À minha saída de Luanda, os jornais faziam ler algo sobre a «instabilidade social» em Dakar, com manifestantes que tentavam impedir um terceiro mandato de Macky Sall, o presidente do Senegal desde 2012.
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sexta-feira, junho 30, 2023
DAKAR AOS MEUS OLHOS
À minha saída de Luanda, os jornais faziam ler algo sobre a «instabilidade social» em Dakar, com manifestantes que tentavam impedir um terceiro mandato de Macky Sall, o presidente do Senegal desde 2012.
segunda-feira, junho 26, 2023
MAÏTRE BEYE & EU
Alioune Blondin Beye morreu a 26 de Junho de 1998, quando o avião em que seguia caiu, depois de levantar voo em Abidjan.
O dia 26.06.98 foi, porém, de sorte para mim.
Desde Dezembro de 1996, quando iniciámos o Programa "Dikas da Cidade", a que se seguiu o estágio na redacção da LAC, que eu fora "liminarmente" proibido de falar ao microfone.
_ Tens dotes em contar, por via da escrita, o que vês e ouves, mas não tens voz para rádio. _ Dissera o Director de Produção.
À data, 26.06.1998, eu era já editor de sábado. Nesse dia, apercebendo-se que o avião de Maïtre Beye estaria, eventualmente, desaparecido do radar, o editor-chefe da LAC, Rodrigues J. Filipe Filipe, foi à residência do negociador da paz em busca de informações. Tínhamos assunto cacha para abrir o noticiário das 12h30, entretanto, o locutor escalado, Horácio Pedro, estava atrasado e o Chefe-Zé insistiu comigo para abrir o noticiário, mesmo dizendo-lhe que eu estava proibido de falar.
_ Canhanga, és mudo?
- Não, chefe! Mas sabe que fui proibindo...
- Abre o noticiário e eu assumo. _Ordenou.
Abri o noticiário, passando-o, a meio, ao mestre Horácio que o fechou.
Chegou a segunda-feira. Eu temeroso que seria dispensado por "desonrar a regra imposta" fui chamado pela DG Maria Luísa Fançony que, olhando para meu par de rios lacrimais, perguntou séria:
- Luciano, tu tens treinado?
- Sim, DG.
- Com quem treinas?
- Com meus primos que trabalham na RNA.
- Continua a treinar. Até que não estiveste mal. A partir da próxima semana vais treinar comigo...
Depois do "intensivo", fui aproximado com mais frequência ao microfone, ganhando incentivos do Horacio Cambole e sendo, posteriormente, bem aproveitado pelo Ismael Mateus e Paula Simons, depois de terem regressado de Portugal. Em Agosto do mesmo ano fui frequentar um curso de Jornalismo Investigativo em Bamako, capital do Mali, terra de Alioune Blondin Beye, país que ainda o chorava.
Maïtre Beye, não sei se te choro ou agradeço.
quinta-feira, junho 22, 2023
KENHÊ QUEM NO HOSPITAL?
Lembro-me de ter lido um texto pedagógico de Judith Luacute, enumerando e elucidando sobre as classes de enfermeiros, e anotado que existe o enfermeiro graduado (licenciado e ou pós-graduado), o técnico de enfermagem (médio) e o auxiliar de enfermeiro (básico). Para além destes, ainda devem existir nos hospitais (deduzo) os estagiários de cada uma dessas classes de enfermeiros, assim como os catalogadores, maqueiros e outros auxilires que desempenham funções distintas e vitais ao bom funcionamento de um Hospital.
Numa instituição hospitalar pública de Windhoek notei que as enfermeiras e as catalogadoras usam distintivos por cima dos unifomes (diferenciados) que chamo aqui de "patentes", indicando a função e a categoria.
Calculo que, dominando o significado de cada uma destas "patentes", quer internamente, quer externamente (pacientes e familiares), fica-se a saber quem é quem e o que faz.
Nós, em Luanda, na aflição, chamamos a todas que usam batas brancas nos hospitais por enfermeira ou mesmo Doutora, entrando no rol igualmente as "mal-amadas" catalogadoras e as maqueiras que também se fazem passar por médicas.
Que tal "importar" essa experiência que não deve ser única pelo mundo?
quinta-feira, junho 15, 2023
"MIL CURVAS"
- A quem pertencem?
Habitualmente oiço que "a estrada do Wiji", referindo-se à rodovia que nos leva de Kaxitu à Ponte sobre o Dande, "é estreita em demasia, tem muitas curvas e ribanceiras", recomendando evitá-la.
O alívio do automobilista é ao chegar à fronteira entre o Mbengu e Wiji, na ponte. Daí em frente, "é outra categoria", apressando a marcha até à Aldeia Viçosa onde o PA da TEMA, as cantinas geridas por "mamadus" e a carne de caça dão as boas-vindas a quem vai à antiga cidade que ganhara o nome do general Carmona.
_ Temos carne de burro-do-mato, de pacaça, de veado e de seixa. _ Assim fui recebido, levando para casa, a tarefa de descodificar que animal é o tal burro-da-mata ou como o burro/cimbulu (para os ovimbundu que abundam o Wiji) foi parar à mata, deixando de ser o dócil doméstico de carga?
Outra constatação é sobre o que o buta muntu Alcides Gomes chama de "nossa preguiça congénita". Deixamos de ir às fazendas de café, desde que enxotamos os donos portugas. Não ficámos com elas, o que devia ser normal. As casas deixadas nas vilas e nas fazendas também não ficámos a viver nelas e preferimos desmontar as portas, janelas e telhas para encobrir nossas palhotas. Noutros casos, até desmontámos tijolos para fazer campas de nossos ancestrais, quando devíamos experimentar o conforto de uma casa erguida com o nosso suor a favor do forasteiro explorador. Que gente somos nós, afinal de contas? Será que casa deixado pelo portuga colono, explorador de homem negro, é imprópria à habitação? Como se não bastasse, até as cantinas demos aos expatriados oeste-africanos que as exploram com prazer e se desgrudam lazerentos. Porquê que os mwangolês não tiram proveito? Por que não reconstroem as casas sem tectos e portas deixadas pelos colonos, porém mais seguras do que as palhotas de "manteiga"?
Numa "digressão mineira" que me levou até Kibokolu, Makela do Zombo e que, mais uma vez, foi regalo aos olhos, o regresso à capitalíssima fez-se pela estrada Negaje-Lukala, onde a geologia foi menos impiedosa aos automobilistas ou os construtores encontraram os melhores traçados.
terça-feira, junho 06, 2023
ONDE ELES NÃO QUERIAM MORAR
KATUTURA!
"Não queremos ficar aqui!"
Em resposta ao ignóbil acto, os negros reclamaram em uma língua local: Katutura!
Assim ficou conhecido o maior bairro negro de Windhoek e praça-forte da SWAPO, o MPLA da Namíbia.
Para mim, ir a Katutura é mergulhar na história da resistência e luta pela emancipação dos africanos contra todas as formas de dominação (externas e internas). É também um reencontro com as minhas origens culturais afro-rurais.
No mercado de Katutura, a língua mais falada é Oshiwambo (o que os angolanos decidiram chamar de Kwanyama). No Lubolu, sempre ouvi os camaradas da SWAPO a falarem essa língua, sendo que alguns étimos ficaram gravados no meu ouvido.
A carne bovina fresca e assada "na brasa", a salada e o pirão de masango ou masambala são a principal iguaria servida no mercado alimentar de Katutura e que leva, até o mais refinado pula da metroia, a aderir a deliciar-se com os dedos. ⁹Há, quanto a mim, uma maior interação entre o homem e o alimento. Vi jovens angolanas, com unhas de papagaio, a se desfazerem da finura fingida e atacarem o pirão com os dedos.
E como os namibianos são zelosos em relação à paz social, decidiram, e muito bem, proibir o uso de bebidas alcoólicas no mercado de carne assada de Katutura. Assim, ou você compra a carne assada e apetitosa para comê-la fria em casa, regando-a com pomada sul-africana que abunda ou fica-se pela água farta (no deserto) e refrigerantes.
Mas sobre Katutura, que fica depois de Khomasdal (bairro dos colored ou mestiços), não é tudo e nem pode caber em uma crónica de vivência efémera de meia hora.
A SWAPO PARTY NATIONAL HEADQUARTERS, ou seja, a Sede Nacional do Partido Organização dos Povos do Sudoeste Africano fica "just" à entrada da urbanização que é uma espécie de Zango ou Comissão do Rangel (Luanda). Ao que me pude aperceber, a decisão da SWAPO em erguer em Katutura o seu "Quartel-General" homenageia o povo que mais sofreu e o apoiou, estando o povo e o partido "so closed" como se diz por lá e umbilicados na nossa língua de construção da nação angolana. Equivale ao "twapandula nawa" e ao jargão "descer às bases e permanecer nelas".
Entre Katutura e a cidade está Khomasdal (como acima anotado), um bairro que servia de tampão entre os negros e os brancos exploradores ao tempo do apartheid. Aos meus pobres olhos, as edificações de Khomasdal se assemelham às vivendas do Kilamba ou ao nosso Zango 5 (ex 8000). A maioria é construção horizontal, sendo pouquíssimos os edifícios verticais de dois pisos. A excepção vai para uma escola que me foi mostrada à distância.
Há outros "bantustões" ou bairros de negros (maioritariamente bantu) em Windhoek, porém, ir à capital da Namíbia e não chegar a Katutura sabe a ir a Lwanda e não chegar à Mutamba (do antigamente) com o seu imponente edifício da Fazenda (MINFIN).
=
Punlicado no Jornal de Angola de 18.06.23
quinta-feira, junho 01, 2023
ECA DE MAQUELA
Repare bem a inscrição: ECA.
Cuidado!
Não é cervejeira. A que mata sede em dia solarento é a do Dondo e leva K.
O cobre pode reentrar no nosso léxico económico. Até 1974, ao que reza a história, portugueses e parceiros de outros países extrairam milhares de toneladas de cobre nas minas de Tetelo e Mavoyo, no Wiji. Tetelo fica na comuna de Kibokolo, terra de muitos intelectuais da velha guarda, município de Makela do Zombo. É perto do antigo Kongo Belga.
Aqui podem nascer novas estórias e fazer-se História. A nova fase do cobre está a caminho, numa empreitada em que o meu amigo Rui Lopes tem estado à frente.
segunda-feira, maio 29, 2023
ÂNGULOS DE WINDHOEK
domingo, maio 28, 2023
EM BUSCA DE ARTESANATO EM MONA QUIMBUNDO
segunda-feira, maio 22, 2023
ATÉ JÁ, SAMBA-CAJU!
SAMBA-CAJU
Bem, é de Samba-Caju que me propus escrevinhar.
No sentido Wiji-Ndalatandu, fica entre a comuna de Kyangombe e Lukala. A vila, erguida numa elevação recortada por regatos que se espraiam no sopé, projectando-se caminho abaixo, é invisível aos olhos apressados. Apenas a igreja se faz anunciar imponente ao lado do caminho grande por onde deslizam os carros velozes.
É preciso parar e adentrar para ouvir o falar das gentes e beber da História.
A guerra movida pela unita tem em Samba-Caju as suas marcas muito presentes.
Ante a beleza estética e robustez das edificações, a força voraz do tempo foi clemente. Nem tudo foi ausência de restauro.
_ Quem mais partiu foram esses aí. _ Apontava Miguel da Cruz a uma bandeira bem conhecida.
Citou o tempo de um famigerado Kavulandunge como "o de maiores destruições".
- Parecia que era brincadeira deles. Quando lhes apetecesse, vinham e dinamitavam, quando não ficassem por mandar obuses de RPG-7 e dilagramas contra os telhados. _ Conta, expressando ainda revolta, a cada imagem que a sua memória recupera.
Miguel anda na casa dos 50 anos e diz "ter sido raptado para servir os kijibanganga", de onde "escapou por um triz", fazendo-se a pé até Kapanda.
Decidi deixá-lo caminhar, desta vez, em direcção à sua lavra e com a promessa de voltar à vila para, quiçá, voltarmos a pôr a História em dia, pois ficou por desvendar o sentido etimológico do topónimo Samba-Caju.
Até breve!
quinta-feira, maio 18, 2023
DOMINGOS: O ARTESÃO AMBAKISTA
_ Quanto é? _ Questionei.
_ Espera. Vamos chamar o dono.
Antes mesmo que o dono chegasse, alguém se apressou em apreçar os banquinhos que ajudam as mamãs batedoras de funji (em minha casa são as minhas filhas Evelise e Princesa quem fazem o principal alimento caseiro do papá).
_ É 300. _ Ouviu-se uma voz colada a uma palmeira. O teeneger nem sequer mostrou a cipala.
_ Faz duzentos e cinquenta, jovem, e levo os quatro banquinhos.
_ Não dá. O dono não está. _ Retorquiu, sempre com o rosto ausente.
Não tardou, chegou o Dimingos, alegre e comunicativo. Mostrou a "montra toda": um conjunto de sofás e mesa de centro e outro sem a mesinha que custava quinze mil Kwanzas. A "mobília completa da sala de visitas" custava cinco mil a mais.
Doeu não possuir espaço suficiente na viatura para levar o artesanato do Domingos que aprende com o seu mano a reprodução dos sofás, usando material local.
_ É tudo com bordão, mano. Não entram pregos nem parafusos de metal _. Explicou.
Não podendo levar o conjunto, acabamos consolados, ele e eu, com a compra dos quatro banquinhos distribuídos, posteriormente, entre a casa da minha mãe e a minha. Um saco de fuba de milho amarelo, comprado no aldeamento do buta muntu Mawete, e uma lebre comprada nas proximidades de Ndalatandu completaram as oferendas à Nga Madya que fechou setenta e seis kixibo (cacimbos) no décimo terceiro dia de Maio.
sexta-feira, maio 12, 2023
ADEUS, MANGODINHO!
O nome dele de nascença, na aldeia de Mbangu-yo'Teka, era Katumbila, filho de Godinho. Na puberdade, atribuiu-se o de Zequeno (José pequeno) e assim ficou conhecido por toda a família e aldeias envolventes ao seu Kuteka. Exímio pescador por "tarrafa", "kikoyona" (rede de raspagem) e caçador de kambwiji, Zequeno ganhou outro nome que o eterniza enquanto "actor" da prosa para-literária e literária.
Um primo bricalhão e contista passou a tratá-lo por mano Godinho ou MANGODINHO, nome que lhe ficou ajustado como pele por cima de um boi bem nutrido, ficando assim conhecido além Lubolu nos últimos sete anos de sua passagem terrena.
A entrada de Mangodinho nas crónicas e contos de Soberano Kanyanga aconteceu em uma situação de óbito, em Luanda. Saído da sua aldeia de Kuteka para emprestar ombro aos que lamentavam a partida prematura de sua prima, 22 anos e quase doutora médica Cici, para Zequeno tudo era espanto. A piscina que lhe parecia "kizenga" (pequena represa em um rio e local para pesca); o andar e falar das pessoas sempre apressadas; a ausência do "bom dia" entre vizinhos; a solidão no quintal murado (dizia é cadeia); a comida farta, embora não tenham lavras; o vinho abundante, entre milhentas coisas.
No dia de sua "estreia" como personagem de conto real (Mangodinho na Ngimbi) Zequeno recebeu um telefonema e, acto contínuo, foi-lhe ditado um número. Na ausência de papel, escreveu os algarismos em terra batida e gritou a um sobrinho que lhe arranjasse, rápido, papel e lápis para o registo. O soprar do vento e a passagem de carros eram tormento que o fez verter, internamente, rios de lágrimas, maiores do que as externalizadas quando da sua chegada ao velório da prima perdida. Assim surgiu o personagem Mangodinho "artista" de muitos relatos sucedâneos (ficção, realidade e mistos), ocorridos em inúmeras partes do mundo geográfico real e imaginário, trazidos por Soberano Kanyanga.
Mangodinho, acometido por uma doença pulmonar, foi levado às pressas à capital da "terra grande" para cuidados médicos especializados. Esboçou sempre simpatia e sorriso meio rasgado, mesmo respirando a custo.
Deixou-nos, desprovidos de chão, ao fim da tarde de 12 de Maio, num dos hospitais de Lwanda.
Adeus, Mangodinho!
sexta-feira, abril 21, 2023
NANANAS DESSE TEMPO
Não se lhe conhece outro nome senão Nanana. Era meu primo, nascido na década de 50 do séc. XX. Seu pai, também do Lubolu, veio cedo a Lwanda, acompanhado pelo filho primeiro, ainda infante, tendo a graça, embora iletrado, de ser tornar jardineiro de primeira classe do Banco Nacional de Angola. Nos anos 80, jardinava na casa do Governador do BNA e, quando pudesse, dava uma perna nos aposentos lwandenses de Sam Nujoma, a caminho do Palácio, onde recebia em troca alguma gorjeta e roupa de fardo que dividia com os familiares.
sábado, abril 08, 2023
KWITU KWANAVALE E O MEU REPRESENTANTE
Lembrei-me, mais uma vez, do meu primo Zito ou Sabalu Kambota. Era o mais intrépido do seu tempo, na minha família. Foi à tropa aos 18 ou 19 anos, participando de encarniçados combates no Munyangu, rota Vye-Moxiku, ao longo da ferrovia que, ao tempo (anos 80) era o ex-libris da Unita.
sábado, abril 01, 2023
O MOMENTO FILANTRÓPICO DO KOTA KALAMAVU
segunda-feira, março 27, 2023
O CARNAVAL DE KALULU - ANOS 80 A 90
Já tinha assistido ao desfile do cinganji, na antiga Fazenda Israel, sem saber por que razão apareciam aqueles fantasiados que punham medo à miudagem e que os mais velhos diziam, "não podiam ser alcançados nem tocados". Todavia, o meu 1º Carnaval foi em Luanda. Tendo chegado ao Rangel em 1984, calculo que no final do ano comecei a ouvir e a ver os ensaios dos grupos Atuzemba e União Estrela que ficavam a poucos metros de casa (Kaputu). Depois, entre finais de Fevereiro e início de Março, começavam as aparições nas ruas, o chamado Carnaval de Rua. Uns chegavam a descer á Marginal Antiga para o desfile provincial. Outros ficavam-se pelas ruas do Rangel, tocando e dançando para a população que fazia vênia com oferta do que houvesse: bens alimentares e ou moedas.
Regressado ao Lubolu, desta a Kalulu, em 1987, encontrei outro Carnaval, melhor do que os cingaji da Fazenda Israel e de menor expressão do que o Carnaval do Rangel.
Em Kalulu, dos anos 80 a 90 (século XX), quem, grosso modo, fazia o Carnaval eram os alunos das escolas e os funcionários públicos ligados à educação, à saúde e à cafeicultura (Libolo I, II e II). À data, as escolas primárias contavam-se aos dedos de uma mão: a Escola nº 1 (Agostinho Neto) fica(va) na Vila. A nº 2 era a da Missão Católica, ao Musafu. A nº 3 era a da Banza de Kalulu. A estas se juntava a da Kakula e a "Escola Técnica", Kwame Nkrumah, que era a maior, atendendo o II e III níveis de ensino.
Fora dos grupos carnavalescos escolares, todos compostos por crianças e adolescentes, um ou dois grupos da classe de adultos participavam (quando calhasse) do Carnaval. O do "Gabriel"1 era o mais frequente e mais bem estruturado. Era o único que já levava alguma alegoria e que nos fazia ver além dos habituais cartazes dos Camaradas Presidentes.
As canções, estas eram vezeiras. A mesma melodia que, ano após ano, recebia ligeiras emendas à letra, quando não fosse a mesma letra do ano passado.No ano de 1989 fui ao Jardim de Kalulu assistir ao Carnaval. A escadaria da Fortaleza (ao lado o "palácio" do comissário municipal) acolhia a tribuna.
O primeiro grupo a desfilar cantava aos presentes, dentre eles o comissário Keka Ngó que havia substituído o comissário Toni:
"Nosso rei vai entrara na tribunapara saudá (bis 3 vezes)
para saudá o camarada comissário!"
Primeiro desfilavam os grupos escolares e depois o(s) de adulto, quando houvesse.
Era tempos de Kitotas nas rotas Munenga-Kalulu, Kalulu-Lwati e, sobretudo no Kisongo, aonde o batalhão LCB das FAPLA não ia. Mas, o povo pretendia "dar sangue" ao novo comissário, ele um militar com patentes, vindo do Sumbe, e incentivá-lo a desalojar os kwachas do Kisongo. Por isso o grupo cantava:
"Keka Ngó sabe lutar (bis)
Olha que a Unita já está no Kisongo
A Unita quer nos acabar..."
Cada texto tinha o seu contexto. Era assim e continua a ser no Carnaval de Kalulu que cresceu e continuará a crescer.
1 - Chamámo-lo naquele ano de "grupo do Gabriel", mas, na verdade haviam feito uma homenagem ao Gabriel.
Texto publicado no Jornal O Litoral de 03 de maio de 2023
terça-feira, março 14, 2023
FILOSOFANDO "COM" O ESPANTALHO
Por que as camponesas mantêm o espantalho permanente nas
plantações de milho?
Numa resposta ao pé da letra, é para evitar desgraça na lavra. Aves, símios, javalis, etc.
No sentido filosófico e buscando a analogia do espantalho, "a educação dos filhos e a capacitação/apelos
e aconselhamentos aos funcionários devem ser permanentes como o espantalho em
uma plantação de milho". Aves são como as falhas. Estão sempre à espreita!
quinta-feira, março 02, 2023
"MANGODINHO" - NOVELA DE SOBERANO KANYANGA
O Jovem escritor Alberto Baião “Bebeckson”, com dois poemários e um ensaio filosófico publicados, natural e residente em Kafunfu, Lunda Norte, antecipa-se a "Mangodinho”, no prelo, e conduz-nos numa viagem a
MANGODINHO" - NOVELA DE SOBERANO KANYANGA
Da contemplação, criação, inspiração e reflexão, concebe-se a visão filosófica e antropológica da realidade angolana voltada numa novela sempre actual e actuante. "Mangodinho"
Como enfrentar um desafio social e readaptar-se a um novo meio?
Será que é apenas uma cruz para o Mangodinho ou para homo socialis?
Num universo de idas e voltas na actualidade do real, Mangondinho aparece dramaticamente para despertar ao leitor uma nova era da vida social e dos fecundos frutos da polis (cidade).
A vida humana, é vista literalmente como uma novela, porque na sua narrativa pode-se repartir os momentos em capítulos detalhados em contos. É neste diapasão que se manifesta o Soberano Kanyanga, na conceição de contos que transcendem a imaginação, tornam lúcida e explicativa a vida hodierna.
Quem será então o Mangodinho?
Profeta, assim se traduz o nome bantu Ngunza, na língua Kimbundu. Escreve Raúl David em Colonos e Colonizadores, p.15, GRECIMA, Luanda-2014 «é sabido que o nome dos nativos tem origem, geralmente no acontecimento do dia, em ocorrência ou facto importante na época do nascimento da criança, no desejo de manifestação de gratidão a alguém». E este é o nome do progenitor de José Pequeno "Mangodino", africano que deu origem ao título desta cintilante novela apresentada por Soberano Kanyanga.
Em toda a parte do mundo, a cidade capital dum país, inspira sempre em cada cidadão um sonho por se realizar. Por ser a mais linda do País e por congregar as figuras emblemáticas da nação. E este sonho, também norteou o Zequeno ou então Mangodinho, conhecer a capital de Angola, Lwanda uma urbe com encantos e atracções.
Terá Mangodinho realizado este sonho num clima tranquilo?
Não. Responde claramente o autor em: (MANGODINHO NA NGWIMBI, p.6) «Sonho dele, de muito tempo, Mangodinho, era conhecer Lwanda e fê-lo por uma razão de tristeza. [..]. Óbito na família chegada. Menina crescida desapareceu tragicamente numa sexta de praia na Ilha. Luto anunciado ao telefone da tia, no Lubolu, Mangodinho veio junto. Calças: um par. Camisa, idem. Um casaco e um par de sapatos. Relógio, já sem ponteiros, no pulso,».
Uma viagem fora da expectativa do Mangodinho, mas o que fazer, se esse sonho, sempre que fosse tentado para se realizar, um obstáculo surgia na vida do Zequeno "Mangodinho"? Como narra o Soberano, que também por nós é conhecido por Canhanga, «as vezes em que podia vir passear, respirar ar fresco da brisa do mar, visitar largos com jardins e repuxos, essas vezes lhe passaram. Ora era falta de passagem, ora era a ferida no pé, ora era sei-lá-o-quê».
A figura do Mangodinho, concebe epistemologicamente uma ideia da Alegoria da Caverna, apresentada em a República por Platão. Onde o filósofo descreve o quadro homem privado do conhecimento por falta da luz da verdade, Mangodinho na esperança de quebrar esta prisão da luz da verdade na caverna, acaba de conhecer Lwanda e abre-se ao mundo do espanto. Como podemos ler em: CONTEMPLANDO A PISCINA, p.9. «- Epá! - falava Mangodinho em Kimbundu - Viste aquela lagoa lá dentro? Parece mesmo lagoa de rio com peixe, jacaré e tudo. A água está a ferver!».
Será que era mesmo a lagoa, como imagina Mangodinho? outra vez descobrimos Zequeno ou então Mangodinho na contemplação das sombras, ou seja, no mundo das aparências que Platão na alegoria da caverna apresenta como sombra. Zequeno ou Mangodinho como carinhosamente era chamado, teve que conhecer a luz da verdade das coisas por intermédio de Mbondondo, seu amigo de infância que, no decorrer da conversa, o iluminou dizendo «Ó Zequeno, acorda. Piscina é só para tomar banho e a rede é para ninguém cair dentro dela. Acorda Zequeno, não fica burro, estás em Luanda!».
Era mais um dia de Mangodinho em Lwanda e um dia também de muitos que pela primeira vez na capital do país, vão se assemelhando a este personagem anunciado em letras douradas numa novela de Soberano Kanyanga, "Mangodinho", uma obra que homenageia aquele que levou pela primeira vez a Lwanda o personagem que dá o título ao livro.
Generosos, seremos se conservarmos o silêncio sagrado, antes de devorarmos estas cintilantes páginas. Porque nasceram num clima de inesperada morte da jovem crescida. É notória a grandeza da dor, como preludia o autor na epígrafe «Estávamos atentos à sólida formação intelectual e social da jovem de quem nos viemos despedir e esperávamos que cumprisse, depois, com o seu dever[..]. Infelizmente, estamos aqui. Maldito mar... Maldito destino...
Desafiando a dor e amando a arte, Soberano Kanyanga, numa veia totalmente antropológica, sociológica e filosófica, concebe o Mangodinho, numa época de bastante coragem e concentração. Pois o clima de luto ainda o norteia, perder uma bem-amada, sobrinha que seria médica. Mas na verdade devemos nós reconhecer a realidade de que o tudo quanto respira perece.
Mangodinho enfrentou vários desafios dentro da maior urbe de Angola, Lwanda. Mas apesar de ter partido numa fase não católica, Zequeno aprendeu muito na sua admiração das coisas. E a ele estendemos o nosso eterno e perene reconhecimento, por ter conhecido Lwanda, motivo que inspirou o autor desta novela em nossa posse.
Onde encontrar Mangodinho?
Ao autor, desejo eternos sucessos e aproveito o ensejo para agradecer profundamente a leitura que me proporcionou em primeira mão desta pomposa novela "Mangodinho"
Um abraço da alma de:















