também um shopping por lá. Quando já se viam poucas casas (abro parêntesis para dizer que não vi construção precária, nem desordenada como as nossas cubatas de chapas), apanhei a Avenida Circular que parte do sul ao norte e que nos leva a Khomasdal e Okahandja, fazendo, à direita, um ângulo inferior a 90° para não colidir com o sol que me fustigava ardente.
Quase sem rumo pré-determinado (andando apenas por andar), fiz-me àquela percorrida rodovia, deixando para trás várias estradas perpendiculares de bom recorte técnico-arquitectónico e drenagem.
Outro detalhe: os canais pluviais estão sempre limpos e com cobertura vegetal. Nem mesmo nos "mabululos" da cidade ousam depositar descartados nas passagens hídricas como acontece na nossa banda.
 Já próximo de Khomasdal (menos de meio quilómetro) e quando mais adiante da rodovia os olhos só me mostravam montes cobertos de vegetação espinhosa, decidi apanhar uma perpendicular que me parecia rumar à cidade. Era a Dr. Kuaima Rikuako Street e eu já levava nas pernas mais de dez mil passos marcados ainda com vigor.
 Confesso, depois de 1990, ano em que os namibianos deixaram Kabuta (Libolo) para virem votar e proclamar a sua independência, nunca mais tinha andado tanto. Uma média de dez quilómetros ao dia, sendo sete dias consecutivos.
No ano da independência deles, a causa foi o ataque da guerrilha (que tem nome) à vila de Kalulu, quando festejámos o natal de 1989. Depois foram caminhadas longas e extenuantes: Kalulu-Mussende-Munenga-Pedra Escrita-Kuteka-Pedra Escrita-Munenga (felizmente, na última etapa, o chefe Gika levou-me na sua mota até Kalulu, aonde, em Março de 1990, fui para terminar a sexta classe, no ano lectivo 1989/90).
Desta vez é mesmo caminhar por gosto e nem sei se já percorri tanto assim uma outra cidade, perfurando-a pelos quatro pontos cardeais, ponta a ponta.
 A partir da rua Dr. Kuaima Rikuako, já sem o vigor inicial, pois tinha também a sede como adversária, para além do sol que passei a encarar frontalmente, fui pensando na fluidez do trânsito automóvel nesta cidade. Quem não anda e não se apercebe das várias artérias circulares e perpendiculares que a cidade e seu entorno possuem, pode alimentar a ideia de que "a cidade não regista engarrafamentos como os nossos porque tem poucos carros". Seria ledo engano. O que a torna saudável e com um trânsito que corre como sangue num corpo jovem e são é a quantidade e qualidade de artérias. Há muitas viaturas circulando sem cessar, pelo menos durante o dia, mas há avenidas, ruas, ruelas e travessas bastantes para que tudo aconteça sem stress. Não há, à beira das rodovias montículos de areia varrida mas nunca recolhida e que volta a espalhar-se pela estrada e entupir as sarjetas, como acontece na nossa Luanda. 
Outra constatação é o facto de se poder caminhar em toda a sua extensão. Será que podemos ainda nos alcandorar a chegar a esse patamar?
- Podemos! Porém, tal como as coisas estão na banda, só chegaremos a esse desiderato com medidas enérgicas e bastante corajosas. Não nos devemos dar por felizes tendo casebres de chapas erguidas sobre rodovias, como acontece nos Zango e noutras paragens. Não nos devemos sentir cómodos com o crescimento desordenado das cidades, sem macro-drenagem, sem que a construção das casas seja fiscalizada pela autoridade competente e sendo ocupadas antes do seu término.
Para mudar o cenário de Luanda, precisamos de aprender com os outros, mesmo sendo "mais novos", ao risco de nos contentarmos a ser comparados, ad eternum, ao vizinho do Nordeste.

Publicado pelo jornal de Angola a 24.02.19

quarta-feira, maio 15, 2019

OS NINGOÇUS À VOLTA DE UM NEGÓCIO

Considero negócio a actividade formal cuja prática, em local apropriado, é reconhecida, geradora de emprego, sustento e imposto para o Estado.
Ningoçu é toda a cadeia informal de negociatas e biscates que possam surgir à volta de uma actividade formal.
Assim, tendo decidido ir desmaiar a fome no "restaurante aberto" da Chicala, ao istmo de Luanda, onde se vende peixe fresco e grelhado, notei, com atenção, a quantidade de pessoas que se movi...mentam naquele espaço, procurando levar "pão para casa" ou, no mínimo, saciar vícios resistentes, mesmo em tempo de crise financeira reconhecida e assumida.
Dentre as "ningocistas", pude anotar: a senhora da jinguba e a do jola myongo; o moço dos discos de música, pen drive, acessórios eléctricos, etc; o rapaz que lava o carro; a interceptadora de possíveis clientes dos "restaurantes"; a mamã do Tpa (sobre ela já dediquei uma crónica); o tio do mictório; o vendedor de kangonya aos pescadores, lavadores de carros e estivadores; a mana que vende bebidas que nada têm a ver com a vendedora do almoço; o rapaz das recargas telefónicas e da graxa para que o funcionário público (normalmente bangão e com ares de bem remunerado) chegue ao local de trabalho com sapatos feitos espelho, dando a entender que sai de um dos restaurantes mais chiques da cidade... São "n" NINGOÇUS.
Feita a observação, algumas perguntas não se fazem calar.
- Por que também não se transformam esses ningoçus em negócios, abrindo esses pequenos serviços periféricos onde se fundem os negócios típicos da cidade?
- Por que não ter um parque para estacionamento e lavagem automóveis em que se pague pela limpeza e segurança?
- Por que não se colocam espaços para a venda estacionária e não ambulante de souvenirs e acessórios diversos?
- Por que não se instalam, mesmo que em regime de franchising, quiosques representando as empresas de telecomunicações ou, no mínimo, seus produtos?
- Por que não se aglutinar aos "restaurantes de peixe" tabacarias, cafeterias e demais serviços úteis?
Teriamos pessoas a se orgulharem de ter um emprego ou de ser empresário, estadas mais cómodas para os frequentadores, mais impostos para o Estado e garantia de um futuro melhor para todos.
São apenas ideias de leigo.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta, 31.01.19
 

quarta-feira, maio 08, 2019

CONVERSA ENTRE VELHOS COLEGAS

 
Na Avenida Agostinho Neto, estendi o meu olhar à "Angolan House" com a sua bandeira baixada à meia-haste pela acção incessante do vento.
Sem paragem concreta, segui a Jan Jonker Street, passando pelo "Maerua Mall". Segui, sempre em frente, até encontrar a linha férrea e, com ela, continuei até ao cruzamento entre a Jonker e a Sam Nujoma Avenue. Já não havia cidade a Leste. Apenas montes recheados de arbustos espinhoso, como é natural por essas bandas.
O regalo foi mesmo ver uma cidade de 130 anos, projectada sobre colinas que drenam com imensa facilidade as águas pluviais. É como a nossa cidade do Dundo. É com ela que mais se parece/parecerá a cidade dos bravos (warriors). Vivendas, maioritariamente, e poucos edifícios a desafiarem os céus, contrariando as capitais costeiras que crescem em altitude. Aqui, dizem eles, "há terrenos bastantes para construir em extensão"
De volta ao centro da city, passei pelo National Botanic Garden, até cruzar com a Robert Mugabe Avenue. Mas não contente ainda, segui, um pouco mais a baixo, até encontrar a Avenida da Liberdade e inflectir para norte, até ao Ministério da Igualdade no Género e Proteção da Criança. É assim que se chama o MISFAMU deles. Estavam completados os 10 mil passos que são o propósito diário da caminhada.
Surgiu, então, um novo desafio que era o de elevar essa fasquia (10 mil passos/dia) como média semanal. Ora, no domingo e segunda-feira não tinha passado dos três mil passos. Precisava, por isso, de mais 5 mil passos. Olhando para o pôr-do-sol, marchei uns metros até à Avenida Mandume Ndemufayo (próximo do shoping Vernhill) e inverti para sul, fazendo mais 4 mil passos, até à Autoridade Rodoviária. Aqui, o "INEA deles" parece ter mesmo autoridade pois as vias estão bem conservadas. Pelo menos melhor do que as nossas.
A parte final foi marcha inversa, na mesma Mandume Ndemufayo, em direcção à baixa (Vernhil.). "Varridos" o norte, sul e leste da cidade,  restando-me apenas o pôr-do-sol, pus-me a pensar no que seria a conversa entre velhos amigos de escola.

- Quem me dera que pudesse também, com a mesma facilidade, percorrer as ruas da minha Luanda onde, nos dias que correm a conversa imaginária (tantas vezes real) pode ser essa:
. Epá, lembras-te daquele wi, com facas na cara, que foi nosso colega no IMEL?
. Yá,o Star.
• Star ou Kanyanga?
• É o mesmo wi. Chamávamo-lo por Star. Não é quele que amarrava bwé?
• Yá é o mesmo.
• Mas é o que então?
•Fogo, vi o gajo a andar bwé a pé e a "caloriar" p'ro caneco. Temos que "lhe" fazer uma kixikila. O mwadyé tipo está frustrado ou a sofrer. Tipo perdeu emprego ou coisa parecida.
•Mas, ó wi, estás mesmo a falar do Star? Só pode ser brincadeira. Ele gosta de caminhar. Deixa o popô na baixa para evitar que a barriga lhe roube os músculos das nádegas.
•Aié, então pensei a toa do brother. Mas que estava a caloriar, estava!
Em Luanda, seria essa a conversa de bar entre velhos colegas.

Publicado no Jornal de Angola de 02.06.19

quarta-feira, maio 01, 2019

OS SINDICATOS E A ÁGUA PARA POUCOS

Conta-se que nos Congos (Belga e Leopoldoville), o MPLA, avisado que a luta sindical era uma poderosa arma para dignificar o trabalhador angolano e combater a exploração do homem pelo homem, "andou" sempre (desde 1963) de mãos dadas com a sua Unta do camarada Pascoal Luvualu, servindo para “mobilizar e organizar os trabalhadores nas zonas rurais e os refugiados nos Países limítrofes para apoio político e material à Luta Armada de Libertação Nacional”.

Chegada a independência e proclamada a República Popular de Angola, a Unta continuou a sua acção de força mobilizadora dos trabalhadores em prol do Partido e dos ideais políticos delineados por este para o novo país, pois, “no período de 1977 a 1991, UNTA e os Sindicatos nela filiadas afirmaram-se como uma organização de trabalhadores que, sob orientação do MPLA-PT, desempenhou um papel decisivo na construção das bases materiais e técnicas da sociedade, que acabava de surgir”.
 
Assim, com esse casamento "ideologico-trabalhista" alguma pequena burguesia terá ficado "sem alguns caninos ou mesmo molares" e as reivindicações confinaram-se aos apelos alegóricos, no primeiro de Maio, onde os "proletários" de todo o mundo (pessoas que nada mais podiam dar ao Estado senão a capacidade de procriar/prole) eram chamados a unir-se em prol de "um salário que já não comprava" ou uma causa que reclamava inovação.
Com o mono-partidarismo e mono-sindicalismo, chegámos a 31 de Maio de 1991, data em que foram assinados em Bicesse, Lisboa, os acordos que poriam fim à guerra civil e ao mono-partidarismo, acontecendo antes a revisão da então Lei Constitucional que respaldou tais mudanças.
Veio o cessar-fogo, pluripartidarismo, liberdade de pensamento, de expressão e de imprensa, liberdade sindical, etc. e mais alguma coisa. Se o Partido governante ganhou concorrência, também à Unta se juntou a CGSILA de Manuel Difuila, ex integrante da Unta, trazendo nova pulungunza ao campo das reclamações e exigências para uma vida menos indigente para os trabalhadores.
Os rótulos, quanto às aproximações politico-ideológicas, não faltaram e ainda vão surgindo aqui e acolá, tendo em contas as colagens e descolagens dos líderes sindicais e partidários. É a História com um pouco de estórias.
Quanto ao hoje importa reflectir, nesta nova era da “governação lourencista”, são as frequentes ameaçam paralisações, fundadas em exigências cabíveis ou descabidas no bolso do patrão que só (des)encaixa dividendos com o trabalho (não) realizado pelos trabalhadores reclamantes.
Ao que me vai chegando aos ouvidos, parece estarmos a voltar aos anos da abertura ao plurissindicalismo, em que, por tudo e nada, se partia para a "arma mais violenta do trabalhador", a greve. E, mais preocupante do que isso, a meu ver, são os relatos sobre a existência de duas a três comissões sindicais em algumas empresas, revezando-se na apresentação de pautas reivindicativas, sendo os mais extremistas aqueles sindicatos criados no “pós-cisão” da União Nacional dos Trabalhadores Angolanos. Há mesmo, segundo relatos que me chegam ao ouvido, empresas em que uma dada Comissão Sindical diz ao patrão que "estão cientes da fraca produção ou recolha de receitas" e, por isso, atestam continuar a trabalhar para fazer crescer a organização e, com ela crescerem juntos social e salarialmente, enquanto outra comissão sindical declara "guerra" ao empregador, sem saber se trabalham ou não o suficiente para que a empresa possa atender ao que se exige. Provavelmente, isso explique, por exemplo, que algumas cidades (como o KK) estejam divididas em "lado da UNTA e lado da CGSILA ou outra Central Sindical", a contar com o facto de algumas ruas possuírem água e outras enfrentarem uma seca prolongada.

segunda-feira, abril 29, 2019

PESSOA MONA A DYALA Ô A MUHATU?

Conta-se, geralmente entre os mais velhos, iminentes bibliotecas vivas, que: Certa vez, ao tempo em que as autoridades tradicionais eram obrigadas a recrutar, entre os seus, pessoal activo (jovens e adolescentes de ambos sexos) para os levar ao posto colonial (administração), de onde os fazendeiros e serviços públicos iriam escolher "mão-de-obra" semi-escrava (pesudo-contratos) para as suas empreitadas, um soba, cumprindo a orientação que recebera do Posto levou os seus (filhos e sobrinhos incluídos) ao administrador comunal para evitar represálias. Chegado ao local, o administrador, um semi-analfabeto, barbudo e barrigundo, vira-se ao régulo e pergunta:
- Ove lá, ó preto! Quantas pessoas trouxeste?
Atónito, velho Kikundu, olhos apenas na palmatória com se se esborrachava as mãos dos sobas faltosos, nem mais atenção prestou á pergunta. Pensando ele que "Pessoa" fosse nome de alguém, e que se lhe tivessem perguntado onde estava o Pessoa, meteu-se aos prantos, temendo pela reprimenda.
- Pessoa nãe. Mona a dyala ô mona a muhatu? (Quem é Pessoa? É homem ou mulher?) - Indagou entre os seus, sem que resposta alguma lhe fosse também dada .
Bangão e maldoso, lá veio, de novo, o chefe de Posto.
- Ove lá ó preto! Não me consegues dizer quantos patrícios trouxeste sem que o verdugo do capataz te suba às costas?
E não se fez demorar o "grito" da palmatória para o choro inocente daquele homo angolensis.
Velho Kikundu foi devolvido à sua aldeia com as mãos inflamadas, enquanto os desafortunados aldeões levados à renda dos que já lá sofriam ano e meio seriam recolhidos para uma "tonga" onde o chicote assobiava de hora em hora em costas nuas, onde a sede se escondia medrosa no suor do labor e onde o peixe e fuba podres eram luxo na hora da fome.
Noutro dia, já na tonga, a empreitada era escavar uma montanha para nela fazer passar o tractor. Homens "destratados" foram mobilizados. A fila chegava a meio quilômetro. Maior mobilização, para uma só tarefa não havia, registo. Sete dias era o tempo expectado pelo patrão-aldrabão. Fuba: um saco. Feijão, meio saco. Peixe seco do Tômbwa: Meia caixa.
Capataz recebeu sem reclamar. No terreno, dia e meio, racção minguou. Quem vai pedir reforço?
- Vai o capataz. - Disseram todos.
- Nem que me matem. - Retorquiu ele receoso da brutamontisse daquele colono branco.
Um jovem, dezanove anos na imaginação do narrador. Saiu do fundo e colocou-se a diante.
- Ki kapataji ketele, eme ngyako (se o capataz não quer eu vou falar com o branco)!
- Eye, wiñana iki (você, um simples macaco no entendimento do branco?)
- Ngyako.- Insistiu disposto.
Uns já afiavam catanas e flechas para suprir a carência com recolecção. Vida humana emprestada a meros viventes, abaixo de javali.
Katako, de sua graça, lá se meteu a caminho da residência senhoril.
- Ses(s)a, phatalá! Nzangi yeli eji njila ijikuka mas subha é pocu!
(Dê-me licença patrão. A malta mandou transmitir que o caminho será aberto mais a fuba é pouca).
O patrão, nem uma nem duas. ficou-se pelo "diga-lá/repita-lá".
Katako, letra a letra, a mesma mensagem com a mesma entoação e vigor.
- Ó criado?! - Chamou Costa Curta ao doméstico embrenhado em tarefas domiciliares para interpretar e traduzir no seu "Pretuguês".
- Faló assi: caminho estó abrir, mas fuba co pexi nú chegó.
Hora depois, voltava Katako acompanhado de um serviçal, carregando reforço alimentar. Foi, ali mesmo e sem mais anuência do patrão, elevado à categoria de capataz. O medrica teve de se entregar à fúria dos jacarés no rio Longa.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 17.01.19

segunda-feira, abril 22, 2019

O MILHO E O 'MILHONÁRIO'

 
Corria o ano de 2013. Uma agência internacional anunciava que "Angola era o sexto país com mais milionários em África", somando quase cinco mil indivíduos que juntavam, cada um deles, o valor líquido e imóvel (excepto a residência oficial) de mais de um milhão de dólares americanos.
Mangodinho, quando ouviu falar sobre o assunto, "se" bateu no peito.
- Não pode! Disseram que o meu nome não "encosta". Eu também devo estar lá nessa lista de "milhonários"! - Disse vociferando. 
- Como assim, Mangodinho, você que só dorme e sonha porque Deus dá sonho de favor? - Perguntou Sembe, Sebastião nome dele da escola.
- Eu sou "milhonário" e ponto final, não me estraguem o dia. Aqui, nessa Aldeia, milheralmente falando, quem torra farinha comigo? - Questionou Mangodinho, de mãos e braços abertos, como que a mostrar o "mundo todo" de que ele se sentia dono e senhor. - Quenhê que torra farinha comigo, me diz só. Quenhê?!
Sembe e outros rapazes, todos na "mangação" do Kota Mangodinho.
- Esse Mangodinho deve estar a ficar xonê. Só pode ser. Você, casa de verdade não tem, comida é milho desde manhã até à noite. Jihuwa (mandíbulas) tipo filho de boi que perdeu a mãe e não está a mamar. Assim, tôs milhões é de quê, Mangodinho, nos mostra ainda com ele.
-  Então vocês mesmo não disseram? Eu produzo o quê? Eu como o quê? O outro milionário não disse "ele caga milhões"? E eu que semeio, cuido, colho, vendo e me alimento preferencialmente de milho sou quê, sôs burros?! Sou "milhonário", fiquem já a saber e avisem os gajos que vão actualizar a lista, no ano que vem, para não se esquecerem de pôr o meu nome na lista!
Eu sou "milhonário. Tenho milho que basta para dar e vender!

Publicado no Jornal de Angola de 30.01.19

segunda-feira, abril 15, 2019

É SOCIALISMO, CAMARADA!

Algures em Duque de Bragança ou Kalandula, para os nativos que nunca se aportuguesaram, conta-se que num pequeno rio com pequena represa natural, antecedida por uma transposição artificial, crianças, jovens e adultos faziam da água mansa daquele trecho elemento imprescindível para correr com as imundícies do corpo e para relaxe.
Todos, sem excepção, "banhavam" prazerosamente. Os mais idosos e cheios de posses e pudor faziam-no mais a baixo, junto à barreira natural que elevava o volume de água reprimida. Os jovens, com "força de ngufu", ocupavam o centro da "lagoa", servindo de intermediários entre os makota, à jusante, e os tundenge à montante. Esses últimos, a partir do ponteco, jogavam-se rio adentro, expelindo a energia carregada e exercitando todos os músculos, como só a natação permite. Se frquejassem na tentativa, os jovens pelo meio do trajecto, acudiam e reprimiam veementemente o atrevimento. Mas quem não aprende tentando? E se o fracasso acontecesse entre o meio e a meta, lá estavam os papás com o seu socorro e lições de vida.

Entre os petizes, aqueles que iam desprovidos de produtos de higiene e limpeza, quando deles precisassem, tinham a oportunidade de executar pequenos serviços e ganhar um esfregar apressado de sabão ou sabonete pelo cabelo que, depois, espalhavam para o corpo todo. Outros espargiam porções nada abonatórias de sabão em líquido pelo corpo que, depois, distribuíam as espumas pelo "mukutu". Mas havia aqueles que se deslocavam ao rio apenas para umas fimbas. Eram já tidos como grandes nadadores, prontos a integrar, na juventude, o inimaginavel corpo de bombeiros-salvadores que em Duque-Kalandula não havia.
Certo dia, Dimas, menino de lápis e caderno sempre, afamado na vila de "explicador de outros meninos e meninas de pés limpos e tranças permanentemente reparadas", acossado pelo abrasador sol de meio-dia, em período de férias, decidiu buscar por um mergulho. Àquela hora, poucos manos e tios se podiam encontrar no rio dos mergulhos. Apenas um dikota transeunte. Bem podia fazer-lhe um serviço mínimo, se solicitasse, mas...
Dimas subiu ao ponteco. Olhou à direita e à esquerda. À montante, onde poucas raparigas acarretam água, e à jusante, onde apenas um dikota soltava as alparcatas para buscar o bálsamo escondido na frescura da água. Jogou-se rio adentro. Nadou e, num abrir e fechar de olhos, fez-se caralmente ao senhor que saudou.
- Boa tarde camarada tio. Não precisa de ajuda para nada?
- Boa tarde camarada pioneiro. De momento. Nada a peticionar. - Respondeu-lhe o senhor.
O Viandante desatou as alparcatas, os calções, a camisa e soltou a ânsia de mergulhar. Fê-lo sem muitos movimentos. Apenas imergia e emergia no mesmo lugar, passando pelas partes íntimas e depois pela cabeça um pedaço de sabão, cuja espuma, à distância, fazia dele um homem branco.
Dimas deu outra fimba. Como sempre, em um minuto sem inspirar, atingia a barreira habitualmente frequentada pelos mais velhos.
- O camarada tio pode dizer de que aldeia é?
-De Carreira de Tiro, Malanje-capital. Tem lá parente?
- Não camarada. Era apenas para saber. Já agora, o camarada também lê marxismo-leninismo?
-Não, meu pioneiro. Um dia vou ler mas acabei de frequentar o curso de alfabetização que já me permite ler um pequeno bilhete.
Dimas pretendia, na verdade, uma aproximação que o permitisse esbranquiçar também o seu cabelo e sentir a dor do sabão em seus olhos. Mas faltou coragem para pedir e meteu-se água a dentro.
Quando o senhor se preparava para abandonar a água, o menino, sem fazer-se perceber, nadou até ao sabão e, rapidamente, esfregou-o na cabeça e no peito.
Um susto atacou o indivíduo que precisou de segundos para se recompor do susto e agir.
Com algum esforço, alcançou o bracito de Dimas que se preparava para o nado de regresso à parte mais funda daquela represa.
-Quê isso pioneiro? Já não se pede nem nada? É esso "enducação"?
- É socialismo, camarada tio. É distribuição dos meios pela comunidade. Assim, a minha carência também é do camarada tio e suas posses também são minhas, camarada. É isso socialismo!(?)

segunda-feira, abril 08, 2019

VIAJANDO COM O FILHO À DAMARALÂNDIA

Mangodinho, soba de Kuteka, foi à Damaralândia participar de uma reunião com os homólogos de lá. Ao contrário das primeiras vezes em que se fazia acompanhar de um dicionário, bloco de notas e um lápis enfiado no cabelo, para as anotações e consulta de palavras anglofonas desconhecidas, desta vez, fez-se acompanhar do filho que dizia saber falar inglês.
Logo à chegada, o longo papo que tiveram foi sobre civismo. E começava o filho assim:
- Ó papá! Por que é que aqui as ruas e os prédios são todos limpos se também é África e são negros como em Angola que é tudo cheio. De lixo é areia nas estradas?
- Filho, aqui são organizados. Todos consciencializados de que cada um e cada família deve limpar e pintar a sua casa, não jogar o lixo na rua nem destruir os bens públicos.
- O papá não disse que eles (alguns) também andaram em Angola como refugiados? Como é que eles não nos ensinaram a limpar ou como é que não aprenderam a sujar?
- Primeiro, eles viviam em acampamentos de refugiados organizados de acordo com os seus hábitos e costumes. Só iam às cidades para comprar ou vender o que tivessem a mais. Segundo, a questão não pode ser "como é que não aprenderam a sujar". Nos é que precisamos de nos organizar. Devemos fzer lá aquilo que aqui não se faz, ou seja, não jogar lixo do prédio para a rua. Não desperdiçar água, não sujar as paredes, não andar a toa pelas ruas, não atravessar fora das passadeiras, não vender em locais não autorizados, não partir os bens públicos como postes de iluminação, assentos nos jardins, papeleiras, etc.
- Mas o papá diz, sempre que estamos aqui, para poupar água...
- Sim. Aqui chove pouco e não têm rios como nós. Eles fazem permanentemente racionamento de água. É por isso que não se pode gastar muita para que a pouca existente chegue para todos.
- Mas, papá, como é que naquela rua em que passámos ontem havia uma conduta rota e água a correr pela rua?
- Rupturas acontecem em todo o lado. O importante é que sejam reparadas para que não se estraguem os passeis nem as estradas. Voltaremos a passar por lá amanhã para ver.
- A EPAL daqui também demora reparar?
- Não sei, filho. Amanhã vamos confirmar.
- Se demorarem arranjar o papá vai fazer participação?
- Vou fazer nota, filho. Ainda não sei onde fica a empresa deles que cuida da água ou das reparações das condutas danificadas.
- Papá, a nossa energia foi (cortada) mas não vi os homens da ENDE deles...
- Aqui a energia é pré-paga, como se põe saldo no telefone. Quando a quantidade comprada acaba, ninguém precisa de desligar os cabos. Um dia, isso também vai acontecer connosco e precisamos já de nos habituarmos a poupar energia.
- E como é que se poupa energia se ela não se vê, não se pega, nem sai de um cano como a água?
- É fácil. Muito fácil poupar energia. Basta não ligar equipamentos electrónicos que não estejam em uso. Por exemplo, quando não estás no teu quarto, não precisas de ter o aparelho de AC ligado. Se não estás a assistir à televisão, não precisas de ter o monitor ligado. Arca e geleira vazias não precisam estar ligadas. As lâmpadas devem estar desligadas durante o dia. É deste jeito que se poupa energia.
- Vou passar também a proceder assim, papá.
- Pois é. Assim deve ser. E cada um que tenha aprendido deve ensinar os outros e insistir com eles para mudarem de mentalidade. Só assim estaremos ao nível desses nossos vizinhos.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 18.04.19

segunda-feira, abril 01, 2019

PÃO COM CONDUTO

O Sol daquele dia era diferente. Único entre os já muitos sóis e noites vividos. Parecia que a bola vermelha e quente cairia sobre a terra para queimar tudo e acabar com todos. Mesmo assim, chovia a pingos preguiçosos que secavam em tempo apressado. A sede então, ah! Essa era tanta. Parecia que os caudais dos rios secariam. As pessoas, em todos os atalhos que levam às lavras, nas estradas que ligam terras distantes e cidades em que impera a banga, o bom vestir e o bem falar, estavam todas ora com a garrafa de água na boca, ora com a boca no caudal do rio, sorvendo a mistura de hidrogénio e oxigénio (H2O).
 
Mas não era só sol, chuva miúda, sede e cansaço. Era também fome. Será que andar debaixo do sol também aumenta a fome?
As viagens, de véspera e do momento, ao volante, tinham sido longas e extenuantes, embora tivessem sido mais sobre estradas do que em picadas; mais asfalto do que buracos; mais luz do que noite. Só que os quilómetros não eram poucos e as paragens, para pegar isso e deixar aquilo ou atender o estômago resmungão tinham roubado bastante tempo.
Depois de CADÁ (é mesmo assim que se pronuncia), cidade que assiste impávida todo seu recheio de tempos áureos a cair (1,2,3… até nada mais haver) chegámos, de volta à vila de Kibala, Kwanza-Sul, por onde havíamos passado na noite anterior.
 
O ingrato estômago teve de nos levar a uma roulote, estrategicamente implantada na bifurcação entre dois caminhos que juntam aldeias periféricas do vilarejo. Próximo do que foi a moageira CAIMA. É também lugar de encontros e reencontros da moçada local e de galanteio.
 Um jovem estava encostado à roulote. Vi-o e não me contaram. Ao seu encontro ia uma mana vestindo blusa verde floreada, panos à cintura e um lencito à cabeça.  Diziam, a contar pela denunciante pronúncia, ser duma terra do centro da noss'Angola.
O mano, calças jeans muito largas na parte superior, a fazer desaparecer o mataku e demais condimentos, e uns chinelos “avaziana”, isso mesmo “avaziana”, era kibalense. Na cara dele lia-se muita esperteza, mas na boca e na cabeça pouca inteligência.
Os dois pararam, antes da saudação, ao "se darem encontro" no atalho que liga as duas aldeias periféricas da "cidade" (como chamam o vilarejo), próximo da roullote.
- Caró, saudade que te estou a ouvir é mbastante, tipo água no rio Kakungulu. Desde anteontem sem te ver. Será que não gostaste do que “se” falámos?
- Yá, João. Também senti lá vontade. Falei mesmo vou “le” procurar para se descontar lá um kabukadu. Ó João, também trouxe fome, tó te falar! Me paga lá ainda um pão com conduto lá dentro, tipo aquele que provámos na casa do teu amigo Nito…
A conversa prosseguiu com pícaros de “sarcasmo” ao meu ouvido. Era só rir a toda a largura da boca. Juro mesmo, funji ou pirão com conduto já ouvi e já comi. Pão com conduto (hambúrguer) foi primeiríssima vez.

Publicado pelo jornal Nova gazeta a 06.12.18

sexta-feira, março 29, 2019

LÁGRIMAS DE VIÚVA

 
Na minha terra nunca foram de crocodilo. Explico as de crocodilo. Mesmo que uma dor ou saudade lhe arranque lágrimas, jamais serão vistas, pois ele vive na água e o fluido lacrimal é, imediatamente, arrastado pela corrente. Por isso, se costuma dizer, aos inimigos que fingem chorar ou aqueles que simulam um comportamento inespontâneo, que "soltam lágrimas de ngandu".
No Kwanza-ao-Sul não! Uma viúva que é, de facto, viúva, que tenha coabitado e produzido frutos amorosos com o seu de cujos, chora e verte lágrimas espontâneas dias sem fim, até que o rasto delas seja de todos visível como um leito de um rio intermitente, ora seco mas com riscos a marcar a passagem de água, ora inundado.
A senhora que tenha perdido o cônjuge, chora, evocando aos que partiram antes que o recebam na graça. Enumera os seus entes queridos partidos e aos quais distribui preces e recados. Mas é o seu amor finado a causa de todos os prantos. E chora em cada alvorada, cada aurora e quando a saudade bater.
- Pai do fulano (assim se dirige uma mulher ao marido), cumprimenta o meu pai. Quando encontrares o mano sicrano dá-lhe também meus cumprimentos e não esquece avisar o tio Beltrano que a kasule dele já tem "chucha" e está quase a ser pedida em casamento. - Recomenda no seu choro cantado e acompanhado, sempre, de fartas lágrimas.
Quem se deleita com esse choro permanente, manhã e entardecer, é a criançada inocente, que marca as horas do "canto da viúva" , e se pergunta:
- Porquê desse esforço e agenda de choro da "kabulungu"?
Mas ela, acompanhada de uma idosa ou em solilóquio, até a última visita abandonar a residência, já dias avançados ao komba ditôkwa (varrer as cinzas das fogueiras diurnas e nocturnas, para dar por encerrado o óbito) chora com fartura. Lava a boca, mas não o rosto. Lava o corpo, mas não a cabeça. E, até ao último dia, em que a viúva é "solta" para com as de sua intimidade ir ao rio, ir à lavra, à faina e a outras tarefas, ela mantém aquele leito seco no seu rosto deixado pelas lágrimas.
- Mana fulana chorou bem o seu marido.
- Mana fulana nem vimos as lágrimas (em favor) do marido.
- Mana beltrana eram só gritos de kapuka. Lágrima que é lágrima nada!
São os comentários que se ouvem depois do óbito terminar.
Mas, afinal, sentimento está nas lágrimas? Quem não tem "kinduli" (rasto de lágrimas sobre o rosto) não chorou? Não sente saudade e ausência? Não é viúva digna desse nome?
Minha mãe chorou meu pai até se "cavar um rio" sobre seu rosto. É parte de nossos hábitos e costumes, já em desuso. Até hoje, ela ainda se recorda de seu António como se tivesse partido há poucas semanas, quando já lá se vão perto de quarenta anos.
Só não sei e nunca consigo entender o porquê daquelas lágrimas!
 
Publicado pelo Jornal Nova Gazeta de 24.01.19

sexta-feira, março 22, 2019

ANDANDO ESTRADA A BAIXO

"Walkind down the street/Distants memories are buried on the past/for ever"!.. é trecho da letra de Brian Adams, aqui trazida para retratar o que tem sido minha ocupação nos últimos dias.
Tal como a minha cidade do Zango V, a cidade que me acolhe temporariamente tem condições para caminhar. Passeios com alguma ordem e uniformização, trânsito bem regulado e sol de enegrecer. Espreitando o boletim do Ministério da Administração Interna e Migração li que é visão do o...rganismo "Registar a população e gerir a migração de acordo aos melhores rácios mundiais", sendo missão "gerir o registo da população nacional e facilitar a migração legal".
 
Já que entrei de forma legal, meti-me a fazer contas, enquanto caminhava e reflectia sobre o que me aparecia à leitura. Vejamos:
Angola com seus 1246700 km2 possui uma população de ±30 milhões de habitantes, uma densidade média de 24,06 hab/km2. Parece pouco n'ê?!
O antigo Sudoeste Africano com seus 825418 km2 e uma população de ±2500 assume uma densidade média de 2,2 hab/km2. Nestes termos, a Namíbia tem menos de 10% da população angolana, embora o seu território seja maior do que a metade de Angola. É a inexistência de pressão demográfica sobre a sua capital (e território todo) que justifica a paz social aqui verificada e que a torna um destino temporário ou mesmo definitivo para muitos angolanos cansados de "lenga-lenga" de Luanda.


Imagine que, para uma densidade populacional paritária com Angola, o país ao sul teria uma população de 20 milhões de seres, ao contrário dos seus 2.5milhoes. Pouca gente nê?!
Sim. Andando sem pressa e sem destino certo. Apenais marcar passos até não mais cidade houver pela frente, atingindo um dos várias montes que circundam a cidade, completei o percurso norte-sul do plateau. Cinco mil passos a norte e outros cinco mil a sul, numa distância aproximada de 9km. Falta percorrer a horizontal, nascente-"morrente". Mande-me Ndemufayo é a Avenida que corta longitudinalmente Whindoek.

Publicado no Jornal de Angola de 10.03.19

segunda-feira, março 18, 2019

O CANTO E A POESIA ENTRE OS METODISTAS

"O metodismo nasceu a cantar", atesta Emílio de Carvalho, no seu prefácio ao hinário Povo Catai!, da Igreja Metodista Unida em Angola, 1ª edição, 1982. Concordo com o bispo e acrescento que os metodistas crescem a recitar. Tal exercício de declamar textos bíblicos e artísticos nas "classes e igrejas" acontece desde pequenos e influencia a trajectória dos indivíduos no que concerne ao "encarar a floresta em vez da árvore", na hora da exposição oral.
De uma turma de LP que ministro em um Centro de Formação, os menos tímidos são aqueles que exercita(ra)m a recitação ou o canto em igrejas, destacando-se os da IMUA.
Lembro-me do dia e mês em que cheguei pela primeira vez a Luanda: 18 de Maio de 1984, fugido de refregas entre militares antagonistas. Meus tios, anfitriões, eram crentes Metodistas, na altura única em Angola, frequentando, porém, cargos (congregações) diferentes. Ele na Calemba e ela na Moisés, então recém-emancipada da primeira.
Fui, inicialmente, com o tio à Calemba, próximo do "cemitério novo" ou Sant'ana. Este cargo possuía próximo de casa, no Rangel, a classe João Baptista, no México. Era lá que conheci o velho João Kambundu, de feliz memória, sendo guia o velho Pedro, pai de Keth e Gia Mateus Pedro (meus contemporâneos). Encontrei ainda a família Catumbila, sendo meus coetâneos o Toy e o seu "puto" Jojó Catumbila. O Jeremias, a Fatinha e o Isaías eram já makwenze.
Tendo chegado a Luanda em Maio, a frequência da classe João Baptista não podia ser ainda vésperas de natal,  altura em que os meninos e meninas da metodista ensaiam nas classes o programa de Natal, com cânticos e poesia que nos levavam a "escorregar" pelo corredor ao púlpito. Era característica marcante, e sempre presente nos templos metodistas, o ensino do canto, da poesia e dos jogos orais, quer fosse ou não época de natal, páscoa, EBF ou outra data, como foram os ensaios na Central e Bethel, quando do centenário (1985). Os meninos eram chamados a "seguir a Jesus" como evoca o hino 90 do HPC da IMUA.
Esses ensinemos transformaram positivamente gerações, incluindo a minha. A escrita, a recitação e a música tornaram-se pontos fortes do "povo metodista", quer continue ou não frequentando os templos.
E, 35 anos depois, ainda "oiço" vozes de meninos como a Gia Pedro, Toy Catumbila (Calemba) ou Xico Kitembo e Lurdes (da Moisés aonde me transferi meses depois) cantando na Escola Bíblica de Férias ou nos cultos semanais da classe o "vinde meninos, vinde a Jesus..!"

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 21 de Março de 2019

sexta-feira, março 15, 2019

PERDENDO ARTISTAS E GANHANDO IGNORANTES

Em menos de um mês perdemos os escritores António Panguila e Frederico Ningui, exímios escultores da palavra, notabilizando-se entre finais da década de oitenta e início da década de noventa do século passado. Perdemo-los, num abri e fechar de olhos, sem que nos dessem tempo para um adeus! 

Maior do que a tristeza de já não ter os meus inspiradores (enquanto leitor e frequentador, nos anos 90, dos debates semanais na UEA) é saber que os jovens de hoje pouco ou nada sabem sobre aqueles que deviam ser os seus "modelos inspiradores".
Passei pela Kibala, terra de "Pangila", falei com muitos jovens, alguns a terminarem o ensino médio... Evoquei o nome de António Pangila, que já liderou a ANA Kibala (Associação dos naturais e amigos da Kibala).
- Pangila wamwinjya?
(Conheces Pangila?) 
- Xô! Pangila nyi?
(Não. Quem é Pangila?) 
- Pangila mesene yo sonika. Wahi semana yapiti. Kumwinji?
(Pangila é mestre da escrita. Morreu a semana passada. Nunca ouviste falar dele?) 
-Xô!
(Não!) 
Fiz a mesma pergunta sobre o Reverendo Gabriel Vinte e Cinco, também ele kibalense, com dedos na escrita e voz na pregação do evangelho de Cristo, pela via Metodista Unida. Expliquei que o "mwali-a-kime" foi superintendente distrital da Igreja no Kwanza-Sul. Falei-lhes sobre a famosa igreja "Boa Esperança" , que fica na aldeia de Kimone, a poucos quilómetros da sede municipal. Informei ainda que, não passa um mês, o mais velho lançou um livro "Kwanza-Sul: Conheça-te e faça-te conhecer".
- Sô pastore "Vindi e Cingu" wamwinjya?
(Conheces o Sr. pastor Vinte-e-Cinco?) 
- Xô!
(Não!) 
Não se conhecendo, em uma vila minúscula, dois vultos da literatura nacional, provincial e local, senti-me inibido em perguntar-lhes sobre escritores "mirins", como é o caso do autor dessa prosa. Limitei-me a oferecer os poucos livros que se achavam em sobra na viatura, esperando que alguém se lembre de os ler e falar aos outros no recreio escolar ou entre fimbas e repousos de um piquenique qualquer. 
Não refeito ainda do susto, porque tamanha ignorância assusta, continuo a perguntar-me:
- 0 que ensinam os professores desses jovens?
- 0 que aprendem esses rapazes e raparigas?
- Que conversas fazem parte de suas tertúlias sabatinas?
- Que noticiários ouvem/lêem/vêem esses (des)continuadores de nossas obras?
Não tenho resposta e calculo que você tenha também outras inquietude sobre o rumo que a sociedade está a tomar ou a nossa mania de exigir que os mais novos saibam algo sobre seu passado e presente, permitindo-os, desta feita, erguer um futuro em rocha-firme como aquela em que assentava o fortim da Kibala. 
 
Texto publicado no Jornal de Angola a 02.12.2018

sexta-feira, março 08, 2019

AQUILO QUE NÃO ERA QUILO


A presente narrativa tem enquadramento nos anos oitenta do século XX, em Luanda. O bairro é Rangel, ao Kaputu, rua de Ambaka,congregando catetenses, há muito instalados; Kwanza-sulinos, novos e antigos no bairro; malanjinos e kwanza-nortenses contados a dedos. Nortenses do Uije e Zaire não havia. Se houve, eram muito insignificantes.

A actividade principal das senhoras era ser "dona de casa", algumas com registo no Bilhete de Identidade como profissão, e revender géneros alimentícios adquiridos em primeira instância nas "lojas do povo" ou na kandonga dos desviadores de "géneros do povo".
 
E nós, crianças desse tempo, vivíamos a nossa época do melhor jeito que ela permitia: corridas de jante e de pneus, jogar e caçar castanhas de caju, caça de "gaffas" junto à linha férrea, recolha de cereais perdidos pelo comboio do Mbungu-Kikolu para alimentar os pombos e apanha de metades terminais de cana vinda de Malanje e outras paragens desconhecidas. Não preciso de citar, dentre os deveres, a escola obrigatória, a explicação para alguns e enfrentar as filas dos "supermercados", depósitos de pão, talhos, peixarias, lojas do gás, entre outros serviços delegados pelas mães, que se ocupavam da venda, e pelos papás que trabalhavam na baixa e noutras paragens para garantir o cartão de abastecimento mensal (era amarelinho, com os doze meses registados e uma lista de bens perecíveis, não perecíveis e os electrodomésticos que nunca vinham).
 
É na venda e revenda, entre lojas e bancadas, que surgia aquilo que não era quilo.

A balança calibrada e fiscalizada tinha ficado encerrada na cantina do colono expulso. O que surgia "era tudo do povo". O povo mandava e desmanchava. O povo era quem mais ordenava e as coisas (algumas do tempo da senhora expulsa) estavam sendo ignoradas, pois algures se dizia que "o homem novo traria coisas novas". Daí que as lojas tinham balanças para o povo ver e nos mercados e bancadas fazia-se a vida com latas e kandimbas para o povo medir.
 
É assim: nas lojas, as balanças faziam o "faz de contas". Os ensacáveis como arroz, açúcar, sal, feijão e outros cereais, quando os houvesse, era encontrados já nas montras com a indicação de xis quilos. Muitas vezes não correspondiam, mas eram os quilos declarados e levados pelo comprador. Era a loja do povo e ponto final.
Um pouco mais realistas eram as mamãs das kitandas e das bancadas à porta. A lata de óleo vegetal, alta e mais estreita; a lata de margarina, mais curta e mais larga; a quadriculada de azeitonas ou a circular de chouriços tanto serviam para "aviar" o cliente de fuba (milho, bombô ou trigo), sal, açúcar, feijão, jinguba, feijão, arroz, etc. Todas essas canecas/latas tinham apenas algo de comum. A designação. As quantidades que podiam carregar eram variáveis, embora comummente se tratasse aquela quantidade variável por "quilo". Assim comprávamos o "quilo" de arroz ou de sal medido em lata de 900 gramas de onde se tinha consumido a margarina.
Mais exacta, pelo menos em termos de volume, pois o peso varia sempre em função da densidade, era a kandimba. Essa sim. A kandimba era a lata de leite moça. Quando fosse para se usar a unidade imediatamente inferior àquilo que não era quilo, usava-se a kandimba ou ainda a latinha de massa-tomate. A kandimba, unidade de peso para os que menos podiam comprar ou menos precisassem naquele dia, era exacta. Medida única em todos os mercados e bancadas. Menos na loja. Desapareceu (in)felizmente.

 - Ó tia, quanto é a kandimba de arroz, avia bem, faxavor, mama disse é sua comadre!

Publicado no Jornal de Angola de 7 de Abril 2019

sexta-feira, março 01, 2019

BALABANDI

Em tempos fui a uma instituição pública tratar uma demanda de ordem jurídica. Olhando de soslaio, atento ao que me estava à volta, mas sem pretender que fosse descoberto, verifiquei que os processos, muitos já acastanhados e carcomidos, eram perfurados e amarrados com uma linha que seguia uma agulha também grossa.
Desde que abandonei o interior e o Roque Santeiro foi extinto que já não via nem a linha nem aquela agulha que na fazenda servia para atar os sacos de café... ou de macroeira. Veio-me à mente a palavra, "balabandi". O termo, pronunciado no meu Kimbundu materno, já leva mais de quarenta anos de distância. Era ouvido na infância e sempre acorrentado a estórias e crendices que apontavam para manufacturas ou engenhos movidos a braços e por forças ocultas repousando em duas caveiras de "mbalundu" decapitados por brancos impiedosos, para fazer as máquinas funcionar.
E tais máquinas, nas zonas de Ngulungu, Lwati, Kimbirima, etc. não processavam outra coisa que não fosse o balabandi que, mais tarde, cheguei a saber que não era mais senão o sisal. Havia no território do Lubolu, em tempos idos, "infindáveis" campos de sisal, cuja corda, levada ao beneficiamento, resultava em tapeçaria, sacaria para acomodar o café dos terreiros, cordas e linhas diversas para fins incontáveis, utensílios domésticos e outras benfeitorias.
O balabandi para fins industriais, no Lubolu, é hoje cultivado apenas na memória dos vovós que regaram os campos e as fabriquetas de fiação com o suor de sua juventude e poucos quarentões, crianças de então, que frequentaram o njangu onde as estórias desfilavam no meio da história contada de boca em boca. Fora disso, são apenas raríssimas plantas que resistem ao fogo de todos os anos e alguns rebentos que se colocam à beira das lavras para impedir a intrusão de javalis, pacas e outros impostores.
Se há uns vinte anos ainda se fiavam manual e artesanalmente algumas cordas para as pequenas armadilhas, hoje que a "caça pequena" e a recolecção deixaram de fazer parte do dia-a-dia do homem rural, para que mais serve o balabandi?
Sumiram as fábricas de fiação nas pequenas e grandes cidades. O café pouco reclama a ausência do saco confeccionado com fios de sisal. Os tapetes vêm da China. As cordas também. Os campos, sem quem receba a matéria-prima, deixaram de produzir sisal.
Os dólares que o balabandi poupava, quando não tínhamos petro-diamantes, são hoje exportados para coisas menores: linhas, esfregonas, cortinas, agulhas e botões para camisas. Que tal poupá-los para replantar balabandi (sisal) que pode ressuscitar a indústria de ficção e sacaria?
São apenas cogitações leigas!


Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 8.11.2018
 

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

KALUMBU AO PÔR-DO-SOL

(Tentativa de descrição) 
Kwanza preguiçoso de tanta caminhada, Citembu-Lwanda-Atlântico. Distância já pouca. À beira, riqueza também pouca, apesar de margens largas, humificadas e propícias à agricultura e pecuária. É assim, do Dondo, velha cidade por muitos descrita e de muitos conhecida, ao desembocadouro.
Kalumbu assiste ao pôr do-sol de um dia de Fevereiro, antecedido por farta chuva. Sobre as águas translúcidas do Kwanza, uma porção, não pequena,  de plantas aquáticas (herbáceas), que quando paradas escondem peixes e jacarés, desliza flutuante, rio a baixo.
- Quê aquilo?
- É ngandu
- Nûé ngandu. É capim!
- Capim, assim enrolado? Toma cuidado. Às vezes inimigo se esconde no capim para jantar pessoa.
Lá, mais ao fundo, era outro o diálogo. Gentes doutra margem, Kis(s)amistas, negócio aviado. Ao fim da tarde é só despacho.
- Canoa te cobra na vinda, pessoa e produtos. Canoa te cobra "igualimente" no regresso, pessoa e sobra de produto, que às vezes preço da travessia e ida e volta, duas vezes, é maior do que preço da venda. Despachei só já  "numa" mana que também tinha cara de sofrimento.
Para as vianenses o dia tinha acabado. 
- É hora de voltar e fazer a janta dos filhos e do pais deles.
Para os da margem kis(s)amista do Kwanza, o coração que é só um pensa na canoa e no preço da travessia, no jacaré que gosta se esconder no erva aquática que flutua sobre a corrente do rio calmo. Pensa ainda, o mesmo coração nos filhos das traquinices, se alguém "se aleijou" e pensa também no marido que pode encontrar já sem camisa, pronto "a se ignorar", depois de avultadas doses de katula mbinza.
Só as manas e mamãs, umas aproveitáveis conselheiras nas igrejas, outras desaproveitáveis e perdidas na cerveja barata, dizia: só as mamãs e manas de Kalumbu é que não se agitam com o morrer do sol, pois conhecedoras do wenji daquela praça, aproveitam comprar barato das senhoras da Kisama e revender às manas retardatárias de Luanda, hoje à noite, ou amanhã  de manhã, antes das agricultoras de verdade pousarem os kingombo, idingo, madimá, jimbiji nyi ima yoso!

Publicado no jornal Nova gazeta de 28.02.19

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

CHUVA NO MUSEKE É TAMBÉM alegria DO POVO

Quando chove, a avó pega o seu branquinho de três pernas, que chama de "mocho", e fica num canto a cachimbar ou a visitar as malambas acumuladas nos oitenta e tal anos que armazena no seu cabelo de algodão.
Avó Maluvu, manhã cedo, café simples, forte-fervido, açúcar kabucado, nem palavra nem sílaba. Apenas o branco do fumo que se dilui na brancura dos seus "jinvi".
Palavras, apenas quando o neto Miguelito lhe vem chatear com conversa fiada de "avô, chuva é crugulema?" E a avó passeia pela memória para formular uma resposta repleta de imagens amontoadas ao longo do tempo, desde a sua meninice aos dias de hoje, já sem força nas inama, mas com nguzu ainda no cérebro. E pensa:
- Tirando o barramento da passagem nos becos estreitos e os carros que, às vezes, sujam quem de roupa branca se dirige à igreja Tôco, quem que disse que chuva nos musekes só trás problemas? Quem quenhê que disse?
Então aquela "divertição" de ver as moças bangonas nos outros dias, a não dar confiança nem na mãe que lhe lavou machachala, nos rapazes do bairro já é mais pior. - Xê, num falo contigo, se cunhecêmos aondiê?! Dizia, quem que disse é problema ver aquelas moças todas, com mataku enfiados nos calções das irmãs kasule, a acarretarem água dos quintais para deitar nas ruas; as mamãs, com os panos até ao diafragma, a sufocarem as mamas xuwetadas, tipo chinelos que esqueceram no óbito, também ajudando ou avançando com o matabicho de peixe matona com batata doce; os papás com calções de ténis a dar ordem aos mizangala para tapar os buracos nas ruas ou a remendar as casas "prejudicadas" pela chuva nocturna ou ainda a podar as trepadeiras que lhes cercam os quintais...
- Quenhê que disse que chuva no museke não trás alegria aos kanuku que jogam a bola de trapo ou borracha, despreocupados com a surra por vir, depois de anodoar a camisola da igreja ou rasgar os sapatos da escola? Quenhê que disse, menino?! CHUVA NO MUSEKE É TAMBÉM alegria DO POVO!
Publicado no Jornal de Angola a 03.03.19

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

MORNA PAIXÃO


 Nas terras de Chernenko, Staline, Lenine e Putin, os amores são sempre à primeira vista. As pernas negras do underwear (meias de vidro) sobreposto à carne amarela duma "donzela" fazem pensar numa negra da Kibala, recortada como viola que alimenta noites dançantes de xirimina.
A comida nos restaurantes também. Cereais que nos levam ao Kunene da masambala (milho miúdo) tem mesmo sabor de arroz e dizem ser do melhor que há em emprestar saúde ao corpo africano dilace...rado de maleitas e pragas.
O pão banhado em leite e passado na frigideira, sem óleo, é outro encanto... Mas então, o que não encanta aqui se a matemática aplicada à construção é à medicina (quem diria?) também faz milagres e motiva estudos para melhor compreensão e, quem sabe, réplica, lá na banda?
Tudo encanto para quem desfila a praça pela primeira vez, excepto os brutamontes de alguns czarianos que se julgam seres superiores na nossa idiossincrasia de pensar.
É cultura deles, cultivada já séculos, no relacionamento com outros. Até nos edifícios são imponentes e mostram essa grandeza de estar e de Estado. Apenas o tempo nos leva a entranhar essa forma de estar, pensar e agir e copiar-lhes os bons modos, aqueles aplicáveis à nossa secularidade, aos nossos mores.
Mas voltemos ao amor e paixão à primeira vista. Quem nunca a sentiu? Se ainda, tem tempo e não precisa ter pressa. Camões, o kawoyu da nossa metróia, escreveu "a paixão é como fogo" porém ela queima sem mostrar chama. Sim, isso mesmo. O duro é quando essa paixão começa a perder o furor, a chama... O que era doce perde a sacarose, depois ganha sabor acre e salgado. Assim está o pitéu. Um desencanto ao quarto dia. O estômago começa a inviabilizar o desfile. É outra a praça querida. É preciso andar, mudar a rota, buscar por ofertas alteres ou encontrar outros gostos, antes que a Sibéria tome conta do rol.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta 2018

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

UMA VISITA INUSITADA

Que as abelhas seguem perfume, já é há muito sabido. Por isso, os prospectores mineiros devem ser parcimoniosos no uso de perfumes, evitando os odores mais activos, para não atrair o insecto do mel.
Conta-se que numa mina de Moçambique, as abelhas não deixavam entrar os prospectores africanos recém-licenciados na Europa, por estes pretenderem apresentar sempre "bem-cheirosos" e distintos do normal operário que sempre habitou o interland. É outra conversa.
Do que não sabemos ainda, é o que as rãs seguem dos homens. Será o seu espaço invadido? O conforto da temperatura alterada por meios artificiais, em contraposição ao clima natural e exterior?
O hotel em que decorre a prosa é zambiano, na zona chick que acolhe os hotéis mais vistosos e visitados, chopings e outras valências modernas como o Chicago, um casino-bar que acolhe noctívagos e apreciadores de "boas carnes" e quejandos.
O andar, para espanto, é o quarto. Estamos a falar de 12 metros, mais ou menos. A entrada do hóspede foi às 22horas. Se quem entra move a maçaneta da porta, a partir do corredor, é líquido que o batráquio, às 22 horas não estava lá atracado. Só podia tê-lo feito no silêncio da madrugada.
Foi ao sair que me deparei com o que outros chamaram de "inusitada brincadeira entre eu e o jovem da limpeza".
Aberta a porta do interior do quarto ao exterior, é ao fechá-la que me deparo com o que se parecia a um boneco de borracha em forma de rã. Aproximei-me, sem medo de bicho qualquer, e reparei que  "a borracha"respirava. Era sim uma rã viva e saudável que brilhava à luz artificial no corredor alcatifado.
- Porra! Que brincadeira é essa?! - Soltei malicioso sem se fazer ouvir.
Subi ao nono andar, para o matabicho carregado, para não mais o estômago reclamar almoço. Desci novamente ao quarto andar, apenas para confirmar se o visitante se tinha ido embora ou se aguardava por uma outra diligência menos amistosa.
Chegado  à porta 433, lá estava ele, o batráquio, quieto como criança sonolenta. Foi então que chamei pelo jovem que cuidava da limpeza.
- Hello! Please, come here to see any thing. (Bom dia, venha cá, por favor, para ver uma coisa).
Aliás, o jovem já tinha  limpado todos os quartos anteriores e posteriores, deixando o meu por limpar.
- Então, jovem? Já viu o que está na porta? Falei num inglês arrojado.
- Yes I saw. I think it was a toy and you did not wanted be disturbed (sim, eu vi. Julguei que fosse um brinquedo a indicar que não queria ser perturbado).
- Leve, seu bicho, por favor. - Ordenei em meio de um sorriso leve.
Depois de umas tantas voltas, verifiquei que a área frontal e lateral do imóvel hoteleiro era propícia a acomodar rãs e semelhantes, dada a relva e humidade. Porém, a parte traseira do edifício era cercada por lojas cobertas de chapas metálicas, que elevavam o calor.
Ela só podia estar a seguir a regulação do calor por via induzida. E, sendo a rã um bicho de salto alto, era normal que num só esforço atingisse o quarto andar!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 15.11.18