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sábado, março 08, 2014

O ÍNTIMO DE BRIGITTE E O SORRISO A ANGOLANA

Apesar da chuva que caiu em Saurimo, na tarde de sábado, 08 Fev. 2014, cerca de meia centena de pessoas presenciaram ao acto de apresentação do poemário de Brigitte Caferro, realizado no Cine Chicapa, com a presença da Governadora da Lunda Sul, Cândida Narciso, que se fez acompanhar de dois vice-governadores e do director provincial da cultura. Soberano Canhanga, também poeta  e  prosador, foi convidado para a apresentação crítica do livro, começando por recitar um poema que escreveu para homenagear a autora e as senhoras presentes:
“SORRISO A ANGOLANA

Nesta sala que me acolhe
No consagrado teu dia

Percorre-me a memória
Os sorrisos mais luminosos que me brindaste
Mesmo multi-atarefada
Mesmo preocupada
Entre emprego e família dividida
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE

De dor gemendo, aflita,

Sonolenta,
De noite mal dormida
Do mona adoentado
Moída pelo trabalho
Pelas lidas caseiras
Cuidando marido ressacado
Ou desviando patrão mal-intencionado
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE!”
Ø Excelências, amigos das artes e, sobretudo, da literatura.
Ø  A minha saudação especial às nossas mães, razão da nossa existência.
Ø Vénia redobrada à Dra. Cândida Narciso que nunca deixou de estar presente num acto de lançamento de livros em Saurimo, dando assim exemplo de que a sociedade só cresce com conhecimento.
A nossa escritora tem como nome artístico Brigitte Caferro, sendo de nome próprio Brigite Causse Caferro. Nascida aqui mesmo em Saurimo, em meados da década de 80 do século passado, é formada em Administração pela Universidade Federal de Paraná, no Brasil. É cantora, artesã e escultora da palavra, sendo este “do meu íntimo mais íntimo” o seu primeiro “artefacto” literário. Brigitte Caferro também pode ser lida na antologia “Amores diversos”, publicada no Brasil, em 2012, bem como na “Folha Carioca” onde ilustrou com um poema a matéria “literotismo”.
O meu primeiro contacto com Brigitte foi pela via do FB, e já quando tinha terminado de ler o seu livro que me fora enviado para essa empreitada difícil que é apresentar o livro às senhoras e senhores aqui presentes.

 Confesso, que quando recebi o convite do grupo Hytweza para comparecer nessa cerimónia de apresentação do poemário de Brigitte, o sentimento foi de satisfação por ser eu um amante fervoroso das letras e incentivador da cultura da leitura e escrita entre os jovens. Embora acometido por uma lombalgia, aceitei o convite. Porém, um calor interior invadiu-me quando me foram pedidos conselhos sobre como organizar um lançamento de livro. Opinei, mas fiquei receoso que algo sobrasse para mim. Assim pensado, assim solicitado. Senti-me criança perante tamanha responsabilidade, embora honrosa e irrecusável.
Estamos aqui dois estreantes. Ela na publicação e eu na apresentação crítica de um livro. A minha missão se torna ainda mais difícil pelo facto de o livro trazer já uma apreciação crítica de Ricardo Alfaya, um escritor, crítico literário, revisor e editor, como se poderá ler na pág. 07 (elementos pré-textuais da obra).

Ø   Queridas mamãs, queridos papás, caros jovens,

Um estudo realizado recentemente pelo investigador Tomás  Lima Coelho, sobre a literatura angolana e feita pelos angolanos, actualizada nesta última quinta-feira, aponta que, de 1849 (ano em que foi publicada a primeira obra de um angolano), a esta parte, o número de escritores nascidos na Lunda Sul ainda NÃO CHEGA A DEZ. São apenas SETE, contando já com a nossa caçula Brigitte Caferro, Sendo que o primeiro lundasulino a publicar um livro em Angola foi o Professor Dr. Vítor Kajibanga com “A alma sociológica na ensaística de Mário Pinto de Andrade, em 2000”. A ele se seguiram Bula Mbungue, Elias Chinguli de Oliveira, Fonseca Sousa, Raul Luís Fernandes Júnior e Valter Hugo Mãe (este último nasceu aqui em Saurimo mas vive em Portugal desde 1976). Brigitte é, portanto a primeira lundasulina a publicar um livro, já que, dos SETE naturais desta província, seis são homens.

Preocupados, vamos fazendo apelos e vamos tomando iniciativas como a criação do Núcleo de Leitura e Literatura, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, que, desde já, convido todos os jovens a frequentá-lo.

Ø   Ilustres senhoras e senhores,
Já vai sendo tempo de começarem a surgir novos valores na Literatura da Lunda Sul. Precisamos que surjam mais Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita “a fotografia do coração”, conforme nos recomenda a nossa autora no seu poema ARTISTA (pág. 81). “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Brigitte Caferro não vem fazer número. Vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul. Vem dizer que é possível desde que se tenha a palavra e a coragem de a esculpir conforme nos ensina nas páginas 05 e 06.“Escrevo desde os meus 13 anos. Anotava num caderno e por questão de segurança passei a digitá-los. Com o evoluir do tempo fui evoluindo a linha de pensamento e melhorei a escrita… Quando senti que a minha sensibilidade artística era muito forte, decidi escrever e publicar esse livro”. Aos jovens, candidatos a escritores, aqui está o conselho mais do que claro. Ser escritor não é algo que se consiga de dia para noite. Exige inspiração e, acima de tudo, transpiração. Muita transpiração para dar forma à palavra.

Nos seus 76 poemas, Brigite apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade. A escrita de Brigitte é, sobretudo, intimista. É o seu grito ao encontro do “nós” social. A fotografia desta poesia intimista pode ser encontrada na pág. 17 “Dois corpos e uma paixão” ou ainda na pág. 21 “Vem amor/com teu fogo/causar-me curto circuito… /com teu cabo de alta tensão/ fazer-me conexão…”.

Nos “amores de Brigitte” encontramos também dilemas. A antagonia entre o estar juntos e compreender/enfrentar a separação. A ansiedade, o desejo de regressar e de reconquistar colos… Próprio de quem se encontre distante dos seus. Próprio dos migrantes.

Brigitte mostra-nos com surrealismo, na pág. 25, em que diz viver num “mundo de sonhos” onde o ”maior pesadelo é a realidade” de um dia “encontrar-te”. Em oposição, na pág. 20, Brigitte fala sobre o fim do tempo ou o fim da missão, mais quando tempo não houver para o “abraço final”,  quando deixarmos de “dividir a sala, sorrisos e futuros”…
Considero a poesia de Brigitte Caferro, como desabafos da alma que nos chegam por via da escrita. Neles, impera o verso livre, não se destacando formas tradicionais como o soneto, as quadras e as métricas, etc. Encontramos porém elementos metalinguísticos, próprios do género literário. E, Brigitte também reinventa a língua com que trabalha no seu “íntimo mais íntimo”. Bastará ler o “penso, repenso e tripenso” (pág. 27), ou ainda elementos como a rima em “chamas-me p´ra cama/mas não me amas/ És o fantasma/que corrompe minha alma” (Pág. 53).

A anáfora e a gradação, outras características deste género, também estão representadas em vários textos como “Quero voltar a ser criança…/Quero voltar ao passado/… Quero regressar à meninice…/(pág. 56).
No “íntimo mais íntimo” de Brigitte nota-se também o recurso à personificação e a expressões metafóricas como se pode conferir em “As luzes revelando segredos sombrios/no palco da cidade adormecida” (pág. 97) ou ainda o pintar “… na tela da alma/amores, sonhos e ilusões…”

Outra questão, não menos importante, é o facto de a angolana Brigitte Caferro, ter escrito com base no discurso brasileiro da língua portuguesa ou aproximando o discurso ao AOLP de que Angola, por razões óbvias, cultural e socialmente ponderáveis, ainda não aderiu.
Grande parte da produção científica e intelectual, escrita em Língua Portuguesa, vem do Brasil e de Portugal, sendo o país americano, aquele que mais falantes possui. Daí, a necessidade de um apelo aos jovens, aos professores das nossas crianças. Escrevam de acordo ao português padrão, aquele convencionado até hoje, mas não deixem de estar atentos às regras do AOLP, para que tão logo os linguistas e os políticos se entendam não fiquemos na fila de trás, quanto à aplicação das novas regras.

Quero agradecer a Brigitte Caferro pela ousadia que teve em trazer-nos os seus gritos da alma e pedir que não se embale nos elogios que esteja ou vá receber. Continue a cultivar-se e a polir a palavra. Vá lendo os clássicos da literatura lusófona e, sobretudo, aqueles que reinventaram a língua como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Jacinto, Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Alda do Espírito Santo, entre outros. Vá também tutorando os jovens que a vão procurar para dar forma aos seus textos. Somos poucos para a grande empreitada que é desenvolvermos a nossa terra, a nossa Lunda Sul, a nossa Angola.
Para terminar,
Precisamos que surjam mais jovens como Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita a fotografia do coração. “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Tal como recomendou, uma vez, o já finado mais velho Mendes de Carvalho, a quem rendo homenagem, “os jovens não precisam de ter pressa em publicar. Devem antes cultivar-se”. Porque a literatura adiada não apodrece. Ela amadurece.
E já que estamos a comemorar o dia internacional da mulher, com a apresentação do livro de uma jovem mulher, por que não irmos à página 75 e desfrutarmos do poema Mulheres?

“Dos seios/liberam as mulheres/ a essência-fragrância/que hipnotiza os homens/e que os leva ao êxtase!/ Doces como teixos/ as mulheres precisam ser/irrigadas e acariciadas/ Também mimadas/amadas e protegidas/ para que não se tornem venenosas”.
Muito obrigado,

SOBERANO CANHANGA (Jornalista e escritor)
Saurimo, 08 de Março de 2014.

quarta-feira, março 05, 2014

O CARNAVAL DO RANGEL E A HOMENAGEM QUE FALTA A MAN-BRÁS

"Mamá, atuzemba. Atuzemba, atuzembel´anyi?! (Mamã, não gostam de nós. Por que não gostam de nós?!) Quando vai aí, Atuzemba está com o povo. Quando vem aqui, Atuzemba está com todos"

O refrão que já leva muitas décadas pertence ao grupo carnavalesco ATUZEMBA, do distrito urbano do Rangel, em Luanda. Não venceu o desfile central enem sei se desceu à nova marginal para dançar sob os olhares silenciosos (sob olhos secos) do Camarada Manguxi que repousa ali no seu mausoléu...

A coroa do carnaval de Luanda voltou, em 2014, ao Rangel, mercê da soberba actuação do União Sagrada Esperança, do bairro (agora distrito urbano) que me viu crescer e fazer-me homem. Foi no Rangel, entre a Rua da Ambaca, da Saúde, Comandante Cantiga, Rua do Paraná, Rua da Mão e rua do Povo, entre outras, que tomei contacto com o carnaval luandense, ainda no tempo do já finado “carnaval da vitória” que se realizava em Março para assinalar a saída do último “carcamano sul-africano-racista” do solo pátrio, a 27 de Março de 1976, depois da invasão estrangeira que visava inviabilizar a proclamação da independência de Angla pelo MPLA.

No Rangel, dançávamos ao carnaval da vitória com o Grupo Atuzemba, União Estrela do Kaputu (Zona 15), União Mãe Ya Ndengue, Andorinhas, União Povo do Rangel, União Juventude, e tantos outros que animavam o município inteiro, antes e nos dias do desfile. Agradava-me assistir aos ensaios e ver aquela gente alegre. Alegria espontânea e não comprada ou a troco de alguma distinção à marginal. E dançávamos eufóricos ao som da ngoma de lata, reco-reco, pwíta, chocalho, etc. O rei e sua rainha vestiam-se à moda angolana e exibiam coroas feitas a base de ferros recortados e outros metais. Era tudo a base do improviso e da espontaneidade. A criatividade também morava connosco e já se dizia que corria no sangue.

Mas quem mais alegria dava aos munícipes todos, em especial às mamãs peixeiras e outras quitandeiras da praça das Corridas (hoje mais conhecida como praça do Tunga Ngó) e da Praça Nova (defronte a administração comunal do Rangel) e aos meninos e meninas da minha infância “rangelina”, era o Man-Brás, exímio vocalista de carnaval, dançarino e tocador de ngoma e pwita. Man-Brás sofria de algum distúrbio mental que não cheguei a definir e alimentava-se frequentemente de carne que lhe era ofertada pelas kintandeiras que apreciavam os seus toques e retoques de dança carnavalesca.

Depois da exibição, perguntava sempre: - Há uma gordurinha? - O homem referia-se a miudezas que voluntariamente lhe eram ofertadas.

Seguindo o som do seu batuque, muitas crianças chegavam a se perder, dando lugar a outro tocar de lata, desta vez, por parte das famílias cujos petizes se perdiam no rasto da ngoma do Man-Braz que continua o seu percurso.

- Nanyi wa ngi bongela kamona ka dyal'ê?! (Quem terá encontrado uma criança de sexo masculino?!)

Fruto disso, muitas mães preferiam mandar parar o Mam-Brás e tocar por alguns minutos à porta de casa, oferecendo-lhe depois aquilo que houvesse. Assim, as crianças deixavam de o acompanhar. Mas não era a mesma coisa ver o Mam-Braz tocar à porta de nossa casa e vê-lo exibir-se em rua livre ou na Praça das Corridas.

Mam-Brás foi um feitor e zelador do nosso carnaval de bairro. Carnaval alegre, sem preço, sem patrocínios, sem contrapartidas e que não era encomendado por ninguém. Man-Brás corporizava essa alegria de quem estava e sentia-se livre na sua terra.

O Man-Brás vivia na Rua Pernanbuco, também conhecida nos últimos tempos por rua do “ti Avelino dos Santos”. Pernambuco, a Joana, era uma exímia dançarina cuja história não me atrevo relatar por falta e precisão de dados. Mas que foi tão boa a dançar ao ponto de ganhar o nome de uma das ruas do Rangel, isso ela foi.
Apesar de sofrer de distúrbio mental, Man-Brás tinha o reconhecimento e respeito de todos. Era prendado pelas mamãs que gostavam do som do seu tambor, da voz do seu canto e dos toques da sua dança, quer na rua ou nos mercados onde preferencialmente se fazia exibir. Nada cobrava. Apenas recebia o que lhe era dado de oferta no momento da exibição e fazendo do seu carnaval, sem época, o seu ganha-pão.

Man-Brás que, ainda faz ecoar no meu ouvido a nossa alegria de criança esboçada com o refrão: Man-Bragéé-é, Man-Bragéé-é! é o meu homenageado neste carnaval de 2014, cujo vencedor, em Luanda foi o União Sagrada Esperança do Rangel que homenageou os traços identitários da cidade capital angolana.

Que o próximo homenageado do carnaval seja o Man-Bragéé-é, Man-Bragéé-é!

sábado, março 01, 2014

CUIDEM DE VÓS E CUIDEM DA VOSSA ALDEIA!

- Iswaswa mu haxi, ka! (lixo no chão, não! A frase em língua bantu, ucokwe, falada no nordeste de Angola, difundida por colunas altifalantes vai ecoar por muito tempo naquela aldeia e redondezas, pois o público alvo foi, maioritariamente, crianças e adolescentes que tiveram um sábado diferente, no primeiro dia de Marco de 2014.
Saypupu é uma aldeola que fica há 34 km de Saurimo, a capital da província angolana da Lunda Sul. É o aglomerado populacional mais próximo da vila mineira de Catoca que se ergue, com a actual configuração, desde 1995. Apesar de no tempo pré-independência se ter feito exploração diamantífera residual na actual mina de Catoca, a comunidade de Saypupu é preexistente à exploração mecanizada do kimberlito de Catoca que dá nome à maior diamantífera angolana.
São pouco mais de 50 famílias que vivem da agricultura de subsistência, caça e pesca. A fauna e os recursos piscatórios são abundantes, mas o crescimento populacional, fruto, em parte, da melhoria das condições sanitárias faz da comunidade uma das mais carenciadas.
Quem vai a Saypupu não precisa de inquirir os aldeões para notar que há uma taxa de fecundidade e de natalidade elevada. Todas as senhoras apresentam-se com crianças ao colo, sendo que a maternidade começa na adolescência.

Segunda é uma das mães de Saypupu. Dança embriagada com a filha às costas. A menina, com um ano e meio de vida aproximadamente, está acometida de um furúnculo na genitália. A mãe, há pouco saída da adolescência, mostra-se menos preocupada com o que se passa com a filha. Ensaia toques de cyanda, a dança local, ao som alto espalhado  por colunas montadas a propósito da campanha de sensibilização sobre as doenças provocadas pelo lixo nas comunidades. Segunda dança. Nas costas, a criança geme de dor.
- Tenho 20 anos e sou mãe de cinco filhos. – Disse quando perguntada por uma das minhas colegas que comigo foi à campanha de recolha de resíduos sólidos e sensibilização sobre os perigos do mau manuseamento do lixo.
Puxei pela cabeça para compreender com quantos anos Segunda se tornou primípara e qual tem sido o espaçamento entre os filhos. O meu esforço só teria compensação se a voltasse a perguntar, algo que achei deselegante e incómodo. Preferi ficar à fala com os meus botões.
Como Segunda, há outras senhoras que dançam ao som da cyanda e do ku duro. Outras mulheres que se tornaram mães precoces e que estão divididas entre recuperar a mocidade  adiada e a maternidade exigente. O álcool, consentido pelos maridos, torna-se o refúgios para uns e para outros.
Mais despreocupados estão as “ana jo” (crianças). Prestam atenção às explicações dos palestrantes, acompanham os visitantes voluntários na campanha de limpeza da aldeia, seguem os passos, conversam e também dançam. Dançam a tradicional cyanda e dançam também o “do cotovelo”. Dançam alegres, despreocupadas e inovadoras como as outras crianças das médias e grandes cidades iluminadas e inundadas de veículos automóveis e salões para festas. Aqui não. A sombra de duas mangueiras gémeas é o salão. A picada que recorta a aldeia em dois blocos é riscada pelas rodas estreitas das motorizadas. As crianças falam português, a língua da escola, mas é em ucokwe que todos mais se entendem. Por isso, o discurso é bilingue para que todos percebam o que se pensa e o que se diz.
- Há água potável que sai da vizinha vila mineira, mas falta ainda a energia eléctrica pública e um centro hospitalar. Faltam também os mosquiteiros. - Apelou o secretário da aldeia, sempre atento aos sinais do soba, o seu chefe.
Ouvimos os recados transmitidos de forma implícita e explicita. A responsável pala área social da empresa explicou os esforços que o Governo e  a companhia fazem junto das populações para inverter o quadro.

- Sabemos que as aldeias à volta da nossa empresa têm muitas necessidades. Entendemos as vossas reclamações, mas temos de lutar juntos. Não é possível colocar tudo o que pretendem em aldeias muito dispersas e pouco habitadas. É preciso juntar as aldeias para que um único posto médico, uma escola, um fontanário ou um Centro Infantil possam atender muitas pessoas. Há um projecto de unificação das aldeias que o Governo e nossa empresa já apresentaram aos sobas. Precisamos do apoio dos sobas e das populações para realizarmos este projecto que nos vai facilitar a todos. – Concluiu, agradecendo e apelando ao início da campanha.
Vassouras, pás, sacos de plástico, tambores e baldes para o depósito de lixo. Antes a distribuição de luvas de borracha. Todos. Quase todos, com excepção do soba que não vi participar da campanha de limpeza. A equipa visitante tinha de tudo: cronista, fotógrafo, camarógrafo, desportistas, assistente social, avaliador de diamantes, enfermeira, funcionários administrativos, técnicos de segurança laboral e segurança patrimonial, engenheiros, tradutores, etc. Uma equipa recheada. Os aldeões também eram muitos, embora as crianças, adolescentes e alguns jovens se tivessem  destacado. A maioria dos pais e as mamãs de Saypupu continuaram na sobra das mangueiras,  dançando ou se dirigiram aos seus aposentos, assistindo, na sombra, a recolha dos resíduos que eles mesmo espalharam.
Hora e meia ou duas de labuta intensa: desenterrar, resgatar entre o capim, recolher plásticos, vidros, tecidos, pilhas e outros resíduos que são, geralmente, arrastados pelas águas pluviais até ao rio que serve de fonte de abastecimento para a vila mineira e a aldeia.
Quando o sol se mostrava mais forte do que os homens acossados pela sede e pela fome, a música que sempre acompanhou os obreiros cedeu lugar à voz falada ao microfone.
- Vamos lavar as mãos com água e sabão. - Um homem e uma senhora fizeram um coro desafinado, imitando o Pedrito do Bié.
- Se você pegou no lixo, lava as mãos com sabão.
- Se você pegou na areia, lava as mãos com sabão…
- Lava, lava, lava, lava. Com água e sabão!
Apelo feito, apelo cumprido. De repente, uma fila junto à viatura que levava uma pequena cisterna. Todos lavaram as mãos com água e sabão para se refugiarem, posteriormente, à sombra das mangueiras gémeas onde a música e a dança prosseguiam.
Aos trabalhadores foi servida água mineral, leite de soja e pães. Os que não trabalharam também se meteram na fila e todos comungaram daquele pão e leite de soja. A festa tornou-se geral.
- Iswaswa mu haxi, ka! (lixo no chão, não! - Voltava a apelar-se, ante a existência de garrafas e plásticos em área já limpa. Mais uma recolha e outros apelos.
- Iswaswa mu haxi, ka!
Quando o roncar do estômago e a dureza do sol celebraram casamento, expulsando os visitantes, não restou outra solução senão o "até breve"!
Os tambores ficam para depositarem o lixo caseiro. O carro virá recolher uma vez por semana. Cuidem de vós, cuidem da vossa aldeia e lembrem-se sempre:
- Iswaswa mu haxi, ka!

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

ALÔ, SENHOR DEPUTADO, GRAFIA DAS CIDADES VAI AO PARLAMENTO

Acabo de ler no jornal de Angola (edição de 26 de Fev. 2014) que o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada.
Lê-se na notícia que Bornito de Sousa, o Ministro, falava durante um encontro com jornalistas e esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra “k” e a introdução do “c”.
O Ministro informou ainda, cito o Jornal de Angola, que os topónimos para as comunas, municípios e localidades “têm como base a grafia em português, a língua oficial”.
Uma fonte conhecedora do assunto escreveu (F.B., 26.02.2014) que o que o MAT orientou aos media para aplicação rigorosa é “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola, a fim de buscar uma harmonização da grafia”, sendo que, segundo ainda a mesma fonte, “o MAT está a querer ser apenas rigoroso e agir em conformidade com o que está legislado”.
Na busca de uma Lei nova que esteja adequada com a nossa realidade actual, com a nossa cultura, segue a fonte, o MAT está a preparar o projecto de Lei sobre a Toponímia que será trazida a debate público para as contribuições de todos e, desta forma, em conjunto, encontrar-se a melhor solução para este problema.
Três  perguntas:
- Por que foi “impingida” aos órgãos da comunicação social a aplicação rigorosa de uma lei de 1971 que corrige para pior determinados topónimos surgidos ou já rectificados no pós-independência? Coloco aqui o exemplo do Kuando Kubango e Kwanzas Norte e Sul.
- Afinal de contas, que documento o MAT pretende levar ao poder legislativo? O projecto de lei ainda desconhecido ou a Portaria de 1971 que não admite a utilização das letras K, W e Y (constantes dos alfabetos convencionados pelo nosso Governo através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República)?
- Na eventualidade de se pretender levar ao Parlamento ou a uma consulta mais alargada uma nova proposta de lei, com que contribuições, dos mais distintos círculos da sociedade angolana, conta o MAT na fase de elaboração do documento?
Pedido aos ilustres representantes do povo à Assembleia Nacional
 Senhor Deputado, a grafia das cidades vai ao parlamento. A decisão está no seu voto.
Kumbi lyu tunga zemba lyu xika mwixi! (O dia de construir o palácio é o de assobiar!). Não se pode perder uma oportunidade singular.
 Se você é um deputado defensor dos valores africanos de origem bantu, defensor das nossas origens, da grafia dos nossos nomes de acordo aos significados que encerram e a nossa identidade cultural, sei que vai votar CERTO.
 Basta reflectir no seguinte: o nosso maior rio de Angola que dá nome à nossa moeda deve escrever-se com CU ou com KW?
·      Espero que até à chegada da proposta de lei ao poder legislativo, os representantes do povo consultem sociólogos, linguistas, antropólogos e historiadores, para que o trabalho de casa esteja feito. Que os deputados da maioria e da minoria não cumpram apenas a "disciplina Partidária”. Estudem o assunto, busquem consultoria, façam o “dever de casa” e votem em consciência representando os vossos eleitores.
Até lá, até que se esclareça se o que vai ao Parlamento é a Portaria de 1971 ou uma Nova Lei, espero que consigamos (opinion makers) influenciar os Governantes e Legisladores, discutindo e opinando de forma aberta, alargada e desapaixonada. Vamos buscar consensos. Vamos buscar posições que não nos levem a mudar de leis quando um dia vierem outros homens a governar Angola. O Partido pode ser o mesmo mas os homens e as mentalidades, tenho certeza,  serão diferentes.
Seja o que for e venha o que vier. É preciso investigar, idoneamente! 

 

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

A "GUERRA" DOS TOPÓNIMOS: FINALMENTE UM PASSO

O aeroporto do Namibe deixou de se chamar Yuri Gagarin e foi rebaptizado com o nome de Welwitchia Mirabilis. Em rigor, apenas homenageou-se um austríaco em vez dum russo, pois a  planta que existe no deserto já era designada pelos nativos por ntumbo, tendo sido cadastrada pelo botânico Fredrich Welwitch com a designação de Tumboa. Apenas depois da sua morte, e em sua homenagem, a planta rara ganhou o nome actual  (Reginaldo Silva, fb, 13.02.2014).

Apesar de se ter apenas mudado o nome de um russo para um austríaco, tomei nota, com bastante agrado essa evolução no pensamento político-cultural dos governantes angolano. Chego à conclusão de que, afinal de contas, sempre será possível rebaptizar os topónimos angolanos de origem bantu, atribuídos e registados, muitos de forma errónea e ao acaso,  pelos portugueses. Para os povos  bantu, cada substantivo/nome encerra um significado. E mais, o CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), e mesmo as autoridades angolanas (Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República) convencionaram alfabetos para as nossas línguas, devendo a redacção dos topónimos e antropónimos bantu obedecer a estas convenções.

Continuo a considerar que os topónimos angolanos cujos registos não correspondem à redacção correcta, nem ao significado que encerram devem seguir o “caminho do aeroporto do Namibe”, ou seja rebaptizados e registados.
O estudo da Direcção Nacional de Organização do Território, Ministério da Administração do Território, sobre Divisão Política-Administrativa e Toponímia de Angola apenas ganha os meus elogios por ter enumerado e codificado as províncias, os municípios e as comunas do país, sendo necessário também serem “provisoriamente” nomeados. Dada a ausência de um estudo e discussão abrangentes sobre a redacção exacta dos topónimos de origem bantu, obedeceu-se apenas, neste caso, às designações da administração colonial.
Com todo o respeito que me reservam os responsáveis do MAT, com quem tenho uma comunicação aceitável, não me revejo na obrigatoriedade dos media angolanos adoptarem essa redacção colonial como se o “documento em construção”  tivesse força de lei.
Haverá incapacidade, de nossa parte, para se fazer um estudo etimológico dos nomes bantu da nossa toponímia? Reitero. Não aceito que a nossa moeda, de que todos nos orgulhamos, o Kwanza, seja grafado com KW e o rio de quem ganha o nome seja CU.
À semelhança do aeroporto Yuri Gagarin, que passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis , espero que as províncias que ladeiam o rio Kwanza sejam grafadas como deve ser ou que a nossa moeda se escreva Cuanza em vez do habitual Kwanza.
Que a capital da Lunda Sul seja Sawlimbo e que a província do sudeste de Angola seja Kwando-Kubango e a sua capital Vunonge.
Que um dos municípios do Wambu (Huambo) seja Cikala Co Lohanga e que a antiga cidade de Silva Porto seja escrita Kwitu-Vye…
Pode ser que o tempo me derrote, mas não custa nada debater e buscar consensos alargados. O país, a sua história e futuro, a todos diz respeito.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

CRUZES DE FEVEREIRO

As cruzes estarão cheias
Repletas de gente que não acredita
Nem embarca nas táticas dos que querem vender
 

E vendem...Cada vez mais à custa dos que acreditam em fadas
O mercantilismo vai virando a cabeça das pessoas
Inventando modas que se tornam mundiais
Há entretanto os "ateus", os incrédulos
E os que, para escapar à pressão mundial,
Preferem desligar-se emigrando
Em datas como esta, para um outro qualquer planeta
Ainda não infestado pela febre do consumismo.

O 14 de Fevereiro é só mercantilismo
Onde amor se mede em moeda corrente
E onde, em vez de corações,
Palpitam saldos de contas bancárias...

Que chovam dilúvios de críticas
Que se quebrem os telhados
Que se esvoace a folhagem arbórea
Para que, neste dia, tudo se aparte de mim!
Porque eu, desculpem, não embarco!

Eu não acredito!

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

PAPEL SOCIAL, POLITICO E ESPIRITUAL DAS MISSÕES EVANGÉLICAS NO PLANALTO ANGOLANO


Nova cidade do Kwito
Mbalundu: monumento do soma Ekwikwi II
Três anos depois, voltei ao Kwito, Vye. Não foi uma viagem pacífica como a última em que o meu Nissan Almera se fez deslizar alegremente pelas estradas ainda a cheirar asfalto. De Luanda ao Alto Ama (Huambo) há buracos que já preocupam e que podem provocar mais dores de cabeça ainda. Do Alto Hama ao Mbalundu, Kacyungo, Cingwari e entrada do Kwito a vida na estrada é outra. Um mimo. Um mimo que perde graça apenas dentro da cidade, com maior pendor para os desfiladeiros das águas pluviais.
Apesar de possuir estradas resseladas, na cidade do Kwito há novos buracos que reclamam por reparação, sendo  a rua Silva Porto um exemplo do que está mal e que precisa, com urgência, da mão de quem sabe e tem poder, antes que o asfalto desapareça.
Entre melhorias, assinalo a semaforização das ruas do casco urbano. Os semáforos são alimentados por placas solares. Nota positiva. Os bienos me parecem mais orgulhosos de sua terra e mais alegres. Há coisas novas como a nova cidade que se ergue no Cisindo, à entrada da antiga Silva Porto.

Em missão fúnebre, desloquei-me a Kamundongo, missão evangélica (IECA) que fica a 22 km da cidade de Kwito. Aqui, o que mais me despertou a atenção foram as vivências dos "missionistas", o passado, o presente e o legado histórico. Vejamos:

1-      FORMAÇÃO ACADÉMICA E POLÍTICA- Só conhecendo-se e conhecendo o mundo à volta e as suas relações de interdependência, o homem se podiam aperceber da sua situação humana e social. Quando o governo salazarista estava “concordado” com a igreja católica, as missões evangélicas desempenharam um papel relevante na formação e despertar do "homo angolanus".
- Com o conhecimento sobre a natureza, os angolanos ganharam consciência sobre a situação política e social, dando vazão à génesis do nacionalismo. – A repreensão pidesca contra os iluminados nacionais negros levou à terra a ideia de uma revolução política não violenta. Os iluminados da missões sentiram-se na obrigação de servir de candelabros para outros angolanos na grande marcha para a liberdade, quer ensinando-os a ler e escrever, quer politizando-os.

 2-  CAMPO ESPIRITUAL/RELIGIOSO E SOCIAL- Os negros africanos ganharam conhecimento/orientação para explicação monoteísta da existência humana, bem como sobre a vida ultra-tumba.
- Foram incutidos sobre a missão social e fraternal, fundada na igualdade entre os seres humanos e necessidade de partilha equitativa dos recursos e apoio àqueles que mais carências têm em termos de recursos para a sobrevivência (caridade).

- As crenças pagãs foram substituídas pela crença na ciência e na teologia e os hospitais substituíram os “ovimbanda”, proporcionando uma vida com maior qualidade.
Pelo acima enumerado e muito mais, acho mesmo que os jornalistas angolanos deviam visitar missões protestantes como as do Késua (metodista em Malanje), Cileso, Voga, Cisamba, Dondi, Kamundongo, Cilume e outras missões evangélicas,  para as conhecer e dar as dar a conhecer. Pois foi grande o papel desempenhado por aqueles templos, escolas e hospitais para a formação académica, intelectual e espiritual dos angolanos do planalto e não só.

OBS: a grafia dos topónimos obedeceu ao alfabeto das línguas bantu.

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

AS TRÊS MULHERES DE KAMUNDONGO

- Tu kusiña kimbo lya vel´apo! (Encontrar-te-emos na aldeia celestial!) – Cantava de forma angelical o coro da sociedade de mulheres da IECA que acompanhou Celita Adolfo à sua última morada.
A octogenária nascida e crescida na missão de Kamundongo (Kuito-Bié), onde se formou e louvou, manifestara, em vida, o desejo de ser sepultada junto de seus familiares e contemporâneos cujos restos repousavam já em Kamundongo.
Os filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, contados em centenas, não fizeram mais senão cumprir o pedido da antiga diaconisa.
- Vamos levar a avó a Kamundongo e cumprir com o seu último desejo. - Afirmaram entre tristeza e alegria.
Tristeza porque era uma biblioteca que ia a enterrar. Alegria porque a sua obra apontava para um descanso merecido ao lado do Senhor. Dai a canção “Tu kusiña kimbo lya vel´apo!”
A missão de Kamundongo fica a 22 quilómetros da capital biena. À semelhança das missões homólogas do Chilesso, Dondi, Chissamba, Chilume, Vouga, entre outras, Kamundongo viu nascer e formou homens e mulheres que tiveram um papel relevante no surgimento da consciência nacionalista angolana, na luta pela emancipação dos angolanos e no processo de criação da nossa nação (ainda em curso).
Inicialmente como professora de artes e ofícios e mais tarde como parteira, Celita Adolfo, nascida em 1928, foi uma mulher que fez o máximo que pôde pelos homens e pela sua IECA de que foi diaconisa. Teve, por isso, a merecida homenagem de despedida na Igreja Central do Kuito, também designada por “Catedral da Paz”, e um elogio fúnebre à dimensão da Grande mulher que foi.
Troço da picada que nos leva a Missão de Kamundongo
Em Kamundongo, localidade alcançável em tempo chuvoso apenas com recurso a carros todo-o-terreno e com pontecos a reclamar por reparações, as árvores frondosas que guardam a memória de notáveis homens e mulheres da sociedade Biena e não só, acolheram as centenas de pessoas que foram ao último adeus a Celita.
Uns cantando, outros acompanhando apenas os coros mas guardando reverência e expressando nos seus rostos comoção, outros ainda mais soltos nos gestos e mais alegres nos semblantes, duas mulheres se destacam entre a multidão.
Uma é idosa. Tem o netinho às costas. Setenta ou mais anos, indicam as rugas e a flacidez da epiderme. Está toda apossada de tristeza, como quem quer dizer, mas sem força, sem fôlego “sempre estivemos juntas, por que me deixas nesta cidade provisória”? Despejada de quase tudo, dos amigos de infância e adolescência, das colegas dos coros em que cantou, despojada talvez de filhos e netos ao longo das carnívoras guerras travadas no planalto central angolano, a idosa só podia oferecer a sua comoção, enquanto panos já envelhecidos de tantas lavagens cobriam seu corpo quase secular como também amparavam o “nekulu” que cabriolava despreocupado nas costas.
Noutra frente, uma jovem há pouco saída da adolescência, disputava com as amigas o melhor cabelo emprestado e grife da tarde sem sol, nem chuva. Com um vestidinho colado ao corpo, como se fosse sua pele, e a mostrar as encostas das nádegas, a jovem estava pintada à moda de mulheres da vida. E como nestes eventos a vaidade e a petulância vivem juntas, lá estava ela totalmente singular, exibindo as chaves de uma viatura que seu trabalho honesto e limpo ainda não permitem comprar. Se calhar, esteja também a sonhar com uma despedida e um  repouso eterno em Kamundongo… Porém, para lá chegar, terá antes de conhecer e seguir as peugadas de Celita Adolfo e ter como guião a fé, boas obras, honestidade e moderação.
Kamundongo, Kuito, 04 de Fevereiro de 2014.

Publicado no Jornal Cultura, edição nº 148 de 21 Nov-04 Dez/17
 

terça-feira, janeiro 28, 2014

A FELICIDADE DE CAMINHAR JUNTOS

Sinto-me feliz quando vejo meus amigos e contemporâneos a ascenderem a cargos de responsabilidade. Ainda são poucos aqueles que sobem ou que tenham já subido por mérito, que olham para baixo e que se recordam das duras jornadas em comum, reconhecendo as potencialidades dos que "ainda" não subiram. Tenho porém certeza que à medida que nos formos forjando académica e profissionalmente esse número crescerá de ano para ano. 
 
Elogio também os eternos amigos, aqueles que estando já no "1º andar", não ajudam com dinheiro ou com simples convites para jantares em chiques restaurantes ou instâncias turísticas, mas que dão ideias e sugerem caminhos... Esses dão os anzóis em vez de peixe a quem tem "fome".
 
Tenho amigos que se encaixam na descrição supra. Só não os nomeio para não coibir outros amigos que, embora não tenham ainda demonstrado este lado positivo duma amizade, podem ser excelentes. Não depuro ninguém. Apenas elogio as qualidades.
 
Os meus últimos dias foram marcados por dois exemplos: um amigo, que é editor-chefe num jornal, sugeriu-me que passe a escrever (melhor, que mande) crónicas e contos ao "seu" jornal, a fim de serem publicados. Embora não me tenha garantido dinheiro, trata-se de isca e anzol. A mim interessa que as minhas criações artísticas sejam conhecidas. Nem todo o ganho se resume em dinheiro. Uma outra amiga (não é minha contemporânea directa. É uma década mais velha), procurou-me, fazendo mais de mil quilómetros, para trocar ideias e sugerir inovações, quer ao meu desempenho profissional, quer à minha auto motivação. Haverá prenda melhor de um amigo do que nos "ensinar" a trabalhar?
 
Os meus amigos de verdade hão de se rever nessas palavras de agradecimento.
 
Estamos juntos!

quinta-feira, janeiro 23, 2014

KWANZA-SUL OU CUANZA-SUL?

Em conversa no chat do face book, o meu amigo Isidoro Natalício colocou-me a questão da grafia dos nomes de origem bantu (topónimos e antropónimos). Referia-se o amigo Isidoro que a TPA tem-nos escrito de forma diferente àquela que eu uso na grafia dos "nossos" nomes.
 
Tendo em conta a importância do assunto, ainda que o debate e as conclusões sejam superficiais, julguei oportuno partilhar as ideias que defendi nesta página que é menos volátil ao tempo.
 
1º - Os topónimos obedecem, para além da atribuição da designação, a um registo. Esse registo é válido até que o topónimo mude de designação ou se corrija a grafia. Para exemplificar, devo dizer que nos cadastros, a província angolana a sul do rio Kwanza está registada "erroneamente" como "Cuanza-Sul" em vez do que seria expectável, Kwanza-Sul. O mesmo se pode aplicar ao meu nome, Canhanga, que devia grafar-se Kanyanga para obedecer ao alfabeto convencionado pelo CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), combinado com a Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da Revolução. 
 
2º - As regras do CICIBA para a ortografia das línguas bantu diz que a letra C tem o fonema equivalente ao dígrafo Tx e ainda pelos grupos consonânticos TCH e TSH. Exemplos: Cikala-Cyolohanga, Cindjendje, Citembu, Civingiru, Citende Cya Zango, Cipalavela, etc.

Sempre que as vogais I e U estejam  junto de outras, as primeiras devem mudar para Y e W. Exemplo: "muanha" (sol) deve grafar-se correctamente "mwanha); "diniangua" (abóbora) deve grafar-se "dinyangwa"; "kizua"=kizwa, etc. 

Para obtermos o fonema equivalente em Português a "C" devemos grafar "K". Kanhanga, Kambundi-Katembu, Kalulu, Kahála.
 
Não sou telespectador atento da TPA e não sei dizer se grafam de acordo aos registos portugueses ou se de acordo ao alfabeto das língua bantu. De uma coisa, porém, tenho certeza: É preciso corrigir urgentemente os registos dos nossos topónimos (calculo que o MAT- Ministério da Administração do Território-  tenha já um projecto nesse sentido) e passar-se a exigir que haja uma grafia correcta dos topónimos de origem bantu.

Não se pode aceitar que a nossa moeda seja Kwanza e o rio que lhe dá o nome ainda se designe Cuanza. O que se passa hoje é que não há rigor. Cada escreve como bem entende. Eu que sou adepto da grafia segundo a originalidade dos nomes, tenho grafado como será no futuro. Para o presente, pode ser que alguém considere o meu procedimento errado.

Obs: 
A 30.01.2014 tive acesso ao documento "Divisão Política Administrativa e Topínímia de Angola", elaborado pela Direcção Nacional de Organização do Território. O mesmo retoma apenas os "baptismos" coloniais e não propõe alterações à redação dos topónimos de origem bantu.

Vim ainda a saber, de um amigo internauta (comentários ao artigo publicado no Club-K), que o MAT remeteu essa lista aos Órgãos de Comunicação Social, públicos e privados que, de imediato, passaram a grafar os topónimos angolanos segundo os cadastros coloniais.
A título de exemplo, a minha circunscrição natal, Munenga, é condificada como:
      AOCS070602
-Munenga
 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

LADRÕES A SOLTA?


"Quem tem coisas de que não precisa é um ladrão” (Mahatma Ghandi).
 
À semelhança do que escreveu o meu amigo Nguimba Ngola, na sua página de face book, também já me disseram que:
- Não devo mais andar de candongueiro,
- Não devo andar nos mercados a comprar material de construção,
- Nem devo andar de i20 pois não é carro para gente do meus "estatuto",
- Não devo continuar a viver no "bairro", etc.
Algumas vez eu disse que quero viver uma vida que não é minha? De ondem vim e para aonde vamos todos, depois de todas as "coisas alheias" não mais nos servirem?
 
A minha luta é para ter o necessário e viver uma vida que não precise de guardas.
 
Obrigado a todos quantos respeitam o meu estilo de vida e desculpo-me daqueles que me julgam a olhar para seus próprios estilos de "roubo" e desperdício.
 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

PERGUNTAS PERTINENTES NO DIA DA CULTURA NACIONAL

NO DIA DA CULTURA NACIONAL

EIS ALGUMAS QUESTÕES QUE HÁ MUITO ME PERSEGUEM:
Entendendo a cultura nacional como: hábitos, tradições, crenças e pertences" colectivos, nos quais se revêm um determinado povo (no caso concreto os angolanos),
 
1 - O QUE É "CULTURA NACIONAL" (COMUM AOS ANGOLANOS) E O QUE É CULTURA
LOCAL/REGIONAL?
2 - QUAIS OS ACTOS, PEÇAS E VALORES QUE SIMBOLIZAM/REPRESENTAM A CULTURA?
3 - TUDO O QUE EXISTE/SE FAZ, SE PENSA, POR ANGOLA (NAS REGIÕES) É NACIONAL?
4 - HÁ POLÍTICA DE ESTUDO, RESGATE, VALORIZAÇÃO E DIFUSÃO DO QUE É/REPRESENTA A CULTURA NACIONAL?
5 - QUEM SÃO OS FAZEDORES DE CULTURA NACIONAL?
6 - ONDE ESTÃO E QUE É FEITO DELES?
 
Há quatro anos, fui convidado a apresentar o meu livro de estreia literária na Lunda Sul, num acto que representou a comemoração da data na província nordestina de Angola. De lá para cá, já com três livros publicados, vou ainda reflectindo: sou também um fazedor de cultura? Sou agente cultural? Sou tido ou achado para questões que não envolvam aparição política de determinadas "figuras sanguessugas" que se aproveitam da inspiração e transpiração (arte) alheia para brilhar diante da TV?
 
Sou/somos mais um/uns...