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quarta-feira, abril 27, 2016

PARABÉNS MINEIROS ANGOLANOS

O meu sonho era o de ser engenheiro de minas. Ainda tentei inscrever-me no curso médio de Geologia e Minas, na ENP, Sumbe, 1992-3.
Não deu certo. Estudei e fiz-me jornalista.
O destino, porém, surpreendente, levou-me a trabalhar em Catoca, em assessoria de imprensa, onde fiz Dez anos. Acto contínuo, laboro hoje no Ministério da Geologia e Minas.
Deus escreve directo em linhas tortas. É como dissesse "não querias trabalhar em Geologia? Então trabalha. Mesmo não sendo geólogo ou mineiro, há lá tarefas a desenvolver!"
Felicito, por isso, todos os mineiros de Angola, cujo esforço e contributo vem sendo reconhecido pelo Governo e sociedade desde 1985, a 27 de Abril.
Erguei-vos Mineiros Angolanos!

segunda-feira, abril 25, 2016

10GRAÇA NO COME CENOURA


Aturei 'mbora bem o engarrafamento da “Bacia Come Cenoura”, que nos dias de chuva engole o asfalto em vez da hortaliça de quem recebe o nome.
Três horas e tal, a "caloriar" num carro com AC e tudo. Gasóleo agora é líquido precioso que requer poupança. Luxo fica só pela metade. Quando estava mesmo já no fim do sofrimento, um gajo a buzinar aos outros para terem mais atenção e eles a me buzinarem de volta, uns só mesmo de pirraça para espantar os nervos que tinham comido todas as unhas e quase a sangrar os dedos, estava já a entrar para o asfalto, quando ouvi na minha traseira esquerda cru-cru-cru- buá.

Um Rav 4 antigo, todo desmazelado, raspou-se no meu carro, até se estatelar no degrau que chamam de "pisa-pé": buá! E o homem não pára já? Não! Continuou.

Estava, afinal a ser puxado com corda de aço por uma carrinha de uma empresa. Saí foribundo da viatura, quase a lhe dar uns socos com a minha mão aleijada, mas o polícia que estava por perto me contrariou:

Não lhe bate a frente d'atoridade.

Então, camarada autoridade, manda-lhe pagar estragos que causou, senão vamos nos resolver mesmo já aqui. Esse carro tem nome da minha sofrida mãe. É de sofrimento. Não me foi atribuído pelo Estado, nem o apanhei só assim...

Aí, o homem do acidente exibe as cadapla e confessa:

Sou de boa fé. Me desculpa só. Também sou polícia, dos que guardam as empresas grande e o meu ganho é xis. Pior, acabei de enterrar a mãe. O meu passe e a carta de condução podem ir contigo. Me dá o teu contacto e um dia te procuro.

A Maria anda agora arranhada, como se tivesse lutado  com o António, seu finado marido de setenta e três-oitenta e dois. Já leva tempo, o homem nada.

 

- Melaço, Mela?! Não é que descobri que aquele tipo que danificou a lateral da viatura não é um gajo de  boa fé, mas um morador da Boa Fé?

- Quem te disse, se não te vi a sair?

- Sonhei filha. Sonhei. Foi a reposição completa do filme...

segunda-feira, abril 18, 2016

A REVOLUÇAO COM PEIXE E FUBA

Minha mãe, quando chegamos a Luanda, 1984, "recuados" da guerra do Libolo, vendia, à porta de casa, na rua da Ambaca, no espaço conhecido como Pracinha do Kalisange (reencontro), fuba que servia para a janta com o peixe vendido na praça das Corridas e ou no Tunga Ngó (a primeira é no Rangel junto ao Supermercado Nzala Ikola de António Silvstre. A segunda era em território do Cazenga pois ficava entre a linha férrea e o quintal das oficinas gerais do CFL, a espreitar a Escola 5. Essa era informal, sem bancadas e com muitos "gregos") pelas colegas da Velha Guilhermina.
 
Maria Canhanga, minha mãe, a caminho dos quarenta anos ainda, manhã cedo, ia com as colegas de pobreza a uns armazéns onde se vendia (desviava) milho e masa-a-mbala. Eu, filho mais velho, levava-o à moagem de onde vinha a confundir-me com a própria fuba que ela vendia.
Vezes tantas eu "aviava" também a fuba quando ela fosse comprar outro milho e não fosse dia ou hora de escola. E quando os odepês e bepevês faziam suas rusgas para levar o nosso ganha funje, a astúcia de levantar a bacia e correr para o quintal estava-me nas pernas. Era como o sardão que não anda às voltas.

Aos sábados, dia de honga, caminhávamos a pé. Rangel, Karyangu, Palanca, Sanatório, Kapolo, e chegávamos ao campo agrícola, também campo militar.
Poucos rapazes de hoje saberão o que é honga. A primeira lavra da minha mãe ficava nas imediações do Kapolo e cultivava-se mandioca, batata-doce, abóboras (cujas folhas se adiantavam ao estômago), jinguba, kingombo (quiambos), makunde (feijão frade), feijão, jimboa, etc. Parte da fuba de mandioca ia ao estômago. A outra era wenji (negócio).

Já ajudei a apanhar katatu (lagartas) em folhas de ditumbate. Também já escalei peixe e cuidei dele para que secasse e fosse enviado ao Libolo para troca com macroeira
Vivam as peixeiras, fubeiras e etc., grandes lutadoras contra a fome e a mendicidade naqueles tempos de aperto e muitas bichas nas lojas do povo onde só se comprava o que havia e não o que se pretendia.

Era ainda minha missão ir  à loja do povo (os supermercados daquele tempo) ir à padaria, ao talho, loja do gás  e peixaria onde as filas eram enormes, os empurrões e kisendes que não escolhiam nem poupavam idosos, grávidas e crianças, confundindo-se homens e pedras que representavam homens. Depois das compras, transportadas à cabeça ou carro-de-mão quando vizinho houvesse para emprestar, o tio mandava dar uma porção lá para casa.

Peixe sardinha frito no pão e um chafé? Bem-vindo ao estômago que não escolhia!
Essa crónica foi inspirada em outra de Osvaldo Gonçalves, filho da peixeira Guilhermina.
Com peixe e fuba se fez a Revolução!

segunda-feira, abril 11, 2016

DIALOGAR MAIS E DE FORMA DIRECTA!


Quem leu ou ouviu o último discurso do Presidente Eduardo dos Santos, em sede do Partido que suporta o Governo, o MPLA, reteve, entre outras passagens a orientação estratégica para que as partes, dirigentes e dirigidos falem mais e de forma aberta e inclusiva. Aliás, essa tem sido a postura do Chefe de Estado Angolano desde o início da sua Magistratura.  “É necessário mais diálogo, falar com os cidadãos num discurso directo e com palavras simples para os esclarecer sobre as causas das dificuldades que estamos a atravessar e sobre o que devemos fazer para resolver os problemas”, verbalizou o Presidente.

A meu ver, sendo que a informação é para as organizações uma vantagem competitiva, uma vez que um funcionário convenientemente informado reage favoravelmente aos estímulos que recebe, a comunicação sobre as boas práticas a observar na Instituição MGM e a correcção de atitudes perniciosas que se vão instalando como o absentismo (falta de assiduidade, pontualidade  e de comprometimento com o serviço público),devem ser tarefas diárias de todos os Líderes (formais e informais) para que a “Nossa Dama” esteja sempre na fila de frente quando se fale sobre o desempenho dos Departamentos Ministeriais.
E é materializando a orientação do Líder da Nação, que para nós MGM é já prática corrente, que vamos realizar no mês de Abril mais uma Assembleia de Trabalhadores em que serão dissecadas as principais preocupações e anseios do momento. À Assembleia de Trabalhadores seguir-se-á o Conselho Consultivo que analisará de forma minuciosa o que se fez, o que se está a fazer e o que deverá ser feito depois do encontro. É desta forma que dizemos SIM ao apelo do Presidente.

Cada Líder, independentemente das suas atribuições, deve considerar-se  um comunicador e um influenciador de seus liderados. Cada liderado deve conhecer e entender as dificuldades por que passa a nossa economia e cooperar, com a sua entrega e esforço laboral, na busca de soluções. Não reclamar daquilo em que não se coopera é o que nos dita o princípio do bom senso.
Só aqueles que ainda se mantêm distraídos não se deram conta das transformações que se estão a operar na nossa Função Pública. Esses colegas devem ser despertados pelos outros que estejam atentos às mudanças e, sobretudo, pelas Lideranças.
 
Um dia, não tarda, deixaremos de ter os livros de ponto descentralizados como acontece até agora.
Já falta pouco para que a duplicidade indevida de remunerações deixe de acontecer. Um levantamento e conformação de dados entre os constantes no Bilhete de Identidade e na Folha Salarial está em curso e deve abranger todos os organismos Públicos.

Um dia, também não tarda, só aqueles que realmente trabalham com zelo e dedicação terão a correspondente remuneração.
É TEMPO PARA DESPERTAR. É TEMPO DE DIALOGAR MAIS, DE FORMA ABERTA, E COOPERAR!

segunda-feira, abril 04, 2016

A PAZ QUE "ESTAMOS COM ELA"

O calendário corre. É Abril.
Os tugas que nos legaram a língua de que me sirvo para teclar e falar têm um marco em Abril chamado "abrilada". Está ligado à sublevação miguelista no período da monarquia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Abrilada).
Para nós angolanos, Abril nos leva à paz que perseguíamos havia séculos. Primeiro registamos lutas entre povos que habitavam o mesmo território, depois a colonização, expropriação, tráfico de escravos e os pseudo contratos que foi escravatura interna, seguiram-se a luta de resistência à ocupação colonial, a luta pela independência (14 anos), guerra civil pós-independência (17 anos) e finalmente a guerra pós-eleitoral (10 anos). Porém, pelo método menos esperado, a paz chegou e já leva 14 anos.
É essa paz que todos queremos e precisamos manter que ocupa as palavras abaixo e vou recorrer às notas dispersas que conservo na memória.
Uma semana antes da assinatura do acordo formal em Luanda, estive no Luena ao serviço da LAC- Luanda Antena Comercial.
Dias antes, pela mesma emissora,  tinha estado lá a Paula Simons que depois fez a cobertura magna da assinatura do "Memorando de Entendimento do Luena",  no Palácio dos Congressos, em Luanda.
O Zé Rodrigues, Director de Informação, mandou-me num avião do PAM com carta de recomendação ao General Nunda que comandava o Estado Maior Avançado das FAA no Luena. Foi para mim um misto entre aventura e desejo de viver um dos momentos inolvidáveis da História do país.
Os homens da Unita estavam alojados, alguns, na Pensão Horizonte e outros no principal hotel da cidade, o Luso, sendo que as conferências de imprensa eram realizadas na sede do Governo Provincial Moxico. As conversas ou negociações essas decorriam noutro local, nas traseiras do edifício administrativo do Governo.
Vi e convivi com generais magros, desnutridos, com ossos desenhados, cabeludos, um pé na bota outro pé no chinelo, dormitando em beliches na Pensão Horizonte onde eu tomava refeições propositadamente para poder cair no seu engodo e chegar à palavra-testemunho aguardada pelos ouvintes da emissora.
Vi e entrevistei povos que chegavam todos os dias, heli-transportados pelas FAA, trazendo na bagagem apenas a vida e a esperança de uma vida melhor do que aquela animalesca a que haviam sido votados. Faltava-lhes tudo.
Conheci homens e mulheres cultos, bem falantes, com piolhos de roupa a percorrer-lhes o corpo.
Fiz quatro ou cinco dias no Luena e lembro-me de ter voltado a Luanda apenas com a roupa do corpo. Ofereci, peça a peça, o meu vestuário aos meus entrevistados no campo de deslocados que se erguera próximo do cemitério municipal e outros no edifício inacabado junto ao bispado.
Wambu Kalunga, S. Chiwale, M. Dachala, L. Gato e Kamorteiro são algumas das pessoas com quem falei no Luena, abordando a penúria dos dias de aperto, a magnanimidade do Presidente da República, a esperança de reerguer uma Angola em paz, curar as feridas e enterrar o machado da guerra. Pareciam todos bem animados: militares e populares vindos das matas.
Será que conservam o ânimo, o discurso e a mesma esperança?
 
"Um povo que ignore a sua História condena-se a repetir os erros do passado".
 

quinta-feira, março 31, 2016

GRANDEZAS DE PARTE E ARREGAÇAR AS MANGAS

“O país está mais pobre”. Adiantou o antigo Governador do BNA, Dr. José Pedro de Morais, numa abordagem sobre os rumos da nossa economia nacional, cujo desenrolar não deve ser alheio às famílias e aos funcionários públicos.
Num discurso bastante realista e quase inédito, José Pedro de Morais reconheceu queA desvalorização cambial e o aumento da inflação têm sido o resultado natural da queda, substancial na nossa principal fonte de rendimento. A dura realidade é que ficamos mais pobres e, por isso, temos de nos ajustar”.
Perante o quadro, só nos resta ter como cavalo de batalha uma frase: Trabalhar com afinco e racionalizar cada vez mais. Não temos, a meu ver, outro caminho que nao seja o da nossa entrega ao trabalho para produzirmos de forma eficiente e eficaz ali onde estivermos colovcados e poupar cada vez mais os recursos disponíveis, quer para o exercício da actividade profissional,quer atendendo a grelha de necessidades do orçamento doméstico.
 “A dura realidade é que ficamos mais pobres e, por isso, temos de nos ajustar”. Trata-se de um ajustamento que passará por fazer as coisas de modo diferente a fim de esperarmos por resultados diferentes. Já está provado que não adianta fingir que se trabalha ou evocar razões imponderáveis para justificar a falta de entrega. A resistência passiva é perniciosa ao crescimento individual e das orhanizaçoes, sendo combatida de acordo a Lei que regula a actividade laboral e demais instrumentos reguladores internos.
É tempo para mostrar o quanto valem as mulheres e homens desta casa. Espero que todos arregacemos as magas e nos entreguemos, de forma abnegada, ao compromisso que fizemos com o Serviço Público.

segunda-feira, março 21, 2016

AMORES DE MEL´AÇO

Sempre foi a menina dos olhos do pai, desde pequena. Nasceu linda e meiga, tal como Manuel pretendia. Deu-lhe, por isso, o nome de Mela, uma espécie de sua homónima. Para a esposa, dona Bela das Pernas Grossas, rapaz é que atenderia o seu ego. Mela também era benquista da mãe que se gabava de vizinha em vizinha por ter a menina mas trochudinha da Rua do Lodo, no bairro Karyangu, embora por atrás daquela alegria algo pedia o companheiro para a menina. Diante do marido, Bela reclamava do excesso de bonecas sem carros de brinquedo no quintal. E aconteceu três anos mais tarde, depois de uma interrupção oculta pelo meio, dado o facto de o segundo "conseguimento" ter surgido seis meses depois de Mela.

Do outro lado, Manuel sonhava com a filha doutora de qualquer coisa, moça prendada, alembada e casada no tempo certo que nem ele sabia, se aos dezoito, vinte e oito ou já no extra time para um produto a prazo quando se pretenda cliente embolsado e descomprometido.

Manuel andava de sorriso em sorriso e às contas. Mela era a sua alegria e o cavalo dianteiro para Bela das Pernas Grossas, quando o assunto fosse visitar a algibeira do marido. A formosura e a voz delicada da menina impedia o papy, como era carinhosamente tratado pela filha, exibir um NÃO aos seus desejos, muitas vezes projectados e inflacionados pela mãe. Assim foi desde que Mela entrou para a creche até que, já com duas luzinhas no peito a indicar o caminho para a mocidade, Manuel descobriu um teste médico com o nome completo da filha e uma observação do ginecólogo que apontava POSITIVO.

- Porra! Teste de gravi quê?! Quer dizer que essa vadia já quê e eu aqui nas cegas, não é? Para chegar até esse ponto a Bela sabe. Sim, sabe. Tem de saber alguma coisa. Sempre desconfiei as “conversas de mulheres”, afinal era pra essa merda? – Vociferou o homem possuído de ira. A voz que, quase sufocada, se fez morrer no quarto, não deixou de se fazer ecoar na rua traseira e não escapou aos ouvidos vasculhadores das vizinhas "caça-fofoca" que de imediato esticaram a conversa como elástico, com detalhes apimentados com suas férteis imaginações.

- A filha da Pernuda, então, já não tem a coisa no coiso. - Fofocavam as senhoras, de beco em beco, como se as suas princesas há muito assucatadas estivessem no castelo.

No intervalo da escola, onde a notícia a encontrou pela bisbilhotice de uma vizinha, amiga da mãe, Mela desfilava. O dia era seu. Apertada num vestido de boneca, mostrava a geografia de suas picadas, do alto da montanha à foz dos desejos, a todos quantos faziam do seu corpo uma Tundavala de encantos.

Estava preparada para e esperava pelo Mister J, um ardina que se fazia passar por filhinho de papá, com quem sairia para a discoteca Ouro Negro. Nascido no seio de uma família com pequenas posses herdadas do colono cafeicultor de quem o pai fora capataz, Mister J ou Januário, para os amigos de Nambwangongu, aportara na grande cidade empurrado pela busca do que nunca deixara perder ou guardara. Embalado pelas estórias de pessoas que do nada se tornaram gente de fundos e montes, Januário meteu-se num machimbombo, apenas com a roupa do corpo e uma carta do primo Nzuzi que dizia: “Primo estou na capital. Aqui a vida é diferente. Tua roupa, teus carros você consegue sem muito esforço. Basta chegar na praça do quilómetro trinta e procurar por Nzuzi. Todas a gente me conhece. Basta me achares o que é meu também é teu”.

Nzuzi era raboteiro (estivador de mercado) do quilómetro trinta, ao Ramiro e lá vivia numa casota de chapas de zinco, erguida por um pequeno lactifundiário, à beira-mar.

Jacinto desavisado e sem mais detalhes sobre a vida do primo, desfez-se do machimbombo que o trouxera de Nambwangongu ao atingir o mercado homónimo de Viana. Percorreu as bancadas uma a uma, perguntando pelo que se dizia “famigerado” Nzuzi Makyadi, debalde. Foi levado à polícia, aos bombeiros, à rádio e nada. A sua foto, talvez porque desfigurada pelo sofrimento que enfrentou nos primeiros sete dias de Luanda, foi exibida na televisão e colada às paredes do mercado do Trinta, mas debalde. Nem Nzuzi, nem alma qualquer que se prestasse recebê-lo. Teve de empregar-se na venda de jornais, na vila de Viana, dormitando debaixo da ponte amarela, tão logo as vendedeiras lhe cedessem o lugar.

Com o passar dos dias e dos meses, conheceu Ecs Pi. Xavito Pinheiro no bilhete dele, um rapaz de Kalomboloka, filho de um deputado, dezassete anos ainda por completar, que se anglofonou. Ecs Pi gostava de roubar o carro do pai para ir às garotas, mesmo não estando habilitado. Como Mister J tinha carta de condução, fizeram-se comparsas temporários. Durante o dia cada um deles tinha a sua vida. Januário ardinava e Xavito kabulava no colégio em que fingia estudar.

Às noites, hora de lavar o carro, Januário abeirava-se da casa de Ecs Pi que extraia os documentos e algumas folhas da carteira do progenitor e faziam-se à ngwenda. Januário servia de motorista de Xavito, o Ecs Pi, e este servia de pagador das conta do amigo. Era também Ecs Pi quem emprestava as roupas de marca actualizada com que Januário desfilava perante Mela e outras raparigas da Escola Grande. Para aquelas meninas, Mister J era um autêntico magnata. Oferecer recargas de telefone para ele não era problema, muito menos pagar cachorros quentes, hambúrgueres e caipirinhas para as mocitas já experimentadas na interpretação errônea de I Tim. 5:23 (Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho por causa das tuas frequentes enfermidades).
Foi nessas andanças que Mela engravidou de Mister J, com a cobertura de Bela das Pernas Grossas, sua mãe, quando contava apenas treze anos.

Desgostoso, Manuel cortou a mesada à filha e a matriculou na escola pública. Acto contínuo, retirou o pagamento do transporte para a escola e mandou-a a uma barbearia cortar o cabelo à moda Manu Dibangu (lâmina Zero). Não tendo morto o amor que nutria pela filha, apesar da desfeita, Manuel esperava, com a ajuda da mulher, que a filha se corrigisse. Que as conversas de mulheres não fossem para o extorquir e mandar a filha em libertinagem mas para que das privações que lhe impusera resultasse a correcção a tempo de realizar o seu sonho de sempre: uma filha doutora de qualquer coisa, prendada, respeitada, alembada e que dê frutos dignos de orgulho.
Longe de aliar-se às medidas impostas por Manuel, Bela das Pernas Grossas, também ela trambiqueira em  tempos que já lá se foram, merecendo estrofe numa canção carnavalesca de então, colocou-se contra o marido, insinuando que “a filha estava diante de um pai diabólico”.

- Se teu pai não te “quero”, vamos lhe sengar juntos. – Agitava Bela.

Para evitar que a dibala da filha brilhasse ao sol de Abril e as amigas se apercebessem da punição paternal, cedo Bela se prestou em acudir com as suas perucas, dividindo o orçamento mensal de casa com as extravagâncias  da infante.

Tão logo o couro cabeludo ganhou cor, as perucas da mamã foram substituídas por um afro looking que estava em voga.

Com os dilates de Mela em aumento e sempre acobertados pela mulher, Manuel começou a direccionar toda a sua atenção ao filho varão, Nelito de Castro, que na escola progredia e já ultrapassara a mana mais velha, embora houvesse uma diferença de três anos entre os dois. Nelito recebia ao dobro: a mesada, as viagens pelo interior com o pai, e a qualidade do colégio em que estava inscrito.
A faca que lhe trespassara o coração tinha refreado os seus elogios à rapariga perante os amigos. Já se tinha exposto em demasia e o tiro saira-lhe pela culatra. Apreciava o filho e dava-lhe todo o apoio moral e financeiro para se tornar num grande homem à sua dimensão e à dimensão dos seus sonhos, mas guardara, para depois de passar a fase pubertária, os elogios que decidira encofrar.
 
Nelito era um rapaz feliz, distinto entre os amigos e os primos. Era o explicador e solucionador das dúvidas matemáticas e bio-química dos primos. Mela, que se destacara na família até à sétima classe, por conta própria decidira passar-se ao vale dos ignorados.

Adepto convicto da psicologia behaviorista, Manuel dizia, vezes sem conta,  que, para ele, a cada estímulo havia sempre uma resposta que se traduziria em recompensa para os benfeitores e castigo para os mal-feitores. Eu, o narrador, também conservo réstias de dúvidas quanto ao que ele referia como mal-feitores. Se eram a mulher e a filha ou se pretendia atribuir-lhes outros epítetos menos mais urbanos e campestres. Mas eram as palavras de Castro Manuel que, desiludido com a filha, redobrara a atenção à mãe, já velhinha, que vivia os seus últimos dias em Vav`Ayela, na Nganda.

                                                                    ...|||...

- António, o marron, é veloz, automático, não muito dado a murmúrios. É pragmático, sem retórica, muito menos a conversas para encurtar caminhos. Para ele é o passo corrido que encurta a distância e não a conversa fiada do motor que ressona e geme, o engate, ou xaxatanso das intimidades.
O Tony difere-se muito da Maria que me canta e conta ao ouvido, e bem baixinho, todos os seus segredos e anseios. A Maria cochicha, sussura, geme de prazer... O António não. Ele alivia-se, despacha-se, enche a barriga e não degusta, nem mastiga. Não deixa ver, não deixa apreciar as conversas fora do seu mundo. Desfaz-se do verde dos campos. Deixa tudo para trás numa fracção de segundos. Gosto do António mas é a Maria que me leva ao cosmos! – Monologou Manuel chegado da viagem, acomodado na sua SUV automática.  

                                                                          ...|||...

Era dia de anos de Mela, o décimo quarto aniversário. Embora desatento ao calendário natalício da família, Manuel fez questão de precaver-se, perguntando ao Nelo, com semana de antecipação, tão logo chegou de uma incursão pelo interior do país aonde fora visitar a sua progenitora.

 - Quando é o aniversário da tua irmãs?

- Vinte e dois de Novembro, papá. – Respondeu o infante.

Marcou na agenda telefónica que lhe servia de alerta. No dia certo, comprou um livro sobre Reorientação de adolescentes em conflito socio-familiar e, aproveitando-se da saída da filha e da mulher, adentrou o quarto de Mela para colocar o livro em local visível, seguido de uma declaração em em que se dizia “estar preocupado com o rumo que ela tinha dado à sua vida, muito à esquerda do que ele, seu pai, preconisara para uma filha primogênita e muito amad”. Na missiva, Manuel comprometia-se também em “desagravar progressivamente os castigos (de que não se arrependia por tê-los imposto), à medida que fosse sentindo evolução na atitude comportamenta da filhal, agora que tinha conseguido e lido, ele também, o livro que a oferecia”.

Saída às pressas, Mela deixara a gaveta da banca entreaberta. Uma ponta de papel, com o símbolo médico, letras em alfabeto mandarim e data recente, prenunciava uma curiosidade. O coraçao de Manuel quase pulou da caixa. Teve de tomar um relaxante antes de voltar ao quarto da filha para matar a curiosidade que encerrava aquele documento.

Nem tempo teve para pensar e desconfiar ou, ao menos, puxar coragem para encarar de peito uma possível notícia desagradável. Era um termo de responsabilidade exigido pelo médico ginecologista Xen Gun Dan, assinado por Bela das Pernas Grossas, a sua esposa, que acusava responsabilizar-se por possíveis consequências imprevistas da coretagem a que a filha fora submetida.

Da gravitreze de Jacinto à gravitorze de Loló foi meio caminho. Mister J que já frequentava, à socapa, a casa de Mela sempre que o pai se fizesse ausente, custeava o taxi da moça e mantinha encontros amorosos com ela. Para o pagamento dos lanches e salões de estética, surgiu Loló, jovem pedreiro, dedicado no ofício de reparar fossas desabadas e remendos em casas inundadas, mas sem instrução nem direcçao. Era um simples biscateiro catingoso que fez desabar a fraca muralha de Mela. Na primeira cantada de Loló, Mela cedeu toda a guarda ao ponto de passar a cuspir nos quinze que se seguiram ao acto, desafiando as patas que no aviário da Quinta Avenida chocavam aos ovos. Era a segunda vez, desta feita mais grave do que aos treze...

                                                                           ...|||...
Como acha que deve terminar essa cena?

- O pai, ao se aperceber da segunda gravidez, interna a filha num convento?

- Casa-a com o pedreiro catingoso?

- Corre a filha de casa?

- Corre a filha juntamente com a mãe?

Em um ou dois parágrafos, dê uma pista.

segunda-feira, março 14, 2016

O SAPO E O SALALÉ

 
(A propósito de um post inspirador que acabei de ler no mural do confrade Gociante Patissa)
 
O sapo, borbulhento e nojento, e o salalé, que ao sair da terra húmida se sente muito gingonçoso e importante, sempre se desafiaram. O sapo sempre faminto e salalé ou térmita gordinho, fresquinho e proteico.
O sapo aguarda pelo salalé que sai do buraco. Tem-no no olho e com os dentes e saliva preparados. Lá dentro, na cavidade abdominal, ronca o estômago como moageira sem milho para moer. São as peças que se roçam barulhentas. Mas, o salalé, mesmo talhado para morrer, sai protegido pelos guerreiros soldados de sua brigada munidos de tesouras frontais e acaba voando.
No ar, espalha-se diante de majestosa beleza e grandiosidade do céu azul ou acinzentado do pôr-do-sol, quando não é dia e não é surpreendido pelos mochos de lâmpadas largas e redondas.
Mesmo escapando das aves,  acaba-se-lhe o combustível, ou melhor, caem-lhe as asas, sem muito tempo de desfrute no espaço em que se perde, caindo como objecto sem vida directinho a frente do sapo que o degusta com prazer.
Quanto mais sofrível for a caçada mais saborosa é a carne. Não será?
Cuidado senhor(a), não te importantes tanto por estares naquela posição. Não tenhas asas de salalé.

segunda-feira, março 07, 2016

BIFAGRANDO: UM BIFE DE BAGRE

 
É um novo termo, um pouco modista, do calão mediático dos últimos dias que os rapazes de três localidades de Luanda acabaram de inventar.
- Bifagrando tem a ver com bife+bagre+falando. - Explicaram.
Encontrei-os na praia do Km 27, ao Ramiro, e conversavam sobre um novo "invento gastronómico" o bife de bagre.
Dizia Halyeya que "o bagre, por ser um peixe predador e de sangue vermelho, era o mais adequado para ser "bifado" em vez dos outros peixes de carne branca.
- Eu, no Coelho, a minha vida, de sol em sol, é só mesmo pescar e tramankar. É só mesmo do bagre da lagoa que vivo. Uns como e outros vendo frescos ou fumados.- Reforçou, algo vaidoso.
O seu companheiro, Kamaka, residente nas margens da EN230, pelos lados do Kazenga, ripostou que o kakusu da sua lagoa sabia melhor do que os bagres todos que já havia provado ao longo dos seus vinte e seis anos de vida de pescador artesanal no Velho Kimbundu.
- Mas como assim, vida de pescador artesanal se nem uma canoa e redes tens? - Questionou Mbela Yanda que até ali se mantivera calado.
A conversa animada com sumo fermentado de uva libolense já ia longa. Os petiscos eram locais, ou seja, todos kalús: bagres e ikusu capturados das bacias do Coelho, do Táki da Vila Nova e da lagoa do Velho Kimbundu.
Mbela Yanda, Kamaka e Halyeya desfilavam argumentos.
- Quem tem a lagoa mais antiga e mais produtiva?
- Quem tem a lagoa menos suja ou mais bafejada de podridão?
- Quem desfruta de bagres mais colossos ou ikusu mais saborosos?
Eram perguntas cujas respostas voavam à velocidade do eco. Já com o vinho a trespassar-lhe o cérebro e com o bagre fumado nos olhos, Mbela Yanda gritou alto:
- A melhor lagoa não é a do Coelho nem a do Velho Kimbundu. É a do Táki de Viana que tem bagre com osso. Ainda é pouco frequentada e os garimpeiros de peixe alheio têm a cadeia à vista.
Os companheiros ainda contra arguiram puxando o bife para o seu bagrito mas Mbela Yanda foi mais adiante na defesa:
- É que a minha lagoa recebe água quer chova quer não. Para os deixar mesmo estatelados, Mbela retirou o telefone do bolso para mostrar as fotos das últimas fainas, da fonte de alimentação hídrica permanente (descarregadouro da drenagem urbana da cidade) e ainda as imagens da sua nova invenção gastronómica, um bife de bagre.
Olhem!
 
Escrito a 16 de Fevereiro 2016. Publicado no Jornal de Angola, 13.05.2018

terça-feira, março 01, 2016

A VALORIZAÇAO DO SERVIDOR PÚBLICO

Foi tema de palestra e depoimentos ocorridos na ENAD, dia 03 de Dezembro, assinalando o fecho do ano lectivo naquela instituiçao de formaçao vinculada ao Ministério da Administraçao Pública, Trabalho e Segurança Social. Perante casa cheia, o professor de Direito e decano da Faculdade Pública que forma juristas, Carlos Teixeira, fez uma revisita aos conceitos de Servidor Público (aquele agente administrativo vinculado ao Estado), Serviço Publico, sua classificação (serviços principais e auxiliatres),  e demais assuntos colaterais.
O Deputado António Cortêz, também conhecido nas lides literárias como Chico Adão, fez uma incursão ao funcionalismo público no tempo colonial e apontou temas como o aprumo, o conhecimento e  domininio da legislação (Diários da Republica de I e II séries ou seja, Leis e nomeaçoes e mobilidade), bem como o tratamento igual a todos os utentes do Serviço Público.
Sebastião de Sousa e Santos gestor do Instituto de Gestao de Participaçoes do Estado contou, de igual forma a sua trajectória no funcionalismo publico colonial e a sua vasta experiência na funçao pública de Angola independente, com passagem pelo Ministério das Finanças. Outro depoimento, não menos importante foi o da Dra Rosa Cruz que iniciou funçoes no Ministério do Comércio Externo, viveu a fusão com o Ministério do Comércio Interno, viveu outra fusão com o Ministério da Indústria e, depois da disjunçao daquele, viveu  uma outra fusão entre o Comério e a Hotelaria e Turismo, estando a gora à frente do GEPE do MINHOTUR. São experiências que reforçaram conhecimewntos e encorajam aqueles que ouviram os palestrantes.
Muitas outras façanhas e experiências foram transmitidas na palestra , mas vou destacar  algumas frases quee partilho:
Ø A Humildade é o segredo para o sucesso no Serviço Público. É lícito e esperado que as pessoas progridam horizontal e verticalemente, mas sem pisar ou prejudicar os outros.
Ø O cumprimento da Lei e das obrigações, a documentação permanente sobre a Administraçao Pública e a busca de auto-superação, são aspectos de elevada importância ao Servidor Público.
Ø A Lealdade e o Rigor devem estar presentes em todos os actos do Servidor Público.
Ø O Orgulho em pertencer a uma família restrita, a que muitos nacionais gostariam de pertencer, deve acompanhar a vida do Servidor Público que retibui a essa “dádiva” com o sua Entrega abnegada e Zelo pelo que faz.
Ø Empenhar-se no trabalho e gerir as mudanças (fusões, disjunções, mudança de líderes, etc.)  com inteligência e não com intrigas.
Ø Para além da Responsabilidade, ser Diligente, informando com antecipaçao e precisão, antecipando-se aos factos que possam prejudicar o Serviço Público foi outro tema levado à reflexão.
São recados que ficam. Novidades, eventualmente, para alguns e revisitação a conceitos há já muito tempo incorporados para boa gente.  Quanto a mim, a palestra e os depoimentos foram um reforço ao que a Escola da Prática me tem ensinado.
 

domingo, fevereiro 28, 2016

MATEUS 5:25

Era domingo. Segundo domingo do mês terceiro. O templo — edifício de cultos da Igreja Pastor Murras (IPM) — estava em plena reabilitação. Eram tempos de carências sociais: faltava dinheiro para consultas, para remédios, para erguer casas, para pagar casas, até para manter a panela acesa.

Na IPM, onde as pessoas se entregavam a granel e depositavam os seus poucos proventos na esperança da repetição do milagre dos “peixitos e pãezitos”, vivia‑se a melhor época de colheitas. A alta hierarquia, à semelhança dos agentes comerciais mais ousados, publicitava a fé nas rádios, nos jornais, nos outdoors e inundava as artérias das cidades com panfletos em busca de fiéis.

Os aflitos ocupavam as primeiras fileiras; os mais ou menos iam hesitantes; e os ricaços só apareciam para lav(r)ar o dinheiro.

Naquele domingo de chuva e sol, era do alto do púlpito que o eloquente pregador Kabwiza soltava a voz, como nunca antes, fazendo lembrar os anjos celestes com as suas arpas melodiosas.

Kabwiza puxava por todos:
Coro central! Máquina melódica da igreja!
Coro das mulheres!
Máquina reformada dos homens!

E todos entoavam, radiantes:

“Tempos de colheitas…”

O piano soluçava as pausas e empurrava os tons altos. Até os mudos pareciam cantar no íntimo; os surdos balançavam na mesma cadência, jurando ouvir “messes abundantes havemos de trazer”.

Os balaios passavam sem descanso. Era o espremer das carteiras e o sacudir das algibeiras até ao último centil. Cantou‑se para a acção de graças. Depois para o fundo de construção. Depois para a oferta dominical. Depois para o dízimo.

Kabwiza ergueu a voz:

Roubará o homem ao seu Senhor a décima parte que lhe é devida?

O NÃO massivo veio como trovão:

NÃÃÃOOO!

Cantemos então o “Madibesa kala nvula”.

O cântico — roubado do hinário da velha congregação Centenária — era a versão em kimbundu do primeiro hino que haviam entoado em português. Para os membros da Centenária, a IPM era “roubadora de hinos alheios”, e quase sempre mal cantados: serviam apenas para encaminhar o povo ao balaio.

Mas Madibesa kala nvula era um trunfo. Cantavam-no todos, até os que não entendiam a letra, ou não sabiam que era o mesmo “Tempos de colheita” ali gatunado da Centenária, de maioria ambundu.

Cantou‑se “Twabingi nvula kokwê”, e tombaram dízimos, vinténs e outras partes emotivas.

No fim da cerimónia, pastor e tesoureiro seguiram pesados numa viatura que os rapazes do bairro chamavam de “agarra esse bebé”: um Suzuki Alto já roçado nos quatro cantos, graças à inexperiência de quem ganhara o primeiro carro sem ter estrada nos olhos.

Iam cinco no minúsculo “bebé”, apertados, suados e sedentos.

Na curva derradeira antes de casa, lembraram‑se de parar para comprar água. Os homens da farda — encarregados de garantir a segurança e regularidade do tráfego — também banzelavam nos feriados que se aproximavam. Mas foram as mazelas do carrinho, já a perder a brancura original, que lhes chamaram a atenção.

Quem vai à loja tem dinheiro, murmurou um deles.

Posicionaram‑se estrategicamente num largo de pouco movimento, onde quem transitasse teria de abrandar. E, quando o Suzuki se aproximou, mandaram encostar.

— Bom dia, senhores! — saudou o agente, pedindo de imediato os documentos da viatura e os do condutor, que guardou no bolso sem sequer olhar.

— Cinco pessoas nesse carro é muita gente. De onde vêm e para onde vão, mais‑velhos? — perguntou.

— Vimos da igreja e vamos para casa, chefe — respondeu o pastor Kabwiza.

O agente secundário, mais afastado, quis saber:

— Alguém aqui é pastor?

— Sim, chefe. Eu mesmo. Por isso peço que veja os documentos e nos deixe seguir. O céu está a escurecer, e com este carro não dá jeito andar no bairro — disse Kabwiza, quase suplicante.

O terceiro agente apontou para o saco no banco traseiro:

— E esse embrulho? O que tem aí?

— É oferta, irmão. Dinheiro sagrado de Deus — apressou-se a explicar o tesoureiro.

O chefe dos fardados avançou:

— Então, irmãos… vocês são cinco, e nós também somos cinco. Tenho uma dúvida que vem na Bíblia. O pastor pode ajudar-me? Depois disso devolvo os documentos.

— Está bem, filho. Qual é o capítulo? — perguntou Kabwiza, já percebendo o enredo.

— Mateus 5:25 — recitou o agente, firme.

Kabwiza abriu o sacro-livro e leu:

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele;
para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda,
e sejas lançado na prisão.
Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali
enquanto não pagares o último ceitil.”

Não foi preciso explicar nada. Os fardados tinham feito o trabalho de casa. O pastor compreendeu a mensagem, fechou o livro, saiu do carro e, num gesto sereno, transferiu discretamente os seus últimos centis da algibeira para a mão vazia do agente de caqui — a mesma que ocultava os seus documentos.

E, com isso, reconciliou‑se depressa… para não ser igualmente “lançado na prisão”.


Publicado pelo Jornal de Angola, ed.8 de Julho de 2018

domingo, fevereiro 21, 2016

D0 ALTO DA CELA E TUNDAVALA


Crónica 03
Contemplo a maravilha que a natureza nos oferece complementada pelo engenho humano e vejo quão imensa é a cidade de Luvangu. Não tarda, chega mais uma viatura com dezena de crianças a que se seguem outras de jovens excursionistas. O espaço ganha vida. Corre-se à volta como se procurando por algo.
- Não há cá balneários públicos? – Atira um dos turistas desejoso de desfazer-se de líquidos ou sólidos transformados em pasta.
Abro a minha caixa de recordações e voo até à “Mesa Montanha” da cidade do Cabo e projecto aí um “cable” e todo o apetrecho turístico como loja de conveniências, restaurante, café e um Motel erguidos com material local e sem beliscos ao meio natural. Um pouco desgostoso, já a caminho da Humpata, para ver a Leba, reparo que o restaurante e a loja de conveniências com que sonhei ficaram pelo alicerce.
- “Table Moubtain" nacional, ainda vamos a tempo, se os que têm dinheiro e aqueles que decidem quiserem. ‘ Falei aos botões.
A observação não se distancia da Tundavala que desperdiça a sua enorme paisagem.
- Só falta mesmo quem decida erguer instalações que alimentem o turismo. – Murmurei ao Martins que acrescentaria:
- Organizar transporte da cidade ao miradouro, cobrar taxa de usufruto, impedir que se suje a área com detritos humanos, latas de cervejas e refrigerantes ou ainda marmitex. Empregar guias que expliquem cada um daqueles recantos ou colocar em cada atalho placas informativas sobre a história do local e sua subdivisão espacial. Recrutar fiscais, fotógrafos e instalar o que atrairia e reteria mais gente ao espaço turístico e recreativo: restaurantes, cafés, lojas de souvenirs, albergaria rústica, toiletes, etc. Com tudo isso, ou mesmo metade, não mais nos espantaríamos com o Cable e Table Moutain de Cape Town. – Concluiu como que conhcesse a Raibow Nation.
Quem visita Luvangu e não vai à Leba é como ir a Roma e não chegar ao Vaticano. Dizem. A estrada que desafia a escarpada serra da Leba é uma "serpente" enrolada sobre a montanha vertical. A natureza fez a sua parte e o homem engenhoso complementou com a escada sobre o "edifício" de dezenas de andares. Que maravilha!
Pena é não se ter erguido ainda no local espaços para reter o turista, depois de saciado pela natureza circundante.
Ainda do alto da Leba, depois de pagar a portagem de Kz 150.00, contemplo a sua raridade e me recordo de um velho sonho: descer e subir ao volante de uma viatura.
Ensaio a fiabilidade dos travões e engato uma mudança intermédia, combinando força e velocidade que não passava de 40 Km/h no início da odisseia.
A meio do percurso, um camião tractor geme pesado e cauteloso, pressionado pelo bloco de mármore que há-de trazer divisas ao país e ornamentar um edificio num país qualquer.
- Quão bom seria se tivéssemos já indústria de beneficiação das rochas ornamentais. Deixaríamos de vender comodities baratas e comprar refinados caros! – Atirou o Martins que sabendo onde trabalho aproveitou provocar-me sorrateiramente. Mas é para a descida da Leba que concentro todo o meu talento e destreza.
É já em território do Namibe que os fóbicos da Leba engolem despreocupados ar puro.
- Ebenezer (até aqui o Senhor nos ajudou)!- Foi a frase que ouvi do meu companheiro de viagem que soltou poucas palavras enquanto eu pelejava contra as curvas e contracurvas numa espécie de espiral regressivo. Nem mesmo os batuques, os recipientes para a ordenha, os cacetetes (porrinhos), estatuetas e outros artefactos de madeira expostos em venda, ao longo da parte final da descendente Leba, despertaram a atenção do Martins que apenas reagiu aos meus beliscos verbais quando deixou de ver curvas à frente. Cinco quilómetros abaixo da Leba, depois de uma vasta mata de mulolas espinhosas, se estende o Mercado das Mangueiras onde matámos a fome e a sede. A carne, assada em tiras finas espectadas em palitos, custava Kz 150.00 ao passo que uma perna de galinha rija custava quatro vezes mais.
- Mas aqui, com tanto gado, a carne é assim tão cara? – Questionei à vendedeira que atendia pelo nome de Fernandinha. Era também o nome gravado à entrada da barraca.
- Senhor, é a crise. Até o preço da taxa subiu!
Fazia sol de assar sardinha e o mar que distava perto de uma centena de quilómetros fazia o convite: “Venham também ver Moçâmedes”.
- Desculpe-me Namibe, mas não será desta vez o nosso reencontro! – Despedi-me, forçado pelo relógio que corria apressado. Havia ainda a cascata da Xibya (Chibia) por explorar e fizemo-nos de regresso ao Luvangu, com curta paragem na Humpata onde o gado bovino, as maçãs, as peras, o trutulho e o bom clima convidam o turista a uma contemplação do belo. Ponto de passagem entre Luvangu e a Leba que nos conduz ao Namibe, Humpata é também um local turístico e de recreação. Tem um mercado municipal recheado de frutas de vontade e pousadas com camas fofas.
Chegados à grande cidade do sul, o caminho seguinte foi o que dá ao Kunene.  Perdidos entre as mulolas e rios caudalosos em tempo de chuvas fartas, mas que se tornam desérticos em horas seguintes, precisei de tradutores para "assuntar" que precisava de fazer fotos com as mulheres mundimbas trajadas a preceito. Estava na Xibya (Chibia), famosa pelos seus campos agrícolas onde se haviam estabelecido colonatos luso. Conta-se que Sá da Bandeira, nome por que fora baptizada a capital huilana, ter-se-á enamorado pelo clima da Xibya... 
Dois tradutores de ocasião ajudam-me a transmitir a ideia, na língua nativa, às mulheres mundimba que ignoram o idioma trazido por Sá da Bendeira e conterrâneos.
- Ele veio nos visitar e quer tirar fotos para recordação. Também promete dar algum dinheiro para os que ficam comprar recordação. - Terá dito, mais ou menos, um dos tradutores, antes de reclamar: - eu que estou a “assuntar” com as mamãs também me põe na conta da recordação. A ele se juntou outro jovem, também pretendendo a boleia da tradução.
As senhoras, caprichosamente trajadas em seus panos e bijuteria de misanga (missanga na grafia convencional) ao pescoço,  acederam sem resistência. Até apareceram mais do que as minhas previsões, mesmo sabendo que a quantia prometida era, para mim, irrisória. Mulher mundimba também gosta de se ver na foto registada e guardada na memória do telefone. E foi o que pediram.
Havia prometido dar cem kwanzas a cada uma das cinco senhoras que contactei inicialmente. No fim, lá estavam onze mulheres. Para manter o que anunciara paguei mil e cem às senhoras, juntando mais duzentos para os dois homens  que ajudaram a manter tangíveis os discursos.
No momento de despedida, soaram rajadas de palmas. Todos agradecidos. Numa picada interior da Xibya (Chibia) onde quase nada se compra, senão as misanga (plural de musanga) e o álcool que "afugenta" o frio que vai e vem sem parar, onde a água pluvial corre furiosa da montanha para lado desconhecido, de tanto não poder adentrar o solo pedregoso, cem Kwanzas terá sido dinheiro.
Não foi dia de turismo. Caminho não havia para chegar à tão recomendada cascata que, afinal, estava antes, na comuna da Huila. Também guias turísticos e bons entendedores da Língua de Camões estavam raros.
Do turismo passamos à aventura. É que nem a Maria (viatura) decepcionou na transposição dos obstáculos pedregosos, quanto não lamacentos, que se apresentavam na picada escarpada que risca a nuca da montanha que se estica da Xibya ao Namibe. Regressados a Luanda, verifico de novo o contador de distâncias e este me informa: consumidos dois mil, trezentos e quarenta e nove quilómetros. Bem haja turismo!