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quinta-feira, setembro 29, 2022

ZEZUS E O MÚSICO

Era Kasimbu (cacimbo). No Reordenamento do Rangel, Mangololo tinha um descampado que juntava anos, se calhar décadas, sem uma capina sequer.

Como se aquilo parado lhe desse dinheiro, passava dias sim, semanas sempre, debaixo do arvoredo, contando os aviões que sobrevoavam o bairro e matando kas(s)umuna também.
Quando se ausentava, os cabritos todos do bairro faziam-lhe a vez, pastoreando, e fazendo do rossio um logradouro colectivo e campo para o futebol dos anandenge.
Por razões que apenas disse "familiares e urgentes", Mangololo se tinha ausentado por largas semanas.
Ninguém sabia aonde fora, tirando a mulher e o Kavumbu, amigo dele "das confianças".
À chegada, regado de primeiríssima da Ki(s)ama, Mangololo foi tomado por um misto de alegria e dor.
O terreno devoluto estava transformado em um autêntico campo, sem relva e sem vida que tinha aos olhos do dono.
E, de espanto em espanto, Mangololo não tinha medida para surpresas. Até Kandonika, a mulher, que, "na hora do vamos ver", interjectiva "ai mô homi", estava a verbalizar "ai Zezus, ai Cristo!".
Será que o melhor do Petro Atlético e o músico tiraram uma peladinha no campo dele?
Voltou a Ndemba Xyu, Kis(s)ama, para procurar pela casa de adivinho secular.
Será que você o ajuda a esclarecer o que terá acontecido?
Mahezu, ngana!

quinta-feira, setembro 22, 2022

DESAPARECEU O BOI MAGRO À BEIRA DA ESTRADA

Munhino/Kapangombe, perto de cem quilómetros, contados de Moçâmedes, a caminho da Bibala. O verde trazido pela chuva faz esquecer, por enquanto, a tristeza da seca que, por essas terras, não é novidade. Seca quase sempre e chove quando o intangível quer!

Vi, nas suas acções espontâneas, homens, árvores e animais a festejarem a água vinda dos céus. É como se "o mundo não tivesse leste"!
Desapareceu, à beira da estrada, o capim seco, a árvore sem folhagens e o boi magro: uns fertilizam hoje a terra, outros engordaram sobrevivos em terras distantes do centro e norte de Angola, ao passo que os resilientes ocupam-se do pasto, sem concorrência, do capim verde e fresco que a chuva trouxe!
Entre a alegria trazida pelo renascer da vida, entristeceu-me o corte de árvores raras para o carvão que grelha o peixe e a carne nas cidades e leva à fervura a água do pirão nos bairros periféricos. Na embala, sabe-se, é mesmo a lenha miúda, seca pela desistência do galho à vida, que valoriza a cozinha fumegante. E a humanidade segue o seu rumo milenar, sem atropelos e nem agressividade à paisagem!
Dos vários encantos visuais, retive o relevo esculpido pelo criador da natureza: a cadeia montanhosa e recortada que circunda o Munhino, abrindo um desfiladeiro que conduz os audazes à Bibala, por um lado, ou fria Humpata por outro caminho. É Bibala, é Lubango, é terra distante além monte!

Munhino, 20 de Abril de 2022
Texto publicado pelo Jornal de Economia & Finanças de 15 de Maio de 2022

sábado, setembro 17, 2022

CERÂMICA DA MUNENGA: QUEM SE LEMBRA?


Morreu lentamente
até que o ataque da Unita à Munenga, em Fevereiro de 1984, serviu de machadada final. As imagens mostram o que resta da Cerâmica da Munenga.
Se ela existisse até hoje, teria grande serventia à população, operadores sociais e empreendedores que enfrentam enormes dificuldades em adquirir blocos de cimento. Muito provavelmente a Munenga e arredores tivessem menos construções precárias, feitas de adobes e pau-a-pique, o que diminuiria consideravelmente a deslocalização permanente das aldeias.

Os amigos do dinheiro fácil estão a desmontar o que resta da história para vender aos catadores de ferro.
Um dia alguém poderá acusar-nos de "inventores" de uma cerâmica "que nunca existiu" por falta de provas físicas.

Na ausência de quem queira erguer uma nova cerâmica no local da que foi destruída, será que a autoridade competente pode cercar o espaço e preservar o que resta?


quinta-feira, setembro 15, 2022

E SE FOSSE GUERRA? - PERGUNTA MANGODINHO

Pela primeiríssima vez na sua vida,  Mangodinho foi, de verdade, convidado a assistir à cerimónia de posse de um presidente.

A manhã, de 15 de Setembro, era de frio trazido pela chuva que acompanhou o alvorecer.
- Amanhã, todos devem chegar ao ponto de encontro às sete da manhã e irmos em autocarro até ao Memorial do Camarada Neto. - Recomendara, de véspera, o assistente sénior do boss.

Mangodinho, cumpridor de orientações, não queria mostrar-se atrasado e muito menos faltoso. Programou o despertador para as cinco da manhã e fez-se ao local combinado às seis e meia. Trinta minutos antes.

Mangaram-lhe (no coração) o fato goiabeira azul-escuro que vestia  enquanto todos pareciam que iriam à gala vespertina com casacos opacos, sapatos castanhos e camisas cor-de-neve, engravatados. Ele não. Simples e com o boné de cronista-comunista. O seu íntimo dizia-lhe de instante a instante: vai fazer calor. E fez até fazer secar as cadeiras de polietileno inundadas pela chuva madrugadora.

No bloco J da Praça da República, Mangodinho assistiu a tudo: a chegada do povo-em-geral como ele, dos nguvulu do Estado, dos nguvulu de outros países convidados (e eram muitos), a chegada dos empossados (João Lourenço e Esperança Costa) até ao desfile de tropas e meios. É sobre essa parte, quase final, que antecedeu ao disparo de vinte e uma bujardas que Mangodinho decidiu cronicar.

Tinha desfilado toda a técnica da polícia, infantaria e marinha (essa ultima via Tv). Faltava a da força aérea. O mestre de cerimónia anunciou que passaria primeiro o B777 civil, da TAAG, e depois a técnica da Força Aérea.

O pessoal vergou o pescoço. Olhos para o ar. Um, dois, três, cinco, sete, nove minutos. Nada!
Um mais velho, já barba rija e cabelo pintado de negro, acalmou os mais expectantes:
- Vocês que estão a roer as unhas pela passagem tardia do avião civil, alguma vez viram a TAAG a cumprir horário?
- Não! - Responderam os que lhe inclinaram ouvidos e olhos, seguindo-se um curto riso generalizado. Curto como rajada de AK-47.

Contaram-se mais alguns minutos e lá vinha, lento, lento mesmo, o Boeing civil, ao que se seguiram aviões de asas rotativas e asas fixas da FAN, alegrando os presentes com as cores da bandeira angolana deixadas na atmosfera.

Mangodinho olhou para o relógio e lembrou-se das súplicas do povo, nos ataques da Unita à Munenga (1984) e Kalulu (1989). Veio-lhe a pergunta daquela idosa desconhecida que gritava desesperada, em 1989, em Kalulu, pedindo a aviação para ajudar os LCB.
Foram horas e horas à espera, até se anunciarem nos ares de Kalulu, levando todos a se questionarem:
- Por que a aviação só chegava quando o fogo já estivesse apagado e as cinzas frias?
Foi o que lhe veio à consciência.
- Com esse atraso dos aviões, o que aconteceria ao povo se tivessem sido chamados para acudir a infantaria em situação de desvantagem?! - Perguntou o mais velho de cabelo preto pintado de negro, um antigo FAPLA.

quinta-feira, setembro 08, 2022

UMA PARAGEM NO "BAR" DO NGANA MBUNDU¹

O seu nome de registo era algo como Walter Kruk. O alemão, de origem judia, terá chegado a Angola no final da II Guerra Mundial, instalando-se na comuna da Munenga. Tinha, na margem do rio Mukonga, EN 120, uma "Estalagem" e um restaurante, sendo paragem "obrigatória" de autocarros e outros veículos que trafegavam naquela rodovia, quer fossem ao sul, oeste ou nordeste. Nas margens do rio Muxixi, próximo de Kizanga, tinha a fazenda (que ainda não visitei). O meu tio Ernesto da Silva "Kapitia" serviu como motorista do alemão até à sua reforma.

A primeira vez que fui ao "bar" do Ngana Mundu - o povo chamava a instância de bar - terá sido em 1978. Era garotinho ainda. A minha mãe tinha viagem para Luanda e eu fora o escolhido para a acompanhar naquela que seria a minha primeira ida à capital, de onde só me vinham cenas de ouvir contar. Lembro-me que ainda não frequentava a escola.
Postos na instância de Ngana Mbundu, encontrámos um grande frenesim. Muitos autocarros da EVA, da ETIM, da ETP e outros veículos. Vi pessoas que nunca me tinha ocorrido imaginar: altos, gordos, baixos, magros, mulatos, brancos - designados colonos - e empregados.
Passado algum tempo, senti vontade de urinar, porém, não vendo mata por perto - na aldeia, é p'ro mato que as pessoas se dirigem para desanuviar a bexiga -  urinei nos calções. Tal irritou a minha mãe que suspendeu a viagem, voltando à fazenda Israel (próximo de Pedra Escrita) onde vivíamos, depois de meus pais terem abandonado o Kitumbulu (fazenda do meu avô paterno). Na semana seguinte, ela viajou com a Júlia, a minha irmã mais nova. Tal xixi adiou, até 1984, a minha ida a Luanda que aconteceu por imperativo da agudização dos ataques da UNITA.
Bem, em Fevereiro de 1984, a UNITA atacou a sede comunal de Munenga (4 Km da instância de Ngana Mbundu). Pilhou a comuna e, em saída, pilhou também a hospedaria, o restaurante e tudo quanto pôde, tendo como mulas os aldeões raptados de Munenga e aldeias ao entorno. Walter Kruk e sua tia "dona Lina", também conhecida como Senhora Kasenda, esta com idade muito avançada, foram raptados e nunca mais voltaram à família. Nem as ossadas foram devolvidas. Consta que as filhas se tinham deslocado até à África do Sul (tempo do apartheid), buscando socorro para que a UNITA libertasse os dois alemães idosos. Debalde!
As guerras sucessivas, até 2002, transformaram o lugar, que fora de elevada qualidade e hospitalidade, em escombros. Nos anos que se seguiram à paz de 2002, uma das filhas tentou reabilitar a herança,  porém, seria ceifada, ela e o filho, por um acidente de viação.
Um empresário natural do Libolo reabilitou, nos últimos anos, a Estalagem e o restaurante, sob a marca RITZ. Por curiosidade, passei por lá, no dia 20.08.2022. Gostei do acolhimento e do almoço. Calculo que, com mais publicitação e melhoria de alguns serviços, a instância pode resgatar a áurea dos anos 70 e início da década de 80 do século XX. O restaurante tem TPA e multi-banco (multi-caixa). Os quartos rivalizam com muitos hotéis de sedes provinciais.
=
¹ Senhor Nuvem.

Texto publicado pelo Jornal Cultura de 12.10.22

sábado, setembro 03, 2022

ODISSEIA À NDALA KAXIBO

Estrada Nacional 120, a meio caminho do segmento Lussusso-Kibala, encontramos a aldeia de Kizowo. Atentos, vemos, à direita, uma picada aberta em terra seca e poeirenta. É a que nos conduz à Ndala Kaxibo, comuna da Kibala.

Ndala Kaxibo é a terra da minha avó Juliana Kihuhu, mãe do meu finado pai António Fernando Ndambi. Os povos que fui encontrando pela picada lembraram-me a imagem e propensão profissional do meu progenitor: caçador e agricultor, servindo-se de instrumentos rudimentares.
Seguindo a rodovia, iam jovens, adultos e adolescentes à caça colectiva, empunhando como armas zagaias (arcos) e flechas. Magros cães, postos à prova de fome para que farejassem e corressem valentes atrás de pacas, coelhos, corsas e veados, seguiam-nos excitados para saciar a fome. Mas as presas teriam único destino: os homens caçadores e suas famílias. Os canídeos aguardariam umas bolinhas de funji e ossos que resistissem à gula dos dentes. Nessas caçadas, o que se consegue é repartido por todos, o que as torna em jornadas prazerosas e sempre produtivas.
Aos olhos do aventureiro, que se põe no interland desconhecido, a picada era acidentada, poeirenta e íngreme. As montanhas e colinas dificultavam visualizar o que se podia encontrar à frente, tirando ligeiros recortes de picada a contornar o intervalo entre gêmeas montanha, o sopé de uma delas ou a atravessar rio abaixo, momentos visuais raros e aprazíveis para quem se dirige ao desconhecido.
Uns vinte e cinco minutos se haviam gasto quando cruzámos com o primeiro veículo. A camioneta, a quem a poeira roubava a brancura e a pureza, ia carregada de gentes, imbambas e um cão.
- Bom dia, mano! - Cumprimentei o condutor.
- Bom dia, chefe!
- Vamos à Ndala Kaxibo. É a primeira vez. Pode dizer se já estamos a meio caminho ou se falta muito?
- Está já no meio. Mais à frente, a estrada está mais melhor. - Respondeu sorridente o motorista, ao que agradeci revigorado.
Limpei os óculos que me comunicavam uma sensação de que estariam empoeirados. Era apenas ilusão óptica. Quem reclamava limpeza era o para-brisas. Enquanto as mãos mostravam destreza em puxar o volante ora à direita, ora à esquerda, o pé direito era artista: momentos no travão e outros no acelerador. Preguiçoso ia o esquerdo, inactivo.
Não tardou surgir uma aldeia que se estendia pelos dois lados da rodovia. Fazia vento e este arrastava a poeira. A picada tinha sido alargada. Árvores do muxitu¹ que a ladeavam tinham sido afastadas. A terra humificada estava sendo seccionada pelo crescente passar de carros e motas, soltando do solo argilo-arenoso partículas de ínfima densidade que acompanham o vento no seu voo.
- Que aldeia é essa? - Indagou Beto Spina?
- Não sei. Vamos abrandar e perguntar. - Respondi-lhe.
Dois makwenze² que vestiam camisolas vermelhas com propaganda do MPLA "fabricavam" adobes. Se calhar um deles estava a preparar-se para "amigar" ou aumentar a casa, se fosse já "casado".
- Bom dia, Camaradas!
- Bom dia.
Foi uma resposta sem vida. Se calhar, misturada em desconfiança, como normalmente acontece em aldeias que viram pessoas desaparecer em tempos que a memória ainda conserva.
- Que aldeia é essa? Chega ainda aqui, se faz favor. - Pedi-lhes.
- Aqui é Sector de Hanza. - Respondeu o que se achava mais próximo.
- E, Mbwexi onde é?
- É depois daquela baixa que tem bambus.
- Para a sede ainda falta muito? - Voltei a atirar.
- Daqui para lá, o que vocês andaram é mais do que o que falta. É já perto e a estrada está mais melhor!
A resposta encheu-nos de ânimo. Fui ao porta-bagagens para extrair algum material de "evangelização" e reforçar a mensagem de que "na quarta-feira, 24, o Xis deve ser no VIII".
À medida em que a nossa conversa se tornava mais amena, outros aldeões se foram aproximando, inclusive senhoras com bacias à cabeça, saídas do rio.
Foi aí que me lembrei de conversas antigas entre a minha mãe e a sobrinha do meu pai, a prima Rosa, sobre a proximidade entre as aldeias de Hanza e Mbwexi.
- A mama, nga mwebo a Elisa Kasola. Wamwinjya?³ - Apresentei-me inquiridor.
A senhora, que parecia a mais velha do grupo, encetou uma viagem à memoria e, no fim da peregrinação, perguntou, fechando o campo.
- Kasola k'Aphuku?⁴
- Sim, mwene. Omon'ê Nvundi⁵. - Acresci.
Seguiram-se beijos e abraços. Eram descendentes de Alfredo Manda, tio do meu pai. Nisso tudo, o Beto, que conserva o domínio oral da língua, me foi assessorando, criando maior empatia.
Feitas as apresentações e fornecidas outras informações como o estado de saúde da única irmã sobreviva do meu pai, que procurei em casa sem a ter encontrado - vive adoentada em casa da filha, na vila - distribuímos o material do MPLA e pedi-lhes que votassem "no Partido em que estou eu, vossa família".
- Kekano kyambote. Papa mupaka Xis ou omunwe!⁶
- Embelá ximbu twamwinjya!⁷ - Disseram em coro, largando-nos mais satisfeitos ainda.
Partimos. Todos alegres. Trezentos metros depois, estava a aldeia de Mbwexi. Os imóveis estendidos paralelamente, à beira da estrada, feitos em tijolos, contam a história de uma antiga comunidade de prósperos fazendeiros, até à independência, em 1975.
Infelizmente, as guerras em que estivemos envolvidos fizeram com que as casas ficassem todas sem tectos, barrotes, portas e janelas. Alguns tijolos foram, inclusive, "enfeitar" campas que se acham próximas da aldeia.
Mbwexi estava vazia. Apenas um mestiço e mutilado com mais duas crianças se achavam à sombra de uma cubata. Os demais homens encontrámo-los em "pelotões" a caminho da caça. Parámos adiante para contemplar quão bela tinha sido aquela comunidade, no passado, com casas sumptuosas de colonos-fazendeiros que ali se haviam instalado para construir suas vidas à custa da exploração de suor alheio.
Já em picada larga e melhorada, chegar à sede de Ndala Kaxibo tornou-se imperativo.   Os postes de energia eléctrica e os fontanários indicam a entrada ao vilarejo, cujas casas se distribuem paralelamente.
Cumprindo formalidade, apresentámo-nos à esquadra da polícia onde explicámos os intentos daquela viagem ousada.
No rossio da área administrativa, foi ao nosso encontro a jovem Carla. Bem-falante, denunciando ter vivido em uma cidade e estudado acima do que seria o normal para uma jovem naquela terra. Tinha um boné do EME.
-  Bom dia, prezados senhores! - Cumprimentou-nos.
- Bom dia. A camarada é a administradora comunal adjunta? - Questionei-a.
- Não, camarada! Ainda sou muito nova para esse cargo. - Respondeu, num português fino, sem sotaque, nem abertura de vogais.
- Então é a segunda secretária do Partido. - Insisti, buscando associar uma função relevante ao seu estatuto social.
- Nem isso ainda. Sou CDA da OMA e também trabalho na Administração Comunal.
Soubemos, depois, que os pais são da vila de Kibala, mas ela nasceu e estudou em Luanda,  tendo, há onze anos, decidido ir trabalhar em Ndala Kaxibo.
- Tomara que mais jovens tomassem semelhante decisão. Há coisas que só avançam com juventude esclarecida e com conhecimento de outras realidades. - Soltou o Beto Martins "Spina".
Carla Filipe apresentou a pequena vila. Erguida num desfiladeiro ladeado por montanhas que fazem adivinhar, mais a oeste, um imenso campo aberto e plano onde se recuperam fazendas deixadas ao abandono na aurora da independência.
- Essa é a escola antiga, do tempo colonial. Estas duas escolas maiores são novas. Aquele é o centro médico, também novo. Atrás de nós está o "palácio" do administrador. Como vê, de cem a cem metros, temos fontanários nos dois lados da estrada e a energia é, hoje, um facto insofismável...
Carla Filipe fez as honras da comuna. Os responsáveis políticos e o comandante da polícia estavam ausentes. A "odisseia" terminou com a entrega de material de propaganda do MPLA.
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¹ Mata fechada, selva.
² Jovens.
³ Ó mãe, sou sobrinho de Elisa Kasola. Conhece-a?
⁴ Kasola filha de Kaphuku?
⁵ Sim. É ela. A filha dela é Nvundi.
⁶ Vejam bem. É aqui que devem colocar o Xis ou o dedo (impressão digital).
⁷ Conhecemos o MPLA há muito tempo.
==
20.08.2022

segunda-feira, agosto 29, 2022

A FRONTEIRA E A FARTURA

O Luvili e a fenda por onde se encaixa a estrada que nos leva ao Alto Hama são a fronteira entre o Kwanza-Sul e Huambo.
À sombra do gigante monolítico está uma aldeia que fez, na rodovia EN120, um mercado que expõe produtos campestres.
Lay é uma das meninas que ajuda os pais, comercializando o que a lavra dá, e aprendendo com as manas mais velhas como se solta o pregão e se contam as moedas da comercialização.
- É importante tocar a alma do potencial comprador e saber dar troco.
Foi mais ou menos com essas palavras que ela me respondeu, quando a abordei sobre o que estava a fazer.
O mercado é dominado por senhoras que se dizem (algumas) solteiras e que "precisam de alimentar os filhos".
Algumas relegaram as enxadas para hobby, dedicando-se, a tempo inteiro, à compra de produtos aos camponeses por dedicação exclusiva e sua revenda aos viajantes.
Lay estuda a quinta classe e já sabe que "o Luvili é fronteira entre Kasonge e Londwimbali" e, na continuidade das palavras que trocámos, foi ensinando outras meninas e rapazes, seus coetâneos, ao mesmo tempo que insistia comigo:
- Ó pai, por favor, me compre só mangas!
Sem mais poder aquisitivo, pequei a moeda que tinha no bolso e dei para ela.
- Não é para me dares mangas. É mesmo para ti, Lay.
Na fronteira entre o Kwanza-Sul e Huambo e em diversas outras áreas do interior do nosso país estão a diferença do que faz quem todos os dias diz alto "NÃO À FOME!"



Texto e foto de 16.12.2021

quarta-feira, agosto 24, 2022

O MOVIMENTO E OS QUE PROCURAM DINHEIRO

Hoj'acordei ao relógio da mulher que trabalha no órgão administrador de eleições. Tinha o dever de levar a minha mãe, que pernoitou em nossa casa, à sua Assembleia de Voto, ao Rangel, e, depois, exercer o meu direito cívico de reeleger o Presidente de Angola para os próximos 5 anos.

Maria Canhanga não é de falar política. Para que eu soubesse onde colocaria o Xis (já que é idosa e invisual) fiquei atento às conversas com a Lúcia Joelle Canhanga, a neta, que diz ser "de Angola, do VIII e JLo". A minha mãe deixou escapar que "sempre votei no Movimento do Agostinho Neto".
Hoje, quando voltávamos do Rangel, escola Sagrada Esperança, onde a ajudei a pôr o Xis no Movimento, ouvíamos a RNA e, a certa altura, o locutor falou em oito candidatos a Presidente da República.
Muito séria, a minha mãe perguntou-me no seu Kimbundu:
- Já são oito que querem a coroa real?
Respondi que sim.
- Eu, desde criança, só conheço três: o MPLA do Agostinho Neto, a Unita e a Fê-nê-lá do Mobuto. Os outros cinco lutaram aonde?
_ Não lutaram. São novos. Dois saíram da unita. - Respçondi.
- Eh! O dinheiro vai matar as pessoas. Você que não "xotou" o kaputu e também quer que te escolham como rei? Isso não é só buscar dinheiro?! - Exteriorizou, sempre no seu Kimbundu.
Quando eu ainda processava o alcance daquelas palavras, o meu filho Arlindo, que acompanhou a avó ao voto, pediu a tradução, o que fiz milimetricamente.
Depois, foi a minha vez de ir votar, na Casa da Juventude, em Viana.
Vamos fazer, de seguida, a "festa das eleições de 2022". A ordem foi: votou, bazou, festejou!

segunda-feira, agosto 22, 2022

O OCTOGENÁRIO DE AREEIRO

(Quando velhice não é cegueira)

Depois de mês e meio na estranja, a comer saladas, caracóis e sóis que nem um boi, Mangodinho estava já naquela fase de ignorar os mendigos que enfeitam Lissabone e a coleccionar moedas para a janta.

Hospedado em Areeiros, paredes meias com Roma e Alameda, decidiu, ao quadragésimo sexto dia, caminhar uma hora, até Entrecampos, e jantar na tasca "A camponesa", onde contava encontrar a "Oriana de Entrecampos", que já desfilou nessa coluna, e comer a preço quase de banana amassada.
Fazia sol, intenso ainda, apesar de relógio apressado para nove da noite, hora em que fecham, regra geral, os serviços.
Mangodinho foi a passo intermédio. Sem pressa, mas também sem perda de tempo em montras e outros "fura-bolso".
Olho no telefone, olho no caminho, Mangodinho fez quarenta e cinco minutos até chegar à A camponesa. Estava "caloriado", cansado, faminto e sedento. Ansioso para mandar goela abaixo uma imperial gelada e um cozido à tuguesa, prato cheio-e-barato, pensava no estalar dental das cartilagens das orelhas do ngulu assado e no borbulhar, entre carnudas bochechas, daquele álcool dourado, repleto de lúpulo, cevada e água do Tejo.
- Vai ser uma delícia! - Soliloquiou, vindo-lhe rios à boca como cão faminto à beira de ossadas na grelha.
Encontrou, porém, A camponesa encerrada.
Era preciso voltar à origem e encontrar em atendimento a churrasqueira "Fome de Leão", local que frequentava desde que abandonou Sete Rios e se instalou na Avenida João XXI, Praça Sá Carneiro.
Foi no regresso à procedência, num passo mais comprometido, que viu dois idosos junto à estação de Areeiro. Galhofavam, tomando uma pomada e fazendo a boca com caracóis. Era por cima do passeio, junto à entrada de uma tasca. Os velhotes daqui são fiéis à tasca de sempre, assim como Mangodinho foi ao encontro de A camponesa de Entrecampos.
Um deles, o que parecia mais idoso, estava em viagens permanentes, à passagem de musas ousadas ou bem prendadas corporalmente. A mente ele não avaliava. Era mesmo o corpo que colocava o seu pescoço num vai-e-vem. O octogenário levava o pescoço e a cabeça ao sol poente, acompanhando uma transeunte e fazia-os voltar ao sol nascente quando passasse, em sentido oposto, outra mulher digna de espanto e contemplação.
"O belo deve ser contemplado", dizia um filósofo helénico.
Junto ao prato e copo, fazia ligeiríssimas paragens. Afinal, "a mão é quem mais conhece a boca". Tinha a consciência plena de que jamais, nunca, falharia o garfo ou o copo à boca!
Quem disse que velhice é cegueira?!

Texto publicado pelo Jornal Cultura de 25 Nov. 2022

segunda-feira, agosto 15, 2022

MANGODINHO EM 7RIOS

Na banda, rio é rio mesmo de verdade, com caudal, margens, lodo preto, algas verdes, peixes com escama e sem escama, água que corre apressada, lenta ou estagnada e meninos que fogem de casa para fimbas desgovernadas. Rio é também para se ir banhar!
Já antes da viagem, Mangodinho, como é kigila dele, desde há muito tempo, foi ao seu Kuteka banhar no rio Longa.
Posto na estranja, passou pela capital da Tuga e foi alojado numa banda que dizem "tem sete rios".
- Porra! Sete rios duma só vez? Deve ser kuyoso! - Exclamou.
Posto no sítio, escalou o cimo do hotel para contemplar a paisagem e matar a cauriosidade, empenhando os olhos na busca para o deleite dos rios, um a um, até sete.
A paisagem que lhe era oferecida aos olhos pela larga e envidraçada janela mostrava apenas colinas altas e arborizadas. Uma rua impuna-se, como tanga no meio de glúteos, entre prédios altos e adornados.
- Deve ser pelo lado oposto, o da estação de comboios. - Pensou.
Mangodinho é viciado em fazer obra. Por isso, na vida dele o lema é "está a pensar, está a agir". Meteu-se a caminho do ponto inverso que o obrigou a deixar o hotel e adentrar a estação de comboios.
Entre a contemplação e a meditação, entreteve-se com o chegar e sair de comboios, uns encarnados e outros amarelos. Só faltou o preto para compor as cores da sua predilecta bandeira gloriosa. Os machimbombos da carris, 12 destinos, e a rede de carros expressos também estavam aí a mãos de semear. Um cruzar de caminhos vários e longos, enchendo e esvaziando o recinto como o Kwanza em Abril nascente ou Agosto minguante.
Começou pelo ponto mais alto da estação e foi descendo os três ou quatro andares que separam comboios autocarros e metropolitano em mesma paragem.
- Porra, esses gajos estão noutro patamar. Mas não vão me dizer que os sete rios estão escondidos no underground. Ou será?!

Toalha no ombro e sabão em uma das mãos, abeirou-se a um muzangala africano que lhe parecia ser jovem da banda.
- Epá, comuê, fixe!
- Pois é, diga lá. Posso ajudar?
- Estou a procura dos Sete rios.
- Sete rios é mesmo aqui.
- Sim, mas não vejo rio nenhum. Sabes onde é que se banha?
Julgando-o estar a "estagiar", o jovem portuga evaporou do lugar, correndo em direcção à loja de conveniência.
- Porra, esses gajos ainda são um pouco matumbos. Comuê que escrevem sete rios, se nem um desfiladeiro de água pluvial há? Ao menos, escrevessem Sete Trilhos!- Exclamou Mangodinho, voltando ao hotel, cansado e aborrecido. Afinal, Sete Rios é só nome. Não há banhos em praia fluvial nem pesca, nem travessias à canoa como se faz no rio Longa, Kwanza e outros d'Angola extensa!