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sábado, março 01, 2014

CUIDEM DE VÓS E CUIDEM DA VOSSA ALDEIA!

- Iswaswa mu haxi, ka! (lixo no chão, não! A frase em língua bantu, ucokwe, falada no nordeste de Angola, difundida por colunas altifalantes vai ecoar por muito tempo naquela aldeia e redondezas, pois o público alvo foi, maioritariamente, crianças e adolescentes que tiveram um sábado diferente, no primeiro dia de Marco de 2014.
Saypupu é uma aldeola que fica há 34 km de Saurimo, a capital da província angolana da Lunda Sul. É o aglomerado populacional mais próximo da vila mineira de Catoca que se ergue, com a actual configuração, desde 1995. Apesar de no tempo pré-independência se ter feito exploração diamantífera residual na actual mina de Catoca, a comunidade de Saypupu é preexistente à exploração mecanizada do kimberlito de Catoca que dá nome à maior diamantífera angolana.
São pouco mais de 50 famílias que vivem da agricultura de subsistência, caça e pesca. A fauna e os recursos piscatórios são abundantes, mas o crescimento populacional, fruto, em parte, da melhoria das condições sanitárias faz da comunidade uma das mais carenciadas.
Quem vai a Saypupu não precisa de inquirir os aldeões para notar que há uma taxa de fecundidade e de natalidade elevada. Todas as senhoras apresentam-se com crianças ao colo, sendo que a maternidade começa na adolescência.

Segunda é uma das mães de Saypupu. Dança embriagada com a filha às costas. A menina, com um ano e meio de vida aproximadamente, está acometida de um furúnculo na genitália. A mãe, há pouco saída da adolescência, mostra-se menos preocupada com o que se passa com a filha. Ensaia toques de cyanda, a dança local, ao som alto espalhado  por colunas montadas a propósito da campanha de sensibilização sobre as doenças provocadas pelo lixo nas comunidades. Segunda dança. Nas costas, a criança geme de dor.
- Tenho 20 anos e sou mãe de cinco filhos. – Disse quando perguntada por uma das minhas colegas que comigo foi à campanha de recolha de resíduos sólidos e sensibilização sobre os perigos do mau manuseamento do lixo.
Puxei pela cabeça para compreender com quantos anos Segunda se tornou primípara e qual tem sido o espaçamento entre os filhos. O meu esforço só teria compensação se a voltasse a perguntar, algo que achei deselegante e incómodo. Preferi ficar à fala com os meus botões.
Como Segunda, há outras senhoras que dançam ao som da cyanda e do ku duro. Outras mulheres que se tornaram mães precoces e que estão divididas entre recuperar a mocidade  adiada e a maternidade exigente. O álcool, consentido pelos maridos, torna-se o refúgios para uns e para outros.
Mais despreocupados estão as “ana jo” (crianças). Prestam atenção às explicações dos palestrantes, acompanham os visitantes voluntários na campanha de limpeza da aldeia, seguem os passos, conversam e também dançam. Dançam a tradicional cyanda e dançam também o “do cotovelo”. Dançam alegres, despreocupadas e inovadoras como as outras crianças das médias e grandes cidades iluminadas e inundadas de veículos automóveis e salões para festas. Aqui não. A sombra de duas mangueiras gémeas é o salão. A picada que recorta a aldeia em dois blocos é riscada pelas rodas estreitas das motorizadas. As crianças falam português, a língua da escola, mas é em ucokwe que todos mais se entendem. Por isso, o discurso é bilingue para que todos percebam o que se pensa e o que se diz.
- Há água potável que sai da vizinha vila mineira, mas falta ainda a energia eléctrica pública e um centro hospitalar. Faltam também os mosquiteiros. - Apelou o secretário da aldeia, sempre atento aos sinais do soba, o seu chefe.
Ouvimos os recados transmitidos de forma implícita e explicita. A responsável pala área social da empresa explicou os esforços que o Governo e  a companhia fazem junto das populações para inverter o quadro.

- Sabemos que as aldeias à volta da nossa empresa têm muitas necessidades. Entendemos as vossas reclamações, mas temos de lutar juntos. Não é possível colocar tudo o que pretendem em aldeias muito dispersas e pouco habitadas. É preciso juntar as aldeias para que um único posto médico, uma escola, um fontanário ou um Centro Infantil possam atender muitas pessoas. Há um projecto de unificação das aldeias que o Governo e nossa empresa já apresentaram aos sobas. Precisamos do apoio dos sobas e das populações para realizarmos este projecto que nos vai facilitar a todos. – Concluiu, agradecendo e apelando ao início da campanha.
Vassouras, pás, sacos de plástico, tambores e baldes para o depósito de lixo. Antes a distribuição de luvas de borracha. Todos. Quase todos, com excepção do soba que não vi participar da campanha de limpeza. A equipa visitante tinha de tudo: cronista, fotógrafo, camarógrafo, desportistas, assistente social, avaliador de diamantes, enfermeira, funcionários administrativos, técnicos de segurança laboral e segurança patrimonial, engenheiros, tradutores, etc. Uma equipa recheada. Os aldeões também eram muitos, embora as crianças, adolescentes e alguns jovens se tivessem  destacado. A maioria dos pais e as mamãs de Saypupu continuaram na sobra das mangueiras,  dançando ou se dirigiram aos seus aposentos, assistindo, na sombra, a recolha dos resíduos que eles mesmo espalharam.
Hora e meia ou duas de labuta intensa: desenterrar, resgatar entre o capim, recolher plásticos, vidros, tecidos, pilhas e outros resíduos que são, geralmente, arrastados pelas águas pluviais até ao rio que serve de fonte de abastecimento para a vila mineira e a aldeia.
Quando o sol se mostrava mais forte do que os homens acossados pela sede e pela fome, a música que sempre acompanhou os obreiros cedeu lugar à voz falada ao microfone.
- Vamos lavar as mãos com água e sabão. - Um homem e uma senhora fizeram um coro desafinado, imitando o Pedrito do Bié.
- Se você pegou no lixo, lava as mãos com sabão.
- Se você pegou na areia, lava as mãos com sabão…
- Lava, lava, lava, lava. Com água e sabão!
Apelo feito, apelo cumprido. De repente, uma fila junto à viatura que levava uma pequena cisterna. Todos lavaram as mãos com água e sabão para se refugiarem, posteriormente, à sombra das mangueiras gémeas onde a música e a dança prosseguiam.
Aos trabalhadores foi servida água mineral, leite de soja e pães. Os que não trabalharam também se meteram na fila e todos comungaram daquele pão e leite de soja. A festa tornou-se geral.
- Iswaswa mu haxi, ka! (lixo no chão, não! - Voltava a apelar-se, ante a existência de garrafas e plásticos em área já limpa. Mais uma recolha e outros apelos.
- Iswaswa mu haxi, ka!
Quando o roncar do estômago e a dureza do sol celebraram casamento, expulsando os visitantes, não restou outra solução senão o "até breve"!
Os tambores ficam para depositarem o lixo caseiro. O carro virá recolher uma vez por semana. Cuidem de vós, cuidem da vossa aldeia e lembrem-se sempre:
- Iswaswa mu haxi, ka!

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

ALÔ, SENHOR DEPUTADO, GRAFIA DAS CIDADES VAI AO PARLAMENTO

Acabo de ler no jornal de Angola (edição de 26 de Fev. 2014) que o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada.
Lê-se na notícia que Bornito de Sousa, o Ministro, falava durante um encontro com jornalistas e esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra k e a introdução do c.
O Ministro informou ainda, cito o Jornal de Angola, que os topónimos para as comunas, municípios e localidades “têm como base a grafia em português, a língua oficial”.
Uma fonte conhecedora do assunto escreveu (F.B., 26.02.2014) que o que o MAT orientou aos media para aplicação rigorosa é “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola, a fim de buscar uma harmonização da grafia”, sendo que, segundo ainda a mesma fonte, “o MAT está a querer ser apenas rigoroso e agir em conformidade com o que está legislado”.
Na busca de uma Lei nova que esteja adequada com a nossa realidade actual, com a nossa cultura, segue a fonte, o MAT está a preparar o projecto de Lei sobre a Toponímia que será trazida a debate público para as contribuições de todos e, desta forma, em conjunto, encontrar-se a melhor solução para este problema.
Três  perguntas:
- Por que foi “impingida” aos órgãos da comunicação social a aplicação rigorosa de uma lei de 1971 que corrige para pior determinados topónimos surgidos ou já rectificados no pós-independência? Coloco aqui o exemplo do Kuando Kubango e Kwanzas Norte e Sul.
- Afinal de contas, que documento o MAT pretende levar ao poder legislativo? O projecto de lei ainda desconhecido ou a Portaria de 1971 que não admite a utilização das letras K, W e Y (constantes dos alfabetos convencionados pelo nosso Governo através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República)?
- Na eventualidade de se pretender levar ao Parlamento ou a uma consulta mais alargada uma nova proposta de lei, com que contribuições, dos mais distintos círculos da sociedade angolana, conta o MAT na fase de elaboração do documento?
Pedido aos ilustres representantes do povo à Assembleia Nacional
 Senhor Deputado, a grafia das cidades vai ao parlamento. A decisão está no seu voto.
Kumbi lyu tunga zemba lyu xika mwixi! (O dia de construir o palácio é o de assobiar!). Não se pode perder uma oportunidade singular.
 Se você é um deputado defensor dos valores africanos de origem bantu, defensor das nossas origens, da grafia dos nossos nomes de acordo aos significados que encerram e a nossa identidade cultural, sei que vai votar CERTO.
 Basta reflectir no seguinte: o nosso maior rio de Angola que dá nome à nossa moeda deve escrever-se com CU ou com KW?
·      Espero que até à chegada da proposta de lei ao poder legislativo, os representantes do povo consultem sociólogos, linguistas, antropólogos e historiadores, para que o trabalho de casa esteja feito. Que os deputados da maioria e da minoria não cumpram apenas a "disciplina Partidária”. Estudem o assunto, busquem consultoria, façam o “dever de casa” e votem em consciência representando os vossos eleitores.
Até lá, até que se esclareça se o que vai ao Parlamento é a Portaria de 1971 ou uma Nova Lei, espero que consigamos (opinion makers) influenciar os Governantes e Legisladores, discutindo e opinando de forma aberta, alargada e desapaixonada. Vamos buscar consensos. Vamos buscar posições que não nos levem a mudar de leis quando um dia vierem outros homens a governar Angola. O Partido pode ser o mesmo mas os homens e as mentalidades, tenho certeza,  serão diferentes.
Seja o que for e venha o que vier. É preciso investigar, idoneamente! 

 

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

A "GUERRA" DOS TOPÓNIMOS: FINALMENTE UM PASSO

O aeroporto do Namibe deixou de se chamar Yuri Gagarin e foi rebaptizado com o nome de Welwitchia Mirabilis. Em rigor, apenas homenageou-se um austríaco em vez dum russo, pois a  planta que existe no deserto já era designada pelos nativos por ntumbo, tendo sido cadastrada pelo botânico Fredrich Welwitch com a designação de Tumboa. Apenas depois da sua morte, e em sua homenagem, a planta rara ganhou o nome actual  (Reginaldo Silva, fb, 13.02.2014).

Apesar de se ter apenas mudado o nome de um russo para um austríaco, tomei nota, com bastante agrado essa evolução no pensamento político-cultural dos governantes angolano. Chego à conclusão de que, afinal de contas, sempre será possível rebaptizar os topónimos angolanos de origem bantu, atribuídos e registados, muitos de forma errónea e ao acaso,  pelos portugueses. Para os povos  bantu, cada substantivo/nome encerra um significado. E mais, o CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), e mesmo as autoridades angolanas (Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República) convencionaram alfabetos para as nossas línguas, devendo a redacção dos topónimos e antropónimos bantu obedecer a estas convenções.

Continuo a considerar que os topónimos angolanos cujos registos não correspondem à redacção correcta, nem ao significado que encerram devem seguir o “caminho do aeroporto do Namibe”, ou seja rebaptizados e registados.
O estudo da Direcção Nacional de Organização do Território, Ministério da Administração do Território, sobre Divisão Política-Administrativa e Toponímia de Angola apenas ganha os meus elogios por ter enumerado e codificado as províncias, os municípios e as comunas do país, sendo necessário também serem “provisoriamente” nomeados. Dada a ausência de um estudo e discussão abrangentes sobre a redacção exacta dos topónimos de origem bantu, obedeceu-se apenas, neste caso, às designações da administração colonial.
Com todo o respeito que me reservam os responsáveis do MAT, com quem tenho uma comunicação aceitável, não me revejo na obrigatoriedade dos media angolanos adoptarem essa redacção colonial como se o “documento em construção”  tivesse força de lei.
Haverá incapacidade, de nossa parte, para se fazer um estudo etimológico dos nomes bantu da nossa toponímia? Reitero. Não aceito que a nossa moeda, de que todos nos orgulhamos, o Kwanza, seja grafado com KW e o rio de quem ganha o nome seja CU.
À semelhança do aeroporto Yuri Gagarin, que passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis , espero que as províncias que ladeiam o rio Kwanza sejam grafadas como deve ser ou que a nossa moeda se escreva Cuanza em vez do habitual Kwanza.
Que a capital da Lunda Sul seja Sawlimbo e que a província do sudeste de Angola seja Kwando-Kubango e a sua capital Vunonge.
Que um dos municípios do Wambu (Huambo) seja Cikala Co Lohanga e que a antiga cidade de Silva Porto seja escrita Kwitu-Vye…
Pode ser que o tempo me derrote, mas não custa nada debater e buscar consensos alargados. O país, a sua história e futuro, a todos diz respeito.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

CRUZES DE FEVEREIRO

As cruzes estarão cheias
Repletas de gente que não acredita
Nem embarca nas táticas dos que querem vender
 

E vendem...Cada vez mais à custa dos que acreditam em fadas
O mercantilismo vai virando a cabeça das pessoas
Inventando modas que se tornam mundiais
Há entretanto os "ateus", os incrédulos
E os que, para escapar à pressão mundial,
Preferem desligar-se emigrando
Em datas como esta, para um outro qualquer planeta
Ainda não infestado pela febre do consumismo.

O 14 de Fevereiro é só mercantilismo
Onde amor se mede em moeda corrente
E onde, em vez de corações,
Palpitam saldos de contas bancárias...

Que chovam dilúvios de críticas
Que se quebrem os telhados
Que se esvoace a folhagem arbórea
Para que, neste dia, tudo se aparte de mim!
Porque eu, desculpem, não embarco!

Eu não acredito!

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

PAPEL SOCIAL, POLITICO E ESPIRITUAL DAS MISSÕES EVANGÉLICAS NO PLANALTO ANGOLANO


Nova cidade do Kwito
Mbalundu: monumento do soma Ekwikwi II
Três anos depois, voltei ao Kwito, Vye. Não foi uma viagem pacífica como a última em que o meu Nissan Almera se fez deslizar alegremente pelas estradas ainda a cheirar asfalto. De Luanda ao Alto Ama (Huambo) há buracos que já preocupam e que podem provocar mais dores de cabeça ainda. Do Alto Hama ao Mbalundu, Kacyungo, Cingwari e entrada do Kwito a vida na estrada é outra. Um mimo. Um mimo que perde graça apenas dentro da cidade, com maior pendor para os desfiladeiros das águas pluviais.
Apesar de possuir estradas resseladas, na cidade do Kwito há novos buracos que reclamam por reparação, sendo  a rua Silva Porto um exemplo do que está mal e que precisa, com urgência, da mão de quem sabe e tem poder, antes que o asfalto desapareça.
Entre melhorias, assinalo a semaforização das ruas do casco urbano. Os semáforos são alimentados por placas solares. Nota positiva. Os bienos me parecem mais orgulhosos de sua terra e mais alegres. Há coisas novas como a nova cidade que se ergue no Cisindo, à entrada da antiga Silva Porto.

Em missão fúnebre, desloquei-me a Kamundongo, missão evangélica (IECA) que fica a 22 km da cidade de Kwito. Aqui, o que mais me despertou a atenção foram as vivências dos "missionistas", o passado, o presente e o legado histórico. Vejamos:

1-      FORMAÇÃO ACADÉMICA E POLÍTICA- Só conhecendo-se e conhecendo o mundo à volta e as suas relações de interdependência, o homem se podiam aperceber da sua situação humana e social. Quando o governo salazarista estava “concordado” com a igreja católica, as missões evangélicas desempenharam um papel relevante na formação e despertar do "homo angolanus".
- Com o conhecimento sobre a natureza, os angolanos ganharam consciência sobre a situação política e social, dando vazão à génesis do nacionalismo. – A repreensão pidesca contra os iluminados nacionais negros levou à terra a ideia de uma revolução política não violenta. Os iluminados da missões sentiram-se na obrigação de servir de candelabros para outros angolanos na grande marcha para a liberdade, quer ensinando-os a ler e escrever, quer politizando-os.

 2-  CAMPO ESPIRITUAL/RELIGIOSO E SOCIAL- Os negros africanos ganharam conhecimento/orientação para explicação monoteísta da existência humana, bem como sobre a vida ultra-tumba.
- Foram incutidos sobre a missão social e fraternal, fundada na igualdade entre os seres humanos e necessidade de partilha equitativa dos recursos e apoio àqueles que mais carências têm em termos de recursos para a sobrevivência (caridade).

- As crenças pagãs foram substituídas pela crença na ciência e na teologia e os hospitais substituíram os “ovimbanda”, proporcionando uma vida com maior qualidade.
Pelo acima enumerado e muito mais, acho mesmo que os jornalistas angolanos deviam visitar missões protestantes como as do Késua (metodista em Malanje), Cileso, Voga, Cisamba, Dondi, Kamundongo, Cilume e outras missões evangélicas,  para as conhecer e dar as dar a conhecer. Pois foi grande o papel desempenhado por aqueles templos, escolas e hospitais para a formação académica, intelectual e espiritual dos angolanos do planalto e não só.

OBS: a grafia dos topónimos obedeceu ao alfabeto das línguas bantu.

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

AS TRÊS MULHERES DE KAMUNDONGO

- Tu kusiña kimbo lya vel´apo! (Encontrar-te-emos na aldeia celestial!) – Cantava de forma angelical o coro da sociedade de mulheres da IECA que acompanhou Celita Adolfo à sua última morada.
A octogenária nascida e crescida na missão de Kamundongo (Kuito-Bié), onde se formou e louvou, manifestara, em vida, o desejo de ser sepultada junto de seus familiares e contemporâneos cujos restos repousavam já em Kamundongo.
Os filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, contados em centenas, não fizeram mais senão cumprir o pedido da antiga diaconisa.
- Vamos levar a avó a Kamundongo e cumprir com o seu último desejo. - Afirmaram entre tristeza e alegria.
Tristeza porque era uma biblioteca que ia a enterrar. Alegria porque a sua obra apontava para um descanso merecido ao lado do Senhor. Dai a canção “Tu kusiña kimbo lya vel´apo!”
A missão de Kamundongo fica a 22 quilómetros da capital biena. À semelhança das missões homólogas do Chilesso, Dondi, Chissamba, Chilume, Vouga, entre outras, Kamundongo viu nascer e formou homens e mulheres que tiveram um papel relevante no surgimento da consciência nacionalista angolana, na luta pela emancipação dos angolanos e no processo de criação da nossa nação (ainda em curso).
Inicialmente como professora de artes e ofícios e mais tarde como parteira, Celita Adolfo, nascida em 1928, foi uma mulher que fez o máximo que pôde pelos homens e pela sua IECA de que foi diaconisa. Teve, por isso, a merecida homenagem de despedida na Igreja Central do Kuito, também designada por “Catedral da Paz”, e um elogio fúnebre à dimensão da Grande mulher que foi.
Troço da picada que nos leva a Missão de Kamundongo
Em Kamundongo, localidade alcançável em tempo chuvoso apenas com recurso a carros todo-o-terreno e com pontecos a reclamar por reparações, as árvores frondosas que guardam a memória de notáveis homens e mulheres da sociedade Biena e não só, acolheram as centenas de pessoas que foram ao último adeus a Celita.
Uns cantando, outros acompanhando apenas os coros mas guardando reverência e expressando nos seus rostos comoção, outros ainda mais soltos nos gestos e mais alegres nos semblantes, duas mulheres se destacam entre a multidão.
Uma é idosa. Tem o netinho às costas. Setenta ou mais anos, indicam as rugas e a flacidez da epiderme. Está toda apossada de tristeza, como quem quer dizer, mas sem força, sem fôlego “sempre estivemos juntas, por que me deixas nesta cidade provisória”? Despejada de quase tudo, dos amigos de infância e adolescência, das colegas dos coros em que cantou, despojada talvez de filhos e netos ao longo das carnívoras guerras travadas no planalto central angolano, a idosa só podia oferecer a sua comoção, enquanto panos já envelhecidos de tantas lavagens cobriam seu corpo quase secular como também amparavam o “nekulu” que cabriolava despreocupado nas costas.
Noutra frente, uma jovem há pouco saída da adolescência, disputava com as amigas o melhor cabelo emprestado e grife da tarde sem sol, nem chuva. Com um vestidinho colado ao corpo, como se fosse sua pele, e a mostrar as encostas das nádegas, a jovem estava pintada à moda de mulheres da vida. E como nestes eventos a vaidade e a petulância vivem juntas, lá estava ela totalmente singular, exibindo as chaves de uma viatura que seu trabalho honesto e limpo ainda não permitem comprar. Se calhar, esteja também a sonhar com uma despedida e um  repouso eterno em Kamundongo… Porém, para lá chegar, terá antes de conhecer e seguir as peugadas de Celita Adolfo e ter como guião a fé, boas obras, honestidade e moderação.
Kamundongo, Kuito, 04 de Fevereiro de 2014.

Publicado no Jornal Cultura, edição nº 148 de 21 Nov-04 Dez/17
 

terça-feira, janeiro 28, 2014

A FELICIDADE DE CAMINHAR JUNTOS

Sinto-me feliz quando vejo meus amigos e contemporâneos a ascenderem a cargos de responsabilidade. Ainda são poucos aqueles que sobem ou que tenham já subido por mérito, que olham para baixo e que se recordam das duras jornadas em comum, reconhecendo as potencialidades dos que "ainda" não subiram. Tenho porém certeza que à medida que nos formos forjando académica e profissionalmente esse número crescerá de ano para ano. 
 
Elogio também os eternos amigos, aqueles que estando já no "1º andar", não ajudam com dinheiro ou com simples convites para jantares em chiques restaurantes ou instâncias turísticas, mas que dão ideias e sugerem caminhos... Esses dão os anzóis em vez de peixe a quem tem "fome".
 
Tenho amigos que se encaixam na descrição supra. Só não os nomeio para não coibir outros amigos que, embora não tenham ainda demonstrado este lado positivo duma amizade, podem ser excelentes. Não depuro ninguém. Apenas elogio as qualidades.
 
Os meus últimos dias foram marcados por dois exemplos: um amigo, que é editor-chefe num jornal, sugeriu-me que passe a escrever (melhor, que mande) crónicas e contos ao "seu" jornal, a fim de serem publicados. Embora não me tenha garantido dinheiro, trata-se de isca e anzol. A mim interessa que as minhas criações artísticas sejam conhecidas. Nem todo o ganho se resume em dinheiro. Uma outra amiga (não é minha contemporânea directa. É uma década mais velha), procurou-me, fazendo mais de mil quilómetros, para trocar ideias e sugerir inovações, quer ao meu desempenho profissional, quer à minha auto motivação. Haverá prenda melhor de um amigo do que nos "ensinar" a trabalhar?
 
Os meus amigos de verdade hão de se rever nessas palavras de agradecimento.
 
Estamos juntos!

quinta-feira, janeiro 23, 2014

KWANZA-SUL OU CUANZA-SUL?

Em conversa no chat do face book, o meu amigo Isidoro Natalício colocou-me a questão da grafia dos nomes de origem bantu (topónimos e antropónimos). Referia-se o amigo Isidoro que a TPA tem-nos escrito de forma diferente àquela que eu uso na grafia dos "nossos" nomes.
 
Tendo em conta a importância do assunto, ainda que o debate e as conclusões sejam superficiais, julguei oportuno partilhar as ideias que defendi nesta página que é menos volátil ao tempo.
 
1º - Os topónimos obedecem, para além da atribuição da designação, a um registo. Esse registo é válido até que o topónimo mude de designação ou se corrija a grafia. Para exemplificar, devo dizer que nos cadastros, a província angolana a sul do rio Kwanza está registada "erroneamente" como "Cuanza-Sul" em vez do que seria expectável, Kwanza-Sul. O mesmo se pode aplicar ao meu nome, Canhanga, que devia grafar-se Kanyanga para obedecer ao alfabeto convencionado pelo CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), combinado com a Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da Revolução. 
 
2º - As regras do CICIBA para a ortografia das línguas bantu diz que a letra C tem o fonema equivalente ao dígrafo Tx e ainda pelos grupos consonânticos TCH e TSH. Exemplos: Cikala-Cyolohanga, Cindjendje, Citembu, Civingiru, Citende Cya Zango, Cipalavela, etc.

Sempre que as vogais I e U estejam  junto de outras, as primeiras devem mudar para Y e W. Exemplo: "muanha" (sol) deve grafar-se correctamente "mwanha); "diniangua" (abóbora) deve grafar-se "dinyangwa"; "kizua"=kizwa, etc. 

Para obtermos o fonema equivalente em Português a "C" devemos grafar "K". Kanhanga, Kambundi-Katembu, Kalulu, Kahála.
 
Não sou telespectador atento da TPA e não sei dizer se grafam de acordo aos registos portugueses ou se de acordo ao alfabeto das língua bantu. De uma coisa, porém, tenho certeza: É preciso corrigir urgentemente os registos dos nossos topónimos (calculo que o MAT- Ministério da Administração do Território-  tenha já um projecto nesse sentido) e passar-se a exigir que haja uma grafia correcta dos topónimos de origem bantu.

Não se pode aceitar que a nossa moeda seja Kwanza e o rio que lhe dá o nome ainda se designe Cuanza. O que se passa hoje é que não há rigor. Cada escreve como bem entende. Eu que sou adepto da grafia segundo a originalidade dos nomes, tenho grafado como será no futuro. Para o presente, pode ser que alguém considere o meu procedimento errado.

Obs: 
A 30.01.2014 tive acesso ao documento "Divisão Política Administrativa e Topínímia de Angola", elaborado pela Direcção Nacional de Organização do Território. O mesmo retoma apenas os "baptismos" coloniais e não propõe alterações à redação dos topónimos de origem bantu.

Vim ainda a saber, de um amigo internauta (comentários ao artigo publicado no Club-K), que o MAT remeteu essa lista aos Órgãos de Comunicação Social, públicos e privados que, de imediato, passaram a grafar os topónimos angolanos segundo os cadastros coloniais.
A título de exemplo, a minha circunscrição natal, Munenga, é condificada como:
      AOCS070602
-Munenga
 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

LADRÕES A SOLTA?


"Quem tem coisas de que não precisa é um ladrão” (Mahatma Ghandi).
 
À semelhança do que escreveu o meu amigo Nguimba Ngola, na sua página de face book, também já me disseram que:
- Não devo mais andar de candongueiro,
- Não devo andar nos mercados a comprar material de construção,
- Nem devo andar de i20 pois não é carro para gente do meus "estatuto",
- Não devo continuar a viver no "bairro", etc.
Algumas vez eu disse que quero viver uma vida que não é minha? De ondem vim e para aonde vamos todos, depois de todas as "coisas alheias" não mais nos servirem?
 
A minha luta é para ter o necessário e viver uma vida que não precise de guardas.
 
Obrigado a todos quantos respeitam o meu estilo de vida e desculpo-me daqueles que me julgam a olhar para seus próprios estilos de "roubo" e desperdício.
 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

PERGUNTAS PERTINENTES NO DIA DA CULTURA NACIONAL

NO DIA DA CULTURA NACIONAL

EIS ALGUMAS QUESTÕES QUE HÁ MUITO ME PERSEGUEM:
Entendendo a cultura nacional como: hábitos, tradições, crenças e pertences" colectivos, nos quais se revêm um determinado povo (no caso concreto os angolanos),
 
1 - O QUE É "CULTURA NACIONAL" (COMUM AOS ANGOLANOS) E O QUE É CULTURA
LOCAL/REGIONAL?
2 - QUAIS OS ACTOS, PEÇAS E VALORES QUE SIMBOLIZAM/REPRESENTAM A CULTURA?
3 - TUDO O QUE EXISTE/SE FAZ, SE PENSA, POR ANGOLA (NAS REGIÕES) É NACIONAL?
4 - HÁ POLÍTICA DE ESTUDO, RESGATE, VALORIZAÇÃO E DIFUSÃO DO QUE É/REPRESENTA A CULTURA NACIONAL?
5 - QUEM SÃO OS FAZEDORES DE CULTURA NACIONAL?
6 - ONDE ESTÃO E QUE É FEITO DELES?
 
Há quatro anos, fui convidado a apresentar o meu livro de estreia literária na Lunda Sul, num acto que representou a comemoração da data na província nordestina de Angola. De lá para cá, já com três livros publicados, vou ainda reflectindo: sou também um fazedor de cultura? Sou agente cultural? Sou tido ou achado para questões que não envolvam aparição política de determinadas "figuras sanguessugas" que se aproveitam da inspiração e transpiração (arte) alheia para brilhar diante da TV?
 
Sou/somos mais um/uns... 

terça-feira, dezembro 31, 2013

A DIFICIL SITUAÇÃO DE JOGAR AMARELADO

Gostaria de escrever sobre a difícil sensação de jogar amarelado. Sempre que me fiz ao campo, jogando futebol, não tive jogos oficiais, dignos desse nome, em que a atitude em campo ou em relação oao juiz pudesse redundar em advertência intermédia (cartão amarelo).

Imagino que jogar amarelado seja no campo desportivo ou profissional muito difícil para o executante que se vê invadido por três sentimentos/situações:

1-      O orgulho próprio de fazer segundo a sua consciência, compleição física e táctica ou profissional.

2-      O perigo de tentar fazer as coisas mais para agradar o treinador e/ou o árbitro, pois ambos estão de olho nele, do que executá-las com o profissionalismo que lhe é devido.

3-      A possibilidade de ser julgado não pelo que sempre fez mas por pesar sobre ele uma admoestação.

Nunca tendo estado em campo desportivo como actor, repasso aos meus amigos a ingrata missão de tecer os seus comentários e ou experiências quanto ao que já terão sentido em situação análoga.

Que 2014 seja, em todos os sentidos, um ano com poucos cartões amarelos nem vermelhos!

segunda-feira, dezembro 23, 2013

DIA-A-DIA DO PROFESSOR NO FIM D´ANO LECTIVO

- Alô
- Alô, com quem falo?
- Aqui é teu/tua aluno/a fulano/a de tal.
- Ok. então, estudante, qual é o teu problema?
- Professor, liguei só para o professor me ajudar. Estou mal.
- Estudante, queres apoio financeiro ou boleia para ir ao médico?
- Não doutor, estou mal na tua cadeira.
- Estudante, já começaste mal. Mas, vamos lá ver a tua turma......
- Sou da turma X.
- Sabes, quanto tiveste nas três avaliações?
- Sim professor sei.
- Então faz a soma e divide por três. Apenas isso.
- Sim professor, já fiz e estou mesmo mal.
- Não estudaste o suficiente. Vais repetir a cadeira ou solicita exame extraordinário...
- Professor me ajuda só. O Professor não pode me dar uns pontos para chegar à média dez?
- Estudante, isso não é negócio. Não é venda de tomate em que podemos dar alguns de quebra (esquebra). É ciência e com ciência não se brinca...
- Mas professor?
- Estudante, agradeço a chamada, agora o professor vaio ter de trabalhar. Liga-me mais tarde se for para outra conversa.
- Pim, pimmmm, Pimmm.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

PEDOFILIA, VIOLAÇÕES DE NOVIÇAS E ACÓLITOS E OUTRAS "POUCAS VERGONHAS" DA CATÓLICA

Papa Francisco quer moral na igreja
Man-Chico, o papa argentino que está a marcar o Vaticano, quer combater os delitos sexuais e os desvios à norma de padres e madres que se entregam perdidamente ao deleite sexual.
Hoje, sobretudo em Angola, poucos terão dúvida de que "debaixo dos hábitos (vestes) habita um fogo sexual desmesurado".
Muitos padres e madres sexuam de forma aberta. Têm filhos e constituíram famílias.
Virão eventualmente uns falsos puritanos jogarem-me pedras a desmentir sem argumentos…

Madres e padres têm uma brincadeira que se chama sexuar. Conheço madres e padres que sexuam desavergonhadamente dentro (entre eles) e fora da igreja (com outros homens e mulheres, servos ou não da corporação).

Há Bispos que têm filhos e muitas namoradas. Há padres que desfloram noviças e crentes. Madres que de dia usam hábito e de noite “txuna baby”... Basta ver como algumas se comportam em gozo de férias, piores do que vadias profissionais.
É óbvio que no meio de tanto joio ainda resta algum trigo. Mas será que o  Papa Francisco vai conseguir pôr ordem no “prostíbulo”?
Para mim, por aquilo que vejo, leio e oiço, a moralidade na católica recuou aos tempos da Idade Media, quando o clero estava todo entregue à luxúria, a acumulação de riquezas, aos concubinatos e aos mais diversos escândalos, o que levou um dos papas daquele tempo a dar um basta, “proibir” os casamentos, a fim de se dedicarem mais à igreja do que aos prazeres terrestres e carnais.
Vai, por isso, a minha sugestão ao Man-Chico, o Papa:
- O melhor caminho, para que deixe de haver tanto despudor na igreja de Paulo, é mesmo abrir a loja. Adoptem a mesma postura que tomaram os vossos "revus" protestantes. Sigam o conselho de Paulo, o apóstolo.
"Era bom que fossem como eu (celibatário) porém, caso vossa carne seja fraquíssima, será sempre melhor se casarem do que fornicarem". Casem-se. Verão que o trigo, aqueles que mantêm a pureza, deixará de ser confundido com o joio que inunda as sacristias.

terça-feira, dezembro 10, 2013

O MAIOR NEGRO QUE JÁ VIVEU

De Klerk e Mandela
Njinga Mbandi, Mandume ya Ndemufayo, Mohamed Ali (Egipto), Leopoldo Senglor, Nkwame Nkrumah são alguns nomes de africanos que se debateram pelas lutas e independências de seus povos e do continente.

África teve, ao longo do seu percurso histórico, homens notáveis, homens corajosos que abdicaram de suas vidas, que não se acomodaram com o que tinham e lutaram pelos que nada tinham. Que não se acomodaram com as migalhas de liberdades condicionadas e se entregaram à luta para a liberdade das maiorias, o seu povo. Essas lutas árduas foram feitas num tempo em que as tecnologias de informação e as vias de comunicação não estavam tão desenvolvidos e universalizados como hoje. Esses homens conhecidos e incógnitos merecem a nossa honra e respeito.

Atrevo-me, entretanto, a elevar Nelson Mandela, o adolescente que frequentou uma Missão da Igreja Metodista na África do Sul, como o Maior Negro da Nossa História. Vejamos:
KING
Mandela era 11 anos mais velho do que Martin Luther King Jr.
A forma de luta, a  Não Violência, era a mesma. Mandela passou da "Nao Violência" a luta violenta quando notou que os êxitos eram ténues. Saído da prisão, 27 anos depois, em 1990, negociou a paz com os seus carcereiros, assumiu o poder e sempre defendeu a harmonia quando até tinha tudo para se vingar. Na presidência da África do Sul, cumpriu um mandato e abandonou quando tinha tudo para lá continuar para pelo menos mais um mandato.

Quanto ao Sonho de King e ideal pelo qual lutou Mandela têm o mesmo fim.
Vejamos outro dados.
- Mandela foi julgado entre 1962 a 1963 (por isso completou 27 anos na prisão) e  durante o julgamento disse: "Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.

- King fez o célebre discurso “I have a Dream” em 1963 em que prenunciava uma América justa e igualitária onde meninas negras e meninos brancos pudessem caminhar de mãos dadas...
 
Outra coisa é certa: Nelson Mandela, Matin Luther King e Mahatma Ghandi foram da mesma escola (luta pacifica).

Mandela viveu mais tempo do que KING (nasceu antes e morreu depois). Passou por mais etapas, privações e provações, tendo resistido a tudo e todos sem nunca abdicar do seu ideal.
O renomado escritor sul-africano André Brink num artigo publicado logo ao fim do mandato seu mandato, coloca Mandela como o maior nome do século XX, comparando-o a outros expoentes - como Gandhi ou Martin Luther King e acentua que esses morreram sem que tivessem ocasião de experimentar o exercício do poder. Outros como Eisenhower ou Churchill, que se destacaram em momentos de guerra, não o fizeram durante a paz...

sábado, dezembro 07, 2013

INVADE-ME UM PRAZER MAIOR DO QUE O CANSAÇO

Eis-me exausto mas feliz por ter realizado uma actividade beneficente. Aliás, quem corre por gosto não se cansa. Eu e meus colegas de Catoca passamos o dia em Saurimo, capital da Lunda Sul (Angola) prestando um serviço social. Depois de termos convidado os artesãos portadores de deficiências, tutelados pela  Direcção de Assistência e Reinserção Social, para exporem e venderem as suas produções em Catoca, fomos hoje (07.12.2013) pintar o espaço em que laboram.
À nossa iniciativa juntaram-se trabalhadores de outras empresas: os da Cimianto forneceram as os pincéis, os do grupo 7Cunhas as tintas e a Rádio e TPA levaram as imagens e os discursos a quem esteve em casa.
É preciso “abrirmos as mãos”. Por mais apertadas que estejam as nossas contas há sempre alguém precisando mais do que nós. Ali onde o dinheiro não exista, a nossa força e nossas ideias podem fazer a diferença. E fizemo-lo.
Pintamos a parte exterior de todo o edifício anexo e o interior da sala em que se fazem os instrumentos de cestaria. Um gesto que serve como anzol e isca entregues a quem tem fome.
Eu sou o que aparenta ser "o mais alto"
 
Proporcionamos mercado para os produtos (exposição e vendas em Catoca) e melhoramos as condições do local de trabalho dos artesãos deficientes físicos. Também fizemos amizades entre os participantes e com os portadores de deficiências.
Depois do lanche, a foto de família e  o sentimento de dever cumprido.

domingo, dezembro 01, 2013

OS LAMENTOS E ANSEIOS DO POVO E A MÚSICA DE HANDANGA


Muito longe do bambolear de corpos frescos e umas simples gritarias que enchem hoje os espaços musicais, uma boa música mede-se pela letra e, sobretudo, pelo conteúdo/mensagem que retrata/transmite.
Ouvi demoradamente, durante o último fim de semana as músicas de Justino Handanga. Notei que o músico continua no seu estilo peculiar e que o tempo se encarregará de perpetuar. São reproduções de falas das populações. Lamentos, gritos de euforia, descrições situacionais e recontar de estórias e História.
Foi bom ouvir a nova roupagem do “mbalaum eyi ya ndonga”;  o “Abílio” que virou caenche sendo para ele “pequena coisa: Ó velho eu vou te chapar”; as viagens ao Musende (Kwanza-Sul; o “ Carlitos” que levou a mulher ao Huambo tendo-a abandonado depois de reencontrar os parentes e as conterrâneas, etc. São músicas que nada têm a ver com as gritarias de muita mizangala de hoje que, com certeza, nada legará para a posteridade com o seu “mana me deixa, me deixa e outras (des)coisas).
 

segunda-feira, novembro 25, 2013

ELISAL "ESTORVA" OU NÂO O GOVERNO DE LUANDA?

Gostaria de entender por que razão algumas empresas públicas andam em rota de colisão contra os esforços de congéneres e do próprio Governo.
Homens ao serviço da Elisal que (des)cuidam da limpeza no bairro Vila Nova, Viana, começaram por levar o lancil da recém-asfaltada rua que conduz as águas pluviais à "Lagoa da Comarca". Como se não bastasse, agora é a camada betuminosa que começaram por raspar.
Isso não é agir contra o próprio Governo de Luanda?

quarta-feira, novembro 20, 2013

"PEIXE PREGUIÇOSO" EM PORTO ALEXANDRE

Vi, em tempos,  numa reportagem televisiva imagens de instalações abandonadas e inundadas de areia, sem alma humana naquelas paragens ricas em recursos piscatórios e que em tempos idos proporcionou avultadas somas de dinheiro ao governo colonial português e alimento para muitos lares.
Lembro-me ainda das caixas de peixe seco procedentes do Porto Alexandre, bem como da farinha de peixe e enlatados…
As imagens que pude ver são sombrias e aqueles que conhecem e ou se deslocam àquele lugar, contam episódios inimagináveis sobre o abandono em que as infra-estruturas foram votadas pelo deixa andar de quem governa.
Oiço frequentemente na media relatos sobre saltimbancos, assassinos cruéis, pilha-galinhas incorrigíveis e outros que passam a vida a evadir-se de cadeias. Na ausência de voluntários, por que não levar estes anti-sociais ao Porto Alexandre para reabilitar e habitar as instalações piscatórias, fazendo da actividade o seu castigo e ganha-pão?
Já assim foi na época doutra senhora.
A China que é o país com a maior população prisional não os tem aí a engordar sem nada fazer. Alguns dos nossos malfeitores preferem a cadeia ao trabalho livre e assalariado, porque as instalações penitenciarias converteram-se em campos de retiro. Sem trabalho, sem punição pelas faltas cometidas, tirando uma surra aqui e outra acolá que vêm escapando pela net.
Há polícias e militares também mal comportados. Esses seriam os guardas dos civis em cumprimento de pena.
Alguém dá corpo à ideia?
Senhores empresários! Será que a pesca não rende?
Invistam cá vosso/nosso dinheiro e permitamos que o prato angolano seja mais barato para além de poder corrigir os lúmpenos, dando-lhes trabalho e profissões. Vamos ajudar pessoas a sair da pobreza extrema.

segunda-feira, novembro 11, 2013

RUAS PERIFÉRICAS DE SAURIMO RECEBEM ASFALTO

 Andei um pouco pela periferia de Saurimo e vi, com agrado, que algumas ruas foram ou estão a ser asfaltadas.
O asfalto é incentivo ao investimento e este (investimento) traz consigo o desenvolvimento.

Não tarda, aqueles casebres com quintais de chapas e aduelas serão trocados por construções em betão. Surgirão grandes casas, lojas, cantinas, serviços, etc. Assim se fizeram muitas das nossas actuais cidades.
Viva o asfalto.

Espero que os beneficiários saibam cuidar das ruas alcatroadas, não deitando água nem objectos que as danifiquem, e que a administração não permita que as areias invadam o asfalto. É preciso também uma fiscalização eficaz, pois há trechos onde já se notam poças d´água, o que no meu ver de leigo indicia ausência de escoamento.
 
Ainda sobre circulação nas ruas da capital da Lunda Sul, sugiro que se coloque uma linha contínua no trecho entre a rotunda do Cikumina às bombas da Pumangol, visto que os automobilistas saídos da cidade (em direcção ao `Cikumina-Dundo) não se dão ao trabalho de ir contornar a rotunda para abastecer as suas viaturas, provocando, com as suas manobras, congestionamento no trecho, que já é estreito, e  eminente perigo. Acho que não custará nada.
 

 VIVA O ASFALTO, A SEGURANÇA E O DESENVOLVIMENTO!

segunda-feira, novembro 04, 2013

"DIVAGANDO" SOBRE EDUCAÇÃO EM ANGOLA

Quando estudei a 5ª e 6ª classes, na escola preparatória Kwame Nkrumah, em Kalulo, os meus professores do II nível tinham apenas a 8ªclasse mas eram bons. Sabiam o que transmitiam e faziam-no com convicção. Sentíamos que nos transmitiam coisas novas e as retínhamos como úteis ao nosso desenvolvimento intelectual. Fazíamos desafios entre colegas e assim alguns se destacavam entre os demais…
Com esse mesmo espírito e vocação, já a fazer a 7ª classe, na escola Ngola Mbandi, em Luanda, eu dava aulas de superação às minhas sobrinhas Marisa Raquel e Claudeth F. Bandeira. Dizem que minhas aulas eram tão boas que as vizinhas e amigas da minha prima Teresinha (Mª de F. Ferreira Bandeira ) decidiram também levar seus filhos à explicação. Tempo depois, o quintal dela, na rua 10 da Comissão do Rangel, tornou-se pequeno.
Com o andar do tempo, , abri um pequeno negócio no meu quintal (Comité Njinga. Rangel). Os meus sobrinhos (juntou-se o Ary às duas meninas), todos sao hoje senhores, não pagavam e tinham o estatuto de "bolseiros". Os demais faziam pagamentos simbólicos no final do mês, o que me permitia comprar o giz e o meu material escolar.
É triste que hoje um individuo com o ensino médio concluído tenha metade ou mesmo um quarto dos conhecimentos científicos e cultura geral que alguns de nos tínhamos com a sexta classe em 1988.
Onde reside o problema?
Eis o que dizem os meus amigos do face book sobre o assunto:
Eduardo Cussendala: No sistema de ensino, eu até hoje não entendo como é que um indivíduo que escreve casa com Z chegou à faculdade. E, pior, é finalista.
Conheço pessoas que não sabem quanto é 10% de 100, mas têm o médio concluído…
Sebastião Neto: O nosso sistema de ensino deixa muito a desejar. Queremos erradicar o analfabetismo às pressas.
Gustavo Silva: Conheço licenciados que redigem textos medíocres. Têm uma caligrafia sofrível. Falam num “linguajar” que atropela as normas básicas da língua veicular. Mal sabem redigir uma carta a solicitar candidatura para um emprego. Para eles, não interessa que se saiba ou não, que haja conhecimento, ciência. O importante é que os familiares, amigos e arredores fiquem a saber que há diploma na área.
Sebastião António Santos: Eu conheço alguém que se diz licenciado e ainda escreve cabeça com dois SS (cabessa). Em vez do Ç na palavra Gonçalves, escreve Gonsalves. E há muito ainda sobre gramática ou ortografia.
Victorino Tchikunda: Caro Luciano, sabes que andamos nestas coisas de docência há já largos anos. Tendo em conta a tua “divagação” pela educação, apraz-me escrever o seguinte: no tempo em que estudávamos e os nossos professores tinham pouco nível académico, mas eram sábios e dedicados, não existia muita alienação, muita televisão e muita diversão. Hoje por hoje, “paga-se para passar e não estudam para aprender". O resultado esta aí à vista de todos. Alunos universitários com dificuldades em escrever e falar correctamente, dificuldade em abordar com propriedade assuntos estudados na universidade... Junta-se a isto a falta de leitura. Gosta-se mais de novela e outras coisas imediatas.
Emilio José Victoriano: Ausência da trindade: pais, aluno e professor! Hoje, os pais já não se preocupam com o aproveitamento e o comportamento dos filhos, indo de quando em vez à escola onde o filho estuda e conversar com seus professores. Normalmente, só vão à escola no final de cada trimestre para verem os resultados. Outros ainda ligam para os professores ou vão ao encontro desses para negociarem as notas dos filhos. Desse modo, o que se espera dos futuros ' quadros''?
 Octávia Rosa Linda:  Lembro-me, com saudades, que também dei aulas no quintal da avo Filipa e tinha muitos alunos. Pagavam cada Kz 50 e ganhei muito respeito dos miúdos que hoje são jovens, adulto e uns até já pais de família que às vezes pedem que volte a dar aulas. Acho que a reforma (educativa) não está a ajuda em nada. Há crianças na quarta classe que não sabem ler.
Carlos Canda:  A valorização do estudo, na sua verdadeira essência, está ser ofuscada pelo fenómeno “dar gasosa para transitar de classe”, porque o mais importante hoje é mostrar o diploma. Há doutores sem que os mesmos tenham dado “o litro” para tal graduação. As consequências do fenómeno corrupção no ensino estão à vista. Ai, que saudades dos anos 80?!
Irlanda Salongue: É que há professores actuais que só dão aulas por dinheiro. Leccionam cadeiras ou disciplinas para as quais não possuem habilidades e conhecimentos. O quê que se espera?
Francisco Jacucha: Eu lembro aqui declarações de um padre dizendo que “desde que se fez o acordo com o governo as escolas católicas começaram a fechar as portas”. É triste mas é real. É aí onde devemos reflectir sobre o ensino hoje. Estou preocupado porque tenho filhos que estão a estudar nesse tempo, todos sabem, todos dizem que o ensino está mal, mas disso não passamos. Ainda tive a felicidade de aprender com esses professores, sobretudo vocacionados para o ensino. É um prazer ensinar...
Victoria Ferreira: Cultivar o hábito de leitura desde a base é muito importante e isso começa na família, em casa! Luciano Canhanga, desde pequena a minha mãe comprava livros com gravuras bonitas e muito coloridas. Depois comecei a frequentar a feira do livro, aí onde é hoje o Parque Heróis de Chaves, na cidade alta. Comprava os livros da Heidi e outras colecções de livros infantis. As revistas aos quadradinhos ajudaram-me muito: o tio Patinhas, a Mónica e outros. É claro que nem sempre havia dinheiro para comprá-los, por isso fazia troca com os meus colegas da escola. Nos livros de aventura, policiais e dramas vivi grandes emoções, às vezes, mesmo na escuridão, quando não havia energia, fingia que estava a ler a matéria da escola… tão interessante e emocionante estava a leitura. Tive uma colega que fugia da escola para ir à Miruí, uma livraria localizada no Kinaxixi. Por outro lado, acho que os livros de leitura, naquela altura, traziam lições que despertavam um grande interesse aos alunos, assim como a forma em que o professor fazia a leitura. Os alunos mal chegavam à casa e já queriam exercitar o novo texto. Quem não tem saudades dos Textos Africanos de Expressão Portuguesa que eram destinados aos alunos da 7ª e 8ª classes? A leitura, sobretudo, ajuda na formação intelectual das pessoas, por isso deve ser cultivada ao longo das nossas vidas!